SELO: Esse blog compartilha leituras de qualidade

Meu amigo virtual Luciano me passou um selo que pede a indicação do livro que marcou a minha vida. Não sou muito de selos, mas os que o L.S. Alves costuma me passar são educativos. Este selo foi criado pela Mariane, que tem o blog com o mesmo nome.

Então lá vai, e minha resposta não poderia ser outra, o livro que marcou e ainda marca, direta ou indiretamente a minha vida é a Bíblia Sagrada. Por vários motivos, que sempre mudam com os anos. Primeiro, porque cresci em uma família de diversas denominações religiosas, católicos, espíritas, testemunhas de Jeová, e todas baseiam-se no cristianismo. Até fui membro ativo na adolescência, o que me rendeu boas experiências. Segundo porque continuo sendo religioso embora hoje não pertença a nenhuma religião. Percebi o quando elas manipulam o que está escrito conforme o que querem pregar. Todas. E comecei a comparar a Bíblia com outros livros sagrados, como o Alcorão, os Vedas, etc. e vi que ela não é única. Nem mesmo é o melhor dentre eles. Mas é a mais usada, tanto para o mal quanto para o bem. E por isso hoje eu ainda a leio e utilizo, para aquele crente que chega em mim citando um versículo que sei que não tem nada a ver com o que ele quer provar, seja porque não existe ou porque foi retirado de um contexto diferente. Somente quem já a leu inteira diversas vezes não será manipulado facilmente. O conhecimento sempre nos ajuda a não sermos enganados, mesmo que seja conhecer algo que você não segue. E princípios morais, espirituais ou éticos, você consegue tirar até mesmo de uma revista em quadrinhos do Homem-Aranha, quanto mais dos livros desse tipo.

A segunda parte do selo é indicar outros blogues para participarem, então lá vai: Contos no Papel e A Fênix Apoplética.

Rapidinha do dia nº 5

Recordar é viver e Viver é recordar

Uma vez adolescente, fiquei com a garota mais bonita que jamais havia ficado até então, numa festa. Inexperiente, ruim de papo, a única coisa que sabia era beijar. Num intervalo para recuperar o fôlego, surgiu o monstro do silêncio constrangedor. Os olhos dela imploravam que eu dissesse algo. E eu, sob a luz do luar, disse, em minha primeira tentativa poética que me vem à lembrança, que os olhos dela brilhavam como estrelas e que aquele brilho fazia bem ao meu coração. Não voltamos a ficar de novo, mas dias depois soube que ela havia espalhado a todas as amigas que eu era o carinha que dizia coisas nada a ver. Semanas depois, ela engravidou. E eu aprendi a lição, ao invés de dizer palavras poéticas meto logo a mão debaixo da blusa da danada.

Rapidinha do dia nº 4


"Sou um formador de opinião. Não importa qual nem se é boa ou inteligente, o que importa é que eu fui o gatilho."

(Jefferson Luiz Maleski)

Leitura semanal

Imitando descaradamente outros blogs que costumo visitar, vou começar a listar aqui as leituras online interessantes que fiz durante a semana. Não vou dizer que "nada se cria, tudo se copia", mas que vai servir de referência para eu mesmo localizar amanhã, caquético desmemoriado que sou, onde está aquele link bacana que vi na semana passada e que sumiu da memória e dos arquivos temporários.

Seguem os artigos e sites.


1. 10 melhores “desculpas” para gastar (mais do que deveria?) com livros

A Estante Virtual tem um blog, e resolveu traduzir o texto original em inglês "Top Ten Things to Say on Returning Home with Conference Book Plunder". Cheguei nele por indicação da minha irmã. O humor vai ser melhor entendido por aqueles que são viciados em comprar livros. Como eu. Para mim, as melhores desculpas são:
10. Olha quanto eu economizei! Isso tudo estava com 40% ou 50% de desconto!
9. Você deveria ter visto quantas tentações! Gastei pouco graças ao meu auto-controle.
4. Esses são todos descontados do Imposto de Renda.
2. [...] um deles é pra você!

2. A pretensa busca da imortalidade, por Paulo Coelho

Este é o caso de você estar lendo um artigo muito ruim que te indica um muito bom. É claro que é desnecessário citar o artigo ruim. E a surpresa maior é achar um texto do Paulo Coelho bom, já que, convenhamos, não sai de moda falar mal dele. O PC escreve sobre quando descobriu que queria ser escritor, aos 15 anos. No mínimo, hilário.


3. NELSON RODRIGUES, O ser unânime, por Gabriel Perissé

Apesar de escrito em 2004, no Observatório de Imprensa, volta e meia recorro a ele em busca da ótima análise da frase "Toda unanimidade é burra" do Nelson Rodrigues. Vale a pena a lida, principalmente se você gosta de citar a frase.

O paradoxo do nosso tempo, de Dr. Bob Moorehead

O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos. Auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos. Gastamos mais, mas temos menos. Nós compramos mais, mas desfrutamos menos. Temos casas maiores e famílias menores. Mais conveniências, mas menos tempo. Temos mais graus acadêmicos, mas menos senso. Mais conhecimento e menos poder de julgamento. Mais proficiência, porém mais problemas. Mais medicina, mas menos saúde.

Bebemos demais, fumamos demais, gastamos de forma perdulária, rimos de menos, dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente, ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos para ler um livro, ficamos tempo demais diante da TV e raramente oramos. Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência.

Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior. Fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores.

Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos. Escrevemos mais e aprendemos menos. Planejamos mais e conseguimos menos. Aprendemos a correr, mas não a esperar. Construímos cada vez mais computadores, para armazenar mais informações e produzir mais cópias, mas nos comunicamos cada vez menos.

Estes são os tempos do "fast food" e da digestão lenta. De homens grandes, com personalidades mesquinhas. De lucros enormes e relacionamentos pequenos. Estes são os dias de dois empregos e mais divórcios. Casas mais bonitas e lares desfeitos. Estes são os dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade abandonada, encontros por uma noite, obesidade disseminada e pílulas para tudo, da alegria à calma e até à morte. É um tempo onde há muito nas vitrines e pouco na dispensa. Um tempo onde a tecnologia permite que você leia isto e escolha o que fazer: Dividir este sentimento ou apenas clicar em DELETE.

Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre.

Lembre-se de dizer uma palavra gentil a alguém que te admira com fascinação, pois essa pequena pessoa logo irá crescer e abandonar sua companhia.

Lembre-se de dar um abraço carinhoso a quem está do seu lado, pois esse é o único tesouro que você pode dar com seu coração, e não custa um centavo sequer.

Lembre-se de dizer "eu te amo" a sua companheira(o) e às pessoas que ama, mas em primeiro lugar, ame. Um beijo e um abraço curam a dor quando vêm de lá de dentro.

Lembre-se de segurar a mão e enaltecer o momento, sabendo que um dia aquela pessoa não estará mais aqui.

Conceda-se tempo para amar, conceda-se tempo para falar, conceda-se tempo para compartilhar os seus preciosos momentos.

E SEMPRE SE LEMBRE: A vida não é medida pelo número de respirações que você dá, mas pelos momentos em que tiram o seu fôlego.

***

A Jovem Pan fez uma versão condensada do texto em áudio.









Pode ser visto também no Slideshare.

Texto escrito pelo Dr. Bob Moorehead, ex-pastor de uma igreja de Seattle. O título original deste ensaio é "The Paradox of Our Age" e apareceu em Words Aptly Spoken, que é uma coleção, datada de 1995, de orações, homilias e monólogos que ele fez em rádios. Veja aqui o original em inglês. Apesar disso, muitos disseminam o texto acima em blogues e pps como de autoria do ator e comediante George Carlin. Mas Carlin era ateu ativo e desmentiu a falsa autoria antes de morrer.

O Príncipe Maldito VII

Leia também a Parte VI.
Todo pirata que se preza deve saber esconder um tesouro até de sua própria mãe. Isto porque a procedência das mães de piratas não é lá das melhores. Preferencialmente, o pirata deve escolher dois ou três homens leais o suficiente para descerem com ele em uma ilha deserta, ajudarem a cavar o buraco e a carregarem os baús. E depois do serviço feito, matar a todos, sem exceção. Esta é a orientação principal para uma carreira de sucesso, conforme ensina o famoso Guia do Pirata Moderno. Um pirata sem tesouro nunca será capitão, nem terá mulheres interesseiras o adulando pelas estalagens por onde passar, muito menos beberá rum oferecido de graça pelos colegas de profissão, igualmente interesseiros.

Mas os tempos mudaram. Ouro, jóias e pedras preciosas são coisas do passado, hoje só encontrados em caixas-forte de reis, rainhas e presidentes de países corruptos. Coloque um pirata lado a lado com um presidente e tenha certeza que alguém ficará sem o relógio de bolso. Detalhe: presidentes não usam relógio de bolso. Agora, os tesouros guardados pelos piratas à três chaves - porque sete é chave demais para um pirata se lembrar onde as escondeu - bem, os tesouros dos piratas hoje são as rotas dos ventos que cortam o Mar de Areia. Um pirata que sabe as direções, os atalhos, os horários e a força dos ventos conhece de perto a diferença em chegar num porto antes dos concorrentes ou ficar encalhado no meio do deserto, à espera da velha senhora de capa preta e foice na mão.

Barbarrala foi um dos primeiros piratas a mapear os ventos e a dar-lhes nomes. Foi ele quem nomeou os principais: Zé Firo, Boraembora, Alise-os, Uéolo, Ômi-nua-nu e outros menores. Muitos copiaram ou imitaram estes nomes mais tarde, no mundo todo, para chamar os ventinhos mixurucas que sopravam por aí, mas sempre plagiando as idéias de Barbarrala, o pirata original. Mas os ventos do Mar de Areia são diferentes. Eles são leais, assopram constantes na mesma direção e horário, fazendo com que homens de visão, que usavam uns aparelhos estranhos, feitos de areia, na frentes dos olhos para enxergar melhor, criassem portos e cidades nos lugares em que os ventos desembocavam. Contudo, nem todos os piratas conheciam os macetes de Barbarrala e não conseguiam chegar diretamente em todos os portos. Barbarrala não: ele conhecia atalhos no meio do caminho que o faziam acessar as quinze cidades portuárias existentes partindo-se de qualquer lugar.

Contudo, a memória de Barbarrala já não era mais a mesma, além do que, certa vez caiu enfermo no meio de uma travessia e se não fosse os seus homens o carregarem semi-desperto até o convés, ele e a tripulação teriam virado mais um montinho de areia no grande deserto. Depois deste evento quase fatídico, o capitão resolveu fazer um mapa, desenhando rota por rota e vento por vento detalhadamente para, assim, poder navegar tranquilo. Como o mapa jamais se alterava, o pirata passou a testar alternativas e foi completando-o até chegar o ponto de se gabar, quando bêbado e com duas ou três mulheres no colo, que era o único a ter catalogado todos os ventos do Mar de Areia. Durante muitos anos, o tesouro de Barbarrala foi o seu mapa do tesouro, e fez dele um homem rico e invejado. Bem, quer dizer, invejado sim, e ele seria um homem rico se não tivesse de pagar algumas dezenas de pensões alimentícias todos os meses.

O capitão pirata era o único que acessava o mapa, em sua cabine, estrategicamente escondido atrás de um quadro de mulher, e qualquer um que ousasse entrar lá era obrigado a andar na prancha em pleno deserto, caindo na areia e deixado à sua própria sorte. Entretanto, o descuido de Barbarrala foi desconfiar somente de humanos. Ele nunca imaginaria que um ser criado desde pequeno por ele, a quem considerava como um filho desde que era ovo, aquele a quem levava pendurado em seu ombro a todos os lugares, o trairia. Um papagaio traiçoeiro: Corruto III. Dizem as fofocas dos porões do navio que a ave aprendeu toda a maldade que sabia com o capitão, mas que, como o seu coração era bem menor que o do ser humano, não havia espaço para bombear sentimentos como compaixão ou misericórdia. Corruto III foi ardiloso. Esperou pelo momento certo, um descuido do pirata em deixá-lo a sós com o mapa e, depois de anos memorizando-o, picou-o em centenas de pedaços intraduzíveis. Fez isto justamente durante uma calmaria no meio do Mar de Areia, enquanto o navio Darius Drome chegara ao final do vento Uéolo. Aquele dia famoso vem sendo chamado desde então de a Revolta dos Apenados, se bem que somente um apenado entrara em motim. A partir daí, o resto é dedução óbvia: Corruto III repetiu alto a toda a tripulação as ameaças de morte que tanto ouvira o capitão fazer tantas vezes durante anos. Até a voz era a mesma do capitão Barbarrala! A ave deu um ultimato: ou eles o elegiam ao posto de novo capitão do navio, ou todos morreriam no meio do nada. Todos menos ele, que sairia voando e pegaria um dos ventos que sabia de cor o levariam com o mínimo esforço para a civilização. Os homens tremeram. Estavam diante do pior dos capitães piratas. Estavam diante de alguém que não hesitaria em abandonar o navio se não cumprissem as suas exigências. Assim, nem pensaram muito para se decidirem. Até porque pensar muito não é uma prática pirata. E até que pouca coisa mudaria já que o papagaio e o capitão eram malvados e ambos tinham a mesma voz, se bem o papagaio puxava um certo sotaque. Deste modo, Corruto III tornou-se o mais novo capitão pirata classe A (de Aplumado) e o capitão Barbarrala ficou relegado ao cargo de bichinho de estimação.

Era este capitão verde, temido por ter um coração desumano, que agora olhava para os prisioneiros em seu navio. A grande velocidade com que o navio se locomovia pelo deserto fazia o convés mais transitável, sem a quantidade normal de areia que insistia em achar legal entrar em todos os orifícios do corpo. Todos estavam amarrados em um mastro central, inclusive o gordo dorminhoco, que mesmo arrastado para o convés e envolto em grossas correntes de ferro, continuava dormindo abraçado a uma boneca de pano, como se nada anormal acontecesse. Os outros três observavam o papagaio andar lentamente com passinhos minúsculos ao redor deles, analisando-os friamente.

- Biltrrres! Como ousam invadirrr o meu navio?

Coube a Carpeaux ser o primeiro a tentar o papel de diplomata. Afinal, a diplomacia é a arte do dizer que não foi bem desse jeito, do deixa isso pra lá, do vamos tomar uma pra esquecer. Saiu-se com essa.

- Não sabíamos que você era o novo capitão, ó plumosidade dos piratas. Queríamos pregar uma peça em Barbarrala. Somos velhos conhecidos dele.

- É verrrdade, Barrrbarrrrrrala?

O pirata só fez que sim com a cabeça, mas continuou cabisbaixo em sua gaiola Pirate-Size.

- Então querrr dizerrr vocês não querrrem desafiarrr a minha autorrridade? Não estão tentando tomarrr o meu navio?

Os três responderam que não, BB e Carpeaux falando ao mesmo tempo e o druida mudo balançando a cabeça freneticamente para os lados.

- Mas como vocês não pagarrram passagem parrra subirrr a borrrdo, se não tiverrrem nada parrra me oferrrecerrr em trrroca vão terrr que sairrr do navio. O que vocês tem parrra me darrr?

Eles começaram a pensar em algo que pudesse ser interessante a um papagaio. Carpeaux, o covarde das horas impróprias, foi o primeiro a mencionar o objeto mágico descrito pelo druida, que pretendiam encontrar nas Terras Geélidas, e que tinha o poder de responder a qualquer pergunta formulada. O papagaio não se interessou, pois teria de confiar em libertá-los primeiro, para que depois cumprissem o trato. E de bobo o papagaio não tinha nada, a não ser o jeito de andar e falar. BB disse que poderia fazer um feitiço em que aparecesse uma quantidade enorme de sementes de girassol ou bolos de fubá ou qualquer outro tipo de especiaria que uma ave apreciasse, mas o papagaio fez que não ouviu. Lamentavelmente, as bruxas não possuem muitos poderes contra os piratas, amaldiçoados naturalmente por profissão. Feitiços, pragas e afins não pegam em quem não tem nada a perder, nem a temer. O impressionante era que, mesmo nessa hora crucial, o druida mudo permanecia calado.

- Pois bem, como estou benevolente hoje, dou quatrrro minutos parrra vocês parrrarem com estas baboseirrras e oferrrecerem algo que me interrresse. Senão, a cada minuto jogo um parrra forrra do navio.

Carpeaux e BB começaram a despejar ao mesmo tempo todas as palavras que apareciam em suas mentes, sem se importar se eram boas idéias. E o druida calado. Esta cena durou um minuto.

- Joguem o gorrrducho forrra!

- Nãããããão, grrritou BB, kam-ram, quer dizer, gritou BB, com os olhinhos cheios d'água, não tanto por compaixão ao companheiro de bando, mas por perceber que o papagaio malvado realmente falava sério.

Os três observaram uma dúzia de piratas arrastarem Gordulfo, com bastante esforço, até bombordo, onde ficava a prancha, e o jogarem para fora, do jeito que estava, amarrado com correntes, dormindo, abraçado a uma boneca de pano e com o dedão na boca. Com a velocidade em que navegavam, em poucos segundos estavam a quilômetros de onde ele caiu, e o rastro de nuvens de areia deixado pelo navio tornavam impossível ver alguma coisa. Muitos anos depois deste acontecimento, surgiriam lendas falando sobre um esqueleto gordo que aparecia no meio do deserto e laçava com correntes navios que passavam por ali e devorava tudo. Outras lendas contam que Gordulfo ainda está lá, hibernando até o dia em que sinta o cheiro de dragões azuis voando por perto, para caçá-los e fazer um bom guisado.

O papagaio voltou a atenção aos três prisioneiros restantes e recomeçou a contagem, agora do segundo minuto. Foi quando o druida fez um gesto pedindo uma tabuleta. Os seus companheiros gritaram e espernearam para que ele recebesse uma, seria a solução?, o druida parecia ser inteligente e um mero problema técnico no áudio não deveria resultar noutra morte. Trouxeram a tabuleta, uma pena com ponta (não era uma pena do capitão) e um tinteiro. O druida escreveu algo e mostrou a BB. Os dois olhinhos azuis dela arderam de esperança e coragem.

- Capitão, suspenda a contagem, sei exatamente o que podemos lhe oferecer.

Vendo livro raro


Vendo metade do livro “Descubra quem é você”, escrito por escritor anônimo francês do século XVII. A outra metade eu queimei, porque era tão ruim que não poderia deixar ninguém mais ler aquela bosta. É o meu jeito de ser bom samaritano, não precisa agradecer. Mas sobrou muita coisa boa, como o capítulo que me fez chorar ensinando a receita da salada que mistura cebola crua e cebola cozida. Já no capítulo que fala sobre o futuro, não devo ter prestado muita atenção, porque não lembro de muita coisa além da frase inicial: “Aguarde, em breve você vai...”. Agora, no capítulo com o título “Amaramando”, fiz questão de deixar algumas anotações para os futuros leitores e enchi as margens de referências clássicas e contemporâneas sobre essa eterna maravilha e grande merda que é o amor. Fique tranquilo que escrevi à caneta, para não correr o risco das dicas apagarem-se com o tempo. Para você sentir exatamente a mesma emoção que eu senti ao ler o capítulo, sublinhei algumas frases ligando-as com setas a outras, como a da página 47, “não dê importância se ninguém o(a) ama, curta o prazer de sua própria companhia”, com a da página 31, “ande com idiotas e aumentará o bando”. Acredito, que qualquer leitor depressivo como eu vai perceber claramente o que o livro quer dizer, que se estou enjoado de conversar comigo mesmo, tenho de arranjar um jeito de dar um tempo e me afastar de mim, talvez pelo uso da bebida, drogas ou até uma lobotomia. Mas isto não vem ao caso agora, vamos voltar ao livro que é o que interessa. Ah, já falei que o livro traz cinco lindas figuras desenhadas à mão por um François não-sei-de-quê? São de página inteira, mas arranquei duas para mim e se você pagar um extra envio elas também. Aos interessados nessa obra única, peço o favor de entrarem em contato pelo telefone (62) 3397-7721 para saber detalhes do preço e forma de envio. Mas não liguem no final de semana porque costumo me trancar no quarto ouvindo música alta e não escuto mais nada, nem se a minha mãe estiver derrubando a porta, como costuma fazer.

Texto escrito por Jefferson Luiz Maleski, que se sodomiza imaginando se já não existem anúncios assim pela internet.

O Príncipe Maldito VI

Leia também a Parte V.
Perigo é ter o seu pescoço prestes a ser espetado por espadas, lanças e facões enferrujados por todos os lados. Se os heróis desta história soubessem que acabariam numa situação semelhante, rodeados por dezenas de piratas, teriam pensado duas vezes ao tomarem a rota mais curta para as terras do norte. Não teriam seguido para o porto da cidade de Pag-Owmorra. Não teriam arriscado tanto. Bem, antes é preciso contar como eles chegaram até lá, para que se possa entender como entraram nessa enrascada.

Do Vale Sombrio para as Terras Geélidas havia dois caminhos principais. Um, mais longo e seguro, pela estrada de tijolos enferrujados que cruza os incontáveis quilômetros da floresta-labirinto nº 52. Só teriam de enfrentar alguns monstros inimagináveis, de vários olhos e garras, babando em cima deles. Coisa básica em qualquer uma das outras cinquenta e uma florestas-labirinto. A outra opção era a rota pelo Mar de Areia, pegando um navio na cidade portuária de Pag-Owmorra. Não teriam maiores problemas para chegar lá. O problema seria A cidade. Pag-Owmorra era conhecida por ser reduto das piores espécies de humanos e não-humanos de todo o globo. Um problema que, depois de considerado entre o grupo, não foi levado como algo tão sério que Balbina Beladona, Gordulfo, Carpeaux e o druida calado não conseguissem superar. Alguns deles até chamavam Pag-Owmorra de segundo lar e votaram em ir por lá. Três deles, para ser mais exato. E como a maioria costuma ser democraticamente burra, seguiram o caminho que os conduziria a borda do Mar de Areia e a um perigo que sequer imaginavam.

É claro que existia a hipótese de se contornar o imenso Mar de Areia, mas ninguém era louco o bastante, nem mesmo os mais loucos, a passarem pela infinitude de reinos e pedágios e impostos e taxas cobradas nas margens do Mar de Areia. Era um verdadeiro assalto! Sem falar que a burocracia era tamanha, que os que haviam optado por este caminho ou tinham abandonado o destino final, porque a viagem demorara demais e acabaram esquecendo aonde queriam chegar, ou porque acabara todo o dinheiro, consumido pelos governantes litorâneos.

"Os piratas não costumam ser muito corteses com estranhos, como vamos embarcar em um navio sem termos dinheiro?" - perguntou o druida mudo, não exatamente nestas palavras e sabe-se lá como, aos companheiros.

- Fique tranquilo, druida, existem outras formas de se convencer um pirata a colaborar - respondeu a pequena BB, com um sorriso angelical e diabólico.

O porto de Pag-Owmorra, que tinha o mesmo nome da cidade, não era algo comum de se ver. Pelo menos, não de ser ver e sair vivo de lá para contar depois. Localizado bem no meio de dois despenhadeiros, ficava às margens do Mar de Areia, o maior e mais mortífero deserto do mundo. Tratava-se de um deserto tão mortífero, mas tão mortífero, que tentar atravessá-lo à pé ou em caravanas era suicídio. Isto por causa das intermináveis tempestades de areia, que além de desorientar qualquer senso de direção eram, no mínimo, sufocantes. Mas, o mesmo vento fortíssimo que tornava o deserto tão terrível também o fazia navegável, por galés e caravelas adaptadas para serem impelidas sob a areia. Em uma época de crise, os únicos corajosos ou idiotas o suficiente para fazer o transporte de mercadorias e passageiros pelo Mar de Areia eram os piratas. Eles aprenderam e catalogaram os fluxos dos ventos e este era o seu maior tesouro. Era um segredo passado de geração em geração, geralmente com a ajuda de uma espada no processo. Quem soubesse a direção, força, hora e duração de determinado vento aprenderia facilmente a navegá-lo. Pag-Owmorra era o ponto de encontro de navios piratas para qualquer uma das extremidades conhecidas do Mar de Areia, incluindo as Terras Geélidas.

A cidade cresceu ao redor do porto e por causa dele. Construída verticalmente com casas, tavernas e bordéis encravados nos dois despenhadeiros, tinha uma confusão de cordas e pontes suspensas interligando um lado ao outro. Os navios chegavam e partiam impelidos pelo vento e atracavam passando rente as precárias construções. Como havia espaço somente para um navio atracar por vez, formava-se uma fila de espera. Se o navio que estivesse na frente fosse contratado logo, após a sua partida o próximo da fila assumia o seu lugar. Contudo, enquanto não eram contratados, os piratas aproveitavam para beber rum, bater (e apanhar) de homens e mulheres, e fazer outras coisas do mesmo tipo nas tavernas de Pag-Owmorra. Isso contribuiu muito para a boa má fama que a cidade se orgulhava em espalhar pelos quinze cantos do Mar de Areia.

O grupo de viajantes chegou ao anoitecer à cidade-porto. O druida olhava admirado todas aquelas casinhas dependuradas nas encostas, iluminadas por lanternas ou velas, parecendo insetos noturnos de formas e cores variadas em uma noite escura. Refletiu que mesmo sem planejamento, aquelas pessoas sobreviviam em um ambiente hostil e perigoso. Os sons de brigas e gemidos e outros barulhos que não se sabe ao certo eram de algum bicho ou humano ficavam mais intensos ao escurecer. Misturavam-se aos cheiros de bebida, urina e carne frita, e de toda uma leva de mercadorias carregadas e descarregadas nos navios.

Carpeaux sugeriu que descobrissem qual a primeira embarcação da fila, para, de algum jeito, forçá-la a ir para o norte. Ele e BB riram juntos ao perceber que o primeiro navio era a caravela Darius Drome, pois conheciam o capitão daquele navio, o famigerado pirata Barbarrala. O pirata já estivera enamorado por BB há alguns anos, mas na atual situação em que ela se encontrava, presa em um corpo de menina, esta não seria uma moeda de troca muito boa. Barbarrala era vidrado nas formas do corpo de BB, da antiga BB, e até mandara pintar um quadro à óleo dela e colocara em sua cabine. Como seria muito difícil convencer ou forçar o navio a ir para o norte sem o pagamento em dinheiro adiantado, e sem a vantagem que BB tinha sobre o pirata, elaboraram o seguinte plano: entrariam sorrateiramente no navio e ficariam escondidos na cabine do capitão até ele zarpar. Depois, quando já estivessem dentro do Mar de Areia, mudariam a rota convencendo Barbarrala ou intimidando-o ou fazendo-o de refém. Naquela hora, a maioria da tripulação do Darius Drome estava se divertindo, aguardando a hora do vento certo para partir, e BB facilmente fez um feitiço sobre os vigias para que estes cochilassem por um momento. Assim, entraram na cabine do capitão e aguardaram por várias horas até o momento oportuno.

Ao amanhecer, chegou a hora de zarpar. Como um relógio, o vento Zé Firo começou a soprar forte. Ele era a via principal para se sair de Pag-Owmorra. Depois os navios poderiam pegar outros ventos e tomar as rotas desejadas. A tripulação já tinha carregado tudo o que precisava à bordo, e na hora aguardada, alguns retornaram embrigadados, ou fugindo de cobradores ou mulheres bravas, ou até com partes do corpo remendadas e enfaixadas. Quando o navio içou as velas, a já conhecida força do Zé Firo começou a mover, primeiro lentamente, depois ganhando mais e mais velocidade, todo aquela estrutura adaptada especialmente para locomover-se no deserto. Da cabine, os nossos heróis só escutavam o zunido ensurdecedor do vento, e alguns gritos aqui e acolá para soltar alguma amarra ou içar outra vela. Depois de um tempo, ouviram o barulho de botas descendo as escadas para a cabine, e prepararam-se para agir. Assim que o capitão entrou, fecharam a porta atrás dele e o renderam.

- Mas o que é isso?

- Calma, Barbarrala, são apenas velhos amigos querendo acertar algumas continhas - respondeu Carpeaux alisando o único lado do bigode que tinha.

- Acertando as contas, ora seu... Se me lembro bem, são vocês que ficaram me devendo uma fortuna na última vez... Onde está Balbina? Quem são estes outros?

- Estou aqui, meu bem - disse a menina sentada sobre a mesa em uma posição sensual, pelo menos a mais sensual que ela tentou fazer, mostrando um pouco as perninhas, o joelho esquerdo tendo um esparadrapo tapando um machucado.

- Então é verdade o que me contaram, você virou uma pirralha! - e soltou uma gargalhada segurando a barriga e virando a cabeça para trás.

Porém, a gargalhada foi só uma distração para sacar duas pistolas que trazia escondidas no casaco e apontá-las para BB e Carpeaux. Gordulfo dormia em um canto chupando o dedão. Apesar de ser muito forte, era notório que quando ele caía no sono, ninguém conseguia mais acordá-lo. Mas o que o pirata Barbarrala não contava era com a rapidez do bastão do druida, que de um golpe só, jogou para o ar as duas armas da mão do capitão e ainda o imobilizou contra a parede.

- Golpe de sorte, filho. Vamos ver como se sai contra uma tripulação inteira com este pedaço de pau.

- Cale a boca, pirata - uma vozinha doce ameaçou - Você agora é nosso refém e a sua tripulação vai fazer o que nós mandarmos.

- Essa eu quero ver - respondeu maliciosamente Barbarrala.

Saíram os quatro para o convés, Barbarrala na frente, com uma faca no pescoça segurada por Carpeaux, e logo atrás BB e o druida. Os piratas, quando viram a cena, por um instante não souberam o que fazer. Até que Carpeaux gritou:

- Piratas, ouçam bem. O seu capitão é nosso prisioneiro. Um gesto brusco e eu corto o pescoço dele. A partir de agora, o controle do navio é nosso.

O silêncio durou exatos dois segundos e trinta e sete milésimos. Depois, ouviu-se uma gargalhada uníssona que soou mais alta que o vento Zé Firo. Talvez até ele tenha rido junto. Enquanto BB, Carpeaux e o druida olhavam-se sem entender nada, Barbarrala explicou:

- Seus idiotas, eu não sou mais o capitão deste navio. O plano de vocês quase teria dado certo, se não tivessem deixado passar este pequeno detalhe. Agora, sofram as consequências da sua burrice.

- Mas quem é o capitão agora? - murmurou BB, ao perceber que várias facas, espadas, lanças e facões enferrujados agora apontavam para os seus pescoços.

- Alguém bem mais traiçoeiro, vil e apavorante do que eu. Aquele que fará vocês se arrependerem de ter entrado nesse navio - e apontou o nariz torto para a popa da embarcação.

Os três olharam para o leme e estremeceram. Seriam os dois olhos mais maléficos daquela embarcação, se um deles não estivesse com um tapa-olho. Esboçava um sorriso cruel, se é que aquilo poderia ser capaz de sorrir. Era uma visão selvagem, mais ainda, era uma visão totalmente desumana. Os olhos e sorriso que miravam aterradores para os três eram o de um papagaio verde, que usava um tapa-olho e um mini chapéu de capitão.

Rapidinha do dia 2


"A inteligência é o meu principal sex appeal. Depois vem o humor negro, o sarcasmo, a malícia e a cara de lerdo."

Jefferson Luiz Maleski

Os livros perdidos de Eva, de Josh Howard


Sinopse:

Há muito tempo, no Jardim do Éden... Adão desaparece, raptado por forças desconhecidas, e Eva parte numa jornada para resgatar seu amado, tendo que se aventurar no lugar mais surpreendente que seus olhos já viram: o mundo exterior ao jardim. Sem saber, ela agora caminha diretamente para uma conspiração maior do que sua alma ingênua poderia imaginar... Venha com o artista Josh Howard conhecer essa releitura muito interessante e original do mito bíblico.

Série em 4 partes.

Como me tornei estúpido, de Martin Page

Sinopse:
A ignorância é um dom para Antoine, personagem principal da sátira de Martin Page, Como me tornei estúpido. Caso extremo e bem-humorado de rebeldia contra uma sociedade que exige a estupidez como passaporte e oferece a massificação como recompensa, o livro do jovem autor francês chega às livrarias dia 14 de março e antecipa os lançamentos da editora Rocco para a XII Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Martin Page é um dos autores com participação confirmada para o evento, que este ano homenageia a França. O lançamento faz parte do Safra XXI, selo lançado em 2004 pela editora Rocco com edição gráfica diferenciada e proposta ousada de lançar autores jovens e talentosos.

Decidido a parar de sofrer por causa de uma consciência que o impede de aceitar as injustiças do mundo, Antoine tenta sem sucesso virar alcoólatra, suicidar-se e até fazer uma cirurgia para retirar uma parte do cérebro. As tentativas frustradas do jovem protagonista são descritas com fina ironia e imagens nonsenses que beiram o surrealismo. Mas a redenção de Antoine vem com o emprego numa corretora de ações de um ex-colega de escola, que junto com o Felizac, antidepressivo receitado pelo seu médico boa-praça, são o antídoto perfeito contra a inteligência e a consciência crítica do rapaz.
Trechos do livro:

"...a inteligência é uma tara. Assim como os vivos sabem que vão morrer, e como os mortos não sabem de nada, penso que ser inteligente é pior que ser asno, porque o asno não se dá conta disso, ao passo que qualquer inteligente, ainda que humilde e modesto, o sabe forçosamente."

"Eu penso e repenso no que dizia Michael Herr, roteirista de Nascido para Matar, no seu magnífico livro sobre Kubrick: 'A estupidez das pessoas não deriva da sua falta de inteligência, mas da sua falta de coragem'."

"Diante da agonia da sua carteira, ele imaginara um hospital financeiro onde se poderia fazer transfusão para contas bancárias anêmicas."

"A vida é um animal que se alimenta de cheques e cartões de crédito."

"Não há maior dor que ser um anjo no inferno, um anjo cercado de diabos por todos os lados."

"É sempre a si mesma que a pessoa corrompe mais facilmente."

"Ela é feia, Antoine, sinto muito, mas é a verdade, ela parece um esqueleto. É um antídoto contra o Viagra."

Kirk Douglas disse: "Mostre-me uma mulher inteligente e lhe direi: 'Eis uma mulher sexy'."

"Não há inocentes no amor, há somente vítimas."

Madame de Stäel dizia: "No domínio dos sentimentos, não há necessidade de mentir para se dizer mentiras."

"A lua bronzeava-se ostensivamente na praia de areia negra do espaço."

Nietzsche dizia: "A inteligência é um cavalo louco, é preciso aprender a segurar suas rédeas, a alimentá-lo com boa aveia, a limpá-lo, e, às vezes, a usar o chicote."