Os 10 livros mais abandonados

Recentemente, um post no Meia Palavra me relembrou dos Direitos Imprescritíveis do Leitor, que já havia publicado aqui no blog tempos atrás. Alguns leitores admitiram francamente que não são capazes de exercerem os direitos nº 2 e 3, chegando até mesmo a nomeá-los como crimes. Os dois direitos em questão são:
  • O direito de saltar páginas.
  • O direito de não terminar um livro.
Na hora eu lembrei de um dos poucos livros que não consegui terminar a leitura em 2010: O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason. Daí a curiosidade bateu e resolvi consultar o Skoob para ver quais são os TOP10 livros abandonados por lá. A classificação abaixo foi feita em cima da porcentagem de leitores que os abandonaram em relação ao número total que leram o livro. Não computei os livros com menos de 100 leitores, pois amostragens pequenas invalidam qualquer pesquisa. Os dados são de hoje, 31/12/2010.
  1. Ulisses, de James Joyce: 49% de abandonos;
  2. Atlantis, de David Gibbins: 27% de abandonos;
  3. O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder: 24% de abandonos;
  4. O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason: 17% de abandonos;
  5. Bíblia Sagrada, diversos autores: 17% de abandonos;
  6. A Divina Comédia, de Dante Alighieri: 16% de abandonos;
  7. A Cabana, de William P. Young: 12% de abandonos; 
  8. Memorial do Convento, de José Saramago: 11% de abandonos; 
  9. Notícia de um Sequestro, de Gabriel Garcìa Márquez: 11% de abandonos;
  10. A Menina que Roubava Livros, de Markus Suzak: 10% de abandonos;
Bem, a lista acima foi dos livros que pesquisei. É claro que podem ter livros com uma porcentagem maior do que esta de abandonos, mas teria de verificar um por um, o que não dá pra fazer sozinho. Por isso, peço ajuda aos leitores, vocês conhecem algum livro com a porcentagem maior de abandonos que os acima? Basta lembrar do livro mais chato que já passou pela sua frente e mandar o nome dele que calculo aqui rapidinho se ele entra nos TOP10.

Um detalhe interessante é que não aparece nenhum livro brasileiro na lista acima, já que a taxa de abandono deles gira em torno da "normalidade" ou média aceitável de 5%. Trata-se de uma estatística interessante quando lembramos o tanto que a literatura brasileira ainda é vista com maus olhos pela maioria dos leitores e dos não leitores daqui.

O resultado acima não significa que todos os livros listados sejam ruins. Eu mesmo já li O Mundo de Sofia e A Menina que Roubava Livros, e a leitura deles além de fluir muito bem me estimulou nas áreas da filosofia, história e fantasia. Inclusive, recomendo a leitura dos três para todos os que me pedem referências sobre eles. Acredito que Ulisses e A Divina Comédia apareçam na lista por sua complexidade, que muitos leitores não estão acostumados hoje. Em compensação, não recomendo Atlantis e O Enigma do Quatro nem para os meus inimigos.

    O Príncipe Maldito - Sumário

    O Príncipe Maldito é a sequência de contos mais longa que já publiquei na internet, seja aqui no blog ou em outros sites. Tanto é que alguns reclamaram não haver um sumário para se acompanhar a história. Pois bem, aí está ele, contando inclusive com uma breve resenha de cada capítulo.

    Parte I - Onde o príncipe conhece uma bruxa e por ter uma boca muito grande, ganha não uma, mas duas maldições de brinde.
    Parte II - Onde a princesa Ágata, cega mas que consegue ler pensamentos, recebe como pretendente a sua mão um príncipe misterioso.
    Parte III - Onde o príncipe vence o desafio do rei Leopoldo de uma maneira astuta, mas se vê obrigado pela princesa a contar as suas aventuras.
    Parte IV - Onde o príncipe Nadj, disfarçado de druida, encontra os Três Terríveis e lhes faz uma proposta irrecusável.
    Parte V - Onde o druida, a bruxa BB, Carpeaux e Gordulfo iniciam sua jornada e encontram um estranho velho nu em cima de uma pedra.
    Parte VI - Onde os viajantes chegam à cidade de Pag-Owmorra e entram sorrateiramente no navio Darius Drome, do pirata Barbarrala.
    Parte VII - Onde o novo capitão do navio, o papagaio Corruto III, mostra suas garras, mas recebe uma proposta em troca de sua benevolência.
    Parte VIII - Onde Corruto III é transformado pela bruxa BB em uma bela capitã pirata, para o deleite dos leitores masculinos da série.
    Parte IX - Onde os viajantes se deparam um estranho castelo enfeitiçado, e para poderem sair dele precisam decifrar o enigma dos djins gêmeos.
    Parte X - Onde o druida decifra o enigma dos djins gêmeos e salva a pele de todos, enquanto a capitã Lailah Mor ataca o pirata Barbarrala com unhas e dentes.
    Parte XI - Onde o rei sultão Elul-Ah faz o seu desejo aos djins, a capitão Lailah Mor revela não ser bem quem todos pensavam e os viajantes vão parar um pouco longe de sua rota.

    O Príncipe Maldito XI

    Leia também a Parte X.

    O silêncio era o único que se manifestava no recinto. Fazia a sua festinha particular, aproveitando para treinar os seus monólogos inaudíveis enquanto todos os presentes olhavam uns para os outros com cara de bobos. Era uma oportunidade única que o silêncio não poderia perder: dançar e pular entre milhares de seres dentro de um mesmo salão, todos completamente mudos. Saltitando alegremente, não percebeu quando foi atropelado por um conjunto de sons, saídos da boca do sultão Elul-Ah.

    - Obrigado, amigo druida, pela sua generosidade. Eu sei muito bem o que pedir, há anos formulo o melhor desejo capaz de cessar com todas as atrocidades que os djins causaram a mim e a todo o meu reino.

    O sultão havia recebido de presente do jovem druida o direito a fazer qualquer pedido que quisesse, quando este conseguiu decifrar o enigma dos djins gêmeos, e não escondia a ansiedade por ter recebido tal dádiva.

    - Caros djins, preparem-se para o meu pedido. Sei que ganhei muitas coisas nas apostas que fiz com vocês, como este magnífico castelo repleto de tesouros, comidas e bebidas de todas as partes do mundo, ganhei também o poder de nunca envelhecer, e o título de rei dos djins, o que me faz obrigatoriamente ser respeitado por todos vocês. Mas estes prêmios não compensam aquilo que perdi: minha família, meus súditos, meu reino. Todas as glórias que eu sonhava antes agora são realidade, e o que era a minha realidade é justamente aquilo com o que eu sonho todas as minhas noites. Aprendi a minha lição à duras penas. Por isso, desejo retroceder até o maldito dia em que fizemos a nossa primeira aposta e desistir de fazê-la, consciente de tudo o que irei perder, mas também do que irei ganhar. Que a hipótese vire fato e que o fato se transforme em hipótese. Desisto de tudo o que ganhei em troca de tudo o que perdi. E que isso faça que nunca mais nos vejamos novamente, djins.

    O pirata Barbarrala olhou com os dois olhos para o druida. O druida olhou com os dois olhos para Carpeaux. Carpeaux olhou com um olho e um tapa-olho para o sultão. O sultão encarou um incontável número de olhos maldosos de djins o encarando de volta. Os djins não gostam de atender pedidos desse tipo. Tira toda a graça da brincadeira de ser um djin malvado ter de desfazer as suas malvadezas. Mas se há uma coisa que ninguém pode reclamar, é que os djins não paguem as suas apostas. Há até um regulamento do sindicato dos djins que justifica honrarem suas apostas sob pena de não encontrarem mais ninguém para jogar. Juzam aproximou-se do sultão e disse:

    - Muito bem, Elul-Al, muito bem. Você quer abandonar a brincadeira enquanto está por cima, hein? Mas tudo bem, faremos exatamente o que pediu, mas saiba que os outros do seu reino não estarão livres de apostarem conosco, nem a sua saudosa rainha, nem os seus filhos, nem mesmo o bobo da corte ou o mísero camponês. Saiba que situações bem piores poderão sobrevir ao seu reino. As possibilidades são infinitas.

    - Estou ciente disso, Juzam, mas não posso controlar os atos de todos. Porém, o que posso tentar é desfazer as consequências dos meus atos falhos. E é justamente isso o que eu pretendo neste momento. Quanto ao que as outras pessoas farão, é de inteira responsabilidade de cada uma delas.

    - Pois bem, que assim seja – e afastando-se do rei, voltou-se para as hordas de dinjs presentes – Meus caros, mais um ciclo se findou. Mais um que deixou de ser suscetível aos nossos jogos. Resta-nos agora desfazer tudo o que fizemos com ele e deixá-lo exatamente no ponto onde o conhecemos. Para isso, preciso do poder de todos aqui presentes, e segurem-se, pois a viagem vai ter turbulência.

    Um a um, todos os djins começaram a brilhar. Um brilho intenso que vinha de dentro deles, de várias cores. Dourados, azulados, esverdeados, avermelhados ou em tons fúcsia ou verde-limão para os djins mais glamurosos. A luz era tão forte que o interior do castelo ficou dez vezes mais iluminado que o dia estava lá fora. O castelo começou a tremer. Não, o castelo começou a girar. Não, o castelo parecia estar dentro de uma centrífuga ligada na operação secar roupas pesadas. Os heróis desta história não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Só sabiam que era tarde demais para fugir dali. O que estivesse acontecendo, eles estavam bem no olho do furacão, e era um olho bem mau intencionado. Carpeaux gritava por um saquinho de enjoo. Barbarrala segurava o chapéu e dava risadas sinistras que só os piratas sabem dar para disfarçar o medo enquanto todas as coisas voam ao seu redor. O druida tinha no rosto uma expressão de quem sabia que não iria gostar nem um pouco do resultado.

    Quanto o pandemônio cessou, encontraram-se caídos exaustos, como se cada um tivesse lutado com um monstro de 13 cabeças e meia durante duas horas. Nunca alguém conseguiu passar de alguns minutos de luta com um monstro de 13 cabeças e meia, mas se alguém tivesse conseguido essa façanha, ficaria exausto exatamente como aqueles quatro estavam. Barbarrala, depois de soltar alguns uis tentando se levantar, foi o primeiro a abrir os olhos. Encontrou tudo diferente. O castelo era outro, bem mais simples que o castelo azul em que agora mesmo eles se encontravam. As comidas, a prataria, as esculturas, as paredes incrustadas de gemas preciosas haviam sumido. Assim como os djins. Os outros também estavam se levantando. Foi quando uma lembrança puxou um fio de cabelo de Barbarrala, avisando que ele havia esquecido de algo. Ou melhor, de alguém.

    - Por mil trovões, aonde está Lilah Mor?

    - Estou bem aqui, meu querido – ouviu-se uma voz infantil vinda das escadas.

    - BB! O que você está fazendo aqui? Nós havíamos te deixado no navio. Onde está Lilah?

    - Seu bobo, você não percebeu até agora que Lilah Mor na verdade era eu?

    Todos estavam espantados. Até mesmo o silêncio resolveu ficar na dele para não levar a pior novamente.

    - C-como assim, perguntou o pirata.

    - Bem, todos sabem que as bruxas não podem fazer feitiços em si mesmas. Para que isso aconteça é preciso de algum voluntário, ou de algum sacrifício, estas coisas básicas. Quando eu me tranquei na cabine do navio Darius Drome com o papagaio pirata Corruto III, eu fiz dois feitiços ao invés de um. Primeiro, com uma magia azul, troquei de lugar com o papagaio. Ele virou BB e eu virei Corruto III. Ao mesmo tempo, com a magia dourada, me transformei em mulher, a pirata Lilah Mor, para que ninguém desconfiasse que eu não havia feito nada de bom com o papagaio. Contudo, o meu plano só tinha um problema, pois estes tipos de magia tem um prazo de validade de 24 horas antes de seu efeito acabar. É uma regrinha imposta pelo Ministério da Magia na venda e manipulação de feitiços genéricos.

    - Então quer dizer que esse tempo todo eu estava flertando com você, Balbina? – perguntou o atônito Barbarrala.

    - Sim, meu querido. Me espanta você não ter percebido, afinal, eu já fiz isso muitas vezes antes. É um dos meus feitiços favoritos, não se lembra? E você achando que eu iria transformar aquele urubuzinho verde em alguém que conseguiria seduzir você só estalando os dedos? Nem morta!

    Quem estivesse assistindo a cena poderia ver as faces de Barbarrala ficarem coradas de vergonha. Afinal, ele havia dito coisas comprometedoras para um pirata. E contou justamente para a pessoa a quem estas coisas comprometedoras estavam relacionadas.

    Neste instante, entraram na sala vários guardas com espadas e lanças apontadas para todos. BB, Carpeaux, Barbarrala e o druida já estavam prontos para lutar quando o sultão deu a ordem.

    - Guardas! Parem! Estes senhores são meus hóspedes, qualquer mal que lhes aconteça, será como se o fizessem à minha pessoa.

    Foi o suficiente para que os guardas retrocedessem. Mas não os que vinham atrás deles. Uma mulher, com os trajes e beleza típicos de uma rainha, seguida de três pequenas crianças, entraram e abraçaram-se ao rei. Agradeceram aos céus pelos invasores não serem perigo ao rei. O rei notou que eles não haviam percebido que ele estivera longe por tanto tempo, até porque ele não estivera. Tudo o que vivera por causa dos djins estava apenas em sua memória. Uma memória de coisas futuras que não iriam mais acontecer.

    - Meus amados, vocês podem ficar em meu reino por quanto tempo quiserem – disse Elul-Ah – serei eternamente grato pelo que fizeram por mim.

    - Desculpe-nos, sultão, mas devemos continuar a nossa viagem. Temos de chegar nas Terras Geélidas e confrontar um gigante – respondeu BB – vamos voltar ao navio e zarpar assim que o primeiro vento soprar. Mesmo que tenhamos de encarar um periquito totalmente furioso antes.

    - Acredito que não será necessário, jovem bruxa.

    - E por que não?

    - Vocês já olharam pela janela?

    Correram até a janela mais próxima, só para verem uma paisagem completamente diferente da que esperavam. Estavam nas montanhas! Não havia mar, nem passagem aquática em uma lagoa para o outro lado, nem navio pirata Darius Drome.


    - Onde está o meu navio, perguntou Barbarrala.

    - Provavelmente a dois mil anos no futuro, meus amigos. Devo ter esquecido de lhes dizer que este foi o tempo em que eu vivi sob o encantamento dos djins. Não sei por qual motivo vocês voltaram junto comigo à minha terra e ao meu tempo. Na certa, foi a brecha no meu desejo que os djins encontraram para fazer a sua estripulia final. Eu lamento por vocês, mas vocês voltaram dois mil anos no passado junto comigo.

    Foi quando dois pares e meio de olhos voltaram-se ameaçadores para o druida, com um pensamento unânime traduzido na forma mais singela de pergunta: “E agora, seu druida imbecil, como vai nos tirar dessa enrascada?”.

    (Continua...)

    Poemito de Sinergia


    (para alguém especial que conheci em 2010)

    Sempre fui eu
    E sempre foi ela
    Eu e ela
    Nunca fomos nós
    A sós
    Ou era só eu
    Ou era só ela
    Só e só
    Unidos
    Na solidão.

    Quem me dera
    Que eu e ela
    Fôssemos euela
    Sem nada entre nós
    Ou como em uma conta matemática
    Em que a soma das partes
    Sempre dá mais do que devia:
    1 + 1 = 11.

    Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores em 21.12.2010, com o tema "1 1  11".

    Alergia

    O diagnóstico deixou os pais do menino com cara de bobos.

    - Mas, doutor, o que isso significa, perguntaram novamente.

    - Infelizmente, é o que acabei de lhes dizer: o seu filho tem uma doença rara chamada urticária aquagênica, que traduzindo significa simplesmente alergia de água. Uma gota de água irá causar erupções na pele comparadas a queimaduras com fogo.

    - Mas o que devemos fazer agora, doutor?

    - Mantenham o garoto o mais longe possível do contato com a água. Banhos, somente com álcool em gel e uma toalhinha. Piscina, mar, chuva estão proibidas. Uma simples garoa pode matá-lo.

    - Doutor, nem mesmo para beber?

    - Infelizmente é impossível para qualquer ser humano viver sem beber água, mesmo o seu filho com esta doença. Para beber água será preciso usar um canudinho, pois o menor contato com a pele ou com os lábios do garoto causará erupções extremamente dolorosas. Procurem dar pequenas quantidades de água várias vezes por dia. Os sintomas que irão aparecer são falta de ar e inchaço na garganta, mas vou passar um anti-histamínico para que ele possa suportar a dor quando for beber água.

    Os dois saíram do escritório imaginando estarem entrando em um filme de ficção científica.

    - E agora, Antenor, como vai ser a vida desse menino?

    - Calma, Lurdes, vamos criá-lo da melhor forma possível. O nosso filho vai ser uma criança normal, mesmo com estas limitações, isso eu te prometo. E não vou deixar ninguém olhar ele como alguém diferente, com dó ou nojo, mesmo que eu tenha de enfrentar o mundo todo no braço.

    E assim foi. Com muito esforço e dedicação e carinho, criaram o menino com uma vida quase normal. Até o dia em que ele entrou correndo em casa, branco de susto.

    - O que foi, meu filho?

    - N-nada, mamãe. Foi só outro plano infalível do Cebolinha e da Mônica para me molharem na volta do colégio. Eu consegui escapar, mas desta vez foi por pouco. Ufa.

    Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores, com o tema ÁGUA.

    Entre no vazio

    Ok, eu não conhecia Gaspar Noe. My fault. Mas assisti esta semana o Enter the Void (Soudain Le Vide, 2009), de direção e roteiro dele. Uma tradução literal para o português seria Entre no Vazio. E será por causa deste filme é que irei assistir a todos os outros que ele dirigiu. Isso porque o filme mexeu comigo de uma forma que poucos filmes souberam fazer. A câmera funciona algumas vezes como personagem. Ou acompanha as cenas do ângulo superior lembrando um pouco Dogville, de Lars von Trier. A referência não é gratuita, pois os temas abordados por ambos diretores também são fortes, complexos e questionadores. Mas Noe, um pouco mais que von Trier, choca visualmente os dispostos a experimentarem uma viagem além da visão e da audição. Ele nos proporciona uma experiência sensorial. Às vezes repugnante, pois mescla violência e sexo não convencional em cenas explícitas. Tanto é que, além de eu não recomendar o filme para os politicamente corretos, também não indicaria aos que sofrem de vertigem, epilepsia ou labirintite (veja os créditos iniciais do filme e saiba o porquê). O roteiro é simplório: um rapaz traficante que mora com a irmã stripper em Tóquio é morto por policiais. Não daria nem mesmo um capítulo de novela da Globo, quanto mais um bom capítulo de novela da Globo. Mas a forma com que a história é mostrada, mesclando temas tão distantes como alucinações causadas pelas drogas, viagens astrais e reencarnação, é o diferencial do filme. As sequências entre cenas, e as coincidências entre passado, presente e futuro são muito criativas. Mesmo que depois de uma hora o uso repetitivo da câmera fique um pouco cansativo, vale a pena ver até o fim, pois é um filme feito para questionar condutas e estéticas. Para se divulgar o Bardo Thodol, o Livro Tibetano dos Mortos, em um contexto contemporâneo. Para se viajar sem estar chapado. Ah, e fica uma dica final: assista o filme no escuro.