A heresia da separatividade

Acordou após morrer com a lembrança do acidente fresca na memória, mas sem dor. Não havia sangue, nem choro, nem caos. Só a sensação contagiante e interminável de quietude. O som da eternidade acalma. Olhou ao redor e o mundo permanecia: árvores mais verdes do que nunca, cheiro de terra como quando acaba de chover, a vastidão do céu revelando que o dia era belo. Os raios quentes do sol diziam oi quando lhe tocavam. Ou melhor, quando lhe atravessavam. Meu Deus, estou transparente, pensou. Olhou para si e não viu pés, nem mãos, braços, busto ou outras partes do corpo que tão bem conhecia. Tudo ao seu redor permanecia igual, exceto ela. Contudo, não sentiu medo, pois a paz que emanava de si a confortava grandemente. Sabia, de algum jeito, que a experiência havia valido a pena. Agora era recomeçar do zero, só, como sempre vivera. Não necessariamente, ouviu muitas vozes soarem por todos os lados, acima, dentro dela. Hoje você descobrirá que nunca existiu sozinha, mas apenas separada temporariamente em bilhões de partes chamadas humanos.

Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores de 21.10.2010, com o tema a música Imagine, de John Lennon.

As 120 grandes obras da Literatura Brasileira, por Alfredo Bosi


O Museu da Língua Portuguesa pediu ao professor e acadêmico Alfredo Bosi uma lista de 120 grandes obras da Literatura Brasileira. Se você deseja conhecer melhor o Brasil, se deseja construir sua cultura literária, se deseja buscar emoções duradouras, comece logo a ler estes textos! Veja a lista abaixo e depois me conte quantos dos 120 você já leu. Os que EU já li estão em negrito. (vergonha!)

1.1 Colônia – séculos 16, 17 e 18
1. Pero Vaz de Caminha - Carta a Dom Manuel (1500)
2. José de Anchieta - Autos e Poesias (1550)
3. Padre Manuel da Nóbrega - Cartas (1553)
4. Gabriel Soares de Sousa - Tratado descritivo do Brasil (1587)
5. Bento Teixeira - Prosopopéia (1601)
6. Frei Vicente do Salvador - História do Brasil (1627)
7. Padre Antônio Vieira - Sermões (1638-1695)
8. Gregório de Matos - Poesias – (ca 1680)
9. Manuel Botelho de Oliveira - Música do Parnaso (1705)
10.Antonil (pseud. de João Antônio Andreoni) - Cultura e opulência do Brasil (1710)
11.Nuno Marques Pereira - Compêndio narrativo do Peregrino da América (1718)
12.Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) e Academia Brasílica dos Renascidos (1759)
13.Cláudio Manuel da Costa - Obras poéticas (1768)
14.Basílio da Gama - O Uraguai (1769)
15.Fr. José de Santa Rita Durão - O Caramuru (1781)
16.Tomás Antônio Gonzaga - Cartas chilenas (1789?)
17.Tomás Antônio Gonzaga - Marília de Dirceu (l792)
18.Domingos Caldas Barbosa - Viola de Lereno (1798)
19.Silva Alvarenga - Glaura (1799)
1.2 Século 19 – Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo
20.Gonçalves de Magalhães - Suspiros poéticos e saudades (1836)
21.Martins Pena - O juiz de paz na roça (1838-1842)
22.Joaquim Manuel de Macedo - A moreninha (1844)
23.Gonçalves Dias – Primeiros Cantos (1846)
24.Gonçalves Dias – Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848)
25.João Francisco Lisboa - Jornal de Timon (1852-1854)
26.Alvares de Azevedo - Obras (1853-1855)
27.Francisco Adolfo de Varnhagen - História geral do Brasil (1854-1857)
28.Junqueira Freire - Inspirações do claustro (1855)
29.Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um sargento de milícias (1855)
30.José de Alencar - O Guarani (1857)
31.José de Alencar - O demônio familiar (1858)
32.Luís Gama - Primeiras trovas burlescas (1859)
33.Casimiro de Abreu - Primaveras (1859)
34.Tavares Bastos - Cartas do Solitário (1862)
35.Fagundes Varela - Cântico do Calvário (1865)
36.José de Alencar - Iracema (1865)
37.Qorpo-Santo - Comédias (1866)
38.Sousândrade - O Guesa (1867-1884)
39.Castro Alves - Vozes d’África, O navio negreiro (1868)
40.Castro Alves - Espumas flutuantes (l870)
41.Visconde de Taunay – Inocência (1872)
42.Machado de Assis - A mão e a luva (1874)
43.José de Alencar - Senhora (1875)
44.Bernardo Guimarães - A escrava Isaura (1875)
45.Machado de Assis - Iaiá Garcia (1878)
46. Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)
47.Machado de Assis - Papéis avulsos (1882)
48.Joaquim Nabuco - O Abolicionismo (1883)
49.Raimundo Correia - Sinfonias (1883)
50.Raul Pompéia - O Ateneu (1888)
51.Olavo Bilac - Poesias (1888)
52.Sílvio Romero - História da Literatura Brasileira (1888)
53.Aluísio Azevedo - O cortiço (1890)
54.Machado de Assis - Quincas Borba (1891)
55.Cruz e Sousa - Broquéis (1893)
56.Rui Barbosa - Cartas de Inglaterra (1896)
57. Artur Azevedo - A Capital Federal (1897)
58.Joaquim Nabuco - Minha formação (1898)
59.Alphonsus de Guimaraens - Dona Mistica (1899)
60. Machado de Assis - Dom Casmurro (1899)
1.3 Século 20
61.Euclides da Cunha - Os Sertões (1902)
62.Rui Barbosa - Réplica às defesas de redação do Projeto do Código Civil (1902)
63.Graça Aranha - Canaã (1902)
64.Cruz e Sousa - Últimos sonetos (1905)
65.Capistrano de Abreu - Capítulos de história colonial (1907)
66.Vicente de Carvalho - Poemas e canções (1908)
67.Augusto dos Anjos - Eu (1912)
68. Lima Barreto - Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
69.José Veríssimo - História da literatura brasileira (1916)
70.Monteiro Lobato - Urupês (1918)
71.Valdomiro Silveira - Os caboclos (1920)
1.4 (Modernismo)
72.Mário de Andrade - Paulicéia desvairada (1922)
74.Manuel Bandeira - Ritmo dissoluto (1924)
75.Oswald de Andrade - Memórias sentimentais de João Miramar (1924)
76.Oswald de Andrade - Pau-Brasil (1925)
77.Guilherme de Almeida - Raça (1925)
73.Simões Lopes Neto - Contos gauchescos (1926)
78.Alcântara Machado - Brás, Bexiga e Barra Funda (1927)
79.Mário de Andrade - Macunaíma (1928)
80.Cassiano Ricardo - Martim-Cererê (1928)
81.Manuel Bandeira - Libertinagem (1930)
82.Carlos Drummond de Andrade - Alguma poesia (1930)
1.5 (Depois do modernismo)
83.Raquel de Queirós - O Quinze (1930)
84.José Lins do Rego - Menino de engenho (1932)
85.Gilberto Freyre - Casa grande e senzala (1933)
86.Graciliano Ramos - São Bernardo (1934)
87.Jorge Amado - Jubiabá (1935)
88.Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil (1935)
89.Érico Veríssimo - Caminhos cruzados (1935)
90.Rubem Braga - O conde e o passarinho (1936)
91.Dionélio Machado - Os ratos (1936)
92. Graciliano Ramos - Angústia (1936)
93. Otávio de Faria - Tragédia burguesa, I, Mundos mortos (1937)
94.Graciliano Ramos - Vidas secas (1938)
94.Marques Rebelo - A Estrela sobe (1938)
95.Murilo Mendes - A poesia em pânico (1938)
96.Jorge de Lima - A túnica inconsútil (1938)
97.Cecília Meireles - Viagem (1939)
99.José Lins do Rego - Fogo morto (1943)
100.Carlos Drummond de Andrade - A rosa do povo (1945)
101.Guimarães Rosa - Sagarana (1946)
102.Vinicius de Moraes - Poemas, sonetos e baladas (l946)
103.Henriqueta Lisboa - Flor da morte (1949)
104.Érico Veríssimo - O tempo e o vento(1949-1961)
105.João Cabral de Melo Neto - O cão sem plumas (1950)
106.Carlos Drummond de Andrade - Claro enigma (1951)
107.Jorge de Lima - Invenção de Orfeu (1952)
108.Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência (1953)
109.Graciliano Ramos - Memórias do cárcere (1953)
110.João Cabral de Melo Neto - Morte e vida severina (1956)
111.Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas (1956)
112.Guimarães Rosa - Corpo de baile (1956)
113.Clarice Lispector - Laços de família (1960)
114.Guimarães Rosa - Primeiras estórias (1962)
115.João Antônio - Malagueta, Perus e Bacanaço (1963)
116.Clarice Lispector – A paixão segundo G.H. (1964)
117.Osman Lins - Nove novena(1966)
118.Antônio Callado - Quarup (1967)
119.Haroldo de Campos - Xadrez de estrelas (1974)
120.José Paulo Paes - Um por todos (1986)
Fonte: Museu da Língua Portuguesa

Antes só...


Desespero. Depressão. Solidão. Vazio. Sem ela não existem motivos para que eu continue vivo. Tudo perde a cor tão desgraçado que sou. Mas alguém invisível, dentro de mim, persiste em me impedir de pular.

Anexo ou em anexo?


1) A expressão invariável em anexo, embora corrente, não tem a aprovação de muitos e, para se ter a idéia do repúdio de alguns gramáticos, não é mencionada por Silveira Bueno, nem por Carlos Góis, nem por Aires da Mata Machado Filho, o qual se reporta às lições dos primeiros.

2) Domingos Paschoal cegalla a reputa "expressão condenada", justificando que, com exceção de em branco, são de discutível vernaculidade as locuções adjetivas constituídas da preposição em + adjetivo (cópia em anexo, platéia em suspenso, cuidados em vão).

3) Observa tal gramático que em português "a locução adjetiva se forma com uma preposição (geralmente de ou sem), seguida de substantivo: amor de mãe; lenço de seda; voracidade de lobo; paixões sem freio; homem sem escrúpulos, etc."

4) E acrescenta: "o mínimo que se pode dizer é que a locução adjetiva em aberto e as outras aqui citadas, embora de uso freqüente, não têm tradição em nossa língua. A única realmente imprescindível é em branco".

5) De igual modo, José de Nicola e Ernani Terra se postam de modo contrário ao emprego da expressão em anexo, com a seguinte fundamentação: "Embora sejam comuns, na linguagem comercial e jurídica, as expressões em anexo e em apenso devem ser evitadas, pois, como dissemos, tais palavras são adjetivos e não advérbios. Observe que jamais alguém diria: As promissórias seguem em incluso. Por que então dizer em anexo, em apenso?"

6) Sem manifestar concordância ou discordância quanto a seu correto emprego. Regina Toledo Damião e Antonio Henriques apenas observam ser "corrente a expressão", "embora sem merecer a aprovação de muitos".

7) Arnaldo Niskier é expresso para aceitar a correção de uso da expressão em anexo, dando-a como invariável.

8) De Antonio Henriques e Maria Margarida de Andrade, de igual modo, provém ensinamento favorável: "Tornou-se usual a expressão em anexo, de valor adverbial, embora muitos a rejeitem, como o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, já o Manual de Redação da Folha de S. Paulo a acolhe".

9) Luiz Antônio Sacconi, por seu lado, é taxativo para aceitar a correção de uso de tal expressão, realçando que, em tal caso, a expressão há de permanecer invariável:

a) Segue em anexo uma folha;
b) Seguem em anexo as fotografias.

10) Após referir que anexo é, originariamente, um adjetivo, que se flexiona normalmente em gênero e número, concordando com o substantivo por ele modificado, assim justifica Luciano Correia da Silva a possibilidade de emprego da expressão em anexo: "No entanto, como todo adjetivo pode ser substantivado, anexo pode também significar ´aquilo que está ligado como acessório´ (cf. Aurélio) e, nesta acepção, indicar peças ou dados que formam um corpo especial, que se ajunta ou acrescenta à petição ou aos autos: anexo 1, anexo 2 etc. Portanto, neste sentido, é possível dizer que certa prova ou documento vem ou se acha em anexo, em uma, duas ou mais folhas... Em anexo, isto é, em parte que se junta ou se acrescenta, que se insere ou inclui. Exatidão ainda mais saliente se nota quando alguém junta todo um processado ou apenso aos autos principais. Por isso, é necessário prudência em algumas críticas ou censuras, que vão passando de pais para filhos, sem questionamento ou distinção...".

11) Na lição Antonio Henriques, em obra que escreveu sozinho, essa expressão "tem, valor adverbial consagrado pelo uso, embora alguns a repilam".

12) Para resumir, quer pelo extenso e prolongado uso - fator de extrema importância em tais casos - quer pela ausência de elementos mais sólidos para sua condenação, que pela própria aprovação de autores de relevo em nosso idioma, parece mais adequado aceitar seu normal emprego, com a observação de que se trata de locução invariável.

Fonte: Gramatigalhas

Dexter, 5ª temporada (2010)


5x04 Beauty and the Beast
Nunca minta para quem confia em você. Nunca confie em quem mente para você.

Papo de boteco: medo de amar


Quinta-feira. Fim de tarde. Dois amigos se encontram para o tão merecido chope da Happy Hour. O solteiro e o casado. Este fala sobre as gastanças da esposa, mostra a filha no novo papel de parede do celular e sobre o dinheiro que não dá para as contas. Aquele conta sobre a mulher que levou para a cama ainda no primeiro encontro que tiveram sábado passado, sobre a carga horária puxada na pós-graduação e sobre o dinheiro que não dá para as contas. Ambos conversam sobre a colocação de seus times no Brasileirão, sobre os planos para o próximo feriadão, sobre não votarem na Dilma mesmo não tendo opções melhores. A conversa é interrompida pelo celular do solteiro. Número desconhecido. O casado observa calado só um dos lados da conversa.

- Oi.

- Quem está falando?

- Foi ela quem te pediu para me ligar?

- Rosalva, certo? Bem, Rosalva, em primeiro lugar isso não é assunto seu. Eu não quero nunca mais falar com ela. Para mim, ela morreu. Ponto final. Por isso, peça para que ela não me procure mais, será melhor para nós dois continuarmos vivendo as nossas vidas e esquecer o que passou. E não me ligue mais, se você é amiga dela fale com ela e não comigo. Convença ela que eu sou um crápula, um cafajeste, um ordinário. Diga o que for preciso para que ela pare de me ligar. Acabou. Eu só volto a falar com ela depois que ela beber um vidro de veneno.

- Obrigado pelo aviso, mas tchau.

O casado, até então em silêncio, depois de ter-se adiantado no chope mais que o amigo, pede mais um e comenta:

- Cara, tenho dó dessas meninas que você pega. Depois de uma ligação dessas eu me matava no lugar dela.

- Vai ser mais fácil para ela me esquecer se me odiar.

- Essa não era aquela mulata que te vi dias atrás?

- Ela pediu para uma amiga ligar, já que eu não atendo mais as ligações dela depois da nossa última briga.

- Mas o que foi que aconteceu? O que ela fez?

- Nada.

- Como assim “nada”? E você fala tudo aquilo sem ela ter feito nada para você?

- É. Inclusive eu sou totalmente apaixonado por ela, por isso terminamos.

- Meu amigo, acho que já bebi de mais, não estou conseguindo acompanhar a sua lógica.

- É bem simples, deixe-me explicar: toda vez que percebo que estou gostando pra valer de uma garota, termino com ela. Faço isso antes dela terminar comigo e me magoar.

- Caralho!

- Caralho uma ova! Você já passou pela situação de gostar de uma mulher ao ponto de não imaginar a sua vida sem ela e a desgraçada te abandonar como se você fosse uma bijuteria que ela cansou de usar? Pois bem, eu já. Foi antes da gente se conhecer. Minha primeira namoradinha séria me sacaneou de tal forma, me magoou de um jeito tão dolorido, que jurei nunca mais passar por aquele sentimento novamente. Assim, desde então, termino antes que a moça me sacaneie. E como bônus, fico só com lembranças dos bons momentos que passei com ela. Dar um pé na bunda de alguém dói bem menos que levar um.

- Você é um sádico. Nunca pensou no sofrimento que estas garotas passam por causa dessa tua filosofia?

- Sim, mas nunca termino simplesmente por terminar. Sempre armo alguma estratégia que a leve a pensar que foi por algo errado que ela fez. Faço ela evoluir, pois no próximo relacionamento em que entrar, ela vai tomar cuidados adicionais em não repetir o pretenso erro. E também não vai ficar tão dependente assim de outra pessoa, pois ninguém deveria ficar. Tudo o que temos na vida é fugaz. Se você olhar, no fundo estou prestando um serviço, fazendo um favor pessoal a elas e aos futuros namorados delas.

- Sei, só você mesmo para pensar assim. Seu misógino! Mas, me conta, e se alguma delas realmente fizerem o que você falou e tomarem veneno? Como você se sentiria com isso?

-Ficaria normal. Não vou me abalar por causa das atitudes idiotas dos outros. Aliás, uma delas já chegou a fazer… por que você acha que sugeri justamente isso?

Desafio proposto no Duelo de Escritores de 11.10.2010, com o tema traição.

O último pensamento de Batista


Enquanto ela continuasse a dançar estaria tudo ferrado. Não que ela dançasse mal nem que o espetáculo fosse de todo ruim. O problema era que cabeças costumavam rolar quando Salomé maravilhava em suas apresentações.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2010


O prêmio Nobel de Literatura de 2010, divulgado nesta quinta-feira (7) às 8h (horário de Brasília), foi para o escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 74 anos.

De acordo com a Academia Sueca, a escolha seu deu por conta da "cartografia das estruturas do poder e afiadas imagens de resistência, rebelião e derrota do indivíduo" que aparecem na obra de Llosa.

Peter Englund, presidente do júri de literatura do Nobel, afirmou que Vargas Llosa se disse "muito comovido e entusiasmado" ao saber do prêmio. O escritor, que está em Nova York, onde é professor visitante na Universidade de Princeton, contou a Englund que "tinha levantado às cinco da manhã para dar uma aula" e que quando recebeu a notícia já "trabalhava intensamente".

Llosa receberá um prêmio no valor de 10 milhões de coroas suecas (1,5 milhão de dólares). A cerimônia de premiação está marcada para o dia 10 de dezembro.

Autor de romances marcados por questões políticas e por vezes autobiográficas da América Latina como "A cidade e os cachorros", "Pantaleão e as visitadoras", "A festa do bode" e "Travessuras da menina má", Llosa já havia vencido, entre outros, o Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura em língua espanhola, em 1994. O Brasil costuma ser tema de seus textos, sejam ensaios políticos ou romances, como "A guerra do fim do mundo", de 1981, inspirado na Guerra de Canudos.

Em declaração à rádio colombiana RCN nesta quinta, o escritor peruano afirmou que se surpreendeu com a escolha e disse que o prêmio é um reconhecimento à literatura latino-americana e em língua espanhola.

"Não pensava que estaria nem entre os candidatos", brincou o autor. "Por mim, vou seguir trabalhando com um sentimento de responsabilidade, como sempre fiz. Defendendo coisas que são fundamentais para o Peru, para a América Latina e o mundo. A liberdade e a democracia são o verdadeiro caminho do progresso, da verdadeira civilização, que acredito que seja o papel de um escritor defender", comentou Llosa à rádio.

Em mais de um século de existência do prêmio, Maio Vargas Llosa é apenas o sexto escritor latino-americano a receber um Nobel. Antes dele, foram premiados a escritora chilena Gabriela Mistral (1945), o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967), o também chileno Pablo Neruda (1971), o colombiano Gabriel García Márquez (1982) e o mexicano Octavio Paz (1990).

O autor estará no Brasil na próxima quinta-feira (14), participando do evento Fronteiras do Pensamento, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

Candidato à presidência em 1990

Nascido em Arequipa, em 28 de março de 1936, Jorge Mario Pedro Vargas Llosa se formou em Letras e Direito pela Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima. Antes de se tornar escritor, trabalhou como redator de notícias na extinta Rádio Central, funcionário de biblioteca e até revisor de nomes de túmulos de cemitério, segundo biografia em seu site oficial.

Em 1959, ganha uma bolsa de estudos e parte para uma temporada na Europa, onde se torna doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Madri, publica seu primeiro livro, a coletânea de contos "Os chefes" (1959), e escreve uma peça de teatro, "La huída del Inca".

Regressa em 1964 ao Peru e daí em diante volta a passar temporadas em diversos países, incluindo Cuba, Grécia, França, Inglaterra e Espanha - de onde recebe oficialmente a cidadania em 1993.

Conhecido por suas posições políticas consideradas de direita, Llosa se engajou no Movimento Liberdade peruano em 1987, que se opunha ao programa de estatização do então presidente Alan García Pérez. Informado sobre a vitória no Nobel de seu antigo desafeto, García - que voltou à Presidência do Peru em 2006 - afirmou que o prêmio é "uma honra e um grande dia para o Peru". "Vargas Llosa é um extraordinário criador da linguagem, um grande romancista, um grande dramaturgo que tem incursionado em todos os cantos da criação", completou.

Além dos políticos do Peru, o escritor costuma disparar críticas contra líderes latino-americanos como Fidel Castro, Hugo Chávez, Álvaro Uribe e ao próprio presidente Lula.

Em 1990, lançou-se candidato à presidência do Peru pelo partido Frente Democrática-Fredemo, mas foi derrotado por Alberto Fujimori. Sua experiência na campanha foi relatada no livro de memórias "Peixe na água", lançado em 1993.

Outros premiados

No ano passado, a escritora romena radicada na Alemanha Herta Müller, 56, foi a vencedora do Prêmio. Em 2008, foi a vez do francês Jean-Marie Gustave Le Clézio e em 2007, Doris Lessing, nascida na Pérsia, mas que escreve em inglês.
saiba mais

O prêmio é escolhido pelos membros da academia sueca e dá um prêmio de 10 milhões de coroas suecas, algo como R$ 3 milhões, entregue em dezembro. Durante o processo, os membros da academia enviam convites para centenas pessoas ligadas a literatura, como professores e escritores do mundo, para chegar aos candidatos. De uma lista inicial de 250 nomes, em cortes sucessivos, se chega a um segundo grupo, com 15 a 20 e, num terceiro, a cinco nomes. Os membros da academia leem as obras dos candidatos e discutem sobre quem deve ser o vencedor. Um pouco antes do anúncio, os membros da academia ligam para o vencedor.

Alfred Nobel, que fez fortuna ao inventar a dinamite, criou os prêmios para a paz, a literatura e várias ciências em seu testamento, em 1895. Os prêmios foram entregues pela primeira vez em 1901 e um prêmio adicional, para a economia, foi estabelecido em memória de Nobel, em 1968.

Fonte: G1

A volta ao mundo em 80 segundos

O teto era todo branco e refletia a minha imagem embaçada. O cheiro forte de anticépticos e flores eram de revoltar o estômago. Estou em um quarto totalmente desprovido de cores. No canto, um velho que combina com o ambiente, lê a Bíblia acomodado em uma poltrona.

É quando Jonas entra pela porta de repente e diz:

- Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e tenho boas notícias. A sua doença tem cura! Segundo ele você sofre de uma doença dos nervos, mas basta uma viagem para a Califórnia e você ficará curada! O sol, as praias, a vida jovem que pulula nas calçadas, tudo contribuirá para a sua melhora. Tenho certeza de que desta vez seremos felizes como nos filmes de Hollywood. Eu já comprei as passagens, embarcamos para lá depois de amanhã.

Olho para o velho que largou a leitura e agora me observa triste. Os olhos azuis por trás dos óculos de lentes grossas são de uma melancolia infinita. O silêncio daquele olhar me incomoda.

É quando Jonas entra pela porta de supetão e me diz:

- Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e tenho más notícias. A sua doença não tem cura! Segundo ele você sofre do coração e tem poucos dias de vida. Mas faremos aquela última viagem que você sempre sonhou para a Jamaica. Lá você vai poder satisfazer os seus últimos desejos, e eu estarei ao seu lado para torná-los realidade. Você se sentirá como uma rainha e eu serei o seu servo. Serão os melhores momentos de sua vida, eu garanto! Já comprei as passagens, embarcamos para lá amanhã de manhã.

O velho agora se levanta e caminha com seus passos de velho até a janela. Abre um pouco a veneziana deixando entrar um feixe de luz que brilha em meus olhos. Ele parece preocupado com algo. Mas não é aquela preocupação repetina, parece com aquelas com que alguém já está acostumado há tempos. Ele respira pesadamente.

É quando Jonas entra correndo pela porta e fala:

- Oh, minha querida! Acabei de falar com o médico e acho que tenho boas notícias. A sua doença pode ter cura! Segundo ele você tem uma doença rara no sangue mas pode sobreviver. Porém, a cura só existe no lugar mais exótico do mundo, Iraque! Antigamente lá era conhecido como Babilônia, e me parece que há um tipo de medicina local eficaz no tratamento do seu tipo de problema. Não importa se lá existe guerra, o que importa é que você ficará bem. Eu já comprei as passagens e nós vamos para lá hoje à noite!

O velho se aproxima de mim e arrasta uma cadeira próxima à minha cama. Senta-se com algum esforço. Pega a minha mão entre as suas enrugadas. Os seus olhos lacrimejam e os seus lábios tremem com o esforço de algo que quer me dizer.

- Oh, minha querida! Falei com o médico e não tenho notícias boas nem ruins. Segundo ele, a sua doença é totalmente desconhecida aqui no ocidente. Mas sempre poderemos ir para o Japão...

Desafio de escrita proposto no site Duelo de Escritores de 01.10.2010, que tinha como tema a música Japan da banda Cocorosie.

Aprendizado

Uma amiga querida me mandou este vídeo ontem, revelando que ele foi importante em uma fase da vida dela. Como o que é bom deve ser compartilhado com quem a gente gosta, posto ele aqui para vocês. O vídeo é de 2007 mas a mensagem é atemporal.