A Décima Segunda Noite, de Luis Fernando Verissimo

Novamente, LFV mostra que é muito criativo em seus romances. Mesmo A Décima Segunda Noite sendo inspirado na peça Noite de Reis, de Shakespeare, o escritor gaúcho soube dar o seu toque de humor e originalidade. Primeiro, ele brinca com o narrador impessoal, quando bota a história sendo contada por um papagaio. Depois, a trama à parte que serve de introdução e conclusão em cada um dos capítulos é muito boa, como se fosse uma história à parte. Também é perceptível os maneirismos que LFV coloca no narrador, assim como o fez no Clube dos Anjos: Gula. Aqui, o papagaio-narrador tem mania de citar escritores franceses e ingleses, de fazer digressões no meio da história, de falar frases em francês. Afinal, a história se passa em Paris, no salão de beleza IIIyria, onde o papagaio Henri presencia a confusão que ocorre nos doze dias entre o Natal e a Festa de Reis. Amores impossíveis, máfia italiana, troca de sexo, gêmeos idênticos, rebeldes foragidos da ditadura brasileira, homossexuais e contrabando de obras de arte são só alguns dos detalhes adicionais incrementados na trama. Como ponto negativo, fica somente o final rápido demais em comparação com o desenvolvimento nos outros capítulos, e acredito que caberia um capítulo adicional nos 11 existentes, até porque o número combinaria com o título. E concordo com LFV, pra mim, o seu melhor romance continua sendo o Clube dos Anjos: Gula.

leitura: Maio de 2009
obra: A Décima Segunda Noite, de Luis Fernando Verissimo
edição: 1ª, Coleção Devorando Shakespare - Objetiva (2006), 149 pgs
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Bom

L.I.V.R.O., de Millôr Fernandes

Um novo e revolucionário conceito de tecnologia de informação

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua seqüência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta "ERRO GERAL DE PROTEÇÃO", nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando "browse" permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento "índice" instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

Criminal Minds - 4ª temporada (2008-2009)

4x25-26 SEASON FINALE To hell... and back
Flannery O'connor disse: "Se não houvesse o inferno, seríamos como animais. Sem inferno, sem dignidade."

Às vezes não há palavras nem citações inteligentes para resumir o que houve durante o dia. Às vezes você faz tudo certo, tudo exatamente certo e ainda sente que falhou. Às vezes o dia apenas acaba.

4x24 Amplification
Segurança é praticamente uma superstição, não existe naturalmente, ninguém, seja homem ou criança, a experimentou completamente. - Helen Keller

4x23 Roadkill
Não tenho certeza sobre os automóveis. Com toda essa velocidade adiante, podem retroceder a civilização. - Booth Tarkington

A voz humana jamais pode alcançar a distância coberta pela pequena voz silenciosa da consciência. - Mahatma Gandhi

4x22 The Big Wheel
Para que a luz brilhe intensamente, a escuridão deve estar presente. - Francis Bacon

Não importa quão obscuro seja o momento, amor e esperança sempre são possíveis. - George Chakirins

4x21 A Shade of Gray
Andre Maurois escreveu: "Sem família, o homem, sozinho no mundo, treme com o frio."

4x20 Conflicted
A luz acha que viaja mais rápido que tudo, mas está errada. Não importa quão rápido a luz viaje, descobre que a escuridão sempre chega antes e está a sua espera. - Terry Pratchett

Stephen King escreveu: "Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem."

4x19 House on Fire
Tennesse Williams disse: "Todos nós vivemos numa casa pegando fogo. Nenhum corpo de bombeiros para chamar, nenhuma saída.

Amei até virar loucura. Aquela que é chamada loucura, para mim, é a única maneira lógica de amar. - Françoise Sagan

4x18 Omnivore
O destino não se satisfaz inflingindo uma calamidade. - autor romano Públio Siro

Os homens juntam os erros da vida, criando um monstro e o chamam de destino. - John Hobbes

4x17 Demonology
Leonardo da Vinci disse, "Aquele que não pune o mal, ordena que ele seja feito."

James Joyce disse: "Não há heresia ou filosofia tão abominável para a igreja quanto um ser humano."

4x16 Pleasure is my Business
A prostituta não é, como as feministas dizem, uma vítima dos homens, mas a sua conquistadora. Uma fora da lei, que controla os canais do sexo entre natureza e cultura. - Camille Paglia

Você não paga uma prostituta pelo sexo, você paga para que ela vá embora depois. - Dashiell Hammett

4x15 Zoe's Reprise
Nunca ensino meus pupilos, só tento dar as condições nas quais possam aprender. - Albert Einstein.

O romancista austríaco Marie Von Ebner-Eschenbach escreveu: "Quando somos jovens, aprendemos. Quando ficamos velhos, entendemos."

4x14 Cold Comfort
Para aqueles que creem, nenhuma prova é necessária. Para aqueles que não creem, nenhuma prova é possível. - Stuart Chase

4x13 Bloodline
Winston Churchill disse: "Não há dúvida que é na família e em casa que as melhores virtudes da sociedade são criadas, fortificadas e mantidas."

Mario Puzo escreveu: "A força da família, assim como no exército, está na fidelidade de seus membros."


4x12 Soul Mates

Nenhum ser humano é capaz de manter um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos. A traição emana dele por todos os poros. - Sigmund Freud

O historiador inglês, C. Northcote Park, disse: "O atraso é a mais mortífera forma de negação."


4x11 Normal
Cada homem sentiu em algum momento a vontade de cuspir em suas mãos e içar a bandeira preta e começar a cortar gargantas. - H. I. Mencken

Não há tragédia maior que a morte de uma criança. As coisas nunca voltam a ser como antes. - Presidente Dwight Eisenhower

4x10 Brothers in Arms
Somos todos irmãos sob a pele, e eu estaria disposto a esfolar a humanidade para provar. - Ayn Rand

Aquele que hoje derramar seu sangue comigo, será meu irmão. - William Shakespeare


4x09 Pickup
Harlan Ellison escreveu: "Assim que as pessoas se apaixonam, tornam-se mentirosas".

P J O'Rourke escreveu: "Asseio se torna mais importante quando a piedade é improvável".

4x08 Masterpiece

Consideremos que todos somos loucos. Irá nos explicar uns aos outros. Irá desvendar muitos mistérios. - Mark Twain

O ser humano deve desenvolver, para todos os seus conflitos, um método que rejeite a vingança, a agressão e a retaliação. A base para esse tipo de método é o amor. - Martin Luther King Jr.

4x07 Memoriam
O que o pai calou aparece na boca do filho, muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai. - Friedrich Nietzsche

Não há refúgio da memória e do remorso nesse mundo. Os espíritos de nossos feitos tolos nos assombram, com ou sem remorso. - Gilbert Parker

4x06 Instincts
Amos Bronson Alcott disse: "Quem fala com seus instintos, fala com o que há de mais profundo na humanidade e encontra a resposta mais breve."

Carl Jung disse: "O nosso inconsciente é a chave para os objetivos da nossa vida.

Bob Dylan disse, uma vez: "Acho que as coisas verdadeiramente naturais são os sonhos, os quais a natureza não pode tocar com decadência."


4x05 Catching Out
A abundância permanece no mesmo local. A fome é viajante. - Provérbio zulu

Além do leste, o amanhecer. Além do oeste, o mar. E no leste e oeste, a sede de vagar que não me deixará estar. - Gerald Gould


4x04 Paradise
Tomas Fuller escreveu: "O paraíso é do tolo, o inferno é do sábio."

O poeta romano Fedro disse: "Coisas não são sempre como parecem, a primeira aparição engana muitos. A inteligência de alguns é perceber o que foi cuidadosamente escondido."


4x03 Minimal Loss
Jim McKay de Munique: "Nossas maiores esperanças e medos raramente são percebidos."

"Selvagens é como nos chamam. Porque nossos costumes são diferentes dos deles." (Benjamin Franklin)

"Seguir apenas pela fé é seguir cegamente." (Benjamin Franklin)

"Razão não é automática, aqueles que a renegam não podem ser conquistados por ela." (Ayn Rand)

4x02 The Angel Maker

"Todos morremos. O objetivo não é vivermos para sempre. O objetivo é criarmos algo que viverá." Chuck Palahniuk

Wendell Berry disse: "O passado é uma definição nossa. Podemos nos esforçar para escapar dele por bons motivos ou escapar do que é ruim nele, mas só escaparemos dele adicionando algo melhor nele."


4x01 Mayhem
"Nunca pense que a guerra, não importa quão necessária, nem quão justificada, não é um crime." Ernest Hemingway

Mais Informações: IMDB (ING) Séries Online (BR)

O Príncipe Maldito V

Leia também a Parte IV.
As montanhas próximas ao Vale Sombrio costumam ver muita gente esquisita passar por elas. Mas enquanto as montanhas gostam de fofocar sobre um ou outro viajante, debochando de roupas fora de moda ou cavalos ano/modelo ultrapassados, sobre alguns é melhor fingir que não viram e olhar para o outro lado para evitar problemas. Era exatamente este o caso quando quatro andarilhos viajavam por uma das muitas estradas que ali existem. Uma menina de cabelos dourados e vestido cor de rosa que saltitava colhendo algumas flores e soltando palavrões por causa disso. Ao lado dela, uma figura muito grande chacoalhava vários ossos presos em seu corpo. Se as montanhas não estivessem olhando para o céu brincando de descobrir se aquela nuvem mais parecia um macaco ou um ovo, teriam rido muito pois a coisa gorda parecia rolar a cada passo ao invés de andar. Logo atrás deles, dois homens de estatura similar, um vestido de espadachim (carregando espada, facas, pistolas e um baralho), com um chapéu de abas largas que lhe encobria o rosto, e outro, usando apenas um manto druida cinza-escuro e um cajado. Um grupo bem peculiar, mas com a fama capaz de fazer as montanhas tremerem de medo.

E pensar que apenas alguns dias antes, os nossos viajantes estavam juntos em uma taverna de muito má reputação, onde o homem do manto druida fez uma proposta de negócios aos Três Terríveis. Como ele fez isso não é de nosso conhecimento, já que o druida não falava nada. De alguma forma ele conseguiu comunicar os seus planos aos outros três: desejava chegar até as terras do norte, onde o frio e os perigos eram intensos, à procura de um objeto mágico capaz de responder a qualquer pergunta feita a ele. O druida disse que não queria o objeto para si, ele seria entregue aos três como pagamento se o guiassem até lá. Como o instrumento mágico já estava prometido a eles antecipadamente, só lhes pedia um favor: que o deixassem fazer a primeira pergunta. Os três porém, não atentaram como ele faria a pergunta sem abrir a boca, pois já estavam com as suas mentes voando longe pensando em que pergunta fariam. BB, a menina de cachos dourados, pensava que seria extremamente útil perguntar como reverter o feitiço que ela jogou em si mesma, vontando a ser uma bruxa adulta. Gordulfo, o grandão, perguntaria onde encontrar dragões azuis, o seu prato predileto que, por causa disso, até os dragões azuis existentes espalhavam a notícia de estarem extintos há anos. A imaginação do espadachim Carpeaux, tão manchada quanto a sua espada, reluziu quando o vislumbrou sobre montes de ouro e pedras preciosas. Cada um guardou para si os seus motivos e após uma breve confabulação, aceitaram em conjunto levar o druida até a terra dos gigantes, ao norte.

A distância era longa, mas os Três Terríveis já haviam passado algumas vezes pelo norte, seja correndo atrás de algum exército ou fugindo de outro. A vida de fora-da-lei é assim mesmo, é preciso estar sempre em movimento, sempre em novos esconderijos. Contudo, talvez você se pergunte porque eles precisavam do monge, já que, nitidamente cada um deles era mais poderoso e sabia o caminho. BB e Carpeaux também tiveram esta idéia, e aí é que entrou a garantia de vida do druida: ele não citou qual era o objeto mágico nem onde este se encontrava. Era uma lâmpada? Um espelho? Uma bola de cristal? Estava em uma caverna? Num castelo? Eles não sabiam, e a busca ficaria infinitamente mais difícil eles não sabendo o que nem onde procurar. Carpeaux sugeriu a BB torturarem o druida até ele falar, mas a idéia foi recusada quando lembraram que ele era mudo. Decidiram aceitá-lo no grupo até o momento mais oportuno.

Voltando à viagem, logo após uma curva na estrada, os quatro se depararam com um velho sentado em posição iogue em cima de uma pedra, completamente nu. Era bastante magro e estava de olhos fechados com os dois dedos das mãos em forma de círculo, em cima dos joelhos. O único adereço não natural em seu corpo era o desenho de um olho aberto em sua testa. E, apesar de estar nu, parecia vestido, pois a sua enorme barba branca cobria toda a frente do corpo. Ao se aproximar do velho, BB, usando a sua vozinha infantil mais fofinha, perguntou:

- Ó velho do olho na testa, diga-me quem tu és e porque estás aí peladão em cima desta pedra?

O velho continuou exatamente como estava. O grupo aguardou alguns instantes pela resposta, mas como nem mesmo parecia que o velho estava vivo, resolveram continuar a caminhada. Quando retomaram o andar, ouviram uma voz leve, mas com tom de sabedoria:

- Me preparo para a mais terrível das guerras.

Vendo que o velho não estava morto e que respondera a pergunta, todos voltaram a atenção novamente para ele.

- Que guerra é esta, que não ouvimos falar dela? – perguntou Carpeaux.

Novamente silêncio. Desta vez demoraram mais tempo parados como bobos na frente do velho, até parecer que ele não responderia. O grupo fez desistiu de esperar mais, ouviram o velho dizer:

- A guerra mais terrível é a contra mim mesmo. Se eu sair vencedor dela, será como ter vencido mil homens em mil batalhas.

O grupo comentou entre si que era uma boa resposta. Depois de algumas palavras trocadas, houve receio se mais alguém faria outra pergunta, até que Gordulfo, inocente, deixou escapar:

- Por que o senhor demora tanto para responder as nossas perguntas?

Todos sabiam que a resposta iria demorar, e como anoitecia e precisavam acampar, acenderam a fogueira próximo ao velho iogue, prepararam a refeição, comeram, contaram histórias de aventuras anteriores, beberam, dormiram e, no dia seguinte, ao se despedirem do velho, ouviram:

- Porque, na verdade, vocês não existem. São só frutos da minha imaginação criados para testar-me a paciência.

BB arriscou fazer um comentário despretensioso, sem esperar resposta, pois sabia que não teriam mais tempo para a aguardarem.

- Esta é a coisa mais idiota que já ouvi na vida. Como, em nome de Althus, nos ignorando, você vai vencer a sua guerra interior?

Ao darem as costas, para a surpresa geral, o velho disse:

- Porque tudo o que existe, tudo o que há a minha frente é uma criação mental. O mundo é mental. O real está obscuro e distante dos olhos. Ao ignorá-los, controlo vocês e assim controlo o mundo criado pela minha mente, não me sujeitando aos caprichos e armadilhas dela.

BB deu um pequeno sorriso e, chegando perto dos outros três, cochichou:

- Já percebi como fazer este velho falar. Façam exatamente o que eu fizer.

E perguntou:

- Se todos nós somos frutos da sua imaginação, então não poderíamos te machucar nem te matar, pois a imaginação não pode destruir a si mesma, certo?

Em seguida, fez sinal para todos fingirem que estavam indo embora. Bastou isto para ouvirem a resposta.

- A sua lógica é falha, senhorita. A minha mente é poderosa e pode tentar me convencer através das sensações físicas que alguém que não existe me machucou ou me matou. Mas, estou preparado para vencer tais ataques, pois se a minha mente me matar, ela mata a si mesma, e assim venço a batalha. Porém, se você quiser me provar que não é fruto da minha mente me matando, matará a ela também, e assim, venço a minha inimiga. De qualquer jeito, saio vitorioso.

- Mas se estamos dentro da sua cabeça, então por que não diz para onde estamos indo?

Novamente, fizeram menção de ir-se, só para ouvirem:

- Sei exatamente aonde vocês vão, por onde vão passar, que perigos encontrarão, quem irão vencer ou ser vencidos, se encontrarão o que procuram, assim como sei que, ao final da jornada, somente um de vocês voltará por este caminho.

Todos se olharam espantados. Mas não tiveram coragem de perguntar mais nada, pois cada um preferia acreditar que regressaria bem. Prosseguiram pela estrada, se afastando do velho de longas barbas brancas, sentado nu em cima da pedra, até sumirem da vista do olho pintado na testa dele.


Vendedor de Beijos Usados, de Jefferson Luiz Maleski

A ressaca do século brincava de carrossel em meu cérebro quando acordei. Língua pregada no céu da boca, a boca seca, gosmenta e com um bafo cavernoso. E a minha cabeça, ai, como dói a minha cabeça! Se ao menos as paredes entrassem em acordo e decidissem cada uma estacionar em seus lugares, acho que me sentiria melhor. Procuro sentar na cama, me equilibrando pra não cair, respiro fundo e percebo que deitei e dormi de roupas. O fedor que exalo é de cigarro e vômito. Apesar da dor em tentar fazer funcionar uma máquina que fora usada e abusada na noite anterior, percebo que não consigo lembrar de imediato como cheguei em casa, guardei o carro, me deitei. Ai, a droga da minha cabeça. Como todo esforço traz uma recompensa, me esforço: levanto lentamente, me apoiando nos móveis, e vou até a cozinha beber um gole d’água. Mas a água não tem gosto. A língua não tem gosto. Dizem que beber nove copos de água depois de ingerir muito álcool evita ressaca. Ainda bem que não fiz isso, senão teria urinado nove copos d’água no colchão. Tento lembrar a placa da jamanta que passou por cima de mim pelo menos umas três vezes ontem, mas a primeira imagem que me vem à mente é a cara lerda do Michel.

O Michel é um cara legal, descolado, bem mais do que eu quando o assunto é trambiques, rolos, festas e, principalmente, garotas. Sempre que encontro ele na rua, tem algum negócio da China a oferecer: é um novo modelo de celular importado da Europa e que ainda não chegou ao Brasil, é o último par de ingressos para o showzaço que todos estão a fim de ir, mas já esgotado faz semanas. Como conheci o Michel? Se me recordo bem, ou foi em uma festa ou fomos apresentados por um conhecido. Ah sim, lembrei, foi um conhecido que nos apresentou, durante uma festa. Como o encontrava sempre nos mesmos lugares que eu freqüentava, passou a ser um companheiro de conversas, depois de baladas, barzinhos, shows e por fim de azarações. Ele sempre tinha os canais certos. Eu, o dinheiro.

- Cara, você precisa conhecer a Marcinha. Ela é uma deusa da beleza, e é amigona minha.

- Er, mas ela é solteira?

- Claro, né ô seu mané. Você acha que eu iria jogar na sua mão uma mina comprometida? Diz aí, posso ligar pra ela e marcar pra sair amanhã à noite?

- Si-sim, pode.

E assim começou o meu relacionamento com a Marcinha. Numa conversa informal na praça. Não que eu não fosse capaz de me arranjar sozinho, não me entenda mal, até que sou atraente apesar de não me achar bonito. Sei me virar razoavelmente bem em qualquer conversa, desde arte, viagens, culinária até um pouco de moda (embora nunca admitiria isso em público). Porém, tenho O defeito: sou extremamente tímido, principalmente com o sexo oposto. É a minha sina desde a 4ª série.

- Me beija logo, antes que a minha mãe volte.

- Aqui, assim?

- Agora!

E eu beijei, e a mãe dela voltou, e levei uns cascudos da mãe dela, que depois contou para a minha mãe, que me deu novos cascudos, que depois contou para o meu pai, que me deu mais uns cascudos por eu ter sido pego pela mãe da menina. E a safada da guria ainda espalhou para a escola toda que eu beijava mal. As minhas chances de beijar mais alguém naquele colégio: 0%. Até as feias me evitavam.

Mas o tempo passou e as coisas mudaram, apesar de que, as namoradas que tive serem quem chegavam em mim. E quem terminavam o namoro comigo. Valiam-se das desculpas mais esfarrapadas: ora eu era estranho ou esquisito, ora era bonzinho demais. Como se o cavalheirismo fosse encarado como sinal de menosprezo e submissão feminina. Outra desculpa recorrente era a que a garota dizia gostar de mim, mas como amigo. Não tem coisa pior para um homem ouvir. Enquanto você é o amigo, outro tá comendo ela, babaca.

Por isso resolvi me dedicar aos estudos, e meus pais me apoiaram nisso. Especialmente a minha mãe, que sonhava em me ver namorando a filha de uma de suas amigas da igreja. Eca, valha-me Deus. Preferi meter a cara nos livros, e o resultado é que saí bem na escola, na faculdade e nos negócios. Me formei programador de computadores. Desenvolvi sistemas para empresas de médio porte. Ganhei algum dinheiro. Hoje dou aulas na faculdade. Falar em sala de aula, no começo, foi um martírio. Mas como em Ciências da Computação o maior público é formado por caras como eu, acabei me acostumando.

- A Marcinha tem um filho pequeno, isso é problema pra você?

- Não, cara, nada contra.

- Conheço ela faz um tempão. Ela namorava um conhecido, que fez o filho nela e depois caiu na braquiária. Hoje ela só quer um homem que cuide dela. Aproveita, chance igual a essa não vai aparecer tão cedo. Ela é gente fina, gostosa e a machaiada vai cair matando. Só que você saiu na frente, falei de você e ela tá doida pra te conhecer.

- Sério?

- Claro, tá tudo marcado pra festa do Benito. Ela vai estar lá te esperando. Quero ver você babar no material que estou jogando na sua mão. Hoje você vai beijar na boca ou eu não me chamo Michel.


Ela estava lá, linda, maravilhosa, vitaminada, Marcinha, mas para mim? Era de se duvidar. Era muita esmola para um mendigo só. Tentei me lembrar de alguma boa ação que fizera para merecer tudo aquilo. A Marcinha tinha estatura mediana e corpo perfeito, e se destacava na pista de dança, balançando os longos cabelos loiros ao sabor da música, revelando as curvas acentuadas daquele mini-vestido preto. Tive de admitir que a gestação não deixara nenhuma marca visível no corpo dela.

- Oi loirão, esse é o Paulo, aquele amigo de quem falei.

- Muito prazer, Paulo, tudo bem?

- ...

- Qualé, Paulin, não vai cumprimentar a minha amiga?

- Hum-rum, desculpa, é... é que me engasguei...

(risos)

- Essa é a Marcinha, dá uma voltinha, loirão, deixa o meu amigo ver como você é gata.

A voltinha revelou que ela não usava um mini-vestido, mas uma blusa e uma mini-saia pretas, justíssimas, que pareciam fazer parte da anatomia da garota. Ao virar, senti o perfume intenso que ela exalava. E vi que ela não usava sutiã. Um homem sempre nota uma coisa dessas. Pelo menos em uma garota como aquela. O efeito da presença dela foi imediato em mim, e eu fiquei constrangido por não conseguir disfarçar direito. Não sem ir ao banheiro antes.

- Quer dançar, Paulinho?

- Eu? Nã-não, é que eu...

- Deixa de ser bobo, vem...

E o bobo foi. Imagine a cena: um cara tentando disfarçar a excitação enquanto a mulher mais sensual, provocante e cobiçada da festa descia e subia e se esfregava nele. Eu não sabia se estava no céu ou no inferno. Dançamos várias músicas. Ou melhor, ela dançou, eu fiz de conta que dancei. Mas foi boa a sensação de estar ao lado de alguém que todos os outros cobiçavam, se perguntando "o que ela viu nesse cara" ou “como faço para trancar ele no banheiro”. Até as outras mulheres me olhavam diferente. É a lei do mercado: se você tem, você atrai mais, se não tem, se fode sozinho.

- Amor, você quer que eu busque uma bebida pra você? - ela perguntou.

- Não precisa se preocupar com isso - respondi.

- É que vou buscar uma caipiuva pra mim, e posso trazer algo pra você.

- Tá bom, então traz um frozen. De morango.

Enquanto apreciava aquela vista maravilhosa se afastar de mim, notei que a palavra "amor" ecoava em meus ouvidos muito mais alta que as batidas do Dj. O Michel tinha desaparecido. Enquanto estava com a Marcinha, ele me pediu as chaves do carro para buscar umas amigas. Justificou-se que também queria beijar. Não seria somente eu o garanhão da noite.

- Oi, querido, aqui está o frozen. Eu tomei a liberdade de pedir uma porção de frango a passarinho para nós, custa só vinte reais, você se importa?

- Não, cl-claro que não.

E assim dançamos, bebemos e comemos. Michel chegou com quatro beldades de arrasar quarteirão, só não mais belas que a Marcinha. Enquanto as meninas atacavam o frango a passarinho e botavam o papo em dia – sim, elas eram amigas – Michel me chamou de lado.

- E aí, já beijou ela?

- Ainda não.

- Cara, você é lerdo demais. É só chegar junto, ela tá dando mole pra você.

- Sim, mas eu já tentei duas vezes e ela se fez de difícil.

- Cara, eu conheço a Marcinha, ela é assim mesmo, faz isso só pra te deixar com tesão. Eu te garanto, hoje você come ela. Você trouxe camisinha?

- Não.

- Então pega esta. Eu sempre carrego algumas. Sabe como é,ninguém sabe quando vai precisar.

Juro que a idéia de estar com a Marcinha, no sentido sexual, carnal e até canibal ainda não tinha me passado pela cabeça, pelo menos não pela cabeça de cima. E era verdade, ela estava dando o maior mole pra mim. Mas a cada investida minha, ela recusava educadamente. Isso estava me deixando maluco, em dois sentidos: primeiro, eu estava puto de raiva porque na festa todo mundo já estava beijando alguém, e segundo, porque eu tava explodindo de tesão. E a danada sabia provocar. Olhar insinuante, língua passeando suavemente pelos lábios, poses sensuais, uma conquistadora nata, uma predadora que hipnotiza e paralisa a vítima antes do bote. Mas consegui levá-la para uma área mais sossegada,após a piscina.

- Estou doido pra te beijar – desabafei, bem perto do ouvido dela.

- Eu também, mas não tenha pressa, é que antes eu preciso...

(toca o celular dela)

Droga, bem na hora H, quando havia tomado coragem, talvez incentivado pelo escuro, ou pelo perfume dela, ou até pelo excesso de frozens na cabeça. O tom da voz de Marcinha, em segundos, tinha passado de moderado a preocupante. Ela desligou apressada.

- Tenho de ir. É o meu filho, ele tá passando mal.

- Claro, vamos sim, fique calma.

- Posso te pedir um favor? Tenho de comprar o remédio dele e não trouxe dinheiro. Entrei na festa de graça porque conheço o Benito. Você me empresta duzentos reais? Prometo que eu te devolvo assim que chegarmos lá em casa.

- Puxa, claro que sim.

- Vamos avisar o Michel que estamos indo?

Não foi difícil achar o Michel, ele estava perto do portão de saída, mostrando o seu mais novo e moderno celular para uma das amigas. Expliquei a situação para ele, que não me deixou sair.

- Negativo, cara, você já bebeu demais. Nunca que iria deixar você dirigir. Amigo sóbrio é pra estas horas. E tem mais: quando eu fui buscar as meninas, passei por uma blitz aqui pertinho. Me passa as chaves que eu levo a Marcinha na farmácia e depois pra casa dela.

- E eu? E as tuas amigas?

- Vocês esperam a gente aqui, faz companhia pra elas até voltarmos, senão fica chato eu trazer elas aqui e deixá-las na mão, certo? Quebra o meu galho enquanto eu quebro o teu.

- Ok.

Michel e Marcinha saíram da festa tão rápidos quanto seria preciso para resolver uma emergência. Eu tentei fazer companhia para as amigas, mas quando conseguia localizar alguma delas, percebi que já tinham arrumado alguém para beijar. O Michel e a Marcinha demoraram uma eternidade. As meninas cansaram de esperar e foram embora uma a uma, arrumando carona com os seus ficantes. A festa foi esvaziando, enquanto eu bebia mais e mais frozens. Fui o último a sair, junto com o Dj. Sentei no meio-fio, esperando pelo meu carro, pelo meu amigo e pela minha garota. Por estar tonto demais, nem vi a hora que o Michel chegou, mas sei que eu já escutava alguns galos cantando mais longe.

- Desculpa aí, Paulin, mas você nem vai acreditar no que aconteceu! E não é que eu tive de levar o moleque da Marcinha pro Pronto-Socorro? O menino tava passando mal esquisito, quase morreu, teve convulsão e tudo. Pensei que hoje ele passava desta pra melhor. Mas agora tá tudo bem. Quem parece que tá mal agora é você, hein? Mas pode deixar que eu te levo pra casa e de lá pego um táxi.

Agora, pensando melhor – ainda com a cabeça doendo horrores, mas sem o efeito entorpecedor do álcool – tenho de concordar que eu realmente não estava em condições de dirigir. E foi o Michel quem me trouxe pra casa. Lembro até dele dizendo que a Marcinha pediu o meu telefone e que tinha gostado de mim. Mas agora é hora de eu me tratar, de melhorar de vez, e garanto que melhoro depois de beber meia dúzia de Engovs e Epoclers.

Caminho até a garagem, pois vou de carro até a farmácia. Ao abrir a porta, vejo um papelzinho azul caído no carpete. Pego ele e leio, mas demora alguns minutos até o meu raciocínio trazer à tona a frase “Hoje ela só quer um homem que cuide dela”. A notinha era o recibo de um motel, com a data de hoje. Essa parte, eu realmente não sei onde se encaixa na história que acabei de lembrar.


Mais um texto inspirado no Duelo de Escritores. Desta vez, o desafio era escrever algo com, no mínimo, 10.000 caracteres. Forcei um pouco a barra e escrevi o conto com EXATOS 10.000 caracteres (sem contar os espaços). Espero que tenham gostado.

Fuga


"O lugar mais inóspito e distante de tudo e todos neste planetinha fica exatamente dentro de si mesmo. Mas poucos são os que acham o caminho para lá e menos ainda os que voltam."

Jefferson Luiz Maleski

Barbeiro Virtual 3D

O som 3D só funciona nos fones de ouvido. Se você ouvir no auto-falante do pc não terá graça alguma. Por isso, coloque os fones, de preferência em um horário mais silencioso, aumente o volume, feche os olhos e imagine que você está em uma barbearia. Não é pega, e apesar da narração estar em inglês, os efeitos sonoros são os mesmos. Aproveite a brincadeira.

Através do Espelho, de Jostein Gaarder

Se alguns assuntos deixaram de ser tabus, ao menos continuam sendo incômodos para os pais falarem com crianças: sexo, morte, separação, drogas etc. Uma alternativa, se você perceber que não tem jeito pra coisa, seria apelar para material de apoio elaborado especificamente pelos que tem mais tato, seja em filmes, livros ou outras formas didáticas e por que não, lúdicas. Jostein Gaarder é um escritor norueguês que escreve livros infanto-juvenis mesclando filosofia com linguagem de fácil entendimento aos jovens. Dele é o famoso O Mundo de Sofia, cultuado também por adultos. Em Através do Espelho, ele conta a história de Cecília Skotbu, uma menina com câncer terminal, que passa a receber visitas do anjo Ariel, enquanto sua família faz de tudo para animá-la em seu último Natal. As conversas e reflexões de Cecília sobre a vida e a morte são permeadas de pensamentos filosóficos, científicos e religiosos. Dois pontos negativos são: se uma criança doente terminal ler o livro e não ver nenhum anjinho ao seu lado pode pensar que há algo de errado com ela; e a mistura de evolução com criação pode confundir as crianças que já tenham conceitos familiares formados. Uma menção especial para a excelente introdução da lenda dos dois corvos de Odin, Huguin e Munin.

leitura: Maio de 2009
obra: Através do Espelho (I et speil, i en gate), de Jostein Gaarder
tradução: Isa Mara Lando
edição: 1ª, 9ª reimpressão, Cia das Letras (1998), 141 pgs
compare os preços: Buscapé
Regular

Who by fire?, de Leonard Cohen

Leonard Cohen buscou inspiração para esta música em uma das orações do feriado judaico Yom Kipur. A prece "Unetanê Tokêf" é atribuída ao legendário Rabbi Amnon, um judeu do século XXIII que teve as pernas amputadas por um monarca cristão amigo seu, somente por não querer converter-se.

A letra da música levanta a reflexão sobre a que, ou a quem, nos dedicamos. Seja pela fé, ou por amor, ou por ideologias, ou racionalismos, será há algo que justifique fazermos o mal a outras pessoas? quem devemos dizer que está chamando?
MÚSICA: Who by Fire?
COMPOSITOR: Leonard Cohen
INTÉRPRETE: Avalanche Quartet
SOM/CLIP:



LETRA:
Who by fire?

And who by fire,
who by water,
who in the sunshine,
who in the night time,
who by high ordeal,
who by common trial,
who in your merry merry month of may,
who by very slow decay
and who shall I say is calling?

And who in her lonely slip,
who by barbiturate,
who in these realms of love,
who by something blunt,
and who by avalanche,
who by powder,
who for his greed,
who for his hunger,
and who shall I say is calling?

And who by brave assent,
who by accident,
who in solitude,
who in this mirror,
who by his lady's command,
who by his own hand,
who in mortal chains,
who in power,
and who shall I say is calling?


TRADUÇÃO:
Quem pelo fogo?

E quem pelo fogo,
quem pela água,
quem à luz do sol,
quem à noite,
quem por alta provação,
quem por sofrimento comum,
quem em seu feliz feliz mês de maio,
quem por decadência muito lenta,
e quem eu devo dizer que está chamando?

E quem no solitário deslize dela,
quem por barbitúricos,
quem naqueles campos do amor,
quem por algo direto,
e quem pela avalanche,
quem pela pólvora,
quem por sua ambição,
quem por sua fome,
e quem eu devo dizer que está chamando?

E quem vem por bravo consentimento,
quem vem por acidente,
quem em solidão,
quem neste espelho,
quem por ordem da mulher,
quem por sua própria conta,
quem em correntes mortais,
quem no poder,
e quem eu devo dizer que está chamando?

Clube dos Anjos: Gula, de Luis Fernando Verissimo

Me impressiona a diversidade com que alguns escritores conseguem juntar vários temas em uma só história. Luis Fernando Verissimo é um destes. Em O Clube dos Anjos: Gula, ele conseguiu escrever uma história encomendada sobre a gula (série Plenos Pecados, da Objetiva, que aborda os 7 pecados capitais), manter o tom de suspense policial, fazer aplicações de o Rei Lear, de Shakespeare, na trama, listar pratos exóticos e comuns e ainda por cima com um tempero característico de humor. Se deixei passar mais algum, me perdoem, mas é que o cara é fera. O livro traz a história do Clube do Picadinho, composto por dez amigos de longa data que se reúnem uma vez por mês na casa de um deles para experiências gastronômicas. Mas, de uma simples associação, as reuniões acabam em tragédia quando em cada jantar um dos integrantes morre, talvez mais por culpa dele que do assassino, já que grande parte das vítimas já sabe que vai morrer. O tom de “próxima vítima” lembra O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie, só que com sabor de prato típico nacional. De brinde, as mirabolantes histórias das xipófagas lésbicas são de fazer a imaginação do leitor (leitor homem principalmente) viajar longe. Só li até agora este livro da série Plenos Pecados, mas pela excelente qualidade da edição, com os primeiros capítulos diferenciados e uma bonita capa, além do conteúdo, é claro, me deixa guloso para degustar os outros.

leitura: Maio de 2009
obra: Clube dos Anjos: Gula, de Luis Fernando Verissimo
edição: 1ª, Plenos Pecados - Objetiva (1998), 130 pgs
compare os preços: Buscapé
Bom



Edit 16.05.2009 ************

Achei um vídeo interessante feito por estudantes com frases do livro do LFV, que consegue passar uma mensagem interessante.

Castle - 1ª temporada (2009)

Castle é uma dramédia policial sobre um famoso escritor chamado Nick Castle, que terá que colaborar com a polícia quando surge um serial killer que comete crimes inspirados em seus livros. O seriado vai marcar a volta de Nathan Fillion como protagonista de seriados de TV...

http://castletv.net/
http://www.imdb.com/title/tt1219024/



1x07 Home is where the heart stops

Pessoas vivendo profundamente não tem medo da morte. - Anais Nin

Cartas de mim, ao meu eu passado

Rola pelo Orkut e por alguns sites da internet um jogo-brincadeira interessante, que revela um pouco sobre quem somos hoje e o que gostaríamos que mudasse em nosso passado. Consiste em escrever uma carta, com o seguinte mote:

Se você tivesse a chance de mandar uma carta para você mesmo no passado, o que escreveria?

Conheci o jogo no fórum de literatura Meia Palavra e deixei lá a minha contribuição. Abaixo vai uma versão adaptada para o blog da que postei por lá. E deixo aberto para que você possa também brincar, seja escrevendo a sua carta na caixa de comentários, ou em um post no seu próprio blogue (só não esqueça de deixar o link nos comentários para eu ler depois).
Dear Jeff of 1992,

Como sei que você ainda não manja nada de inglês, vou traduzir: Seu grande viado de 1992,

O que você está esperando pra comer a Kênia? Tá com medo só porque ela tem 14? Ou porque você é virgem aos 16? Ou porque o pai dela é fazendeiro no interior de Goiás e gosta de exibir a coleção de armas quando você vai na casa dela? Frouxo! Covarde! Viadiiiiiinho... Aproveita agora porque depois ela vai ficar gorda e feia e vai dar pra todo mundo menos pra você, otário. Ah, e vai por mim, o negócio é bem melhor do que você acha, quando fica imaginando a Xuxa no banheiro.

1 abraço,

Jeff de 2009
***
Caro Jefferson de 2009,

Cara, porque você foi inventar de mandar uma carta para o nosso eu de 92? Aquilo só deu merda! A menina engravidou e os jagunços do pai dela acharam a gente (você e eu) quando fugimos pra casa da tia no Paraná. Agora você esta casado com uma gorda feia que dá pra todo mundo menos pra você. E não pode nem pensar em se separar, não com os 8 filhos que você tem pra criar, já que quem cuida da casa agora é você, palhaço. Então, vai por mim, não escreve a porra de carta pro passado coisa nenhuma, deixa a coisa como está. Ou então escreva, mas só de sacanagem, manda pro carinha que tá lendo o texto no blog.

Juízo,

Jefferson de 1997