Meme: Quando a Sétima Arte Fala

Recebi este meme do Luciano e do Maldito e como sou viciado em filmes, faço a minha parte. O Meme nasceu no blog Máquina de Letras e já percorreu os 7 mares virtuais. Eis as tarefas:

1º. Escreva um post com uma citação que te marcou, retirada de um filme, indicando a personagem, o filme e um poster se puder.

- Frase: "Honestidade não é sinônimo de verdade." Pra quem não entendeu: não vou desenhar!
- Personagem: Billy Costigan (Leonardo DiCaprio).
- Filme: Os Infiltrados (The Departed, EUA, 2006), de Martin Scorcese.

2º. Indique cinco blogueiros pra continuar a brincadeira.

- A Jéssica do Sem Meias Palavras;
- A Jéssica do Contos no Papel;
- A Jéssica do... (brincadeira, hehe, duas já tá bom d+);
- A Lílian do Diarréia Verbal;
- A Adri do Reflexus de Mim (só pra ver se convenço ela a postar);
- A Poetriz do Poetriz (dãr).

Tá, gosto de mulheres, e daí?

Cartas à "Minha Amada Imortal", de Ludwig van Beethoven

Há uma lacuna na biografia de Beethoven: três cartas de amor sem destinatário encontradas junto ao seu testamento. Como a única referência à quem seria a paixão secreta do músico é "Minha Amada Imortal", foram muitas as teorias levantadas por historiadores e biógrafos, bem como diversas fraudes históricas tentando aproveitar a situação. Este fato rendeu até o filme Minha Amada Imortal (Beloved Immortal, Europa Filmes, 1994) e o livro A Gruta: Memórias da Amada Imortal (Pró-Libera, 2008) do brasileiro M. R. Menezes.

Como não encontrei nenhuma tradução boa das cartas, resolvi me arriscar sozinho a traduzí-las. Mas como não sou tradutor, peço ajuda aos que arranharem o inglês ou alemão melhor do que eu e tiverem algum tempo sobrando bem como vontade de colaborar. Seguem as três cartas traduzidas e alguns links para as versões em inglês, alemão e português.

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Manhã de 6 de julho [de 1812]

Meu anjo, meu tudo, meu ser. Apenas algumas palavras hoje, à lápis (o seu). Até amanhã a minha morada estará definida. Que desperdício de tempo. Por que [sinto] esta tristeza profunda quando a necessidade fala? Pode o nosso amor resistir ao sacrifício, em não exigir a totalidade um do outro? Pode mudar o fato de que você não é toda minha nem sou todo seu? Oh, Deus! Olhe para a beleza da natureza e conforte o seu coração com o que deve ser. O amor exige tudo e com razão. Assim, eu estou em você e você em mim. Mas você se esquece facilmente que preciso viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, você sentiria esta dor tão próxima quanto eu sinto. A minha viagem foi terrível; só cheguei ontem às 4 horas da manhã, uma vez que na falta de cavalos, o cocheiro escolheu um outro caminho, mas que caminho terrível. Na penúltima parada fui avisado para não viajar à noite, fiquei com medo da floresta, e isso só me deixou mais ansioso – e eu estava errado. O cocheiro precisou parar na estrada infeliz, uma estrada imprestável e barrenta. Se estivesse sem os apetrechos que levo comigo teria ficado preso na estrada. Esterhazy, percorrendo este caminho habitual, teve o mesmo destino com oito cavalos que eu tive com quatro. Senti algum prazer nisso, como sempre sinto quando supero com sucesso as dificuldades. Agora uma rápida mudança das coisas externas para as internas. Provavelmente nos veremos em breve, mas hoje não posso compartilhar contigo os pensamentos que tive durante estes poucos dias dias sobre a minha vida. Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum deles. O meu coração está repleto de coisas que gostaria de dizer-te. Ah. Há momentos que sinto esse discurso não ser nada. Alegre-se. Você permanece [sendo] a minha verdade, o meu tesouro, o meu tudo como eu sou o teu. Os deuses devem nos mandar o restante, aquilo que deve ser para nós e será. Seu fiel Ludwig.

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Segunda, noite de 6 de julho [de 1812]

Você está sofrendo, minha querida criatura. Só agora percebi que as cartas precisam ser enviadas nas segundas ou quintas de manhã bem cedo. Os únicos dias em que o correio vai daqui para K. Você está sofrendo. Ah, não importa onde eu estou, você está lá. Eu arrumarei isso entre eu e você para que possa viver contigo. Que vida!!! Assim!!! Sem você, perseguido pela bondade humana, o que pouco quero merecer é o que mereço. A humildade do homem diante do homem me machuca. E quando me considero em relação ao universo, o que eu sou e o que é Ele, a quem chamamos de maior, ainda assim, nisto reside a divindade do homem. Choro ao pensar que provavelmente não receberá a minha primeira carta antes de sábado. Por mais que você me ame, eu te amo mais. Mas nunca se oculte de mim. Boa noite. Devo ir dormir. Oh, Deus! Tão perto! Tão longe! Não é o nosso verdadeiro amor uma construção celestial, mesmo assim é firme como as colunas do céu?

***

Bom dia, em 7 de julho [de 1812]

Embora ainda esteja na cama, os meus pensamentos vão até você, minha Amada Imortal, agora felizes, depois tristes, esperando para saber se o destino nos ouvirá ou não. Eu só posso viver completo contigo ou não viver. Sim, estou decidido a vaguear assim por muito tempo longe de você até que possa voar para os seus braços e dizer que estou em casa, e poder enviar a minha alma envolta em você ao reino dos espíritos. Sim, isto deve ser tão infeliz. Você será mais contida quando souber da minha fidelidade à você. Outra jamais poderá ter o meu coração, nunca, nunca, Oh, Deus! Por que um precisa estar separado do outro quando se ama. E, no entanto, a minha vida em Viena é agora uma vida miserável. O teu amor me faz ao mesmo tempo o mais feliz e infeliz dos homens. Na minha idade eu preciso de estabilidade, de uma vida tranqüila. Pode ser assim na nossa relação? Meu anjo, acabo de ser informado que o carteiro sai todos os dias. Por isso devo terminar logo para que você possa receber a carta logo. Fique tranqüila, somente através da consideração tranqüila de nossa existência podemos atingir o objetivo de vivermos juntos. Fique tranqüila, me ame, hoje, ontem, desejos sofridos por você, você, você, minha vida, meu tudo, adeus. Oh, continue a me amar, jamais duvide do coração fiel de seu amado.
Sempre teu
Sempre minha
Sempre nosso.


Sites de referência
alemão
http://cynthiakremer.multiply.com/journal/item/4
http://www.beethoven-haus-bonn.de/hallo-beethoven/extern/ug-orginaltext.pdf (PDF)

inglês
http://www.all-about-beethoven.com/immortalbeloved.html

português
http://sanhas.blogspot.com/2006/05/carta-de-beethoven-amada-imortal.html
http://www.starnews2001.com.br/beethoven/bien_aimee.html

Justiça sem Limites "Boston Legal" (2007-2008) - 4ª temporada


4x20 SEASON FINALE - Patriotic Acts
Amizades são como o jardim dos fundos da casa. Planejamos arrumá-lo, mas sempre acabamos adiando para a próxima semana.

Ralph Waldo Emerson disse: "Um amigo pode muito bem ser considerado a obra-prima da natureza."


4x19 The Gods Must be Crazy
Eu tenho um grande respeito e apreço pela Igreja Católica. Como não poderia ter? Afinal de contas eu sou judeu. Vocês tornaram um dos nossos o Todo-Poderoso.

O terrível fato é que nós toleramos preconceito, nesse país, desde que seja disfarçado de fé... A religião é um mau legado... Eu acredito em Deus. Mas não podemos negar que a religião é um lugar que permitimos se alastrarem o ódio, a opressão e a discriminação, sendo tudo isso defendido na Constituição.

Por mais forte que seja a amizade, talvez ela não seja páreo para a inveja.

Se a igreja vai discriminar o governo, no mínimo, não deveria incentivar com isenção de impostos.

Um dos cabeças da NBC recentemente disse que o plano era fazer as pessoas sintonizarem no canal e dessintonizarem do mundo. E isso não foi uma admissão, mas um orgulho.

4x14 Rescue me
Esqueça do amor ao aprender. É entrar na universidade-troféu. Ganhar nota não é o mesmo que aprender. Muitas vezes são coisas isoladas. As crianças tornam-se peritas em fazer provas. Uma memorização, que elas esquecem assim que a prova termina. A competição criou uma cultura de cola. É tudo em torno de ganhar a vantagem. Nós vivemos numa sociedade que gosta de pontuação. Acontece na vida, acontece em casa e não podemos impedir que aconteça nas escolas.

4x10 Green Christmas
Lá no fundo as pessoas odeiam o meio ambiente... ações falam mais que palavras. Não importa o que falamos, considere o que fazemos.

4x08 Oral Contracts
Mark Twain disse: "Você vai para o céu pelo cliente mas para o inferno pela companhia."

4x06 The Object of my Affection
William Faulkner disse: "Fatos e verdade não têm muito a ver um com o outro."

4x05 Hope and Glory

Winston Churchill costumava beber na vitória porque ele merecia e na derrota porque ele precisava.

A esperança florece como o andar da tartaruga. (Hope Spring a Turtle)

Boston Legal é uma dramédia do canal ABC que mostra os bastidores da firma de advocacia Crane, Pool & Schmidt. Enquanto narra as desventuras dos advogados nada convencionais Alan Shore (James Spader) e Denny Crane (William Shatner), foca os atuais problemas jurídicos e sociais dos Estados Unidos da América. Veja mais na Wikipédia, IMDB (nota 8.9) ou no Site Oficial.

Escritores Sem Fronteiras

O escritor é o ser livre mais humano que existe. Para ele pouco importa a localização física, familiar ou financeira. Ele mesmo constrói a sua geografia, os seus amigos, amores e riqueza. Escritor é escritor não importa se está preso ou se vive na dinastia Ming. Mas é incompreendido pelos que não sofrem dos mesmos males que ele. Muitos, ou todos ao seu redor, não entenderão quando o virem exausto e cambaleante depois de uma árdua batalha com as muitas faces de si que resolveu criar misturando as coisas mais inesperadas como um sótão e um raio catalizador. Tampouco compreenderão a sua negativa em se aposentar de vez no próximo livro. Pois, apesar do seu corpo parecer definhar o seu espírito incendeia.

O escritor é cara mais narcisista e generoso que existe. Nega precisar de leitores, mas é fonte de alegrias e tristezas em multidões quando chega ao ponto final. Não se importa que não o leiam, pois ele mesmo é o seu primeiro e maior leitor, assim com o mais violento crítico. Ele escreve para suprir a sua dose de heroína diária, de chicotadas, de orações. E ainda é doador de alma tipo O positivo. Exijam toda a sua vitalidade e ele a dará. Sacrificará a vida pelas letras. Deixará como herança ecoando pelas eras o som das penas arranhando o papiro, do grafite sujando o Moleskine, dos toques na máquina de escrever pela madrugada afora ou das batidas frenéticas nas teclas do computador que não devolve o último manuscrito, pois o quer ler sozinho.

O escritor é uma criança que brinca de Deus. Depois cansa e passa para mocinho e bandido, cobra-cega e adedonha. Para ele, o que importa é imaginar. Criar mundos cheios de monstros, fazer o mocinho subir na torre enquanto a donzela foge com o ogro, vencer guerras onde um sozinho encara e vence zilhões e gente que vive se apaixonando pela pessoa errada. O escritor rejuvenesce e se eterniza a cada linha escrita. A vida pulula dentro dele. Os seus olhos são portais que, quando olhados bem de perto revelam outra dimensão: a que só ele vê mas quer convencer aos outros que existe de verdade. Qual dimensão é a real ele não sabe, mas passeia por ambas. Por isso, se um escritor sumir por algumas horas, pode saber que ele não está neste Universo.

O escritor é o filósofo das diferenças. Quando fala algo não emite uma opinião própria. Mostra tudo o que já foi dito e o que ainda não disseram. Mas se escreve “Eu quero voar” é ambíguo, deixa o leitor decidir se o "eu" é o escritor, o narrador, a personagem, o contexto ou se é uma fala do próprio leitor prevista pelo escritor.

O escritor, antes de tudo, vive mais, mesmo que morra jovem. Não vive um pouquinho de cada vez, vive tudo e um pouco mais sempre que ilumina palavras no horizonte escuro. Deixa um rastro para os bebês que ainda engatinham, mas que já se maravilham pensando o que será o tal do be-a-bá. Por isso, pouco importa a vida física do escritor. O que importa é o seu legado. Quantos Kafkas desconhecidos não terão enterrado tesouros com eles na morte por não terem um amigo infiel a quem confiar? Quantas epopéias escritas em papiro, couro, madeira, pedra, papel e que tal qual poemas escritos na areia não foram levados pelas ondas do tempo? Quantos não tiveram sótãos para se esconder enquanto eram perseguidos e dizimados? Quantos não terão computador nem internet para ler uma simples e boba homenagem ao Dia do Escritor?


Homenagem escrita em 25.07.2008 à todos os blogueiros escritores - amadores como eu ou não - que costumo acompanhar e que suportam as minhas besteiras vez por outra. São: Lendo.org, Mundo de K, A Fênix Apoplética, Sem Meias Palavras, Contos no Papel, Arredor de Mim, Máquina de Letras e Liberal Libertário Libertino. Me perdoem os que esqueci, mas este ano a quota foi esta. 1 abraço. JLM.

Como matar um bicho-papão - Parte V: FINAL

Leia também: Parte IV: O TRAUMA

A carta atingiu no alvo o ponto mais fraco de Andréa. Não foi um tapa na cara, foi um soco no nariz. Ela agora sangrava sem estar ferida. Andréa realmente tinha um segredo sujo em sua vida. Ela fazia sexo com Cairo, o seu pai, desde a adolescência. Nunca conhecera outro homem a não ser ele. Cairo não a deixara namorar ninguém. Sentia um ciúme louco até dos irmãos de Andréa. Ela, tentando esquecer o sentimento de culpa, plantou a ilusão em sua mente de que a sua vida, mesmo imperfeita, seguia os caminhos que Deus havia destinado a ela. Deus escreve certo por linhas tortas. Mais torta que a vida de Andréa, impossível. Então, se era para ela ser feliz como mulher do próprio pai, faria como nos tempos bíblicos, obedeceria resignada e lhe daria filhos. Contudo, quem não quis aceitar esta relação foi Alessandra, a mãe de Andréa. No dia em que pegou o marido e a filha transando na cama de casal, Alessandra pirou. Pegou uma faca e atacou Andréa. Era melhor uma filha morta do que uma filha amante do seu marido. Foi preciso chamar os vizinhos naquele dia para conter a fúria de Alessandra. Ou ela matava ou ela morria. O único jeito de calar Alessandra foi interná-la no hospício como doida varrida.

Mas os gritos e as maldições da mãe sobre a filha ainda ouvidos por Andréa sempre que o silêncio aparecia. Raiva de mãe é raiva divina. Andréa sentia só aumentar a dor, a vergonha e a depressão. Tanto que pensou várias e várias vezes em suicídio. Aquela carta simplesmente proclamava a sentença de uma condenação que Andréa cumpria faz tempo. Sem amigos nem parentes, a sua única alegria era dedicar-se integralmente ao pai-marido e aos dois filhos que tinha com ele. Mas era pouco. Aquilo não apaziguava o espírito de Andréa. Ela não vivia, definhava. Com o coração apertado, boca seca, pensamentos confusos, resolveu terminar de ler a carta que a trouxera de volta à dura realidade em que vivia.

"Filha, me perdoe por não te defender quando mais precisou de mim. Eu morreria mil vezes de novo por você, se pudesse. Mas não pude. O que posso fazer é te dizer que todo problema tem solução, mesmo que tardia. Só depende de você. Não agüente mais obedecer quem sempre te enganou e se aproveitou de você. Saiba que eu estou torcendo por você e aguardando o dia em que finalmente poderemos nos abraçar como pai e filha. Com amor, mais profundo que a morte, um beijo de teu pai, Jorge."

Um lampejo de esperança brilhou nos olhos de Andréa. Ela não era filha de Cairo. Ele abusara dela, se aproveitara de sua inocência infantil e a enganara todo o tempo, mas ela não era culpada. Os céus através daquela carta decidiram revelar que ela não era uma pecadora e não havia porque sentir-se suja. O seu verdadeiro pai se chamava Jorge e a amava como pai. Os seus olhos se encheram de lágrimas ao reler o trecho final da carta.

Neste instante, escutou o portão abrir-se. Olhou para o relógio: meio-dia. Andréa perdera toda a manhã lendo a carta e esquecera de fazer o almoço. Cairo iria ficar bravo, muito bravo. Mas era hora de Andréa dar um basta. Andou até o quarto. Ouviu a porta da cozinha abrir. Subiu na cama e pegou uma caixa de sapatos em cima do guarda-roupas. “Andréa, cadê meu almoço, trem?”, ouviu Cairo gritar da sala. Andréa sentou-se na cama e colocou as balas no tambor do revólver. Engatilhou no momento em que Cairo entrava no quarto. Ambos se olharam sabendo o que iria acontecer.

Na rua, dois garotos com uniformes escolares apostavam corrida até o portão para ver quem chegava primeiro quando ouviram o estampido vindo de dentro da casa.

[Continua: Parte VI: EPÍLOGO]

A Desobediência Civil e Outros Escritos, de Henry David Thoreau

Rebeldia selvagem e consciente

Thoreau foi desconhecido para mim até este ano. Como nada na minha vida acontece por acaso, assistir um dos episódios da série Justiça sem Limites (20th Century Fox, 2006) sobre um caso de desobediência civil me fez pesquisar sobre o assunto e chegar ao escritor. Assim, descobri que a vida e os escritos de Thoreau são, além de inteligentes, estimulantes.

Henry David Thoreau (1817-1862) foi um ensaísta norte-americano que, depois de formar-se, passou dois anos vivendo isolado da civilização, em contato direto com a natureza. Fazia tudo sozinho, construiu uma cabana na beira do lago, caçava, pescava e usufruía da floresta. Dessa experiência pôde extrair vários pensamentos filosóficos sobre o homem, a vida e a civilização. Dessa experiência resultou o livro Walden ou A Vida nos Bosques, um clássico sobre a observação filosófica da vida selvagem. Certa vez, Thoreau foi à cidade pegar umas botas que havia deixado no sapateiro (isso era uma das coisas que ele não conseguia fazer sozinho na mata) e foi preso por não pagar os impostos que custeavam a guerra contra o México. Ele não havia pago conscientemente, como protesto contra um ato do governo que não apoiava, pois era contrário à escravidão negra e à exploração colonialista. Diz-se que passou uma noite na cadeia, resultando no ensaio A Desobediência Civil, no qual defende que todo homem tem o direito de desobedecer uma lei se esta ofender uma lei superior, moral, natural, fundamental do homem. Esta bandeira mais tarde foi levantada por Gandhi, Martin Luther King Jr., pelo movimento hippie, entre outros. Depois, lecionou em algumas universidades até falecer com 45 anos, devido à tuberculose.

O livro A Desobediência Civil e Outros Escritos (Martin Claret, 2005) traz cinco ensaios do naturalista, comentados individualmente a seguir.

1. A desobediência civil.

Um dos clássicos políticos de todos os tempos. Muitas das críticas às deficiências do governo ou daqueles que governam são tão atuais que, apesar de terem sido escritas há mais de 150 anos, lembram muitas deficiências dos governos atuais, incluindo o brasileiro. Thoreau não defende a anarquia, como muitos alegam, pois disse: “Desejo imediatamente é um governo melhor, e não o fim do governo.” (pg. 15). Thoreau critica os que obedecem o governo sem pensar, sem questionar se as ações dos governantes são certas. Ensina que o verdadeiro cidadão é participativo. “O direito à revolução é reconhecido por todos, isto é, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis sua tirania e ineficiência.” (pg. 17). “Diante de um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é a prisão inevitavelmente.” (pg. 25). “Sai mais barato sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer.” (pg. 29). Thoreau prega que os direitos do homem são maiores que as leis do Estado e que o Estado deve servir aos homens e não o contrário. Segundo o escritor, um homem se submete a leis injustas por receito de perder os seus bens. Assim, quanto mais rico for, menos virtuoso será. Por fim, tece críticas aos que julgam a Constituição dos EUA e a Bíblia como verdades definitivas e imutáveis sobre os direitos do cidadão.

2. Andar a pé.

Thoreau disserta sobre a arte de caminhar. Além de fazer uma análise histórica dos andarilhos, também mostra como uma caminhada faz bem ao pensamento e a meditação. Mas precisa ser em uma mata ou floresta, retornando às origens remotas e selvagens do homem, para livrar-se dos excessos do dia-a-dia. “As horas de treva são tão necessárias aos corpos inorgânicos como sabemos serem a noite e o sono necessários ao reino orgânico.” (pg. 64).

3. Walden*.

Reproduz apenas um trecho do texto original. Apesar do ensaio falar sobre a natureza, o trecho escolhido fala sobre a leitura e o conhecimento.
Sempre que nos preocupamos em acumular riquezas para nós mesmos ou para nossa posteridade, em constituir uma família ou um Estado, ou mesmo em adquirir fama, tornamo-nos mortais. Todavia, quando procuramos a substância da verdade tornamo-nos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes.” (pg. 73).
O ensaio surpreende por ser bastante semelhante (não às palavras, mas ao estímulo) ao livro A Arte de Escrever, de Schopenhauer. Assim como o escritor alemão, Thoreau critica a má formação dos leitores pela busca de literaturas fáceis, superficiais e recentes.
Satisfaz-se a maioria dos homens por conseguir ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos provavelmente por sua sabedoria. Então, pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.” (pg. 78).
4. Um passeio num inverno rigoroso.

Um homem saudável é um complemento das estações e, no inverno, traz o verão no coração.” (pg. 89). Com passagens iguais a esta, Thoreau descreve uma caminhada de sua casa na cidade, numa manhã de inverno, até a zona rural, com descrições do que vê pelo caminho. É uma verdadeira aula sobre a escrita descritiva, pois é impossível o leitor não ver cenas bem à sua frente.

5. Uma semana nos rios Concord e Merrimack*.

São cinco trechos retirados do ensaio original sobre a opção de leitura dos conterrâneos de Thoreau por textos bíblicos ou de pouca profundidade. “Com isso não quero dizer que sou melhor que meus vizinhos. Sei que sou apenas igual a eles, só que gosto demais de livros do que eles.” (pg. 105). O segundo trecho fala sobre conhecimento, liberdade e política. “A falta de conhecimento não é o que faz os homens cometerem erros. O que os faz errar freqüentemente é a falta de prudência... Não precisamos saber muito para agir bem na maioria das vezes.” (pg. 110). Thoreau compara a leitura e a prática dos ensinamentos do Novo Testamento com os do Bhagavad-Gita hindu. Este último “Até mesmo pelos ianques deve ser lido, como parte dos escritos sagrados de um povo devoto. O hebreu inteligente ficará muito feliz de encontrar ali uma grandeza moral e uma sublimidade semelhantes como as de suas próprias escrituras.” (pg. 122). Mas há também diferenças, das quais seria que “O brâmane não propõe um ataque decisivo ao mal. Prefere matá-lo de fome pacientemente.” (pg. 120). Várias citações do Bhagavad-Gita são explicadas e outra obra que também aparece é o livro As Leis de Manu, igualmente hindu. “O livro de Manu é mais próximo e íntimo do que o conselho de nossos melhores amigos.” (pg. 126).

***

*Cabe para A Desobediência Civil e Outros Escritos a mesma crítica feita para A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer (L&PM Editores, 2007), pois ambos possuem a frase “TEXTO INTEGRAL” nas capas e contra-capas quando não é verdade. Dos cinco ensaios de Thoreau escolhidos, dois (Walden e Uma semana nos rios Concord e Merrimack) são somente trechos selecionados. Apesar do aviso no início dos dois textos alertar que são apenas trechos (no caso de Walden o certo seria trecho, pois é apenas uma passagem) não deveria constar no exterior dos livros “TEXTO INTEGRAL”, pois algumas livrarias vendem os livros lacrados e não há como o comprador descobrir que está levando trechos ao invés do texto todo.

Thoreau fornece lenha para o fogo do pensamento próprio. As suas palavras são mordazes, destemidas e únicas. Não admira ter influenciado pensadores como Tolstói, Gandhi, William O. Douglas, Martin Luther King e John F. Kennedy. A filosofia rebelde e selvagem vai além, mostra que todos podem e devem agir para obtermos um mundo mais justo. Pois “tal qual o nobre de bom gosto se serve de tudo que possa enriquecer sua cultura – o gênio, a erudição, a inteligência, livros, pinturas, esculturas, música, ferramentas filosóficas etc. –, devemos influenciar nossa aldeia a fazer o mesmo.” (pg. 82).

leitura: Julho de 2008
obra: A Desobediência Civil e Outros Escritos, de Henry David Thoreau
tradução: Alex Marins
edição: 1ª, Editora Martin Claret (2005), 133 pgs
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Excelente

Zeitgeist - O Filme (2007)

[atualizado em 27/10/2008]
Zeitgeist ou Espírito do Tempo: Termo alemão que exprime o avanço intelectual e cultural do mundo numa época. Na versão final do documentário para o Brasil foram acrescentadas algumas citações agora transcritas abaixo e que, infelizmente, não aparecem na versão disponibilizada no Google Vídeos.
Chögyam Trungpa Rinpoche: "A espiritualidade é um termo específico que na verdade significa lidar com a intuição. Na tradição teísta há a noção de apego a um conceito. Um certo ato é considerado como não aceitável para um princípio divino. Um certo ato é considerado aceitável para o divino. Na tradição do não-teísmo, no entanto, é bastante direto que os casos da história não são particularmente importantes. O que é realmente importante é o aqui e o agora. O agora é definitivamente agora. Nós tentamos viver o que está disponível ali no momento. Não faz sentido pensar que existe um passado que poderíamos ter agora. Isto é agora. Este precioso momento. Nada místico, apenas "agora", muito simples, direto. E desse "agora", contudo, emerge sempre um sentido de inteligência de que estamos constantemente em interação com a realidade, um por um. Lugar por lugar. Constantemente. Nós na realidade vivemos uma fantástica precisão, constantemente. Mas nós sentimo-nos ameaçados pelo "agora" e saltamos para o passado ou o futuro. Prestando atenção aos bens materiais que existem na nossa vida, esta vida rica que nós levamos, todas as escolhas tomam lugar a todo o momento, mas nenhuma delas é considerada boa ou má, porque se todas as coisas que vivemos são experiências incondicionais, elas não vêm com uma etiqueta dizendo "isto é considerado mau" ou "isto é bom". Mas nós vivemo-las mas não tomamos a atenção devido a eles. Nós não damos conta que vamos a algum lado. Nós consideramos isso um incômodo. Esperar pela morte. Isso é um problema. É o não confiar propriamente no "agora", que aquilo que vivemos agora possui muitas coisas poderosas. É tão poderoso que nós somos incapazes de o enfrentar. Consequentemente, temos que emprestar do passado e convidar o futuro a todo momento. E talvez seja por isso que procuramos a religião. Talvez seja por isso que andamos na rua. Talvez seja por isso que nos queixamos à sociedade. Talvez seja por isso que votamos nos presidentes. É bastante irônico... Na verdade muito engraçado."

Jordan Maxwell: "Quanto mais você começa a investigar aquilo que pensamos conhecer, de onde viemos, aquilo que pensamos estar fazendo, mais começamos a perceber ao que estamos submetidos, estamos submetidos a todas as instituições. O que te faz pensar por um minuto, a razão pela qual a Religião foi a única instituição que até hoje nunca foi "tocada"? As instituições religiosas sempre estiveram na base de toda a porcaria deste mundo. As instituições religiosas são postas neste mundo, pelas mesmas pessoas que governam a sua vida e a sua educação corrupta, que preparam cartéis de bancos internacionais. Porque nossos “Mestres” não dão a mínima para você ou sua família. Tudo com que eles se preocupam e com o qual sempre se preocuparam é em controlarem esse mundo inteiro. Nós fomos desviados da verdadeira e divina presença no universo que os homens tem chamado de "Deus". Eu não sei o que Deus é. Mas tenho certeza do que Ele não É. E até que esteja preparado para olhar para a realidade, ir até onde for preciso, independentemente de onde nos possa conduzir, mesmo que queira enfiar a cabeça na areia ou jogar no time que está ganhando, chegará um ponto em que irá descobrir que tens brincado com a justiça divina. Quanto mais você educa sua mente, mais você compreende as origens de tudo mais óbvios se tornam os fatos e mentiras surgem por todos os lados. Você tem que saber a Verdade, procurar a verdade e ela te libertará."

"Eles devem achar difícil... Aqueles que tomaram a autoridade pela verdade, em vez da verdade pela autoridade." (G. Massey, egiptólogo)

George Carlin: "Se tratando de enrolação, a maior conversa fiada de todos os tempos, você tem que tremer um pouco e concordar. O campeões de todos os tempos no que diz respeito a falsas promessas e exageros é a Religião. Pensem um pouco. A Religião definitivamente convenceu as pessoas que há um homem invisível que mora no céu que vigia tudo o que você faz, todos os minutos do seu dia e o homem invisível tem uma lista especial de dez coisas que ele não quer que você faça e se você fizer quaisquer destas dez coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo, fumaça, queimaduras, torturas e sofrimento, para o qual vai te mandar para viver, sofrer, arder, sufocar, gritar e chorar para todo o sempre até ao fim da eternidade... mas ele te ama! Ele te ama... e precisa de dinheiro! Ele sempre precisa de dinheiro! Ele é todo-poderoso, sabe tudo e tem tudo, mas de alguma forma... precisa de dinheiro! A Religião lida com bilhões de doláres, não pagam impostos e precisam sempre de um pouco mais. Agora, contem-me uma enganação maior que essa... enrolação sagrada."

Bill Hicks: "Cristianismo fundamentalista, fascinante. Eles pensam realmente que o mundo tem apenas 12,000 anos. Eu perguntei: "OK, e os fósseis dos Dinossauros?" Respondeu: "Fósseis de Dinossauro? Deus colocou-os lá para testar a nossa fé!" "Eu acho que o teu Deus te colocou aqui para testar a minha fé!"

"A religião Cristã é uma paródia à adoração do sol, onde colocaram um homem chamado Jesus Cristo em seu lugar, e começaram a entregar esse personagem a devoção que entregavam ao sol." (Thomas Paine - 1737/1809)

Jordan Maxwell: "Nós não queremos ser indelicados, mas temos que ser factuais. Não queremos magoar sentimentos, queremos ser academicamente corretos, naquilo que compreendemos e sabemos ser verdadeiro. O Cristianismo simplesmente não é baseado em verdades. Consideramos que o cristianismo foi apenas uma história romana, desenvolvida politicamente."

"A religião nunca poderá reformar a humanidade porque a religião é escravidão." (Robert G. Ingersoll - 1833-1899)

David Ray Griffin: "Um mito é uma falsa ideia que é amplamente seguida. No contexto religioso, opera como uma história que guia e mobiliza povos. O essencial não está na credibilidade da história mas sim na forma como funciona. Uma história não funciona se não tiver uma comunidade ou nação que acredite nela. Nunca será matéria de debate questionar a veracidade da história sagrada. Os guardiães dessa fé nunca participarão num debate com eles. Os questionadores serão ignorados, ou denunciados como hereges e blasfemos."

Porque vocês e 62 milhões de americanos estão me vendo neste momento? Porque menos de 3% de vocês lêem livros. Porque menos de 15% de vocês lêem jornais. A única verdade que conhecem é aquela que vem desta caixa. Existe uma geração inteira que não conhece nada que não tenha saído dessa caixa! Ela é a verdade absoluta, a última revelação. Ela pode construir ou destruir presidentes, papas, primeiros-ministros. É a força mais maravilhosa e poderosamente maldita deste mundo, e ai de nós se algum dia cair nas mãos erradas. E quando a maior empresa do mundo controlar a maior e mais perfeita máquina de propaganda criada, quem saberá que merda será tomada como verdade através da programação! Prestem atenção... prestem bem atenção. A Televisão não é a verdade. A Televisão é uma droga de um parque de diversões. É um circo, carnaval, uma parada de acrobacias, cantores, malabaristas, domadores de leões e jogadores de futebol. É a matança do aborrecimento. Mas vocês sentam lá, todo dia, toda noite, todas as idades, cores, credos. Nós somos tudo aquilo que vocês conhecem. Vocês começam a acreditar nas ilusões que pomos aqui, acreditam que esta caixa é a realidade e as suas vidas não são reais. Vocês fazem tudo o que a caixa lhes diz pra fazer. Vocês vestem-se como a caixa, comem como a caixa, criam as crianças como vêem na caixa e até pensam como os seres da caixa. Isto é alienação em massa, seus dementes! Vocês é que são reais, pensem!, nós somos a ilusão.

Se quiser assistir o filme, ele está disponível abaixo no Google Vídeos. Com duração de 1h58 e com legendas.


Veja também:

A dor que dói mais, de Martha Medeiros


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Dóem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua surfando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros (1961) é escritora gaúcha. A dor que dói mais foi publicado originalmente em 20 de Julho de 1998 na extinta coluna assinada por ela no site "Almas Gêmeas". Circula desde então pela internet falsamente atribuído a Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor e Miguel Falabella.

Vida e Doutrina - Os Analectos, de Confúcio

Confúcio (ou mestre Kong Fu Tseu) foi um grande sábio da China, que viveu entre 551 a.C. e 479 a.C., e deixou ensinamentos políticos e morais seguidos e válidos até hoje. O confucionismo influenciou toda a Ásia. Confúcio era pobre e morava no estado de Lu, uma espécie de "terra santa" chinesa.

O livro de Múcio P. Ferreira divide-se em 3 partes: a vida de Confúcio, a doutrina de Confúcio (Confucionismo) e Os Analectos. Este último é uma seleção de máximas que o mestre deu como respostas à algumas dúvidas de seus discípulos. A pesquisa e tradução usadas neste volume vêm de fontes inglesas e francesas.

Se categorizarmos os ensinamentos de Confúcio, eles se encaixam em 3 categorias: respeito aos pais, a arte de governar bem e a busca pela sabedoria. Confúcio não fundou nenhuma religião, apesar de seus conselhos tratarem basicamente sobre a ética e a moral. "Os problemas superiores da metafísica, como a verdade absoluta e o além da morte, não integram a filosofia de Confúcio; dão apenas lugar a considerações e interesses mais terrenos, prendendo-se às necessidades imediatas do homem" (pg. 42). Talvez por isso membros de diversas religiões considerem os ensinamentos de Confúcio como de fácil aplicação, pois muitos de seus preceitos assemelham-se bastante a ensinamentos filosóficos ou religiosos de outros mestres (como os de Jesus Cristo, Epicteto, etc.). Diz-se que Confúcio chegou ao ponto em que
"ao ouvir um trecho musical, de fazer o retrato físico e moral do autor e ainda das circunstâncias em que havia composto a melodia. 'De igual modo, deveríamos, ao escutar uma frase, observar um gesto, penetrar o caráter de uma pessoa. Os sons - palavra, poesia, música - representam a expressão de um movimento do coração e do espírito, de uma emoção provocada por uma causa exterior. Esta causa está ligada à emoção que, por sua vez, rege a expressão. E o todo forma uma cadeia cujos elos não se interrompem. Pela expressão, dever-se-ia chegar à emoção, depois à causa. E como nossa natureza é formada por nossas aptidões para sentir certas emoções e não outras, e como as emoções habituais forjam nosso corpo, conhecer a emoção de um homem significa conhecer o próprio homem'" (pg. 29-30).
Ao contrário de Maquiavel, em O Príncipe, Confúcio ensina "a menos agressiva das doutrinas" (pg. 39) em que o governante deve ser exemplo de virtude para o povo. O exemplo deve vir de cima. Tanto que, nos breves períodos em que pôde exercer um cargo administrativo, os comerciantes desonestos não viam outra alternativa a não ser praticarem a honestidade. "A virtude jamais caminha só: um homem virtuoso consegue logo imitadores" (pg. 73). Mas "se o povo estava satisfeito, gozava de liberdade e de ordem, os senhores das grandes clãs e os membros da família soberana viam seu poder decrescer diante da limitação imposta pela Razão, pela Eqüidade e pela Reciprocidade" (pg. 24). Confúcio peregrinou em diversos lugares tentando divulgar os seus princípios aos governantes, mas decepcionado com o pouco caso destes, desistiu e retirou-se da vida política.

Confúcio louva em seus ensinamentos as virtudes de alguns discípulos, bem como revela os defeitos de outros. Ele também nos mostra como extrair a sabedoria de situações corriqueiras como uma conversa, uma música, um passeio. Mas sem dúvida, uma das passagens mais memoráveis da literatura e filosofia chinesa é o encontro entre o jovem Confúcio e o idoso Lao Tsé, conhecido como O Velho. Confúcio foi tão influenciado pela sabedoria do mestre que disse mais tarde:
"Acabo de ver um homem que alça a grandes alturas os seus pensamentos [...] Da minha parte, gosto que os meus pensamentos [como pássaros] fiéis sigam um caminho sempre rasteado e alcancem sempre a presa. Acabo de ver um homem cujas idéias são tão misteriosas e inacessíveis como um abismo. [...] Dos pássaros, sei que podem voar, [...] Com referência aos dragões, ignoro se eles voam com a tempestade ou cavalgam as nuvens na imensa pureza do céu. Vi lá Tsé como quem contempla um dragão. O queixo caiu-me e não pude respirar. Meu espírito, extraviado, não sabia onde pousar" (pg. 19).
Seguem algumas máximas de Confúcio:

Sobre o governo:
Um governo opressor é mais temível que os tigres.

Um grande ministro é aquele que serve o seu príncipe de acordo com as regras da justiça e, desde que assim não mais possa fazer, se retira.


Que o príncipe cumpra seus deveres de príncipe; o súdito, os deveres de súdito; o pai, os deveres de pai; o filho os deveres do filho.


Governar ou dirigir homens é fazê-los seguirem o caminho reto. Se vós mesmo, Senhor, marchias à frente, no caminho reto, quem ousaria não vos seguir?


Não instruir seus súditos e puni-los de morte quando infringem as leis, é crueldade.
Sobre o respeito aos pais:
O sábio toma o maior cuidado com a raiz. Esta, uma vez fortalecida dá vida ao tronco e aos galhos. A afeição por nossos pais e o respeito pelo que nos são superiores são as raízes da virtude.

Se teus pais cometerem uma falta, adverte-os com doçura. Se os vires determinados a não seguir os teus conselhos, redobra as provas de respeito e reitera tuas admoestações. Ainda que te maltratem, não guardes nenhum ressentimento.
Sobre a sabedoria:
O sábio não se aflige porque os homens não o conhecem; ele se aflige por não conhecer os homens.

O sábio começa por fazer o que quer ensinar; depois, ele ensina.

Aquele que não sabe o que é a vida como poderá saber o que é a morte?


Ouvir ou ler sem refletir é uma ocupação inútil; refletir sem livro nem mestre é perigoso.


Um homem sábio não ambiciona ter como tesouro senão a virtude.

Aquele que pela manhã compreende os ensinamentos da sabedoria pode, à tarde, morrer contente.


A virtude perfeita consiste não em socorrer todos os homens, sem exceção, o que é impossível, mas em julgar os outros por si mesmo e os tratar como desejaríamos que nos tratassem a nós mesmos.

Quando virdes um homem sábio, pensai em igualá-lo em virtudes. Quando virdes um homem desprovido de virtudes examinai-vos, verificai se não vos pareceis com ele.

O sábio aplica-se em ser lento no falar e diligente no agir.


Não corrigir-se após uma falta involuntário é cometer uma falta verdadeira.


Antigamente, os ignorantes eram simples e direitos; agora, eles são falsos.

O sábio detesta aqueles que proclamam os defeitos e as faltas dos outros.
leitura: Julho de 2008
obra: Confúcio: Vida, Doutrina e Analectos, organização de Múcio Porphyrio Ferreira
edição: 6ª, Editora Pensamento (1997), 115 pgs
preço: Compare os preços no BuscaPé
Bom

Na hora

"A pontualidade é um defeito que poucos tem a sorte de ter."
(Jefferson Luiz Maleski)

Micro e macro

"Eu sou uma célula no corpo de Deus,
e Deus para uma célula em meu corpo."

(Jefferson Luiz Maleski)

Gênesis, TEB

Gênesis é o primeiro livro da Torá judaica e da Bíblia cristã. Por narrar a criação em forma de mito é um dos livros bíblicos mais atacados por cientistas e ateus. Mas o fanatismo científico é tão prejudicial quanto o religioso. Antes de criticar um livro, leia ele. A palavra gênesis significa "no princípio" e poderíamos sintetizar os 50 capítulos em 9 eventos ou personagens principais:
1. A criação (1)
2. Adão e Eva (2-3)
3. Caim e Abel (4)
4. Noé e o dilúvio (5-11)
5. Abraão, Ló e Sodoma e Gomorra (12-23)
6. Isaque (24-26)
7. Esaú e Jacó (27-33)
8. Os 12 filhos de Jacó (34-36, 49-50)
9. José do Egito (37-48)
O que mais salta aos olhos na TEB é a não tradução de nomes de pessoas e lugares para a língua portuguesa. Assim, ao invés das escritas mais usuais, aparecem Shet (Sete), Henoc (Enoque), Metushálah (Metusalém), Shem (Sem), Ham (Cã), Iéfet (Jafé), Nimrod (Ninrode), Lot (Ló), Malki-Sédeq (Melquisedeque), Qadesh (Cades), Isaac (Isaque), Leá (Léia) etc. Uma das inconsistências é que Canaã foi mantido, mesmo sendo filho de Ham e seu nome derivar do nome do pai. Provavelmente manteve-se os nomes da tradução francesa em que a TEB se baseou ou buscou-se aproximar-se das pronúncias judaicas atuais naquela região, o que é algo infantil de se fazer. Quem mora no Brasil vai falar a pronúncia daqui, ainda mais se pronúncia estrangeira for estranha aos ouvidos brasileiros. Usar Iéfet ao invés de Jafé obrigaria o uso de Iéxua ao invés de Jesus. Ou a regra vale para todos ou não vale para nada.

Algumas palavras poderiam ser substituídas por outras mais fáceis para o leitor comum: prolífico, clarividência, cardo, cimos, migrante, plátano, alburno, terebinto, goma adraganta, ládano, hieródula, sarmentos, macérrimas, amanho, corvéia, áspide etc. As referências ao ato sexual são muitas vezes confusas: conhecer ("tenho duas filhas que não conheceram homem"), deitar ("Tomou-a e deitou-se com ela"), tomar ("eu a tomei para mim por mulher"), vir ("não há homem na região para vir a nós"). A menstruação é "aquilo que acontece às mulheres".

Sem dúvida, uma das passagens que mais ficaram estranhas na TEB foi a de Gênesis capítulo 18 versículo 12: "Sara pôs-se a rir consigo mesma e disse: 'Murcha como estou, poderia eu ainda gozar? E meu senhor é tão velho!'"

A tradição judaica acredita que as histórias contidas em Gênesis foram retransmitidas oralmente, sendo assentadas por escrito somente na época dos reis de Israel. Dentre as histórias mais belas já escritas pelo homem encontra-se a de José, vendido por seus irmãos como escravo ao Egito que, anos depois, assumindo o posto de representante do faraó, tem a oportunidade de salvar a sua família. É uma lição de humildade, perdão e bondade. Gênesis traz também textos considerados proféticos, que iriam cumprir-se muitos anos depois, alguns em Jesus Cristo. Mesmo que o leitor considere um mito, é bem mais educativo que a novela das 8.
"De fato, o aspecto da transferência de atributos, de umas personagens para as outras é facilmente reconhecida no próprio livro em si. No Antigo Testamento há a história de José. José era um protótipo de Jesus. José nasceu de um milagre, Jesus nasceu de um milagre. José tinha 12 irmãos, Jesus tinha 12 discípulos. José foi vendido por 30 peças de prata, Jesus foi vendido por 30 peças de prata. Irmão "Judá" sugere a venda de José, o discípulo "Judas" sugere a venda de Jesus. José começa os seus trabalhos aos 30, Jesus começa aos 30 também. Os paralelismos continuam." (trecho do filme Zeitgeist)
O tempo de vida dos personagens bíblicos em Gênesis também é de uma sequência peculiar (note o gradual decréscimo):
Adão - viveu 930 anos.
Shet - 912 anos.
Enosh - 905 anos.
Henoc - 365 anos ("
desapareceu: Deus o arrebatara", 5:24).
Metushálah - 969 anos (quem mais viveu entre os homens).
Noé - 950 anos (Deus decreta: "
os dias do homem serão 120 anos", 6:3).
Shem - 600 anos.
Abraão - 175 anos.
Isaac - 180 anos.
Jacó - 147 anos.
José - 110 anos.
Seguem alguns versículos e comentário para reflexão:
3:4-5 - A serpente disse à mulher: "Não, vossa morte não está marcada. É que Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, possuindo o conhecimento do que seja bom ou mau." (outros mitos, como o de Prometeu, falam da descoberta do conhecimento pelo homem como a origem do mal)

3:7,21 - Os olhos de ambos [Adão e Eva] se abriram e souberam que estavam nus. Tendo costurado folhas de figueira, fizeram tangas para si. [...] Deus fez para Adão e sua mulher vestiduras de pele, com as quais os vestiu. (se nem fazer roupas decentes o homem conseguia, que conhecimento é esse que ele ganhou comendo do fruto?)

3:17-18,29;8:21 - Ele [Deus] disse a Adão: "Por teres escutado a voz da tua mulher e comido da árvore da qual eu te havia formalmente prescrito não comer, o solo será maldito por sua causa. É com fadiga que te alimentarás dele todos os dias da tua vida; ele fará germinar para ti espinho e cardo, e tucomerás a erva do campo." [...] [Lémek] Deu-lhe o nome de Noé dizendo: "Ele nos reconfortará dos nossos trabalhos e da fadiga que um solo maldito pelo SENHOR impõe às nossas mãos." [...] O SENHOR aspirou o perfume aplacador e disse a si mesmo: "Nunca mais amaldiçoarei o solo por causa do homem. Sem dúvida, o coração do homem se inclina para o mal desde a sua junenturde, poirém nunca mais flagelarei todos os viventes como fiz." (o solo estava amaldiçoado desde Adão até Noé, mais tarde se revela quem foi o primeiro agricultor)

4:17 - Caim conheceu sua mulher, que engravidou e gerou Henoc. Caim pôs-se a construir uma cidade e deu à cidade o nome do seu filho Henoc. (provavelmente uma irmã de Caim, pois Adão e Eva tiveram "filhos e filhas". Caim foi o primeiro prefeito também)

6:4 - Naqueles dias, os gigantes estavam na terra; e ainda estavam nela quando os filhos de Deus vieram ao encontro das filhas de homem e tiveram filhos delas. São os heróis de outrora, homens de renome. (lendas como a de Hércules, deuses e semi-deuses gregos têm base bíblica)

9:20 - Noé foi o primeiro agricultor. Plantou uma vinha e tomou o vinho dela, embriagou-se e encontrou-se nu no interior da sua tenda. (ou seja, todo homem tem a capacidade de pegar algo bom e estragar, até Noé)

19:26-28 - A mulher de Lot olhou para trás e se tornou uma coluna de sal. [...] Abraão... lançou o olhar sobre Sodoma... e viu que uma fumaça subia da terra como a fumaça de uma fornalha. (porque só ela virou sal se ambos fizeram a mesma coisa ao mesmo tempo? machismo? magina...)

20:2;26:6-8 - Abraão disse de sua mulher Sara: "É a minha irmã", e Abimélek, rei de Guerar, tomou-a para si. [...] Isaac passou a habitar em Guerar. A gente do lugar o inquiriu acerca de sua mulher. "É minha irmã", respondeu ele. Receava dizer que era sua mulher, temendo ser morto pela gente do lugar devido à beleza fascinante de Rebeca. Lá, ele passara longos dias, quando Abimélek, rei dos filisteus, olhou pela janela e viu que Isaac se divertia com Rebeca, sua mulher. (dejavú: coincidência estranha acontecer em tempos diferentes a mesma situação no mesmo lugar com pai e filho)

38:15 - Judá a viu e a tomou por uma prostituta, pois estava com o rosto coberto. No caminho foi ter com ela e disse: "Eis, eu me deito contigo!" Pois não tinha reconhecido que era sua nora. Ela respondeu: "Que me dás para comigo deitares?" [...] Ora, três meses depois, informaram a Judá: "Tua nora Tamar se prostituiu. Ainda mais, ei-la grávida de sua prostituição!" "Seja posta fora e queimada!" retrucou Judá. (num só versículo, aparecem como normais a prostituição e o sexo com parentes. o casamento levirato era uma forma da decêndencia de um falecido não desaparecer, mas os filhos dessa relação aqui não foram computados mais tarde como do filho de Judá, mas dele. outro detalhe: enquanto ele, viúvo, podia dar suas escapadinhas, ela, viúva, não podia. machismo? queisso)

39:1,6-8 - Tendo José descido ao Egito, Potifar, eunuco do Faraó, o despenseiro-mor egípcio, adquiriu-o das mãos dos ismaelitas que o haviam levado para lá. [...] Ora, José era belo de rosto e de porte e, após esses acontecimentos, a mulher do seu senhor deitou-lhe os olhos e lhe disse: "Deita-te comigo". (tá explicado a reação da mulher: o marido dela era eunuco!!!)

Alguém me disse, de Carla Bruni


Em Francês (Quelqu'un M'a Dit)

On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses,
On me dit que le temps qui glisse est un salaud,
Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux.

Pourtant quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore,
Serais ce possible alors ? (refrain)

On me dit que le destin se moque bien de nous,
Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout,
Paraît que le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou.

Pourtant quelqu'un m'a dit...

Mais qui est-ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?

Je ne me souviens plus, c'était tard dans la nuit,
J'entends encore la voix, mais je ne vois plus les
traits, "Il vous aime, c'est secret, ne lui dites pas
que je vous l'ai dit."

Tu vois, quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore,
Me l'a t'on vraiment dit que tu m'aimais encore,
Serait-ce possible alors ?

On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses,
On me dit que le temps qui glisse est un salaud,
Et que de nos tristesses il s'en fait des manteaux.

Pourtant quelqu'un m'a dit...


Tradução (Alguém me Disse)

Falam que nossas vidas não são grande coisa,
Elas passam em um momento como as rosas.
Falam que o tempo é um canalha
Que nossas tristezas são aparência
No entanto alguém fala para mim...

Refrão
Que você ainda gosta de mim,
Alguém que me disse que você ainda gosta de mim
Sera isto possível então?

Falam me que o destino se diverte conosco
Que não nos dá nada e que nos promete tudo
Que a felicidade está dentro do alcance,
Então um aperta a mão e se encontra
No entanto alguém fala para mim...

Refrão

Mas quem me disse que você gosta de mim?
Eu não recordo mais, estava atrasada na noite,
Eu ouço ainda a voz, mas eu não vejo o rosto
"ele ama você, isso é segredo, não lhe diga que eu disse a você"
Você vê alguém dizendo a mim...

Que você ainda gosta de mim, você disse isso realmente...
Que você ainda gosta de mim, seria isto possível então?

Falam que nossas vidas não são grande coisa,
Elas passam em um momento, como as rosas
Falam que o tempo é um bastardo
Que nossas tristezas são aparência
No entanto alguém fala para mim...

Refrão


Adaptação do comercial (propaganda) do Peugeot 307 (Patrícia Coelho)


Em inglês (Someone Told Me)

I want you here, I want you everywhere
Please stay with me you're the one I care
It's like a dream coming true
The stars keep shining, the sky is blue
You make me happy and you make me smile
When we are together
When you're by my side
Let's go the way you know
Let's go the way you know


Tradução

Quero você aqui, e em toda parte
Por favor, fique comigo
Você é o único com quem me importo
É como um sonho que se realiza
As estrelas ficam brilhando, o céu está azul
Você me faz feliz e me faz sorrir
Quando estamos juntos
Quando você está ao meu lado
Vamos pelo caminho que você conhece
Vamos pelo caminho que você conhece

A Bíblia - Tradução Ecumência (TEB)

Não julgue um livro pela capa ou por seus leitores

A palavra Bíblia significa "livrinhos" pois é composta por vários livros escritos por diversas pessoas em um período de muitos anos. Narram as aventuras do povo hebreu, antes repassadas oralmente de geração em geração. Para os que tem medo de encarar a leitura da Bíblia não há conselho melhor que dar um passo de cada vez. Dizem os especialistas que a leitura diária de 3 capítulos (e 5 aos domingos) resulta na a sua leitura completa em 1 ano. É claro que se trata de um cálculo quantitativo, porque na realidade há capítulos enormes (como o Salmo 119) e outros mínimos (Salmo 123).

Aqueles que vencerem o medo descobrirão um tesouro. Tanto, que muito a lêem várias vezes. Estes, os apreciadores da sua leitura, costumam variar na ordem de leitura dos livros ou nas traduções, algumas mais modernas que outras. Uma boa tradução é aquela que apesar de manter-se fiel ao original, usa palavras e expressões inteligíveis a todos os tipos de leitor. A leitura e comparação de traduções é também necessária para desvincular o sentido do texto de algum dogma religioso. Somente observando os versículos sem os óculos da religião pode-se enxergar a beleza das palavras, ensinamentos e histórias contidas nela. Mesmo espíritas, ateus ou agnósticos indicam a Bíblia como uma boa leitura em meio a tantas outras deploráveis que existem atualmente.

Algumas traduções são tão antigas para nós quanto os próprios textos originais da Bíblia (coincidindo a escrita dos últimos livros com a tradução dos primeiros), como a Septuaginta (grega) e a Vulgata (latina). Isso porque a língua original dos escritos era o hebraico, o aramaico e o grego. As traduções modernas se diferenciam adotando abreviaturas em 3 ou 4 letras como referência, como a TEB.

Inicia-se neste post a leitura da TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia (1996) produzida em parceria entre as Edições Loyola e Paulinas. Como o próprio nome já diz, esta tradução busca "promover a união entre os que crêem no mesmo Deus de Abraão: católicos, protestantes e judeus". O difícil é saber se eles desejam unir-se, pois existe divergência até sobre quais livros contidos na Bíblia são aceitos como divinos. A TEB pode ser lida por um ou outro religioso mais interessando na visão do todo, mas a grande maioria continuará usando as traduções feitas por seus integrantes ou as que apóiem melhor as suas crenças. Mesmo assim, o professor Isaías Lobão Pereira Júnior afirma que "A TEB representa uma nova mentalidade da Igreja Romana. Se antes, as Bíblias Protestantes eram acusadas de serem falsas e conterem inúmeros erros, agora o discurso é radicalmente outro. Tenta-se encontrar pontos de contato, pontes são construídas e barreiras são vencidas pelo diálogo".

Por fim, fica a pergunta no ar: Por que ler a Bíblia hoje? São inúmeros motivos, mas cito somente um: leia para identificar quem a leu, entendeu e a segue. Como são tantos os que dizem que tudo está na Bíblia, nada melhor do que conferir com os próprios olhos. A maioria das pessoas à sua volta, inclusive você, cresceu em um ambiente extremamente influenciado pelo cristianismo e ler a Bíblia talvez ajude você a conhecer um pouco mais sobre o mundo que o rodeia e sobre si mesmo.

Cabe ressaltar que o meu objetivo não é iniciar nenhum debate doutrinário, mas verificar a facilidade de leitura da tradução, a sua imparcialidade e ressaltar passagens que sejam de interesse dos leitores deste blog. É a simples opinião crítica de um leitor, que pede aos que apreciam debater sobre religião a não perderem tempo aqui. Comentários serão bem-vindos desde que educados e pertinentes ao assunto.


Os Prós


1. Introduções - É interessante para quem nunca leu nada a respeito de um livro começar com um comentário que o incentive a continuar. As introduções que aparecem no início de cada livro da TEB procuram mostrar um pouco da história que o livro irá relatar. Pena a linguagem usada ser muito técnica, o que fará com que os leitores leigos passem direto.

2. Ordem - A TEB "traz os livros do Antigo Testamento na ordem tradicional da Bíblia hebraica, a TANAK - abreviatura das três categorias que a compõe: Torá (Lei), Nebiim (Profetas) e Ketubim (Escritos)" enquanto a maioria das Bíblias cristãs adota a ordem da primeira tradução grega feita pelos cristãos, a Septuaginta. É interessante sair do quadrado e perceber que nem todos usam a mesma sequência nos livros. Antes que alguém diga que isso é um contra, porque dificulta aos que já decoraram a ordem usada no Brasil, a TEB traz 2 índices, um alfabético no início e um sequencial no final.


Os Contras


1. Tradução - Logo na apresentação da Bíblia aparece uma decepção. A TEB não é uma tradução dos textos mais próximos aos originais (gregos e latinos), mas de uma tradução francesa (TOB - Traduction Oecuménique de la Bible, 1989). Todos sabem que na tradução perde-se alguns dos sentidos e essências que só existem na língua original. Agora imagine a tradução (brasileira) de uma tradução (francesa) de uma tradução (grega e latina). Não que isso seja ruim, é péssimo! Enquanto a tendência mundial vem sendo a eliminação ao máximo das línguas intermediárias - recentemente tivemos clássicos da literatura mundial traduzidos diretamente do russo (Dostoiévski e Tosltói), do árabe (As Mil e uma Noites) e do japonês (Musashi, etc.) - a TEB fez o caminho inverso. Quem comparar a TEB com qualquer outra tradução verá que o resultado deixa a desejar, principalmente na tradução dos nomes de pessoas e lugares. A impressão é de serem nomes com um sotaque francês.

2. Massificação - Tentar agradar a todos é o mesmo que não agradar a ninguém. Apesar das denominações religiosas defenderem desde diferenças sutis até o extremo oposto em suas crenças, o texto original foi um só. Usar expressões para maquiar e não ofender tira a essência do original. Os tradutores deveriam preferir a fidelidade ao texto original ao invés de agradar leitores.

***

Este post será atualizado conforme as leituras dos livros forem terminando, o que talvez aconteça até o fim do ano. Cada livro terá um post próprio com comentários e passagens. A leitura será da edição de bolso da TEB. Abaixo segue o Índice de leituras dos livros com os respectivos links para os posts:


Índice


1. Gênesis - 50 capítulos. Leitura em 08/07/2008.

Lançamento: Anno Domini - Manuscritos Medievais

Para quem curte a temática medieval, com cavaleiros, bruxas, lutas de espadas, dragões, orks e coisas do tipo, e estiver em São Paulo no dia 19 de julho, vale a pena dar uma passadinha na Casa das Rosas.

A Metamorfose, de Franz Kafka (adaptação de Peter Kuper)

O tcheco Franz Kafka (1883-1924) é considerado um dos grandes escritores do século XX, apesar de ter vendido poucos livros em vida e morrer sem ser devidamente reconhecido. Morreu aos 40 anos de idade, de insuficiência cardíaca, enquanto internado em um sanatório para curar-se da tuberculose.

As histórias de Kafka remetem a situações em que os protagonistas vivem um pesadelo, geralmente fantástico, e pouco parecem se importar com isto. Kafka mistura influências judia, tcheca e alemã, permeando os seus escritos com os sentimentos de culpa, impotência e injustiça.

A Metamorfose é uma de suas obras-primas mais conhecidas. O caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda uma manhã como um inseto gigante. Sem buscar explicações lógicas, tanto o autor quanto Gregor e a sua família tentam readaptar suas rotinas conforme a nova situação. Não tanto por um membro da família agora ser um inseto, mas pelo provedor do sustento estar impossibilitado de trabalhar. Várias nuances psicológicas podem ser levantadas (e aplicadas em nossos dias), como a falta de comunicação entre os membros da família, o interesse egoísta em uns se aproveitarem da boa vontade de outros, etc. A preocupação de Gregor com o seu emprego e com o que os outros vão pensar de sua ausência ao invés de se preocupar com a sua estranha mutação chega a ser cômica. Mas a mensagem está dada, a metamorfose de Gregor ocasionou a de todos à sua volta. Vale a pena refletir como isso se aplica em nosso caso.

Peter Kuper é desenhista norte-americano famoso pelas tiras Spy vs. Spy. Já ilustrou outra HQ (História em Quadrinhos) baseada nas obras de Kafka, Desista! (Conrad, 2008) onde são reunidos nove contos do autor tcheco. O seu estilo crítico em preto-e-branco dá um ar ao mesmo tempo sombrio e cult, deixando no leitor o sentimento exato que Kafka quis passar.

A adaptação de A Metamorfose por Peter Kuper é excelente, de leitura rápida, com os devidos méritos próprios. Imagine recontar uma história clássica e ao mesmo tempo dar o tom de crítica atual. Ná página 14, por exemplo, onde Gregor reclama que "É sempre a mesma história, dia após dia... Comendo coisas horrorosas pelo caminho", Kuper desenha sutilmente o protagonista comendo um hambúrguer com dois arcos em forma de M no fundo. Mais crítico, nem desenhando.

Veja também:
leitura: Julho de 2008
obra: A Metamorfose (Die Verwandlung) de Franz Kafka
adaptação: Peter Kuper
edição: 1ª, Conrad Editora Objetiva (2004), 88 pgs
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Kafka


Mate-me, senão você é um assassino.

O trabalho intelectual aliena você da sociedade humana.

O gesto de rejeição que sempre me encontra não significa "Eu não te amo", mas antes "você não pode me amar tanto como gostaria de fazer, você está tristemente amando seu amor por mim, e no entanto seu amor por mim não ama você". Portanto, não é certo dizer eu conheci as palavras "Eu te amo"; tudo o que conheci foi o silêncio expectante que deveria ter sido quebrado por mim dizendo "eu te amo...

Cada palavra primeiro olha em volta, em todas as direções, antes de se deixar ser escrita por mim.

Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.

Deve-se ler para fazer perguntas.

A literatura é sempre uma expedição à verdade.

O amor não se aplacará com um simples buquê de flores. Isto só será possível pela literatura e pelo coito.

A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua.

Os pontos de vista da arte e da vida são diferentes ainda que no mesmo artista.

As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio.

Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.

A história dos homens é um instante entre dois passos de um caminhante.

Deixem dormir o futuro como merece. Se o acordarem antes do tempo, teremos um presente sonolento.

Crer-se no progresso não significa que já tenha tido lugar qualquer progresso.

Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável.

Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar.

Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico.

Não tenho nenhuma das qualidades necessárias para vencer na vida.

Estou aqui, mais do que isso não sei.

O sentido da vida é que ela acaba.

O mal conhece o bem, mas o bem não conhece o mal.

A partir de certo ponto não há volta. Esse é o ponto que se deve atingir.

Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.

Quem procura não acha, mas quem não procura é achado.

Franz Kafka (1883-1924) foi um escritor tcheco de língua alemã. É considerado um dos principais escritores de literatura moderna. Sua obra retrata as ansiedades e a alienação do homem do século XX. Seus livros mais conhecidos são A Metamorfose, O Castelo e O Processo.

Fado - Parte II

Esta é a continuação do conto Vingança ou justiça? Parte II publicado no blog Fênix Apoplética.

O Destino é mesmo um grande gozador. Apesar disso, enquanto uns dias são do caçador, outros continuam sendo da caça. Às vezes, o Destino é enganado pelos poucos que ousam desafiá-lo. Logo ele, onisciente do presente e do futuro, é obrigado a admitir que existem os que constroem seus próprios caminhos. Você também verá, bom leitor, que ao final deste conto, são tais pessoas que mostram ser mutável a rota traçada pelo Destino.

Laia sonhou que estava em um hospital. Havia vozes e risadas. Seu pescoço doía. Estava sozinha e tremia. Sabia que estavam atrás dela. Queriam lhe fazer mal e ela estava indefesa. As suas pernas não lhe obedeciam. Não conseguia fugir. Sentia como se estivesse dopada. Tremia de frio, de medo ou por causa de algum remédio. Sem ter como reagir, fechou os olhos e esperou. Até não estar mais sozinha no quarto.

Depois sonhou que o Diabo a carregava. O seu cavalo Diabo. Conseguia ver as patas, sentir a crina roçando-lhe o rosto, o cheiro selvagem de suor, o galope firme, mas não sabia quem a segurava sobre ele. Só percebia serem mãos fortes. O toque em seu corpo e a brisa em seus cabelos lembraram os carinhos do amado. Sentiu-se inexplicavelmente bem. Se ela estivesse morta, aquilo seria como cavalgar no céu.

Acordou com o som dos pássaros. Os sonhos eram agora murmúrios em sua mente. Sentia somente o doce som da manhã. Mas havia algo errado. Onde ela estava? Como foi parar naquela cama? Olhou espontaneamente para o lado. E o seu coração parou. A respiração parou. Os pensamentos pararam.

Em um canto, estava sentado o seu pior pesadelo. Ele a observava calado, aquele a quem ela amara duas vezes. Aquele de quem jurou vingar-se. Aquele a quem assassinara. E que depois deixou o gosto amargo da culpa e do arrependimento. Diante dela estava a imagem que refletia tudo o que lhe acontecera de pior e melhor nos últimos anos. Hector. Fernando. Hector. As pernas dela começaram a tremer.

Hector fatiava uma maçã pausadamente com a faca. Sem desviar os olhos dela. Ela, sem saber o que cortava mais, se o olhar ou a faca, passava de um para o outro. Percebeu que estavam sozinhos naquele pequeno cômodo. Havia uma cama, uma mesa, uma cadeira, uma porta e uma janela. E dois assassinos. Fraca e zonza como estava, Laia sabia que não seria páreo para Hector. Não alcançaria a porta nem a janela. Não sabe nem se conseguiria gritar por socorro, quanto mais se haveria alguém por ali para ajudá-la.

- Por que você o matou? – ele disse antes de levar a fatia à boca.

- Porque pensei que fosse você. – sussurrou com a voz trêmula.

- E o que você acha que eu vou fazer agora?

Era a pergunta que ela temia. Sabia que Hector já era perigoso sem precisar de motivos, quanto mais com eles. Ela falhara em matá-lo envenenado. Atingira o alvo errado, o gêmeo errado. Assassinara Fernando, o seu amor, Fernando... Aquilo era demais para Laia. Caiu de joelhos no chão, chorando.

- Faça comigo o que quiser. Não me importo mais. De que adianta viver e carregar o resto da minha vida o fardo por ter assassinado aquele que me amava? Aquele a quem eu amava. A dor por me lembrar dele é maior que o meu medo de você. Portanto, vá em frente, me mate! Termine logo o que você sempre planejou fazer.

Hector levantou-se e jogou o resto da maçã sobre a mesa. Caminhou lentamente até ela. Levantou a sua cabeça com uma das mãos enquanto segurava a faca com a outra. Uma eternidade se passou naquele instante. Era o fim.

Então, ele guardou a faca e ajoelhou-se diante de Laia. Com os olhos úmidos e as duas mãos segurando a face dela, disse:

- Eu te perdôo, meu amor, se você me perdoar.

- ?!?

O hálito de maçã entrou na boca e no cérebro de Laia enquanto ele a tomava em um beijo apaixonado. Como um raio, ela se lembrou qual dos dois irmãos gostava de maçãs.

- Fernando? É você? Mas como...

Fernando estava vivo, mais do que nunca. Contou a Laia que descobrira os planos de vingança dela contra o irmão, Hector. Tomado de paixão, não pôde deixá-la partir, mesmo que representasse perigo para ele. Resolveu enganá-la. Em seu plano perfeito, transformou o médico que cuidara dela em seu principal cúmplice. Foi o doutor quem trocou o conteúdo do frasco de veneno por um fortíssimo sonífero. Um ano depois, quando ela pensou tê-lo envenenado, foi o médico quem confirmou falsamente o óbito.

Após morrer, Fernando escondeu-se de todos, inclusive do irmão. Hector não compreenderia o seu amor por Laia. Fernando assistiu ao próprio velório à distância. Viu a reação do irmão no funeral. Fernando sabia que Hector tentaria matar Laia e ele não poderia deixar isso acontecer. Teria que escolher entre o irmão e a esposa. Como poucos sabiam da verdade – além o médico, os advogados da família - Fernando passou algumas posses para o nome de Laia e vendeu outras, juntando um bom dinheiro para recomeçarem juntos uma nova vida. Atuou discretamente, durante o tempo em que Laia estava no hospital. Solicitou aos advogados que orientassem Hector a não acusá-la na justiça, pois ele teria mais a perder caso ela revelasse todos os crimes que ele cometera.

Por fim, o médico ajudou Fernando a retirar Laia do hospital. Era preciso fazer isso antes que Hector fosse atrás dela.

Fernando chorava e a beijava. Laia beijava-o e soluçava. E foi, entre beijos e lágrimas no chão, que fizeram o melhor amor de suas vidas. Laia entregou-se por inteira. Fernando sorveu todo o mel que ela oferecia. Depois, exaustos mas felizes, adormeceram.

No dia seguinte, ambos estavam na plataforma aguardando o trem. Enquanto Fernando comprava os bilhetes Laia observava-o um pouco atrás. Um leve sorriso irônico refletido no vidro do guichê causou um arrepio em Laia. Ela tinha certeza de que ele era mesmo Fernando e não Hector? Afinal, tudo o que ela sabia sobre Fernando, Hector sabia mais. Hector poderia imitar o irmão tão perfeitamente quanto o irmão fizera antes. Se aquele homem fosse Hector, ela ainda estaria correndo perigo, pois ele estaria tramando uma vingança que diabolicamente destruiria primeiro os seus sonhos e esperanças e depois a sua vida. Por outro lado, e se fosse apenas paranóia da sua cabeça? Já tinha atentado contra a vida do homem errado e não queria sentir-se duas vezes culpada por fazer mal ao amado.

- O que foi, meu anjo? Por um instante, você me pareceu preocupada.

- Nada, meu amor, nada. – disse Laia, beijando-o suavemente, mas sem fechar os olhos.