Verdade atemporal

Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder.

Giordano Bruno, filósofo do século XVI

Provérbios do Inferno, de William Blake

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.

A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.

Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

O verme partido perdoa ao arado.

Mergulha no rio quem gosta de água.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.

As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.

Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.

Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.

Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.

Um cadáver não vinga as injúrias.

O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.

Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.

A loucura é o manto da velhacaria.

O manto do orgulho é a vergonha.

As Prisões se constróem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a glória de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.

O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.

A raposa condena a armadilha, não a si própria.

Os júbilos fecundam. As tristezas geram.

Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.

O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.

A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte derrama.

Um só pensamento preenche a imensidão.

Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.

Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.

A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.

Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.

Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.

Da água estagnada espera veneno.

Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.

Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!

Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.

O fraco na coragem é forte na esperteza.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.

Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.

Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.

A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.

Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma florzinha é o labor de séculos.

A maldição aperta. A benção afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.

Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!

A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.

Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.

A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.

A Exuberância é a Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.

O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.

Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.

Onde o homem não está a natureza é estéril.

A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.

É suficiente! ou Basta.

O Livro dos Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi

Compre o Livro dos 5 Anéis"Quando não puder mais ser enganado pelos outros homens, terá finalmente compreendido a sabedoria da estratégia."

Myiamoto Musashi é considerado o maior samurai do Japão feudal. Trilhou a sua vida pelo Kenjutsu, o Caminho (ou Arte) da Espada, um conjunto de regras militares virtuosas baseadas no Zen, Xintoísmo e Confucionismo. Reza a lenda que venceu o seu primeiro duelo aos treze anos de idade e até morrer (de velhice, é claro) nunca conheceu a derrota. Prevendo que seu fim estava próximo, resolveu deixar escritos os ensinamentos da sua escola Niten Ichi Ryu para a posteridade. O seu estilo era o de duas espadas, uma longa e uma curta.

Escritos em 1645, seus conselhos são estudados até hoje como referência sobre estratégia para homens de negócios e de marketing. Parece barbárie considerar técnicas de duelo de espadas e formas de matar o oponente como leitura educativa em um mundo civilizado. Mas é preciso ter em mente que viver e morrer pela espada era o ideal mais nobre e elevado que existia naquela época. "De modo geral, o Caminho do guerreiro é a aceitação resoluta da morte." Acima de tudo, o Caminho da Espada deveria ser seguido como filosofia de vida. "É necessário manter a posição de combate na vida diária e fazer da posição diária a sua posição de combate." "Estude a estratégia no decorrer dos anos e conquiste o espírito do guerreiro. Hoje é a vitória sobre o você de ontem; amanhã será a sua vitória sobre os homens inferiores."

Os cinco anéis são tópicos chamados de Terra, Água, Vento, Fogo e Vazio. Musashi ensina que os samurais não deveriam ser somente os melhores na espada e na palavra, mas aprender um pouco sobre todas as outras artes. "O Caminho do guerreiro é o da palavra e o da espada, e ele deve apreciar ambas as coisas. Mesmo que um homem não possua nenhum talento natural, pode tornar-se um guerreiro se aderir assiduamente às duas divisões do Caminho."

É interessante notar as analogias utilizadas pelo autor para tornar o seu ensino mais compreensível. Em uma delas ele compara a batalha do guerreiro à construção de uma casa, em outra a um jogo de futebol (é, o futebol era um jogo de quadra no Japão medieval). A maioria de seus princípios traz a aplicação em combates homem-a-homem e em grande escala (batalhas). Isso mostra a visão estratégica, tanto individual quanto coletiva, que Musashi tinha. "Na estratégia, é importante ver as coisas distantes como se estivessem próximas e observar de longe as coisas próximas."

Impossível não fazer uma comparação com o livro A Arte da Guerra, do chinês Sun Tzu. Afinal, ambos são "manuais" de estratégia militar antigos, mas lidos e aplicados até hoje no mundo dos negócios. A principal diferença é que Musashi ensinou o seu caminho como um modo de vida, não como um livro a ser usado em ocasiões específicas.

A recente onda benéfica de traduzir clássicos da literatura mundial direto das línguas originais para o português deixou os brasileiros em uma posição privilegiada, porém mal-acostumados. Por isso, talvez ao ler a edição da Madras não se sinta aquele charme ao se deparar com um clássico pela primeira vez, pois trata-se da tradução de uma tradução, e como naquela brincadeira infantil conhecida como telefone-sem-fio, quanto mais distante do ponto de origem, maiores são as chances de algo se perder ou se alterar pelo caminho. Para aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre a vida e os ensinos de Myiamoto Musashi, é recomendado ler o romance histórico Musashi, de dois volumes (e centenas de páginas), escrito por Eiji Yoshikawa ou a biografia Samurai: a Vida de Miyamoto Musashi, do pesquisador norte-americano William Scott Wilson, ambos publicadas pela editora Estação Liberdade. A Editora Conrad lançou no Brasil a cultuada adaptação do livro de Yoshikawa em forma de mangás (quadrinhos japoneses), com o título de Vagabond: a História de Musashi.

leitura em: Julho 2007
título: O Livro dos Cinco Anéis (Go Rin No Sho): o Clássico Guia de Estratégia, de Miyamoto Musashi
tradução: Marcos Malvezzi Leal, do inglês A book of five ring: the classic guide to strategy
edição: 7ª, Madras Editora (2005), 116 pgs
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De tudo um pouco e um pouco de tudo

Os filmes que assisti neste mês:

- A Colheita do Mal "The Reaping" (EUA, 2007): Terror. Nota 6.
-
A Dieta do Palhaço "Super Size Me" (EUA, 2004): Documentário. Nota 8.
-
Alatriste (França, 2006): Aventura. Nota 2.
-
Black Snake Moan (EUA, 2007): Drama. Nota 10.
-
Desbravadores "Pathfinder" (EUA, 2007): Aventura. Nota 9.
-
DOA: Vivo ou Morto "DOA: Dead or Alive" (EUA, 2006): Aventura. Nota 6.
-
Dorm - O Espírito "Dek hor" (Tailândia, 2006): Terror / Drama. Nota 8.
-
Farenheit 451 (Inglaterra, 1966): Ficção / Drama. Nota 8.
-
Gray Matters (EUA, 2006): Comédia / Romance. Nota 3.
-
Hot Fuzz (Inglaterra, 2007): Ação / Policial / Comédia. Nota 10.
-
O Albergue 2 "Hostel: Part II" (EUA, 2007): Terror. Nota 9.
-
O Astronauta Fazendeiro "The Astronaut Farmer" (EUA, 2006). Drama. Nota 10.
-
O Homem Duplo "A Scanner Darkly" (EUA, 2006): Animação. Nota 6.
-
Os Borgia "Los Borgia" (Espanha, 2006): Drama histórico. Nota 8.
-
Ovelha Negra "Black Sheep" (Nova Zelândia, 2006): Terror. Nota 3.
-
Sangue e Chocolate "Blood and Chocolate" (EUA, 2007): Fantasia. Nota 5.
-
Seraphim Falls (EUA, 2006): Western. Nota 4.
- Shrek Terceiro "Shrek the Third" (USA, 2007): Animação. Nota 4.
-
Slaughter Night "Sl8n8" (Bélgica, 2006): Terror trash. Nota 2.
-
Sob o Sol da Toscana "Under the Tuscan Sun" (USA, 2003): Comédia. Nota 7.
-
The Boss of All "Direktøren for det hele" (Dinamarca, 2006): Comédia. Nota 2.
-
The Bridge (EUA, 2006): Documentário. Nota 4.
-
The Contractor (EUA, 2007): Ação. Nota 1.
-
Them "Ils" (França, 2006): Suspense / Terror. Nota 10.
-
Treze Homens e um Novo Segredo "Ocean's Thirteen" (EUA, 2007): Aventura. Nota 5.

As séries que terminei:

- Root of All Evil? 2 epis. (Inglaterra, 2006): Documentário. Nota 1.
-
The Tudors 1ª temp. / 10 epis. (EUA, 2007): Drama histórico. Nota 8.

Os livros que li:

- Bhagavad Gîtâ, de Krishna (Índia, século IV a.C.): Religião. Nota 8.
- Como Ordenar as Idéias, de Edivaldo Boaventura (Brasil, 2004): Técnicas de Escrita. Nota 6.
- Introdução à Análise da Narrativa, de Benjamin Abdala Júnior (Brasil, 2002): Técnicas de Escrita. Nota 8.
- Prometeu Acorrentado, de Ésquilo (Grécia, 462-459 a.C.): Teatro. Nota 7.