Autodescobrimento

Ano passado participei pela primeira vez no Nanowrimo, e com muito sufoco, venci. Este ano, com 3x mais sufoco, resolvi por a minha sanidade à prova novamente e o resultado não poderia ser outro, venci do mesmo jeito. É, a julgar pela quantidade de coisas neste novembro pra me atrapalhar a fazer qualquer outra coisa a não ser estudar e trabalhar, foi uma experiência bem diferente da do ano passado, e vou contar porque.

Primeiro, consegui mensurar melhor as minhas capacidades. Por exemplo, agora sei que escrevo melhor de manhãzinha ou à noite varando a madrugada. Nas tardes a minha criatividade tira aquela soneca. Também percebi que a minha média de digitação-sem-ter-nada-em-mente é de 2000 palavras por hora, isso usando o WriteorDie, o site do escritor desesperado. Isso significa que para alcançar as 50.000 palavras (ou 50.807 para ser mais exato) que o Nanowrimo impõe como desafio, gastei exatamente 25 horas (um pouco mais que um dia completo) que, divididas em 30 dias, dão 50 minutos diários de escrita. Analisando friamente estes números, cheguei à conclusão de que apenas uma hora de escrita por dia resulta em um livro por mês. Interessante, não? Então, o que nos impede de escrever? É a falta de tempo? Nhé. É a falta de capacidade? Duplo nhé. É o não comprometimento. Por isso que o Nano faz todo esse sucesso. Quando não há ninguém nos cobrando, por vontade própria fica difícil não priorizar outras coisas ao invés de escrever. Até o Faustão e o Gugu parecem melhores! (Nhé pra eles). Mas com o Nano sentimos essa cobrança, mesmo sabendo que somos os únicos nos observando.


Outro detalhe que percebi é que não escrevi nada em 9 dos 30 dias. Então, na verdade, escrevi o livro todo em 21 dias! Tá certo que nos últimos 3 dias tive de escrever 5000 palavras por dia (olha no gráfico acima as linhas azuis com o que eu deveria ter escrito com as marrons com o que eu realmente escrevi), mas pôxa, foi 30% do livro em apenas 3 dias! E nem fiquei escrevendo o dia todo, gastei 2h30 por dia, no máximo. E, por causa destes dias em que me atrasei na escrita, descobri as principais barreiras que apareceram para me impedir de escrever, que se resumem em uma só verdade: quanto mais sociável você é, menos escritor você é. Sim, ter uma vida socialmente ativa é jogar páginas e páginas de bons escritos no lixo da procrastinação eterna. Foi até engraçado notar o Universo conspirando ora contra mim ora a meu favor: quando eu tivava um tempo para descansar ou ficar àtoa, ninguém lembrava da minha existência. Bastava sentar na frente do pc para começar a cota diária de palavras, telefone, celular, email, msn e campainha aqui de casa viravam um carnaval. Eram garotas que eu não via há décadas me ligando porque estavam afim de sair e se embebedar e saciar todas as suas taras, amigos mãos-de-vaca resolvendo sem motivo algum pagar rodadas de chopp, chuvas de convites de última hora para festas de arromba, viagens e shows com tudo pago e cursos e palestras do meu interesse, únicas no ano.

Garanto que pensar nisso tudo dá um bom papo em uma mesa de bar. É, esse planeta em que vivemos é louca e estranhamente recompensador para os que não dão bola para ele e resolvem ir até o fim em seus objetivos. Os que não ligam para aparências nem opiniões alheias. É como aquela velha história do cara que sai pra balada pra pegar mulher e acaba na seca. Mas basta ele arranjar uma namorada séria e passar a não querer mais curtição pra virar um ímã para o sexo oposto. A mesma coisa acontece com o escritor. Não escreva nada e sua vida será normal. Tranquila e monotonamente normal. Agora, tente escrever um livro e verá como tudo ao seu redor se transformará numa aventura emocionante. Duas vezes emocionante.

Faça sua própria tirinha

Descobri hoje o site Bitstrips.com, que torna qualquer leigo em um escritor/desenhista de tirinhas, aquelas histórias em quadrinhos que saem nos jornais, com 3 à 6 quadros. Até eu já experimentei fazer uma minha (veja abaixo). E você, quer testar a sua criatividade e depois postar aqui o resultado? Vamos lá, experimente, depois deixe o link nos comentários.

Clique na imagem para vê-la em tamanho grande.

Entrevista: Dan Brown comenta sobre O Símbolo Perdido

Dan Brown: "Este é o meu melhor livro"
Seis anos após o sucesso planetário de "O Código Da Vinci", Dan Brown regressa com mais enigmas e códigos para desvendar, mergulhando no mundo fechado da Maçonaria. Eis o rei dos best-seller em entrevista.
José Mário Silva (http://www.expresso.pt)
21:09 Domingo, 1 de Nov de 2009



Situada 80 quilómetros a norte de Boston, já no estado de New Hampshire, Exeter é uma típica cidade de província. Casas em madeira, ruas tranquilas, árvores outonais com folhas amarelas e vermelhas. Em frente à igreja luterana, a biblioteca da Philips Exeter Academy, um edifício em tijolo vermelho e betão (desenhado nos anos 60 pelo arquitecto Louis Kahn), é um bastião do conhecimento. "Esta escola secundária está entre as melhores dos EUA", garante-nos, com uma ponta de orgulho, Dan Brown, enquanto faz questão de mostrar, atrás das vitrinas do quarto piso, as prateleiras cheias de livros escritos por antigos alunos, como Gore Vidal, John Irving e o próprio Dan Brown.

Entre as muitas dezenas de volumes, brilha a capa do seu último romance, " O Símbolo Perdido " (à venda em Portugal desde quinta-feira, em edição Bertrand), terceiro livro com o seu personagem-fétiche, Robert Langdon, um simbologista que, depois das aventuras em Roma ("Anjos e Demónios") e Paris ("O Código Da Vinci"), deambula agora pelos principais monumentos de Washington, à procura de um segredo enterrado pelos "pais fundadores" da nação americana e protegido pela Maçonaria.

No dia em que chegou às livrarias dos EUA e Reino Unido (15 de Setembro), o seu novo romance vendeu mais de um milhão de exemplares. Ficou aliviado ao perceber que continua a ser o maior best-seller de literatura para adultos, seis anos após o fenómeno de "O Código Da Vinci"? Claro. Quando não se publica durante tanto tempo, uma pessoa começa a ter dúvidas. Será que as pessoas ainda se lembram de nós? Os meus editores garantiam-me que sim e que o novo livro só podia ser outro sucesso, mas eu não tinha assim tanta certeza. Por isso, claro que me senti aliviado. Foi um grande dia.

Não teme o escrutínio apertado a que "O Símbolo Perdido" vai ser sujeito? Não. Acho que é o meu melhor livro. O mais complexo, aquele que tem mais códigos, mais símbolos, mais reviravoltas no enredo. E creio também que é o meu romance com material filosófico mais profundo.

O livro estava previsto para 2006 e foi sendo sucessivamente adiado. Houve alguma espécie de bloqueio criativo? Pelo contrário. O meu problema é sempre o excesso de material. O facto de escrever a mais, nunca o facto de escrever a menos. Felizmente, graças a Deus, não há um único dia em que me sente para trabalhar e não saiba o que escrever.

Ao ler os seus últimos livros, fica-se com a sensação de que está sempre a escrever a mesma história. Em todos eles há códigos decifrados em tempo recorde, organizações misteriosas que tentam proteger (ou destruir) segredos que podem mudar o mundo, enigmas que cruzam arquitectura e mito, pinturas com significados simbólicos, etc. Os elementos mudam, os lugares são diferentes, mas a estrutura narrativa é quase igual. Será que existe uma fórmula Dan Brown? Se existe, gostaria que alguém me explicasse qual é, porque tornaria a escrita muito mais fácil. É verdade que há elementos comuns aos vários livros, como esses que referiu. Mas não creio que seja possível criar romances com este grau de complexidade a partir de uma qualquer fórmula. Isto é apenas a minha maneira de escrever.

Mas essa insistência numa forma muito particular de thriller histórico-cultural, com uma forte carga mítica, não pode tornar-se cansativa para os seus leitores? Não creio. O gozo destes livros está na sucessão de códigos e segredos para desvendar, que são sempre diferentes. Se vir bem, os leitores do Ian Fleming nunca se cansam do James Bond. E os livros do James Bond também são todos iguais. Os martinis, as raparigas bonitas, as cenas de acção, etc. Eu acredito que o truque para contar uma boa história é dar ao leitor o que ele espera, mas de uma forma inesperada. Toda a gente sabe que no fim o James Bond vai desarmar a bomba e ficar com a miúda, mas ainda assim queremos saber o que é que ele faz antes de chegar até ali.

É verdade que já tem planejados mais 12 livros com o Professor Robert Langdon como protagonista?
Sim, é verdade. Não sei se os conseguirei escrever, mas tenho ideias para mais 12 romances.

Estão na sua cabeça ou já no papel? No papel.

Guardados num cofre? Sim. Muito bem protegidos da curiosidade alheia.

Conhece o gerador interactivo de sequelas de Dan Brown que foi criado pela revista "Slate"? Não, não conheço. O que é isso?

É uma aplicação na Internet (http://www.slate.com/id/2228327) que gera automaticamente, após a escolha de uma determinada cidade e seita, um enredo à maneira de Dan Brown. Soa-me muito bem. (Risos) Talvez a utilize um dia destes, se estiver menos inspirado.

Muitas pessoas temiam que este livro fizesse à Maçonaria o que "O Código Da Vinci" fez à Opus Dei. Isto é, um ataque violento a uma organização secreta e poderosa. Mas não foi isso que aconteceu. O retrato que traça dos maçons acaba por ser bastante positivo, para não dizer laudatório. O que posso dizer é que investiguei os maçons a fundo, durante dois anos. Se descobrisse que eles eram adoradores satânicos obcecados pela ideia de dominar o mundo, teria escrito isso mesmo no livro. Acontece que não foi isso que descobri, antes pelo contrário.

O que é que já sabia sobre a Maçonaria antes dessa pesquisa? Já sabia muita coisa, mas a pesquisa para o livro foi tão profunda que adquiri uma perspectiva inteiramente nova, e positiva, sobre a filosofia dos maçons.

Positiva ao ponto de entrar para a organização? Não. Um dos juramentos que se faz quando se entra é o do secretismo. O iniciado não pode revelar os segredos. E eu sou uma pessoa de princípios. Se tivesse feito o juramento, nunca o quebraria. Como sabia que não seria capaz de o manter, não aderi.

Neste momento, o livro foi publicado. Já nada o impede de aderir. Suponho que não.

Está a pensar nisso? Por agora não. Prefiro ficar de fora.

A verdade é que se decidisse entrar - e até pode já ter entrado - nunca o diria? Exactamente.

Há um lema dos maçons que parece feito à sua medida: ordo ab chao. Certo? Certo. É o que todos tentamos fazer com as nossas vidas. Transformar o caos em ordem. É o objectivo da religião. É o objectivo da ciência.

Dois conceitos que se fundem num ramo de investigação a que dedica muitas páginas no seu livro: a ciência noética. Ao estudarmos os Mistérios Antigos, verificamos que há uma insistência nos poderes da mente humana. A ciência noética é, no meu entender, a primeira ciência verdadeira que começa a mostrar-nos quantitativamente que nós, com as nossas mentes, temos poder para afectar o universo físico.

Mas isso não está provado de uma forma cientificamente séria. Ai está, sim. Toda a ciência descrita no meu livro é verdadeira. Todas aquelas experiências existem, foram feitas, mesmo as que apresentam resultados difícil de aceitar. Há seis anos, eu teria dito que os pressupostos da ciência noética são impossíveis. Mas depois investiguei muito e mudei de opinião.

Acha que o livro pode ajudar a ciência noética a sair da sombra? Claro que sim. Aliás, já o fez. As instituições que estudam a ciência noética recebem hoje mais financiamentos, chegam à TV, etc.

Devem estar muito contentes consigo. Na verdade, eles amam-me.

O seu pai também é um homem de ciência. Um conhecido matemático... Muito conhecido, mesmo. É o autor daqueles livros de Álgebra todos, com as capas coloridas aponta para uma estante ao fundo da sala.

Foi com ele que ganhou o gosto pela resolução de códigos e puzzles? Sem dúvida. Nas manhãs de Natal, quando descíamos para a sala, não havia presentes debaixo da árvore. Havia só um cartão com um código que tínhamos de solucionar e que no fim dizia, por exemplo, frigorífico. E nós corríamos para o frigorífico, onde encontrávamos outro código. Dali íamos para outro lado qualquer, onde o meu pai colocara outra pista. E assim sucessivamente. Só no fim de uma sequência de descobertas é que chegávamos às prendas.

Curiosamente, essa podia ser a sinopse dos seus livros. Pois podia. Eles funcionam exactamente da mesma maneira.

Então é como se regressasse à infância de cada vez que escreve um romance. Sim. Acho que pode dizer isso.

Foi uma infância feliz? Muito feliz. Uma infância protegida, sem traumas. Os meus pais estão os dois vivos e são pessoas maravilhosas. Cresci aqui, em Exeter, entre estudantes de todo o mundo, com as mais diversas religiões e culturas. O verdadeiro melting pot. Acho que isso contribuiu para que eu tivesse, desde cedo, um espírito muito aberto.

No início dos anos 90, com vinte e poucos anos, tentou uma carreira musical em Hollywood, mas sem sucesso. O que é que aprendeu com esse falhanço? A importância da persistência. Aprendi que só conseguimos chegar a algum lado se tivermos persistência e se nos mantivermos focados no que queremos fazer. Naquela altura, a minha música não era comercial, porque apareceu no início da loucura com o rap, quando ninguém queria saber da pop. Mas eu não quis perder o meu foco. Então, em vez de me adaptar a uma realidade com a qual não me identificava, decidi escrever romances.

Essa decisão, já o disse várias vezes, concretizou-se depois de ler um romance de Sidney Sheldon, durante umas férias no Tahiti. Que outras influências literárias é que tinha nessa altura? Curiosamente, as minhas leituras limitavam-se praticamente aos clássicos que aprendera durante o ensino secundário: Shakespeare, Steinbeck, Faulkner, Homero. E não conhecia nada da literatura mainstream contemporânea. Eu nem sequer sabia que existiam livros daqueles. Então, ao pegar no romance de Sheldon, pensei: "Acho que era capaz de fazer isto."

O seu terreno de eleição é o thriller. Consegue imaginar-se a escrever outro género literário? Talvez. A vida é longa e eu aprendi a nunca dizer nunca.

E o que se escreve fora dos EUA, interessa-lhe? Conhece, por exemplo, alguma coisa da literatura portuguesa? Durante um ano, estudei em Sevilha e li muito em espanhol: Cervantes, Borges, García Márquez, esses todos. Mas, para ser honesto, não consigo lembrar-me de nenhum escritor português que tenha lido.

Os críticos costumam ser muito duros ao avaliar os seus livros. Dizem que o Dan escreve mal, que o seu estilo é pesadão ou ridículo, que as personagens não têm espessura psicológica, etc. Estas opiniões afectam-no? Aborrecem-no? Reflecte sobre elas ou ignora-as? É preciso ignorá-las completamente. Eu queria muito que toda a gente gostasse do meu trabalho, mas não é assim que funciona. Sobretudo quando se tem muito sucesso comercial.

Fica zangado ao ler as críticas negativas? Costumava ficar. Mas agora isso já não me afecta. A partir de certa altura, segui um conselho que me deram: não oiças os teus críticos e não oiças o que dizem as pessoas que gostam de ti. Porque se ouvires as pessoas que dizem que és um génio, ficas preguiçoso, armado em bom, etc. E se ouvires os que te arrasam, ficas inseguro e deixas de confiar em ti mesmo. A essas pessoas, não lhes ligues. Escreve o que te apetecer, como te apetecer. Se as críticas negativas me afectassem, eu talvez escrevesse de outra maneira. A verdade é que escrevo exactamente como sempre escrevi, numa prosa muito moderna, transparente e fácil de ler. Uma prosa cujo único objectivo é servir a história que quero contar.

Numa das primeiras cenas de "O Símbolo Perdido", a sua minúcia descritiva vai ao ponto de assinalar a marca dos motores do avião a jacto em que Robert Langdon viaja. Será que precisávamos mesmo de saber isto? Para mim, são os pequenos detalhes que nos fazem acreditar no que lemos. É o detalhe que transporta o leitor para as situações e permite que este diga: "OK, o escritor esteve ali, ele sabe do que está a falar." No fundo, é sempre uma questão de gosto. No seu caso, talvez preferisse que o meu livro fosse menos específico. Respeito isso. Mas eu só posso escrever aquilo que gostaria de ler. E eu gosto desse tipo de detalhes.

Entre esses detalhes de que fala, estão muitas referências a marcas de carros, de telemóveis, etc. Há quem diga que deve ganhar bom dinheiro com o product placement nos seus livros. É verdade que essas referências têm um determinado valor comercial, mas eu nunca aceitei dinheiro das marcas. Nem dinheiro nem outra coisa qualquer.

No livro também há referências ao mundo da Web 2.0. Uma das personagens escreve um blogue, outra fala do Twitter. Eu interesso-me muito por tecnologia. Sei perfeitamente como funciona o microblogging e embora não escreva tweets, tenho uma conta para seguir um pouco do que se vai escrevendo nesta plataforma.

Já houve muitas reacções no Twitter à presença do Twitter em "O Símbolo Perdido"? Oh, sim. Imensas.

A última palavra do livro é "Esperança" ("Hope") e surge no final de uma descrição idílica do nascer do sol em Washington. Acontece que esta palavra foi usada, como slogan eleitoral, por um certo político que curiosamente agora vive... em Washington. Devo dizer que essa última palavra já existia muito antes da eleição de Barack Obama.

De certeza? Absoluta. Durante a campanha presidencial eu estava fora do mundo, a acabar o livro. Não liguei a nada do que se passava na política americana. Foi só depois da eleição que alguém me disse que eu devia gostar muito de Barack Obama, para fechar o livro com a tal palavra. Mas a verdade é que não foi intencional.

Foi o quê, então? Uma coincidência? Isso. Uma coincidência.

Como assim, se o Dan não acredita em coincidências? Pois é. Não acredito em coincidências. Se calhar fizeram-me uma lavagem ao cérebro. (Risos)

No dia em que o livro foi lançado, muita gente comentou um facto inédito. No site da Amazon, a versão e-book de "O Símbolo Perdido" vendeu mais do que a versão em papel. Será isto o início de uma revolução digital no mundo dos livros? Não sei se lhe podemos chamar uma revolução. Eu leio e-books. Tenho os leitores todos que saíram, menos o Nook, da Barnes & Noble, que saiu a semana passada. Mas continuo a preferir os livros em papel. Se estiver em casa, leio um de capa dura. Se for à praia, levo um de bolso. Se viajar, opto pelo Kindle. No fim de contas é só um aparelho, outra forma de ler. As questões mais sérias são as que se prendem com a pirataria e o futuro dos editores. Quanto a esta questão, contrariamente ao que pensa muita gente, acho que o e-book vai ser bom para os editores. No momento em que qualquer pessoa tiver acesso a uma distribuição global da informação, haverá tantos maus livros a circular que o leitor não saberá como orientar-se. Os editores serão nessa altura uma referência de qualidade, uma forma de separar o trigo do joio, pelo que acho que terão ainda mais importância do que têm hoje, e não menos.

Pode saber-se que livro é que está agora no seu leitor de e-books? Pode. São as "Cartas da Terra", do Mark Twain. É um livro hilariante. Muito divertido, muito inteligente, muito à frente do seu tempo. A secção sobre a Arca de Noé, por exemplo, é uma das coisas mais engraçadas que alguma vez li.

E agora? Vamos ter que esperar mais seis anos pelo sucessor de "O Símbolo Perdido"? Espero que não. Neste momento estou a colaborar na escrita do argumento cinematográfico de "Deception Point" ("A Conspiração", Bertrand). Mas quando o guião estiver terminado, tenciono jogar um bocadinho de ténis, um bocadinho de golfe, e depois volto ao trabalho.

Entrevista publicada na Revista Única de 31 de Outubro de 2009

Fonte: www.expresso.pt

NaNoWriMo 2009

Assim como no ano passado, apostei todas as fichas nos deuses da escrita e me inscrevi no National Novel Writing Month 2009, ou NaNoWriMo 2009. Para aqueles que acham que estou falando grego, eu explico que raios é isto: Basicamente, é um concurso internacional anual onde os participantes se propoem a escrever um livro de 50.000 palavras em um mês, começando exatamente hoje até o dia 31. São 1.667 palavras por dia, chova ou faça sol. Os ganhadores são todos os que conseguirem atingir esta meta, e levam como prêmio, além da satisfação pessoal, um manuscrito de um livro pronto para virar livro.

Ano passado eu consegui, mesmo achando que novembro é o pior mês para o concurso. Mas já percebi que o problema não é o mês em si, pois se o concurso fosse em um mês de férias, como janeiro ou julho, as desculpas apareceriam do mesmo jeito. Só para ter uma ideia, olha a minha agenda para novembro:

Dia 5 - Apresentação da monografia, que preciso preparar antes.
Dia 8 - Prova do ENADE.
Dia 9 - Apresentação de trabalho em sala de aula, que preciso preparar e escrever antes.
Dias 19 à 22 - Feira de Filosofia da Nova Acrópole, que quero ajudar de alguma forma.
Dias 17 à 30 - Provas finais, que preciso estudar antes.

Fora as metas de leitura de livros e contos do Clube de Leitura do Meia Palavra e resenhas dos enviados pela Editora Planeta. Fora os episódios inéditos das séries que sou viciado: House, Dexter, Criminal Minds, Castle, Flashforward, The Mentalist, Bones, V, Californication e Lie to me. E tenho a certeza de que ainda irão aparecer outros tantos compromissos urgentes para acrescentar aí.

Mas não tenho medo, ano passado tava assim e venci. Esse ano hei de vencer. Aqueles que fazem 1000 coisas conseguem fazer 1001, mas quem não faz uma nem tentará fazer duas. Esta é a minha perspectiva, desejem-me sorte.

Para os que quiserem acompanhar a minha labuta durante o mês, instalei o contador de palavras na barra lateral do blog, ou então visitar o meu perfil no site nanowrimo.org. Ah, e se quiserem ver sobre o que estarei escrevendo, leiam o conto que escrevi em 2008, Bodas de Papel, que estou transformando no livro Jamais Direi Eu Te Amo.

1 abraço

Resultado da promoção Desculpa se te chamo de amor

Encerrada a promoção Desculpa se te Chamo de Amor e, desta vez, como não há critérios de julgamento das respostas, somente a boa e velha sorte, saiu o resultado logo em seguida. O sorteio foi feito pelo site Random.org e os cinco primeiros números da lista foram:

Dos 50 que comentaram na promoção, o comentário de número 43 foi este:

Portanto, parabéns, Bob. Você tem 10 dias para reclamar o seu prêmio, mostrando os seus dados de contato (só o email basta) no seu perfil do blogger, que atualmente está restrito. Se até o dia 10/11/2009 não houver nenhum contato, o prêmio passará automaticamente para o segundo sorteado na lista, que também terá 10 dias para se manifestar, e assim, sucessivamente até que o livro vá de vez pra algum de vocês.

Para quem não ganhou, lamento, mas era somente um livro entre 50 concorrentes (sendo que alguns não o levariam por não terem seguido as regras de identificação). Esta semana posto a nova promoção, e com uma surpresa: o ganhador poderá escolher o prêmio.

No mais, o meu muito obrigado aos participantes pelos comentários e a Editora Planeta pelo apoio.

1 abraço

Nova ortografia no Office 2007 (Word, Excel, Outlook, PowerPoint)

A Microsoft havia anunciado o lançamento da atualização para a nova correção ortográfica da língua portuguesa para o segundo semestre, e ela saiu finalmente este mês. A atualização está de acordo com a publicação oficial da Academia Brasileira de Letras, o Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa e irá funcionar só para o Office 2007 com o Service Pack 2 instalado. Esta atualização torna o Verificador Ortográfico, o Dicionário de Sinônimos e o Verificador Gramatical em português (Brasil) do Microsoft Office 2007 compatíveis com a reforma ortográfica de 2009 do idioma português (Brasil).

Para baixar a atualização, acesse o download direto, neste link.

Se quiser ver a página oficial da Microsoft com mais detalhes sobre a atualização:

http://www.microsoft.com/brasil/office/reforma/home.aspx

Refere-se: Word 2007, Excel, PowerPoint, Outlook

Para que este aplicativo funcione corretamente, observe os Requisitos do Sistema listados abaixo:

* Sistemas Operacionais com Suporte: Windows Server 2003; Windows Vista; Windows XP
* Esta atualização destina-se aos seguintes produtos: Revisores de Texto do Microsoft Office 2007
* Versão do Windows Installer com suporte: Windows Installer 3.1 ou superior. O Windows Server 2003 Service Pack 1 inclui o Windows Installer 3.1. O Windows Installer 3.1 também está disponível como um download à parte no seguinte local:
Windows Installer 3.1 Redistributable (v2)

Certifique-se de ter instalado em sua máquina versões do Microsoft Office 2007 (em Português ou em Inglês).

Querido e Devotado Dexter, de Jeff Lindsay

Este livro foi gentilmente cedido e enviado pelo autor/editora para ser resenhado. Fica, assim, automaticamente sujeito à Política sobre Resenhas Solicitadas deste blog. O texto abaixo pode conter revelações sobre o enredo (spoilers).
Dexter está de volta, com as facas e o humor negro mais afiados que nunca. E isto é um fato: qualquer leitor que tenha lido o primeiro livro da série, Dexter: a mão esquerda de Deus (Planeta, 2008) percebe a nítida melhora do personagem e da trama no segundo volume, Querido e Devotado Dexter (Planeta, 2009), lançado há alguns meses no Brasil. Jeff Lindsay consegue deixar o seu assassino favorito mais sarcástico que o Dr. House e Stewe (da série Uma família da pesada) juntos, e até mais sarcástico – e sombrio – que o Dexter da tevê. Parece que suavizaram o personagem adaptado para a telinha, assim como os seus arquiinimigos, para não chocar tanto os politicamente corretos.

Nesta continuação, Dex se vê interpretando um papel com o qual não está acostumado: agora ele é a caça. De dois caçadores experientes na arte de matar. O sargento Doakes o segue por todos os lugares, tentando provar as suas suspeitas levantadas desde o final do primeiro livro. E, tanto Doakes quanto Dexter sabem reconhecer os seus pares, percebem o instinto assassino no olhar. Essa situação força Dexter a assumir uma postura “normal”, deixando de lado seu passatempo noturno favorito e ficando mais tempo na casa da Rita, seus filhos Astor e Cody, conhecendo a maravilha moderna (norte-americana?) que é beber cerveja light em frente a tevê. Uma dose de calmante cavalar para o Passageiro das Trevas. Além disso, surge um novo assassino em Miami, o famigerado Doutor Danco (um vilão bem mais perigoso no livro), que busca vingança em antigos companheiros de guerra. Dexter é forçado a persegui-lo e se vê enfrentando um adversário mais enigmático e bem treinado que ele. O mais importante não é quem sairá ileso (Dexter, Doakes ou Danco) deste duelo triplo com altas doses de adrenalina, insânia e testosterona, pois os outros dois livros sequenciais do perito em borrifos (com sede) de sangue já revelam muito sobre quem sobrevive. Mas o como e o porquê Dexter entrar e sair de tantas enrascadas é o charme que só Lindsay teve a ousadia e imaginação de criar.

Um dos principais atrativos do livro são as tiradas espirituosas, sarcásticas e carregadas de humor negro de Dexter frente a situações comuns e outras não tão comuns. Como na cena em que os paramédicos chegam para socorrer uma vítima do Dr. Danco e conversam com Dexter:
- Há lugar para mais um? – perguntei. Não vai ocupar muito espaço, mas vai precisar de forte sedação.
- Em que estado ele está? – perguntou o cara de cabelo espetado.
Era uma boa pergunta para alguém da sua profissão, mas as respostas que me ocorreram eram um tanto impertinentes, de modo que falei apenas:
- Acho que você também vai precisar de forte sedação.
Aforismos impiedosamente mordazes são com ele. Ninguém escapa: policiais, gordas, motoristas, cadáveres, assassinos e até ele mesmo. Em média, são três comentários espirituosos por página. O segundo livro também inova ao mostrar Dexter chamando-se na terceira pessoa do singular com adjetivos para demonstrar como está o seu estado de espírito (lembre-se que ele é um sociopata sem emoções ou remorso): Dexter Desastrado, Bom e Submisso Dexter, Dexter Domesticado, Querido e Devotado Dexter, sendo este último, o título escolhido para o livro pelos leitores em um concurso na internet.

Outro atrativo, este agora para os seguidores da série Dexter (Showtime, 2006), é que a história do segundo livro é diferente da segunda temporada na tevê. Ambas são melhores que as primeiras, mas tomam rumos diferentes a partir da única mudança que ocorre entre o final do primeiro livro e o final da primeira temporada. Na tevê, o foco inevitavelmente recai sobre Lila, sem dúvida uma das vilãs mais "quentes" e loucas que já apareceram, e não sei se ela aparece nos próximos livros. Já no segundo livro, quem rouba a cena, depois de Dexter, é claro, é o Dr. Danco. Com importante participação do sargento Doakes. E como a série já está na quarta temporada e o segundo livro só agora chega às livrarias brasileiras, consegue-se perceber quais sub-tramas foram retiradas de qual livro. Algumas delas são dos primeiros livros mas estão recém aparecendo nas telas, na temporada atual, em contextos diferentes.

A editora somente pecou neste volume na parte de revisão, deixando passar um “imdeiato” ao invés de imediato (pg. 27), um “linhas obrigações” ao invés de minhas obrigações (pg. 134) e um erro bizarro na pg. 71, onde aparece um número e pula-se 3 linhas no texto sem qualquer justificativa:
"O coronel abriu a boca, e Doakes ergueu as sobrancelhas. Após pensar um pouco, vendo o rosto sob aquelas sobrancelhas, o coronel-37



-comandante decidiu desistir.
O capitão Matthews pigarreou, numa tentativa de recuperar o controle."
Fica o aviso para uma revisão mais apurada na próxima tiragem da edição e uma maior atenção ao lançarem o terceiro livro da série que, ao que tudo indica, deve pintar no Brasil em 2010. Mesmo assim, tais detalhes gramaticais não chegam a estragar a maravilha que é entrar na mente perturbada e afiada de um serial-killer. Querido e devotado, mas mesmo assim, um serial-killer.

Encontre os melhores preços do livro no
Buscapé


Veja também:
- Resenha de Dexter: a mão esquerda de Deus, de Jeff Lindsay;

Tema de abertura da série:

Olho por olho

AVISO: estou testando uma mudança de estilo e tema, e o miniconto abaixo foi elaborado propositalmente para provocar repulsa. Se você não gosta de ler coisas assim, não prossiga. Se acredita que já viu um pouco de tudo e quer se aventurar a ler, peço somente que depois deixe o seu comentário se eu consegui atingir, mesmo que um pouco, o objetivo. Este texto foi inspirado nesta imagem.
Não sinto dor, exceto quando tento pensar. É como se acordasse agora, sentindo que perdi algo. Não estou na minha cama. Não estou na minha casa. E parece que também não estou no meu corpo. Percebo-me imóvel, no chão frio, em meio à montanhas de lixo. Tento mexer a minha mão. Devo ter mexido, mas não a senti. Está morta. Eu também devo estar, porque não ouço, não sinto, não vejo muito bem, pois a claridade me cega. Mas há um movimento, uma sensação que percorre o meu corpo, lentamente, de baixo para cima. São pequenos pulsos compassados que provocam arrepios. Só quando o rabo toca meu nariz percebo que não sou eu e sim um camundongo explorando o mundo sobre mim. Ele para e cheira o meu rosto. Sinto seus longos bigodes roçando a minha pele e o seu nariz úmido e gelado me traz uma percepção de que, afinal, não estou morto. Ele começa a lamber algo em meu rosto. Não. Ele começa a comer o que antes era o meu olho direito. Sinto um líquido quente escorrendo e me encharcando a medida que os seus dentes e unhas afiados me possibilitam ouvir o crunch-crunch em meus ossos. Mas não sinto dor. E percebo calmamente que não tenho mais olho quando ele – o gordo – ao tentar entrar mais fundo, entala na cavidade óssea ocular vazia. As suas unhas afiadas derrapam sob a minha face soltando tirinhas de pele e filetes de sangue. Instintivamente, minha mão pega pelo meio e o puxa para fora. Ele guincha, arranha, morde, xinga, babando restos do líquido gelatinoso que antes me possibilitava enxergar, e cospe sangue em mim. Eu sorrio. Percebo que o meu outro olho está bom enquanto vejo umas terminações nervosas que também deveriam ser minhas sendo sugadas entre patinhas e dentes. Então, ele para e lambe os bigodes e me encara com aqueles olhos negros, como que sabendo quem venceria ao final. Mas ele e eu não contávamos que o meu corpo se levantaria. O mundo gira ao redor de mim mas não caio. Uso um paletó, e coloco o camundongo no bolso, ainda o segurando com a mão. Olho para a outra mão e vejo apenas a manga do paletó. Isso que dá ter um olho só: consegue-se ver apenas uma mão. As pernas cambaleiam sem rumo sem que eu mande. Estão mais vivas que eu. Seguem até uma estrutura retorcida de ferro e pedras que parece uma lembrança, só que mais feia. Um vento sulfuroso quase me derruba, quase fecha o meu olho só. Tiro a mão do bolso para proteger-me e o rato foge. Covarde. Passo a mão pelo rosto e não sinto a pele, só ardor. Mas é o rosto ou a mão que está sem pele? É quando vejo o menino, nu, coberto de fuligem, chorando, a poucos metros. É para lá que as pernas me levam. Ele tem o rosto coberto de sangue e algo escorre pelo seu nariz. Ele lambe os bigodes e me encara com seus olhos negros. Mas desta vez, o camundongo dentro de mim é mais rápido, e quando percebo já sinto o estourar do seu olho direito sob os meus dentes.

O Príncipe Maldito VIII (2ª versão)

Leia também a Parte VII.
Olhando para fora da janela redonda do navio só se avistava areia por todo o horizonte. Olhando para dentro, via-se um druida e um francês presos por correntes aguardando silenciosos o regresso de BB. O navio estava parado, por ordens do capitão. A tripulação de piratas, depois de levarem os prisioneiros até a cela do navio, aproveitava o dia de folga para tomar banho de sol e se bronzear no convés. Uns vendiam água de côco, outros picolés, óculos escuros ou espetinhos de camarão. Procuravam curtir ao máximo o momento de folga até a hora em que o capitão saísse de sua cabine. Somente ele e a menina loira haviam entrado. E, é claro, os dois guarda-costas do capitão que, caso algo desse errado, estariam prontos para punir BB com suas longas e afiadas espadas.

Dentro da cabine, BB repassava mais uma vez o que propora fazer. Os dois guarda-costas, apesar de manterem olhares ferozes e caras de mau, não entendiam patavinas do que ela falava. Mas Corruto III, o capitão papagaio, estava atento, absorvendo os detalhes repetidos por BB pela enésima vez.

- Capitão, você deve ter ouvido que nós, bruxas, gostamos de transformar príncipes em sapos. Eu mesma fiz isso muitas vezes, é um feitiço que aprendemos no primário, na hora do recreio. E podemos transformar humanos em porcos, tartarugas, bodes, árvores e até em pedras. Há, no entanto, uma colega de profissão, uma fada madrinha, que ficou bastante conhecida por fazer justamente o contrário: transformou dois ratos em cocheiros e uma abóbora em carruagem. E isto é o que proponho: transformar você em um ser humano. Imagine você pode usufruir os prazeres de ser um legítimo pirata, sem que ninguém fique te olhando de esguelha por causa da sua cor ou tamanho. Perdoe-me a franqueza, mas o humano mais franzino, se tiver poder em suas mãos, intimida mais que uma ave. Eu sou o melhor exemplo de que tanto posso intimidar até mesmo estando no corpo de uma menininha quanto de que continuo capaz de fazer feitiços de transmutação.

- Concorrrdo, emborrra sua aparrrência rrrevele que você é um pouco desastrrrada. Mesmo assim, sua prrroposta me interrressa. Mas, porrr garrrantia, trrrouxe estes pirrratas parrra te castigarrrem caso tente alguma grrracinha - e olhando para os guarda-costas, ordenou - Homens, caso essa menina me trrransforrrme em qualquerrr coisa que não seja um homem, acabem com ela imediatamente, ouvirrram? Porrrque ela terrrá condenado toda a trrripulação a morrrrrrerrr se Corrrrrruto III não forrr o capitão.

- Sim, chefe! - grunhiram os dois homens em uníssono enquanto preparavam as espadas. Essa ordem era fácil de entender.

BB olhou para eles e não tinha dúvidas que estava em desvantagem. Mesmo ela sendo uma poderosa feiticeira, atacar um bando de piratas, em um navio parado no meio do deserto não seria algo inteligente. Além do mais, o papagaio tinha razão: ele era o único que conhecia a rota para o navio sair dali. A ave ordenara propositalmente que parassem onde não havia vento algum. Poderiam levar anos para encontrarem um vento que moveria as velas do navio, e mais tempo para não ziguezaguearem sem rumo eternamente de um vento a outro no centro do deserto. A bruxinha não tinha outra opção a não ser cumprir a sua palavra e transformar a ave em homem para que ela e os seus companheiros seguissem viagem.

Existem feitiços que necessitam de preparação, de ingredientes mágicos ou estranhos, como olhos de barata vesga ou rabo de cobra de duas cabeças. Outros não. Basta concentração e prática. Por isso, Balbina Beladona tirou o seu gorrinho escarlate, estalou os dedinhos e respirou profundamente. Depois, apontou as mãozinhas para o papagaio em cima da escrivaninha. Faíscas azuis e douradas começaram a saltar de seus olhos enquanto ela pronunciava palavras que só ela entendia. Eram palavras evocadas de tempos imemoriais, passadas entre gerações nas Universidades Internacionais de Bruxaria ou em cursinhos intensivos de férias. Suas mãos brilhavam, assim como os seus olhos azuis. Seus lábios moviam-se cada vez mais rápidos e o som parecia quase uma música. Até que ela parou, e os dois piratas fecharam os olhos para não ver o que aconteceria. Mas aconteceu somente o silêncio. Eles olharam um para o outro e deram de ombros. Mas BB recomeçou repentinamente as invocações dando um susto no brutamontes que estava mais perto. De repente, um raio brilhante saiu de suas unhas pintadas de rosa com detalhes de florzinhas brancas e atingiu em cheio a ave. Não daria para dizer se foi um único raio de duas cores ou dois raios de uma única cor cada. Por alguns segundos a cabine toda iluminou-se de azul e dourado. Em seguida, o ambiente se encheu de fumaça, e por alguns instantes, os três tiveram de conter a tosse e acostumar os olhos para verem o lugar onde estava o capitão. A fumaça se dissipou aos poucos. Assim que a visibilidade apareceu, mostrou algo que os dois piratas não esperavam e eles, sem um gomo de cérebro mas leais como bêbados dividindo a última garrafa, sacaram as espadas e partiram para cima de BB. Afinal, ordens eram ordens. Quando a seguravam pelos cachinhos dourados, prontos para o golpe fatal, ouviram:

- Parrrem!!!

Era a voz grossa de Corruto III ecoando pela cabine e paralisando a ação dos homens.

- Mas chefe, você mandou...

- Calem a boca, imbecis! Vocês não entendem nada. Aguarrrdem do lado de forrra da porrrta. Eu prrreciso terrr uma converrrsinha a sós com ela.

No convés, já era fim de tarde e a tripulação recolhia e guardava esteiras, pratos de farofa e espreguiçadeiras. O ex-capitão Barbarrala andava de um lado para outro, sem conseguir disfarçar a ansiedade. Porque estavam demorando tanto lá dentro? Será que Balbina continuava tão má como ele conhecera antes? Ela o ajudaria a retomar o seu navio? Quanto isso custaria à ele? Eram muitas as perguntas e nenhuma resposta. Foi quando a porta da cabine se abriu e saíram os dois piratas. Ficaram algum tempo do lado de fora, como cães de guarda. Lá dentro, havia barulho de discussão, gritos e vidros quebrando. Depois de um tempo, BB saiu, toda descabelada, amarrada com uma corda grossa e amordaçada com uma fita. Pelo jeito, parecia que o feitiço não havia funcionado. Barbarrala teria de se conformar em ser pirata papagaio de papagaio pirata para o resto da vida. Foi quando percebeu os olhares de todos no convés para o novo capitão, que acabara de sair pela porta, segurando uma espada. Ele havia vestido algumas roupas que encontrou nos baús de Barbarrala e que, por sinal, lhe caíram muito bem. Segundo o cochicho de dois ou três piratas mais antenados com a moda da estação, aquelas roupas caíram muito melhor no novo capitão. Ou melhor, na nova capitã. Isso mesmo. Ninguém tinha se tocado que Corruto III era um papagaio fêmea. E agora uma tripulação inteira babava diante de uma mulher exuberante, que revelava formas sensuais, longos cabelos negros e um olhar mais rápido e mortífero para atravessar qualquer coração ali que a espada mais afiada.

- Trrragam os prrrisioneirrros. A parrrtirrr de agorrra eles passam a serrr trrripulantes do Darrrius Drrrome. Mas levem esta brrruxa parrra a cela, ela pode querrrer desfazerrr o feitiço que me deu este corrrpo.

A voz da capitã era a mesma de antes, igual à de Barbarrala, grossa e com sotaque, mas foi como se nada tivesse dito. Todos continuavam embasbacados com aquela visão. Ouviu-se apenas um assovio e um "ê gostosa". Até mesmo Barbarrala, que tinha maquinado a tarde toda retomar o navio com a ajuda de BB, estava paralisado boquiaberto. Ele só notou BB parada bem ao seu lado quando ela deu um pisão no pé dele, tentando dizer algo que a mordaça impedia. Ele acordou bradando:

- Vocês ouviram o capitão, er... quer dizer, a capitã, busquem os prisioneiros imediatamente, seus molengas! E mantenham a bruxa encarcerada e sob vigia até a segunda ordem!

Agora sim, alguns homens saíram correndo levando BB arrastada para o porão, mas a maioria ainda suspirava. Ao chegarem no convés, Carpeaux perguntou com os olhos ao druida quem era aquela beldade, e recebeu a silenciosa resposta de que era o papagaio capitão. Carpeaux percebeu que o druida não parecia surpreso e considerou que, se ele já tinha percebido o sexo do papagaio quando sugeriu o feitiço, ele era bem mais esperto que todos ali. Por isso, começou a desconfiar se ele era apenas um druida andarilho caladão ou se escondia algo mais debaixo daquele capuz.

- Todos peguem as corrrdas e puxem o navio parrra leste. Dois quilômetrrros. Mudança de rrrota, vamos para as Terrrrrras Geélidas - e enquanto os piratas saíam correndo, esbarrando uns nos outros, a capitã olhou para Barbarrala e ordenou - Você, venha cá!

Barbarrala aproximou-se com um misto de fascinação e temor. Ele nunca vira mulher mais bela. Muito menos com uma voz tão poderosa e cheia de charme. Uma voz que o excitava, pois era a sua própria voz. Ele não sabia o que Balbina tinha revelado à capitã sobre ele, portanto não fazia ideia do que esperar. Ele sabia que a capitã teria agora uma forma de controle a mais sobre os homens que ele jamais tivera: o poder da sedução. Mas também sabia que nunca antes ouvira sobre um navio pirata comandado por uma mulher, nem mesmo nas edições da sua revista favorita, a IstoéPirataria. Ele pensava inúmeras coisas, menos no que viria a acontecer a seguir: a capitã o pegou pelo pescoço e o beijou sem que ele pudesse esboçar reação. Não foi um beijo daqueles em que toca uma musiquinha no ar. Foi um beijo daqueles em que se para de respirar, de se mexer, de pensar, de existir. Barbarrala só voltou a si depois de alguns minutos, e olhou para a capitã com um sorriso abobalhado.

- Seu tolo, eu semprrre gostei de você, e você nunca perrrcebeu. Semprrre me levava junto parrra as taverrrnas quando saía em busca de bebidas e mulherrres. No seu camarrrote, eu tinha de suporrrtarrr o quadrrro de outrrra mulherrr. Agorrra o quadrrro não existe mais e esperrro que aquela mulherrr também não exista mais parrra você. Assim, posso terrr você como semprrre quis. Mas antes você terrrá que prrrometerrr me obedecerrr em tudo.

- Eu prometo, eu prometo.

- Pois bem, a minha prrrimeirrra orrrdem é que você escolha um nome parrra mim. Afinal, eu não tenho mais carrra de Corrrrrruto III, cerrrto?

- Sim, capitã, pensarei em algo tão exuberante quanto você.

E, enquanto os dois pombinhos trocavam afagos e planos de conquista dos sete desertos do mundo, Carpeaux parabenizava o druida pela excelente ideia, mas não deixava de sentir a falta de BB ali com eles. Contudo, o mais importante é que eles agora estavam no caminho das terras dos gigantes. Olhou para a areia e viu a maioria dos piratas puxando o navio com longas cordas. Era o segredo dos atalhos de Barbarrala, que Corruto decorou tão bem: conhecer em que ponto as rotas de dois ou mais ventos passavam próximas que com alguns metros de ajuste poderia-se pegar outro vento e partir para outro destino. Mas, antes de chegarem à outra rota, ouviram um grito vindo da parte mais alta do mastro principal, fazendo todos correrem para bombordo.

- Ilhoásis à vista! Ihoásis à vista!



Os 200 e-books gratuitos mais baixados


Alguns livros já entraram em domínio público (sem direitos autorais), e foram disponibilizados para download no site www.dominiopublico.gov.br (do Governo!). Veja abaixo os 200 mais populares (quantidade de downloads). Agora não existe mais aquela desculpa de que livro é caro!

  1. A Divina Comédia - Dante Alighieri
  2. Poemas de Fernando Pessoa - Fernando Pessoa
  3. A Comédia dos Erros - William Shakespeare
  4. Romeu e Julieta - William Shakespeare
  5. Mensagem - Fernando Pessoa
  6. Dom Casmurro - Machado de Assis
  7. Sonho de Uma Noite de Verão - William Shakespeare
  8. O Eu profundo e os outros Eus. - Fernando Pessoa
  9. A Cartomante - Machado de Assis
  10. Poesias Inéditas - Fernando Pessoa
  11. Cancioneiro - Fernando Pessoa
  12. A Megera Domada - William Shakespeare
  13. Tudo Bem Quando Termina Bem - William Shakespeare
  14. A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca - William Shakespeare
  15. A Carteira - Machado de Assis
  16. Dom Casmurro - Machado de Assis
  17. Do Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
  18. Macbeth - William Shakespeare
  19. O pastor amoroso - Fernando Pessoa
  20. A Igreja do Diabo - Machado de Assis
  21. A Tempestade - William Shakespeare
  22. Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
  23. O Mercador de Veneza - William Shakespeare
  24. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
  25. A Carta - Pero Vaz de Caminha
  26. Cancioneiro - Fernando Pessoa
  27. O Guardador de Rebanhos - Fernando Pessoa
  28. Trabalhos de Amor Perdidos - William Shakespeare
  29. Os Lusíadas - Luís Vaz de Camões
  30. A Carta de Pero Vaz de Caminha - Pero Vaz de Caminha
  31. Este mundo da injustiça globalizada - José Saramago
  32. A Carteira - Machado de Assis
  33. Conto de Inverno - William Shakespeare
  34. A Cartomante - Machado de Assis
  35. Muito Barulho Por Nada - William Shakespeare
  36. Poemas Traduzidos - Fernando Pessoa
  37. A Metamorfose - Franz Kafka
  38. A Mão e a Luva - Machado de Assis
  39. Americanas - Machado de Assis
  40. Otelo, O Mouro de Veneza - William Shakespeare
  41. Júlio César - William Shakespeare
  42. A Cidade e as Serras - José Maria Eça de Queirós
  43. Rei Lear - William Shakespeare
  44. Poemas Inconjuntos - Fernando Pessoa
  45. O Alienista - Machado de Assis
  46. Antônio e Cleópatra - William Shakespeare
  47. A Causa Secreta - Machado de Assis
  48. A Esfinge sem Segredo - Oscar Wilde
  49. Kamasutra - Mallanâga Vâtsyâyana
  50. Poemas de Álvaro de Campos - Fernando Pessoa
  51. O Banqueiro Anarquista - Fernando Pessoa
  52. Arte Poética - Aristóteles
  53. A Ela - Machado de Assis
  54. A Volta ao Mundo em 80 Dias - Júlio Verne
  55. Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente
  56. A Moreninha - Joaquim Manuel de Macedo
  57. Iracema - José de Alencar
  58. Adão e Eva - Machado de Assis
  59. Dom Casmurro - Machado de Assis
  60. Poemas em Inglês - Fernando Pessoa
  61. Édipo-Rei - Sófocles
  62. Iliada - Homero
  63. A Igreja do Diabo - Machado de Assis
  64. Odisséia - Homero
  65. Senhora - José de Alencar
  66. Poemas de Álvaro de Campos - Fernando Pessoa
  67. Poemas de Álvaro de Campos - Fernando Pessoa
  68. Poemas Selecionados - Florbela Espanca
  69. Ricardo III - William Shakespeare
  70. Alma Inquieta - Olavo Bilac
  71. As Alegres Senhoras de Windsor - William Shakespeare
  72. Catálogo de Autores Brasileiros com a Obra em Domínio Público - Fundação Biblioteca Nacional
  73. A Chinela Turca - Machado de Assis
  74. Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente
  75. Os Maias - José Maria Eça de Queirós
  76. A Pianista - Machado de Assis
  77. A Escrava Isaura - Bernardo Guimarães
  78. Poemas de Ricardo Reis - Fernando Pessoa
  79. Iracema - José de Alencar
  80. Os Sertões - Euclides da Cunha
  81. Quincas Borba - Machado de Assis
  82. A Dama das Camélias - Alexandre Dumas
  83. Fausto - Johann Wolfgang von Goethe
  84. A Alma Encantadora das Ruas - João do Rio
  85. O Guarani - José de Alencar
  86. Primeiro Fausto - Fernando Pessoa
  87. O Cortiço - Aluísio Azevedo
  88. Pai Contra Mãe - Machado de Assis
  89. Poemas de Ricardo Reis - Fernando Pessoa
  90. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
  91. Sonetos – Luís Vaz de Camões
  92. Hamlet – William Shakespeare
  93. Contos Fluminenses - Machado de Assis
  94. Eu e Outras Poesias - Augusto dos Anjos
  95. A Vida Eterna - Machado de Assis
  96. O Primo Basílio - José Maria Eça de Queirós
  97. Canção do Exílio - Antônio Gonçalves Dias
  98. O Espelho - Machado de Assis
  99. Eu - Augusto dos Anjos
  100. A Herança - Machado de Assis
  101. A chave - Machado de Assis
  102. A Mulher de Preto - Machado de Assis
  103. Utopia - Thomas Morus
  104. Don Quixote. Vol. 1 - Miguel de Cervantes Saavedra
  105. Os Lusíadas - Luís Vaz de Camões
  106. Medida Por Medida - William Shakespeare
  107. A Segunda Vida - Machado de Assis
  108. Os Dois Cavalheiros de Verona - William Shakespeare
  109. A Mão e a Luva - Machado de Assis
  110. Adão e Eva - Machado de Assis
  111. A Mão e a Luva - Machado de Assis
  112. As Vítimas-Algozes - Joaquim Manuel de Macedo
  113. A Mensageira das Violetas - Florbela Espanca
  114. Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida
  115. O Primo Basílio - José Maria Eça de Queirós
  116. Astúcias de Marido - Machado de Assis
  117. Carta de Pero Vaz de Caminha. - Pero Vaz de Caminha
  118. Divina Comedia - Dante Alighieri
  119. O Crime do Padre Amaro - José Maria Eça de Queirós
  120. Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco
  121. El Arte de la Guerra - Sun Tzu
  122. Helena - Machado de Assis
  123. Antes que Cases - Machado de Assis
  124. O Navio Negreiro - Antônio Frederico de Castro Alves
  125. Missa do Galo - Machado de Assis
  126. Esaú e Jacó - Machado de Assis
  127. Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco
  128. O Alienista - Machado de Assis
  129. Coriolano - William Shakespeare
  130. A Causa Secreta - Machado de Assis
  131. Don Quixote - Miguel de Cervantes
  132. O Alienista - Machado de Assis
  133. A Desejada das Gentes - Machado de Assis
  134. Os Maias - José Maria Eça de Queirós
  135. Cartas D’Amor - José Maria Eça de Queirós
  136. A melhor das noivas - Machado de Assis
  137. A Desobediência Civil - Henry David Thoreau
  138. Tito Andrônico - William Shakespeare
  139. O triste fim de Policarpo Quaresma - Afonso Henriques de Lima Barreto
  140. Camões - Joaquim Nabuco
  141. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
  142. Noite na Taverna - Manuel Antônio Álvares de Azevedo
  143. O Crime do Padre Amaro - José Maria Eça de Queirós
  144. O Abolicionismo - Joaquim Nabuco
  145. Os Sertões - Euclides da Cunha
  146. Don Quijote - Miguel de Cervantes
  147. Aurora sem Dia - Machado de Assis
  148. Contos - José Maria Eça de Queirós
  149. A Mulher de Preto - Machado de Assis
  150. O Cortiço - Aluísio Azevedo
  151. Senhora - José de Alencar
  152. Schopenhauer - Thomas Mann
  153. Ficções do interlúdio: para além do outro oceano de Coelho Pacheco. - Fernando Pessoa
  154. Conto de Escola - Machado de Assis
  155. Amor com Amor se Paga - Joaquim José da França Júnior
  156. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias - Júlio Verne
  157. Livro de Mágoas - Florbela Espanca
  158. A viúva Sobral - Machado de Assis
  159. Almas Agradecidas - Machado de Assis
  160. Cinco Minutos - José de Alencar
  161. As Primaveras - Casimiro de Abreu
  162. Outras Poesias - Augusto dos Anjos
  163. Anedota Pecuniária - Machado de Assis
  164. A Viuvinha - José de Alencar
  165. Anedota do Cabriolet - Machado de Assis
  166. A Sereníssima República - Machado de Assis
  167. Lucíola - José de Alencar
  168. A esfinge sem segredo - Oscar Wilde
  169. Papéis Avulsos - Machado de Assis
  170. Balas de Estalo - Machado de Assis
  171. Helena - Machado de Assis
  172. A última receita - Machado de Assis
  173. Catálogo de Publicações da Biblioteca Nacional - Fundação Biblioteca Nacional
  174. A Semana - Machado de Assis
  175. Antes da Missa - Machado de Assis
  176. A Princesa de Babilônia - Voltaire
  177. A Relíquia - José Maria Eça de Queirós
  178. Viagens de Gulliver - Jonathan Swift
  179. Sonetos e Outros Poemas - Manuel Maria de Barbosa du Bocage
  180. Memorial de Aires - Machado de Assis
  181. Don Quixote. Vol. 2 - Miguel de Cervantes Saavedra
  182. A mulher Pálida - Machado de Assis
  183. A Dama das Camélias - Alexandre Dumas
  184. O Cortiço - Aluísio Azevedo
  185. CHARNECA EM FLOR - Florbela Espanca
  186. Cartas D’Amor – O Efêmero Feminino - José Maria Eça de Queirós
  187. Obras Seletas - Rui Barbosa
  188. A Inglezinha Barcelos - Machado de Assis
  189. A Senhora do Galvão - Machado de Assis
  190. A Alma do Lázaro - José de Alencar
  191. A “Não-me-toques”! - Artur Azevedo
  192. A Carne - Júlio Ribeiro
  193. O Livro da Lei - Aleister Crowley
  194. Conjugo Vobis - Artur Azevedo
  195. Eterna Mágoa - Augusto dos Anjos
  196. A Parasita Azul - Machado de Assis
  197. Cândido - Voltaire
  198. A Desejada das Gentes - Machado de Assis
  199. A Carta - Pero Vaz de Caminha
  200. Carolina - Casimiro de Abreu


Clique aqui e baixe mais obras disponíveis.

SATANÁS, de Mario Mendoza

Este livro foi gentilmente cedido e enviado pelo autor/editora para ser resenhado. Fica, assim, automaticamente sujeito à Política sobre Resenhas Solicitadas deste blog. O texto abaixo pode conter revelações sobre o enredo (spoilers).

Estupro, assassinato, possessão demoníaca, matricídio, infanticídio, sadismo, luxúria, arrogância, ganância, prepotência. Satanás (Planeta do Brasil, 2009) é um livro de cenas fortes. Tem de ser, pois para falar sobre o Mal nada melhor que mostrá-lo em todas as suas facetas. E mostrando o que há de pior no comportamento humano, o escritor colombiano Mario Mendoza levanta sutilmente diversas questões: De onde vem o Mal? Seria ele uma provocação de um ser espiritual invisível, uma capacidade latente em todo ser humano ou ainda os atos alheios vistos sob uma ótica particular? Nós o provocamos ou ele nos provoca? Se a procura pelas respostas a estas indagações já seria interessante por si só, quanto mais demonstrá-las, indo além da discussão meramente filosófica ou teológica, no cotidiano de um padre, um pintor, uma golpista e um ex-soldado. Pessoas que passaram por situações que poderiam ocorrer com o leitor, pois ninguém está imune ao que acontece (de ruim) na ficção, quando esta imita a vida real.

Mendoza intercala nas mesmas cenas violência, fé, vingança, amor, desespero, caridade, etc., e o seu estilo econômico e certeiro nas palavras remete a imaginação a situações propositalmente carregadas, impossíveis de não causarem uma impressão marcante. A alternação rápida nas três histórias paralelas traz agilidade à narrativa e a rapidez temporal torna o fluxo da história ágil: se em um parágrafo combina-se algo para fazer, seja em outra hora ou dia, no próximo parágrafo a ação já acontece. Esta técnica geralmente agrada os mais acostumados às sequências rápidas da tevê e do cinema.

Em uma das histórias, o padre Ernesto se revela um homem que luta para manter a fé diante de pressões, externas e internas. Externas, pois o padre encontra-se com os tipos mais sinistros, capazes de, senão abalar as crenças mais fortes, ao menos provocar sérias reflexões sobre a fé, a igreja e a maldade. Internas, pois a decisão de negar o sexo e uma família própria são martirizantes. O padre se pergunta como alguém que se autoconsidera impuro e pecador pode aceitar ser chamado de santo e dar conselhos com uma consciência tranquila? De longe, entre todos os personagens do livro, Ernesto é o que traz maior riqueza ao debate filosófico sobre o Mal que nos rodeia, e o poder deste sobre nós.
- Vemos frequentemente genta má, Enrique, invejosos, assassinos, ladrões, enfim, há para todos os gostos. Mas são pouquíssimas as ocasiões nas quais temos a oportunidade de ver gente realmente boa possuída pelo mal contra a sua vontade.” (pg. 57)
A segunda história traz o pintor Andrés frente a duas decisões difíceis para continuar a sua arte: largar a namorada, por quem é apaixonado, e deixar de pintar retratos, por causa de uma recém adquirida habilidade fantástica. Mas, estaria a arte acima da vida real e deveria suplantá-la? Quanto um pintor, escultor, músico ou escritor estariam dispostos a sacrificar pela fama e reconhecimento, mesmo que posteriores? Assim como ocorre com o padre Ernesto, a narrativa sobre Andrés revela aspectos da literatura fantástica, tão famosa na tradição colombiana.

A terceira história paralela é a de Maria, uma órfã de vida dura desde a infância, porém honesta. Quando convidada a aplicar golpes no estilo “boa noite Cinderela” em homens ricos, vê a oportunidade de mudar de vida. Mas acaba sofrendo as conseqüências por se envolver em um ambiente que nunca foi o seu, fingindo ser quem não é. A reflexão gerada pelos infortúnios da moça e a atitude que ela toma diante destes, leva o leitor a raciocinar se um ato seria mau quando praticado contra a nossa pessoa, mas deixaria de sê-lo quando nós o praticamos? Estaria certo Sartre ao dizer que “o inferno são os outros”?

O personagem principal, e único não-fictício, aparece somente na metade do livro, e apenas em dois capítulos curtos, mas decisivos, pois ele é o elo entre todos os outros. Campo Elias é ex-combatente do Vietnã e não consegue adaptar-se à sociedade colombiana em que vive. Apesar de ocupar o seu tempo dando aulas particulares de inglês, as suas constantes brigas com a mãe idosa e com os vizinhos o tornam mais misantropo e misógino a cada dia. O fascínio de Campo Elias pelo homem-duplo, que possui dentro de si o bem e o mal, retratado na história de O Médico e o Monstro, dá vida ao terror da ficção de Stevenson.
Não sei o que acontece comigo. Vejo que as pessoas têm amigos, namoradas, colegas de trabalho, e me pergunto como fazem para se relacionar e fazer parte do grupo social. Minha sensação é o contrário disso: estou por fora, flutuante, periférico, e observo da minha posição distante o comportamento daqueles que me rodeiam e com os quais não me identifico. Vejo-os como bichos de outra espécie, animais estranhos cujo comportamento não para de me surpreender.” (pg. 116)
O título do livro pode assustar os religiosos mais conservadores, porém não deveria. Conhecer um problema que assola a todos (o Mal) e discuti-lo deveria ajudar tanto quanto um jogador de xadrez que estuda as jogadas do adversário. Contudo, tratar o Mal, ou qualquer outro assunto sério, como um tabu, não beneficia a ninguém. A tradução e revisão do livro são primorosas e, tirando um pequeno erro que só os mais fanáticos pela língua portuguesa perceberiam (um “obrigado” quando deveria ser “obrigada” na pg. 189), demonstram um jeito moderno e descomplicado (e porque não dizer nipônico?) de aprender o que mudou com a nova ortografia, sem esforço algum.

Acima dos dramas pessoais retratados acima, faz-se uma crítica direta aos problemas e a cultura colombiana, como a sujeição dos governantes do país ao controle externo em troca de comissões e subornos, o que acaba lembrando muito um certo país vizinho deles. E, vale ressaltar, o livro, apesar de trazer personagens fictícios, se baseia em um fato real ocorrido em 1986, em Bogotá, que mais tarde ficou conhecido como “O Massacre de Pozetto”. A adaptação para o cinema, Satanás (Colômbia, 2007), ganhou vários prêmios e traz poucas diferenças, a principal talvez seja a exclusão total da história do pintor Andrés, provavelmente para deixar a narrativa cinematográfica mais ágil e menos fantástica.




Encontre os melhores preços do livro no
Buscapé


Veja também:
- Entrevista em 2005 com Mario Mendoza, escritor e colega de faculdade de Campos Elias.