Pep Talk 2008: Philip Pullman

Introdução

O QG do NaNoWrimo presenteou os participantes em 2008 com 9 mensagens de escritores consagrados, os famosos Pep Talks ("conversas estimulantes" ou orientações da equipe de apoio para que um concorrente se saia bem na disputa), com dicas para vencer obstáculos na escrita, abusando da criatividade e profissionalismo para levantar o astral dos aspirantes a escritor. O ebook com os Pep Talks de seis anos anteriores - 80 páginas em PDF - é vendido no site do NaNoWrimo mas, como participei (e venci) este ano, vou traduzir e postar todas que recebi. Os posts serão em dezembro, nos mesmos dias em que foram enviadas por email, originalmente, em novembro. Como não sou tradutor profissional, apesar da boa intenção e esmero, podem aparecer erros e agradeço a quem sugerir correções. A ordem dos Pep Talks será:
  1. Jonathan Stroud (dia 5)
  2. Philip Pullman (dia 7)
  3. Katherine Paterson (dia 12)
  4. Meg Cabot (dia 14)
  5. Janet Fitch (dia 20)
  6. Gayle Brandeis (dia 22)
  7. Nancy Etchemendy (dia 25)
  8. Piers Anthony (dia 30)
  9. Kelley Armstrong (dia 3 - post-event)

Tradução (por Jefferson Luiz Maleski)

Caro autor NaNoWriMo,

Você começou uma longa jornada. Parabéns pela sua decisão e ambição! A primeira coisa que você precisa lembrar é que uma longa viagem não é igual a uma corrida curta. Ela levará tempo.

A segunda coisa que você precisa se lembrar é que se quiser terminar a viagem que começou, você precisará persistir. Uma das coisas mais difíceis de fazer em um romance é quando você pára de escrever por um tempo, e vai fazer outra coisa, finalizar este trabalho ou aquele compromisso ou qualquer outra coisa, e acaba deixando-o exatamente onde você estava para continuar como se nada tivesse acontecido. Você terá mudado, a história terá caminhado fora do curso, como um navio em que o motor pára sem a necessidade de ancorá-lo, e quando você volta a bordo, terá de funcionar os motores, deslocar a grande massa do navio para mover-se pelas águas novamente, calcular a sua posição, verificar a orientação da bússola, conduzir cuidadosamente para levar o navio novamente ao rumo... tanta energia desperdiçada em fazer algo que não seria preciso se você apenas tivesse seguido em frente!

Mas, uma vez que você estabeleça um ritmo diário de trabalho, você vai encontrá-lo energizando e sustentando a si mesmo. Mesmo quando não está indo bem. É uma coisa estranha, mas que noto muitas vezes: um dia de trabalho ruim é melhor do que nenhum dia de trabalho. Pelo menos, se você escrever 500 palavras, ou 1000, ou seja lá qual a taxa diária de produção que descobrir ser a mais confortável para você, as palavras estarão lá para trabalhar até tarde. E quando você visitá-las daqui a um mês, ou quando necessário, você vai achar que elas não são tão ruins assim.

A pergunta que os escritores mais ouvem é "Onde as suas idéias começam?". E encontramos uma maneira de responder, espero que não arrogante ou desencorajadora. O que costumo dizer é "Não sei de onde vêm, mas eu sei para onde elas vêm: elas vêm para a minha escrivaninha, e se eu não estou lá, elas vão embora." Esta é apenas outra maneira para enfatizar a importância do trabalho regular.

Você sabe qual página de um romance é a mais difícil de escrever? É a página 70. A primeira página é fácil: apaixonante, nova, é um mundo inteiro à sua frente. A última página é fácil: você já tem o final, você sabe o que vai acontecer, e tudo o que você precisa fazer é encontrar a sentença final para impressionar. Mas, a página 70 é onde a angústia desaba. Toda a empolgação inicial seca; começa a ver todos os problemas hediondos montados em você; você fica terrivelmente ciente do tamanho do minuto do seu talento em comparação com a proporção colossal da tarefa empreendida; é quando realmente quer desistir. Quando me deparei com a página 70 do meu primeiro romance, pensei: eu nunca vou terminar isso. E eu nunca terminaria. Mas, em seguida, a teimosia baixou em mim, e pensei: bom, se eu chegar na página 100 pode virar alguma coisa. Se eu chegar lá, concluo que posso ir até o fim, quando isso acontecer. E 100 são apenas 30 páginas a mais, se eu escrever 3 páginas cada dia, posso chegar lá em dez dias... Por que eu apenas não tento fazer? Então eu fiz. Foi um romance terrível, mas eu terminei ele.

A última coisa que eu diria para quem deseja escrever um romance não é um monte de conselhos, mas uma pergunta. É esta: você é um leitor? Cada romancista que conheço - cada um que eu já ouvi falar - é, ou foi, um leitor apaixonado. Não duvido que alguém com determinação e energia, que não lê por prazer, mas só por informação, pode de fato escrever um romance inteiro se colocar isso em sua mente e seguir algumas regras e orientações, mas valeria a pena ler o resultado? Iria lhe dar algum prazer além de um tipo mecanicamente calculado? Duvido. Romances que duram e agradam leitores são escritos porque o romancista está embriagado pelo prazer e pela alegria infinitamente renovável que vem de se envolver com personagens imaginários - com história, e esse engajamento sempre começa na leitura, e se ela te pegar, nunca te deixará ir. Escreva um romance se quiser vencer uma competição, ou impressionar os amigos, ou talvez ganhar algum dinheiro – faça por qualquer motivo. Mas se você não for um amante das histórias, um leitor apaixonado e dedicado, não espere que o seu romance agrade a muitos leitores.

Por outro lado, se você faz amor lendo, se você não consegue imaginar saindo para viajar sem um livro em seu bolso ou na sua mala, se você se atormenta, incomoda e fica desconfortável quando mantido longe de sua leitura por muito tempo, se o seu pior pesadelo é acampar em uma ilha deserta sem um livro – então coragem: existem muitos como você. E se você contar uma história que realmente te interesse, todos nós somos potenciais leitores.

Boa sorte!

Philip Pullman

Philip Pullman é o premiado autor trilogia Fronteiras do Universo. Saiba mais sobre ele e sua obra em http://www.philip-pullman.com/

Leia também o texto original em inglês.
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