A Bússola de Ouro, de Philip Pullman

[ Editado em 04/11/2008 ]

O livro A Bússola de Ouro foi publicado pela primeira vez em 1995 e faz parte da trilogia Fronteiras do Universo, do escritor britânico Philip Pullman. O segundo livro da saga chama-se A Faca Sutil e o terceiro A Luneta Âmbar.

A Bússola de Ouro mostra o início da aventura de uma órfã de 12 anos de idade, Lyra Belacqua, em um universo paralelo ao nosso. Nesse universo existem bruxas boas, ursos guerreiros, instituições que querem dominar o mundo e o papa se chama Calvino. Há também os dimons (daemons), que são as "almas" dos humanos separadas de seus corpos com forma de animais falantes. Os dimons das crianças mudam de formas, os dos adultos não. O dimon de Lyra chama-se Pantalaimon e sua forma mais comum é a de um arminho. Lyra é sobrinha de Lorde Asriel e vive na cidade catedrática de Oxford, entre brincadeiras não tão inocentes nos telhados e catacumbas da cidade, guerreando com os garotos gypcios e não obedecendo aos seus tutores, até perceber que várias crianças começam a sumir raptadas pelos Gobblers. Depois que seu amigo Roger é raptado, Lyra passa a ser criada pela Sra. Coulter, e descobrindo alguns de seus segredos, foge com os gypcios para o Norte. Conhece o urso polar Iorek Byrnison. Ajuda-o por duas vezes e é ajudada por ele. Parte para Bolvangar para libertar seu amigo Roger e outras crianças, que sofrem experiências fatais de separação de dimons. Lembre-se que os dimons são as "almas" delas. Aqui começam as críticas do autor à Igreja, pois os Globbers não são outros senão as autoridades religiosas, incluindo a Sra. Coulter.

Nesta aventura toda, Lyra utiliza-se do aletiômetro, uma bússola dourada capaz de responder a qualquer pergunta. E também descobre sobre o Pó, que apesar de no livro não ficar claro o que é, no filme é definido como livre-arbítrio (free will). Este Pó tem relação direta com a maldição bíblica de Gênesis - tu és pó e ao pó voltarás - e é considerado pelos vilões da trama como o mal universal. O que faz Lyra concluir exatamente o contrário sobre ele. A crítica à Igreja (e de certa forma à Ciência) se fazem presentes novamente, como se o livre-arbítrio fosse domesticado ou até anulado pela Igreja. Como o Pó aparece em crianças e mais abundantemente em adolescentes (idade em que se começam a tomar decisões por conta própria), estes são as cobaias favoritas da Igreja. A relação com a pedofilia e com a bitolação mental infantil também não são mera coincidência. No final, o livro traz uma reviravolta já prevista por uma das bruxas: Lyra será traída por alguém próximo antes de continuar sua jornada.

Philip Pullman segue uma grande escola de escritores britânicos que escrevem sobre mundos fantásticos: C. S. Lewis (As Crônicas de Nárnia), J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis), Terry Pratchett (Discworld), Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias) e J. K. Roling (Harry Potter). Mas ao contrário dos outros, Pullman é o primeiro destes a considerar a Religião como um mal e a criticá-la abertamente. Se bem que eu, particularmente, não acho que a crítica de Pullman seja tão sem sentido ou mordaz. Ele só mostra algo que está visível a todos. Vê aquele que quer. Sente-se ofendido aquele em quem a carapuça servir. Documentários como Zeitgeist são bem mais ácidos.

É dito que o título da série em inglês His dark materials é baseado na obra de John Milton, O Paraíso Perdido, que diz: His dark materials to create more worlds, ou Seus materias escuros foram usados para criar outros mundos. Parece que a idéia sobre o Pó também foi retirada do mesmo livro.

Como não poderia fugir à regra, o filme é inferior ao livro. Corta partes importantes, muda as seqüências dos acontecimentos e o torna mais leve, deixando de mostrar as críticas à Igreja e as mortes infantis. O nome da instituição dominante é trocado de Igreja para Magistério. Uma das cenas fora de ordem é a entre a Estação Experimental (Bolvangar) e a Fortaleza dos Ursos (Svalbard). Várias coisas que Lyra faz em Bolvangar não são narradas. O filme também acrescenta o personagem malévolo Fra Pavel que nem existe no livro.

A estória deixa de ser adolescente-adulta para comprimir-se no formato infanto-juvenil. Altera-se de uma experiência racional crítica para uma puramente visual. O filme empobrece uma estória muito bem articulada de crítica moderna. Como o filme termina antes que o livro, para quem leu, fica a impressão de que cortaram os últimos 5 minutos do filme. Uma sensação realmente frustrante. Para os que somente assistiram ao filme, algumas partes ficam sem sentido, sem nexo, sem história. Muitos detalhes visuais, pouco enredo.

A capa da 2ª edição do livro já vem baseada no cartaz do filme que estreou em dezembro de 2007, pela New Line. Além de criticar a Religião, a estória traz também conceitos de metafísica, física quântica, filosofia e simbologia bíblica. O livro vale a pena ser lido, já o filme... vale a pena procurar algo mais inteligente para fazer.

leitura: Janeiro de 2008
obra: A Bússola de Ouro (The Golden Compass), de Philip Pullman
edição: 2ª, volume I da trilogia Fronteiras do Universo (His Dark Materials), Editora Objetiva (2007), 368 pgs
preço: Compare os preços no Bondfaro
Bom

Voltaire

Há quem brilhe na segunda fila e se eclipse na primeira.

Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.

Todo o homem é culpado do bem que não fez.

Uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas.

Filósofo, amante da sabedoria, isto é, da verdade.

As paixões são como ventanias que enfunam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas.

A leitura engrandece a alma.

Eu posso desaprovar o que você diz, mas irei defender até a morte o seu direito de dizê-lo.

François-Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido pelo pseudônimo Voltaire, foi um poeta, ensaísta, dramaturgo, filósofo e historiador iluminista francês. Suas principais obras foram Cândido ou o otimismo, Contos Filosóficos e Dicionário Filosófico.

Discurso de político (autoria desconhecida)

ANTES DA POSSE:

Nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa ação.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos econômicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE:

Basta ler o texto de baixo para cima.

Acampamento do Papai (Daddy Day Camp), 2007

Sabe porque avós e netos se dão tão bem? Eles tem um inimigo em comum.

Mais informações: IMDB (ING) Adorocinema (BR)
Bom

Faça algo interessante: escreva um conto!

Concurso de contos 'Aumente um ponto'Caiu aqui e não tem nada pra fazer durante estes dias? As aulas não recomeçaram ainda? Tá chateado, desmotivado, sem vontade de cantar uma linda canção?

Pois seus problemas acabaram!!!

O André do www.lendo.org lançou este mês o Concurso de Contos "Aumente um ponto", com a finalidade de estimular a produção dos bons contistas que encontram-se perdidos na internet.

Se você tem algo a contar ao mundo e gosta de escrever, ou quer desengavetar aquele Conto que abandonou por falta de incentivo, agora é a hora! O que você está esperando?

Sabia que os psicanalistas incentivam contarmos nossos problemas, fantasias e aflições para nos aliviarmos delas? Isso significa que até se você for um doido de pedra escrever será uma terapia. Talvez não definitiva, como pode perceber no meu caso...

Clique aqui para ler o regulamento completo ou clique aqui para ir direto para o formulário de inscrição. Mas não enrole, as inscrições vão somente até 1º de março.

E eu sou um dos que querem ver como você irá se sair. Conto contigo.

OBS: Ah, e para o ganhador do Concurso há vários prêmios interessantes.

Hitman: Assassino 47 (Hitman), 2007

Não quer me foder, não quer me matar. Nunca senti tanta indiferença em minha vida.

Mais informações: IMDB (ING) Adorocinema (BR)
Bom

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino

"O amor é sexualmente transmissível"

Um livro que aborda vários aspectos diferentes dentro de si, conseguindo agradar a gregos e goianos, não deve ser menosprezado. Como definir em poucas palavras uma obra tão multifacetada? Ora, com poucas palavras multifacetadas! Bem, nesse aspecto, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino, é um romance, mas é também uma crítica à polícia, religião e sociedade, e uma teoria sobre os males do amor, e uma grande crônica juntando tudo o acima. O livro traz histórias ordinárias, comuns - que vemos acontecer por aí todos os dias - mas com alguns desfechos carregados na tragédia - também vistos vez por outra. Aí é que está a grande arte de Aquino: ele conquista vários tipos de leitor que, com alguma das facetas do livro ou com alguma das situações vividas pelos personagens, se identificam na estória. Uma identificação sutil, todavia imediata e intensa.

Dentre os personagens não há nenhum super-herói, pelo contrário, estão carregados de defeitos e pecados: há o japonês agiota e pedófilo, o fotógrafo sem maiores objetivos, o careca que sofreu por toda a vida um amor platônico, a ex-prostituta meio louca, mas sensual ao extremo, o pastor que quer salvar até a última ovelha, o jornalista assexuado que prefere livros à pessoas, etc etc etc. São personagens que, apesar de imperfeitos, mostram defeitos que a maioria possui, vez por outra, em maior ou menor grau. Quem já não sofreu por amar alguém proibido(a)? Quem já não fez loucuras de amor sem pensar nas conseqüências? Quem já não viu o lado bom e o mau da mesma pessoa alternando-se sucessivamente? Quem não ficou disposto a enfrentar no tapa o mundo todo pela pessoa amada, e quem não receberia até as piores notícias vindas do lindos lábios dela?

O protagonista da trama é Cauby, um fotógrafo de 40 anos que vai parar numa cidade no interior do Pará e acaba envolvendo-se com Lavínia, 24 anos, uma mulher sedutora, misteriosa, lunática e... casada. Há ainda lugares no interior do país em que a honra se lava com sangue. Mas, que fazer quando se cai no meio de um redemoinho, ou pior, no centro de um furacão? Como escolher conscientemente entre o que é certo, o que se deseja e o que é melhor?

Um dos pontos altos do livro é a não linearidade da estória. Em um parágrafo aparecem dois homens conversando na varanda de um hotel. No seguinte são as lembranças de um deles. No próximo, é a narração do passado do outro. Sem divisões visíveis. Essa é uma técnica que, quando bem utilizada, torna o desenvolvimento mais interessante além de estimular o raciocínio do leitor. No cinema, vem sendo usada para quebras entre realidade e imaginação, como nos recentes Cashback e Sex and Death 101. Na literatura, foi bem dosada em Os coxos dançam sozinhos, de Mário Prata, e extrapolada em O Jardim do Diabo, de Luis Fernando Verissimo, onde dois tempos distintos confundem-se no mesmo parágrafo, na mesma frase, ocasionando - intencionalmente - divertidas confusões. Como é uma técnica que poucos sabem usar, quando encontramos um escritor que saiba, a leitura geralmente compensa.

Outro ponto a favor do livro são as citações obscuras do filósofo-psicólogo do amor, Benjamin Schianberg (mais um dos personagens fictícios introduzido de uma forma bastante original), que são mencionadas na narração de Cauby em momentos oportunos. Integram-se de tal modo à trama que se tornam essenciais. É o professor Schianberg quem diz: "o segredo não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram" e "queremos o que não podemos ter, o que diferencia uma pessoa de outra é quanto cada uma quer o que não pode ter" e "há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura". O interessante é que já há sites citando Schianberg como uma pessoa real. Agora só falta aparecer o livro dele nas bancas, O que vemos no mundo. Talvez seja uma ótima sugestão para testar Aquino como ghostwriter dele mesmo.

Marçal Aquino já foi jornalista, repórter e roteirista. Agora escreve livros de sucesso como O amor e outros objetos pontiagudos (ganhador do Prêmio Jabuti em 2000) e O invasor (que virou filme roteirizado pelo próprio Aquino). Ler Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios dá uma vontade imensa de conhecer os outros trabalhos do autor. E já faz parte da literatura brasileira contemporânea altamente recomendada para os amantes da boa leitura.
"Falamos, falamos, falamos. E mesmo assim faltou dizer tanta coisa. E escutar também. Ela nunca disse que me amava. Jamais ouvi de seus lindos lábios a sentença que pronunciei algumas vezes."

leitura em: Janeiro 2008
obra: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino
edição: 1ª, Companhia das Letras (2005), 229 pgs
preço: Compare os preços de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios no BuscaPé
Excelente

A Fúria (He was a quiet man), 2007

Era mais fácil no passado.
Sabia-se o que era preciso para ser um homem.
Você se manifestava contra aquilo que era errado.
Você tinha o direito de fazer isso.
Esperavam que você fizesse isso.
O modo como você vivia, o treinamento que enfrentava, lhe preparavam para os confrontos inevitáveis que poderiam acabar em mutilações ou até em morte.
Então algo aconteceu.
Jogamos fora as leis da decência.
Advogados se tornaram nossos pastores.
E o que certa vez foi uma coisa fácil de entender se perdeu na burocracia do que nós chamamos de civilização.
Um homem não podia mais enfrentar o que havia de errado a sua volta.
Tinha que passar por cortes e advogados e se arrastar por quilômetros de processos.
As mulheres exigiam igualdade, e conseguiram. Não conseguindo tudo o que os homens tinham, mas através da castração deles, na forma da lei.
Não me importo com o que você diz.
Isto não é progresso.
Não é evolução.
É uma doença e é preciso alguém perceber o que está em jogo.
Alguém que possa se levantar como um verdadeiro homem e agir contra a injustiça e o desequilíbrio neste mundo.
Hoje.
Agora mesmo.
Antes do almoço.

[...]

Você pode perguntar por que fiz o que fiz.
Mas que escolha você me dava?
De que outro jeito conseguiria sua atenção?
Tudo o que queria era existir no seu mundo.
Apenas uma pessoa
que me visse de verdade
me ajudasse a encontrar
uma saída.
Chegará um tempo
em que os doentes e os fracos
devem ser sacrificados
para salvar a espécie.


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Regular

Millôr Fernandes

Certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis.

Livro não enguiça.

Nunca li livro que justificasse a orelha.

Os livros também morrem.

Um desses livros que, quando a gente larga, não consegue mais pegar.

Só grandes mentirosos escrevem grandes autobiografias.

O cérebro tem emoções que o coração desconhece.

Caras brilhantes fazem frases brilhantes e idiotas as repetem. Não vá repetir essa pros seus amigos.

Pensar - verbo decididamente reflexivo.

Millôr Fernandes (1923-) é desenhista, humorista, escritor, dramaturgo e tradutor carioca. Millôr por ele mesmo: "Millôr Fernandes é jornalista amador, só recebe por fora, e não agride a camada de ozônio. Millôr Fernandes é jornalista sem fins lucrativos".

A terra pura, de Alan Spence

"Somente se levanta aquele que cai."

A terra pura
é um romance histórico baseado na vida de Thomas Blake Glover, um escocês que mudou-se para o Japão em 1859 e teve um papel fundamental na modernização que ocorreu por lá entre meados do século 18 e início do século 19.

Falar sobre o livro significa falar sobre a biografia de Glover. Ele saiu ainda jovem de Aberdeen, Escócia, para trabalhar no Japão na empresa Jardine Matheson como comprador de chá verde. Logo abriu sua própria empresa, comprando, secando e exportando chá para o exterior. Depois investiu em tráfico de ópio, câmbio e importação de itens diversos. Inaugurou a primeira locomotiva no Japão. Mas obteve seu maior sucesso quando começou a vender armas, canhões e navios, primeiro para o Shogum (que mandava no Japão naquela época) depois para os clãs rebeldes, principalmente os Satsuma, Chosu e Tosa, que apoiavam a volta do governo imperial e uma maior abertura do Japão ao ocidente. Como estes clãs eram compostos por samurais e não se misturavam com os estrangeiros, foi o primeiro casamento de Glover com Sono, do clã Satsuma, que acabou ajudando na aproximação comercial deles.

Glover teve três filhos: o primeiro, fruto de uma relação adolescente antes de sua partida para o Japão, o segundo com sua esposa Tsuru, a menina Hana, que mais tarde casou com um comerciante britânico e se mudou para a Coréia do Sul, e o terceiro com uma gueixa chamada Maki, o biólogo Tomisaburo, que fez um catálogo com as espécies marinhas existentes no Japão.

Glover assistiu de perto o ataque britânico a Kagoshima em 1863, da mesma forma que o seu filho Tomisaburo assistiu o bombardeio atômico a Nagasaki em 1945. Por causa das dificuldades impostas aos estrangeiros pelo Shogunato Tokugawa, Glover apoiou a revolução que iniciou o período Meiji japonês. Por causa disso, faliu em 1870 e passou a trabalhar como administrador de mina de carvão e de dique seco que virariam a empresa Mitsubishi do Japão.

A residência de Glover em Nagasaki, chamada de Jardim de Glover, possui uma vista privilegiada da cidade por situar-se na encosta de uma montanha e atualmente é um museu visitado por milhares de turistas todos os anos. Dizem que a ópera Madame Butterfly é inspirada na vida de Glover, mas não há documentos que comprovem o fato. Também há boatos que o rótulo da cerveja japonesa Kirin, baseado numa criatura mítica, é na verdade uma homenagem a Glover, que tinha um bigode semelhante ao da criatura.

O último capítulo fala sobre um possível fim para a gueixa Maki e é repleto de filosofia e de histórias antigas japonesas, inclusive algumas sobre o lendário guerreiro Bodhidharma. Uma ótima maneira de encerrar um livro que, apesar do tom predominante de biografia, não chega a ser cansativo.
"Certa vez, ele [Bodhidharma] adormeceu durante a meditação; ficou tão bravo consigo mesmo que cortou fora as próprias pálpebras, para que seus olhos ficassem sempre abertos. Jogou-as num canto e, no lugar onde caíram, nasceu a primeira planta de chá. Assim, os monges puderam desde então tomar chá, para ficarem acordados!"

Assim como o protagonista de A terra pura, Alan Spence, o autor do livro, também é escocês. Esta semelhança deve ter facilitado ao escritor a ver como um estrangeiro se sente ao atravessar o planeta e abraçar sem medo uma nova cultura. Spence tenta conciliar a personalidade forte de Glover com os seus feitos históricos e ele ora aparece mostrando sentimentos nobres, ora demonstra seus defeitos como contrabandista, traficante de armas e drogas e capitalista inescrupuloso.

leitura em: Janeiro 2008
obra: A terra pura (The pure land), de Alan Spence
tradução: Diego Alfaro
edição: 1ª, Nova Fronteira (2007), 399 pgs
preço: Compare os preços de A terra pura no Bondfaro
Bom

Groucho Marx

Acho a televisão muito educativa. Sempre que alguém a liga, eu vou para a sala ao lado ler um livro.

Estes são meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.

Eu nunca esqueço um rosto, mais no seu caso, eu vou abrir uma exceção.

Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: é mesmo um idiota!

O matrimônio é uma grande instituição. Naturalmente, se você gostar de viver em uma instituição.

O casamento é a principal causa do divórcio.

As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.

Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E atrás desta, existe a mulher dele.

Eu corri atrás de uma garota por dois anos apenas para descobrir que os seus gostos eram exatamente como os meus: Nós dois éramos loucos por garotas.

Entre uma mulher e um charuto, escolherei sempre o charuto.

Não entro para clubes que me aceitam como sócio.

O segredo do sucesso é a honestidade. Se você conseguir evitá-la está feito!

Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro, mas custam tão caro!

Eu quero ser cremado. Um décimo das minhas cinzas devem ser dadas ao meu agente, assim como está escrito em nosso contrato.

Groucho Marx era o pseudônimo de Julius Henry Marx (1890-1977). Foi comediante e ator norte-americano membro do grupo Irmãos Marx (Marx Brothers).

O Caçador de Pipas (The Kite Runner), 2007

Um garoto que não se levanta sozinho torna-se um homem que não se levanta para nada.

Guerra não quer dizer negar sua decência.

Mais informações: IMDB (ING) Cinema com Rapadura (BR)
Regular

Filme baseado no livro homônimo de Khaled Hosseini. Clique aqui para ler a resenha do livro.

O direito de sonhar, de Eduardo Galeano

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.
Eduardo Galeano (1940-) é jornalista e escritor uruguaio. O texto foi publicado no diário argentino Página 12, em 29 de outubro de 1997, com o título "El derecho de soñar".

Carta sobre a Felicidade, de Epicuro

Talvez você já tenha passado por esta situação: Alguém lhe fala mal de certa pessoa que você desconhece e que mais tarde, após conhecê-la pessoalmente, verifica que não é tão ruim como lhe disseram. Agora imagine que esta pessoa tenha morrido a mais de dois mil anos atrás. É o caso de Epicuro. Muitos hoje criticam sua filosofia que incentivava à busca do prazer, mas geralmente o fazem sem ler nada que ele escreveu, somente repassando adiante o que ouviram falar. A confusão reside no que Epicuro considerava como verdadeiro prazer:
"A doutrina de Epicuro entende que o sumo bem reside no prazer e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo. O prazer de que fala Epicuro é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É a própria Natureza que nos informa que o prazer é um bem. Este prazer, no entanto, apenas satisfaz uma necessidade ou aquieta a dor. A Natureza conduz-nos a uma vida simples. O único prazer é o prazer do corpo e o que se chama de prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O mais alto prazer reside no que chamamos de saúde. A função principal da filosofia é libertar o homem." (Wikipédia)

Epicuro de Samos (341-270 a.C.) foi um filósofo grego que viveu no período helenístico. Dos seus escritos que chegaram até os nossos dias, existem três cartas: Carta a Heródoto, sobre física atômica; Carta a Pítocles, sobre os fenômenos celestes; e Carta a Meneceu (mais conhecida como Carta sobre a Felicidade), sobre a felicidade.

Assim como Epicteto em A arte de viver e Sêneca em Da vida feliz, Epicuro lista conselhos básicos para sermos felizes: não temer a morte, distinguir os tipos de desejo (veja a tabela abaixo), buscar o prazer sábio e viver modestamente. Cada um desses itens é racionalmente explicado para uma melhor compreensão. Nessa carta, há também respostas muito interessantes para perguntas tais como "O que é mais importante que a filosofia?" e "Como viver como um deus entre os homens?", que levarão o leitor a uma reflexão aprofundada.

Classificação dos desejos segundo Epicuro
Desejos naturais Desejos frívolos
Necessários Simplesmente naturais Artificiais Irrealizáveis
Para a felicidade (ataraxia) Para a tranqüilidade do corpo (proteção) Para a vida (nutrição, sono) Variações de prazeres, busca do agradável Exemplo: riqueza, glória Exemplo: Desejo de imortalidade

Uma das mais belas definições já escritas sobre a utilidade da filosofia encontra-se nesta Carta sobre a felicidade:
"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la."
A Editora Abril lançou em 2007 os DVDs Coleção Filosofia Vida Simples, apresentados pelo escritor suíço Alain de Botton, que relaciona a filosofia com aspectos da nossa vida cotidiana. Um dos episódios chama-se Epicuro e a Felicidade, baseado exatamente nesta obra de Epicuro.

leitura em: Janeiro 2008
obra: Carta sobre a Felicidade [a Meneceu] (Lettera sulla felicitá), de Epicuro
tradução e apresentação: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore
edição: 1ª, bilíngüe: grego e português, Editora UNESP (2002), 51 pgs
preço: Compare os preços de Carta sobre a Felicidade no BuscaPé
Excelente

Luís Vaz de Camões

O fraco rei faz fraca a forte gente.

A verdadeira afeição na longa ausência se prova.

Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.


Luís Vaz de Camões (1524-1580) foi poeta português. Escreveu Os Lusíadas.

Pensamentos (So/No)turnos

Ao seu lado dorme o vazio.
Retira perfume e calor
Ocupa o lugar dela.
Anjos não vê mais
Quando abre os olhos
Só sonha
A respiração suave
O coração tranqüilo
Fiozinhos dourados perdidos
Marcando territórios conquistados.
Machuca não ver mais
O que os olhos acostumaram ver
Que calam-se úmidos
Sem que ninguém perceba
Nem entenda porque
Acariciando o vazio, sofre.

Esperança, de Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Balanço 2007

Meu bebê Libru Lumen está chegando ao seu primeiro aniversário e posso dizer que neste período cresceu bastante e fez crescer o seu big daddy. Como todo ser imbecil deste planeta, também estipularei metas de fim de ano para minha vida literária e, conseqüentemente, para o blog. Algumas já são aparentes, como podem perceber:

1. Tomar vergonha na cara e mudar o layout, deixando de usar um dos modelos (template) disponibilizados gratuitamente pelo Blogger e usando um mais legal e interessante encontrado na internet. Depois de alguns dias de testes - nunca compro uma roupa sem experimentar - o escolhido foi o que agora estão vendo. O modelo anterior, caso não lembrem, que ficou ativo na maior parte do ano foi o da figura aí em cima. O bebê cresceu e precisa de roupinhas novas.

2. Manter minha meta de leitura para, no mínimo, 48 livros por ano, ou 4 por mês, ou 1 por semana. Não é difícil, basta força de vontade. Em janeiro farei um curso de leitura dinâmica (mais um!) só que de um mês de duração. Quem sabe ajude a me superar.

3. Comprar menos livros novos. Isso mesmo, comprei muito e não li todos. Um desperdício. Por isso vou passar a freqüentar mais as bibliotecas (públicas e de amigos) e sebos. Vou tentar ler antes de comprar, assim só comprarei aqueles se "mexerem" comigo. Essa atitude é para economizar $$$ gasto com o que não presta e ser mais seletivo. Também vou continuar participando das campanhas e promoções na internet que premiam com livros, esse ano ganhei vários e foi muito bom para o ego e para o bolso.

4. Criar o clube do livro da turma na facul. Já temos um grupo razoável de interessados, entre acadêmicos e professores, e garanto que a tendência é aumentar conforme a idéia for se espalhando. Já discuti as regras com alguns colegas e serão basicamente três:
  • Todos os membros do grupo devem ler o livro indicado para o mês e anotarem suas considerações para um debate. Não importa se o livro é emprestado, comprado ou baixado da internet, importa somente que seja lido;
  • No primeiro final de semana do mês seguinte, o grupo se reunirá em um local previamente escolhido (na casa de um dos participantes, biblioteca, etc.) para debater o livro;
  • Um dos membros, talvez em ordem alfabética ou por votação, escolherá na reunião o livro a ser lido durante o mês. Isso implica que a leitura de cada livro iniciará na segunda semana do mês e irá até o primeiro final de semana do mês seguinte, totalizando um mês.
5. Escrever meu primeiro livro. Apesar de ter várias idéias prontas, elas continuam simplesmente como... idéias. Tá certo que iniciei nessa vida neste ano, mas já fiz as contas aqui: escrevendo 20 páginas por mês (e as revisando ao extremo, como gosto tanto) daria no final do ano um livro de 240 páginas. É uma meta realista e razoável.

Então, depois de tudo isso, que venha 2008! Já o desafiei para o duelo, escolhi as armas, é chegada a hora da peleja. Que vença o mais determinado!