O Caminho das Pedras, de Ryoki Inoue

Compre O Caminho das PedrasO sucesso é fruto de noventa e oito por cento de suor, um por cento de talento e um por cento de sorte. Esta é a fórmula não tão secreta ensinada por Ryoki Inoue neste "manual" feito sob medida para os futuros escritores de best-sellers.

O histórico de Ryoki mostra que ele é altamente capacitado em se tratando do assunto livros. Escritor por escolha e profissão, figura atualmente no Guiness Book of Records como o recordista mundial em quantidade de livros escritos. Hoje (e somente hoje, pois amanhã essa informação poderá estar defasada), segundo o website www.ryoki.com.br, ele possui 1.075 livros publicados. Ele chegou a escrever 6 livros por mês e 128 páginas por dia. Passeou pelos gêneros de faroeste, policial, romance, biografia, entre outros. Possui livros publicados pelas várias editoras, como a Summus, Globo, Vertente, Monterrey etc.

Com tamanha criatividade e desempenho, Ryoki resolveu compartilhar algumas dicas para aqueles que desejam se aventurar no mundo dos escritores. Como eu sou um dos que se encaixam perfeitamente nesse perfil, resolvi ler para crer. E não é que muitas das dicas contidas em O Caminho das Pedras são importantes? Há procedimentos técnicos ou literários que eu nem sequer imaginava existir ou que sabia muito pouco. Apesar de publicado em 1995 e classificado como um livro técnico (os quais tendem a desatualizar rapidamente), percebe-se que muito pouco do livro cheira a coisa velha. Principalmente as orientações a respeito de criação literária, do roteiro para a montagem do projeto de seu livro, e de como convencer o editor a publicar as suas obras são incrivelmente atuais.

O autor se baseia em sua própria realidade para deixar um aviso aqueles que sonham acordados com algo que não existe. Ryoki ensina o caminho para os que querem e precisam escrever para viver, para comprar o leitinho das crianças, como ele. Se você tem uma idéia que pretende espalhar aos quatro ventos ou acha bonitinho dizer pra todo mundo que já escreveu um livro, levará um puxão de orelha. O objetivo do livro não é esse. Mas, se você almeja tornar-se um escritor sério que algum dia sobreviva daquilo que escreve, ou se simplesmente quer melhorar as suas técnicas de redação, leia O Caminho das Pedras de Ryoki Inoue. De início basta este, pois para ler todos os livros dele, você precisará de um fôlego extra para acompanhá-lo.

O seu último livro, Vencendo o Desafio de Escrever um Romance, provavelmente será uma agradável continuação na aprendizagem de seus mais novos métodos.

leitura em: Fevereiro 2007
título: O Caminho das Pedras
edição: 2ª, Summus Editorial (1995), 118 pgs
Bom
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edit 20/03/2007: Com esta resenha ganhei o 4º livro no Projeto Leia Livro. Escolhi o Sobre a brevidade da vida (L&PM), de Sêneca.

Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom

Compre Quando Nietzsche Chorou Li este livro por gostar (muito) de filosofia e por todo o barulho que a mídia fez em torno dele. Minhas expectativas quanto as questões filosóficas discutidas no transcorrer da trama foram satisfeitas, e o livro me colocou ansioso para ler as obras de Nietzsche. Quanto a história, essa deixou a desejar. Não que seja ruim, mas é um pouco monótona, com muitas descrições e prováveis interpretações de sonhos e conversas com no máximo três pessoas em um mesmo recinto. Você procura emoção ao estilo Dan Brown? Este livro não é para você. Agora, se você gosta de personagens históricos em que um pouco da personalidade é resgatada através das idéias e obras, ou se gosta de imaginar "como seria se tal coisa tivesse acontecido?", ficará satisfeito lendo Quando Nietzsche Chorou.

A história é simples: a jovem Lou Salomé procura o doutor Josef Breuer - um dos pais da psicanálise - para que trate o ex-amigo dela, Nietzsche, sem que ele saiba. Para que isso ocorra, o doutor Breuer aplica uma tática pouco convencional: pede para que Nietzsche seja o médico de sua alma atormentada - pois tem constantes devaneios sexuais com a ex-paciente Anne O - e, em troca, Breuer tratará das dores de cabeça convulsivas de Nietzsche, tentando ainda descobrir se ele almeja se suicidar. O doutor Breuer conta com o auxílio de um de seus alunos preferidos, o jovem promissor Sigmund Freud. Mas Freud é apenas um personagem coadjuvante na trama. Detalhe: todas estas pessoas existiram realmente, na mesma época.

Poderíamos concluir que a história mostra o duelo entre a filosofia e a psicologia, cada uma apontando os erros e acertos da outra? Não. Vemos mais uma troca de métodos e experiências entre as duas ciências, representadas por dois de seus mais importantes expoentes. Até mesmo nos momentos de debate acalorado entre os personagens principais, fica a impressão que sempre um acaba, de certa forma, concordando com o outro. Ao invés dos diálogos parecerem com uma partida de xadrez (ilustração que o livro tenta passar), parece mais uma conversa de comadres.

Em alguns sites da internet, é interessante notar a discussão entre os leitores filósofos e os leitores psicólogos (e todos os que se dizem entendidos no assunto) sobre particularidades acrescentadas pelo autor aos personagens. Alguns não concordam que Nietzsche seja retratado assim, outros que Breuer, ou até Freud, sejam retratados assado, e ficam numa discussão interminável e inútil. Esses leitores não aprenderam ainda o significado real do gênero ficção-histórica. Não se pode levar ao pé da letra tudo o que aparece na trama, tanto é que o autor faz uma nota ao final do livro dizendo o que é fato e o que é imaginação. Mas nem precisava tanto. Bastava um pouco de bom senso e de inteligência ao leitor. E se alguém achar que conhece o personagem melhor do que o autor retratou, escreva um livro sobre ele. É a melhor forma de acabar com a frustração. O livro deve ser encarado como diversão e como uma provável base, ainda que superficial, para se conhecer alguns pensamentos de Nietzsche, e esta idéia deve permear sempre, quando um livro for ficção-histórica.

A lição que o livro traz é a de que o homem simplesmente não funciona bem sozinho. Ele precisa de amigos, da família, do trabalho e de um objetivo na vida. Precisa se abrir com outra pessoa, confessar os seus pecados, precisa ajudar e ser ajudado. Somente assim poderá limpar a sua consciência, ou subconsciência, como desejar, dos lixos que se acumulam e tanto perturbam a paz mental humana.

O filme é uma ótima opção para os não-leitores, pois mostra exatamente o ritmo do livro, e com citações de passagens das obras de Nietzsche.

leitura em: Fevereiro 2007
título: Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept)
edição: 25ª, Ediouro (2005), 407 pgs
Regular

Sidarta, de Hermann Hesse

Compre SidartaHermann Hesse pode ser considerado um dos poucos escritores a andar na contramão da maioria daqueles em sua época e país: era um ferrenho crítico do militarismo e do espírito de retaliação alemães do início do século XX. Tanto é que teve de exilar-se na Suíça por causa de suas opiniões.

Os seus livros incluem filosofias tão diversas quanto as de Nietzsche e de Buda. Por isso foi alçado a símbolo (beatinik e depois hippie) na luta pela paz sempre que havia algum grande conflito armado, como a Primeira Grande Guerra e a Guerra do Vietnã. Ganhou em 1946 o prêmio Nobel de Literatura por sua postura e literatura pacifistas.

O livro Sidarta, publicado em 1922 depois de uma viagem que o autor fez à Índia e se converteu ao budismo, manifesta a busca interior que todos nós fazemos ou deveríamos fazer. O personagem principal, Sidarta (não o Buda, Sidarta Gautama), é alguém que procura encontrar o real sentido de sua existência e para isso vive fases bastantes distintas em sua vida: primeiro nasce e vive como brâmane na casa de seu pai, depois renuncia os bens materiais para uma vida asceta de samana, e em uma nova renúncia busca os prazeres da carne e das riquezas e por fim, observa como fórmulas de escape a morte ou o amor incondicional a outrem. Apesar de não encontrar as respostas que procura em nenhum desses lugares, consegue perceber sua evolução após cada experiência rumo a sabedoria.

A maioria das "tentações" enfrentadas por Sidarta são encontradas em nosso cotidiano. Uma pessoa que renuncia aos bens materiais sem experimentar antes os prazeres que estes oferecem tende a remoer se realmente fez a escolha mais acertada. Alguém abastado materialmente geralmente se afasta da meditação e reflexão sobre as questões importantes da vida e dá mais valor aos prazeres e riquezas resultando em um sentimento de monotonia e vazio interior. Outros devotam a vida à pessoa amada renunciando até a uma vida própria e colhem na maioria das vezes angústia porque o outro nunca estará a altura daquilo idealizado para ele. Ou ainda, alguns chegam a um momento de desespero onde nada parece ter sentido e recorrem ao suicídio como a solução final para aliviarem os seus sofrimentos. Sidarta não só experimenta todos estes altos e baixos como aprende uma importante lição de cada um deles.

Há ainda algumas considerações importantes levantadas no livro: Quem aprendeu algo novo buscando a sabedoria dentro de si próprio? Ou obteve respostas importantes somente observando (e ouvindo) um rio? Quantos precisam de mestres e de doutrinas para aprender a viver, mas esquecem que estes mesmos mestres e doutrinas não precisaram disto? E os que criticam a atitude rebelde dos filhos sem dar-se conta que estão tomando a mesma atitude que seus pais tomaram quando eram jovens? Todas essas são perguntas difíceis de responder sem alguma reflexão.

As obras de Hesse foram referência para grandes escritores, como Franz Kafka e chegaram até a influenciar a banda de rock britânico Yes, que lançou o álbum Close to the Edge em 1972, inspirado no livro Sidarta.

leitura: Fevereiro 2007
título: Sidarta (Siddhartha)
obra: Editora Globo - Coleção Biblioteca Folha, 124 pgs
Excelente
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edit 07/03/2007: Com esta resenha ganhei o 3º livro no Projeto Leia Livro. Escolhi o Contos de encantos, seduções e outros quebrantos (Bertrand Brasil), de Rogério Andrade Barbosa.

Frases

Blog é assim: a gente vai passeando pela net e pegando as boas idéias que encontra nas varandas dos vizinhos. Por isso, a partir de hoje estarei também postando frases diversas, sempre reflexivas e inteligentes. Capturei esta idéia do blog Máquina de Letras, do L. S. Alves, o qual também já incluí na minha lista de links literários.

Eis a minha frase inaugural (que por sinal nem é minha, hehe):

“Que o conhecimento não seja como o efêmero fogo que atrai os insetos noturnos à sua ruína, mas sim como o vetusto farol que guia os navegantes a um destino seguro.” (Giuseppe Cipolla, 1792-1809)

Já ouvi de muitos que o conhecimento enfuna. Se for encarado como uma forma de ser superior ou de dominar os que estão a sua volta, concordo. Mas no meu caso, o conhecimento me deixa cada vez mais ciente de minhas limitações, de meus defeitos, do longo caminho que tenho que percorrer para me aprimorar como ser humano. É o sentimento que transmite uma outra frase (esta de minha autoria) que diz "Quanto mais para o alto eu olho, mais percebo o quão profundo é o vale em que me encontro".

Mas cabe a cada um decidir o que fazer com o conhecimento que adquire, se o usará para o lado bom ou para o lado negro da força. O que os estóicos pregavam é que pra você ser verdadeiramente feliz, deve levar uma vida virtuosa e despretenciosa. Fazer o bem sem olhar a quem. Se o ensino deles persiste até os dias de hoje, inclusive com muitos adeptos, é porque deve pelo menos, ter um sopro de verdade.

É importante considerar que conhecimento é poder (mas a recíproca nem sempre é verdadeira) e, como o Homem-Aranha veio a descobrir tragicamente logo no início de sua carreira de herói, "com grande poder vem também grande responsabilidade". Uma mestra certa vez me ensinou: imagine dois homens andando à beira de um lago e repentinamente avistam um menino se afogando. Qual deles tem maior responsabilidade de salvar o garoto: o que sabe nadar ou o que não sabe? De qual deles pode-se cobrar justificadamente uma atitude? Entendeu o que quero dizer? Então me diga qual a sua opnião a respeito.

Como Atirar Vacas no Precipício, de Alzira Castilho

Clique e compre!Imagine uma existência prévia em um mundo de idéias antes da existência no mundo material. Desta forma, se pode concluir que tudo o que é visto agora já estava, de algum modo, em outro lugar aguardando para ser assim. Um dos ensinamentos mais importantes de Platão nos fala exatamente sobre isso. Mas, e se antes de pensar em termos de seres humanos, visualizasse isso ocorrendo com os livros? Sim, livros existindo em outras dimensões antes de aparecerem fisicamente em nossas mãos: ou na mente do escritor, ou em tradições orais repassadas por uma cultura, ou em um conjunto de idéias de vários pensadores, ou na biblioteca ou livraria antes de o adquirimos, ou até, mais recentemente, espalhados pela internet. Esta última faceta é justamente o que ocorre no livro Como Atirar Vacas no Precipício, de Alzira Castilho. Como organizadora, Alzira soube usar um olhar bastante perspicaz para transformar em livro um dos aspectos mais informativos existente na internet: aqueles e-mails que se costuma receber dos amigos contendo mensagens de conforto, esperança, alegria, amor, fé, enfim, que levam o leitor a uma reflexão mais profunda da vida.

Apesar da idéia não ser nova (o livro Manual Hacker, por exemplo, da editora Book Express, há alguns anos, reúne informações técnicas sobre falhas de segurança na internet), foi a primeira a fazer uma compilação de parábolas e de contos atemporais que deliciosamente se espalham através de correntes de e-mails. Eu mesmo já recebi e enviei algumas das parábolas contidas no livro para a minha lista de contatos virtuais. Agora também poderei presentear os conhecidos que não acessam a internet, pois o livro certamente é um belo e útil presente a pessoas de todas as idades. A sabedoria nunca envelhece.

As parábolas, lendas e mitos são histórias que tocam a alma. Diz-se que falam das verdades essenciais contidas no subconsciente humano, daí o forte e instantâneo elo com o leitor. As parábolas são aceitas universalmente como a forma ideal de transmitir ensinamentos complexos em poucas palavras a pessoas comuns. Jesus, Buda, Maomé, só para citar alguns dentre os grandes mestres, utilizaram intensamente este recurso para ensinar.

O livro pode ser lido em poucas horas, não por ser pequeno, mas por sua leitura ser fácil e gostosa, com histórias curtas com no máximo três folhas. Mas é na compreensão dos ensinamentos que cada parábola transmite que se precisa parar para refletir. Isso significa que nem todos compreenderão o significado, aquela famosa moral da história, na primeira vez que lerem, “porque naquele tempo não estava pronto para compreender”, conforme ensina a parábola O homem que queria ser feliz.

O livro fora lançado em comemoração ao primeiro aniversário da editora Panda Books, em 2000. A impressão que deixa é uma produção com bastante carinho, capricho, intenção de agradar e conquistar o leitor. Isso é bom, pois mostra que a editora respeita e tem consideração para com o seu público. As ilustrações diferentes e divertidas de Sírio Braz – que lembram muito as que aparecem nos cordéis – complementam a obra, transformando-a em referência para futuras consultas.

O título Como Atirar Vacas no Precipício vem da primeira das sessenta e três parábolas, e todas trazem ao menos um ensinamento importante sobre a essência do amor, da amizade, da tolerância, do autocontrole, da vida e da morte. Se gostar de ler histórias que levam a reflexão pessoal, ou se costuma enviar e receber e-mails com mensagens otimistas, ou se procura um bom presente para um ente querido, ou mesmo se deseja saber como atirar vacas em um precipício pode melhorar a sua vida, Como Atirar Vacas no Precipício é o que você precisa.

resenha em: Shvoong.com
leitura em: Fevereiro/2007
próximo da lista: Bhagavad Gîtâ - A Mensagem do Mestre

O Show do Ano

Finalmente tomei coragem e chamei Marisa para sair. Não é que eu já não tivesse chamado alguém para sair antes, mas é que com a Marisa era diferente. Era uma situação sensivelmente mais complicada, pois havia algo em mim que sempre barrava as minhas ações, como que me auto-examinando repetidas vezes em busca de prováveis falhas, para que nada de errado acontecesse. Afinal, tudo relacionado a Marisa deveria ser perfeito.

Depois de dois meses de treinamento intensivo em frente ao espelho, de várias oportunidades de conversa perdidas por ela estar sempre acompanhada das amigas (é mais fácil recusar um convite quando se está em grupo), encontrei-a finalmente sozinha na lanchonete da cantina. No que viria a ser uma de minhas melhores atuações teatrais, precisa e exaustivamente ensaiada, a convenci que eu ganhara dois ingressos sorteados pela rádio para o show do ano, no qual todos queriam ir, e tive de conter uma explosão de alegria quando ouvi um inacreditável e divinal sim saindo de sua boca. Minha tática maquiavélica fora simples: Comprei os melhores ingressos algumas semanas antes do show. Na véspera, quando a bilheteria já estava totalmente esgotada, dei o bote. E de um reles conhecido que somente trocava alguns ois pelos corredores do colégio fui alçado à posição de acompanhante da Marisa no show do ano.

E este com certeza seria o show do ano. Mesmo que chovesse. Mesmo que a banda não aparecesse. Mesmo que ninguém aparecesse. Bastava que a Marisa estivesse lá. Comigo. Eu estava convicto que esse show seria inesquecível. Como realmente foi.

Comprei uma roupa nova, peguei emprestado o carro de meu pai, saquei no banco mais dinheiro do que conseguiria gastar em uma noite, tudo por Marisa. Na hora marcada, estava na porta da casa dela e fui recepcionado pela sua mãe. Espere no sofá que ela está quase pronta, foi a explicação que ouvi. Entendo porque as mulheres nos fazem esperar: tudo aquilo que é bom deve nos custar algum tempo e esforço. E certamente valeu a pena, pois Marisa estava excepcionalmente linda. Ela chegava mesmo a estar radiante. Os seus cabelos castanhos estavam arrumados de um jeito que eu nunca notara antes no colégio. Seu perfume era mais adocicado do que aquele que eu já me acostumara sentir ao passar por ela nos corredores. Na certa esse era o que ela usava com os poucos seres agraciados com a dádiva de sua companhia em particular. Sua roupa realçava um jeito extrovertido e festivo, e apesar de não ser imoral, provocou uma imediata sensação de excitação em mim.

No caminho do show, conversamos sobre vários assuntos. Eu até descobri que ela trabalhava como auxiliar em uma clínica odontológica no centro da cidade. Deduzi que teria que começar meu tratamento dentário em breve. Ela parecia particularmente interessada em saber mais sobre mim, minha família, meu emprego, e gostei de compartilhar com ela um pouco da minha existência. Sentia que algo entre nós começara a nascer naquele momento.

O show estava ótimo. Eu me sentia imponente com Marisa ao meu lado. O seu sorriso era todo voltado para mim. Eu estava sonhando e não pretendia acordar tão cedo. Se dependesse de mim, talvez não acordasse nunca. Dançamos juntos, dançamos separados, dançamos várias músicas, até uma em um ritmo mais lento que deixou os nossos corpos muito próximos. Senti o seu calor, o seu aroma, até mesmo o seu hálito perfumado. Só faltava uma coisa: sentir o seu beijo. Eu estava muito nervoso, com as mãos suando frio e com a boca seca, e resolvi comprar uma bebida para dar um pouco mais de coragem. Também precisava jogar um pouco d'água no rosto. Era chegada a hora de novamente colocar em ação os meus recém descobertos dotes teatrais ao que já estava meticulosamente planejado: chegaria somente com um copo de bebida e o daria a ela; depois, assim que ela bebesse um gole, me aproximaria mais e pediria para experimentar o sabor, só que não o sabor da bebida, mas o de seus lábios. O plano soava perfeito.

Mais seguro de mim, com o copo em mãos, retornei ao local onde havia deixado Marisa. Ao avistá-la, paralisei de imediato. Ela não estava mais sozinha. A princípio, recusei acreditar, talvez não fosse ela. Olhei desesperadamente em vão ao meu redor, mas a roupa, o cabelo, a altura, tudo pertencia a Marisa. Era ela. A imagem que entrou através da retina chegou em frações de segundos até o cérebro que, entorpecido, a remeteu junto com uma descarga alucinante de adrenalina para o coração, o qual ainda insistia em bater, mas desta vez batendo pra machucar com força, e o coração enviou a única resposta natural, lenta e dolorosa, que rasgava tudo o que encontrava em seu caminho até finalmente explodir em meus olhos, que se encheram de lágrimas instantaneamente. Marisa estava beijando outro. Apesar de todas as imagens ao meu redor estarem borradas, aquela imagem de Marisa já estava nitidamente marcada em mim. Mesmo fechando os olhos, ainda continuava a vê-la. Voltei rapidamente antes que ela me visse, andando às pressas em meio à multidão até um lugar onde mais ninguém me visse. Um lugar onde eu não visse a mais ninguém.

Como pude ser tão burro? O que Marisa veria em alguém como eu? Em meio as tremedeiras e soluços, as perguntas choviam por todos os lados, cada uma disputando qual me torturaria mais. Repentinamente, uma pergunta se destacou das demais: O que eu faria agora e como superaria o meu constrangimento naquela situação? Bem, a atitude mais racional a tomar seria voltar e conversar com Marisa, pelo menos para ouvir o que ela teria a dizer ou para vê-la rir da minha cara ou até para receber o tiro de misericórdia.

Voltei. Eles ainda estavam lá, mas agora abraçados. Desta vez Marisa me viu chegar, e entreguei o copo de bebida a ela. Ela me apresentou a um tal de Paulo, seu conhecido de outras festas. E eu fui apresentado como o-amigo-do-colégio-que-lhe-dera-carona-para-o-show. Minha novíssima representação improvisada de indiferença deve ter convencido, pois algumas músicas depois, os dois voltaram a se beijar, bem na minha frente. Assisti mazoquistamente a cena repetidas vezes até o final do show, somente com alguns breves intervalos quando Marisa me perguntava se eu não queria que ela me apresentasse alguma amiga sua. Talvez estivesse sentindo dó de mim. Polidamente, recusei todas as ofertas. O show acabou, os dois se despediram (com mais beijos e abraços e carinhos), e a levei de volta para casa. Antes de descer do carro, Marisa me deu um beijo na face - tal qual Judas - e disse que nunca tivera um amigo tão legal quanto eu. Eu também nunca antes fora um amigo tão legal dessa maneira.

O ser que sobrou de mim depois daquela noite tinha a certeza de que eu estivera o tempo todo certo: aquele show do ano fora realmente inesquecível.

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Humpf!

A pior tortura aplicada pelo chefe é mandar ir ao banco às três e meia da tarde de uma sexta-feira. É mil vezes pior que mandar fazer o café. É um milhão de vezes pior que mandar fazer hora extra no sábado. Enfim, é o pior castigo que existe no universo office-boy. Mas foi o que o chefe fez comigo. E justo depois de passar o dia todo me atazanando.

- Marcinho, cadê os papéis que pedi pra você pegar pra mim?

- Deixei na sua mesa, doutor Fonseca.

- Marcinho, onde você tava agora a pouco? Procurei e não te achei em nenhum lugar.

- Tava no banheiro, doutor Fonseca.

- E você ficou os últimos quinze minutos lá? Por acaso você tá com dor de barriga, é? Marcinho, Marcinho, tô de olho em você, menino.

- Sim, doutor Fonseca.

- Você ainda está aí, Marcinho? Eu não te mandei ir ao banco?

Cheguei ao banco em uma correria só. Para variar, a fila era um rio amazônico de pessoas. Desisti de contar quantos estavam na minha frente. Acima de trinta desanima pra caramba. Se ao menos tivesse lembrado de trazer alguma coisa para ler. Empurrar o tempo para a frente mais depressa. Eu nem me importaria de pegar uma fila quilométrica se todos nela fossem uns Marcinhos da vida. Pobres-coitados como eu. Mas não são. É a velhinha com atendimento preferencial passando na frente com trocentos papéis para pagar.

- Ô tia, idoso tem preferência mas isso aí já é abuso!

- Estou no meu direito.

- Sei, e a senhora quer me convencer que todos estes impostos de diferentes empresas são seus? Garanto que alguém lá fora te deu déizão pra senhora pagar as contas dele. Fala sério, acertei ou não acertei?

- Humpf!

- Humpf!

Dizem que existe uma lei contra filas em banco. Que o banco é multado se mofarmos por mais de trinta minutos lá dentro. Mas, e a multa vai para o bolso de quem? No meu é que nunca entrou! Onde estarão os mitológicos agentes do PROCON numa hora dessas, quando mais se precisa deles? Talvez lá no PROCON também tenha fila nas sextas-feiras à tarde.

Se pelo menos houvesse algum conhecido na fila para me ajudar. Afinal, são só duas continhas para pagar e um depositozinho. Mas não vi nenhum rosto familiar. Enquanto isso, comecei a babar na morena que entrou no banco alguns minutos depois de mim. Pense numa morena gostosa... pensou? Essa era dez vezes mais gostosa! Ela abordou o cara na minha frente e pediu para ele pagar umas contas. Eu não resisti: enxuguei a baba e cutuquei o seu ombro.

- Oi.

- Oi!?

- Você tá entrando na minha frente, mas você eu deixo, viu princesa?

- Obrigada.

- Será que não rola o número do seu celular não?

- Que isso cara! Você tá mexendo com a minha namorada? - encrencou o cara da frente, que não era maior  que eu, mas parecia bem mais nervoso.

- Nã-não tô não, foi só uma brincadeira. Pra descontrair a fila.

- Sei. Humpf!

Ufa, dessa vez foi por pouco. Brigar, depois de tanto tempo na fila, seria um convite para o segurança me colocar pra fora. O que eu diria depois para o doutor Fonseca? Mas se fosse em outro lugar esse mané iria ver. Ah, o bicho iria pegar pro lado dele! Faria a cara dele virar carne-moída, isso sim!

Uma hora, trinta e sete minutos, doze segundos e alguns milésimos depois, chegou a minha vez. Com o banco já fechado, olhei com ar de superioridade para o último condenado da fila. Coitado! Eu estarei em casa e ele ainda aqui, na fila. O bom é que vou direto para casa com a desculpa pronta para o seu Fonseca de que fiquei no banco até depois das seis. Afinal, todos sabem como é fila de banco na sexta-feira. Até o insensível do seu Fonseca.

O momento mais importante da fila, o quase-clímax, são aqueles segundos que esperamos antes do caixa chamar "Próximo!". Somos os atletas no pódio aguardando as medalhas olímpicas. Degustamos cada momento, olhamos para cada rosto, imaginamos como invejam a nossa sorte grande. Eu divagava prazeirosamente nestes pensamentos quando ouvi uma voz alta atrás de mim:

- Todo mundo parado, isso é um assalto! Vão colocando as carteiras, bolsas e celulares aqui na sacola.

Eu não acreditei. Isso não estava acontecendo comigo. Não ali. Não naquele momento. Foi quando o meu coração disparou, o rosto começou a suar e não ouvi mais nada, senti as minhas pernas começarem a andar automaticamente até o cidadão.

- Pára aí moleque, senão te meto uma bala!

Com um golpe rápido e certeiro - não sei como - tomei a arma do bandido. A minha raiva era tanta que só consegui dizer:

- Vai pro final da fila e fica quieto que agora é a minha vez. Depois que pagar minhas contas eu te devolvo o revólver. Ora essa, onde já se viu. Humpf!


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Texto revisado em 05.04.2011, para o Duelo de Escritores. O original pode ser lido no Recanto das Letras.