O uso do pronome mim


1. Entre mim e você

“Esse segredo deve ficar entre mim e você” – é esta a forma recomendada na língua-padrão: PRONOME OBLÍQUO DEPOIS DE PREPOSIÇÃO. Nas regiões em que o pronome usual é “tu”, o correto formal seria "entre mim e ti". Mas na linguagem popular do Brasil é comum e aceitável a frase “isso fica entre você e eu” (observe que "eu" agora vem em segundo lugar).

Essa rejeição ao "mim" só se dá com a preposição ENTRE. Com as demais preposições o uso desse pronome é natural: a mim, até mim, contra mim, de mim, em mim, para mim, por mim, sem mim etc.

[...]

3. Sequência Preposição + Pronome + Infinitivo

É muito difundida no Brasil a sintaxe “disse para mim ir, para mim trabalhar, para mim descansar”. Há uma explicação para isso, se se considerar que toda língua transplantada é mais arcaizante que a original: no período em que se falava o português arcaico – entre os séculos XII e XVI, justamente quando o Brasil foi descoberto – usava-se o pronome pessoal sujeito pelo pronome complemento e vice-versa. Exemplos apresentados na "Gramática Histórica" de Ismael de Lima Coutinho (1968:67): "o coração pode mais que mim" e "enforcariam ele".

No entanto, a gramática normativa determina o uso de eu, tu, ele, nós, vós, eles (os pronomes pessoais retos) como sujeitos, e os pronomes oblíquos como complementos do verbo (objeto direto ou indireto). Quando se acrescenta um verbo no infinitivo ao sintagma "para mim" – para mim ler v.g. –, aí mim deixa de ser objeto indireto para ser sujeito desse infinitivo. Ao transformar a oração reduzida em desenvolvida temos a prova do sujeito: “um livro para eu ler” é igual a “um livro para que eu leia”; "presente para eu embrulhar = para que eu embrulhe".

Em suma: mim não pode ser sujeito, mim é objeto indireto: de mim, para mim, sem mim. Portanto, seria errado dizer “comprei a passagem para mim viajar” porque mim teria aí o papel de sujeito [de viajar], e o emprego do pronome oblíquo com função subjetiva é considerado erro pela gramática tradicional. Compare as frases sem e com o verbo no infinitivo:
Entregou o bilhete para mim. – Entregou o bilhete para eu ler depois.
O abacaxi é para mim. – O abacaxi é para eu descascar agora.
Fez um pavê para mim. – Fez um pavê para eu experimentar.
O produtor mandou 100 páginas para mim. – Mandou 100 páginas para eu decorar até amanhã.
Um alerta: pode-se encontrar "para mim" diante de um infinitivo sem que esteja errado, como nestes enunciados:
Está sendo difícil para mim aceitar seu novo casamento.
É importante para mim fazer alongamento numa academia.
Foi mais interessante para mim ler sua redação do que para você escrevê-la.
Aparentemente estamos contrariando a sequência para + eu + infinitivo. Então vamos rever a regra: o pronome é "reto" quando sujeito do infinitivo. Acontece que nas frases acima o infinitivo não tem um sujeito, ele é o próprio sujeito da oração principal. Para confirmar, façamos a construção na ordem direta: Aceitar seu novo casamento está sendo difícil para mim. [complemento nominal de difícil] / Fazer alongamento numa academia é importante para mim. / Ler sua redação foi mais interessante para mim do que [foi] para você escrevê-la.

Por Maria Tereza de Queiroz Piacentini, Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades' - Boletim Não Tropece na Língua nº48 de 2007 - www.linguabrasil.com.br

Ponto, de Estrela Ruiz Leminski

O mundo é feito de pontos. São muitos se forem pontos de vista. Poucos se forem pontos estratégicos. Muito úmidos se forem pontos de chuva. O mais gostoso é ponto de encontro, mas às vezes desencontra. Ou pontos de luz, um homem e uma mulher nus. Todos são pontos. O caminho entre dois uma reta. Uma linha. Um caminho que caminha sozinho. Fim da linha. Ou do fio. Fio da meada é na conversa. Conversas são feitas de pontos de enfoque. O palco também. Amores são pontos em comum. Os pontos são um.


(para Arnaldo Antunes)



Retirado do livro "Cupido: Cuspido, Escarrado".

O que leva você a comprar um livro?


O Alessandro Martins lançou a pergunta acima em mais uma de suas blogagens coletivas, com os seguintes questionamentos:
O que leva você a comprar um livro?

O fato de ter sido indicado por um amigo? A qualidade da capa? Uma edição bem feita? A tradução? O fato de já conhecer outros trabalhos do autor? Ou o simples prazer de ir a uma livraria e adquirir um volume? Por outro lado, você consegue ler todos os livros que adquire?

Numa época em que se pode baixar livros grátis da internet, em que a cultura da troca de livros entre as pessoas é tão comum e em que se pode facilmente emprestar um livro em uma biblioteca, o que lhe impele a tirar alguns tostões do bolso e pagar por um livro?
Como tanto a leitura como a aquisição de livros muito me interessa, resolvi participar da brincadeira. Vou tentar contribuir com respostas baseadas na minha experiência como voraz leitor e comprador compulsivo de livros. O que me faz comprar um livro? Acho que daria para resumir em 3 fatores:

1. Preço

Sou viciado na boa e velha pechincha. Tenho uma lista dos livros que me interessam e me policio para esperar a melhor oportunidade de comprá-los. A paciência geralmente é recompensada quando recebo algum cupom de desconto ou email de promoção relâmpago. Ou então, durante esta espera, o livro pode aparecer para troca. Eu sempre acabo comprando mais livros além dos que quero, geralmente algum que esteja barato e dê para vender por um bom preço depois de lê-los. O preço baixo é hoje o maior culpado que me leva gastar boa parte dos meus ganhos. O interessante é que no fórum Meia Palavra existe um censo de livros lidos em 2011. Por pura curiosidade, resolvi criar lá um censo de livros comprados em 2011. Além de saber o quanto você está gastando por mês em livros, é interessante notar a divergência nas listas de comprar versus leituras, o que indica que nem sempre o que compramos é o que lemos. Mas não significa que os livros comprados não serão lidos no futuro, depois de fermentarem em nossas estantes por um tempo.

O preço também é o motivo porque aprecio as coleções de livros. Além da uniformidade de capas e cores que ficam visivelmente muito bonitas na estante, há um bom desconto caso você compre a coleção toda de uma só vez, direto da editora. Geralmente os principais títulos da coleção ficam acima dos R$ 25,00 cada um enquanto na coleção caem para menos de R$ 10,00. Foi o que aconteceu na Grandes Escritores da Atualidade (Planeta DeAgostini, 2003), Coleção Biblioteca Folha (Folha de São Paulo, 2003), Grandes Escritores Brasileiros (Folha de São Paulo, 2009) e, mais recentemente, na Clássicos Abril Coleções (Abril, 2010). Nesta última, acabei levando a coleção de graça e ganhei o valor dela quase duas vezes como lucro. Explico: o departamento da editora fez confusão e me enviava os mesmos títulos mais de uma vez. Quando entrei em contato avisando que os exemplares estavam chegando repetidos, ela me disse que eu poderia ficar com eles, pois não compensava para a editora pagar o frete de volta.

2. Raridades ou autores/temas específicos

O duro de se ler muito é que você começa a se interessar por livros que já encontram-se fora de catálogo. É nesta fase crítica que o leitor se transforma em um arqueólogo virtual de livros. Sebos reais e virtuais passam a ser rotina em sua vida. Caçar um livro como se estivesse procurando um tesouro dá uma emoção a mais na procura. Já passei por algumas experiências interessantes neste sentido.

Certa vez, li um artigo sobre o escritor norte-americano Thomas Pynchon no qual citava um de seus livros esgotado no Brasil e com poucos exemplares usados custando o olho da cara. Pynchon não estava na minha lista de leituras, mas gravei o nome do livro na memória: O Leilão do Lote 49. A coincidência (ou sorte ou destino ou oportunismo?) apareceu quando estava querendo torrar um crédito no site Trocando Livros. Você enviando um livro seu pode solicitar qualquer outro. Simples assim. E dos livros que já troquei por lá, nenhum valia mais de 20 reais. Solicitei o livro, que chegou em excelente condições, e pelo jeito quem o disponibilizou não sabia que valia tanto. Li o danado com a intenção de ficar com ele caso gostasse da história, o que não aconteceu. Por isso, depois coloquei-o à venda na Estante Virtual por 80 reais, e foi vendido na mesma semana. Hoje acho que ele custaria bem mais, é claro, se existisse algum exemplar à venda.

Me parece que é normal os vendedores, ou trocadores, não conhecerem o valor dos livros que possuem. Nem o valor literário nem o econômico. Já consegui muitas outras boas trocas ou compras por desconhecimento alheio (Masnavi, do Rumi, por R$ 8,00 quando valia R$ 150,00; O Oitavo Mago, do Pratchett, trocado por um livro qualquer quando valia R$ 100,00). E não admito me chamarem de aproveitador, pois não estou na internet para fazer caridade com desconhecidos, estou à procura de tesouros que vão me trazer prazer, seja na leitura ou no bolso.

Há também muitos livros não impressos no Brasil me atraindo atualmente. Por isso, virei comprador fiel de sites portugueses, especialmente o Wook e o ArmazémL. Só para citar alguns exemplos, somente lá fora  encontramos em português o vampírico Deixa-me Entrar que deu origem "aos" filmes, ou o Cartas a Lucilio, com todas as 124 cartas escritas por Sêneca. Mesmo saindo salgado pagar livros + frete em euros, a qualidade das obras vale o custo-benefício. É claro que se você tiver algum amigo com viagem programada para Portugal ou que esteja morando por lá facilita as coisas.

Além das raridades, me interesso em determinados livros ou autores. Livros sobre técnicas e escrita criativa, manuais de roteiro, filosofia grega ou estóica etc. De alguns autores quero ler/adquirir a obra completa, como Terry Pratchett, Umberto Eco, Dan Brown, José Saramago, Luis Fernando Verissimo, Neil Gaiman, Shakespeare, Schopenhauer, Nietzsche etc. Também gosto de novidades nas sub-áreas do romance histórico, policial, filosófico etc. Bem, acho que meus gostos são meio abrangentes demais, então é mais fácil falar sobre o que eu não compro: auto-ajuda, best-sellers da moda, chicklit. Se o frissom sobre um livro destas categorias continuar após 3 anos do lançamento, ou pego ele emprestado ou baixo o ebook.

3. Novas traduções ou experimentações

As novas traduções também são um martírio para o meu cofrinho. Costumo renovar as traduções que já tenho quando alguma nova aparece. É claro que antes de me desfazer da antiga eu leio as duas e as comparo. Tenho uma predileção especial por edições bilíngues, como as do Dom Quixote (Editora 34, 2008) ou Beowulf (Tessitura, 2008), que apesar de caras, valeram a pena.

E é claro que não me mantenho na mesma panelinha de leituras sempre. Variar é descobrir muita coisa boa, é ampliar os seus horizontes. E aí que entram as pesquisas e indicações. Geralmente vão sendo adicionados na minha listinha de compras depois que eu leio uma resenha de alguém que percebo entender do assunto. Infelizmente não tenho amigos leitores. Por isso, sou muito de indicações coletadas em sites, até mesmo aquelas dentro de biografias ou dos próprios livros. E se um tema, resenha ou sinopse me atraírem, pago pra ver. Tá certo que já me arrependi algumas vezes, mas em compensação me maravilhei outras tantas.


E você, leitor, o que te faz comprar um livro?

Uma piada portuguesa que não é piada

Recebi o texto abaixo por email e achei interessante como algo normal dito lá em Portugal poderia soar vulgar por aqui. Conta-se a estória de uma senhora que vai à uma consulta. Vale a pena conferir a Tecla SAP depois de ler o texto.


Era um dia normal como os outros, então acordei e fui direto à casa-de-banho. Eu, uma puta, banhei-me, vesti minha cueca combinando com a camisola e me dirigi ao estomatologista. Aquela dor de dente era mais pavorosa que qualquer pica no rabo que viesse a tomar. No autocarro, vi um invisual vendendo lindos cacetes. Comprei alguns cacetes para a putalhada da vizinhança que sempre pedia dinheiro a mim.

Chegando no doutor, ví uma bicha enorme e tive que esperar um bom tempo antes de ser atendida. Nesse meio tempo, percebi várias coisas, por exemplo: um paneleiro bichanava com uma rapariga sobre os mais variados assuntos. A rapariga falou: "Eu estava de Chico e não tinha penso higiênico, ó pá!" e o puto logo retrucou: "E eu, que engoli aquele garoto claro dentro do autocarro cá em cima na autopista!".

Fui chamada e o estomologista me pediu para abrir a boca. Rapidamente disse que eu precisava de uma pica bem dentro da boca para retirar o dente que doía. "Abre a boca para eu colocar a pica, ó pá!", disse ele. E eu abri. Antes na boca do que no Rabo! Ora pois!

Mais tarde, encontrei-me com meu patrício e fomos comer ao almoço. Logo o empregado de mesa perguntou se queríamos uma punheta e depois nos fartamos com uma punheta bem acabada. E fim de história!

TECLA SAP ________________________________

Autocarro = ônibus
Autopista = avenida
Bicha = fila
Bichanar = sussurrar
Casa-de-banho = banheiro
Cacete = pãozinho francês
Camisola = camiseta
Chico = menstruação
Cueca = calcinha
Estomatologista = dentista
Garoto claro, garoto escuro = pingado (café com leite), claro com mais leite, escuro com mais café
Invisual = cego
Paneleiro = homem gay
Penso higiênico = absorvente
Pica = injeção
Punheta = porção de bacalhau cru e desfiado
Puto = adolescente, garoto
Puta = adolescente, garota
Putalhada = grupo de crianças
Rabo = bunda
Rapariga, gaja = moça, garota