Os 10 livros mais abandonados

Recentemente, um post no Meia Palavra me relembrou dos Direitos Imprescritíveis do Leitor, que já havia publicado aqui no blog tempos atrás. Alguns leitores admitiram francamente que não são capazes de exercerem os direitos nº 2 e 3, chegando até mesmo a nomeá-los como crimes. Os dois direitos em questão são:
  • O direito de saltar páginas.
  • O direito de não terminar um livro.
Na hora eu lembrei de um dos poucos livros que não consegui terminar a leitura em 2010: O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason. Daí a curiosidade bateu e resolvi consultar o Skoob para ver quais são os TOP10 livros abandonados por lá. A classificação abaixo foi feita em cima da porcentagem de leitores que os abandonaram em relação ao número total que leram o livro. Não computei os livros com menos de 100 leitores, pois amostragens pequenas invalidam qualquer pesquisa. Os dados são de hoje, 31/12/2010.
  1. Ulisses, de James Joyce: 49% de abandonos;
  2. Atlantis, de David Gibbins: 27% de abandonos;
  3. O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder: 24% de abandonos;
  4. O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason: 17% de abandonos;
  5. Bíblia Sagrada, diversos autores: 17% de abandonos;
  6. A Divina Comédia, de Dante Alighieri: 16% de abandonos;
  7. A Cabana, de William P. Young: 12% de abandonos; 
  8. Memorial do Convento, de José Saramago: 11% de abandonos; 
  9. Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcìa Márquez: 11% de abandonos;
  10. A Menina que Roubava Livros, de Markus Suzak: 10% de abandonos;
Bem, a lista acima foi dos livros que pesquisei. É claro que podem ter livros com uma porcentagem maior do que esta de abandonos, mas teria de verificar um por um, o que não dá pra fazer sozinho. Por isso, peço ajuda aos leitores, vocês conhecem algum livro com a porcentagem maior de abandonos que os acima? Basta lembrar do livro mais chato que já passou pela sua frente e mandar o nome dele que calculo aqui rapidinho se ele entra nos TOP10.

Um detalhe interessante é que não aparece nenhum livro brasileiro na lista acima, já que a taxa de abandono deles gira em torno da "normalidade" ou média aceitável de 5%. Trata-se de uma estatística interessante quando lembramos o tanto que a literatura brasileira ainda é vista com maus olhos pela maioria dos leitores e dos não leitores daqui.

O resultado acima não significa que todos os livros listados sejam ruins. Eu mesmo já li O Mundo de Sofia e A Menina que Roubava Livros, e a leitura deles além de fluir muito bem me estimulou nas áreas da filosofia, história e fantasia. Inclusive, recomendo a leitura dos três para todos os que me pedem referências sobre eles. Acredito que Ulisses e A Divina Comédia apareçam na lista por sua complexidade, que muitos leitores não estão acostumados hoje. Em compensação, não recomendo Atlantis e O Enigma do Quatro nem para os meus inimigos.

    O Príncipe Maldito - Sumário

    O Príncipe Maldito é a sequência de contos mais longa que já publiquei na internet, seja aqui no blog ou em outros sites. Tanto é que alguns reclamaram não haver um sumário para se acompanhar a história. Pois bem, aí está ele, contando inclusive com uma breve resenha de cada capítulo.

    Parte I - Onde o príncipe conhece uma bruxa e por ter uma boca muito grande, ganha não uma, mas duas maldições de brinde.
    Parte II - Onde a princesa Ágata, cega mas que consegue ler pensamentos, recebe como pretendente a sua mão um príncipe misterioso.
    Parte III - Onde o príncipe vence o desafio do rei Leopoldo de uma maneira astuta, mas se vê obrigado pela princesa a contar as suas aventuras.
    Parte IV - Onde o príncipe Nadj, disfarçado de druida, encontra os Três Terríveis e lhes faz uma proposta irrecusável.
    Parte V - Onde o druida, a bruxa BB, Carpeaux e Gordulfo iniciam sua jornada e encontram um estranho velho nu em cima de uma pedra.
    Parte VI - Onde os viajantes chegam à cidade de Pag-Owmorra e entram sorrateiramente no navio Darius Drome, do pirata Barbarrala.
    Parte VII - Onde o novo capitão do navio, o papagaio Corruto III, mostra suas garras, mas recebe uma proposta em troca de sua benevolência.
    Parte VIII - Onde Corruto III é transformado pela bruxa BB em uma bela capitã pirata, para o deleite dos leitores masculinos da série.
    Parte IX - Onde os viajantes se deparam um estranho castelo enfeitiçado, e para poderem sair dele precisam decifrar o enigma dos djins gêmeos.
    Parte X - Onde o druida decifra o enigma dos djins gêmeos e salva a pele de todos, enquanto a capitã Lailah Mor ataca o pirata Barbarrala com unhas e dentes.
    Parte XI - Onde o rei sultão Elul-Ah faz o seu desejo aos djins, a capitão Lailah Mor revela não ser bem quem todos pensavam e os viajantes vão parar um pouco longe de sua rota.

    O Príncipe Maldito XI

    Leia também a Parte X.

    O silêncio era o único que se manifestava no recinto. Fazia a sua festinha particular, aproveitando para treinar os seus monólogos inaudíveis enquanto todos os presentes olhavam uns para os outros com cara de bobos. Era uma oportunidade única que o silêncio não poderia perder: dançar e pular entre milhares de seres dentro de um mesmo salão, todos completamente mudos. Saltitando alegremente, não percebeu quando foi atropelado por um conjunto de sons, saídos da boca do sultão Elul-Ah.

    - Obrigado, amigo druida, pela sua generosidade. Eu sei muito bem o que pedir, há anos formulo o melhor desejo capaz de cessar com todas as atrocidades que os djins causaram a mim e a todo o meu reino.

    O sultão havia recebido de presente do jovem druida o direito a fazer qualquer pedido que quisesse, quando este conseguiu decifrar o enigma dos djins gêmeos, e não escondia a ansiedade por ter recebido tal dádiva.

    - Caros djins, preparem-se para o meu pedido. Sei que ganhei muitas coisas nas apostas que fiz com vocês, como este magnífico castelo repleto de tesouros, comidas e bebidas de todas as partes do mundo, ganhei também o poder de nunca envelhecer, e o título de rei dos djins, o que me faz obrigatoriamente ser respeitado por todos vocês. Mas estes prêmios não compensam aquilo que perdi: minha família, meus súditos, meu reino. Todas as glórias que eu sonhava antes agora são realidade, e o que era a minha realidade é justamente aquilo com o que eu sonho todas as minhas noites. Aprendi a minha lição à duras penas. Por isso, desejo retroceder até o maldito dia em que fizemos a nossa primeira aposta e desistir de fazê-la, consciente de tudo o que irei perder, mas também do que irei ganhar. Que a hipótese vire fato e que o fato se transforme em hipótese. Desisto de tudo o que ganhei em troca de tudo o que perdi. E que isso faça que nunca mais nos vejamos novamente, djins.

    O pirata Barbarrala olhou com os dois olhos para o druida. O druida olhou com os dois olhos para Carpeaux. Carpeaux olhou com um olho e um tapa-olho para o sultão. O sultão encarou um incontável número de olhos maldosos de djins o encarando de volta. Os djins não gostam de atender pedidos desse tipo. Tira toda a graça da brincadeira de ser um djin malvado ter de desfazer as suas malvadezas. Mas se há uma coisa que ninguém pode reclamar, é que os djins não paguem as suas apostas. Há até um regulamento do sindicato dos djins que justifica honrarem suas apostas sob pena de não encontrarem mais ninguém para jogar. Juzam aproximou-se do sultão e disse:

    - Muito bem, Elul-Al, muito bem. Você quer abandonar a brincadeira enquanto está por cima, hein? Mas tudo bem, faremos exatamente o que pediu, mas saiba que os outros do seu reino não estarão livres de apostarem conosco, nem a sua saudosa rainha, nem os seus filhos, nem mesmo o bobo da corte ou o mísero camponês. Saiba que situações bem piores poderão sobrevir ao seu reino. As possibilidades são infinitas.

    - Estou ciente disso, Juzam, mas não posso controlar os atos de todos. Porém, o que posso tentar é desfazer as consequências dos meus atos falhos. E é justamente isso o que eu pretendo neste momento. Quanto ao que as outras pessoas farão, é de inteira responsabilidade de cada uma delas.

    - Pois bem, que assim seja – e afastando-se do rei, voltou-se para as hordas de dinjs presentes – Meus caros, mais um ciclo se findou. Mais um que deixou de ser suscetível aos nossos jogos. Resta-nos agora desfazer tudo o que fizemos com ele e deixá-lo exatamente no ponto onde o conhecemos. Para isso, preciso do poder de todos aqui presentes, e segurem-se, pois a viagem vai ter turbulência.

    Um a um, todos os djins começaram a brilhar. Um brilho intenso que vinha de dentro deles, de várias cores. Dourados, azulados, esverdeados, avermelhados ou em tons fúcsia ou verde-limão para os djins mais glamurosos. A luz era tão forte que o interior do castelo ficou dez vezes mais iluminado que o dia estava lá fora. O castelo começou a tremer. Não, o castelo começou a girar. Não, o castelo parecia estar dentro de uma centrífuga ligada na operação secar roupas pesadas. Os heróis desta história não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Só sabiam que era tarde demais para fugir dali. O que estivesse acontecendo, eles estavam bem no olho do furacão, e era um olho bem mau intencionado. Carpeaux gritava por um saquinho de enjoo. Barbarrala segurava o chapéu e dava risadas sinistras que só os piratas sabem dar para disfarçar o medo enquanto todas as coisas voam ao seu redor. O druida tinha no rosto uma expressão de quem sabia que não iria gostar nem um pouco do resultado.

    Quanto o pandemônio cessou, encontraram-se caídos exaustos, como se cada um tivesse lutado com um monstro de 13 cabeças e meia durante duas horas. Nunca alguém conseguiu passar de alguns minutos de luta com um monstro de 13 cabeças e meia, mas se alguém tivesse conseguido essa façanha, ficaria exausto exatamente como aqueles quatro estavam. Barbarrala, depois de soltar alguns uis tentando se levantar, foi o primeiro a abrir os olhos. Encontrou tudo diferente. O castelo era outro, bem mais simples que o castelo azul em que agora mesmo eles se encontravam. As comidas, a prataria, as esculturas, as paredes incrustadas de gemas preciosas haviam sumido. Assim como os djins. Os outros também estavam se levantando. Foi quando uma lembrança puxou um fio de cabelo de Barbarrala, avisando que ele havia esquecido de algo. Ou melhor, de alguém.

    - Por mil trovões, aonde está Lilah Mor?

    - Estou bem aqui, meu querido – ouviu-se uma voz infantil vinda das escadas.

    - BB! O que você está fazendo aqui? Nós havíamos te deixado no navio. Onde está Lilah?

    - Seu bobo, você não percebeu até agora que Lilah Mor na verdade era eu?

    Todos estavam espantados. Até mesmo o silêncio resolveu ficar na dele para não levar a pior novamente.

    - C-como assim, perguntou o pirata.

    - Bem, todos sabem que as bruxas não podem fazer feitiços em si mesmas. Para que isso aconteça é preciso de algum voluntário, ou de algum sacrifício, estas coisas básicas. Quando eu me tranquei na cabine do navio Darius Drome com o papagaio pirata Corruto III, eu fiz dois feitiços ao invés de um. Primeiro, com uma magia azul, troquei de lugar com o papagaio. Ele virou BB e eu virei Corruto III. Ao mesmo tempo, com a magia dourada, me transformei em mulher, a pirata Lilah Mor, para que ninguém desconfiasse que eu não havia feito nada de bom com o papagaio. Contudo, o meu plano só tinha um problema, pois estes tipos de magia tem um prazo de validade de 24 horas antes de seu efeito acabar. É uma regrinha imposta pelo Ministério da Magia na venda e manipulação de feitiços genéricos.

    - Então quer dizer que esse tempo todo eu estava flertando com você, Balbina? – perguntou o atônito Barbarrala.

    - Sim, meu querido. Me espanta você não ter percebido, afinal, eu já fiz isso muitas vezes antes. É um dos meus feitiços favoritos, não se lembra? E você achando que eu iria transformar aquele urubuzinho verde em alguém que conseguiria seduzir você só estalando os dedos? Nem morta!

    Quem estivesse assistindo a cena poderia ver as faces de Barbarrala ficarem coradas de vergonha. Afinal, ele havia dito coisas comprometedoras para um pirata. E contou justamente para a pessoa a quem estas coisas comprometedoras estavam relacionadas.

    Neste instante, entraram na sala vários guardas com espadas e lanças apontadas para todos. BB, Carpeaux, Barbarrala e o druida já estavam prontos para lutar quando o sultão deu a ordem.

    - Guardas! Parem! Estes senhores são meus hóspedes, qualquer mal que lhes aconteça, será como se o fizessem à minha pessoa.

    Foi o suficiente para que os guardas retrocedessem. Mas não os que vinham atrás deles. Uma mulher, com os trajes e beleza típicos de uma rainha, seguida de três pequenas crianças, entraram e abraçaram-se ao rei. Agradeceram aos céus pelos invasores não serem perigo ao rei. O rei notou que eles não haviam percebido que ele estivera longe por tanto tempo, até porque ele não estivera. Tudo o que vivera por causa dos djins estava apenas em sua memória. Uma memória de coisas futuras que não iriam mais acontecer.

    - Meus amados, vocês podem ficar em meu reino por quanto tempo quiserem – disse Elul-Ah – serei eternamente grato pelo que fizeram por mim.

    - Desculpe-nos, sultão, mas devemos continuar a nossa viagem. Temos de chegar nas Terras Geélidas e confrontar um gigante – respondeu BB – vamos voltar ao navio e zarpar assim que o primeiro vento soprar. Mesmo que tenhamos de encarar um periquito totalmente furioso antes.

    - Acredito que não será necessário, jovem bruxa.

    - E por que não?

    - Vocês já olharam pela janela?

    Correram até a janela mais próxima, só para verem uma paisagem completamente diferente da que esperavam. Estavam nas montanhas! Não havia mar, nem passagem aquática em uma lagoa para o outro lado, nem navio pirata Darius Drome.


    - Onde está o meu navio, perguntou Barbarrala.

    - Provavelmente a dois mil anos no futuro, meus amigos. Devo ter esquecido de lhes dizer que este foi o tempo em que eu vivi sob o encantamento dos djins. Não sei por qual motivo vocês voltaram junto comigo à minha terra e ao meu tempo. Na certa, foi a brecha no meu desejo que os djins encontraram para fazer a sua estripulia final. Eu lamento por vocês, mas vocês voltaram dois mil anos no passado junto comigo.

    Foi quando dois pares e meio de olhos voltaram-se ameaçadores para o druida, com um pensamento unânime traduzido na forma mais singela de pergunta: “E agora, seu druida imbecil, como vai nos tirar dessa enrascada?”.

    (Continua...)

    Poemito de Sinergia


    (para alguém especial que conheci em 2010)

    Sempre fui eu
    E sempre foi ela
    Eu e ela
    Nunca fomos nós
    A sós
    Ou era só eu
    Ou era só ela
    Só e só
    Unidos
    Na solidão.

    Quem me dera
    Que eu e ela
    Fôssemos euela
    Sem nada entre nós
    Ou como em uma conta matemática
    Em que a soma das partes
    Sempre dá mais do que devia:
    1 + 1 = 11.

    Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores em 21.12.2010, com o tema "1 1  11".

    Alergia

    O diagnóstico deixou os pais do menino com cara de bobos.

    - Mas, doutor, o que isso significa, perguntaram novamente.

    - Infelizmente, é o que acabei de lhes dizer: o seu filho tem uma doença rara chamada urticária aquagênica, que traduzindo significa simplesmente alergia de água. Uma gota de água irá causar erupções na pele comparadas a queimaduras com fogo.

    - Mas o que devemos fazer agora, doutor?

    - Mantenham o garoto o mais longe possível do contato com a água. Banhos, somente com álcool em gel e uma toalhinha. Piscina, mar, chuva estão proibidas. Uma simples garoa pode matá-lo.

    - Doutor, nem mesmo para beber?

    - Infelizmente é impossível para qualquer ser humano viver sem beber água, mesmo o seu filho com esta doença. Para beber água será preciso usar um canudinho, pois o menor contato com a pele ou com os lábios do garoto causará erupções extremamente dolorosas. Procurem dar pequenas quantidades de água várias vezes por dia. Os sintomas que irão aparecer são falta de ar e inchaço na garganta, mas vou passar um anti-histamínico para que ele possa suportar a dor quando for beber água.

    Os dois saíram do escritório imaginando estarem entrando em um filme de ficção científica.

    - E agora, Antenor, como vai ser a vida desse menino?

    - Calma, Lurdes, vamos criá-lo da melhor forma possível. O nosso filho vai ser uma criança normal, mesmo com estas limitações, isso eu te prometo. E não vou deixar ninguém olhar ele como alguém diferente, com dó ou nojo, mesmo que eu tenha de enfrentar o mundo todo no braço.

    E assim foi. Com muito esforço e dedicação e carinho, criaram o menino com uma vida quase normal. Até o dia em que ele entrou correndo em casa, branco de susto.

    - O que foi, meu filho?

    - N-nada, mamãe. Foi só outro plano infalível do Cebolinha e da Mônica para me molharem na volta do colégio. Eu consegui escapar, mas desta vez foi por pouco. Ufa.

    Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores, com o tema ÁGUA.

    Entre no vazio

    Ok, eu não conhecia Gaspar Noe. My fault. Mas assisti esta semana o Enter the Void (Soudain Le Vide, 2009), de direção e roteiro dele. Uma tradução literal para o português seria Entre no Vazio. E será por causa deste filme é que irei assistir a todos os outros que ele dirigiu. Isso porque o filme mexeu comigo de uma forma que poucos filmes souberam fazer. A câmera funciona algumas vezes como personagem. Ou acompanha as cenas do ângulo superior lembrando um pouco Dogville, de Lars von Trier. A referência não é gratuita, pois os temas abordados por ambos diretores também são fortes, complexos e questionadores. Mas Noe, um pouco mais que von Trier, choca visualmente os dispostos a experimentarem uma viagem além da visão e da audição. Ele nos proporciona uma experiência sensorial. Às vezes repugnante, pois mescla violência e sexo não convencional em cenas explícitas. Tanto é que, além de eu não recomendar o filme para os politicamente corretos, também não indicaria aos que sofrem de vertigem, epilepsia ou labirintite (veja os créditos iniciais do filme e saiba o porquê). O roteiro é simplório: um rapaz traficante que mora com a irmã stripper em Tóquio é morto por policiais. Não daria nem mesmo um capítulo de novela da Globo, quanto mais um bom capítulo de novela da Globo. Mas a forma com que a história é mostrada, mesclando temas tão distantes como alucinações causadas pelas drogas, viagens astrais e reencarnação, é o diferencial do filme. As sequências entre cenas, e as coincidências entre passado, presente e futuro são muito criativas. Mesmo que depois de uma hora o uso repetitivo da câmera fique um pouco cansativo, vale a pena ver até o fim, pois é um filme feito para questionar condutas e estéticas. Para se divulgar o Bardo Thodol, o Livro Tibetano dos Mortos, em um contexto contemporâneo. Para se viajar sem estar chapado. Ah, e fica uma dica final: assista o filme no escuro.

    A caixa de veludo

    Procurava palavras que insistiam em manter distância. Na folha em branco, somente o nome dela. Parou o olhar na pequena caixa de veludo preto que estava segurando uma das pontas do papel. Então a caixa devolveu-lhe o olhar e as palavras resolveram se aproximar, carregando toda a emoção que aquele pequeno objeto lhe proporcionava. Não a caixa, mas o seu conteúdo. Não o conteúdo, mas o que ele significava. Mudança de vida. De duas vidas. Ele começando a pensar em e por dois. Uma experiência nova mas extremamente excitante. Ter alguém. Ser de alguém. Partilhar. Apoiar e ser apoiado. Entregar-se. Amar. Finalmente, amar. Enfim, entender o motivo dos poetas sofrerem, da beleza da lua e do coração doer mesmo saudável. Mas ainda era preciso dizer isso a ela. Há certos sentimentos quando não revelados que corroem a alma. Olhou mais uma vez para o papel, e foi o coração na ponta do lápis que escreveu.


    “Ana

    Eu te amo. Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci. Admito que você pode não ser a pessoa mais incrível do mundo, mas dentre as pessoas que conheço, dentre as pessoas que são o meu mundo, você é a mais incrível. Para mim, só existe uma mulher, uma Ana, um único ser em todo o universo com quem me importo mais que comigo mesmo. Por você, eu daria a vida sem lhe pedir nada em troca. Aliás, ela já é sua. Completamente. Meus pensamentos, sentimentos, meu corpo, minha alma. Todos seus, para sempre. Eu te amo. Por isso, quero que se case comigo. Posso não ser o cara com quem você sempre sonhou, mas sou teimoso e paciente o suficiente para fazer com que você sonhe novos sonhos. Comigo. Quando você entrou na minha vida eu era cego e fútil. Agora, só sou cego e fútil quando estou longe de ti. Você é mais que tudo com o que eu já tive a sorte de imaginar de bom para mim. Eu te amo.

    Do sempre seu,

    Carlos”


    Sentiu-se melhor. O papel sabe absorver o que há de melhor, ou pior, em nós. Mas escrever era a parte fácil. A entrega da carta e da pequena caixa era a parte complicada. Respirou fundo. Era chegada a hora de fazer o que não tivera coragem até ali. Levantou-se resoluto. Caminhou entre os olhares curiosos. Sorria e transpirava quando se aproximou da outra caixa, infinitamente maior que a primeira, e nela depositou suavemente os dois itens que carregava. Observou por um momento o sono dos anjos. Disse baixinho eu te amo. Percebeu que a outra caixa também era forrada de veludo.

    Desafio proposto no Duelo de Escritores em 22.11.2010 com o tema "a caixa".

    Você é o herói inconsciente

    Hoje eu li uma discussão no fórum Meia Palavra que levantou uma questão que venho ruminando há dias: o uso da jornada do herói - tão bem detalhada pelo historiador das religiões e mitologias Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces - de forma massificante pela industria da literatura, do cinema e até mesmo da música.

    Foi Campbell quem estudou minuciosamente os mitos e fábulas que mais tempo sobreviveram ao tempo, seja em tradições orais ou registrados de uma forma ou outra e chegou à conculsão que tudo se encaixava em uma fórmula simples, a da jornada do herói. Dividida em 12 passos, qualquer história de sucesso hoje se enquadra nela. Hércules. Ulisses. Shakespeare. O Senhor dos Anéis. Crônicas de Nárnia. Livros. Filmes. Desenhos. Praticamente tudo o que tenha os adjetivos bestseller ou blockbuster têm uma pitada ou muitas pitadas do mito de Campbell. Só para você ter uma ideia do que estou falando, a escritora Sonia Belloto, em seu livro Você já pensou em escrever um livro?, fez uma análise demonstrando detalhadamente como Harry Potter e a Pedra Filosofal usou essa estrutura passo a passo. Também detalhou como a mesma estrutura foi usada no filme As pontes de Madison.

    Campbell, no documentário O poder do mito, em que aparece sendo entrevistado no Rancho Skywalker, de propriedade do seu amigo George Lucas, afirma junto com o diretor que Star Wars seguiu à risca a receita de bolo do mito do herói. Nada novo até aí, mas um fato histórico interessante é quando a fórmula passou a ser massificada descaradamente no cinema. Nos anos 80, um roteirista da Disney foi incumbido de elaborar um plano para ressucitar as animações do studio onde trabalhava. O cara pesquisou aqui e acolá, e desta pesquisa nasceu o clássico Memorando Vogler (sobrenome do roteirista) e a partir daí os desenhos da Disney só fizeram sucesso atrás de sucesso. E advinha quem foi o principal autor em que Vogler baseou o seu relatório?

    A fórmula chegou a ser estudada por alguns psicólogos que afirmaram que o Mito do Herói faz sucesso porque remete à formação da psiquê humana, sendo algo que nos agrada sem precisar ser racional, sem que precisemos fazer força, inconscientemente. Talvez porque a jornada do herói tenha algo a ver com a nossa própria jornada na terra e por aí vai.

    O curioso é que dias atrás li a respeito de uma fórmula semelhante ao Mito do Herói, mas no campo da música: a denominada Canção de Ur, que traz uma sequência de 4 notas capazes de transformar qualquer música, desde Lady Gaga até Restart Puke, em sons viciantes e gostosos de ouvir. Maurício Piccini, o autor do post, afirma que as músicas que se baseiam nessa fórmula fazem sucesso não por talento, esforço próprio ou originalidade do seu compositor e sim por aproveitarem um oportunismo subconsciente coletivo. Então, consequentemente, não poderíamos afirmar o mesmo dos livros e filmes que usam a fórmula de Campbell? E a grande pergunta para os escritores de plantão: você preferiria ser você mesmo, com um trabalho original que foge da fórmula batida arriscando não ter sequer um leitor ou seguir a mesma receita de bolo de todos os outros escritores e garantir pelo menos uma tiragem mínima de vendas? Acho que a pergunta chega muito próximo do "vender a própria alma em troca de sucesso".

    Criminal Minds - 6ª Temporada (2010-2011)


    6x01 The Longest Night
    Isso é o que as mães deveriam fazer. Elas não deveriam ser a causa da sua dor, elas deveriam fazer a dor sumir. Elas deveriam te segurar e dizer que tudo ficará bem. Deveriam dizer que trovões são anjos jogando boliche e que está tudo bem ter medo do escuro e que não é bobo pensar que pode haver monstros no seu armário e que está tudo bem se quiser dormir na cama delas só dessa vez, porque é assustador no quarto sozinho. Elas deveriam dizer que está tudo bem ter medo, e não ser a razão do seu medo. Mas o mais importante, elas deveriam te amar, acima de tudo. - JJ

    "Família é um lugar onde a mente entra em contato uma com a outra. Se essas mentes amam umas às outras, a casa será tão bonita quanto um jardim de flores. Mas se essas mentes saírem de harmonia uma com a outra, é como uma tempestade que destrói o jardim." - Buda.


    6x02 JJ
    Jean Racine disse: "uma tragédia não precisa de sangue e morte. Já é suficiente estar cheia de enorme tristeza que é o prazer da tragédia".

    Isto não é o que eu quero, mas vou pegar a estrada. Talvez porque eu encare tudo como uma lição. Ou porque não quero andar por aí com raiva. Ou talvez porque finalmente entendi que há coisas que não queremos que aconteçam, mas temos que aceitar. Coisas que não queremos saber mas temos que aprender. E pessoas que não queremos perder, mas temos que deixá-las ir. - JJ


    6x03 Rememberance of Things Past
    Marcel Proust escreveu: "Lembranças de coisas do passado não são necessariamente a lembrança das coisas como elas eram".

    Mark Twain escreveu: "Quando eu era mais jovem não podia lembrar de nada, quer tenha acontecido ou não. Mas minhas faculdades mentais estão enfraquecendo agora e logo não conseguirei me lembrar de nada a não ser as coisas que não aconteceram. É triste ficar em pedaços desse jeito, mas todos nós temos que passar por isso".


    6x04 Compromising Positions
    Abraham Lincoln disse: "Não importa o que você é, seja o melhor".

    Todos usamos máscaras, e chega uma hora que não podemos removê-las sem remover nossa própria pele. (Andre Berthiaume)


    6x05 Safe Heaven
    A humanidade é uma família inseparável e unificada. Não posso me separar da alma malvada. (Mahatma Gandhi)

    Mas tenho promessas a cumprir e milhas a percorrer antes de dormir. E milhas a percorrer antes de dormir. (Robert Frost)

    6x06 Devil's Night
    Niccolo Machiavelli disse: "Se tem que fazer o mal a alguém, deve ser feito de forma tão severa que sua vingança não precise ser temida".

    Thomas Kemp escreveu: "O amor não sente obrigações, não pensa nada sobre seus problemas, tenta aquilo que está acima de sua força, não pleiteia desculpas para a impossibilidade, pois crê que todas as coisas são legítimas por si mesmas e todas as coisas são possíveis".


    Veja também:
    - Criminal Minds - 5ª temporada (2009-2010)
    - Criminal Minds - 4ª temporada (2008-2009)
    - Criminal Minds - 3ª temporada (2007-2008)
    - Criminal Minds - 1ª temporada (2005-2006)

    Concurso Literário 6x6


    Há algum tempo a Revista Piauí online traz um concurso literário mensal que é um desafio de escrita interessante: escrever um microconto em apenas seis palavras. Os três melhores colocados aparecem na edição impressa da revista. O primeiro lugar ganha uma assinatura semestral dela. Os microcontos podem ter uma palavra extra como título, o que acaba ajudando muito para se apontar o tema. Os participantes podem enviar até três microcontos para o email concurso@revistapiaui.com.br até aproximadamente o dia 20 de cada mês. Eu já enviei os meus para a disputa de novembro. Como há concorrentes muito bons, se conseguir ficar entre os três primeiros já está pra lá de bom. Quem quiser ver as seis regras do concurso, bem como os microcontos ganhadores das edições anteriores, acesse o site da revista.

    Dia C

    Era o fim da humanidade como a conhecemos. Mas todos foram culpados por isso. Ninguém prestou atenção aos sinais, nem ligou quando a contaminação começou. Afinal, era apenas um vírus inofensivo que atacava somente idiotas e mentirosos. Nada a ser levado a sério. Mas estávamos errados. Ninguém se preocupou enquanto o vírus era números e chamadas na tevê. É comum a mídia ser sensacionalista nestes casos. Dá IBOPE. Mas quando os casos começaram a surgir nas principais cidades e depois se espalharam exponencialmente pelo interior, a ação de contenção mostrou-se tardia e ineficaz. Chamou-se o exército, e o vírus infectou desde o soldado até o capitão. Chamou-se a ANVISA, mas o vírus infectou enfermeiros, médicos e socorristas. O vírus atacou atores, cantores, religiosos, trabalhadores, empresários, emergentes ou falidos. Não havia quem desse ordens, pois o vírus atacou os governantes. Não havia quem obedecesse, pois o vírus também atacou os governados. Por ser extremamente mutável, quando se pensava ter encontrado uma vacina, esta já não surtia resultado algum. E como os efeitos eram devastadores no organismo humano, havia cada vez menos pessoas habilitadas a pensar em uma cura. Os infectados passavam por uma deterioração gradual do cérebro: primeiro, perda de memória e da noção da realidade ao redor, miopia, cretinismo; depois, disfunções na personalidade como megalomania, dupla personalidade, esquizofrenia. Até o ponto de morte cerebral, onde a massa cinzenta virava algo parecido com uma geleia. Atingiam o chamado ponto sem volta. Mesmo que se chegasse a uma cura, não seria para estes. Apesar de sem cérebro, os infectados deste estágio terminal continuavam andando, soltando palavras e grunhidos sem nexo e sendo agressivos com aqueles que cruzassem o seu caminho e não lhes dessem o que queriam. E o pior, o que os sem-cérebro queriam era se alimentar dos cérebros alheios. Cercavam aqueles pobres coitados que ainda mantinham um pouco de raciocínio e o atacavam, impiedosamente, em bando até transformá-los em um deles. Não é preciso dizer que em pouco tempo o vírus deixou a todos incapacitados. Era o fim da humanidade como a conhecemos. O último sobrevivente, que preferiu o suicídio a sucumbir àquela horrenda infecção, foi quem resolveu batizar o vírus. Chamou-o de corrupção.

    Juventudes

    Se você é daqueles que dizem não entender os jovens de hoje, o vídeo abaixo é para você. Se você é daqueles que dizem não entender os seus pais ou avós, também. Enfim, se você quer saber as difenças entre a juventude dos anos 70, 90 e 10, vale a pena assistir a pesquisa abaixo.



    O filme 'We All Want to Be Young' é o resultado de diversos estudos realizados pela BOX1824 nos últimos 5 anos. A BOX1824 é uma empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo.

    Fonte: Vimeo

    Vento ventania


    Conta-se que o vento nasceu séculos atrás quando uma princesa suspirou e assoprou um beijo aos céus em busca do seu amado. Desde então, o vento multiplicou-se com todos os assopros e suspiros apaixonados.

    Alemão

    - Venha cá, Alemão, você tem visita.

    Os três guardas esperavam ao lado da porta da cela, que se abriu com um rangido único. Dentro da cela, dentro de uma sobra, dentro de seus pensamentos, Alemão levantou-se. Todos os outros presos pareceram diminuir de tamanho à medida que ele avançava calmamente. O guarda mais alto batia em seu ombro. O mais baixo parecia uma criança. Alemão estendeu as mãos e recebeu as algemas, antes de continuar. O corredor estava quieto, ninguém ousava fazer gracejos com aquele criminoso específico. Até mesmo os guardas, acostumados a serem durões com os detentos, tratavam-no com reverência.

    Foi conduzido até uma sala onde lhe aguardava um homem franzino. O engomadinho designado pelo Estado. Um calafrio passou pela sua espinha quando viu o tamanho de seu cliente. Quando viu as tatuagens em seus braços e pescoço. Quando viu a cabeleira e barbas ruivas espessas. Quando viu que o Diabo olhava para ele e sorria. A montanha sentou-se diante do defensor, que pigarreou antes de colocar um fichário cheio de papéis em cima da mesa.

    - S-senhor Geraldo…

    - Alemão, por favor.

    - Ah, sim. Me desculpe. Senhor Alemão, meu nome é Jaime e sou o advogado designado para defendê-lo. Solicitei esta conversa com o senhor para que o senhor possa me auxiliar a elaborar a sua tese de defesa perante o júri. Tudo bem para o senhor?

    A resposta foi apenas um olhar ameaçador que fez com que a barriga de Jaime começasse a incomodar-se.

    - B-bem, vejamos, o senhor está sendo acusado de homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, estupro duplamente qualificado, lesões corporais, destruição de propriedade pública e privada, tráfego de armas, tráfego de entorpecentes, extorsão mediante sequestro, latrocínio, furto de veículos e furto de um sorvete de pistache – o rapaz voltou na sua leitura como se tivesse encontrado um erro – Sorvete de pistache?

    - Me desculpe por isso. Tenho vergonha de isso constar na minha ficha, mas é que sou louco por sorvete de pistache – explicou-se o gigante, encabulado.

    - Ôuquei… estou elaborando a tese de que o senhor teve uma infância difícil, que a sociedade o transformou no que é hoje, e que se o Estado tivesse lhe dado as condições necessárias para que o senhor fosse um cidadão de bem o senhor não estaria aqui hoje. Para isso, terei de fazer algumas perguntas sobre o seu passado, certo?

    O olhar ameaçador agora fez com que as pernas do defensor começassem a tiritar em companhia com a barriga deste, que já estava em convulsões.

    - B-bem, vamos começar: o senhor sofreu algum abuso na infância?

    - Não, meus pais foram maravilhosos, eu acho que tive sorte.

    - O senhor teve algum problema na escola, como notas baixas, professores omissos ou bullying?

    – Não, sempre fui um bom aluno, bem enturmado e que os professores gostavam.

    - Na adolescência, houve algum problema com drogas ou gravidez indesejada de alguma namoradinha?

    - Não, eu sempre me mantive limpo. E como eu era do coral da igreja, só me envolvia com garotas em atividades religiosas.

    - Mas o senhor teve alguma perda na família recentemente?

    - Não. Todos os meus parentes estão vivos, tenho os quatro avós e saudáveis e até uma bisavó em Minas.

    - Perdeu algum emprego nos últimos anos?

    - Não.

    - Teve alguma desilusão amorosa?

    - Não.

    - Levou alguma multa de trânsito?

    - Não.

    - Assim não dá, senhor Alemão. A sua vida me parece perfeita. A minha tese de defesa foi por água abaixo. Agora me diga por que o senhor resolveu ser um criminoso, se nada na sua vida dava errado?

    - Exatamente por este motivo. Minha vida era perfeita demais. Sem ação. Sem emoção. Sem traumas. Como a sua vida deve ser. Por isso resolvi mudar. E me orgulho muito de ter seguido este caminho, estou feliz com o tudo o que fiz.

    - E como o senhor espera que eu consiga defendê-lo na audiência?

    - Não faço a menor ideia. Só sei que se você não der o seu melhor, eu te mato dentro do tribunal com as minhas próprias mãos. Nenhum guarda vai conseguir me segurar. Ou então, quando eu escapar da cadeia, eu vou atrás de você, da sua família, do seu cachorro, dos seus vizinhos, de quem quer que você conheça ou que conheça você, e vou estuprar e depois matar um por um, deixando você por último. Entendeu?

    – P-perfeitamente, senhor Alemão. Pode deixar comigo.

    O preso levantou-se, não sem antes da um último olhar, e voltou para a sua cela.

    - G-guarda – chamou o advogado – p-por favor, você poderia me indicar se há alguma lavanderia expressa aqui perto?

    Tema-desafio proposto no Duelo de Escritores de 01.11.2010, com o tema "trauma de infância".

    Mário Quintana nunca escreveu "Deficiências"

    Quem já acompanha o meu blogue faz algum tempo lembra que vez por outra costumo postar algum texto daqueles que circulam em correntes de emails com a autoria anônima ou errôneamente atribuído a outra pessoa. Além de responder imediatamente aqueles que me mandam estes emails tentando desfazer o engano, posto uma réplica aqui também, para futuras referências. Apesar de nunca ter acontecido comigo, acredito que não exista nada pior que escrever um belo texto e o mesmo ficar famoso como de autoria de Jôs, Bials, Quintanas ou Varellas. Estes já tem os seus próprios textos para os engrandecerem. Vamos dar uma chance aos talentos menos conhecidos. E autênticos.


    Segue o trecho do texto escrito pela professora Renata Vilela, que circula pelos emails, powerpoints e youtubes da vida com o título "Deficiências", de Mário Quintana. O texto pode ser lido na íntegra no site da autora, o Flor Amarela.
    [...]
    Hoje posso afirmar que

    "Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

    "Louco" é quem não procura ser feliz.

    "Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria.

    "Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão.

    "Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

    "Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

    "Diabético" é quem não consegue ser doce.

    "Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

    E "Miserável" somos todos que não conseguimos falar com Deus.

    A heresia da separatividade

    Acordou após morrer com a lembrança do acidente fresca na memória, mas sem dor. Não havia sangue, nem choro, nem caos. Só a sensação contagiante e interminável de quietude. O som da eternidade acalma. Olhou ao redor e o mundo permanecia: árvores mais verdes do que nunca, cheiro de terra como quando acaba de chover, a vastidão do céu revelando que o dia era belo. Os raios quentes do sol diziam oi quando lhe tocavam. Ou melhor, quando lhe atravessavam. Meu Deus, estou transparente, pensou. Olhou para si e não viu pés, nem mãos, braços, busto ou outras partes do corpo que tão bem conhecia. Tudo ao seu redor permanecia igual, exceto ela. Contudo, não sentiu medo, pois a paz que emanava de si a confortava grandemente. Sabia, de algum jeito, que a experiência havia valido a pena. Agora era recomeçar do zero, só, como sempre vivera. Não necessariamente, ouviu muitas vozes soarem por todos os lados, acima, dentro dela. Hoje você descobrirá que nunca existiu sozinha, mas apenas separada temporariamente em bilhões de partes chamadas humanos.

    Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores de 21.10.2010, com o tema a música Imagine, de John Lennon.

    As 120 grandes obras da Literatura Brasileira, por Alfredo Bosi


    O Museu da Língua Portuguesa pediu ao professor e acadêmico Alfredo Bosi uma lista de 120 grandes obras da Literatura Brasileira. Se você deseja conhecer melhor o Brasil, se deseja construir sua cultura literária, se deseja buscar emoções duradouras, comece logo a ler estes textos! Veja a lista abaixo e depois me conte quantos dos 120 você já leu. Os que EU já li estão em negrito. (vergonha!)

    1.1 Colônia – séculos 16, 17 e 18
    1. Pero Vaz de Caminha - Carta a Dom Manuel (1500)
    2. José de Anchieta - Autos e Poesias (1550)
    3. Padre Manuel da Nóbrega - Cartas (1553)
    4. Gabriel Soares de Sousa - Tratado descritivo do Brasil (1587)
    5. Bento Teixeira - Prosopopéia (1601)
    6. Frei Vicente do Salvador - História do Brasil (1627)
    7. Padre Antônio Vieira - Sermões (1638-1695)
    8. Gregório de Matos - Poesias – (ca 1680)
    9. Manuel Botelho de Oliveira - Música do Parnaso (1705)
    10.Antonil (pseud. de João Antônio Andreoni) - Cultura e opulência do Brasil (1710)
    11.Nuno Marques Pereira - Compêndio narrativo do Peregrino da América (1718)
    12.Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) e Academia Brasílica dos Renascidos (1759)
    13.Cláudio Manuel da Costa - Obras poéticas (1768)
    14.Basílio da Gama - O Uraguai (1769)
    15.Fr. José de Santa Rita Durão - O Caramuru (1781)
    16.Tomás Antônio Gonzaga - Cartas chilenas (1789?)
    17.Tomás Antônio Gonzaga - Marília de Dirceu (l792)
    18.Domingos Caldas Barbosa - Viola de Lereno (1798)
    19.Silva Alvarenga - Glaura (1799)
    1.2 Século 19 – Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo
    20.Gonçalves de Magalhães - Suspiros poéticos e saudades (1836)
    21.Martins Pena - O juiz de paz na roça (1838-1842)
    22.Joaquim Manuel de Macedo - A moreninha (1844)
    23.Gonçalves Dias – Primeiros Cantos (1846)
    24.Gonçalves Dias – Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848)
    25.João Francisco Lisboa - Jornal de Timon (1852-1854)
    26.Alvares de Azevedo - Obras (1853-1855)
    27.Francisco Adolfo de Varnhagen - História geral do Brasil (1854-1857)
    28.Junqueira Freire - Inspirações do claustro (1855)
    29.Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um sargento de milícias (1855)
    30.José de Alencar - O Guarani (1857)
    31.José de Alencar - O demônio familiar (1858)
    32.Luís Gama - Primeiras trovas burlescas (1859)
    33.Casimiro de Abreu - Primaveras (1859)
    34.Tavares Bastos - Cartas do Solitário (1862)
    35.Fagundes Varela - Cântico do Calvário (1865)
    36.José de Alencar - Iracema (1865)
    37.Qorpo-Santo - Comédias (1866)
    38.Sousândrade - O Guesa (1867-1884)
    39.Castro Alves - Vozes d’África, O navio negreiro (1868)
    40.Castro Alves - Espumas flutuantes (l870)
    41.Visconde de Taunay – Inocência (1872)
    42.Machado de Assis - A mão e a luva (1874)
    43.José de Alencar - Senhora (1875)
    44.Bernardo Guimarães - A escrava Isaura (1875)
    45.Machado de Assis - Iaiá Garcia (1878)
    46. Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)
    47.Machado de Assis - Papéis avulsos (1882)
    48.Joaquim Nabuco - O Abolicionismo (1883)
    49.Raimundo Correia - Sinfonias (1883)
    50.Raul Pompéia - O Ateneu (1888)
    51.Olavo Bilac - Poesias (1888)
    52.Sílvio Romero - História da Literatura Brasileira (1888)
    53.Aluísio Azevedo - O cortiço (1890)
    54.Machado de Assis - Quincas Borba (1891)
    55.Cruz e Sousa - Broquéis (1893)
    56.Rui Barbosa - Cartas de Inglaterra (1896)
    57. Artur Azevedo - A Capital Federal (1897)
    58.Joaquim Nabuco - Minha formação (1898)
    59.Alphonsus de Guimaraens - Dona Mistica (1899)
    60. Machado de Assis - Dom Casmurro (1899)
    1.3 Século 20
    61.Euclides da Cunha - Os Sertões (1902)
    62.Rui Barbosa - Réplica às defesas de redação do Projeto do Código Civil (1902)
    63.Graça Aranha - Canaã (1902)
    64.Cruz e Sousa - Últimos sonetos (1905)
    65.Capistrano de Abreu - Capítulos de história colonial (1907)
    66.Vicente de Carvalho - Poemas e canções (1908)
    67.Augusto dos Anjos - Eu (1912)
    68. Lima Barreto - Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
    69.José Veríssimo - História da literatura brasileira (1916)
    70.Monteiro Lobato - Urupês (1918)
    71.Valdomiro Silveira - Os caboclos (1920)
    1.4 (Modernismo)
    72.Mário de Andrade - Paulicéia desvairada (1922)
    74.Manuel Bandeira - Ritmo dissoluto (1924)
    75.Oswald de Andrade - Memórias sentimentais de João Miramar (1924)
    76.Oswald de Andrade - Pau-Brasil (1925)
    77.Guilherme de Almeida - Raça (1925)
    73.Simões Lopes Neto - Contos gauchescos (1926)
    78.Alcântara Machado - Brás, Bexiga e Barra Funda (1927)
    79.Mário de Andrade - Macunaíma (1928)
    80.Cassiano Ricardo - Martim-Cererê (1928)
    81.Manuel Bandeira - Libertinagem (1930)
    82.Carlos Drummond de Andrade - Alguma poesia (1930)
    1.5 (Depois do modernismo)
    83.Raquel de Queirós - O Quinze (1930)
    84.José Lins do Rego - Menino de engenho (1932)
    85.Gilberto Freyre - Casa grande e senzala (1933)
    86.Graciliano Ramos - São Bernardo (1934)
    87.Jorge Amado - Jubiabá (1935)
    88.Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil (1935)
    89.Érico Veríssimo - Caminhos cruzados (1935)
    90.Rubem Braga - O conde e o passarinho (1936)
    91.Dionélio Machado - Os ratos (1936)
    92. Graciliano Ramos - Angústia (1936)
    93. Otávio de Faria - Tragédia burguesa, I, Mundos mortos (1937)
    94.Graciliano Ramos - Vidas secas (1938)
    94.Marques Rebelo - A Estrela sobe (1938)
    95.Murilo Mendes - A poesia em pânico (1938)
    96.Jorge de Lima - A túnica inconsútil (1938)
    97.Cecília Meireles - Viagem (1939)
    99.José Lins do Rego - Fogo morto (1943)
    100.Carlos Drummond de Andrade - A rosa do povo (1945)
    101.Guimarães Rosa - Sagarana (1946)
    102.Vinicius de Moraes - Poemas, sonetos e baladas (l946)
    103.Henriqueta Lisboa - Flor da morte (1949)
    104.Érico Veríssimo - O tempo e o vento(1949-1961)
    105.João Cabral de Melo Neto - O cão sem plumas (1950)
    106.Carlos Drummond de Andrade - Claro enigma (1951)
    107.Jorge de Lima - Invenção de Orfeu (1952)
    108.Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência (1953)
    109.Graciliano Ramos - Memórias do cárcere (1953)
    110.João Cabral de Melo Neto - Morte e vida severina (1956)
    111.Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas (1956)
    112.Guimarães Rosa - Corpo de baile (1956)
    113.Clarice Lispector - Laços de família (1960)
    114.Guimarães Rosa - Primeiras estórias (1962)
    115.João Antônio - Malagueta, Perus e Bacanaço (1963)
    116.Clarice Lispector – A paixão segundo G.H. (1964)
    117.Osman Lins - Nove novena(1966)
    118.Antônio Callado - Quarup (1967)
    119.Haroldo de Campos - Xadrez de estrelas (1974)
    120.José Paulo Paes - Um por todos (1986)
    Fonte: Museu da Língua Portuguesa

    Antes só...


    Desespero. Depressão. Solidão. Vazio. Sem ela não existem motivos para que eu continue vivo. Tudo perde a cor tão desgraçado que sou. Mas alguém invisível, dentro de mim, persiste em me impedir de pular.

    Anexo ou em anexo?


    1) A expressão invariável em anexo, embora corrente, não tem a aprovação de muitos e, para se ter a idéia do repúdio de alguns gramáticos, não é mencionada por Silveira Bueno, nem por Carlos Góis, nem por Aires da Mata Machado Filho, o qual se reporta às lições dos primeiros.

    2) Domingos Paschoal cegalla a reputa "expressão condenada", justificando que, com exceção de em branco, são de discutível vernaculidade as locuções adjetivas constituídas da preposição em + adjetivo (cópia em anexo, platéia em suspenso, cuidados em vão).

    3) Observa tal gramático que em português "a locução adjetiva se forma com uma preposição (geralmente de ou sem), seguida de substantivo: amor de mãe; lenço de seda; voracidade de lobo; paixões sem freio; homem sem escrúpulos, etc."

    4) E acrescenta: "o mínimo que se pode dizer é que a locução adjetiva em aberto e as outras aqui citadas, embora de uso freqüente, não têm tradição em nossa língua. A única realmente imprescindível é em branco".

    5) De igual modo, José de Nicola e Ernani Terra se postam de modo contrário ao emprego da expressão em anexo, com a seguinte fundamentação: "Embora sejam comuns, na linguagem comercial e jurídica, as expressões em anexo e em apenso devem ser evitadas, pois, como dissemos, tais palavras são adjetivos e não advérbios. Observe que jamais alguém diria: As promissórias seguem em incluso. Por que então dizer em anexo, em apenso?"

    6) Sem manifestar concordância ou discordância quanto a seu correto emprego. Regina Toledo Damião e Antonio Henriques apenas observam ser "corrente a expressão", "embora sem merecer a aprovação de muitos".

    7) Arnaldo Niskier é expresso para aceitar a correção de uso da expressão em anexo, dando-a como invariável.

    8) De Antonio Henriques e Maria Margarida de Andrade, de igual modo, provém ensinamento favorável: "Tornou-se usual a expressão em anexo, de valor adverbial, embora muitos a rejeitem, como o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, já o Manual de Redação da Folha de S. Paulo a acolhe".

    9) Luiz Antônio Sacconi, por seu lado, é taxativo para aceitar a correção de uso de tal expressão, realçando que, em tal caso, a expressão há de permanecer invariável:

    a) Segue em anexo uma folha;
    b) Seguem em anexo as fotografias.

    10) Após referir que anexo é, originariamente, um adjetivo, que se flexiona normalmente em gênero e número, concordando com o substantivo por ele modificado, assim justifica Luciano Correia da Silva a possibilidade de emprego da expressão em anexo: "No entanto, como todo adjetivo pode ser substantivado, anexo pode também significar ´aquilo que está ligado como acessório´ (cf. Aurélio) e, nesta acepção, indicar peças ou dados que formam um corpo especial, que se ajunta ou acrescenta à petição ou aos autos: anexo 1, anexo 2 etc. Portanto, neste sentido, é possível dizer que certa prova ou documento vem ou se acha em anexo, em uma, duas ou mais folhas... Em anexo, isto é, em parte que se junta ou se acrescenta, que se insere ou inclui. Exatidão ainda mais saliente se nota quando alguém junta todo um processado ou apenso aos autos principais. Por isso, é necessário prudência em algumas críticas ou censuras, que vão passando de pais para filhos, sem questionamento ou distinção...".

    11) Na lição Antonio Henriques, em obra que escreveu sozinho, essa expressão "tem, valor adverbial consagrado pelo uso, embora alguns a repilam".

    12) Para resumir, quer pelo extenso e prolongado uso - fator de extrema importância em tais casos - quer pela ausência de elementos mais sólidos para sua condenação, que pela própria aprovação de autores de relevo em nosso idioma, parece mais adequado aceitar seu normal emprego, com a observação de que se trata de locução invariável.

    Fonte: Gramatigalhas

    Dexter, 5ª temporada (2010)


    5x04 Beauty and the Beast
    Nunca minta para quem confia em você. Nunca confie em quem mente para você.

    Papo de boteco: medo de amar


    Quinta-feira. Fim de tarde. Dois amigos se encontram para o tão merecido chope da Happy Hour. O solteiro e o casado. Este fala sobre as gastanças da esposa, mostra a filha no novo papel de parede do celular e sobre o dinheiro que não dá para as contas. Aquele conta sobre a mulher que levou para a cama ainda no primeiro encontro que tiveram sábado passado, sobre a carga horária puxada na pós-graduação e sobre o dinheiro que não dá para as contas. Ambos conversam sobre a colocação de seus times no Brasileirão, sobre os planos para o próximo feriadão, sobre não votarem na Dilma mesmo não tendo opções melhores. A conversa é interrompida pelo celular do solteiro. Número desconhecido. O casado observa calado só um dos lados da conversa.

    - Oi.

    - Quem está falando?

    - Foi ela quem te pediu para me ligar?

    - Rosalva, certo? Bem, Rosalva, em primeiro lugar isso não é assunto seu. Eu não quero nunca mais falar com ela. Para mim, ela morreu. Ponto final. Por isso, peça para que ela não me procure mais, será melhor para nós dois continuarmos vivendo as nossas vidas e esquecer o que passou. E não me ligue mais, se você é amiga dela fale com ela e não comigo. Convença ela que eu sou um crápula, um cafajeste, um ordinário. Diga o que for preciso para que ela pare de me ligar. Acabou. Eu só volto a falar com ela depois que ela beber um vidro de veneno.

    - Obrigado pelo aviso, mas tchau.

    O casado, até então em silêncio, depois de ter-se adiantado no chope mais que o amigo, pede mais um e comenta:

    - Cara, tenho dó dessas meninas que você pega. Depois de uma ligação dessas eu me matava no lugar dela.

    - Vai ser mais fácil para ela me esquecer se me odiar.

    - Essa não era aquela mulata que te vi dias atrás?

    - Ela pediu para uma amiga ligar, já que eu não atendo mais as ligações dela depois da nossa última briga.

    - Mas o que foi que aconteceu? O que ela fez?

    - Nada.

    - Como assim “nada”? E você fala tudo aquilo sem ela ter feito nada para você?

    - É. Inclusive eu sou totalmente apaixonado por ela, por isso terminamos.

    - Meu amigo, acho que já bebi de mais, não estou conseguindo acompanhar a sua lógica.

    - É bem simples, deixe-me explicar: toda vez que percebo que estou gostando pra valer de uma garota, termino com ela. Faço isso antes dela terminar comigo e me magoar.

    - Caralho!

    - Caralho uma ova! Você já passou pela situação de gostar de uma mulher ao ponto de não imaginar a sua vida sem ela e a desgraçada te abandonar como se você fosse uma bijuteria que ela cansou de usar? Pois bem, eu já. Foi antes da gente se conhecer. Minha primeira namoradinha séria me sacaneou de tal forma, me magoou de um jeito tão dolorido, que jurei nunca mais passar por aquele sentimento novamente. Assim, desde então, termino antes que a moça me sacaneie. E como bônus, fico só com lembranças dos bons momentos que passei com ela. Dar um pé na bunda de alguém dói bem menos que levar um.

    - Você é um sádico. Nunca pensou no sofrimento que estas garotas passam por causa dessa tua filosofia?

    - Sim, mas nunca termino simplesmente por terminar. Sempre armo alguma estratégia que a leve a pensar que foi por algo errado que ela fez. Faço ela evoluir, pois no próximo relacionamento em que entrar, ela vai tomar cuidados adicionais em não repetir o pretenso erro. E também não vai ficar tão dependente assim de outra pessoa, pois ninguém deveria ficar. Tudo o que temos na vida é fugaz. Se você olhar, no fundo estou prestando um serviço, fazendo um favor pessoal a elas e aos futuros namorados delas.

    - Sei, só você mesmo para pensar assim. Seu misógino! Mas, me conta, e se alguma delas realmente fizerem o que você falou e tomarem veneno? Como você se sentiria com isso?

    -Ficaria normal. Não vou me abalar por causa das atitudes idiotas dos outros. Aliás, uma delas já chegou a fazer… por que você acha que sugeri justamente isso?

    Desafio proposto no Duelo de Escritores de 11.10.2010, com o tema traição.

    O último pensamento de Batista


    Enquanto ela continuasse a dançar estaria tudo ferrado. Não que ela dançasse mal nem que o espetáculo fosse de todo ruim. O problema era que cabeças costumavam rolar quando Salomé maravilhava em suas apresentações.

    Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2010


    O prêmio Nobel de Literatura de 2010, divulgado nesta quinta-feira (7) às 8h (horário de Brasília), foi para o escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 74 anos.

    De acordo com a Academia Sueca, a escolha seu deu por conta da "cartografia das estruturas do poder e afiadas imagens de resistência, rebelião e derrota do indivíduo" que aparecem na obra de Llosa.

    Peter Englund, presidente do júri de literatura do Nobel, afirmou que Vargas Llosa se disse "muito comovido e entusiasmado" ao saber do prêmio. O escritor, que está em Nova York, onde é professor visitante na Universidade de Princeton, contou a Englund que "tinha levantado às cinco da manhã para dar uma aula" e que quando recebeu a notícia já "trabalhava intensamente".

    Llosa receberá um prêmio no valor de 10 milhões de coroas suecas (1,5 milhão de dólares). A cerimônia de premiação está marcada para o dia 10 de dezembro.

    Autor de romances marcados por questões políticas e por vezes autobiográficas da América Latina como "A cidade e os cachorros", "Pantaleão e as visitadoras", "A festa do bode" e "Travessuras da menina má", Llosa já havia vencido, entre outros, o Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura em língua espanhola, em 1994. O Brasil costuma ser tema de seus textos, sejam ensaios políticos ou romances, como "A guerra do fim do mundo", de 1981, inspirado na Guerra de Canudos.

    Em declaração à rádio colombiana RCN nesta quinta, o escritor peruano afirmou que se surpreendeu com a escolha e disse que o prêmio é um reconhecimento à literatura latino-americana e em língua espanhola.

    "Não pensava que estaria nem entre os candidatos", brincou o autor. "Por mim, vou seguir trabalhando com um sentimento de responsabilidade, como sempre fiz. Defendendo coisas que são fundamentais para o Peru, para a América Latina e o mundo. A liberdade e a democracia são o verdadeiro caminho do progresso, da verdadeira civilização, que acredito que seja o papel de um escritor defender", comentou Llosa à rádio.

    Em mais de um século de existência do prêmio, Maio Vargas Llosa é apenas o sexto escritor latino-americano a receber um Nobel. Antes dele, foram premiados a escritora chilena Gabriela Mistral (1945), o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967), o também chileno Pablo Neruda (1971), o colombiano Gabriel García Márquez (1982) e o mexicano Octavio Paz (1990).

    O autor estará no Brasil na próxima quinta-feira (14), participando do evento Fronteiras do Pensamento, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

    Candidato à presidência em 1990

    Nascido em Arequipa, em 28 de março de 1936, Jorge Mario Pedro Vargas Llosa se formou em Letras e Direito pela Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima. Antes de se tornar escritor, trabalhou como redator de notícias na extinta Rádio Central, funcionário de biblioteca e até revisor de nomes de túmulos de cemitério, segundo biografia em seu site oficial.

    Em 1959, ganha uma bolsa de estudos e parte para uma temporada na Europa, onde se torna doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Madri, publica seu primeiro livro, a coletânea de contos "Os chefes" (1959), e escreve uma peça de teatro, "La huída del Inca".

    Regressa em 1964 ao Peru e daí em diante volta a passar temporadas em diversos países, incluindo Cuba, Grécia, França, Inglaterra e Espanha - de onde recebe oficialmente a cidadania em 1993.

    Conhecido por suas posições políticas consideradas de direita, Llosa se engajou no Movimento Liberdade peruano em 1987, que se opunha ao programa de estatização do então presidente Alan García Pérez. Informado sobre a vitória no Nobel de seu antigo desafeto, García - que voltou à Presidência do Peru em 2006 - afirmou que o prêmio é "uma honra e um grande dia para o Peru". "Vargas Llosa é um extraordinário criador da linguagem, um grande romancista, um grande dramaturgo que tem incursionado em todos os cantos da criação", completou.

    Além dos políticos do Peru, o escritor costuma disparar críticas contra líderes latino-americanos como Fidel Castro, Hugo Chávez, Álvaro Uribe e ao próprio presidente Lula.

    Em 1990, lançou-se candidato à presidência do Peru pelo partido Frente Democrática-Fredemo, mas foi derrotado por Alberto Fujimori. Sua experiência na campanha foi relatada no livro de memórias "Peixe na água", lançado em 1993.

    Outros premiados

    No ano passado, a escritora romena radicada na Alemanha Herta Müller, 56, foi a vencedora do Prêmio. Em 2008, foi a vez do francês Jean-Marie Gustave Le Clézio e em 2007, Doris Lessing, nascida na Pérsia, mas que escreve em inglês.
    saiba mais

    O prêmio é escolhido pelos membros da academia sueca e dá um prêmio de 10 milhões de coroas suecas, algo como R$ 3 milhões, entregue em dezembro. Durante o processo, os membros da academia enviam convites para centenas pessoas ligadas a literatura, como professores e escritores do mundo, para chegar aos candidatos. De uma lista inicial de 250 nomes, em cortes sucessivos, se chega a um segundo grupo, com 15 a 20 e, num terceiro, a cinco nomes. Os membros da academia leem as obras dos candidatos e discutem sobre quem deve ser o vencedor. Um pouco antes do anúncio, os membros da academia ligam para o vencedor.

    Alfred Nobel, que fez fortuna ao inventar a dinamite, criou os prêmios para a paz, a literatura e várias ciências em seu testamento, em 1895. Os prêmios foram entregues pela primeira vez em 1901 e um prêmio adicional, para a economia, foi estabelecido em memória de Nobel, em 1968.

    Fonte: G1

    A volta ao mundo em 80 segundos

    O teto era todo branco e refletia a minha imagem embaçada. O cheiro forte de anticépticos e flores eram de revoltar o estômago. Estou em um quarto totalmente desprovido de cores. No canto, um velho que combina com o ambiente, lê a Bíblia acomodado em uma poltrona.

    É quando Jonas entra pela porta de repente e diz:

    - Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e tenho boas notícias. A sua doença tem cura! Segundo ele você sofre de uma doença dos nervos, mas basta uma viagem para a Califórnia e você ficará curada! O sol, as praias, a vida jovem que pulula nas calçadas, tudo contribuirá para a sua melhora. Tenho certeza de que desta vez seremos felizes como nos filmes de Hollywood. Eu já comprei as passagens, embarcamos para lá depois de amanhã.

    Olho para o velho que largou a leitura e agora me observa triste. Os olhos azuis por trás dos óculos de lentes grossas são de uma melancolia infinita. O silêncio daquele olhar me incomoda.

    É quando Jonas entra pela porta de supetão e me diz:

    - Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e tenho más notícias. A sua doença não tem cura! Segundo ele você sofre do coração e tem poucos dias de vida. Mas faremos aquela última viagem que você sempre sonhou para a Jamaica. Lá você vai poder satisfazer os seus últimos desejos, e eu estarei ao seu lado para torná-los realidade. Você se sentirá como uma rainha e eu serei o seu servo. Serão os melhores momentos de sua vida, eu garanto! Já comprei as passagens, embarcamos para lá amanhã de manhã.

    O velho agora se levanta e caminha com seus passos de velho até a janela. Abre um pouco a veneziana deixando entrar um feixe de luz que brilha em meus olhos. Ele parece preocupado com algo. Mas não é aquela preocupação repetina, parece com aquelas com que alguém já está acostumado há tempos. Ele respira pesadamente.

    É quando Jonas entra correndo pela porta e fala:

    - Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e acho que tenho boas notícias. A sua doença pode ter cura! Segundo ele você tem uma doença rara no sangue mas pode sobreviver. Porém, a cura só existe no lugar mais exótico do mundo, Iraque! Antigamente lá era conhecido como Babilônia, e me parece que há um tipo de medicina local eficaz no tratamento do seu tipo de problema. Não importa se lá existe guerra, o que importa é que você ficará bem. Eu já comprei as passagens e nós vamos para lá hoje à noite!

    O velho se aproxima de mim e arrasta uma cadeira próxima à minha cama. Senta-se com algum esforço. Pega a minha mão entre as suas enrugadas. Os seus olhos lacrimejam e os seus lábios tremem com o esforço de algo que quer me dizer.

    - Oh, minha querida! Falei com o médico e não tenho notícias boas nem ruins. Segundo ele, a sua doença é totalmente desconhecida aqui no ocidente. Mas sempre poderemos ir para o Japão...

    Desafio de escrita proposto no site Duelo de Escritores de 01.10.2010, que tinha como tema a música Japan da banda Cocorosie.

    Aprendizado

    Uma amiga querida me mandou este vídeo ontem, revelando que ele foi importante em uma fase da vida dela. Como o que é bom deve ser compartilhado com quem a gente gosta, posto ele aqui para vocês. O vídeo é de 2007 mas a mensagem é atemporal.

    Cotidiano não é só uma música

    6h00 AM. Abro os olhos.

    Levantar. Mijar. Olhar para o espelho e perceber que a cara ainda tem o formato de um travesseiro. Tomar banho. Me enxugar olhando no espelho. As costas não alcanço mais. Fazer pose murchando a barriga. Estou ficando velho. Pentear os cabelos. Lembrar de comprar xampu para queda de cabelos. Estou ficando careca. Fazer a barba. Colocar pedacinhos de papel higiênico nos cortes. Escovar os dentes. Passar o desodorante Axe que a Janaína comprou. Não tenho o cheiro que eu quero, tenho o que ela quer. Vestir o uniforme azul dobrado sobre a cama. Desbotado mas asseado. A meia tem um remendo no dedão. O cheiro de café me leva à cozinha. Janaína termina de pôr a mesa, me dá um beijo e volta dormir. Como duas fatias de pão com margarina e café preto doce. Doce como Janaína. Antes de sair passo quieto pelo corredor e observo Janaína dormindo. No quarto ao lado, o Júnior atravessado na cama. Não compensa arrumá-lo, daqui a pouco ele levanta para o colégio.

    No ponto de ônibus venta. Há pelo menos dez pessoas quando chego. Trabalhadores como eu. Estudantes como o Júnior. O ônibus chega lotado. Mas sempre cabem mais dez. No começo vou espremido perto da porta. Como meu destino é mais longe, vejo as pessoas descerem e o ônibus esvaziar. E colegas com uniformes iguais subirem. Mas não converso, pois dá tempo de tirar uma soneca me encostando no vidro da janela.

    Bater o ponto. Pegar com a Marlene as Ordens de Serviço do dia. Catorze. Dia longo. Visto os apetrechos de segurança e entro no caminhão com outros três. Rua das Dores, número 513, Vivian Parque. Na OS aparece que uma reclamação foi feita ontem a noite e solicitaram urgência no problema. Estavam certo. Um cano entupiu e fez com que o esgoto voltasse para a superfície. Casas e ruas cheias de merda. O mau cheiro eu já acostumei. O que não acostumei foi com os moradores brigando conosco, como se nós fossemos culpados pela merda deles. É preciso acionar a escavadeira. Uma hora depois ela chega e começa a cavar. A água da região é cortada e a rua fechada. A merda não, pois mesmo sabendo que estamos trabalhando o povo não para de cagar. Dentro do buraco, descubro que três canos precisam ser trocados. Uma hora depois, os canos chegam, mas aí já é hora do almoço. Subimos no caminhão e vamos comer à uma quadra dali. O povo não entenderia porque temos de parar o serviço para comer. Eles nunca entendem. No marmitex de hoje veio ovo frito no lugar da salada. Gosto de ovo. Comemos na calçada, longe das pessoas que não entendem como suportamos comer com aquele fedor em nossas roupas. Sobra tempo para o Raul e o Pezão discutirem sobre uma candidata política. Eu prefiro observar um pombo seco atropelado jogado perto do meio-fio. Voltamos ao serviço. Cavar. Tirar o cano. Botar o cano novo. Tapar o buraco. Religar a água e ver no que dá. Tudo certo. Agora só faltam treze chamados.

    No ponto de ônibus faz calor. Há pelo menos dez pessoas quando chego. Trabalhadores como eu. Estudantes como o Júnior. O ônibus chega lotado. Mas sempre cabem mais dez. No começo vou espremido perto da porta. Como meu destino é mais longe, vejo as pessoas descerem e o ônibus esvaziar. Dos colegas com uniformes iguais eu sou o último a descer. E não converso, porque ninguém chega perto de mim por causa do cheiro. Tiro uma soneca me encostando no vidro da janela.

    Jogar a roupa suja na área. Ir de cuecas para o banheiro. O Júnior ri. Tomar banho. Me enxugar olhando no espelho. As costas não alcanço mais. Fazer pose murchando a barriga. Estou ficando velho. Pentear os cabelos. Lembrar de comprar xampu para queda de cabelos. Estou ficando careca. Passar o desodorante Axe que a Janaína comprou.

    Sento na frente da tevê para ver o jornal. Mas está passando horário político. Janto engolindo promessas com arroz. Júnior faz a tarefa de casa. Papai, tenho de escrever sobre o seu trabalho. Coloca aí que seu pai é igual a um médico. Enquanto o médico desentope as veias do doente, o seu pai desentope as veias da cidade. O seu pai é o médico das veias da cidade. Ele escreve tudo enquanto Janaína me mostra as contas que precisam ser pagas amanhã. E eu esqueci de pegar o vale. Vamos ter de pagar multa. Ela faz cara de brava, mas faço um carinho e ela me entende. Durmo no sofá vendo a novela das oito. Não sei como chego até a cama.

    Esta poderia ser a rotina de qualquer dos meus dias, de qualquer semana, qualquer mês. Mas não hoje, pois hoje é domingo.

    6h05 AM. Fecho os olhos e volto a dormir.
    Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores em 21.09.2010, com o tema "uma vida perfeita".

    Google 4 Doodle Brasil

    Você conhece alguma criança ou adolescente que desenha bem? Então olha que oportunidade bacana o Google está promovendo. Mesmo que o jovem não ganhe o primeiro prêmio, pelo menos estará ajudando a plantar uma árvore. E olha que esta não é uma daquelas correntes mentirosas, é um compromisso assumido publicamente pelo Google que pode ser cobrado deles depois.



    Doodle 4 Google

    * …Toda criança terá uma escola
    * …Vamos plantar mais árvores que prédios
    * …Os políticos serão super-heróis

    E você, o que pensa sobre o futuro do Brasil?
    Solte a imaginação e participe da competição Doodle4Google.

    Você já reparou que em diversos eventos o Google costuma brincar com o seu logo?
    Chamamos esse logo especial de "Doodle".
    O Google então decidiu abrir esta brincadeira para estudantes de 6 a 15 anos e permitir que seus desenhos apareçam no lugar do logo.

    Esta competição é chamada de Doodle4Goodle e mais de 300 mil alunos já participaram ao redor do mundo.

    Agora chegou a sua vez!
    Pela primeira vez o logo do Google será desenhado por um estudante brasileiro.

    O tema da primeira edição é "O Brasil do Futuro".
    Solte a criatividade e desenhe sua versão do logo do Google mostrando o que você espera do futuro do Brasil.

    O seu desenho pode parar na página inicial do Google Brasil e você pode ganhar:

    * Uma bolsa de estudos de R$ 30 mil reais
    * Um computador
    * Uma sala Google na sua escola!

    Para ajudar-nos na difícil escolha do desenho vencedor, contamos com uma lista de Jurados Especializados na arte de desenhar. Cartunistas e ilustradores consagrados nos ajudarão a escolher os finalistas desta competição e participarão da cerimônia de premiação em Dezembro.

    Para saber como participar, acesse a opção "Como Participar" do menu ao lado.
    Além de ter o seu desenho na página inicial do Google Brasil, nós também teremos alguns prêmios muito especiais para o ganhador e sua escola. Saiba mais na opção "Regras e Prêmios".

    Ao participar você e o Google ajudam a construir o futuro do Brasil pois cada desenho recebido, vamos plantar uma árvore*.

    * até 100 mil árvores
    Para maiores detalhes, visite a página do Doodle 4 Google Brasil.

    Destaques da 37ª semana de 2010

    1. Uma propaganda muito bem bolada e divertida no Youtube, no Canal tipperexperience, com vídeo interativo NSFW. A hunter shoots a bear, ou Um caçador atirando no urso. O vídeo torna-se interativo após a resposta que você dá a pergunta que aparece na tela, se o caçador deve ou não atirar no urso. Depois, teste alternativas para que o caçador ao invés de caçar, faça outras coisas com o urso. Use verbos em inglês, como kiss, eat, drink, sleep, run, wash, call, smile, fight, dance, sing, cuddle, fuck, suck etc. para ver as animações extras.



    2. Season Finale da 2ª temporada da série Lie to Me. Esta temporada teve altos e baixos, mas na média foi melhor que a primeira. Destaques para os episódios em que o Dr. Lightman vai ao Afeganistão (epi. 8, Secret Santa), o assassinato que ocorre no Campeonato de Pôquer em Las Vegas (epi. 9, Fold Equity) e o em que o homem-trator-bomba para o centro da cidade (epi. 10, Tractor Man).


    3. Estreia da série Nikita, uma nova cara para a série e filmes dos anos 90. Posso dizer que o 1º episódio me surpreendeu no final, e o 2º meio que já define muito a personalidade dos principais personagens da trama. Destaque para, além de Nikita, Alex, interpretada pela atriz de belos olhos Lindsy Fonseca, que já havia me conquistado em Kick-Ass.

    Destaques da 36ª semana de 2010

    1. O trailer da novíssima série de TV baseada nos quadrinhos The Walking Dead, ou Os Mortos-Vivos. A série tem estreia mundial marcada para novembro deste ano.



    2. Dica de filme para a semana: Resident Evil 4: Afterlife. Ver Alice, Chris e Claire Redfield brigando juntos contra Wesker é muito bom, alta nostalgia dos jogos de Playstation. A escolha do ator Wentworth Miller (o Michael Scofield de Prison Break) para o papel de Chris caiu superbem. Para quem não sabe do que estou falando, veja o trailer da película.

    Coleção Folha Livros que mudaram o Mundo


    Ai, ai, ai, essas coleções detonam completamente o meu salário. Talvez quando lançarem alguma coleção em que nenhum livro me interesse daí sim estarei curado do meu vício. Até lá, eis mais uma coleção com 20 livros que revolucionaram de algum modo o pensar mundial, em diferentes áreas. E o melhor: é made by Folha de São Paulo. Cada volume semanal sai por R$ 15,90, sendo que se alguém optar por comprar a coleção inteira no site da Folha ganha quatro exemplares, ou então baixando o preço para R$12,72. E ainda parcela em seis vezes no Cartão. Resultado: MIFU. Os livros são:
    1. A Origem das Espécies, Darwin
    2. O Príncipe e Escritos Políticos, Maquiavel
    3. A Interpretação dos Sonhos, Freud
    4. Riqueza das Nações, Adam Smith
    5. Apologia a Sócrates, O Banquete e Fedro, Platão
    6. Discurso sobre o Método e Princípios da Filosofia, Descartes
    7. A Utopia, Thomas More
    8. A Metafísica dos Costumes, Kant
    9. Principia - Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, Isaac Newton
    10. O Livro Vermelho, Mao-Tsé Tung
    11. A Política, Aristóteles
    12. Confissões, Santo Agostinho
    13. O Capital, Karl Marx
    14. Do Contrato Social, Rousseau
    15. Pensamentos, Pascal
    16. A Democracia na América, Alexis de Tocqueville
    17. Cândido ou O Otimista, Voltaire
    18. Bíblia Sagrada
    19. Alcorão Sagrado
    20. Discursos que mudaram o Mundo, Vários Autores
    O que mais me chamou a atenção é que grande parte dos títulos acima eu já tenho, mas são edições de bolso de uma certa Editora aí que costuma plagiar muitas obras. É a oportunidade perfeita para eu renovar a minha biblioteca com traduções atuais e que me deixem tranquilo de não estar prejudicando o trabalho de nenhum tradutor brasileiro.

    A Estrela do Jordão Órgão dos Anjos, da Côrte de Santa Dica

    Perto da venda, na beira da estrada empoeirada, debaixo de uma gameleira o velho observava os meninos chutarem uma velha bola de couro tentando marcar gols entre as traves de um colchete aberto. Era uma correria só e apesar do calor seco de agosto os meninos não paravam. Foi assim a tarde toda, pois era sábado e não tinham aula, até que o dono da bola montou em sua bicicleta e se foi embora, faceiro por ter marcado quatro gols. Sem a bola de couro no chão e com a bola de fogo no céu indo embora também, Bento, o último dos peladeiros, aproximou-se e sentou em frente ao velho. Observou calado este enrolando o fumo grosso na palha fina com cuidado até a perfeição para depois acender com um palito de fósforo o cigarro manualmente produzido. O cheiro forte entrou nas narinas de Bento quando o velho deu a primeira baforada e olhou para ele. Não era preciso dizer palavra, ambos sabiam que havia chegado a hora.

    - Qual causo o sinhô vai contá hoje, vô?

    - Quar ocê quer que eu conte: o do romãozinho, o do negro d’água ou o do pé-de-garrafa?

    - Essas não vô, conta uma diferente. Uma de verdade.

    - Todas elas são verdade, meu fii. – respondeu o velho antes de dar outra baforada.

    - Tá, mas conta uma história que alguém daqui viu e não uma que contaram que outro contou que outro contou e não dá pra saber donde veio.

    O velho enfiou a mão no bolso e tirou a boceta onde guardava o fumo. Em um compartimento à parte, pegou um caroço de milho e mostrou à frente dos olhos do garoto.

    - Tudo bom então vô contá a história desse caroço de milho que trago comigo faz muito tempo e de como ele prova um milagre que eu vi acontecer.

    - Mesmo?

    - Sim, com estes olhos que a terra há de comer. Você já ouviu a história da santa guerreira?

    - O senhor fala da Santa Dica? Só escutei a professora falando que ela era muito conhecida antigamente. Ela era santa mesmo, vô? Você conheceu ela?

    - Ê, meu fii, seu avô fez bem mais que conhecer a Benedita, o seu avô foi o principal capataz dela na época em que gente do Brasil todo vinha em romaria pedir milagre dela. Era um mundão de gente que não acabava mais. Todos tinham ficado sabendo da menina que voltou dos mortos depois de três dias, igual o Nosso Senhor. Eu era um mulecote como ôce naquela época mas lembro ainda de tudo. Chegava gente doente e saía gente curada. O pai da Dica era cumpadre do meu pai, que prometeu que eu ajudaria a cuidar dela quando ela ficou mocinha. E eu aceitei, senão seria só pegar na enxada o tempo todo. Assim, eu mudei pra casa da Dica ainda novo, assim como muita gente que chegava e ficava por estas bandas. Tudo ia bem até os coroner começar a ter ciúmes da Santa, Bento. Ela tinha umas ideias boas até, dizia que a terra é de Deus e que deveria ser de todos e queria criar, mas que os chefão daquela época não gostava nem um pouco. Os padre também não gostava quando ela fazia milagres, rezava as missa e conversava com os espírito do Doutor Fritz, da Princesa Silveira e do Comandante. Diziam que ela tava endemoniada. Não demorou muito tempo pro Governador mandar as tropas prenderem a Santa e acabarem com o movimento que eles chamavam de insurreição contra a República.

    - E o que aconteceu, vô, eles mataram a Santa?

    - Mas o quê, meninu! A Santa não podia ser matada não. Eu mesmo vi com esses olhos quando o pelotão todo disparou contra a casa da Dica, as balas que acertavam ela, enrolavam nos seus cabelos compridos e rolavam por ela até chegarem ao chão. E ela sorria naquela noite como se o próprio Pai estivesse segurando a sua mão. Mesmo assim, as balas acertaram três dos nossos. Quando ela viu que não conseguia proteger todo mundo dos soldados, mandou o povo todo atravessar o Rio do Peixe, que passava atrás da casa dela. Depois, pegou uma sucuri enorme e amarrou no banhado perto do rio pros soldados não atravessassem o rio tamém. Os soldados ficaram bestas vendo aquilo e não teve um com coragem de pisar no banhado. E ficaram mais bobos ainda quando viram ela atravessando o rio andando em cima das águas, igualzim Nosso Senhor fez.

    - Então todo mundo escapou dos sordado?

    - Infelizmente não, tinha outro tanto do outro lado do rio só esperando a gente chegá. A Dica foi presa, mas não durou muito tempo na cadeia porque o povo quis ela solta.

    - E aí acaba a história, vô?

    - Acaba não, meu fii, ainda tem as guerra que a gente lutou pra Santa em Sumpaulo e em Minas, contra a Revolução de 32, depois contra a Coluna Prestes. Eu era um dos soldados da Santinha que o povo chamava de “pé com palha e pé sem palha”. Graças as bênçãos dela nenhum homem que lutava por ela morreu. A gente atravessava ponte cheia de mina, de olhos vendados e nada acontecia. Quando as balas dos inimigos batiam na gente, advinha no que elas viravam?

    O menino arregalou os olhos enquanto olhava para aquilo que o velho ainda segurava na mão.

    Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores de 01.09.2010 com o tema "folclore brasileiro".