Luto

Luto
Luto contra
Eu luto meu luto
Sempre
Por um instante
Se luto é meu
Não-luto não luto
Se luto os outros
Luto com palavras
Sozinho
Mas ainda
Luto.


Cheia

(parte 3 de 4)

- E se eu disser que o seu companheiro de quarto é apenas uma ilusão criada pela sua mente?

- Impossível.

- E por quê?

- Zip!

- Provérbios dezoito dois.

- Hahahahaha.

- Senhores, senhores, por favor acalmem-se, todos tiveram a sua vez de falar, agora é a vez do senhor Ferdinando. E senhor Zair, já lhe avisei antes, por favor pare com esta brincadeira de colocar o dedo no meu ouvido ou será severamente punido.

- Zip!

Os olhos do homem de roupa e barba brancas paralisaram imediatamente o pequeno Zair, fazendo-o recolher-se a sua cadeira. Em seguida, o doutor fez o mesmo com todos os que se encontravam no pequeno círculo. Éramos quatro contra um, mas quem ousaria contestar a São Pedro? Não, ele não era o verdadeiro São Pedro, eu acho, mas o chamávamos assim pois era o responsável por julgar quem estava apto ou não a deixar aquele purgatório. O guardião das portas voltou a atenção para mim.

- Aonde paramos?

- Eu dizia que é impossível eu ter imaginado um companheiro de quarto.

- Mas pense bem, Ferdinando, o senhor está vendo aqui conosco o seu companheiro de quarto imaginário?

Olho para o lugar vazio ao meu lado na esperança que alguém surja espontaneamente dali. Mas o vazio sentado ao meu lado apenas aumenta o vazio em mim.

- Ele me contou a história que o trouxera aqui, com detalhes que eu não conseguiria imaginar sozinho: lugares, nomes, pessoas que desconheço. Me desculpe, doutor, mas não acredito na sua teoria.

- E quem mencionou teoria? Já ouviu falar em projeção? Trata-se de um mecanismo de defesa da mente em que o indivíduo vê as ações que praticou no passado como sendo de outras pessoas. O senhor já se perguntou por que ele lhe conta as histórias com tantos detalhes?

- Porque quer desabafar, oras! Quem, depois de estar isolado durante semanas não sente a necessidade de confessar todos os pecados ao primeiro ouvido atento que aparece?

- Tiago um quinze.

- Senhora Margarida, silêncio, por favor.

A mulher de cabelos desgrenhados, desde que entrara na sala só olhava para o chão e citava trechos bíblicos. Devia ser uma destas beatas que a fé cozinhara o cérebro. Na vez dela falar, apenas ergueu as mãos e orou em voz alta de olhos fechados. Tivemos que esperar alguns minutos até São Pedro cansar-se e mandá-la parar. Ameaçou tirar-lhe a Bíblia caso continuasse. É um método interessante o de tratar os pacientes com livros e depois tirá-los, como se a cura e o vício fossem a mesma coisa. Eu também tenho o meu livro e não o devolveria sob nenhuma ameaça.

- Peço para que reflita outro detalhe comigo, senhor Ferdinando: por que somente ele conta histórias para o senhor e nunca o inverso?

- Porque eu não quero falar.

- Mas quem, depois de estar isolado durante semanas não sente a necessidade de confessar os seus pecados ao primeiro ouvido atento que aparece?

- Sim, mas...

Droga, ele me pegou. Independente do que eu diga, o meio sorriso cínico dele já me dá por vencido. Mas eu sei que estou certo. Olho para os colegas, Zair fixo no vazio à frente como se a coisa mais interessante do universo acontecesse a dez centímetros de seu nariz, Margarida conversando silenciosa sabe-se lá com quem e o senhor Quiroga, que apenas dera risadas até o momento, babando enquanto tenta tocar o nariz com a ponta da língua.

- Mesmo que todos digam que ele é fruto da minha imaginação, eu ainda insistirei que ele existe.

- Romanos três quatro.

Olho para o livro de capa de couro preta que minha colega segura e reflito que se as palavras são capazes de dar segurança até aos mais fracos quanto mais aos lúcidos como eu. As palavras escritas e orais - do livro e de meu colega - têm aliviado a minha estadia aqui. Percebo que o doutor me vê olhando para a Bíblia. Maravilha.

- Me fale sobre o livro que você está lendo. Notei que não quis citar o título dele na carta que escreveu.

- Eu sabia que vocês iriam ler a carta e querer tomá-lo de mim.

- E se eu lhe disser que foi intencional deixarmos aquele livro específico se destacando em meio aos outros para que você o considerasse diferente, quando era exatamente o que pretendíamos? Além disso, você percebeu que o seu colega de quarto só apareceu depois que você começou a ler o livro? Você não admite que tanto o seu colega quanto o livro o têm ajudado a melhorar?

- O senhor está tentado me fazer falar qual é o livro e onde o escondi. Mas não vai conseguir.

- Hahahahaha.

A risada foi o sinal esperado para fazer Zair correr até o doutor e enfiar o dedo em seu ouvido.

- Zip!

O doutor levantou-se enfurecido. Vermelho, apontou o dedo ríspido para a cadeira, olhando como um Zeus de olhos carregados de raios para o pequeno verme humano diante dele.

- Zip! Pode fazer o que quiser, Zip! eu não tenho medo de você, sou um servo classe dois dos Anunnaki e desde que cheguei do planeta Nibiru desliguei todos os mecanismos de sensibilidade deste corpo. Podem me bater que não sentirei nada! Zip!

E era verdade. Pelo menos a parte da insensibilidade eu já presenciara, o pequeno costumava dar fortes encontrões nas paredes e continuava normalmente como se nada acontecera. Apesar de divertido, não duvido que a insistência naquela atitude para com o doutor o faria dormir com algumas contusões naquela noite. Como o dedo do doutor continuava apontado para a cadeira, o servo classe dois resolveu sentar-se ao meu lado. Mas tão logo o fez, voltou a fixar o vazio, desligando o restante das suas funções vitais.

- Eu não sei o que dizer, doutor, o seu tratamento mais parece querer confundir que ajudar. Não sei como serei curado pensando que criei um colega de quarto imaginário.

- Jeremias dezessete cinco.

- Isso mesmo minha zelosa senhora - disse uma voz destoante das demais, atrás de mim - e eu diria mais, só alguém com sérios problemas confiaria em tudo o que os médicos dizem. Afinal, por que eles extirpariam todos os nossos males se são estes que lhes dão o sustento?

Antes mesmo de ver quem falava eu já havia reconhecido a voz do senhor ****. Ele sentou-se na cadeira aonde Zair estivera anteriormente, ao lado do senhor Quiroga. O doutor não deve ter gostado da interferência de meu colega pois derrubou os argumentos que usava contra mim. Mas conseguiu disfarçar como se aquilo fosse acontecer a qualquer momento.

- Vejo que finalmente juntou-se a nós, senhor ****. A enfermaria tratou bem das queimaduras em suas mãos? Espero que não nos recrimine por tomarmos restrições adicionais para com o senhor a partir de agora.

- Não esperaria menos dos senhores.

Olhei para as mãos e os braços de meu colega completamente enrolados em faixas e gazes. Depois soube que em um descuido dos enfermeiros enquanto o senhor **** fumava um cigarro, este pegou alguns produtos de limpeza próximos e jogou-os no próprio corpo, ateando fogo em si mesmo em seguida. Embora as chamas fossem logo contidas, sofrera queimaduras leves nos membros superiores. Não sei por que tentara aquilo, mas desconfiava que estava relacionado com o final da sua história amorosa.

- Bem, já que temos mais um integrante no grupo e este interrompeu a conversa com o senhor Ferdinando, nada mais justo que passemos a palavra para ele. Senhor ****, diga-nos, há algo que deseje compartilhar conosco?

O meu colega deu um leve sorriso e piscou para mim em cumplicidade. Disse que contaria como conseguiu conquistar o coração da sua amada sujando as suas mãos de sangue.

“A primeira coisa que minha noiva Diana fez após saber que seu pai a prometera a mim foi me chamar para uma conversa particular sobre o nosso futuro. Ela revelou saber que eu gostava da irmã, Selene, e fez questão que eu soubesse que ela não fora consultada pelo pai antes dele oferecer a sua mão para mim. Contou que o pai lhe prometera nunca força-la a se casar com ninguém e que a quebra da promessa paterna não mudaria a preferência sexual não revelada da filha. Surpreso com as palavras de Diana, apenas disse-lhe que minha mãe gostava muito dela, ao que me respondeu que também apreciava a minha mãe como amiga, jamais sogra. E me fez sua proposta: se eu quisesse o fim daquele noivado tanto quanto ela, havia um plano que, se eu seguisse à risca, estaria noivo da senhorita Maan correta em pouco tempo. Concordei de imediato. Faria qualquer coisa por Selene. Diana contou que ela costumava caçar nas matas fechadas pra lá do rio, muitas vezes com o pai. Em uma destas caçadas noturnas, depararam-se com um animal desconhecido, esperto, matreiro, que atacava a caça que perseguiam, devorava-a e fugia antes deles chegarem. Haviam somente visto o vulto do animal, silencioso e que não deixava pegadas, mas parecia perigoso pelas carcaças abatidas que deixava. O senhor Maan tornou-se obcecado como Ismael e o animal desconhecido virou a sua baleia. A ideia de Diana era eu dar fim ao animal, com a ajuda dela, para que ofertando-o abatido ao sogro, este se sentiria derrotado por outro caçador e, reconhecendo-o como superior, lhe deveria um favor, não podendo negar ao genro o pedido de troca da noiva.”

“Era um plano simples e por isso bom. Apesar de eu não ser tão bom caçador como Diana, ela se dispôs a fazer a parte difícil e, independente de quem abatesse o animal, o crédito seria meu. Armamo-nos de espingardas certa noite e saímos, sem fornecer detalhes aos familiares. Atravessamos o rio. Andamos quilômetros guiados pelo instinto caçador de Diana. Ela brilhava quando passava pelas clareiras da mata.  Parecia conhecer a floresta tão bem como se estivesse em casa. Depois de algumas horas rastreando pegadas e seguindo pistas, chegamos ao local em que o animal atacara pela última vez. Nos escondemos  e esperamos. O tempo das tocaias é um dos mais lentos do universo, como se a própria vida fizesse uma pausa. Minutos viram horas e horas vidas. Foi quando escutamos barulhos de galhos e folhas. Algo se aproximava. Diana indicou o local que eu deveria apontar a espingarda enquanto ela daria a volta por trás e espantaria o animal para a armadilha. Minha respiração ofegava e as mãos tremiam. Comecei a suar e em segundos encharquei a camisa. Se eu errasse o tiro o animal poderia me atacar. A minha imaginação criava os monstros mais fantásticos com as habilidades mais improváveis. Foi quando o vulto surgiu e avançou rápido na minha direção. O estampido quebrou o silêncio do vale. O animal tombou. Ainda tremendo, com um suspiro de alívio  no peito, me aproximei cautelosamente, chegando ao mesmo tempo que Diana. Iluminei o vulto caído. Era o senhor Maan.”

“Eu nunca soube se Diana planejara tudo maquiavelicamente ou se fora mero acidente. Preferi não pensar no assunto. Nunca mais conversamos sobre o animal desconhecido. Já era problemático o suficiente ter que carregar a morte de uma pessoa em minha consciência. Culpar Diana pelo meu erro seria uma saída covarde. Eu matara o meu sogro. Acidentes de caça eram comuns na região e o delegado acabou arquivando o caso, com o testemunho de Diana a meu favor. Após prometer cuidar da viúva e das duas filhas, me pareceu que a família também acabou aceitando a fatalidade. Enterramos o senhor Maan no pequeno cemitério da fazenda. A viúva recebeu de bom grado o cancelamento de meu noivado com a filha. Preferi respeitar o período de luto e não revelar as minhas intenções para com Selena. A senhora Maan percebia o arrependimento e a dor em meus olhos e acabou me perdoando. Porém, Selena reagiu diferente.”

“A mais nova dos Maan, sempre tímida e introvertida passou a me olhar com uma raiva mortífera. Nada me machucava mais, mas eu a compreendia. Ela precisava descarregar em alguém. Diana prometeu apaziguá-la. Ela e a mãe pareciam estar do meu lado. Um dia, quando saía para a cidade, Selena me interpelou dizendo que iria comigo. Assenti. Ela sentou-se ao meu lado na charrete. Seria uma viagem de três dias. Uma longa viagem. Uma viagem onde ela veio a despejar toda a sua mágoa, ódio e rancor acumulados sobre mim. Brigamos por um bom trecho do caminho. Ela me bateu. Me arranhou. Mas também foi nesta viagem em que Selena me deu o primeiro beijo.”

- Hahahahaha.

- Cânticos de Salomão oito, seis e sete.

Enquanto o doutor tentava conter o abobado do senhor Quiroga que agora pulava no centro da roda batendo palmas, Zair, que estivera calado até o momento, se aproximou de mim e perguntou:

- O senhor sabe como os servos classe dois do planeta Nibiru fazem amor?

- Não faço a mínima ideia - respondi.

Ele levantou-se rapidamente, foi até o doutor e colocou o dedo em seu ouvido, disse Zip! e depois escapou correndo realizado pela sala.

(Continua...)

Coleção Biblioteca Folha 2003


A Folha de São Paulo volta e meia lança alguma coleção interessante. A primeira que adquiri dela, lá pelos idos de 2003, foi a Coleção Biblioteca Folha, com grandes autores nacionais e internacionais. Como só comecei a pegar o gosto por comprar coleções completas a partir de 2003, ouvi comentários que a Folha já havia lançado coleções semelhantes no mesmo formato e nome anteriormente, mas não sei dizer se eram os mesmos títulos nem qual o ano de lançamento. Os livros vieram com uma sobrecapa removível (como na imagem acima) para proteger do manuseio e da poeira. Segue abaixo a lista com os 30 títulos da coleção e os que eu já li. Detalhe: os em azul são os que gostei muito mesmo e releria tranquilamente a qualquer momento e os em vermelho são os que odiei muito e não só não releria mas também fujo dos outros livros dos autores. Os que não são azul nem vermelho não fedem nem cheiram.

1. Lolita, de Vladmir Nabokov (lido 2004)
2. O Nome da Rosa, de Umberto Eco (lido 2003)
3. O Amante, de Marguerite Duras (lido 2004)
4. História do Cerco de Lisboa, de José Saramago (lido 2003)
5. O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (lido 2007)
6. A Linha de Sombra, de Joseph Conrad (lido 2012)
7. O Caso Morel, de Rubem Fonseca (lido 2012)
8. Trópico de Câncer, de Henry Miller (lido 2012)
9. Rumo ao Farol, de Virgínia Woolf (lido 2012)
10. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez (lido 2003)
11. O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway (lido 2004, 2012)
12. A Consciência de Zeno, de Italo Svevo (lido 2012)
13. Angústia, de Graciliano Ramos (lido 2012)
14. A Revolução dos Bichos, de George Orwell (lido 2003)
15. Pantaleón e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa (lido 2012)
16. Sidarta, de Hermann Hesse (lido 2007)
17. O Processo, de Franz Kafka (lido 2008)
18. Morte em Veneza, de Thomas Mann (lido 2004)
19. O Senhor das Moscas, de William Golding (lido 2004)
20. Nosso Homem em Havana, de Graham Greene (lido 2012)
21. As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino (lido 2012)
22. Dublinenses, de James Joyce (lido 2005)
23. A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir (lido 2012)
24. Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (lido 2012)
25. No Caminho de Swann, de Marcel Proust (lido 2012 outra versão)
26. Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler (lido 2003)
27. O Jovem Törless, de Robert Musil (lido 2008)
28. O Fio da Navalha, de W. Somerset Maugham (lido 2012)
29. Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro (lido 2012)
30. Quase Memória, de Carlos Heitor Cony (lido 2012)

Sou como um livro (Autoria Anônima)

Há quem me interprete pela capa.
Há quem me ame apenas por ela.
Há quem viaje em mim.
Há quem viaje comigo.
Há quem não me entende.
Há quem nunca tentou.
Há quem sempre quis ler-me.
Há quem nunca se interessou.
Há quem leu e não gostou.
Há quem leu e se apaixonou.
Há quem apenas busca em mim palavras de consolo.
Há quem só perceba teoria e objetividade.
Mas, tal como um livro, sempre trago algo de bom em mim.


O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco

Difícil mas prazeroso

Ele está na lista dos dez livros mais difíceis de ler (Listverse). O autor revelou que foi neste livro que inventou Dan Brown (Veja). Apenas estas duas notícias já seriam o suficiente para despertar a curiosidade sobre o que há de exótico em O Pêndulo de Foucault, do italiano Umberto Eco. Acrescente que Eco é meticuloso xiita incansável nas pesquisas preparatórias para os livros que escreve, tendo consultado mais de 1500 manuscritos e documentos antigos sobre sociedades secretas como templários, rosacrucianos, maçons etc. e personalidade famosas como Galileu, Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, entre outras. E justamente esta pesquisa extensa é que torna a leitura lenta e complicada – muitas vezes chata e repetitiva – pois muitos títulos e citações pesquisados não são traduzidos para o português, aparecendo em francês, italiano, inglês etc. Mas é também o que torna o livro atraente: a possibilidade de incontáveis documentos e pessoas reais estarem envolvidos em uma teoria de conspiração mundial. Podemos dizer que enquanto muitos escritores tentam superficializar a sua escrita para facilitar a leitura e atingir o máximo de leitores, Eco vai na contramão, selecionando e limitando os seus leitores e forçando-os ao extremo para que a experiência com a leitura seja diferente. Por causa disso, este é o primeiro livro que eu recomendo aos interessados corajosos a antes lerem o resumo do enredo (que na Wikipédia é imenso) mesmo com spoilers para depois encararem o livro, pois terão um pequeno vislumbre do desafio que enfrentarão.

Trechos selecionados
Nascemos sempre sob o signo errado e estarmos no mundo de maneira dignificante equivale a corrigirmos dia após dia o nosso horóscopo. (57)
Como na insipiência do mundo fulgura a sapiência do Altíssimo, o sábio observa o insipiente com humildade. (161)
...a única maneira de constranger o diabo é fazê-lo acreditar que não acreditamos nele. (643)
Não te lamentes de seres mortal, presa de mil microrganismos que não dominas, não és responsável pelos teus pés pouco preênseis, pelo desaparecimento da cauda, dos cabelos e dos dentes que não voltam acrescer, dos neurônios que semeais, de passagem, das veias que se endurecem. São os Anjos Invejosos. (652)
Se creio em Deus? Não, não, creio em algo muito maior... (Rubinstein)

Quando os homens não creem mais em Deus, não é que não creem em mais nada, mas creem em tudo. (Chesterton) (653)
Todos escrevem poesia na mocidade, depois os verdadeiros poetas tratam de destruí-las e os maus poetas tratam de publicá-las. (657)
Como se pode passar uma vida procurando a Ocasião, sem se dar conta de que o momento decisivo, aquele que justifica o nascimento e a morte, já passou? (666)
Ficha técnica
Título: O Pêndulo de Foucault (Il Pendolo di Foucault)
Autor: Umberto Eco (Itália, 1932-)
Tradutor: Ivo Barroso
Editora: Bestbolso
Ano: 1988 (Itália), 2009 (Brasil)
Páginas: 686

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O amor é outra coisa (Autoria Anônima)



O amor não retribui as suas declarações.
O nome disso é restituição de Imposto de Renda.
O amor é outra coisa.

O amor não é algo que faz tudo fluir melhor por dentro.
O nome disso é Activia.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz sentir mais alegre, risonho e ligeiramente desorientado.
O nome disso é cerveja.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz ficar simpático e amoroso de repente.
O nome disso é Natal.
O amor é outra coisa.

O amor não faz ver borboletas coloridas, flores e sentir uma brisa que não parece existir.
O nome disso é LSD.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa molinho e manhoso.
O nome disso é Rivotril.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te leva para as nuvens.
O nome disso é avião.
O amor é outra coisa.

O amor não te dá a chance de mudar o que está diante de você.
O nome disso é controle remoto.
O amor é outra coisa.

O amor não te pega desprevenido e te impulsiona para frente.
O nome disso é topada.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa amarrado a uma pessoa.
O nome disso é macumba.
O amor é outra coisa.

O amor não é fogo que arde sem se ver.
O nome disso é câimbra.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz esquecer de tudo, não te deixa confuso ou desorientado.
O nome disso é Alzheimer.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa saltitante.
O nome disso é cama elástica.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa completamente feliz.
O nome disso é Prozac.
O amor é outra coisa.

O amor não te liberta.
O nome disso é Alvará de Soltura.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz ver tudo com outros olhos.
O nome disso é transplante de córnea.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz esquecer-se de tudo mais.
O nome disso é Mal de Alzheimer.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquela coisa brega que mexe com você.
O nome disso é Banda Calypso.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz acreditar em falsas promessas.
O nome disso é campanha eleitoral.
O amor é outra coisa.

O amor não te dá dor de cabeça e te faz ficar de cama remoendo os acontecimentos do dia anterior.
O nome disso é ressaca.
O amor é outra coisa.

O amor não te dá uma vontade imensa de casar.
O nome disso é noitada em Las Vegas.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa sem fome.
O nome disso é comer demais.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa à mercê da vontade alheia.
O nome disso é Boa Noite Cinderela.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa imune a tudo, sem sentir dor alguma.
O nome disso é Hanseníase.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz sentir borboletas no estômago.
O nome disso é comer alimentos com larvas.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz ver o mundo cor-de-rosa.
O nome disso é óculos de Parada Gay.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquele sentimento que te deixa em casa pensativo e choroso.
O nome disso é depressão.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa distraído.
O nome disso é DDA.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz perder a articulação das palavras de repente.
O nome disso é AVC.
O amor é outra coisa.

O amor não tira todas as suas defesas.
O nome disso é HIV.
O amor é outra coisa.

O amor não faz o coração bater mais rápido.
O nome disso é arritmia.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa paranoico nem provoca flashbacks.
O nome disso é ecstasy.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te impede de dormir, deixando sua mente ligada e pensando em todos os detalhes.
O nome disso é cafeína.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa completamente imóvel.
O nome disso é trânsito de São Paulo.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa quente e te leva pra cama.
O nome disso é dengue.
O amor é outra coisa.

O amor não faz seu mundo girar sem parar.
O nome disso é labirintite.
O amor é outra coisa.

O amor não leva teu café da manhã na cama e ainda dá na boquinha.
O nome disso é enfermeira.
O amor é outra coisa.

O amor não te faz olhar para o céu e ver tudo colorido.
O nome disso é queima de fogos de artifício.
O amor é outra coisa.

O amor não faz você dar suspiros.
O nome disso é dia de Cosme e Damião.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa com aquele friozinho na barriga.
O nome disso é Montanha Russa com looping.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa indisposto, pálido e desanimado perante a vida.
O nome disso é Febre Amarela.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa temporariamente cego.
O nome disso é spray de pimenta.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te deixa sem chão.
O nome disse é buraco no escuro.
O amor é outra coisa.

O amor não faz brotar uma nova pessoa dentro de você.
O nome disso é gravidez.
O amor é outra coisa.

O amor não emagrece, deixa você mais quente ou vermelho.
O nome disso é gripe.
O amor é outra coisa.

O amor não é aquilo que te faz ouvir sempre as mesmas coisas, com a mesma voz, a qualquer momento do dia.
O nome disso é horário político.
O amor é outra coisa.

O amor não é um contentamento descontente.
O nome disso é bipolaridade.
O amor é outra coisa.

O amor não te deixa atordoado, sem conseguir ouvir o que os outros dizem e louco de vontade de pular no pescoço de alguém.
O nome disso é fanqueiros dentro do ônibus.
O amor é outra coisa.

O amor não toma o seu espaço e diz que é dele.
O nome disso é MST.
O amor é outra coisa.

O amor não é algo q vai crescendo, crescendo e te absorvendo.
O nome disso é Tampax.
O amor é outra coisa.

Crescente

(parte 2 de 4)

"Querida Nita,

Perdão. Mil vezes, milhares, infinitas. Por favor, meu amor, perdoe-me. Embora pareça puro desespero eu não poderia começar esta carta de outra forma. Mesmo que você seja uma ilha rodeada de rancor contra mim, o meu desejo é naufragar em você. Sendo o mais ingrato dentre os homens e não merecendo misericórdia, não consigo negar às súplicas da Esperança em acreditar que tu possas perdoar os erros de um pobre diabo e, assim, ratificar-se como a mais sublime e magnânima deusa nesta Terra.

Não penses que escrevo para humilhá-la. São ordens médicas: meu tratamento consiste em sessões de conversas (monólogos!) com os médicos, remédios e livros receitados e, por fim, a escrita. Eles conseguiram ser tão eloquentes em afirmar que conseguirei exorcizar os meus demônios com lápis e papel que passei a acreditar, comecei a ter fé. E mesmo que estas linhas nunca cheguem à você, que virem papéis amarelados arquivados como referência de método terapêutico, prefiro pensar que serão lidas por você e apaziguarão brevemente a sua alma em saber que estou melhorando a cada dia, e reconheço a minha culpa para contigo.

Das leituras médicas obrigatórias, somente um livro tem me ajudado, mas se não menciono o título é porque acredito não ter sido indicado pelos doutores. Provavelmente caiu ao acaso na pilha que me entregaram, pois o seu conteúdo difere muito dos demais.  Já o li sete vezes. Tem o cunho poético e filosófico e me causa profunda introspecção. Se um dia vieres me visitar, revelarei o título e o autor. Ele traz várias histórias e uma me lembrou automaticamente você: a da garotinha religiosa que amava acrósticos e sonhava mudar de vida. Transcrevo um trecho, mas como não estou próximo ao livro, permito-me falhar para com o original buscando as palavras de memória.

Paz orava regularmente. Fervorosa, amava vivenciar o respeito máximo, enquanto tentava inocentemente redimir-se entre divinais abluções. Queria um ideal melhor, ousar renascer, reinventar-se em rainha e imperatriz, soberana em castelos onde não transitassem imperfeições. Nem um alto rei com o melhor encanto seria transformado em Salomão, levantado ou ungido como onipotente senhor.

Não tire conclusões precipitadas sobre o trecho escolhido. A leitura muitas vezes tem relações incompreensíveis com a realidade, uma frase leva um leitor à África, outro ao espaço e ainda um terceiro para dentro de si. Em mim, a passagem lembrou carinhosamente o seu jeito, tudo o que fizera por mim e o que poderá fazer. Foi somente aqui que percebi o quanto tu fazes-me falta. Passo as noites em claro olhando o céu e imaginando o seu olhar a cruzar com o meu.

Por mais incrível que possa parecer, um fato que estranhamente está contribuindo para a minha melhora e diminuído a solidão é um novo companheiro de quarto. Trata-se do senhor ***, um cavalheiro que gosta de narrar peripécias amorosas e me transformou em confidente. Você não acreditaria na metade das coisas que ele me conta. Eu não acredito e desconfio que até mesmo ele, às vezes, não acredita. Uma das minhas histórias favoritas é a das três irmãs que trabalhavam em sua fazenda e de como a paixão por uma delas o levou a ser meu roommate. O pai das moças, o senhor Maan, o recusou como pretendente da filha mais moça, Selena, devido a um mistério no passado dela. Uma das partes que achei mais interessantes e se passa próximo à época da colheita em sua fazenda. Foi quando o jovem envolveu-se sexualmente com a filha do senhor Maan.

Mas estou me adiantando, primeiro preciso contar que o pobre rapaz desesperou-se completamente ao ter o seu pedido de amor recusado. Se já é difícil não ser correspondido, acrescente ter de conviver com o objeto de seu desejo diariamente. Ele até tentou disfarçar, mas a sua tristeza evidenciava o seu sofrimento silencioso. Todavia, uma moça prestava atenção ao sofrimento do fazendeiro.

A estância possuía uma lagoa que o jovem  frequentava à noite buscando o consolo das estrelas. Deitava-se na relva macia enquanto o seu coração pesava seu infortúnio. Dizem que a dor de uma rejeição amorosa só intensifica os pensamentos recorrentes na pessoa amada. Eu considero-me a prova viva dessa teoria, Nita. E o meu companheiro via o rosto da moça Selena flutuando no céu até mesmo quando fechava os olhos. Passaram-se semanas assim, até a noite em que ele notou alguém se movimentando do outro lado das águas. Era um vulto feminino. Ele não conseguiu distinguir quem era, mas percebeu que a pessoa despia-se para nadar. A excitação de tornar-se um voyeur acidental daquela cena sensual despertou os seus sentidos. Poderia ser a sua amada? A mulher entrou suavemente nas águas de verão e nadou, mergulhou, fez piruetas e brincadeiras de náiade como se fosse a única viv’alma em todo o universo. A certa altura, ela deu-se conta que não estava só (ou já havia notado antes e só agora o demonstrava) e nadou rumo ao jovem observador. Neste ponto, minha querida, uso as minhas palavras pois os termos que ele usou poderiam chocar a sua ingenuidade. A cena foi mágica para ele: uma mulher saindo das águas noturnas, totalmente nua, aproximando-se hipnoticamente e colando o corpo úmido e fervente no seu. Era Einódia, a irmã mais velha de Selena. Ele tentaria falar se ela permitisse, mas a única linguagem que conseguiu foi a de seus corpos entrelaçando-se.  Ela o dominou com uma volúpia selvagem, mordendo, arranhando e cavalgando-o como a um animal. O subjugou a todos os seus desejos femininos. O jovem consentiu acreditando que o corpo de Einódia o faria esquecer da paixão por Selena, mas acabava sobrepondo o rosto da amada sobre o da irmã. A imaginação sempre intensifica qualquer prazer conforme os desejos mais recônditos.

Ambos passaram a frequentar o lago várias noites por semana, sempre com o cão negro de Einódia atuando como vigia silencioso. Era ela quem ditava a regularidade dos encontros. O rapaz não se enganava, sabia desde a primeira vez que não era ele quem definia o rumo que o destino o levava. A sensação de prazer furtivo e proibido junto com o sentimento de vingança contra o senhor Maan agia como veneno suficiente para entorpecer a razão do mancebo e inflamar o seu apetite carnal. Já que lhe fora negado entrar formalmente na família Maan, entrava sem pudores em uma das filhas. Porém, em seu íntimo, o rapaz começou a indagar o motivo que levara a primogênita dos Maan a procurá-lo após a recusa do pai em tê-lo como genro. Lembrou-se das vezes que cruzara cabisbaixo ou melancólico por Einódia pelas plantações durante o dia, ela lhe direcionando olhares inquisidores. Concluiu que a desgraça pessoal de alguma forma o tornara desejável à moça. Mas este tipo de atração cobrou um preço do fazendeiro. Ele passou a sentir-se traidor de seu próprio amor, embora não tivesse compromisso com Selena. O pior tipo de traição é a para consigo mesmo, sendo o segundo tipo a das pessoas próximas.

A maior parte da Estância Serenidade fora direcionada à cultura do fumo, indo desde a preparação do solo, plantio, capação, colheita até a curagem das folhas para a venda como matéria-prima para a fabricação de cigarros e similares. Estando todas as usinas de processamento localizadas na capital, o papel do fazendeiro finalizava somente na venda das folhas a um comprador vindo da cidade, cujo papel era avaliar se as etapas da produção estavam dentro dos padrões mínimos exigidos e efetuar testes de qualidade nas folhas. Após esta fase é que se definia o preço dos lotes e a quantidade a ser negociada. Foi quando a figura mais estranha apareceu naquela região, o Barão Samedi, fazendo com que sua breve visita criasse vários mitos e lendas espalhados pelos mais supersticiosos.

Nunca se soube se o Barão Samedi possuía o título realmente ou se era o seu nome ou apelido. Independente desta informação, o que se sabia dele era que trabalhava como comprador de matéria-prima para várias empresas fumageiras. Devoto em sua profissão, era um fumante exemplar e uma propaganda ambulante do estilo conferido aos fumantes. Aliás, poderiam dizer que ser fumante era a característica que moldava sua aparência e caráter: tinha a pele cinza como um dia frio e chuvoso, rosto magro e esquelético e perfil alto que davam a impressão que se desfaria em cinzas a qualquer instante. Tudo nele lembrava o cigarro. A cartola e terno pretos eram quase apagados. As tosses e escarros constantes deixavam a voz anasalada e rouca como fumaça. Sua presença causava nos interlocutores uma sensação de sufoco como sendo tragados aos poucos, saboreados com prazer, por ele. Possuía manias excêntricas, como dispor de um empregado para carregar a sua piteira especial, responsável pela sua aparência e saúde peculiares. A máquina chamada carinhosamente pelo Barão de LOA, havia sido desenvolvida por ele e mesclava os desenhos do narguilé árabe e da eolípila grega para intensificar o efeito, sabor e vício do fumante à patamares divinais. O Barão Samedi hospedou-se na fazenda por uma semana, tempo suficiente para percorrer toda a área de plantio e verificar a produção colocada à venda. Enquanto isso, os passos do Barão eram acompanhados com especial interesse.

O comprador negociou noventa por cento da mercadoria, dizendo-se impressionado pela qualidade do produto. O montante pago em espécie deu um ótimo lucro. Mas, assim que o Barão Samedi foi embora levando toda a produção adquirida, perceberam que o dinheiro desaparecera também. Estava guardado em uma gaveta na escrivaninha do escritório, na casa do fazendeiro, onde poucas pessoas possuíam acesso. Alguns empregados começavam a falar que o dinheiro era produto de feitiçaria, magia negra, coisa do diabo. As suspeitas de quem poderia ter cometido tal ignomínia foram sanadas quando o senhor Maan apareceu trazendo uma carta. Nela, a sua filha Einódia revelava que fugira junto com o Barão Samedi levando o dinheiro como pagamento pelos serviços prestados ao jovem patrão, embora omitisse quais. O rapaz, totalmente sem reação, apenas ouvia os lamentos da mãe que clamava a colheita das outras culturas mal pagaria as dívidas contraídas. Insistia em denunciar a ladra às autoridades. Enquanto isso, o filho só conseguia pensar que Einódia encontrara alguém em situação mais lamentável que ele e alterara o seu objeto de desejo. Quanto mais melancólico, doente, moribundo, quanto mais próximo da depressão e da ruína, mais a excitava. O fazendeiro pensou no estrago que sofreria a sua reputação caso descobrissem as suas relações com Einódia. E, pelo que sabia, ela já estava longe e por ser astuta não havia garantia alguma de encontrá-la ou recuperar o dinheiro. Ela poderia até direcionar intencionalmente os olhares atrás do Barão e ter fugido em outra direção. Resolveu não ir atrás do dinheiro. Suportaria as consequências como martírios para a sua consciência pesada.

O coitado do senhor Maan, sem saber os detalhes das transações noturnas de sua filha com o patrão, sentia-se responsável pela atitude impensada dela. Renunciou a sua parte na colheita e, para sanar temporariamente o estrago deixado na honra da família, ofereceu a mão da filha ao jovem. Não resolveria totalmente a questão, mas seria o início da compensação que o empregado prometia pagar integralmente. Caso o patrão recusasse a oferta, o agregado não teria alternativa a não ser partir imediatamente com a família, humilhado e desonrado. Porém, para o jovem patrão, ficar sem Selena era uma hipótese mais insuportável que o prejuízo financeiro. Assim, aceitou de imediato a oferta do senhor Maan. O único problema é que a filha oferecida foi Diana e não Selena. Era tradição naquelas paragens as filhas mais velhas casarem-se primeiro. E assim começava mais um capítulo nas desventuras de meu companheiro de quarto.

Nesta parte interrompo a história e a carta, minha querida Nita. Tenho esperanças que utilizando do mesmo subterfúgio de Sherazade eu consiga despertar sua curiosidade para o desfecho da história evitando por mais alguns dias ser cortado de sua vida. Prometo que se me responder, revelarei como o senhor *** lidou com a situação de ter de casar-se com uma mulher para não distanciar-se do verdadeiro amor, agora sua cunhada. Tenho certeza de que você gostará da continuação. Saiba que eu passei a encarar a existência como similar a um cigarro. Começamos queimando metodicamente o tempo que nos resta de vida. Entrementes, poderemos sentir prazer ou fazermos mal a nós mesmos e aos ao nosso redor, mas no final – da vida e do cigarro – acabamos inevitavelmente em cinzas. Caso se acredite na alma, esta evapora-se tal qual fumaça viajando até as instâncias superiores, deixando para trás a pobre matéria orgânica que anteriormente a aprisionava. Somos fumados por Deus, meros objetos de seu prazer e vício pessoal. É ele quem determina quem será o próximo a virar fumaça. E, por sermos de tão breve existência é que reitero meus pedidos de desculpas e de obter notícias suas, meu amor.

Sem mais, despeço-me afetuosamente.

Seu,

F."
(Continua...)

Aforismos - Maio 2012

Escolha qual você gostou mais. Todos escritos pelo Jefferson Luiz Maleski. Se quiser replicar algum deles, só peço para que mencione a autoria, ok?

Maldito o animal criado no sexto dia!

A esperança não é a última que morre. Muitos sobrevivem após o seu funeral. Mas isso não significa que ela não possa nascer novamente.

O politicamente correto é a nova censura consentida.

Cicatrizes