Tergiversação

Casamento é sacrifício.
(do livro Isto és Tu, de Joseph Campbell, mitólogo)

Não nasci pra mártir.
(última frase dita antes de correr, de JLM, abestado)


Cada um acredita ser feliz à sua própria maneira

Dizem por aí que toda panela tem a sua tampa, toda meia laranja tem a sua metade e tantas outras metáforas simplesmente para convencer que para todo solitário existe uma solitária à sua procura, ou vice-versa. Alguém que seja extremamente compatível contigo, por mais estranho que você seja. Se você coleciona latas de cerveja ou não toma banho todos os dias ou gosta de assistir filmes húngaros sem legenda, saiba que há um alguém do sexo oposto que, se não estiver fazendo exatamente a mesma coisa, pelo menos ficaria impressionadíssimo em conhecer o louco que faça isso. Coisas de gosto. Vai entender.

A Joelma até poderia ser classificada como normal se não tivesse um gosto estranho na hora de escolher os namorados. Apesar de ser chamada de mulherão pelos pedreiros do bairro, ela curtia mesmo era um feio. Feio não, horrível. Terrível. Quanto pior, melhor. Ela se realizava em trocar de namorado sempre que encontrava alguém cuja feiúra lhe chamasse mais a atenção. E como feiura não tem limites, ela pulava de uma relação para outra assim como uma pipoca dentro de um saquinho no micro-ondas. As amigas torciam o nariz a cada monstrinho apresentado. Até tentaram empurrar homens aceitáveis, compatíveis com a beleza da amiga, mas estes não atraíam Joelma além de poucos monólogos. Quando a turma toda saía para se divertir, ela era quem não ficava sozinha por muito tempo. E quando desaparecia, todos sabiam que estava fazendo algum erro ambulante da evolução muito feliz. Na contabilidade do amor cego, vesgo e estrábico, Joelma já pegou caras com nariz maior que a cabeça, de orelhas de abano, vesgos, banguelas, carecas, gordos ao extremo, magros ao extremo, extremos ao extremo, os que tinham tudo isso junto e algum defeito a mais. Enfim, tudo que fosse o oposto ao senso comum de beleza, era visto à tiracolo grudado na Joelma.

Mas ela era feliz, sabe, daquele jeito de quem não encontra concorrentes para tomar os seus namorados. Nunca fora traída. Era paparicada acima do normal por todos a quem dava moral. Ganhava presentes e mais presentes. Ela não ligava que o namorado espantasse gatos, cachorros, bebês e alarmes de carro por onde passasse, que não pudesse aparecer na hora do jantar sob pena de estragar o apetite de todos. E ninguém entendia quando ela dizia se realizar sexualmente com um feio, como se fosse mais que um fetiche, mais que uma tara, uma fantasia, um tabu.

Eu conheci a Joelminha há três anos, quando tomava umas Schincariols com a galera do futebol em um barzinho. Lembro-me bem da data, 24 de fevereiro de 2008, pois foi o dia em que ela me pediu em casamento. Estamos juntos desde então. Até hoje não sei se fui eu quem a curou daquela obsessão ou o que houve. E não quero saber. E tenho raiva de quem sabe.

Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores em 21.03.2011, com o tema "crônica".

Para sempre, de Drummond

Seu prazer é minha dor

Cara, o que seria da minha vida sexual sem o MSN. Não sei como os tios faziam 20 anos atrás para marcarem encontros. Talvez nem os próprios tios lembrem, de tão complicado e sem graça que devia ser. Mas como não sou tiozinho, a minha única preocupação no caminho de uma boa bolinação é ter um papo virtual agradável, algumas frases e piadas de efeito, ouvir a mina por horas e horas até, por fim, marcar o encontro. Um aqui e outro acolá, sei que tenho as estatísticas a meu favor me convencendo que há mais garotas desesperadas que homens na vida real e, consequentemente, na internet. Pelo menos na minha cidade é assim, não sei como é na sua.

Eu já estava barulhando uma mina há algumas semanas, depois que ela me adicionou comentando que achou legal uma frase que postei no face de uma amiga em comum. Vou revelar somente o nick dela, por motivos óbvios: lindalua96. E papo vai, papo vem, madrugadas perdidas conversando sobre gostos musicais, cinematográficos, culinários etc. etc. etc. até que marcamos nosso primeiro encontro no shopping, na praça de alimentação. Sempre faço isso: mostra para a garota que não sou um desses tios tarados pedófilos quando marco para nos conhecermos em um lugar seguro e movimentado, e também é uma segurança para mim pois sei que tem muito tio tarado viado que gosta de se passar por menininhas. Mas, na minha agenda as estatísticas comprovam o meu método de caça até que é eficaz:

8 encontros
6 pegáveis
5 fights: 3 pegáveis e 2 dragonssauros

Fight são os encontros em que fico com a garota, com beijo, mão boba e tudo, seja no próprio shopping ou em uma sessão de cinema. Dragonssauros são as minas que a gente só encara quando tá muito na seca ou muito bêbado. Uma delas foi uma quando eu estava na seca e outra quando eu estava na seca e ainda tive de ficar muito bêbado. Quando a garota é feinha eu a chamo para dar uma volta no shopping e acabo ficando com ela em um lugar com menos movimento. Mas quando ela é muito, mas muito feinha, a convido para o cinema e se ela tiver dinheiro e carteirinha de estudante para pagar meia o trem rola lá dentro. É claro que se ela não tiver dinheiro não rola nada, eu é que não vou defender a extinção da espécie dela pagando algo para ela com o meu dinheiro.

Mas é claro que vez por outra a gente acaba se fodendo. Quando eu digo a gente quer dizer eu mesmo, sozinho. Voltando ao assunto, eu tinha marcado o encontro com a lindalua96. Pelas fotos no Orkut eu a classificaria como intermediária entre dragonssauro e pegável. Era meio gordinha, mas simpática. As gordinhas e as crentes sempre ganham um ponto a mais comigo, pois costumam ser bem safadinhas. Pois bem, marcado o dia, local e horário do crime, levei o meu PSP para jogar qualquer coisa enquanto esperava ela chegar. Devo ser um idiota, não, na verdade eu sou um idiota, pois nunca pensei em usar fotos de outras pessoas nos encontros. Por isso, todas me reconhecem de imediato quando me veem. Percebi que não foi a tática usada pela lualinda96 quando uma pessoa totalmente diferente parou na minha frente se apresentando para mim. Calma aí, claro que era uma garota. Menos mal. O problema foi que era a garota mais linda que já tinha visto em toda a minha vida: uma mistura de Sandy & Junior com Beyoncé e com aquela atriz russa de peitos grandes não exemplificaria tudo o que estava ali na minha frente.

A primeira coisa que percebi é que ela era mais alta que eu. E mais magra. E que usava um vestidinho preto colado que mostrava que estava totalmente em forma, mesmo que não fizesse exercício algum. Depois, percebi que todos nas mesas ao redor a encaravam ou me encaravam. Talvez fosse um misto de inveja ou incompreensão como se vissem algo que o universo estivesse fazendo de errado. Por último, percebi que lindalua96 havia estendido a mão para me cumprimentar e que falara algo mas que eu surdamente nem prestei atenção. Refeito do susto, trocamos três beijinhos e ela me deu um abraço inesperado. O perfume dela me arrepiou. Eu tentava demonstrar uma atitude de cara maduro, embora meu tico estivesse babando no decote dela e o teco uivando para a lua como um cachorro no cio. Mas por dentro eu estava tenso, com a respiração ofegante e o coração ora disparando ora parando completamente, dependendo do cruzar de pernas dela. Tentei esboçar o meu melhor sorriso idiota tranquilo.

Ela pediu desculpas por me enganar. Havia usado as fotos de uma prima, pois das últimas vezes que usara as suas próprias os interessados se mostraram inteiros cafajestes só querendo se aproveitar dela. Eu fora a sua primeira tentativa com esta nova técnica. Ela confessou que havia simpatizado comigo de verdade e porque sabia que a sua prima não era muito bonita, então podia confiar em mim, com uma lógica que só as mulheres conseguem entender. Pedi um chope para ver se minhas pernas paravam de tremer. Ela me acompanhou com outro. Acho que o meu estômago já começava a se acostumar com a ideia de ficar tão perto de uma top model. Foi quando ela me passou a rasteira. Confessou que não aguentava mais ficar em casa e, corando um pouco e olhando para mim diretamente, confessou que estava doida para transar naquela noite, por isso saíra de casa.

Derrubei o meu copo de chope na mesa e imediatamente me levantei dizendo que precisava ir no banheiro. Ela me direcionou um sorriso lindo e disse que esperaria por mim. Mas eu não fui para o banheiro. Tratei de sair do shopping o mais rápido possível. Golpe sujo. Não se faz isso assim, sem avisar. Sacanagem. Eu não estava preparado psicologicamente praquilo tudo. Vai que era alguma pegadinha da tevê. E eu nem sei como conseguiria subir em cima daquilo tudo de mulher. Provavelmente eu broxaria. Ou ela. Ai, meu Deus, nem quero pensar nisso. Assim que chegar em casa vou bloquear os contatos da lindalua96 e voltar à minha vidinha pacata pegando menininhas em que eu seja o macho dominante da situação. Mas que vou aprender a pedir mais fotos antes de marcar algum encontro, ah vou.

Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores de 11.03.2011, com o tema 'dor'.

Porque Phillip Pullman é o cara

Apesar de ter amado A Bússola Dourada, achado interessante A Faca Sutil e odiado A Luneta Âmbar, não posso negar que o autor, quando questionado sobre o título do seu mais recente livro, O Bom Homem Jesus e o Salafrário Cristo, dá um show à parte.

Virtual


Eu sei que o dia vai ser bom depois que escuto ela me dizer eu te amo. Uma, duas, três, quatro, cinco, dez, vinte vezes, eu não me canso. Daí, desligo o loop do computador e saio de casa assoviando feliz para o sol.

Dia 8 de março: parabéns às mulheres?


Neste dia 8 de março, dia internacional da mulher, gostaria de prestar uma homenagem diferente às mulheres de todo o mundo. Afinal, mesmo dizendo-se que não podemos viver com elas, sou muito mais fã da parte que diz não podermos viver sem elas.

As mulheres são parte de nossa vida mesmo antes de nascermos. Nossa mãe é a primeira mulher pela qual nos apaixonamos. Morremos e matamos por ela. E tem gente que tem a sorte de ter duas ou mais mães, a mãe-avó, a mãe adotante, as mães-tias. Depois vêm as irmãs. Nossas eternas inimigas que fazem tão bem ao nosso crescimento. São as nossas primeiras adversárias, porque ele pode e eu não?, nossa primeira competição desleal, desleal para elas, pois enquanto queríamos vencer a qualquer custo, elas queriam apenas a nossa companhia. Nossas irmãs são feitas assim, tão opostas a nós, para nos ajudar a evoluir. Há também as primas, que ainda crianças já possuem toda a delicadeza e sensibilidade que as distinguirão tão bem dos seus pares por toda a vida. São as amiguinhas que visitamos nos finais de semana, ou em viagens mais longas, e sempre ficamos meio tímidos inicialmente ao reencontrá-las, mas que, em pouco tempo estamos pulando no sofá ou fazendo alguma arte no quintal. Por elas, que menino já não se submeteu a brincar de bonecas ou experimentar comidinhas imaginárias? Logo passamos para o jardim de infância, é a mulher a tia, a prô, quem conduz as nossas mãozinhas nos primeiros rabiscos. E é lá mesmo que conhecemos aquela primeira coleguinha, com rabo de cavalo e que chuta a sua canela e chora antes de você revidar, mas que mesmo assim você não sai de perto dela. É a sua primeira namoradinha, mesmo antes de você entender o significado disso.

Mulheres. Vamos crescendo no meio delas, com elas e por elas.

Na adolescência, elas são motivos dos nossos piores males. E das melhores alegrias.Como conversar com aquela garota dos sonhos se perdemos a voz e a respiração só pensando na possibilidade? Mesmo ela dando todas as deixas, cabe ao homem, ainda em formação, sair da sua casca e aprender a cortejá-la, a fazê-la sorrir e a chorar de felicidade ou de amor, e com o tempo estas habilidades passarão a ser um prazer interno no caráter de cada ser humano masculino. Ainda em nosso estágio de formação de caráter, sempre coube uma amiga nerd-de-óculos ou gordinha ou que pinta uma mecha no cabelo de branco ou qualquer outra qualidade que nos impedia de olhá-las como mulheres, mas como melhores amigos do sexo oposto. Até sermos surpreendidos por um outro olhar masculino nos pedindo para apresentarmos aquela nossa amiga gata para ele.

E quando encontramos a mulher certa para nós, não será aquela que se encaixa nos padrões estéticos e econômicos vigentes, mas aquela disposta a pegar um crianção e transformá-lo em um homem de verdade. Toda mulher sonha com o príncipe encantado, mas sabe que muitos deles vêm em embalagens de sapo. Mas elas são pacientes, graças à Deus, as mães esperam os filhos crescerem, as namoradas mostram aos rapazotes como amadurecer, e as mulheres eternamente ensinam aos homens a gentileza, a educação, o amor e amizade capazes de deixar os problemas cotidianos bem mais amenos. Quando elas querem um momento DR (discutir a relação) nós desconversamos, fingimos não ter tempo na hora, puramente porque estamos tremendo na base e sabemos que será exposto algo no qual falhamos.

E são as mulheres que cada vez mais estão cuidando de nós, homens. Elas já são a maioria nas faculdades e no mercado de trabalho, e conquistam merecidamente os seus lugares nos mais altos escalões. Ser mandado por uma mulher não é de todo mal. Até prefiro. Fomos educados desde cedo com a mãe convencendo-nos pelo olhar choroso e o pai pelo chinelo. As patroas tem um jeito semelhante de chefiar, preferem a conversa amigável, até em demasia talvez, antes de adotarem medidas extremas. Quem sabe uma presidenta não consiga o sucesso em tantas áreas em que os homens antes fracassaram? As mulheres também vivem mais, cuidando de seus pais, maridos e filhos até a cova. São elas que cuidam da nossa memória, que transmitem aos outros o que fomos. Geralmente fazem uma pintura colorida de um rascunho em preto e branco.

Considere este como sendo um texto extremamente machista, nada mais natural, afinal, foi escrito por um membro do gênero masculino. E somente alguém como eu é capaz de ousar desejar parabéns não às mulheres, mas aos homens. Sim, parabéns porque quem recebe o maior presente neste Dia Internacional das Mulheres, bem como em todos os outros dias de suas vidas, são vocês, machaiada. Um presente lindo, carregado de graça e formosura, capaz de seduzir anjos e ludibriar diabos, mas um presente divinal e exatamente por isso, único.

Mas parabéns também às mulheres, sim, pois acima de tudo, vocês nos fazem mais bem do que são capazes de imaginar.

OIЯÀTO OTAЯ IO

Parte II.


Às vezes, nós é que roemos a imaginação de outros. Ou acreditamos seriamente nisso. O Senhor M… fazia ares de estar atento aos detalhes da casa enquanto o corretor discorria o texto decorado sobre o histórico da residência como se já tivesse repetido aquela ladainha milhares de vezes. O estilo é europeu, vitoriano, o primeiro proprietário era estrangeiro e não admitia morar nas casas que encontrou por aqui. O corretor faz o seu papel de corretor e o Sr. M. reflete que, por ser de madeira antiga, pode ter cupins. E ratos. Sentiu um calafrio. Fora obrigado a procurar uma morada provisória enquanto a empresa de dedetização e limpeza exterminava estas pragas de seu imóvel. Ficaria pelo menos uma semana fora de casa. Era pedir muito apenas um local calmo e sossegado para trabalhar? Quase não acreditou no anúncio que oferecia a casa mais que ideal por uma pechincha. Marcou uma visita para descobrir o que havia de errado. A casa tem ratos, cupins, baratas? Não, senhor, foi dedetizada há menos de seis meses. Todo o madeiramento comprometido foi trocado. Então por que do aluguel tão baixo? O corretor pretendia desconversar, mas como era uma pergunta direta que lhe garantiria pelo menos alguma comissão naquele mês fraco, resolveu usar a sua estratégia mais extrema: foi sincero. Bem, não vou lhe enganar, este preço é porque o proprietário foi assassinado nesta casa há alguns anos atrás e as pessoas da região, simplórias e supersticiosas, criaram algumas lendas a respeito. Que tipo de lendas? O de sempre: luzes acesas, barulhos estranhos e vultos durante a noite, coisas do imaginário popular. Mas são pessoas impressionáveis, não creio que seja o caso do senhor. O visitante concordou com um gesto e refletiu que as histórias entre vizinhos tendiam a aumentar como uma bola de neve. A sua sorte era que ele ficaria por pouco tempo e que seria extremamente feliz se não interagisse com ninguém.

A casa ficava na zona rural, mas em uma estrada repleta de sítios relativamente próximos. Depois de uma breve reflexão, o Sr. M. acabou aprovando o local, pois além dela vir mobiliada tinha os atributos que ele procurava. Silêncio, sossego, isolamento. Fechou o negócio naquele mesmo dia, assinou o contrato e pagou adiantado. Além das roupas, levou o computador e o novo equipamento de som, para terminar a música em que estava trabalhando. Não levou telefone celular porque não tinha. Era avesso as interrupções e considerava celulares uma fonte inesgotável e desnecessária delas. Vivia perguntando aos outros: você já reparou como só te ligam para pedir coisas ou em momentos inoportunos? Por isso, todo o seu contato era feito à moda antiga: por correspondência. Havia solicitado que as correspondências fossem reencaminhadas temporariamente para o novo endereço. Juntou todo alimento e bebida que restavam em sua despensa, suficientes para não precisar sair de casa por um longo tempo. Esperava descansar e energizar-se depois de passar por algumas semanas extenuantes. Instalou o equipamento na biblioteca e escolheu o maior quarto para si. A casa era enorme, daria para se perder facilmente em meio aos corredores intermináveis, quartos, sacadas, sótãos e porões. Seria um bom local para uma família grande morar, mas também para os avessos à socialização. Enquanto esquentava o almoço, ouviu a campainha tocar. Incomodado, desligou o fogo. Que diabos! Será que algum vizinho intrometido já o estaria importunando? Havia ficado contente cedo demais? Atravessou o corredor que levada da cozinha à sala de jantar, passou pela sala de visitas e hall de entrada, onde abriu a porta e… não encontrou ninguém. Droga! Na certa algum garoto da vizinhança pregando uma peça. Ao olhar para o chão viu um envelope branco. Correios, já? Não, o envelope estava sem selos. Dentro, uma única folha com apenas uma linha escrita. A SUA VIDA CORRE PERIGO, SAIA DA CASA. Um arrepio subiu-lhe a espinha. Aquilo não era coisa de criança. Era uma brincadeira de adulto, muito sem graça, mas na certa, alguém queria assustá-lo. Imbecis supersticiosos. Voltou para o almoço e depois de um breve cochilo resolveu começar a trabalhar. A melodia já estava quase pronta. Ele a perdera completamente na semana anterior, mas conseguira recupera-la rapidamente de memória. Contudo, o refrão insistia em não aparecer. Escreveu três variações diferentes, mas nenhuma parecia se encaixar. Soavam artificiais e não o trabalho de um artista. Resolveu espairecer um pouco explorando a casa.

Sempre tivera uma queda por sótãos. Amava os filmes estrangeiros onde os eventos fantasmagóricos aconteciam e o charme de ter um recanto escondido dentro de uma casa que já era um recanto escondido. Ao subir a escada, deparou-se com uma porta trancada. Gastou algumas horas e lugares procurando a chave, em vão. Parou quando encontrou um quarto de criança, com brinquedos e tudo. Sentou-se no tapete, brincou com alguns sentindo-se nostálgico. Onde será que a criança que ali dormira, brincara, crescera, estava hoje? Será que já era um homem feito? Ou será que tinha algo a ver com os boatos infelizes da vizinhança? Ao erguer uma pequena caixa de madeira, deixou cair um recorte de jornal. INGLÊS SOLITÁRIO É ENCONTRADO MORTO. Fevereiro de 2006. A matéria falava de ermitão moderno. E que o dono fora espancado até a morte dentro de casa. Sem sinal de invasão ou roubo. Não falava de fantasmas. E não teria sido um fantasma a recortar o jornal e guardá-lo como lembrança. Riu sozinho imaginando um fantasma segurando uma tesoura e papel. Encerrou a exploração e resolveu beber uma taça de vinho. Que virou uma garrafa. Que virou duas. O vinho é o melhor remédio quando o assunto é esquecer as perturbações ou fazer o mais profundo marasmo tornar-se interessante.

Acordou no meio da noite com barulhos abafados. Desesperou-se. Ultimamente, não tivera boas experiências com barulhos noturnos. Impossível haver ratos em uma casa dedetizada recentemente. Estaria o Universo conspirando contra ele? Pé ante pé, andou até a porta. O barulho vinha do térreo. Ao chegar na escada, ouviu o barulho na cozinha. Ao se aproximar, percebeu pelos vãos da porta que a luz estava ligada. Ratos não acendem luzes. E fantasmas acendem? Não, não deveria ser isso. Mas começou a tremer quando caiu em si percebendo que poderia ser um ladrão. No maior silêncio, pegou um castiçal em uma mesa próxima e deu a volta em outro cômodo onde conseguia ter uma visão parcial da cozinha, mas sem ser visto. Andando no escuro, as suas juntas e ossos estalavam a cada passo. Justo numa hora destas, o seu corpo resolvera conspirar contra ele. Mas atingiu o objetivo. Por um instante, a cozinha pareceu vazia. Só por um instante. Um homenzarrão passou de costas carregando uma faca. Dirigiu-se para a pia, onde cortou queijo e salame. Aquele era o seu queijo e o seu salame. O que o Sr. M. poderia fazer naquela situação? O homem deveria ter pelo menos três vezes o seu tamanho. É bem provável que a batida com um castiçal naquela cabeça enorme nem seria notada. Talvez o invasor estivesse apenas com fome. Resolveu observar. Percebeu que o homem movimentava-se com desenvoltura na casa. Sabia onde estavam os pratos, talheres, copos. Abriu uma garrafa de vinho retirada da geladeira. Mas que sacana! Depois, como se pressentisse a presença de alguém, parou e olhou diretamente para o local em que o Sr. M. se encontrava. Com o olhar fixo, esticou o braço direito e apertou um interruptor. O cômodo à sua frente se acendeu. Mas o estranho não viu ninguém lá. No corredor ao lado, o Sr. M. tentava fazer o seu coração bater mais baixo. Correu até a porta da frente o mais rápido e silenciosamente que conseguiu. Estava trancada e sem as chaves. As luzes do hall se acenderam. O Sr. M. só teve tempo de jogar-se na sala de visitas, caindo atrás de um sofá. Acabou batendo o joelho esquerdo na quina de uma bancada e teve de conter um grito de dor. Enquanto xingava em silêncio os mais altos palavrões que conhecia, espiou o homem se dirigir até as escadas e subir para o andar superior. As luzes se apagaram.

O Sr. M. estava preso em uma casa com um invasor mais forte que ele. Lembrou do recorte de jornal. Seria o assassino do antigo dono? Instantaneamente, compreendeu tudo. Aquele homem era a causa dos ruídos e luzes no imóvel que levaram os vizinhos a acreditar em fantasmas. Mas também lembrou do bilhete na porta. Ele poderia ser perigoso. Ou o pior, poderia ser perigoso e aquele que havia escrito o bilhete. Neste caso, o estraho sabia que não estava sozinho na casa, apesar de agir como se não soubesse. No escuro e começando a tremer, as perguntas corriam desesperadas para a cabeça confusa do Sr. M. e as respostas pareciam fugir no mesmo ritmo de lá. Como o invasor entrou ali? Seria ele um assassino ou um mendigo, já que a única coisa que fizera até agora foi comer? E a mais importante: o que o Sr. M. faria agora? Ao tentar levantar-se, apoiou-se na parede e foi sugado para dentro dela. Caiu seco no chão sem entender nada. A parede havia cedido para o lado. Percebeu que era uma parede falsa, uma passagem secreta dentro daquela casa vitoriana. O Sr. M. trouxera uma lanterna que estava na cozinha. Sem o invasor por lá, resolveu ir buscá-la antes de se aventurar no escuro. Na cozinha, viu a bagunça deixada sobre a mesa, fogão e pia. Havia metade de um sanduíche sobre a mesa. O Sr. M. refletiu que seria inseguro se ele fizesse um prato idêntico sabendo que ele mesmo ouvira os barulhos no andar superior. Não queria chamar a atenção do estranho. Engoliu rapidamente o restante do sanduíche e foi para a sala.

A entrada levava a um corredor estreito entre as paredes. Dividia-se em várias direções e o Sr. M. escolheu uma delas. Apesar de abafado e estreito, tinha espaço suficiente para uma pessoa de porte médio andar tranquilamente, talvez até correr, ali dentro. Parou ao encontrar uma fresta na parede por onde passava uma luz suave. Pelo buraco, viu o hall de entrada por inteiro. Continuou andando até encontrar uma pequena escada, onde subiu ao andar superior. No final de um dos corredores havia uma luz forte, saindo de outra fresta. Foi até lá e espiou. Era um dos quartos onde a luz estava acesa. O estanho estava lá, arrumando a cama para se deitar. Deus do céu, pensou o Sr. M., ele vai dormir aqui. Aquela situação já estava ficando complicada demais. Foi quando o Sr. M. teve a sua grande ideia. Mas teria que aguardar que o invasor dormisse.

Duas horas depois, o homem que dormia na cama acordou com ruídos de garras ou dentes arranhando a madeira. Levantou-se de um pulo, ligou a luz e ficou observando. O barulho parou. Olhou para o quarto ao redor e não viu nada incomum. De volta à cama, o ruído recomeçou mais forte. O homeme levantou-se assustado. Parecia que o barulho vinha de outro lugar. O homem olhava para as paredes. O seu rosto era pura desolação, dúvida e raiva. A cena se repetiu a noite toda. O homem, visivelmente irritado, vestiu-se e foi para o andar de baixo. Enquanto andava, percebeu que algo o seguia. Era o barulho de passos, muito pequenos, que paravam quando ele parava, mas prosseguiam quando ele voltava a andar. Foi até a cozinha. Parou diante da mesa com uma interrogação no meio da cara. Algo ali desaparecera. Saiu pela porta dos fundos, usando a chave que tinha no bolso. Logo em seguida, uma prateleira abriu-se e dela saiu o Sr. M.. Foi até a janela e observou o homem afastando-se. Seu plano fora um sucesso.

Na manhã seguinte, o Sr. M. acordou em sua cama. Havia colocado um armário que impedia o acesso externo pela porta cozinha. Mas, apesar disso, não estava bem disposto, alguma coisa não lhe fazia bem no estômago. Passou o dia todo se contorcendo com pontadas de dor. Não conseguiu se concentrar em nada. Tomou os remédios que costumava tomar. Seria alguma dor causada pela tensão ou pelos nervos? Talvez. Mesmo não estando bem, temia pela volta do invasor, e resolveu explorar antecipadamente os acessos secretos da casa. Em uma rede de corredores construída exatamente entre a parede de um cômodo e outro. Quem mandara fazer aquela casa era alguém muito estranho. Nos principais cômodos da casa, havia uma entrada secreta. Desta forma, conseguiu adentrar o sótão trancado. Percebeu o motivo: a porta estava lacrada com tábuas e pregos. Era um quarto-biblioteca, e quem o usava não queria ser incomodado por ninguém. O Sr. M. compreendia bem aquele sentimento. Resolveu que passaria a dormir ali, seria o seu quarto do pânico caso o invasor voltasse. Após uma limpeza no ambiente, levou as suas coisas para lá. Manteve somente a comida perecível na geladeira, e nada mais denunciava a sua presença naquela casa.

A noite chegou e o Sr. M. estava preparado para ela. Havia descansado o dia todo e a adrenalina minimizava as dores no estômago. Estava pronto para a guerra. Faria qualquer um se arrepender de ter escolhido entrar ali. Mas ninguém apareceu naquela noite. Nem mesmo na seguinte. E as dores só faziam aumentar. No terceiro dia, sentindo-se enfraquecido enquanto esperava dentro das paredes da cozinha, escutou forçarem a porta. Por uma pequena entrada de ar viu o vulto do estranho. Desistiu após algumas tentativas. Melhor assim, pensou o Sr. M.. Foi quando ouviu o barulho da porta abrindo no hall de entrada. Correu até lá, a tempo de ver o homem, já dentro da casa, trancando a porta e guardando a chave no bolso. Droga. O Sr. M. esquecera completamente de que o homem havia pego a chave que ele deixara na porta da frente. Mas a noite recém começara.

O homem trazia mantimentos, garrafas de água e outros itens que guardou na cozinha. Era um cara de pau. Como poderia fazer aquilo? Ou o estranho o ignorava de propósito ou então desconhecia a sua existência. O Sr. M. não quis se arriscar a descobrir a resposta. Estava determinado a expulsá-lo. Esperou anoitecer para continuar o seu plano. Depois que o homem foi dormir, entrou na cozinha e percebeu que o homem havia jogado toda a comida do Sr. M. no lixo e substituído pela que ele trouxera. Que audácia a deste estranho! Resolveu acordar o homem fazendo mais barulho. Desta vez ele corria pelas paredes, arranhando a madeira com uma faca. Pulava sobre tábuas que ecoavam por toda a casa. Sentia prazer vendo o desespero daquele homem. Mas o estranho reagiu. Começou a dar socos nas paredes. O Sr. M. reagia aumentando a algazarra, seguindo o estranho aonde ele ia. Pela sala, cozinha, quartos. Quando percebeu que ele não tinha mais para onde ir, o Sr. M. ficou silencioso. Sabia que o silêncio, a partir de agora, seria o pior inimigo do invasor. Voltou para o sótão exausto e jantou os alimentos que havia deixado lá e se deitou. Era apenas uma questão de tempo.

Acordou no dia seguinte sentindo-se muito mal. Estava fraco. Tremia e suava frio. As pontadas no estômago agora eram intermitentes. A dor era lancinante. Mal conseguiu levantar-se. Parecia que ia morrer. Vomitou uma pasta gosmenta e malcheirosa. Desesperou-se quando pensou que se morresse no sótão ninguém o encontraria. Arrastou-se pelas paredes, precisava beber um pouco de água fresca. Vomitou outras três vezes antes de chegar a cozinha. Não conseguiu levantar-se para alcançar a pia. Arrastou-se para a porta da frente. Ao aproximar-se dela, viu uma carta no chão, provavelmente colocada embaixo da porta pelo carteiro. Trazia o seu nome escrito. Mesmo com a vista embaçada e as mãos trêmulas, abriu e a leu. Um olhar de pânico o atingiu. Só não foi maior que o que teve ao virar-se e ver o estranho enorme o observando perto da escada. Era o seu fim. Desmaiou.

Acordou em um quarto de hospital. Sozinho, zonzo, gosto ruim na boca. Depois de algum tempo, uma enfermeira entrou. Trazia com ela o estranho. Este apresentou-se se desculpando com o Sr. M.: era o herdeiro do falecido proprietário. Morava no exterior e por um engano da imobiliária não havia sido informado que a casa estava alugada. Contou que o Sr. M. estava no hospital há três dias, em tratamento para desintoxicação. Mostrou-lhe a carta que o Sr. M. recebera e que graças a ela conseguira salvar a sua vida.

PREZADO SR. M…
A dedetização foi concluída em menos tempo que o previsto. O senhor já pode retornar à sua residência. Os nossos agentes fizeram uma vistoria completa em seu imóvel e perceberam uma grande quantidade de pacotes de veneno vazios jogados na sua despensa, próximos às prateleiras dos alimentos. Recomendamos seriamente que o senhor não armazene veneno perto dos alimentos, por motivos óbvios. Algum alimento pode ter sido comprometido. Aliás, este foi o único indício de ratos encontrado na sua propriedade. Conforme a sua especificação, verificamos o forro da casa procurando por mau cheiro ou vestígios de roedores, porém nada foi encontrado.
Cordialmente,
EMPRESA DEDETIZADORA BOMFIM

Texto-desafio do Duelo de Escritores de 21.02.2011, com o tema "bandido".

Convite


Seu sorriso maroto sugeria que eu poderia fazer qualquer coisa que ela não contaria à ninguém.