Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade


Poema de Sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Do livro Alguma poesia (1930), de Carlos Drummond de Andrade.

Ilha da Magia

Eles vão ver, eles vão ver, era o que o homem repetia para si enquanto a chuva assolava violentamente o barraco pelo lado de fora. Depois de semanas de trabalho, finalmente estava pronto para dar o próximo passo. Demorara tempo demais para pensar em algo grandioso, mas valeu a pena. Um relâmpago iluminou a janela riscando o céu escuro. O homem pensou que faltava somente uma risada sinistra para completar o quadro. Um maluco metido a feiticeiro moderno já havia. Uma bomba caseira de destruição em larga escala, recém montada em cima da mesa, também. E, para finalizar, um plano totalmente insano: explodir o prédio do Fórum da Comarca de Florianópolis.

Poderia justificar tal atrocidade como sua a vingança pessoal pela prisão injusta no final de 2010, como suspeito, acusado e culpado, ou somente como bode expiatório, da morte de um grã-fino que sequer sabia o nome. Ou ainda poderia dizer que fora por causa do circo jurídico que montaram para incriminá-lo. Ou por causa dos meses que sofreu nas mãos dos companheiros de cela. Mas não. Faria pelo simples prazer de ser mau. A sociedade o transformara na pior espécie de homem, e agora ele iria mostrar a sua nova cara.

Quantas noites insones tivera tentando entender a morosidade intencional da Justiça (que piada!) para se resolver o equívoco de o prenderem enquanto voltava de uma festa. Uma festa em que estivera trabalhando por doze horas, e que o patrão preferiu não se manifestar certamente para não precisar pagar as duas últimas semanas que lhe devia. Não teve chance de contatar a família, pois viera de longe fascinado pela promessa de ganhar dinheiro trabalhando como temporário nas festas de fim de ano da ilha. Enfim, foi o idiota certo na hora certa e no lugar certo para ser fodido enquanto o verdadeiro culpado saia ileso. O advogado nomeado para defendê-lo gratuitamente nem competência ou vontade para um habeas corpus teve. Foi jogado em uma cela com gente que nunca antes chegara a conviver por ser homem honesto, trabalhador e pobre. Pelo menos ali dentro estava entre homens verdadeiros, todos queriam ferrá-lo e não escondiam suas intenções. Brigou e apanhou todos os dias durante oito meses, mas ninguém comeu o seu cu. Adaptou-se. Fez amizade com assassinos, traficantes, estupradores, maníacos e outros profissionais tão benquistos no ramo da bandidagem. Sabia que seria esquecido ali ou até mesmo assassinado para queimá-lo como única prova viva de que alguém importante saíra impune no crime que lhe fora imputado. Quando soube que alguns traficantes planejavam uma fuga em massa, não hesitou.

Foi um dentre as dezenas que escaparam do Complexo Penitenciário. Vinte e seis de junho de dois mil e onze. Sua nova data de aniversário. Enquanto a maioria dos fugitivos corria para o Morro do Horácio, e levava assim toda a polícia atrás, ele preferiu separar-se do grupo e esconder-se sozinho na tubulação de esgoto. Os policiais limpinhos e seus vira-latas tratados a ração não iriam entrar na merda para procurar só um fugitivo. Percebeu que o seu plano dera certo quando atravessou todo o Bairro Trindade e saiu longe do cerco policial. A noite ajudou a passar como mendigo por muitos que nem sabiam da fuga. Em outra época, teria sentido frio na barriga, aquela adrenalina e medo por ser capturado. Mas não agora. Agora o que sentia era raiva no seu estado mais puro e belo. Raiva de um sistema que o tratou como lixo e de quem iria à forra, embora ainda não soubesse como.

Andou uma eternidade até o Morro da Cruz. Escolheu um barraco que fosse afastado das outras casas, mas com eletricidade e antena de TV. Invadiu e matou a velha que estava só, dormindo no sofá. O seu plano era esconder-se durante o dia e sair à noite quando se acostumasse com a região. Enterrou o corpo no quintal numa madrugada. Por sorte, a despensa da velha tinha comida para um bom tempo. E ninguém apareceu para incomodar. Ela deveria ser sozinha, como ele. Pior pra ela.

Enquanto sua raiva maturava, foi justamente a TV quem lhe trouxe a solução: um norueguês maluco havia explodido uma bomba e matado muitas pessoas para passar sua mensagem. Um sorriso surgiu na sua face, era exatamente o que iria fazer, e já sabia contra quem. Explodiria todo o prédio e os calhordas que se autoproclamavam defensores da justiça. Havia aprendido o básico para fazer bombas na prisão. Conseguiu um carro chamando um táxi para as imediações. A velhinha não ficaria mais sozinha em sua cova. Os explosivos roubou em uma empresa de detonações em Palhoça. E agora ali estava, admirando a sua obra-prima, que lhe resgataria um pouco da dignidade perdida. Foi quando sentiu a tempestade piorar. Resolveu pegar o pacote para guardá-lo no carro, mas sentiu o chão ceder sob seus pés. A última coisa que viu foi um clarão em suas mãos. O barulho da explosão confundiu-se pela vizinhança com os trovões. No local onde antes havia um barraco, restara apenas um monte de escombros fumegantes. Por pouco tempo, pois o deslizamento provocado pelas chuvas varreu o que restava dos escombros, membros humanos e sentimentos de ira e vingança.

Jane Eyre (2011)


Sinopse: Depois de morar na casa da tia, órfã é enviada para estudar em um internato. Quando se torna adulta, ela começa a trabalhar como governanta na casa de um homem misterioso e acaba se apaixonando por ele. Baseado no romance homônimo da escritora inglesa Charlotte Brontë e publicado em 1847. Apesar da adaptação recente (2006, BBC) em forma de minissérie para TV ter recebido boas críticas, gostei muito da fotografia e das excelentes atuações, principalmente da atriz australiana Mia Wasikowska, nesta mais nova adaptação do livro. O trailer abaixo não tem legendas, pois o único que encontrei legendado no Youtube não permitia visualizações externas.

Trailer:

Jantar



Papai canibal chega em casa e encontra o filho brincando com um boneco vodu. 
- Filhão, trouxe este folheto para você escolher o nosso jantar de hoje. 
- Ah, pai, carne mal passada de novo?

Uma imagem em 35 palavras


Admirava a lua perfurando o manto negro da noite, admirava a silhueta feminina, hipnótica, provocativa, vindo em minha direção, tinha a certeza de que algo inusitado aconteceria entre nós quando ela olhou para mim e

Parábola pouco provável

Plínio Pedrosa Pompeu, pequeno príncipe primogênito, proclamado previamente Pretor português, perdeu-se pequenino para pirataria, possivelmente procurando por proteção para peste pulmonar precipitava profligar Portugal. Pobre pequeno, privações profundas prevejo para Plínio, pensava Pompeu pai, porém padeceria piores pesares permanecendo português. Precipitou-se, porém, papai Pompeu, pois pequeno príncipe passaria para posteridade por perdido.

Partiu Plínio, passaram-se primaveras.

Posteriormente, perdido passado principesco, pouco pareceu-se pequeno Plínio por príncipe, progrediu para proclamar-se potente Pompeu Pancadão, poderoso pirata pagão. Promovia pancadarias, projetava pandemônios, praticava pérfida pirataria pelas praias. Percorreu perigosamente pelo Pacífico, passando por Panamá, Peru, Paraguai. Pilhou portos, prefeituras, palácios, povoados, pegando pertences, pedras preciosas, pinturas, papéis públicos, patrimônio palpável para permitir provisões para pirata permanecer. Pompeu Pancadão periclitava-se por prazeres perigosos, perdeu perna para peixe-serra, permanecendo perna-de-pau perneta por período penoso. Pelo pirata Pompeu Pancadão pendurava-se pequena papagaia parda, Paulette Parrot, pintada para parecer pássaro-preto, projetando palavrões para provocar pessoas propensas para problemas psicológicos: palhaços, panacas, punheteiros, piranhas, porcos, putos, prostitutas, peidorentos, pulhas. Pois Paulette Parrot prestava pouco, perseguia perversamente patos, pintos, pelicanos, pombos, pintassilgos, podando penas, patas para produzir penachos procurados por peruas parisienses. Paulette prejudicava Pompeu para praticar piedades.

Porém, padre Pelágio, pároco protegido pelo patrono Papa Ponciano, pego pelos pais-nossos pedidos pelo peregrino penitente português Pompeu pai, prometeu procurar príncipe perdido para pátria portuguesa. Prazer particular para padre Pelágio poderia produzir, pois possuía propensão piedosa para pescar pobres pessoas perdidas. Pensava: prevalecerá preferência popular pela promessa paradisíaca, pelo perdoar pecados passados, pela paixão pelo Pai. Portanto, pegou papéis papais, panfletos para passar para penitentes, precipitou-se para procurar Pompeu Pancadão. 

Podemos predizer perfeitamente passos-a-passos previstos para pessoas pelos planos projetados pela Providência? Padre Pelágio partiu para procurar Pompeu, perguntando, pedindo pistas percorreu pastos, picadas, passou por pontes, palácios, pântanos, porém precisou pernoitar pois parecia perdido. Procurou pouso pacífico pelas propriedades, parou perante pousada pouco produtiva, pobre, parca. Pediu por pão, peixe, porco pururuca, passas, pudim. Parecia pálido, permaneceu paralisado, pudico, perturbado perante presença piromaníaca. Paula Prost, prostituta performática, provocava pornograficamente prazer prostrando pés, pernas, peitos, piercings, perucas. Pelada, projetava peçonha perante pobres presentes. Padre Pelágio previu paixão, propôs precipitadamente parceria, por Paula perderia posto, perderia paróquia, perderia provavelmente Paraíso. Porém, Paula Prost pertencia publicamente Pompeu Pancadão. Porém, Pompeu pagava pouco. Pensativa, Paula preferiu perder-se pela paixão primeva. Pois poderia posteriormente promover-se pessoalmente para Papa Ponciano. Partiram pelas paragens para perderem-se por povoados, praticando perversões pouco perdoáveis.

Pompeu Pancadão pilhava pessoas por produtos. Porém, por permanecer pão-duro privou-se permanentemente perder-se por Paula Prost, pelas pernas parrudas, perfeitas, pelos peitos provocantes, protuberantes. Pegou Paulette Parrot pelo pescoço, projetou-a pela praça para permanecer prostrado pensativo pelo pátio, perguntando-se porque perturbava-o pequenas palavras pares piscando pelo pensamento: perdeu playboy.

Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores de 31.07.2011, sob o tema "palavras iniciadas em p".