Samuel Johnson

Samuel Johnson
A maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro.

A gratidão é um fruto de grande cultura, não se encontra entre gente vulgar.

Samuel Johnson (1709-1784) foi escritor e crítico literário inglês.

O jogo

Seguindo as instruções do Luciano, participo do jogo e passo a bola pra frente. Eis a minha frase:

Não podendo deitar-se por causa da desconformidade do ventre, que à vista mais parecia conter um gigante, reclinava-se nuns alforges da equipagem, buscando amparo para os martirizados rins.

SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

Imaginem como é trabalhoso separar frases nas obras de Saramago. Quem já leu sabe do que estou falando. O trecho citado fala sobre a gravidez de Maria, mãe de Jesus. Como tinha dois livros por perto, peguei o de cima, senão a alternativa seria a Constituição Federal, hehe.

Quem eu convido a continuar (coincidentemente?) são os últimos a comentarem aqui deixando o endereço de seus blogs:

1. Daisy
2. André
3. Plum
4. ©õllyß®y
5. Kovacs

As regras do jogo são simples:

1. Peguem o livro que estiver mais próximo.
2. Abram na página 61 e copiem a 5ª frase completa.
3. Publiquem a frase no blog, não esquecendo de colar o link de quem os convidou.
4. Não escolha a melhor frase, nem melhor livro.
5. Repassem o jogo pra 5 blogs e os avisem.

Sorte

Trevo

Entrevemos o que é sorte quando o Universo todo inexplicavelmente gira ao nosso redor. Contudo, é necessário que ele não gire também ao redor dos outros, pois o ordinário não é classificado como sorte. Logo, forçosamente a sorte é egoísta e maldosa porque necessita que apenas um tenha, seja e ganhe aquilo que a maioria não tem, não é e não ganha. Quem perceber o desequilíbrio que a sorte lhe traz poderá dividir os frutos obtidos e harmonizar a balança da sua existência, transfigurando algo nocivo em prol da humanidade.

Jefferson Luiz Maleski

A Arte de Escrever com Arte, de José Carlos Leal

Não compre!José Carlos Leal é professor carioca graduado em Letras com mais de 40 livros publicados sobre variados temas, entre eles destacadamente os de cunho espírita e mitológico.

Apesar do livro A arte de escrever com arte (seria uma referência ao A arte de escrever de Schopenhauer?) ter sido escrito por Leal, parece que ele não prestou atenção aos seus próprios conselhos ao escrevê-lo. O livro tem a pretensão de apresentar técnicas àqueles em que a falta de talento seria um empecilho à escrita:

o estudo burila o talento e o ajuda a desabrochar e a se desenvolver. [...] uma pessoa que possua conhecimentos, mas não talento para escrever, se orientada convenientemente, tornar-se-á um escritor razoável à medida que se esforce.

A idéia e a intenção do autor são louváveis, pena dizer que o resultado final seja algo tão ruim. O livro superou a todos os que eu lera em minha vida como sendo o que contém mais erros. E não é somente na gramática, mas na padronização, na lógica e na edição. Vale a pena salientar o aviso da editora na página das informações técnicas do livro:

Muito zelo e técnica foram empregados na edição desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitação, impressão ou dúvida conceitual. Em qualquer das hipóteses, solicitamos a comunicação à nossa Central de Atendimento, para que possamos esclarecer ou encaminhar a questão.

Nem a editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoas ou bens, originados do uso desta publicação.

A veracidade dessa declaração é posta à prova quando encontram-se tantos erros reunidos em uma mesma obra, afinal, zelo e técnica são qualidades que podem ser verificadas e comprovadas em um trabalho escrito. A frase final da citação arremata um raciocínio do tipo "Publicamos um livro tão ruim que qualquer tolo que porventura o compre não poderá reclamar que adquiriu um produto de baixa qualidade. Quem mandou confiar na propaganda? Comprou gato por lebre e agora dançou."

Quando um livro menospreza o leitor pela falta de qualidade, edição, zelo e técnica, é como se aqueles que o escreveram, editaram e publicaram pensassem da mesma forma. Ou trabalhassem de modo demasiado apressado e desatencioso para lançar a obra sem o devido cuidado. Não sei qual das duas opções seria a pior. É uma extrema falta de consideração para com o leitor dos que dependem dele (leitor) para sobreviver: a editora e o livro. O autor entraria nessa listagem se não tivesse outra ocupação além da de escritor ou se não escrevesse em outras esferas como a da literatura espírita. Quem dera se ele continuasse exclusivamente nessa área.

A arte de escrever com arte está dividido em duas partes: a Parte 1 sobre lógica e português e a Parte 2 sobre os tipos de redação. Parece interessante ensinar o raciocínio lógico e as principais regras gramaticais para quem deseja progredir na escrita. Pena que esta parte contenha tantos erros... de lógica e de português! E não somente erros básicos, dos quais poderia-se facilmente esquivar-se desculpando-os como erros de digitação, mas são falhas críticas, como esta da página 23:

As duas primeiras proposições do silogismo chamam-se premissas e, a terceira, conclusão. A premissa que possui o termo maior se chama maior e a que possui o termo menor, menor.

A primeira vista a frase está correta, se não fosse o caso das premissas utilizarem-se dos termos maior e médio e a conclusão, esta sim, do termo menor. Isso é exemplificado na mesma página:

Todo homem é mortal. (Termo maior)
Ora, Carlos é homem. (Termo médio)
Logo, Carlos é mortal. (Termo menor)

Outra falha gritante aparece na página 16, classificando que "As oposições são quatro", mas na seqüência são citadas somente três: Contraditórias, Proposições contrárias e Proposições subcontrárias. Garimpando no contexto e na internet notei que as excluídas foram as Proposições subalternas. Simplesmente esqueceram de colocá-las nas explicações apesar de incluí-las na contagem geral!

Não pretendo enumerar aqui os erros de concordância e ortografia, tamanha a quantidade. Mas existem outros erros dos mais variados tipos: pontuação; regência; padronização: os exemplos são mostrados sem ênfase alguma, em itálico, em negrito, entre aspas e com espaçamento diferenciado, o que deixa a leitura confusa (na pg. 212 todos estes são usados em um único parágrafo!), na pg. 144 o autor usa Émile Zola e Emílio Zola, dando a impressão de serem pessoas diferentes; coerência: onde seqüências aparecem picotadas e/ou deslocadas umas entre as outras; digitação: "Se_continuar", "me_entendendo", "na_rua"; entre outras.

Eu particularmente não gostei da Parte 1. Tanto a descrição do livro quanto o título nada falam de lógica ou gramática. Pessoas que, iguais a mim, já têm noções de lógica e gramática suficientes procuram por livros em que as palavras arte e escrever no título venham a mostrar como aperfeiçoar as técnicas de escrita. Os que procuram aprender regras de português e gramática devem ir direto às fontes fidedignas: as gramáticas dos bons professores (Azeredo, Cegalla, Pasquale etc) explicadas por quem realmente entende do assunto - e com menos erros.

Mas não posso ser injusto e dizer que nada no livro me agradou. Mesmo a Parte 2 não sendo profunda, tem o seu valor. Era exatamente o que eu procurava e trouxe dicas sobre estilo e construção textual sem enrolação. Vai da página 141 até a 208 e é dividida em três seções: descrição, narração e dissertação. Deixo aqui a minha sugestão para o autor: melhore esta parte do livro e esqueça a gramática e o senhor terá em mãos uma obra-prima. Seria um referencial melhor que O Caminho das Pedras de Ryoki Inoue em um mercado carente de bons livros sobre escrita. Apesar de boa, a Parte 2 não salva todo o livro, no máximo salva a Parte 2. Contudo, não vale a pena pagar quase R$ 40,00 por apenas 67 páginas de informação.

O livro conclui com dois apêndices desnecessários (mais gramática) falando respectivamente sobre o uso das preposições e dos verbos. A impressão que o livro deixa é a que foi escrito para o uso do escritor em suas aulas: um daqueles livros que professores tendem a empurrar para que seus alunos comprem e obrigatoriamente usem somente enquanto estiverem na disciplina dele. Lamentável, pois reconheço que o autor tem mais potencial que isso. Basta esforçar-se um pouco mais e não subestimar a inteligência de seus leitores que sairão boas obras.

Eu recomendo para os que quiserem adquirir o livro que aguardem a segunda edição sair, pois até lá a Editora talvez tenha a decência de corrigir as falhas - senão todas, ao menos as mais críticas -, que desviam indevidamente a atenção do real objetivo da obra.

leitura em: Agosto / Setembro 2007
obra: A arte de escrever com arte, de José Carlos Leal
edição: 1ª, Editora Elsevier (2006), 234 pgs
Ruim
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PS: Esta resenha também foi publicada nos sites Recanto das Letras, Shvoong, 3:AM Magazine Brasil e Leia Livro.

Quando Vier a Primavera, de Alberto Caieiro


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Mário Quintana

Mário Quintana
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Mário de Miranda Quintana (1906-1994) foi poeta, escritor e jornalista brasileiro.

Axioma sexual

Melhor é a abstinência do que sexo com a pessoa errada. Aquilo que começar errado dificilmente terminará certo, mas o que começar certo terá as estatísticas a seu favor.

Jefferson Luiz Maleski

O Marroeiro, de Catulo da Paixão Cearense

Este marroeiro (moço) vai contar o seu caso a outro marroeiro velho, centenário, celibatário e tocador de viola, como ele. O “Velho Marroeiro”, novo poema em resposta a este, encontra-se no livro “Mata Iluminada”. Esta a razão por que o autor substituiu o vocativo — Sá dona — por — Marroeiro. É a primeira vez que este poema é publicado na integra, sob as vistas do autor.

O MARROEIRO
A Alberto Nunes Filho

MARRUÊRO, eu sou marruêro!...
Nacendo, cumo tinguí,
fui ruim, cumo piranha,
mais pió que sucuri.

Pixúna daquelas banda,
véve a gente a campiá!...
Deus fez o hôme, marruêro,
prá vivê sêmpe a lutá.

Meu pae foi bixo timíve
e eu fui timíve tombém!
O pinto já sáe do ovo
cum a pinta que o galo tem.

Se meu pae foi marruêro,
havéra de eu tá na tóca,
a rapá no caitetú
a massa da mandioca?!

Bebedô de maduréba,
pissuindo carne e caroço,
eu nunca vi cabra macho
que me fizesse sobroço!

Nunca drumí uma noite
imbaxo de tejupá!...
Nascí prá vivê nas gróta,
prá vivê nos môcôsá...
prá drumi longe dos rancho,
prú-riba duns gravatá...
vendo a lua pulas fôia
d’um férmôso iriribá!

*

Nos gaio da umarizêra,
o cantá do sanhassú;
na boca triste da noite,
o gimido da inhabú...

e as tuada da cabôca,
lavando n’agua do rio,
e os canto, prú via dela,
nos samba... nos disafio...

nada disso, não, marruêro,
me dava sastifação,
cumo o mugido bravio
dos valente barbatão!

Nada fazia, marruêro,
o coração me pulá,
cumo uvi pulas varjóta,
os berro dos marruá!

*

Na paz de Deus eu vivia
nos brêdo dos matagá,
tocando a minha viola
só prá meu gado iscutá.

Lá, prás banda onde eu nascí,
já se falava do amô:
todas as boca dizia que era
farso e matadô!

Mas porém, foi trazantonte,
no samba do Zé Benito,
que eu panhei uma chifrada
que me deu esse mardito!

Nas marvadage do Amô
não hay cabra que não cáia,
quando o diabo tira a roupa,
tira o chifre e tira o rabo
prá se vistí c’uma saia!

Se adisfoiando no samba,
cantando uma alouvação,
eu vi a frô dos cabórge
das morena do sertão!

Trazia dento dos óio
istrépe e mé, cumo a abêia!
Oiôu-me cumo uma onça!...
E, ao despois, cumo uma ovêia!

Aqueles óio xingôso,
eu confesso a vasmincê,
ruía a gente prú dento
que nem dois caxinguêlê!

Sem mardade, um bêjo dado
naquela boca orvaiada,
havéra de tê, marruêro,
o chêro das madrugada!

A fala dela, marruêro,
era o gemê do regato,
que vae bêjando as fôiáge,
que cáe da boca dos mato!

As duas rôla morena,
prú baxo do cabeção,
trimia, cumo a água fresca,
quando o vento bêja as água
das lagoa do sertão!...

Pruquè os dois peito alembrava
dois maduro cajá-manga,
e a boca, toda vremeia,
parecia uma pitanga.

Chêrava as mão da cabôca,
cumo os verde maturi!...
Era taliquá, marruêro,
dois ninho de juruti!

Os pezinho da curumba,
quando dançava o baião,
parecia dois pombinho,
a mariscá pulo chão!

Eu me alembro!... A saia dela,
cô das pena da irerê,
tinha a sôdade dos mato,
quando vae anoitecê!!

Aqueles braço de fogo,
(Deus não me castigue, não!!)
quêmava, cumo as fuguêra
das noite de São João!...

Marruêro!... Os cabelo dela
tinha o calô naturá
da pomba virge dos mato,
quando cumeça a aninhá!...

Apois, os cabelo dela tão
preto prô chão caia,
que toda a frô que butava
nos cabelo, a frô murchava,
pensando que anoiticia!!

O suô que ela suava no samba,
chêrava tanto,
que inté a gente sintia
um chêro de ingreja nova,
um chêro de dia santo!

As anca, as cadêra dela,
surrupiando no côco,
toda a se tamborilá,
a móde que parecia
o xaquaiá de uma onda,
que vem jupiando, redonda,
na praia se derramá!

Japiaçóca dos brejo,
no arrastado do rojão,
cantava cum tanta magua,
cum tanto amô e paxão,
que ispaiava, no terrêro,
o ôrôma do coração!!

O coração das viola
aparava, de mansinho,
se os dois fióte de rola,
quando ela táva sambando,
pulava fora do ninho!...

Entonce, aqueles dois óio,
sereno, cumo o luá,
vinha prá riba da gente,
taliquá dois marruá.

Intrava dento da gente,
cumo duas zelação!...
Mas porém, a gente via,
no fundo daqueles óio,
a hora da Ave-Maria,
gemendo nas corda fria
das viola do sertão!!!

*

Prú móde daqueles óio,
dois marvado mucuim,
um violêro, afulémado,
partiu prá riba de mim!

Temperei minha viola,
intrei logo a puntiá,
e ambos os dois se peguêmo,
n’um disafio, ao luá!

Premití a Santo Antônio,
se eu vencesse o cantandô,
de infeitá o seu fiínho
cum um ramaiête de frô!!

Só despois que nestas corda
fiz pinto cessá xerêm,
vi que o bichão se chamava:
— Manué Joaquim do Muquêm!

Manué Joaquim era um cabra
naturá de Piancó!...
Quando gimia no pinho,
chorava, cumo um jaó!

Eu, marruêro, arrespundia
nestas corda de quandú,
e os acalanto se abria,
cumo as frô do imbiruçú!

Foi despois do disafio,
quando eu saí vencedô,
que os canto e os gemê dos pinho
n’um turumbamba acabou!!

Imquanto nós dois cantava,
sem ninguém té dado fé,
tinha fugido a cabôca
cum o Pedro Cachitoré!!!

Tinha fugido a curumba
cum aquele bode ronhêro,
um tocadô de pandêro
e runfadô de zabumba!

Tinha fugido, marruêro,
aquela frô dos meus ai,
cumo uma istrela que foge,
sem se sabê prá onde vai!!!

Na luz do Só, que acordava,
lá, no coró do Nascente,
a móde que Deus, contente,
cum a natureza sonhava!

O canto alegre dos galo
nos capoerão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracúra cantava!...

Alegre, passava um bando
das verde maracanã!...
Férmosa, cumo a cabôca,
vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundão d’uma gróta,
adonde um córgo gimía,
gargaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia!

Uma araponga, atrépada
n’um braço de mato, im frô,
gritava, cumo si fosse
os grito da minha dô!!

E a sabiá, lá nos gaio
da tabibúia, serena,
trinava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburi,
sastifeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: “bem te vi”!

*

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
n’um véio tronco de ipê!

Dendê essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!...
Vou vive cum os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surúcúcútinga
eu fui murdido trez vez!...

Tândo cum o corpo fechado,
prás feitiçage do Amô,
pensei que eu tava curado!

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta chifrada penosa,
munta marrada eu levei!!

Prá riba de mim,
Deus pôde mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, marruêro!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!...

Grande é o pudê de Maria,
ispôsa de São José!...

O Diabo, o Anjo mardito,
foi grande!... Cumo inda é!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma chifrada, marruêro,
dos óio d’uma muiéü!

VOCABULÁRIO

Marruá — touro.
Marruêro — pastor do gado.
Tinguí — erva venenosa.
Piranha — peixe mordedor.
Sucuri — cobra.
Pixuna — rato selvagem.
Mandurêba — cachaça.
Campiá — andar à busca de gado, pelos campos.
Sobroço — medo.
Tejupá — cobertura de palha.
Mocôsâ — caverna.
Borbatão — touro.
Alouvação — canto, louvando alguém.
Cabórge — feitiço.
Istrépe — espinho.
Caxinguelê — animal roedor.
Baião — dança.
Irerê — ave palmípede.
Japiaçóca — ave ribeirinha.
Rojão — toque de viola.
Zelação — estrela cadente.
Mucuim — parasita que se introduz na pele.
Afulémado — raivoso.
Puntiá — preludiar na viola.
Pinto cessá xerém — fazer bonito.
Jaó — ave de canto melancólico.
Maracanã — periquito.
Araponga — ave também chamada Ferreiro, de grito agudíssimo.
Corpo fechado — aquele que por meio de rezas e outras superstições, fica isento de mordeduras e feitiços.
Surúcúcútinga — cobra venenosíssima.

Poesia musical publicada no livro Meu Sertão e retirada de http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/catulo3.html

Artes

A arte de agradar é a arte de enganar.

Luc de Clapiers, Marquês de Vauvenargues, escritor francês do século XVIII.

Prêmios, disputas e outras manias virtuais

Para compensar a falta de meus posts durante este feriadão (ouvi alguém ae dizendo oba?), deixo pra vocês duas leituras interessantes:

- A primeira é o Blog da Dai, onde acabo de ganhar o Prêmio da Primavera, depois de uma árdua disputa e quem sabe até com uma influência sutil de meu Tio Philomeno, ;)
http://dai.lendo.org/

- A segunda é o site da CLB - Copa de Literatura Brasileira, no qual acaba de ser publicada minha singela contribuição como jurado do Jogo 2:
http://copadeliteratura.com/oitavas/jogo2

1 abraço e 1 bom feriado a todos.

Navegue, de Silvana Duboc

Navegue,
descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.

Admire a lua,
sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.

Curta o sol,
se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.

Sonhe com as estrelas,
apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.

Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.

Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.

As lágrimas?
Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.

O sorriso!
Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o!

Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui,
a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira,
se o milênio é outro, se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver,
não se chega à parte alguma sem ela,

Abra todas as janelas
que encontrar, e as portas também.

Persiga um sonho,
mas não deixe ele viver sozinho.

Alimente sua alma
com amor, cure suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.

Procure,
sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.

Dê um sorriso
para quem esqueceu como se faz isso.

Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.

Olhe para o lado,
alguém precisa de você.

Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.

Mergulhe de cabeça
nos seus desejos, e satisfaça-os.

Agonize de dor
por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.

Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.

Arrependa-se,
volte atrás, peça perdão!

Não se acostume
com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.

Alague
seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar
que precisa voltar, volte!

Se perceber
que precisa seguir, siga!

Se estiver tudo errado,
comece novamente.

Se estiver tudo certo,
continue.

Se sentir saudades,
mate-a.

Se perder um amor,
não se perca!
Se achá-lo, segure-o!

Caso sinta-se só,
olhe para as estrelas: eu sempre estarei nelas.

Não estão ao seu alcance
mas estarão eternamente brilhando para você!

Ankor, o Discípulo; de Jorge Angel Livraga

"Tudo passa, Ankor; tudo passa para de novo começar... As flores morrem, mas o perfume é sempre o mesmo, século após século..."

Uma verdadeira viagem filosófica, mas não pelas conhecidas filosofias gregas, cristãs ou orientais. Antes, o autor aprofunda-se nos fragmentos existentes sobre os ensinamentos da civilização perdida de Atlântida, a qual desaparecera milhares de anos atrás e tenta reconstruir na mente do leitor como seria a experiência de viver na última ilha desse poderoso império, Poseidonis. Ao invés de escrever o livro com ensinamentos filosóficos alternando com o romance em si - como faz Jostein Gaarder em O Mundo de Sofia e em outros de seus livros - Livraga prefere incluir a filosofia em doses homeopáticas: a sabedoria aparece nas palavras dos mestres, nos diálogos entre os discípulos, nas dúvidas e reflexões do iniciado sobre a vida e a morte.

O autor conta a estória do jovem príncipe Ankor, enviado para a ilha de Kuum, onde passa a receber ensinamentos através de provas dos mais variados tipos e graus de dificuldade: em uma delas tem de enfrentar de mãos limpas um tigre, em outra viver isolado de tudo e de todos em voto de silêncio: "não devemos fazer nem falar quando nos agrada, mas só quando é necessário". Todas essas provas pelas quais Ankor passa servem para moldar o seu espírito de "jovem Serpente Solar" para o que há de vir: um cataclisma eminente à toda a sua raça. Em tal jornada é auxiliado pelo mestre Sarhimar. O livro não não traz filosofia barata nem conselhos obsoletos: todos eles podem ser e são úteis em nossas inquietações cotidianas.

Os atlantes - segundo nos informa Livraga - pagaram o preço por serem egoístas demais e não respeitarem a natureza. Evoluíram em uma tecnologia poderosíssima, mas não souberam utilizá-la de forma consciente. Uma mensagem bastante oportuna em vista dos acontecimentos atuais. Não estaríamos nós agindo de maneira egoísta destruindo o planeta que permite a nossa existência? "Os homens lêem as páginas do destino e, ao lê-las, tentam impedir que sejam escritas. Como poderia ser isso? Só é possível deixar de escrevê-las se depois não as quisermos ler."

O livro mostra que o universo é cíclico e assim como tudo possui um início, uma criação, também está sujeito a um fim, uma destruição. Como diziam os antigos egípcios: "A morte vem através da vida, e a vida através da morte." Esta é a noção exata da mensagem que Ankor, o Discípulo quer nos passar: a nossa vida é breve, por isso deve ser aproveitada da melhor forma possível, sem nos preocuparmos com mesquinharias, com um materialismo exarcebado e com a satisfação de desejos egoístas. O mais importante para o homem é a sua essência, o seu ser imortal: "o tempo é uma apreciação psicológica; vive intensa e serenamente, sem afastar a atenção do objectivo, e muito poucas viagens bastarão para o que sonhas... mas sonha como coisa certa; não desejes emocionalmente, pois neste caso cada hora parecer-te-á uma eternidade".

Jorge Angel Livraga nasceu na argentina em 1930 e foi o fundador da Nova Acrópole, movimento filosófico e humanista que conta com mais de 10.000 membros em 50 países. Ganhou o Prêmio Nacional de Poesia (em 1951 na Argentina) e a medalha de Paris em Artes, Ciências e Letras (em 1974 pela Academia Francesa). Morreu em 1991, deixando vários livros, cartas, palestras e conferências, hoje editados e distribuídos mundialmente.

leitura em: Agosto 2007
título: Ankor, o Discípulo: A Aventura de um Jovem Príncipe nos Mistérios da Atlântida, de Jorge Angel Livraga
detalhes: edição portuguesa traduzida do espanhol Ankor, el Discípulo
edição: 1ª, Edições Nova Acrópole (1995), 213 pgs
Bom

Evolução

Hoje sou o dobro do que era no passado e a metade do que serei no futuro.

Jefferson Luiz Maleski

O profeta das pequenas coisas


"There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
"

Andava o maltrapilho em seu próprio ritmo inconstante, porém determinado, a revirar algumas latas de lixo. A cidade corria frenética e mecânica ao seu redor, como uma máquina do tempo acelerada rumo a um futuro frenético e mecânico. Mas ele não. Ele não tinha pressa alguma. Cuidadoso, sagaz, metódico, apanhava alguns restos dos sacos plásticos meio abertos, olhava, revirava, cheirava e depois comia. Algumas vezes comia sem cheirar. Outras, cheirava sem olhar. Quase sempre olhava sem comer. E assim, sobre o lixo, sobre sacos, sobre restos, sobre vida vivia. Orbitava dentro daquele universo de resquícios da existência alheia fétidos como ele, descartados como ele e indesejáveis como ele. Esboçou um sorriso embaixo da barba espessa e desgrenhada quando pensou que o lixo e ele foram importantes para alguém um dia. Talvez hoje fossem notados somente por Deus e pelos lixeiros. Se achou esperto pelo raciocínio e o sorriso aumentou imperceptível mas significativamente.


Foi quando encontrou o livro. Pequeno, usado, cheirando a papel velho e enrolado em um pano mais velho ainda. Tinha a capa de couro com palavras escritas em dourado desgastado. Achou bonito. Abriu, folheou, procurou por figuras que ali não existiam. Letra miúda, vista cansada: este livro trará verdadeira felicidade a quem possuí-lo, é o que teria lido na dedicatória se soubesse ler. Guardou o livro como um achado precioso no bolso do casaco, e atravessando a rua lembrou que o Seu Antônio da padaria, um cara inteligentefina, talvez trocasse o livro por um pão com presunto e uma pinga. Se não valesse tanto, bastava a pinga. Esqueceu somente de olhar para o ônibus que o jogou violentamente contra o muro. Ali, caído enquanto morria, sentiu a boca adocicar com um gosto forte, divinal, que lembrava muito a cachaça.

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