City Hunters (2006)

Episódio 8 - Sextopia
"Não sabemos o que é suficiente até sabermos o que é mais do que suficiente." (William Blake)

Episódio 7 - Final Fantasy
"A satisfação está no esforço, não na realização." (Ghandi)

Episódio 6 - Count Lynch
"A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria." (William Blake)

"O trabalho espanta 3 males: o vício, a pobreza e o tédio." (Voltaire)

"Mostre-me um homem sem vícios e eu mostrarei um homem sem virtudes." (Abraham Lincoln)


Pode-se teorizar infinitamente sobre o prazer. Mas a prática é bem mais interessante.

Episódio 5 - Simultaneous Matches
"Embora seja detestável enganar sempre, durante a guerra é algo louvável e glorioso." (Maquiavel)

Episódio 3 - Who's your Momma
São as mulheres que escolhem os homens. A arte consiste em ser a melhor escolha.

"Se quer ganhar uma batalha, nunca lute em campo inimigo." (Sun Tsu)

Episódio 2 - Mutiny
O mestre só abre o portão. É o aluno que deve cruzá-lo.

No Aikido e na vida, nunca tente forçar uma situação. Use a força do seu oponente em benefício próprio.

Episódio 1 - Mahatma Dandy
- Sempre peça uísque. De 18 anos no mínimo, como as mulheres.
- Regras da Sociedade X?

- Não, do meu advogado.

City Hunters é uma série de animação argentina criada para a FOX e patrocinada pela Axe. Consiste em 9 episódios e parte de sua animação foi produzida na Coréia, misturando elementos do desenho tradicional com CGI e nos modelos de Milo Manara. A série conta as desventuras de Axel, um rapaz sem muita sorte ao se relacionar com mulheres, que acaba recebendo o treinamento do misterioso Dr. Lynch para se tornar um sedutor de sucesso. Saiba mais visitando o site oficial (em português).

Transsiberian (2008)

"Se você matar os meus demônios pode ser que os meus anjos morram também." (Tennesse Williams)

A vida é uma viagem, não um destino.

"Com mentiras poderá ir em frente neste mundo, porém nunca poderá voltar atrás." (provérbio russo)

Mais info: IMDB (Inglês) Site oficial (Inglês)

Compreendendo as mulheres (ou não) - Parte I

- Meu bem, você me ama?

- Amo.

Pausa de um minuto.

- Mas você me ama quanto?

- Olha, eu amo você mais do que a mim mesmo. Sem você eu não sou ninguém. Você é o meu tudo, o meu céu, o meu mel...

Pausa de dois minutos.

Pausa de cinco minutos.

- Querida, o que foi?

- Não sei se quero namorar alguém que tenha uma auto-estima tão baixa.

O referencial

Naquele dia, em um dos encontros de família semanais da igreja, o orador tentava explicar a necessidade de perceber Deus nas situações cotidianas. Quando perguntou se alguém na platéia já havia sentido a presença divina em sua vida, uma menina, aparentando uns cinco anos, levantou a sua mãozinha.

- Você já sentiu a presença de Deus na sua vida? – perguntou o orador surpreso.

- Sim, uma vez em que eu fui no shopping com a minha mãe e tava cheio de gente, daí eu soltei a mão da minha mãe e me perdi. Eu chorei bastante, até que uma velhinha me viu e ajudou a encontrar a minha mãe.

- E como era a velhinha?

- Ela usava uma roupa rosa e tinha cabelos amarelos.

- Mesmo!? E quantos anos tinha essa velhinha?

- Uns vinte e dois ou vinte e três, eu acho.

O que é o leitor?

Dicionário 1: adjetivo: Que lê; substantivo masculino: aquele que lê;

Dicionário 2: aquele que lê para si, mentalmente, ou para outrem, em voz alta, textos escritos; ledor; 2. que tem o hábito de ler; 3. que lê habitualmente determinado periódico, gênero de literatura, autor;

Dicionário 3: O leitor, na teoria literária, é uma das três entidades da história, sendo as outras o narrador e o autor. O leitor e o autor habitam o mundo real, e o narrador existe no mundo da história (e apenas nele).


A verdade é que as definições acima são incompletas e superficiais. O leitor não é só um adjetivo, senão bastaria que alguém lesse bulas de remédio, papéis de bala, outdoors ou versos escritos em banheiros públicos para ser leitor ou que lesse apenas uma vez quando criança, qualquer coisa, para carregar a medalha de LEITOR no pescoço pelo resto da vida. O leitor, tampouco é um reles substantivo, decretando assim que todos os alfabetizados são, automaticamente, leitores. Pergunte a alguém que sabe ler como ele define o leitor. Melhor, pergunte-se a você mesmo: o que é o leitor? Pense um pouco antes de continuar a leitura do texto.

Se você definiu o leitor com um sujeito Deus Pai, uma espécie de eremita antediluviano sentado em meio a montanhas de livros procurando respostas para os porquês da vida; ou um autista que se abstrai da realidade ao ponto de bater com a testa em postes ou cair em bueiros abertos porque usava um livro no lugar dos óculos; ou uma estátua acadêmica – inacessível, mas agradável aos ouvidos dos que lhe ouvem – do eterno aprendiz em busca da sabedoria e lucidez; ou se simplesmente enumerou tudo aquilo que o leitor não é: não pratica esportes, não vê tevê, não toma cerveja nos botecos com amigos, não tem carro nem namorada; se você pensou em alguma imagem próxima destas, você errou feio. Para ter acertado, você precisaria ter pensado de imediato em si mesmo, em algum parente ou conhecido como leitor.

Definir o leitor é como definir o ser humano. É um conceito complexo assim como o verbo ler. É tão difícil tentar explicar o verbo ler quanto os verbos viver e amar. O que é amar? O que é viver? O que é ler? Pode-se apenas tentar chegar perto, mas o verdadeiro sentido continuará sendo interior, íntimo, pessoal. Só quem é leitor sabe o que é o leitor, mesmo que não consiga defini-lo, assim como quem ama sente o amar e quem vive entende o viver. E entenderá só de um leitor: dele mesmo, porque cada leitor é diferente e único. Não existe leitor-gêmeo nem leitor-clone.

O leitor é aquele que ama em silêncio, e como um cara solitário, sai em busca de uma companhia melhor que a sua. Quando não encontra na vida real, procura dentro do livro. O leitor precisa de alguém que o maravilhe contando coisas novas, histórias tristes, de amor, de guerra, de terror. Precisa de alguém que mostre terras que nunca conheceu ou conhecerá, épocas passadas ou caminhos para o futuro, que responda as suas dúvidas interiores, que entenda os seus problemas sem precisar confessá-los. Não que a vida real do leitor não seja interessante, mas ela não lhe é suficiente. O leitor tem uma fome insaciável: precisa sempre de mais vida pulsando dentro de si.

O leitor - não o livro - é semelhante ao bom vinho: fica melhor com o passar dos anos. Por isso, quando o leitor volta a um livro que lera ou tentara ler no passado, o encontra mais saboroso, interessante, diferente. Não foi o livro que atingiu a maturidade fermentando os seus parágrafos sorrateiramente enquanto estava esquecido na estante poeirenta, foi o leitor que envelheceu e evoluiu. Livros de bom gosto só apreciam leitores de boa safra.

O leitor não lê por obrigação, ler para ele, além de uma necessidade vital, é um prazer. Ele se apaixona junto com a mocinha e morre com o príncipe, trama astúcias com os vilões e voa nas asas dos anjos. É um eterno romântico, sem a necessidade de ser exclusivo: ama personagens, escritores, livros e muda o seu jeito de ser por causa deles. E mudando por dentro, muda também o que costuma ler. Mas também corre o risco de virar um releitor dos livros que o marcaram. Ser leitor é ser uma raça diferente dentro da raça humana, não melhor, não mais inteligente, apenas feliz e satisfeita de uma maneira divinalmente diferente.
Texto baseado no livro Como um Romance (ROCCO, 1993) de Daniel Pennac.

Direitos Imprescritíveis do Leitor

1 - O direito de não ler.

2 - O direito de saltar páginas.

3 - O direito de não terminar um livro.

4 - O direito de reler.

5 - O direito de ler qualquer coisa.

6 - O direito ao bovarismo (doença textualmente
transmissível).

7 - O direito de ler em qualquer lugar.

8 - O direito de ler uma frase aqui e outra ali.

9 - O direito de ler em voz alta.

10 - O direito de calar.


Fonte:
texto da contracapa do livro Como um Romance (ROCCO, 1994) do escritor francês Daniel Pennac.

Tudo o que não sou, por JLM

Como já passei dos trinta, volta e meia me perguntaram se não sinto a necessidade de me casar. É claro que sinto. Formar uma família é algo natural a todo ser vivo. E é uma necessidade natural para mim assim como outras necessidades que ainda não satisfiz. O detalhe é que é algo que não me preocupa atualmente por um simples motivo: eu não sou a soma das minhas necessidades. Eu não me defino nem me identifico por elas. Seria até contraditório se o fizesse: se eu necessito de algo que tenho carência em um determinado momento, então eu seria aquilo que falta em mim? Sou aquilo que não tenho? Totalmente sem sentido. Eu não sou o que não tenho assim como não sou o que tenho, o que pareço, o que faço, o que penso ou ainda o que penso que sou. Parece complicado? Sei que parece, mas é só porque é complicado alguém hoje dar numa resposta satisfatória quando a pergunta é "quem é você".

Muitos diriam: eu sou fulano de tal, citando de imediato o nome familiar, legal ou religioso. Mas eu não sou um conjunto de caracteres. A minha vida não é papel nem ondas sonoras. O nome é meu, mas eu não sou ele. Será o nome, e só no final da vida, que revelará um pouco de mim. Até lá, ele é apenas um título incompleto para definir alguém que ainda não se definiu muito bem para si, quanto mais para os outros.

Alguns responderiam: eu sou engenheiro, ou advogado, ou pastor, ou estudante. Eu não sou aquilo que faço. Senão, se eu fosse desempregado, ateu ou alguém que trabalha com algo que não gosta, eu não seria nada ou seria algo que não gosto. Apesar de muitos nos empurrarem esta idéia como a certa, lá no fundo, sabemos que não é assim. Não sou o que faço, apesar de minhas palavras, pensamentos, ações e omissões apontarem a direção para se chegar em quem eu sou.

Da mesma forma, outros alegariam: eu sou feliz, sou extrovertido, sou bondoso. É parecido com o argumento anterior, mas eu não sou um adjetivo ou uma situação. Isso porque os adjetivos mais justos ou exatos para me definir podem nunca ser usados, tanto pelos outros quanto por mim. E um adjetivo nunca define a essência, apenas classifica e referencia a aparência. Eu não sou a aparência, eu sou a essência.

Ainda existem os que pensariam assim: sou a soma de tudo o que pensam de mim. É claro que aqueles que não sabem nem mesmo o que eles próprios são não podem saber muito mais sobre outros. Nem a minha mãe sabe quem sou. Nem a minha esposa saberá. Tanto é que há pessoas que vivem juntas por décadas e ainda são capazes de surpreender os companheiros. O que ocorre na maioria das vezes é que pensamos que conhecemos tudo sobre o outro, mas a verdade é que nos acomodamos em conhecê-los mais, consideramos que aquilo que sabemos já é suficiente.

Eu não sou o que como. Não sou o que falo. Não sou o que falam. Não sou o que penso. Simplesmente sou. Por exclusão de tudo o que não sou, chego ao pensamento dos antigos sacerdotes egípcios, que diziam: O ser é. Simples, sem adjetivos ou acessórios. Talvez conseguíssemos entender o que isso significa parando de acrescentar coisas supérfluas ao ser para tentar defini-lo através delas. Seria o tirar as roupas, cascas, máscaras e camadas superficiais até encontrar a essência interna, pessoal, única e por que não, divinoa Já ensinavam os monges tibetanos: Quando houver cessado de ouvir os muitos, poderá discernir o UM – o som interno que mata o externo. Porque então a Alma ouvirá e se recordará. E ao ouvido interno falará A Voz do Silêncio. Portanto, se estiver em dúvidas sobre quem você é, neste momento, tente afastar-se de tudo o que dizem que você é, vá a um local isolado e procure ouvir aquela voz interior que só aparece quando você procura escutá-la. Assim, saberá também o que você é, e não somente o que não é.

Efeitos Luminosos

"O sol brilha para todos, mas alcançar a sua luz depende de onde e como nos posicionamos diante dele."

"Em terras onde o sol não brilha, as faíscas cegam."

"Os tolos nada ensinam, mas os sábios conseguem ver luz em todos."


Jefferson Luiz Maleski

Poema 20, de Pablo Neruda

Talvez um dos poemas de amor mais bonitos de Pablo Neruda, o Poema 20 (escrito em 1924) ganha vida em uma das atuações de Rodolfo Valentino. O vídeo poema foi produzido por Four Seasons Productions, e é declamado em espanhol por Carlos Alfaro e legendado em inglês por W.S. Merwin.


PUEDO ESCRIBIR LOS VERSOS MÁS TRISTES ESTA NOCHE (POEMA 20)

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.



POSSO ESCREVER OS VERSOS MAIS TRISTES ESTA NOITE (POEMA 20)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.

Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes, os últimos versos que lhe escrevo.

As Fenícias, de Eurípedes

A reimpressão de junho de 2008 da peça de teatro As Fenícias acrescenta mais detalhes e vigor a trágica história da família de Édipo. Eurípedes dá uma versão alternativa ao fim de Jocasta em Édipo Rei: aqui, ela sobrevive à descoberta que é esposa de seu filho. Passa a ter um papel fundamental na tentativa de reconciliar os seus dois filhos homens, prestes a iniciarem uma batalha sangrenta pelo trono. É o lado feminino e maternal da história. É Os Sete contra Tebas com história, não apenas a narração de qual general atacará qual portão.

Eurípedes (485-406 a.C.) é chamado de “filósofo do teatro”, por ter sido amigo de Sócrates e discípulo de Anaxágoras de Clazômenas, e deixado transparecer em suas peças questões filosóficas, psicológicas e políticas da época. Eurípedes não fez sucesso em vida, pois os seus personagens foram classificados como muito prolixos e com análises psicológicas profundas. Além de Eurípedes, também Sófocles e Ésquilo narraram outras partes da saga da família maldita de Édipo. De Sófocles e Ésquilo sobreviveram apenas sete peças de cada, mas de Eurípedes foram dezoito a chegarem aos nossos dias: Alceste, Medéia, Hipólito, Andrômaca, Hécuba, As Suplicantes, As Troianas, Electra, Ifigênia em Táurida, Helena, Íon, Héracles, Bacantes, As Fenícias, A Heracléade, Orestes e O Ciclope.

O apelo aos sentimentos fraternais e os argumentos lógicos ou filosóficos são claros a cada diálogo de As Fenícias. Creonte prefere ver Tebas cair ao invés do filho, mas Menelau está disposto a morrer por um bem maior, pelos outros, pelo país. Jocasta apela aos sentimentos dos filhos, sofre ao ver o ódio mortal no coração de ambos. Polinice exige justiça e quer que o irmão cumpra a sua parte no acordo, deixando o trono por um ano ou repartindo o quinhão do reino que pertence a ele. Etéocles acusa Polinice de marchar com um exército estrangeiro contra a própria pátria, tornando-se um traidor, e que como soberano não pode entregar o seu país de mãos beijadas a um exército estrangeiro. Donald Schüler explica:
Ao pedido de justiça do irmão, Etéocles reage com uma tese sofística: justiça é a vontade do mais forte, argumento usado por atenienses durante a guerra do Peloponeso e discutido por Platão na República. Decisões políticas e teses filosóficas sobem ao palco. Etéocles acusa o adversário de ter conduzido contra a pátria um exército de estrangeiros. Mundo dividido e inconciliável. Polinice e Etéocles negam um ao outro que cultivam como próprio, ambição e poder. Visto no outro, o próprio torna-se impróprio, estranho, ameaçador. O que se desdobrou e objetivou no outro é irreconciliável.” (pg. 21)
Segue a lista dos principais personagens da trama com um breve resumo de seus papéis:

Jocasta – mãe e esposa de Édipo, graças ao seu primeiro marido, Laio, não ter dado ouvidos às advertências de Apolo para não ter filhos. Aqui, ela tenta persuadir os dois filhos que teve com Édipo a selarem um acordo de paz ao invés de guerrearem entre si pelo trono. Ao saber que ambos pereceram pela espada do outro, suicida-se.

Édipo – é citado em toda a peça, mas aparece só no final quando os filhos e a esposa já estão mortos. Até então vivia cego e enclausurado no palácio. A maldição que lançara sobre os filhos por o terem aprisionado se cumpriu: ambos morreriam brigando pelo poder. Creonte, o seu cunhado, o bane de Tebas junto com Antígona.

Antígona – filha de Édipo e Jocasta, e irmã de Etéocles e Polinice. É também noiva de Menelau, filho de Creonte. É ela quem sobe em uma torre alta para ver os generais do exército de Polinice atacarem os sete portões de Tebas. No final, tenta argumentar com Creonte para não banir o seu pai e que deixe enterrar Polinice.

Creonte – irmão de Jocasta e pai de Menelau. Tenta convencer, em vão, o filho a não sacrificar-se ao deus Ares, conforme predito por Tirésias como a única salvação para Tebas. Assume o trono assim que Etéocles, Polinice e Jocasta morrem. Sua primeira lei é proclamar a pena de morte para aquele que enterrasse Polinice, pois graças a este traidor o seu filho morrera. Bane Édipo e Antígona de Tebas.

Menelau – filho de Creonte e noivo de Antígona. Quando fica sabendo por meio de Tirésias que somente o seu sacrifício ao deus Ares garantirá a vitória de Tebas, dá a sua vida para salvar a pátria.

Etéocles – filho de Édipo e Jocasta. Temendo a maldição de Édipo, faz um acordo com o irmão Polinice, onde cada um reinaria por um ano alternadamente enquanto o outro viveria no exterior. Ao final do primeiro ano, Etéocles não quis entregar o trono ao irmão, forçando o irmão a lutar contra ele. Mata o irmão em batalha e é morto por ele.

Polinice – filho de Édipo e Jocasta, banido por Etéocles. No estrangeiro, casa-se e faz alianças com outros reis, conseguindo reunir um grande exército para ajudar-lhe a retomar o trono. Depois dos ataques infrutíferos contra Tebas, em um combate com o irmão, mata-o e é morto por ele.

Tirésias – adivinho cego que é consultado por Creonte e diz qual a única solução para garantir a vitória tebana: oferecer o filho Menelau como sacrifício ao deus Ares.

A melhor seqüência de leitura dos livros que narram a tragédia da família de Édipo seria:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
3º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
4º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

A tradução do grego e a introdução de Donaldo Schüler são perfeitas. As obras traduzidas diretamente das línguas originais tendem a perder menos a essência e por ser uma tradução atual (de 2005) não aparecem palavras em português arcaico. A introdução “A eclosão do irracional no teatro de Eurípedes” dá uma visão geral dos principais livros de Eurípedes, alguns como complementos de sagas históricas, como das Ilíadas, de Hércules e de Jasão.

leitura: Agosto de 2008
obra: As Fenícias (Phoiníssai) de Eurípedes
tradução e introdução: Donaldo Schüler
edição: 1ª, Coleção L&PM Pocket - L&PM (2008), 101 pgs
preço: Compare os preços no BuscaPé
Excelente

Leitura adicional:
As Fenícias - Wikipédia, a enciclopédia livre

Gerundismo exagerado

Então o médico fala ao paciente:

- Eu vou mexer só um pouquinho no seu dedo para saber o quanto ele está doendo, tá bom? Dói aqui? (Clec!)

Um grito ecoa pelos corredores do hospital, assustando crianças e adultos na sala de espera, trincando ampolas, frascos de xaropes e vidros de janelas, soando alarmes de carros nos estacionamentos numa sinfonia disforme, assustando pássaros e gatos empoleirados em árvores e estátuas, detectando os sismógrafos da capital um abalo significativo a quilômetros de lá e fazendo uma nave alienígena que passava pelo sistema solar olhar com mais cuidado para o planetinha que pensava desabitado.

- Ok, não precisa responder, eu já entendi – diz o médico.

Homem que é homem que é homem

Desta vez, ela ouviu a pergunta e desviou os olhos da revista. Ele estava pelado.

Olhou os poucos fios na cabeça dele – um catálogo de cores neutras - escalando pela última vez os paredões daquela montanha calva e lustrosa. Ele nunca pensara num implante? Da careca passou aos tufos de pêlos salientes nas orelhas e nariz e voltou à careca. Humm, talvez funcionasse. A barba de dois dias seria um ótimo esfoliante, se convencesse o marido a passá-la nas costas. E os cabelos no peito só não eram mais espessos que os na bunda – e pensou novamente na careca. Humm, eca. A barriga decadente não era mais o glorioso hemisfério que fora no passado: parecia mais um depósito de pele murcha que de gordura e servia só para fazer sombra no vizinho de baixo, que também não era mais o mesmo. Ele deu um leve gingado que fez a hélice roliça dar uma volta de 360 graus. O meio sexo dele – meio mole, meio não tão mole – apontava indeciso para as gavetas da penteadeira, ora a de acima, ora duas abaixo. Parou naquela com o puxador solto. Tenho que arrumar isso, ela pensou, amanhã. As pernas arqueadas e cabeludas – e imagina no que ela pensou – exibiam as medalhas de guerra: cicatrizes e hematomas arduamente conquistados nas peladas de sábado à tarde com o pessoal da igreja. Pra terminar, o dedão do pé esquerdo tinha a unha encravada, roxa, igual à metade de um escaravelho.

Hoje não, querido, estou cansada. E virou para a parede, com todo cuidado possível para não encostar o creme facial pastoso, mistura de kiwi com uva, no travesseiro ou desalinhar a touca magnética revitalizadora para cabelos tingidos.

Independência dependente

"O grande problema de ser totalmente independente dos outros é que você fica muito dependente de si."

Jefferson Luiz Maleski

o OrVaLhO e Os DiAs, de Nilton Resende

Este livro foi gentilmente cedido e enviado pelo autor/editora para ser resenhado. Fica, assim, automaticamente sujeito à Política sobre Resenhas Solicitadas deste blog. O texto abaixo pode conter revelações sobre o enredo (spoilers).

O Brasil não é um país de leitores. Blá. A poesia é o gênero literário menos popular: coisa de mulher, diário adolescente ou vagabundo que não tem o que fazer. Blá, blá. Dos poucos que lêem poesia menos são os que a entendem ou a sentem na pele. Blá, blá, blá. E dentre os bons poetas – clássicos ou contemporâneos, nacionais ou estrangeiros –, os que aparecem continuamente nas escolas, em listas de leitura obrigatória ou em novas reedições quase que anuais são os velhos bambambãs de sempre. Blá, blá, blá e blá. Ano vai, ano vem, e a ladainha é a mesma. Mas apesar de sabermos e até usarmos ou acusarmos alguns dos chavões acima quando queremos ostentar um ar mais intelectual, no fundo cada um compactua para que nada mude. Receitar o “leia uma poesia por dia para uma vida mais sadia” é arriscar-se a ver surgir na face à sua frente ao mesmo tempo expressões de ironia e desconfiança da sua sanidade mental. Confessar que gosta de poesia é ainda pior, como já o disse Minás Kuyumjian Neto, seria igual a alguém declarar publicamente que se masturba.

Como sair do paradoxo de apreciar poesia sem ser depreciado por isso? Simples, basta o seguinte raciocínio lógico: o leitor de poesia tem mais chances de se apaixonar, mesmo que platonicamente; a criatividade, a imaginação e os sentimentos humanos (ou divinos) mais profundos afloram naquele que lê poesia; a poesia mostra algo sobre você que ninguém sabe, nem você. O poeta é, antes de qualquer classificação acadêmica, um ser humano hipersensível que busca transmitir as sensações que nele transbordam aos seus leitores.

o OrVaLhO e Os DiAs, livro premiado no Projeto Alagoas em Cena de 2006, traz 50 poesias do alagoano Nilton Resende. Poeta e livro falam de situações pessoais que procuram evocar a universalidade, como o trecho que traz a lembrança da época em que o menino que esperava as fatias de manga cortadas pela avó para depois do almoço, ou
“O menino bate a pedra.

O que fazes, ó menino?
Bato a pedra, bato a pedra.

Pra que bates, ó menino?
Farei nela linda flor.

E por que tu tão transido?
Por que choras, meu menino?

Sei que tudo é perdido:
ela não terá odor”
Os títulos das poesias e do próprio livro alternam caracteres maiúsculos e minúsculos. Alguns títulos são “uM pRiMeIrO eXeRcÍcIo De FrAcAsSo” (transcrito acima), “EsTe PoEmA mE vAi” e “mAcUlAdA cOnCeIçÃo”. Quem não navega há muito tempo na internet poderia achar que se trata de uma inovação interessante, mas outros lembrarão daqueles que se utilizam dessa forma escrita desde as extintas redes BBS até os dias de hoje: os garotos metidos a hacker que querem se diferenciar escrevendo ou assim ou com caracteres (gráficos, árabes, etc.) que visulamente se pareçam com as letras do nosso alfabeto. Eles são criticados e desprezados desde sempre e por isso, talvez a sensação de repulsa para com eles se transfira para os textos do Nilton, mesmo que sejam poesias e ele não seja um hacker.

Além de poeta, Nilton Resende é professor, ator, diretor e roteirista. Nesta coletânea, ele mostra que as suas principais influências foram Hilda Hist e Lygia Fagundes Telles. Talvez por influência delas, as suas poesias trazem uma predominância feminina. Grande parte é narrada em voz de mulher ou é sobre uma: Maria Madalena, princesas, trabalhadoras, mães, irmãs, moças apaixonadas e até fantasmas. Outra característica comum é o traço da religiosidade cristã que, algumas vezes, é indiretamente criticada.

Mas parece que ainda falta algo no livro e que este não será o maior trabalho do autor. Por isso, o leitor não pode exigir que as 50 poesias sejam de tirar o fôlego, excepcionais, o que o brasileiro faz quando quer que seu time sempre ganhe. Algumas das poesias mecherão com você, outras não e ainda outras lhe causarão desconforto. Se for comprar o livro, pense como se estivesse comprando um CD de música, onde haverá boas escolhas entre outras não tão boas. Talvez no futuro o autor aprimore o seu estilo para que atinja uma gama maior de leitores, para aí sim, tornar-se verdadeiramente universal.

leitura em: Agosto 2008
obra: o OrVaLhO e Os DiAs, de Nilton Resende
edição: 1ª, EDUFAL (2007), 84 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé

Política sobre resenhas solicitadas

Alguns escritores e editoras perderam totalmente a cabeça e resolveram mandar livros para eu resenhar. Como todas as resenhas postadas até agora no LIBRU LUMEN e espelhadas em outros sites foram de livros que comprei ou ganhei sem ter obrigação alguma de ler, quanto menos de resenhar, resolvi deixar claro alguns termos éticos e pessoais para evitar mal entendidos futuros. Antes de tudo, confesso descaradamente e sem pudor algum que não sou escritor nem crítico profissional. Ainda. Por isso, não ganho dinheiro resenhando livros (bem que gostaria) e o máximo que já recebi foi um livro ou outro de brinde.

O lado bom é que posso ser imparcial e falar sinceramente sobre o efeito que o livro teve em mim e emitir a minha opinião de leitor, não um leitor de fim de semana, mas um que ama ler e que lê um pouco mais que a média nacional. Um leitor que também tem pretensões de ser escritor e por isso estuda teorias, técnicas, estilos e defeitos comuns da escrita e que cobra isso dos escritores que lê. Afinal, quem publica um livro está colocando o seu trabalho à disposição para que amem ou odeiem, justa ou injustamente.

O lado ruim é que a minha opinião pode ter um outro pólo: o negativo. Se o livro for ruim, nada me impede de acabar com ele. Se for muito muito ruim, posso até fazer um vídeo no Youtube mostrando como ele é útil como carvão pra churrasco ou postar a carta que enviei (junto com o livro) para a editora dizendo aquilo não pode ficar na mesma casa que eu porque me dá ojeriza. Quem já leu as resenhas de Atlantis (David Gibbins), O Caçador de Pipas (Khaled Hosseini) e Rato (Luís Capucho) sabe muito bem que minha língua é mais afiada para falar mal que elogiar.

Tá certo que posso não perceber algum significado implícito na história ou filosofia ou o estilo de vanguarda do escritor - não sou perfeito -, mas se eu ficar com um gosto amargo na boca após a leitura do livro, vou cuspir no chão. Ao contrário, se me abrir o apetite, vou repetir o prato lendo e indicando mais livros do autor.

Deste modo, para o escritor que for mais louco que o normal (todo escritor tem algo de louco) para se arriscar a me pedir uma resenha, estarei à disposição. Sou sincero com os textos enviados por conhecidos e não serei diferente com os enviados por estranhos. Até porque futuramente os papéis poderão inverter-se. Mas deixo claro que o simples fato de receber o livro do autor ou da editora sem custos não desvirtuará a impressão que a leitura do livro teve sobre mim. Se você, escritor, estiver em dúvida se deve mandar ou não mandar, não mande. Se não gostar de críticas, não mande. Nem escreva. Nem saia de casa. E também não adianta depois me chamar de homofóbico, veadinho, insensível ou outras besteiras porque não vai mudar nada: o livro continuará sendo o que ele é e eu o que sou.

Agora, depois de aterrorizar o suficiente, alguém vai querer encarar?

3:AM Magazine Brasil

Foi publicada no site 3:AM Magazine Brasil a minha poesia "Pensamentos (So/No)turnos". O 3:AM é um fórum livre e ecléctico para radicais literários. Não publicam qualquer coisa que seja vagamente de estilo ‘acadêmico’, nem textos afáveis, delicados ou chatos. E apesar de não possuirem uma ‘linha’ política, não aceitam textos que preguem ódio ou discriminação.

Kafka de Crumb, de David Zane Mairowitz

Uma biografia em um tom leve, divertido e diferente das convencionais, apesar de falar do escritor considerado um dos mais sombrios da era moderna. Assim é o livro Kafka de Crumb, com desenhos de Robert Crumb e texto de David Zane Mairowitz, que não chega a ser uma HQ (história em quadrinhos) nem um livro propriamente dito, mas flutua entre ambos deixando uma gostosa sensação no leitor.

O livro traz o resumo, análise e desenhos das principais obras de Kafka: O Veredito, A Metamorfose, A Toca, Na Colônia Penal, O Processo, O Castelo, Um Artista da Fome e Teatro da Natureza de Oklahoma (ou Amérika). É um ótima introdução para quem deseja conhecer mais sobre o escritor considerado por muitos o marco na escrita do século XX.

A pesquisa detalhada da vida de Kafka é o tempero especial aos fãs de seus escritos. Desde a sua infância no gueto judeu – um lugar sombrio e cheio de lendas iídiches – como um menino franzino mas inteligente, em uma era onde o ódio anti-semita era assimilado mesmo pelos judeus, até a posição de submissão de Kafka perante as figuras mais fortes, como o pai, o avô açougueiro e o patrão na repartição pública, tudo influenciou os seus escritos. Kafka anotava em seu diário as maneiras mais insólitas em que poderia morrer no gueto. Não falava em suicídio, mas de desaparecer aos poucos até sumir por completo, sem que dessem pela falta dele. A Metamorfose é um exemplo claro do que se passava na mente perturbada de Kafka. Ele se odiava por ser judeu, por nunca estar à altura das cobranças do pai, por ter uma doença que o obrigava a escrever. Kafka não considerava escrever como algo bom, mas como uma maldição.

Sua capacidade de engolir seu medo dos outros e dirigi-lo contra si mesmo, em vez de contra sua origem, é a matéria-prima de toda sua obra.” (pg. 26)

A época e local em que Kafka viveu também foram conturbados. Havia ódio no ar, seja contra os judeus ou contra os alemães ou contra os judeus alemães. Kafka, um judeu checo mas que falava e escrevia em alemão, presenciou os movimentos nacionalistas que culminaram na Primeira Guerra Mundial. E o livro Kafka de Crumb mostra a sequência exata dos escritos de Kafka conforme os acontecimentos históricos e pessoais na vida dele. Também revela a dificuldade dele com as mulheres que passaram por sua vida, que o fizeram considerar o casamento tão opressor quanto as cobranças do pai. Kafka acreditava sempre acordar dentro de um pesadelo pior do que o dos sonhos, tanto é que nos livros A Metamorfose e O Processo a história começa com o personagem principal acordando.

David Zane Mairowitz escreveu também a biografia Introducing Camus, ilustrada por Alain Korkos, mas disponível, por enquanto, somente em espanhol e inglês.

Leia também a resenha:

leitura: Agosto de 2008
obra: Kafka de Crumb (Introducing Kafka), de David Zane Mairowitz
tradução: José Grandel
edição: 1ª, Relume Dumará (2006), 175 pgs
preço: Compare os preços no BuscaPé
Excelente

Amálgama

Saiu no Amálgama.blog.br - o novo blog coletivo encabeçado por Daniel Lopes e outros blogueiros conhecidos na internet com textos sobre literatura, filosofia, cinema, música, política e cotidiano - o meu artigo "Leitura para escritores" onde comparo os livros Oficina de Escritores de Stephen Kosh e Para Ler como um Escritor de Francine Prose, ambos lançados no Brasil em 2008. Mesmo já tendo resenhado cada um dos livros individualmente aqui - como podem notar pelos links acima nos nomes dos livros - vale a pena conferir o que eles apresentam de semelhança ou diferença, até para você saber se o livro é o que você realmente quer. Aproveite e deixe um comentário lá dizendo o que achou do artigo, dos livros, da idéia sobre livros para escritores iniciantes ou do blog Amálgama, seja para elogiar, criticar, xingar ou até só para dar um oi.

OlimPiadas 2008

Os jogos olímpicos modernos são iguais aos clássicos gregos, mesmo que alguns estraga-prazeres sem cultura digam que não. Rico ou pobre, qualquer pessoa tem a possibilidade de assistir aos jogos, até porque o ingresso custa somente algumas notas de cem dólares. O espetáculo de abertura mostra o que há de melhor no país-sede, apesar da maioria das empresas e tecnologias usadas virem do exterior. O evento transforma o país que o sedia num lugar melhor. Trabalho escravo, poluição, desmatamento, capitalismo amoral, desinteresse aos desabrigados pelas catástrofes naturais e indiferença para com a soberania de países menores não só existiam antes e sempre existirão como também são praticados pelos países-modelo do primeiro mundo. A China continuará sendo reconhecida internacionalmente como exemplo de respeito aos direitos humanos, animais, ambientais e territoriais. A imprensa tem liberdade total para mostrar o que quiser, desde que mostre somente o lado positivo. O principal objetivo dos atletas é demonstrar o seu melhor desempenho em honra aos deuses, mesmo que não fique explícito quem serão os deuses honrados. O importante é competir, e não exames antidoping ou a transformação de crianças em homúnculos. A tocha olímpica representa um brilho de esperança aos que sofrem, até para os que nunca a verão passar perto de onde moram, pois estarão ocupados demais morrendo de fome, frio ou sendo soterrados vivos. Bobos. E o Dalai Lama também vai assistir aos jogos, mas não no conforto do lar, porque o vizinho rico roubou-lhe a chave e se apossou da casa.

Eu, que já não assisto TV, só acrescentei motivos para justificar o meu gosto pela leitura.

Como matar um bicho-papão - Parte VI: EPÍLOGO

Leia também: Parte V: FINAL

"Andréa,

O seu pai foi assassinado. Mas não estou falando do Cairo. Ele não é o seu pai, eu sou. E fui assassinado por ele. Quando eu namorava a sua mãe ele era o meu melhor amigo. Até ambos me traírem juntos. Magoado, mudei de cidade enquanto Cairo e Alessandra passaram a morar juntos. Mas isso foi antes de você nascer.

Por muito tempo descontei em outras mulheres o mal que Alessandra fizera. Me transformei num monstro, um bicho-papão, que comia vítimas indefesas e abandonava os restos na sarjeta. Hoje não me orgulho do que fiz. Muitas inocentes sofreram sem merecer. Mas isso foi antes de você nascer.

Certa vez, voltei e Alessandra, mesmo ainda com Cairo, implorou por meu perdão. Disse que sempre me amou, humilhou e se sujeitou a todos os meus sadismos. Mas eu não sentia mais nada por ela. Eu não conseguia sentir mais nada por ninguém. Por isso, depois de satisfazer o meu desejo por vingança em Alessandra, fui embora, sem saber que você nasceria pouco tempo depois.

Depois, visitando a cidade, vi sua mãe passeando com você. Uma linda menina de cachos dourados que só podia ser minha. Apaixonei-me pelos seus olhos azuis. O amor que senti pela filha superou o ódio pela mãe. Naquele momento, morreu o monstro, o bicho-papão, o coração sádico e endurecido. Eu desejei ser uma pessoa melhor, por você, para você. Foi quando resolvi te conhecer. E quando morri por sua causa. Agora, preciso te ajudar a se livrar do trauma de infância que, sem querer, deixei que acontecesse.

Eu tentei me aproximar de você, mas Cairo não deixou. Então passei a te observar à distância na escola ou brincando na praça. A minha rotina era te amar sozinho e em silêncio. Mas havia um pedófilo ameaçando a cidade. Três crianças já haviam desaparecido. Um dia, percebi que um estranho te seguia. Quando você se afastou das outras crianças, ele te atacou. E eu a ele. Defendi como uma fera a minha menininha daquele monstro. Rolamos pela rua. A briga foi feia e uma multidão nos rodeou assim que soube que era com o pedófilo. Mas quando nos separaram, eu o acusava e ele a mim. E Barrabás ganhou. A dúvida acabou quando um dentre a multidão apontou o dedo. Era Cairo e apontava o dedo para mim. Foi o gatilho para que o povo enlouquecido me linchasse ali mesmo.

Mas não é esse o trauma a que me refiro, Andréa. Você sabe que é aquele que você esconde no íntimo, que sente vergonha ao lembrar, que te faz chorar quando está só. É o motivo de você ter brigado com a sua mãe e ela ter tentado te matar. O trauma a que me refiro é você dormir desde os 12 anos de idade com Cairo, o homem que acredita ser seu pai. De ter dois filhos com o pai- marido enquanto a sua mãe definha em um hospício. Cairo não se contentou em me matar, ele descontou em você todo o ódio que tinha por mim e por sua mãe. E, desta vez, eu deixei minha menininha no escuro com o bicho-papão.

Filha, me perdoe por não te defender quando mais precisou de mim. Eu morreria mil vezes de novo por você, se pudesse. Mas não pude. O que posso fazer é te dizer que todo problema tem solução, mesmo que tardia. Só depende de você. Não agüente mais obedecer quem sempre te enganou e se aproveitou de você. Saiba que eu estou torcendo por você e aguardando o dia em que finalmente poderemos nos abraçar como pai e filha.

Com amor, mais profundo que a morte, um beijo de teu pai,

Jorge.
"

Ele terminou de ler a carta em voz alta, colocou-a sobre a mesa e ficou em silêncio. Ela, de costas, olhava o tempo frio pela janela. Os pensamentos iam longe. Demorou, mas disse:

- A carta ficou boa, vai cumprir o seu objetivo.

- Qual? – perguntou o rapaz vestido de branco.

- Vingança. – respondeu – De um jeito que pode e, se depender do meu santo protetor, vai acontecer.

- Existe alguma verdade na carta? O tal Jorge existiu mesmo? Ele era o pai de Andréa?

- Isso é o que menos importa agora. O importante é você cumprir a sua parte no acordo. Lembra o que fazer?

- Acho que sim... Tenho de entregar a carta para a moça, e somente para ela, quando não estiver acompanhada... Digo que sou seguidor de um vidente famoso já falecido e que psicografou a carta para ela cinco anos atrás...

- Correto. E não se esqueça de dizer que você é de Minas Gerais e que não foi a única carta que o vidente escreveu, mas é a última que você está entregando. Se você cumprir esta pequena tarefa terá a sua recompensa te esperando na minha cama, quantas noites você quiser ou agüentar. Eu prometo fazer coisas que você nunca sonhou existirem.

- Deixa comigo, Alessandra. Amanhã eu começo a cobrar o meu pagamento. Vou até o endereço que me passou, ainda cedo, antes do meu turno aqui, e faço o combinado.

Alessandra foi até a mesa e escreveu o nome da filha no envelope. Andréa Ferreira dos Santos. Em seguida, lacrou o envelope com a carta dentro e entregou nas mãos do auxiliar de enfermeiro. Deu um beijo sensual no futuro amante e retornou até a janela. Enquanto ouvia o barulho da porta sendo trancada por fora, a sua mente insana mostrava como tudo aconteceria.

Sumário
Parte I - A CARTA
Parte II - O PAI
Parte III - A MÃE
Parte IV - O TRAUMA
Parte V - FINAL
Parte VI - EPÍLOGO

Coisas Frágeis, de Neil Gaiman

Alguns escritores são bons em desafios. Neil Gaiman é um destes. Quando alguém o convida a escrever sobre determinado personagem ou história, mesmo que seja de outro escritor, ele não só o faz, mas o faz muito bem. No livro Coisas Frágeis (Conrad, 2008), Gaiman mostra toda a sua criatividade usada em nove contos baseados nos mais variados livros ou filmes de outros.

Um Estudo em Esmeralda” mostra uma nova visão sobre o detetive Sherlock Holmes. Tão nova que o conto é o que mais surpreende, e tenha certeza, vai te enganar direitinho. Na Londres vitoriana, as piadas com propagandas envolvendo personagens de outras histórias de terror são uma diversão à parte da trama. Quem conhecer um pouco sobre Drácula, Frankenstein e doutor Jekyll poderá esbaldar-se no senso de humor de Gaiman. Este conto ganhou o Prêmio Hugo em 2004 como Melhor Conto. Pode-se afirmar que é o conto mais inteligente do livro, e o próprio autor admitiu que “os ingredientes da história que eu tinha imaginado se combinaram mais harmoniosamente do que eu esperava quando comecei. (Escrever é bem parecido com cozinhar. Algumas vezes o bolo não cresce, não importa o que você faça, e em outras fica mais gostoso do que você jamais poderia ter sonhado.)”.

Dedicada a Ray Bradbury (autor de Farhenheit 451), “A Vez de Outubro” ganhou o Prêmio Locus de Melhor Conto em 2003, e mostra como a tradição de se contar histórias de terror ao redor de uma fogueira à noite ainda pode ser bastante original e com um final pra lá de instigante. Gaiman demonstra todo o seu potencial narrativo, sintetizando muito em poucas palavras, como nesta frase: “Nascera com o nariz escorrendo e, uma década depois, continuava escorrendo.

Já em “Lembranças e Tesouros”, apesar de mostrar um submundo onde o dinheiro de criminosos manda e desmanda, traz como um pederasta acaba vítima de sua própria obsessão. As origens do principal capacho do riquíssimo senhor Alice, o faz-tudo Smith, é contada tentando explicar o porquê de ele ser tão mau. Tanto o senhor Alice quanto Smith reaparecem no último conto do livro, mas num tom bem menos sexual. A impressão, para quem não leu mais nada de Gaiman, é que estes personagens ou já apareceram em outros livros ou ainda aparecerão, devido suas personalidades tão bem elaboradas.

Os Fatos no Caso da Partida da Senhora Finch” é um conto elaborado a partir de um quadro de Frank Frazzetta que Gaiman viu, em que aparece uma mulher selvagem entre dois tigres. Apesar da criatividade e o tom de suspense do conto, pode-se dizer que é o mais fraco dos nove contos do livro.

Em “O Problema de Susan” é dada uma solução alternativa, adulta e repleta de erotismo para um dos principais mistérios das histórias infantis: O que realmente aconteceu com a Susan de As Crônicas de Nárnia? No último livro das Crônicas, A Última Batalha, ela é simplesmente descartada de entrar no Paraíso por gostar de “batons, collants e convites para festas”. Este conto de Gaiman não é para crianças, mas para os adultos que leram as Crônicas quando crianças e traz uma escritora idosa confessando a uma jovem repórter o que realmente aconteceu, sem pudores nem rancores.

Golias” é um texto excelente complementando o universo Matrix. Originalmente escrito para o site The Matrix Comics, continua disponível para leitura (em inglês) até hoje. É interessante a abordagem de Gaiman sobre falhas na Matrix não exploradas nem nos filmes nem nos desenhos. A dissimulação também é um ponto forte deste conto.

Como Conversar com Garotas em Festas” é uma excelente mistura de ficção científica, terror e conto juvenil. Afinal, quem já não passou pelo nervosismo de chegar em alguém em que está interessado numa festa? “São só garotas – disse Vic. – Não são seres de outro planeta.” Será? Este conto foi escrito em apenas uma tarde pelo autor.

O Pássado-do-Sol” traz a mistura interessante de sociedades secretas, culinária e mitologia egípcia. O que aconteceria se alguém comesse uma fênix, a ave mitológica que renasce das cinzas? Gaiman pensou nisso e deu uma resposta à pergunta. Ele escreveu este conto para presentear a sua filha Holly em seu 18º aniversário. Nada mais justo para uma filha que pedir um conto ao paizão escritor. Ela inclusive aparece na história como uma personagem secundária.

Por fim, o maior dos nove contos, “O Monarca do Vale”, onde reaparecem as figuras do senhor Alice e seu capanga Smith. Na Escócia, eles contratam o turista Shadow para assumir o papel numa versão moderna da lenda de Beowulf. Só que nem tudo sai conforme o planejado, e a mudança no final da lenda acaba não agradando à todos.

Para quem ainda não leu nada de Neil Gaiman, o livro de contos é uma excelente porta de entrada na imaginação deste criativo escritor de ficção e fantasia contemporânea. E por que Coisas Frágeis? O escritor explica:
A peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, e não falhar quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar. Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis...
leitura: Agosto de 2008
obra: Coisas Frágeis (Fragile Things), de Neil Gaiman
tradução: Micheli de Aguiar Vartuni
edição: 1ª, Conrad Editora do Brasil Ltda (2008), 208 pgs
preço: Compare os preços no BuscaPé
Excelente

Perseguição

- Querida, não vire agora mas tem alguém nos observando.

- É mesmo? Quem?

- Atrás de você. Olhe disfarçadamente por cima do seu ombro esquerdo.

- Ah, estou vendo. Você conhece?

- Não faço idéia de quem seja. Mas fique tranqüila, mesmo se for alguém mau intencionado, não vai ser idiota pra tentar algo em um local público e cheio de pessoas.

- Estou com medo, amor.

- Eu estou aqui contigo, relaxa.

- E se for um parente de alguma ex-namorada sua? Quem vai precisar de proteção é você.

- Esquece isso, meu bem. Até porque nunca fui de namorar ninguém com parentes esquisitos. Pelo menos, não que eu saiba. E tem outra, eu tenho uma boa relação de amizade com todas as minhas ex.

- Eu sei disso muito bem.

- Querida, não vamos brigar novamente por isso. Você sabe que eu só amo você, minha pimentinha.

- Tá bom. Mas o que fazemos a respeito do observador?

- Vamos embora. A situação já está ficando chata.

- Vamos. Me dê as chaves do carro.

- Por quê?

- Porque você bebeu dois copos de chope, oras. Vai que é algum fiscal de trânsito de olho só pra te pegar no flagra assim que a gente sair do estacionamento?

- É, você está certa. Melhor não arriscar. Toma aqui.

...

- Agora é só ir para casa. Que coisa estranha, não?

- Não cante vitória antes do tempo, meu bem. Olhe pelo retrovisor.

- Puxa vida, esse cara não desiste? Isso me deixou com mais medo. Por que estamos sendo seguidos?

- Não sei. Vamos tentar despistá-lo.

- Como? Eu não vou fazer nada perigoso.

- Tive uma idéia. Antes de ir para casa, passe pela Delegacia.

- Tá bom.

...

- Encoste ali, perto do policial... Boa noite, senhor policial. O senhor poderia nos passar o ramal da viatura que faz ronda no bairro Andracel Center? Ok, a gente espera... Viu, querida? Assim fazemos duas coisas ao mesmo tempo: desestimulamos qualquer um que esteja nos seguindo e ficamos tranqüilos em casa sabendo que podemos entrar em contato diretamente com os policiais que estiverem mais perto.

- Por isso a gente se casou, amor: você sabe fazer escolhas inteligentes.

- Engraçadinha... Ah, muito obrigado, policial, e tenha uma boa noite.

...

- Até que enfim, lar doce lar. Eu estou exausto. Definitivamente, os homens não foram feitos para ver vitrines com as esposas. Não somos tão fortes psicologicamente.

- Pois eu sei exatamente como te deixar bem relaxado. Vou te dar um banho agora.

- Relaxado não é bem como eu fico contigo no chuveiro, sua safadinha.

- Seu bobo. Você vem ou não vem?

- Ô, demorou.

- Amor, me ajuda a abrir o zíper do vestido.

- Claro, vem aqui.

- Espera um pouco, meu bem, olha quem está ali nos olhando de novo...

- Ah, não! Isso já é brincadeira! Perdi a paciência com esse cara. Ei, você aí, que está lendo essas linhas... É, você mesmo. Não tem mais nada pra fazer não? Vai assistir televisão ou levar o cachorro pra passear. Será que eu não posso ter um momento de intimidade com a minha esposa sem que você fique vendo tudo?

- Tem gente que não se toca mesmo, né, amor? Acho melhor a gente terminar a história aqui pra esse intrometido nos deixar em paz...

Oficina de Escritores, de Stephen Kosh

"O gato deitou no tapete" não é o começo de uma história, mas "o gato deitou no tapete do cachorro", sim. - John Le Carré

Quem passar pelo livro Oficina de Escritores – seja na prateleira de uma livraria ou na página de um website – talvez pense que é apenas mais um livro feito pra vender aos escritores iniciantes. E estará certo! Mas o que diferencia Oficina de Escritores dos outros? O detalhe que mais salta aos olhos é ser o único até agora a trazer soluções práticas aos principais problemas enfrentados pelos escritores apontadas por escritores famosos. Stephen Kosh reuniu muitas entrevistas de grandes escritores, que falam sobre a profissão, os desafios e as soluções utilizadas quando escrevem. Ao ler o livro, provavelmente o pensamento “isso já aconteceu comigo” passará algumas vezes pela sua cabeça. Claro, as dificuldades de escrita que você enfrenta não são exclusividade sua. Ainda bem, pois assim poderá receber os conselhos de quem as enfrentou antes e se saiu bem.

Stephen Kosh foi professor de graduação e pós-graduação em escrita literária por mais de 20 anos nos Estados Unidos e juntou neste livro toda a experiência adquirida para atingir os que não tiveram o privilégio de serem seus alunos, como você e eu. Pelo menos não diretamente, pois o leitor se sente como numa sala de aula, sentado ao lado de escritores como Stephen King, Hemingway, Virgínia Woolf, Gabriel García Marquez, Jane Austen, entre outros, contando as suas histórias. “A maioria dos escritores adora falar, e uma das coisas de que eles mais gostam é falar sobre escrever.” (Introdução, XIII)

Algumas opiniões de Kosh podem chocar aqueles que procurarem uma mão sendo passada na cabeça. “Primeiro, tente se tornar outra coisa, qualquer outra coisa... Você só deve se tornar escritor se não tiver escolha. Escrever tem de ser uma obsessão – é apenas para os que dizem: ‘Não vou fazer outra coisa. ’” (pg. 44) É o que diz Lorrie Moore e muitos outros quando falam da vida solitária e incompreendida do escritor. A solidão é ferramenta essencial de trabalho do escritor, mas pode dar frutos amargos nas relações sociais e familiares. Você está disposto a passar por isso?

Ou então a idéia de escrever freneticamente mesmo antes da história estar completamente estruturada, sem olhar detalhes, sintaxe ou gramática, para na medida em que for escrevendo, as novas idéias fluirem daqui e dali. É a famosa Primeira Versão que, como diz Kosh, obrigará você a terminar o seu trabalho colocando-o todo no papel. “Quando tiver terminado o primeiro esboço, saberei do que trata o livro. Mas não antes” diz Isabel Allende. (pg. 6) Paul Johnson confirma: “Um mau romance é melhor que um romance não escrito, pois o mau romance pode ser melhorado; já o romance não escrito é derrota sem batalha.” (pg. 58)

O escritor deve carregar sempre um caderno de anotações para não perder nenhuma idéia, frase, pensamento, personagem etc. quando estes surgirem, às vezes num flash, na sua frente. Mas é preciso saber o limite em que as anotações ajudam ou atrapalham. Deve-se também reservar tempo para a escrita e leitura diárias. Aliás, a leitura é requisito fundamental para todo escritor, mesmo que este esqueça a maior parte do conteúdo que ler, será material estocado no interior de seu cérebro esperando o momento certo para emergir. “Leia para fixar e aprender; leia também para esquecer. A mente pré-consciente é um excelente editor.” “Faça ainda uma dieta regular de poesia.” (pg. 55)

Outras questões importantes abordadas no livro são: O que desenvolver primeiro, a história ou a personagem central? A estrutura ou o enredo? Como descobrir qual foco narrativo é o melhor? Como fazer a sua voz soar bem? Ou como achar o seu próprio estilo sem imitar o de seus escritores favoritos? Qual a relação entre a autobiografia e a ficção?

Por último, mas não menos importante, Kosh explica o que e como revisar em um texto a cada versão. Apesar de poucos escritores talentosos optarem pela versão única e mais lenta, o melhor para os iniciantes é escrever a primeira versão rapidamente, e aplicar algumas regras nas seguintes. Podem ser poucas ou inúmeras versões e revisões, dependendo de cada escritor. Mas para cada uma há fórmulas específicas, como uma das da segunda versão que é:

2ª versão = 1ª versão – 10 por cento


Além do seu próprio trabalho há também a ajuda dos leitores de seus manuscritos. Não devem ser pessoas que você sabe que elogiam qualquer coisa que você escreveu, mas as que não têm receio de olhar nos seus olhos e dizer que o texto é uma porcaria, porque talvez ele seja mesmo.
A crítica é uma atividade intelectual – e um ramo da literatura – que nada deve a você nem ao seu projeto. É uma forma de discurso, um meio de avaliar e entender a obra literária e artística, bem como um modo de refletir sobre o que foi escrito. É absolutamente livre para fazer tudo isso sem a menor consideração com o seu bem-estar. Nada a obriga a dizer coisas boas e úteis sobre você ou sua obra. Não fez nenhum voto de não magoar ninguém. Nada – não ser a honestidade intelectual e o simples decoro – a impede de ser, com a consciência limpa, implacável e resolutamente destruidora.” (pg. 250)
Ao final, aparece uma lista com os melhores livros sobre técnicas de escrita usados pelo autor nas suas aulas, que vão desde A Poética de Aristóteles até os escritos para melhorar a auto-estima do escritor, como O Zen na Arte de Escrever de Ray Bradbury.

Se você pensar que nesta breve resenha esgotaram-se as dicas do livro, acredite, o espaço não possibilitou demonstrar nem a décima parte do que ele traz. Se você tem a pretensão de ser um bom escritor, não perca tempo inventando a roda novamente, torne o seu caminho mais suave com as orientações dos grandes mestres da literatura mundial que sabem realmente o que é escrever.

leitura: Julho de 2008
obra: Oficina de Escritores (The Modern Library Writer´s Workshop), de Stephen Kosh
tradução: Marcelo Dias Almada e Silvana Vieira
edição: 1ª, WMF Martins Fontes (2008), 297 pgs
preço: Compare os preços no BuscaPé
Excelente

Leia as resenhas dos livros abaixo, também sobre escrita literária:

Aforismo subconsciente

Hoje sonhei com uma lista de frases. A sensação durante o sonho foi a de que eram frases inteligentes, mas ao acordar me lembrei somente da última. Não sei se concordo com o sentido a là Nelson Rodrigues, mas como não achei no Google autoria para ela, então concluo que é minha. De certa forma.

"O vinho faz bem à minha consciência: me esqueço de tudo!"

(Jefferson Luiz Maleski)


Homem que é Homem, de Luis Fernando Verissimo


Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.

HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.

HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.

E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.

*

Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!


Situação 1


Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!


Situação 2


Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.

Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.


Situação 3


Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu...

— O seu...?

— Joelho.

— Ah...

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você...

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.

*

Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.

HQEH nunca vai a vernissage.

HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.

HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.

Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".

Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".

Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.

HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.