Leituras em 2011

Já começo o post dizendo que este foi o meu melhor ano em leituras. Não apenas em quantidade de livros, mas quantidade de novos escritores desconhecidos, tanto famosos quanto anônimos e obtive bons resultados. E antes que alguém venha com a velha ladainha que quantidade não é qualidade, que ler muito faz aproveitar pouco a leitura, já aviso que cada leitor tem o seu ritmo próprio de leitura e interpretação. Se você consegue ler 1, 10 ou 100 livros por ano e tirar pleno proveito disso, é algo subjetivo, nunca compare-se com outros leitores pois não seria uma comparação adequada. Faça como eu, compare-se consigo mesmo, ano a ano. E é por isso que faço este tópico.

Para o post não ficar chato só com estatísticas, resolvi facilitar a minha vida comparativa futura e fazer uns graficozinhos no Excel. Primeiro, vamos ao número de leituras anuais desde o nascimento do blogue Libru Lumen, em 2007.


Como podem perceber, quase dobrei o número de leituras em relação à 2010. Isso basicamente se deve a uma das metas que estipulei para 2011: 1. Ler pelo menos 50 ppd (páginas por dia). Em 2010, li o total de 14.483 páginas, o que me deu a média de 40 ppd. Não só consegui cumprir o meu objetivo, como fui um pouco além: 24.435 páginas no ano ou 67 ppd. E não digo que foi difícil, que parei de viver, de trabalhar, de ver filmes (como a minha lista de filmes vistos em 2011 também vai mostrar), de sair para me divertir e outras coisas. Acredito que isto se deu porque adquiri um bom ritmo e regularidade na leitura.

Algo que acrescentei em 2011 na minha lista é uma classificação dos livros que li (influenciado pelo Skoob). Como não tinha feito isso nos anos passados, não posso fazer um gráfico comparativo anual passado, mas já é um objetivo possível para o ano que vem. Dos 118 livros que li em 2011, eis as minhas notas para eles:


Ano que vem quero adicionar a nota Muito Bom, copiando definitivamente o Skoob e definindo melhor aqueles livros que quase ganharam um Excelente, e portanto seriam melhores que Bom. Um dado interessante é que ter apostado alto em literatura brasileira cobrou o seu preço: todos os 7 livros que classifiquei como ruins estão dentro dos 49 brasileiros que li. Mas acho que fui eu quem não andou escolhendo bem quais brasileiros ler. Ou vai que é de praxe, né?

Por fim, para verificar o cumprimento das outras metas para o ano, como ler 1 livro de poesia por mês (não alcançada!), manter a média de leituras brasileiras em 25% (alcançada em mais de 40%), fiz a última  tabela para demonstrar o tipo e estilo de livros que li. Detalhe: alguns livros se enquadram em mais de um tipo.


JANEIRO (12 livros = 2438 pgs)
1. A minha alma é irmã de Deus, Raimundo Carrero, 176 pgs, ruim.
2. Sobre histórias de fadas, J. R. R. Tolkien, 118 pgs, regular.
3. Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll, 150 pgs, bom. (releitura)
4. Através do espelho e o que Alice encontrou por lá, Lewis Carroll, 167 pgs, excelente.
5. Orgulho e preconceito, Jane Austen, 464 pgs, excelente. (clube de leitura)
6. Droga de americana!, Pedro Bandeira, 192 pgs, bom.
7. A droga do amor, Pedro Bandeira, 176 pgs, bom.
8. Luka e o fogo da vida, Salman Rushdie, 208 pgs, excelente.
9. The Walking Dead (vols. 31-40), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)
10. A arte de triunfar na vida, Délia Steinberg Guzmán, 112 pgs, bom.
11. Os pequenos homens livres, Terry Pratchett, 263 pgs, excelente.
12. Benjamin, Chico Buarque, 162 pgs, bom. (ebook)

FEVEREIRO (6 livros = 1533 pgs)
13. Imperador Juliano, Benoist-méchin, 320 pgs, excelente. (emprestado)
14. A paixão pelos livros, diversos autores, 152 pgs, excelente.
15. Mais comédias para ler na escola, Luis Fernando Verissimo, 152 pgs, bom.
16. The Walking Dead (vols. 41-50), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)
17. Rei Lear, William Shakespeare, 191 pgs, excelente. (releitura) (clube de leitura)
18. Código da vida, Saulo Ramos, 468 pgs, bom.

MARÇO (9 livros = 1820 pgs)
19. Haroun e o mar de histórias, Salman Rushdie, 176 pgs, regular.
20. Dexter: design de um assassino, Jeff Lindsay, 272 pgs, bom.
21. Prosa de gaveta, Guilherme Tauil, 84 pgs, bom.
22. Para ser escritor, Charles Kiefer, 160 pgs, bom.
23. O Hobbit, J. R. R. Tolkien, 297 pgs, regular.
24. Isto és tu, Joseph Campbell, 230 pgs, excelente. (ebook)
25. Histórias brasileiras de verão, Luis Fernando Verissimo, 279 pgs, bom.
26. Arte e letra: estórias A, diversos autores, 72 pgs, excelente.
27. The Walking Dead (vols. 51-60), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

ABRIL (10 livros = 2409 pgs)
28. Nunca antes na história deste país, Marcelo Tas, 168 pgs, regular. (emprestado)
29. O senhor dos anéis: a Sociedade do anel, J. R. R. Tolkien, 566 pgs, regular.
30. Praticamente inofensiva, Douglas Adams, 208 pgs, bom.
31. O gênio do crime, João Carlos Marinho, 126 pgs, regular.
32. Como ser um pirata, Cressida Cowell, 224 pgs, bom.
33. A casa infernal, Richard Matheson, 256 pgs, excelente.
34. O ladrão de raios, Rick Riordan, 397 pgs, bom.
35. Arte e letra: estórias B, diversos autores, 86 pgs, bom.
36. Ficção de polpa vol. 1, diversos autores, 128 pgs, bom.
37. The Walking Dead (vols. 61-70), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

MAIO (9 livros = 1847 pgs)
38. Seja Feliz, Monica Sheehan, 96 pgs, bom. (vídeo)
39. Ficção de polpa vol. 2, diversos autores, 176 pgs, bom.
40. Como analisar narrativas, Cândida Vilares Gancho, 79 pgs, regular.
41. Pequena abelha, Chris Cleave, 267 pgs, regular.
42. Outra volta do parafuso, Henry James, 192 pgs, regular.
43. Sombras da noite, Stephen King, 411 pgs, bom. (emprestado)
44. O Caminho da Virtude, James Vollbrancht, 144 pgs, excelente. (emprestado)
45. Bilionários por acaso: a criação do Facebook, Ben Mezrich, 232 páginas, regular.
46. The Walking Dead (vols. 71-80), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

JUNHO (9 livros = 1639 pgs)
47. A loja dos suicidas, Jean Teulé, 142 pgs, bom.
48. Auto da Compadecida, Ariano Suassuna, 148 pgs, excelente.
49. Arte e letra: estórias C, diversos autores, 80 pgs, bom.
50. A menina que não sabia ler, John Harding, 288 pgs, bom.
51. The Walking Dead (vols. 81-85), Robert Kirkman, 125 pgs, bom. (ebook)
52. O invasor, Marçal Aquino, 232 pgs, regular.
53. Não nascemos prontos!, Mario Sergio Cortella, 136 pgs, excelente. (emprestado)
54. Vinte mil léguas submarinas, Júlio Verne, 408 pgs, regular. (clube de leitura)
55. Teoria da Literatura, Roberto Acízelo de Souza, 80 pgs, ruim.

JULHO (7 livros = 1303 pgs)
56. O vendedor de histórias, Jostein Gaarder, 207 pgs, regular.
57. Como falar dragonês, Cressida Cowell, 240 pgs, bom.
58. Annabel & Sarah, Jim Anotsu, 156 pgs, ruim.
59. A eterna privação do zagueiro absoluto, Luis Fernando Verissimo, 195 pgs, regular.
60. O Mar de Monstros, Rick Riordan, 287 pgs, bom.
61. Arte e letra: estórias D, diversos autores, 80 pgs, excelente.
62. Borges e os orangotangos eternos, Luis Fernando Verissimo, 138 pgs, bom.

AGOSTO (10 livros = 2405 pgs)
63. Mensagem, Fernando Pessoa, 112 pgs, bom.
64. Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky, 144 pgs, regular.
65. O vendedor de armas, Hugh Laurie, 288 pgs, bom.
66. A guerra dos tronos, George R. R. Martin, 592 pgs, excelente.
67. Famílias terrivelmente felizes, Marçal Aquino, 228 pgs, ruim.
68. Escreva seu livro, Laura Bacellar, 160 pgs, regular.
69. Arte e letra: estórias E, diversos autores, 80 pgs, bom.
70. Dom Casmurro, Machado de Assis, 332 pgs, bom.
71. Sandman vol. 7: Vidas breves, Neil Gaiman, 264 pgs, bom. (ebook)
72. O pássaro raro, Jostein Gaarder, 205, regular.

SETEMBRO (11 livros = 2365 pgs)
73. Como quebrar a maldição de um dragão, Cressida Cowell, 240 pgs, bom.
74. A fúria dos reis, George R. R. Martin, 656 pgs, excelente.
75. O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 298 pgs, excelente.
76. Sandman vol. 8: Fim dos mundos, Neil Gaiman, 176 pgs, bom. (ebook)
77. Arte e letra: estórias F, diversos autores, 96 pgs, bom.
78. Hoje está um dia morto, André de Leones, 160 pgs, ruim.
79. Sociedade civil e participação, diversos autores, 84 pgs, bom.
80. O matrimônio do céu e do inferno / O livro de Thel, William Blake, 85 pgs, bom.
81. Contos de fadas, diversos autores, 284 pgs, excelente.
82. A estranha máquina extraviada, José J. Veiga, 144 pgs, bom.
83. Sombras de reis barbudos, José J. Veiga, 142 pgs, bom. (emprestado)

OUTUBRO (12 livros = 1748 pgs)
84. A maldição do Titã, Rick Riordan, 336 pgs, bom.
85. Treinamento prático em leitura dinâmica, Alberto Dell'Isola, 144 pgs, bom. (releitura)
86. Prometeu acorrentado, Ésquilo, 68 pgs, excelente. (releitura)
87. Ájax, Sófocles, 78 pgs, excelente.
88. Alceste, Eurípides, 74 pgs, excelente.
89. Fahrenheit 451, Ray Bradbury, 256 pgs, excelente. (clube de leitura)
90. Arte & Letra: Estórias N, diversos autores, 104 pgs, excelente.
91. Darmapada: a doutrina budista em versos, Fernando Cacciatore de Garcia (trad.), 160 pgs, excelente. (releitura)
92. Travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa, 304 pgs, bom.
93. Fawcett, André Diniz & Flávio Colin, 40 pgs, bom.
94. Fractal, Marcela Godoy & Eduardo Ferigato, 64 pgs, excelente.
95. Breve história do espírito, Sérgio Sant'anna, 120 pgs, ruim.

NOVEMBRO (12 livros = 2247 pgs)
96. Curso de Escrita Criativa vol. I, Pedro Sena-Lino, 128 pgs, bom.
97. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 3, Bryan Lee O'malley, 423 pgs, bom.
98. Contos de Dinossauros, Ray Bradbury, 146 pgs, bom.
99. Gaveta de bolso, Juliana Cunha & Luda Lima, 120 pgs, regular. (ebook)
100. Contos de amor, de loucura e de morte, Horacio Quiroga, 206 pgs, excelente.
101. A batalha do labirinto, Rick Riordan, 367 pgs, bom.
102. A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, Jostein Gaarder & Klaus Hagerup, 179 pgs, bom.
103. Arte & Letra: Estórias G, diversos autores, 96 pgs, bom.
104. The Walking Dead (vols. 86-91), Robert Kirkman, 150 pgs, bom. (ebook)
105. O chamado de Cthulhu e outros contos, H. P. Lovecraft, 164 pgs, bom.
106. Ficção de polpa: Crime!, diversos autores, 160 pgs, bom.
107. Cidadania e a luta por direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, diversos autores, 108 pgs, regular.

DEZEMBRO (11 livros = 2681 pgs)
108. A guerra da arte, Steven Pressfield, 174 pgs, excelente. (releitura)
109. Paz guerreira, Talal Husseini, 712 pgs, ruim.
110. O último Olimpiano, Rick Riordan, 383 pgs, bom.
111. Lúcifer e Logos, Huberto Rohden, 160 pgs, excelente. (emprestado)
112. Peter e Wendy, J. M. Barrie, 176 pgs, excelente. (releitura)
113. Peter Pan em Kensington Gardens, J. M. Barrie, 80 pgs, regular.
114. Sandman vol. 9: Entes queridos, Neil Gaiman, 360 pgs, bom. (ebook)
115. Sandman vol. 10: Despertar, Neil Gaiman, 200 pgs, bom. (ebook)
116. Uma viagem aos contos clássicos ingleses, Oscar Wilde & Thomas Hardy & D. H. Lawrence, 96 pgs, bom.
117. Como mudar uma história de dragão, Cressida Cowell, 256 pgs, bom.
118. Arte & Letra: Estórias O, diversos autores, 84 pgs, bom.

Leia também:
- Leituras em 2010
- Leituras em 2009
- Leituras em 2008
- Leituras em 2007

Top Five 2011: as melhores HQs lidas durante o ano

Meu mea culpa na lista das 5 melhores Revistas em Quadrinhos (HQs) lidas no ano é que não li mais do que 5. Mas consegui terminar duas (Sandman e Scott Pilgrim) e atualizar The Walking Dead. Para 2012, talvez volte a ler Vagabond e pegue alguma mais recente, talvez brasileira ou francesa. Alguma sugestão?


1. The Walking Dead (vols. 31-91), de Robert Kirkman, 2008-2011 - comecei a leitura ano passado e consegui alcançar os lançamentos mensais atuais. Trata-se da HQ mais sádica com os seus personagens que eu já vi. Virar fã da HQ traz a revolta em acompanhar a adaptação da série para a TV na 1ª temporada e o alívio na 2ª, que mesmo trazendo com muita coisa diferente, pegou um rumo legal. Ah, a minha personagem preferida é a Michonne. Adoro mulheres malvadas, melhor ainda se são as mocinhas da história.


2. Sandman (vols. 41-75), de Neil Gaiman, 1994-1998 - Também comecei a ler ano passado e finalizei o último arco este mês. Clássico dos clássicos, que não leu não sabe o que é HQ. Só não achei tudo aquilo que o povo fala ao idolatrar a série. Ainda prefiro Watchmen.


3. Fractal, de Marcela Godoy & Eduardo Ferigato, 2009 - ótima HQ brazuca, com uma ideia boa porém com um final um pouco confuso. Talvez tenha sido intencional, mas que foi uma boa sacada, foi.


4. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 3, de Bryan Lee O'malley, 2011 - terminei o último livro da série e cheguei a conclusão que o filme realmente é melhor, assim como aconteceu com o Oldboy. Momentos como estes devemos anotar na agenda, são raros.


5. Fawcett, de André Diniz & Flávio Colin, 2010 - outra HQ brazuca, baseada em uma história real de Indiana Jones passada no Brasil do século XIX. Porém, acho que ficou muito técnica e didática perdendo no quesito arte.

Top Five 2011: as melhores SÉRIES vistas durante o ano

Já citei aqui os 5 melhores filmes e livros de 2011. Agora chegou a vez das melhores séries que assisti, e olha que sou um viciado em séries. E como vocês podem notar abaixo, não sou muito de ver séries antigas, já que todas as 5 são de 2011.


1. Guerra dos Tronos (Game of Thrones), 2011 - da série passei para os livros e gostei muito do que vi e li. A adaptação é super fiel ao livro e as interpretações dos novos atores dignas de indicações a prêmios. Não tem como não ficar chocado com as maldades e reviravoltas da trama, nem como deixar de escolher pelo menos umas cinco personagens principais como favoritas. As minhas são: Daenerys Targaryen, Arya e Bram Stark, Jon Snow e Tyrion Lennister. E o inverno está chegando... Veja o trailer aqui.


2. Dexter: 6ª temporada, 2011 - apesar de ter sido uma salada mista essa temporada, desviando muito do foco fixo do assassino principal, os roteiristas de Dexter assim como os de House continuam tendo boas ideias que seguram as séries por outras temporadas. Os questionamentos religiosos da temporada deram um toque especial, mostrando que a religião pode conduzir ao bem ou ao mal. Veja o trailer aqui.


3. Luther: 2ª temporada, 2011 - apesar de inferior à 1ª temporada, mesmo assim continua inteligente e original. Os britânicos são foda no quesito séries. Quem sabe em 2012 eu animo a ver Dr. Who? Veja o trailer aqui (em inglês).


4. House: 7ª e 8ª temporada, 2011 - somando alguns episódios (não o final horroroso) da 7ª com o início da 8ª conseguiu subir ao pódio. O fim do romancezinho água-com-açúcar do House que já tava enchendo o saco, na minha opinião, trouxe fôlego à série. Veja os trailers da sétima e oitava temporadas.


5. Amor em 4 atos, 2011 - única brazuca no páreo, gostei das adaptações das músicas do Chico Buarque para a tv. acredito que não fizeram feio ao artista nem aos fãs. Não competiram Capitu nem Som & Fúria pois as vi em 2010. Veja a chamada aqui.

Poderiam ter entrado facilmente no Top5 Californication, Bones, Suits e The Defenders, das quais também gostei muito, mas apesar de boas, não mexeram comigo tanto quanto as acima. Também não citei The Walking Dead, pois a 1ª temporada terminei de ver em 2010 e a 2ª ainda estou assistindo.

E você, qual foi o seu Top5?

Uma imagem em 35 palavras (6)


O Romântico: - Leva. Batendo três vezes por ti e uma por mim já era seu mesmo.

A Vingativa: - Hoje você vai sentir o que é algo maior tentando se encaixar num orifício menor.

O Duelo

Fosse eu um narrador tradicional, daqueles conservadores, começaria o conto dizendo que chovia a cântaros. Ou se tivesse um estilo mais revolucionário, provocativo, optaria pelo chovia pra caralho. Como não sou nem um nem outro, inicio com a obviedade ululante.

Chovia muito.

E não é por chover muito que não havia ninguém na chuva. Se limparmos as gotas que caem diretamente em nossos olhos ou protegermos as vistas com uma das mãos, conseguiremos visualizar um vulto se movendo em meio ao dilúvio. Um homem. Um cavaleiro. Seguindo sem pressa, com a capa preta e chapéu encharcados pela rua enlameada. Como estamos na rua principal da currutela, que coincidentemente é a única rua, de cara ficamos sabendo que não se trata de uma cidade grande, e como não há automóveis e motocicletas à vista, eu deixo você supor que nem mesmo nos tempos atuais estamos. A rua é formada por uma dúzia de construções de madeira cada lado, todas hermeticamente fechadas e silenciosas com um tempo destes. Em frente a última delas há cavalos amarrados em um toco. A rua acaba no rio que corre cheio e sujo. O cavaleiro ruma à bodega, e deixamos de ser observadores distantes para acompanhar em sua garupa o galope tranquilo e orientado da montaria. O cavalo nos conduz até o compromisso do meio-dia.

O homem apeia dentro de uma poça d’água. Puxa o alazão pelas rédeas até os outros cavalos e o amarra no pau. Observa as duas éguas e sabe que já chegaram antes dele. Pára um momento e limpa o excesso de lama das botas em um pedaço de tacho de ferro cravado estrategicamente no chão, próximo à porta do estabelecimento. Apalpa o volume que carrega na cintura para que a sensação de segurança e coragem o acompanhem porta adentro. Respira fundo, sobe os degraus de madeira e entra.

Apesar da hora, não fosse uma lamparina acessa no balcão o ambiente seria um breu. O ar estava carregado de fumaça e música. Enquanto o cavaleiro tira o chapéu e a capa os sacudindo para tirar o excesso de água antes de pendurá-los – movimentos calculados para acostumar a vista à iluminação do ambiente enquanto identifica os que ali estão – percebe que no recinto estão oito pessoas. Quatro jogam truco em uma mesa perto da entrada, bebendo e fumando muito e prestam pouca atenção ao visitante. Atrás da lamparina está o balcão e atrás deste o atendente que, acompanhado das garrafas de bebidas e da chiadeira de um rádio velho, apenas observa. No canto esquerdo, há uma puta gorda rindo e servindo aguardente para um homem de chapéu, cuja face fica encoberta pelas sombras. Do outro lado, perto da única janela há uma mesa e nela um soldado de farda cinza apara as unhas do pé com um canivete. Quando percebe o visitante, dá um sorriso de escárnio, guarda o canivete e calça a bota. O visitante caminha até o balcão e pede cachaça. O garçom o serve sem perguntar. Bebe de um gole só, para esquentar, e depois cospe no chão. Então, sem esperar que o desavisado leitor reflita por um momento sequer na cena e tire suas conclusões precipitadas, retira o revólver do coldre e coloca sobre o balcão.

- Estou aqui para o duelo e quero saber quem é o macho que me desafiou.

Todos se calam, menos o rádio, que continua a melodia chiada. O homem de chapéu no canto se levanta mostrando o rosto. Era um índio ou um mestiço qualquer e tinha uma pequena faca na mão, destas de atirar. Dizem que índios são exímios atiradores de facas. Ou seriam os mexicanos? O soldado também se levanta e pega a espingarda escorada ao seu lado. Ele ajeita o quepe e cospe no chão.

- Pelo jeito o duelo vai ser com mais de um, porque eu também fui desafiado.

A garçonete gorda corre para o outro lado da sala. Nesta hora o garçom interfere.

- Senhores, aqui não é local para pendengas e entreveros. Por favor, peço para que se esqueçam disso ou saiam para a rua. Este é um estabelecimento de respeito e pacífico.

Os três homens parecem não escutá-lo. O que está no balcão pega o revólver e caminha lentamente de costas até a porta. Pára na posição onde os três ficam exatamente frente a frente. O garçom, agora mais nervoso, insiste.

- Cavalheiros, cada um dos senhores é famoso por ter um estilo próprio. O confronto de tais estilos não irá provar que ninguém é melhor que ninguém. Seria injusto comparar quem é o melhor na faca, revólver ou carabina tanto como quem seria o melhor na poesia, conto ou crônica. Comparar estilos diferentes em apenas uma única disputa fica mais a critério da sorte que por conta das habilidades pessoais dos senhores. Pensem comigo: e se algum de vocês não acordou em um bom dia ou a sua arma não funcionar no momento específico do confronto? Teriam uma segunda chance para provar que as circunstancias lhes foram desfavoráveis?

Os três continuavam a se encarar sérios. O garçom continua.

- O pior que pode resultar destes tipos de confronto são os observadores externos. Os críticos verão e apontarão as falhas técnicas de cada duelista. Fulano perdeu a disputa porque suava demais ou porque era um barril cheio de clichês. Sicrano porque imitava um estilo já conhecido e ultrapassado. E nisso nem mesmo os vencedores sairão ilesos. Os seus defeitos serão espalhados por onde andarem. Vencer é destacar-se, é pintar um alvo no meio do peito. Os adversários inteligentes serão os primeiros a explorarem as vulnerabilidades dos outros, propondo duelos em locais ou com armas que sabem serem os seus pontos fracos. Nunca notaram que aquele que é esperto nunca desafia os que acredita serem superiores a ele a menos que as circunstâncias lhe sejam favoráveis? É intencional e premeditado, pois ele quer vencer. A sua vida depende disso. Além do que, se alguém ganhar de outro valendo-se das informações que obteve de seus adversários, adquire forçosamente a fama de mau competidor. Será maldito por onde passar. E tem o detalhe que os senhores esquecem e que acaba de lhes custar a vida…

Rapidamente, o barmen saca duas pistolas escondidas no balcão e, ao mesmo tempo, atira no soldado e no homem da porta, que caem instantaneamente mortos sem saberem o que os atingiu. Colocando as armas sobre o balcão, ele prossegue.

- Quem joga sujo usa a plateia a seu favor, transformando os observadores em seus cúmplices. Ele sabe que todos querem fazer parte do espetáculo, mesmo que no papel de coadjuvantes. Por isso, o desafiante estuda bem o terreno antes do duelo, usando a má fama que adquiriu para convencer jagunços armados a parecerem meros jogadores de truco, mas prontos para agir caso algo saia errado. Também posiciona a prostituta inofensiva logo atrás do soldado com uma navalha escondida preparada para cortar-lhe a garganta. E como duelista vil e ardiloso que é, troca de lugar com o verdadeiro barman, o índio, desviando toda a atenção dos adversários para a peça menos perigosa do tabuleiro.

É, jogar sujo é para poucos e estes não merecem ganhar. Mas geralmente são os que ganham.

Ano Novo, de Ferreira Gullar



ANO NOVO

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

Top Five 2011: os melhores FILMES vistos durante o ano

Já passamos da metade do mês de dezembro, então é hora de fazermos aquele retrospecto do 2011 e divulgarmos a nossa lista das melhores filmes vistos durante o ano. Deixei de fora os que reprisei, afinal não foram surpresa alguma para mim, eu os assisti novamente justamente por já saber que eram excelentes:


1. No espaço não existem sentimentos (I rymden finns inga känslor / Simple Simon), 2010 - o filme sueco que concorreu ao oscar em 2010 tornou-se um dos meus favoritos a serem assistidos novamente milhares de vezes. Por narrar a história sob a ótica de um portador da Síndrome de Asperger, lembra muito o tom do livro O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon. A história é original, doce, engraçada e romanticazinha. Veja o trailer (em sueco/inglês).


2. Guerreiro (Warrior), 2011 - Eu já tinha gostado do filme Gigantes de Aço, com lutas e emoção que lembram os bons filmes do Rocky. Mas Guerreiro adicionou um ótimo enredo, com lutas de UFC (tava demorando para Hollywood explorar essa febre), drama familiar e atuações fora de série. Violência na medida certa para torcer junto com os seus filhos e avós. Veja o trailer.


3. Hanna, 2011 - Quem nunca gostou de um filme por causa e inclusive pela trilha sonora? The Chemical Brothers deveriam só trabalhar com OST. Além disso, não conheço um homem que não goste da Saoirse Ronan, mesmo sendo uma assassina capaz de cortar fora qualquer mão boba pro lado dela. Ai, ai, ai. Veja o trailer.


4. Os inocentes (The innocents), 1961 - Confesso que só busquei esse filme por causa do livro A outra volta do parafuso, do Henry James. Não consegui captar onde estava o terror do livro. Sou fã de terror e fiquei frustrado com a leitura. O filme conseguiu me mostrar o que não vi no livro. Me deixou arrepiado vendo sozinho no escuro e me deu outra dimensão do que era o terror. E não, o que mais assusta no filme não são os fantasmas. Veja o trailer (em inglês).


5. A doutrina de choque (The shock doctrine), 2009 - Tinha que ter pelo menos um documentário na minha lista né? Aprecio teorias de conspiração, ainda mais com bons argumentos e pesquisas históricas de fatos e documentos. Achei melhor que Fahrenheit 9/11. Assista o filme online.

E você, qual o seu Top5?

Top Five 2011: Os melhores LIVROS lidos durante o ano

Já passamos da metade do mês de dezembro, então é hora de fazermos aquele retrospecto do 2011 e divulgarmos a nossa lista das melhores leituras do ano. Pensei em 5 por ser um número cabalístico que não  agrada aqueles que leram muito (há tantas opções, aumenta pra 10, vai!) e também não agrada quem leu pouco (não chegou aos 3 melhores, quem dirá 5!). Poderia ter sido uma listinha simples, mas preferi comentar o porquê das escolhas. Talvez a minha lista ajude você a definir algumas leituras para 2012. Sinta-se à vontade para deixar a sua lista nos comentários, talvez ela me ajude a definir as minhas leituras.

Contudo, adianto que deixei de fora os que reli, afinal não foram surpresa alguma para mim, eu os reli justamente por já saber serem excelentes. Ah, e se quiser conferir os preços promocionais dos livros listados abaixo na internet, basta clicar na fotografia da sua capa.


1. Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin - os 3 livros da série lançados no Brasil. Apesar de só ter lido 2 deles, vou ler o 3º semana q vem e já sei que vou gostar. O cara simplesmente fez uma revolução na literatura fantástica contemporânea misturando fatos da história real com fantasia, personagens carismáticos e reviravoltas revoltantes ou não. Além disso, entrou para o meu rol de escritores que sabem descrever bem batalhas, ao lado do Steven Pressfield e Bernard Cornwell. Tá, podem dizer que eu trapaceei botando 3 livros em 1º lugar ao invés de um, mas façamos de conta que os 7 livros são uma história só, ok? 


2. O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde - este é um daqueles clássicos que você sabe da história muitos anos antes de lê-la e por isso vai adiando. Mas quando lê, imediatamente reconhece a obra-prima que é e a coloca na sua lista de releituras anuais obrigatórias. Li a edição da Clássicos Abril Coleções, com capa de tecido.


3. Luka e o fogo da vida, de Salman Rushdie -
para quem se interessa em ler/escrever histórias infanto-juvenis como eu este é um prato cheio. O autor soube mesclar muito bem vídeo-games com mitologia e, entre outras, deixar o livro interessante para os jovens de todas as idades. Pros mais velhos, as referências são uma delícia à parte (tem uma página, por exemplo, onde ele referencia tudo o que já saiu sobre viagens no tempo, e você vai descobrindo que uma ou outra lhe é familiar). Luka é a continuação de outro livro, o Haroun e o mar de histórias, mas achei o Luka melhor.


4. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury -
distopia que critica muita coisa que vemos ou pensamos estar errado em nossos dias, mesmo tendo sido escrita há muito tempo atrás. É daqueles livros que te fazem pensar nas coisas ao seu redor e no futuro. Não necessariamente com esperança.


5. Alceste, de Eurípides -
peça teatral com o que há de melhor na tragédia grega: morte, Apolo, Hércules, argumentos pró e contra que te fazem pender ora para o lado de um personagem ora para o lado de outro. As últimas tragédias gregas que me satisfizeram intelectualmente desta forma foram Antígona e Édipo em Colono. Li a edição da Jorge Zahar, muito boa e cara por sinal, onde acompanham as outras peças Prometeu Acorrentado e Ájax.

E você, qual é o seu Top5?

Degustação


Ela continuava sem entender mesmo após terem lhe explicado o que era umami. Mas não queria passar por ignorante, afinal era a primeira vez que conseguia uma reserva naquele restaurante caríssimo, que vivia sempre lotado.

- Quer dizer que eu tenho isso na minha língua?

- Sim.

- E foram os japoneses quem inventaram?

- Não, senhorita, os japoneses apenas descobriram e deram o nome, que traduzido significa delicioso ou saboroso. Todas as pessoas já nascem com as papilas gustativas na língua capazes de identificar o gosto.

- E é isso que eu vou experimentar?

- Não propriamente, senhorita, pois é necessário certo treino e experiência para reconhecer o umami em um prato. O que a senhora está experimentando é uma outra descoberta japonesa, o fugu.

- É outro gosto?

- Na verdade é um peixe, conhecido por aqui como baiacu.

- E o que o baiacu tem a ver com o umami?

- Basicamente é uma teoria gastronômica, senhorita. Eu pretendia explicar mais tarde, quando o prato chegasse, mas como ele já deve estar quase pronto, faço agora. Os japoneses possuem uma culinária única, peculiar e muitas vezes perigosa. Muitas descobertas gastronômicas feitas pelos cozinheiros orientais envolvem o realce de pratos já conhecidos a partir de ingredientes adicionais externos. Para reconhecer o gosto umami é preciso mais habilidade e treino do gourmet que propriamente do cozinheiro. Mas há outros tipos de realce, estes mais fáceis de serem alcançados. Por exemplo, o fugu é um peixe extremamente venenoso. O seu veneno é dez vezes mais mortífero que o cianeto. Qualquer erro mínimo na preparação pode matar envenenado quem experimenta o prato. O cozinheiro precisa ser extremamente hábil e metódico.

- E o cozinheiro de vocês é habilidoso?

- Isso eu não posso lhe informar, senhorita, pois perderia o realce do seu prato. Os especialistas dizem que o medo diante da morte faz com que o corpo libere alguns hormônios em seu organismo, como a dopamina, a endorfina e a adrenalina, que fazem com que a experiência de saborear um fugu seja muito mais prazerosa por causa disso. O seu próprio corpo produz os ingredientes finais para o peixe, os hormônios do medo. Mas eis que o seu prato chegou… Bom apetite!

- Eu não quero mais experimentar isso, não quero me arriscar…

- Entendo, mas agora a senhorita vai ter que comer tudo – e, retirando um revólver do colete o encosta na cabeça da moça – ou então eu lhe estouro os miolos aqui mesmo.

- Você está louco?!? Por que está fazendo isso comigo?

- A hora de fazer perguntas passou, agora coma – e engatilhando a arma, com um sonoro clique, ameaçou – coma ou serei obrigado a matá-la.

A jovem olhou ao redor, buscando qualquer auxílio nos ocupantes das outras mesas. Mas estes simplesmente a olhavam sérios, parecendo incomodados com a sua recusa diante do prato. Sem alternativa, teve de resignar-se a comer o peixe. O coração acelerado, as mãos suando, a respiração irregular, o calor subindo em seu corpo, cada sentido se intensificava a cada porção que comia. As primeiras garfadas foram mais difíceis de engolir. Porém, após alguns minutos uma sensação de bem estar dominou o seu corpo. Começou a sorrir enquanto enfiava mais e mais pedaços de peixe na boca e os engolia inteiros. Gargalhava com a boca cheia deixando cair algumas migalhas ao redor. O garçom lhe parecia estranho, os olhos e orelhas alongados, o cano da arma em suas mãos parecia mais curto que os seus dedos... Tudo começou a girar e por fim sentiu a cabeça pesada tombar sobre a mesa.

- Senhores e senhoras, como puderam observar, a senhorita acaba de passar por todos os sintomas que mostram que os hormônios do medo atuaram em seu corpo até ela perder os sentidos. Como todos estão cientes, ela não morreu envenenada, apenas sentiu as alucinações provocadas por uma pequena dose da toxina do fugu aspergida no molho e desmaiou. Agora vamos ao prato principal da noite, pelo qual os senhores pagaram tão caro: churrasco mal passado de carne vermelha impregnado com altas doses de dopamina, endorfina e adrenalina. Somente peço para terem um pouco mais de paciência e aguardarem os nossos cozinheiros prepararem o prato. Enquanto isso, sugiro que saboreiem a nossa reserva especial de Lafite Rothschild, importada especialmente para esta noite, que os garçons já estão servindo em vossas mesas…

Diferença


Sabe qual a diferença entre uma pessoa que lê e uma que não lê?
A primeira sabe.

(Jefferson Luiz Maleski)