Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca

Compre Sobre a brevidade da vidaA filosofia estóica me fascina. Como pensamentos tão simples e antigos podem mudar nossa maneira de ver a vida tão profundamente? Primeiro passeei com Epiteto em A Arte de Viver e ele me confidenciou o segredo da felicidade. Agora Sêneca mandou uma carta me mostrando como viver mais, em Sobre a Brevidade da Vida. Se continuar nesse ritmo, em pouco tempo conhecerei todos os mistérios do Universo, até que sabe decifrarei o maior de todos eles: as mulheres!

Quisera eu que todos tivessem acesso aos clássicos gregos, principalmente a tratados filosóficos como este, fáceis de ler e de rápida assimilação, para se lambusarem neste manjar. O problema nem mesmo chega a ser o preço, afinal, os livros da Coleção L&PM Pocket Plus custam apenas R$ 6,00. É isso mesmo, o livro é mais barato que a xerox dele! O que está faltando mesmo em nós é estímulo para trocar as baboseiras da TV por algo que faça realmente a diferença na vida (o livro fala disso, não é inspiração minha).

A vida de Lúcio Anneo Sêneca já daria um ótimo livro: Ele foi tutor de Nero. Não pense que por isso ele era ruim. Sabia que Nero no início era um bom imperador? Graças a quem? Exato. Somente depois que Nero se afastou da filosofia e dos bons conselheiros é que virou o tirano que o mundo conhece. Chegou ao ponto de condenar Sêneca ao suicídio, por uma suposta tentativa de golpe. Diz-se que ele serenamente cumpriu sua pena, de forma bastante lenta e dolorosa.

Sêneca não nos conta nada de novo, mas a maneira simples como o diz é o que cativa o leitor. Acredito que a tradução moderna (2006) feita direto do latim por 3 tradutores ajudou bastante. Mostra que a L&PM além de um preço acessível também quer mostrar qualidade.

O livro é escrito em forma de epístola (carta) a alguém chamado de Paulino (supostamente o sogro de Sêneca) e mostra pérolas de sabedoria como esta: "Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo." (pg. 43). O interessante é que pela fórmula ensinada no livro, podemos facilmente viver cem, quinhentos, mil anos. Dissertando sobre a vida, consequentemente também somos ensinados a encarar a morte. E como bônus, mostra-nos um ponto de vista bastante original sobre os prazeres, a educação e a amizade.

Não comprei este livro, ganhei no Projeto Leia Livro. Mas vou aproveitar para aumentar a minha biblioteca com as ótimas obras que aparecem no catálogo da L&PM. Livro bom e barato? É comigo mesmo!

leitura em: Março 2007
título: Sobre a brevidade da vida (De brevitale vitae)
edição: 1ª, Coleção LP&M Pocket Plus nº 548 (2006), 84 pgs
Bom

O Pistoleiro, de Stephen King

Compre O PistoleiroEm todo início de saga praticamente segue-se a mesma receita de bolo: apresentam-se as personagens principais, resolvem-se alguns probleminhas iniciais da jornada e levantam-se vários mistérios a serem desvendados ao longo de cada volume. Não pode ser tão chato ao ponto de ninguém querer ler a sequência nem tão explícito que todos julguem que já sabem o final.

A Torre Negra é o universo paralelo criado por Stephen King, mestre do gênero terror. Primeiro da série de sete volumes, O Pistoleiro conta a história de Roland de Gilead, que é (dããr) um pistoleiro. O livro todo narra a perseguição de Roland ao Homem de Preto, um bruxo que poderá lhe levar à Torre Negra. Como o Homem de Preto fará isso não é mostrado, nem por que Roland quer chegar até a Torre, nem o que a Torre faz especificamente, somente cita-se que ela controla o espaço e o tempo. Fica no ar a impressão do início de uma ficção com viagens no tempo ou inter-dimensionais. Não sei se meu chute vira gol, mas quem já leu as sequências poderá dizer se estou mais para quente do que para frio em acertar o fio da meada.

Na perseguição, Roland se depara com algumas questões existenciais (comum a todo herói) e tenta resolvê-las recorrendo a flashbacks que revelam mais sobre sua personalidade. Várias figuras e lugares exóticos acompanham ou cruzam com o pistoleiro em sua perseguição, ora ajudando, ora atrapalhando. Entre estes estão fanáticos religiosos, um morto-vivo, um menino da Nova York de 1977, um fazendeiro solitário, um oráculo, um demônio e uma amante carente. Cada encontro acrescenta algo em Roland, seja interior ou exteriormente, assim como ocorre conosco: cada pessoa que entra em nossas vidas modifica algo em nós. Aprendemos até mesmo de nossos inimigos.

O universo criado por King remete a uma mistura de faroeste pós-apocalíptico com O Senhor dos Anéis com citações e personagens bíblicos. Esta mistura nos conduz a um lugar entre a realidade e a ilusão, o futuro e o presente, criações do autor e de outros escritores. Várias outras obras de King, mais famosas até, trazem referências à Torre Negra. Eu só li Insônia, mas percebi onde aparece a referência. Se a intenção do autor foi deixar pistas em cada obra sua para uma compreensão maior da saga, ele usou um artifício genial.

O livro é composto de 5 contos, escritos em anos diferentes a partir de 1978, mas em uma nota aos leitores, King revela que começou a escrevê-los bem antes, ainda em 1967, quando tinha apenas 19 anos. E o 19 acaba sendo um número mágico no livro. Algumas partes foram refeitas ou acrescentadas ao original para corrigir falhas e dar mais nexo sequencial à saga.

Só pude notar dois erros na história, que podem até ser propositais: Primeiro, fiquei curioso em saber em qual lugar o pistoleiro perde o seu chapéu, pois em um cenário (cidade de Trull) ele está com ele, e em outro (com Brown) não está mais. E segundo, a dona do saloon é chamada por dois nomes diferentes, dependendo dos contos, Allie ou Alice. Até pensei em erro de tradução, mas depois que vi os dois nomes sendo usados na mesma página, passei a desconfiar que o motivo não seria este.

Falando em tradução, este livro está melhor traduzido do que Insônia, pois não são usadas gírias antigas ou regionais díficeis de entender. Além disso, a capa e a impressão da obra como um todo são puro luxo, praticamente uma edição de colecionador. A editora caprichou.

Acredito que lerei o volume II este ano, mas já ouvi comentários que a coisa começa a pegar fogo lá pro volume III. Minha velocidade só dependerá das promoções e do tempo disponível. Caso você queira saber mais detalhes, a Objetiva disponibilizou um site exclusivo da série (www.torrenegra.com.br). Listo abaixo a relação dos títulos de A Torre Negra:

Volume I: O Pistoleiro (The Gunslinger)
Volume II: A Escolha dos Três (The Drawing of the Three)
Volume III: As Terras Devastadas (The Wastelands)
Volume IV: Mago e Vidro (Wizard and Glass)
Volume V: Lobos de Calla (Wolves of Calla)
Volume VI: Canção de Susannah (Song of Susannah)
Volume VII: A Torre Negra (The Dark Tower)

leitura em: Março 2007
título: O Pistoleiro - A Torre Negra vol. 1 (The gunslinger)
edição: 1ª, Objetiva (2004), 221 pgs
Regular

Inteligência versus Preconceito

A quantidade de preconceito que cada um de nós tem é inversamente proporcional a de inteligência.

Jefferson Luiz Maleski

Vida de Herói

O herói aterrissara no beco a procura da voz que clamava por ajuda. Deparou-se somente com um garoto meio que entre sujo e maltrapilho, que o observava com dois pequenos olhos sagazes. Quando indagado sobre qual o perigo iminente capaz de levá-lo a solicitar os préstimos do herói, limitou-se a responder que, por meio daquele pequeno ardil, o atraíra para relatar algo que era de seu interesse.

Um pouco contrariado com aquela situação inusitada, mas já que estava ali, pensou que mal não haveria em ouvir o que o jovem teria a dizer. Afinal, os seus atos heróicos acrescentavam diariamente milhares de fãs ao redor do mundo que o consideravam um modelo na luta pelo bem e pela justiça. Até aquele momento salvara milhares de pessoas e até o planeta algumas vezes. Era preciso fazer o social de vez em quando. Pegava bem para a sua imagem profissional.

Após um audível e longo suspiro, daqueles que costumam preceder declarações incômodas, o garoto falou. Primeiro pediu de maneira educada para que não fosse interrompido e que o herói apenas ouvisse atentamente. Prometeu ser breve, pois não desejava atrapalhar demasiadamente as atividades do herói naquele dia de sol.

Começou com uma frase inédita para os ouvidos do herói: disse que sentia muita pena da vida que o herói levava e que sabia exatamente o motivo de sua depressão. Com um leve ar de espanto o herói ouviu o garoto explicar que considerava não somente muito solitário alguém ser o último espécime vivo de sua raça, mas também que intrometer-se sem ser chamado na vida das pessoas de outro planeta era um sinal claro de solidão. Os solitários buscam desesperadamente a atenção para si, mesmo inconscientemente, justificou. E o pior era que, segundo o garoto, a pretensa ajuda do herói provava constantemente a incompetência humana em resolver suas próprias dificuldades. A humanidade seria como uma criança travessa superprotegida pelos pais, que conseqüentemente nunca aprenderia sobre a responsabilidade. Caso somente os com super poderes fossem capazes de resolver os problemas então a humanidade como um todo estaria fadada ao fracasso. Pela lógica de Darwin, sobrariam somente os heróis.

Explicou ainda que os inocentes (crianças e loucos) que acreditassem no herói e começassem a pular de prédios, a dispararem as armas uns contra os outros e a tentarem ser mais velozes que trens e ônibus, assim como o herói fazia sem esforço algum, acabariam machucados ou até mortos. Se as crianças descobrissem, pela teoria ou pela experiência, que aqueles atos seriam eternamente impossíveis para elas, perderiam a sua confiança ingênua no sonhar. Sentir-se-iam enganadas. Depois de vários anos e de muitas sessões de terapia talvez fossem recuperadas.

A parte que mais pareceu afetar o ouvinte foi quando o menino disse que o herói era injusto com os bandidos. Enquanto o herói fora adotado por uma família que lhe dera amor, carinho, segurança e educação, a maioria dos criminosos não teve a mesma chance. Foram criados em lares com pais alcoólatras, com mães que apanhavam todos os dias, e abusados sexualmente em casa, na escola e na igreja, eram forçados a aceitarem as injustiças calados e cresceram em lugares onde quem mandava ou era bandido ou era corrupto, quando não era ambos. Nesta hora seria extremamente fácil o guardião da moral e dos bons costumes chegar batendo, prendendo, sem julgamento justo nem visão social alguma. Os verdadeiros heróis eram aqueles que viviam em meio aos tiroteios, seqüestros, governantes corruptos e gananciosos, isso sem apelarem para o crime ou terem super poder algum além daquele conhecido como Esperança. Mesmo apanhando, mesmo sofrendo, eram corajosos heróis sobreviventes de uma guerra diária. Muitos morriam nesta guerra, mas morriam como heróis.

Desejando encerrar a sua argumentação, o garoto concluiu dizendo que o herói fora criado somente para representar a ideologia imperial de uma nação dominante. Tanto é que as cores da bandeira do país que ele defendia, representadas vividamente em seu uniforme, não eram tão benquistas no resto do mundo, onde aquela nação heróica matava, destruía e desrespeitava a vontade dos outros povos (semelhante ao que o herói intrometido fazia) e impunha uma justiça politicamente parcial. O herói era uma ferramenta de propaganda, submissão e consumo para os fracos continuarem servis aos fortes. A seleção que o herói fazia de quem salvar era outro fator explícito de injustiça, já que as pessoas no mundo todo continuavam a morrer, a sofrer acidentes, violências e injustiças. Muitos se perguntavam qual o critério utilizado para justificar alguns serem socorridos pelo herói e outros não. Os que eram pessoas melhores tinham a preferência? A quem caberia o direito de classificar os mais merecedores? O menino finalizou deixando uma pergunta no ar: quem o herói achava que precisaria mais de um médico, os saudáveis ou os doentes?

O herói meditou cabisbaixo durante alguns segundos sobre todas aquelas palavras duras e quando levantou a cabeça, não viu mais o menino. Procurou-o rapidamente nas redondezas, mas nada encontrou. Ficou em dúvida se o menino realmente existira ou se fora fruto de sua imaginação. Todas aquelas palavras martelavam profundamente em sua cabeça e algo ardia em seu peito. Dizem que fora a primeira vez em que o herói tinha uma expressão dolorida em sua face e a última em que fora visto voando pelos céus da metrópole. Mas correm boatos de que, até hoje, se você pedir a ajuda do herói com muita fé, ele poderá vir lhe auxiliar uma vez ou outra, mas sem que ninguém o veja.

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Creative CommonsEsta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Sobre a sabedoria

Quanto mais para o alto eu olho, mais percebo o quão profundo é o vale em que me encontro.

Jefferson Luiz Maleski

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

Compre O Grande GatsbyVou ser sincero sobre o motivo que me levou a ler O Grande Gatsby, escrito por Francis Scott Fitzgerald e publicado em 1925: na relação online no Librarything dos livros que possuo, há a opção de ordenamento pela quantidade de exemplares do mesmo livro existentes no catálogo de todos os usuários cadastrados. Analisando os meus livros nesta perspectiva, adivinha qual deles aparece em segundo lugar na minha lista em comum com outros leitores, com cerca de 7553 exemplares, e que eu nem mesmo havia prestado atenção antes? Pois é. Esse mesmo. Fiquei curioso em saber porque tanta gente tem esse livro. E adicionalmente me deparei com um dos agradáveis problemas que aparecem quando você compra uma coleção completa de livros (neste caso a Coleção Biblioteca Folha): você não percebe os tesouros que tem em casa durante um bom tempo.

E como é bom ler um livro escrito por alguém que realmente sabe escrever. Verdadeiramente é como achar um tesouro. Ele enche os olhos, a inteligência, a imaginação e os sentimentos. Faz com que entremos dentro dos personagens que nos são apresentados, compartilhemos de suas alegrias e de suas tristezas, amemos quem eles amaram e odiemos quem eles odiaram, enfim, faz com que sintamos exatamente (e literalmente) o que eles sentiram em determinada página de suas vidas.

Alguns estudiosos dizem que a estória é uma síntese do american way of life, que pregava ser o objetivo essencial na vida ficar rico a qualquer custo. Também apontam que o autor baseou-se na história real do pai do presidente John F. Kennedy, que teria enriquecido da mesma maneira ilícita.

Virei fã do estilo de escrita de Fitzgerald. Ele escreve sem rodeios e de uma maneira cativante. Transforma em pura poesia uma estória em prosa. Como apenas um dos exemplos que poderia citar, separei um trecho do livro onde Fitzgerald nos brinda com a descrição memorável e única do sorriso de Jay Gatsby (pg. 44):

"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar."

A estória em si poderia até ser considerada medíocre: um romance interclasses fadado ao fracasso em meio as festas exibicionistas em que a manutenção das aparências, interesses e preconceitos de alguns ricos esnobes na Long Island da década de 1920 parecia ser o perfeito ideal de vida. Aí é que entra o gênio do bom escritor, transformando água em vinho. Conseguimos resistir a cada parágrafo em meio a um ambiente de falsidade para descobrir até que ponto o amor pode levar alguém. E se ele, o amor, não triunfar, pelo menos valeu a tentativa. "Que seja infinito enquanto dure" ensinou o poeta. Exatamente como a vida deve ser.

leitura em: Março 2007
título: O Grande Gatsby (The Great Gatsby)
edição: 1ª, O Globo - Coleção Biblioteca Folha (2003), 158 pgs
Excelente
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edit 27/03/2007: Com esta resenha ganhei meu 5º livro no Projeto Leia Livro. Escolhi o O que é vida? (Editora Jorge Zahar), escrito por Lynn Maegulis e Dorion Sagan.

101 Viagens de Sonho: e Como Torná-las Realidade, de Kiko Nogueira

Não compre este livroLi este livro somente porque ganhei. Não é bem o assunto que aprecio, visto que livros de fotos de lugares com comentários pessoais dos que lá estiveram me lembram sessões de fotos chatas em que os parentes mais ricos (e chatos) ficam se gabando das férias, bem ao estilo "Primo rico, primo pobre".

As 101 viagens foram divididas em nove categorias:
1. Shows da natureza,
2. História e cultura,
3. Estradas sem-fim,
4. Hotéis de luxo,
5. Grandes cidades,
6. Paraísos na terra,
7. Emoção e aventura,
8. Oásis espirituais e
9. Cenários de romance.

Dezesseis locais estão no Brasil, o que é bom porque você talvez conheça algum (eu conheço dois). Apesar da qualidade do papel, da capa e da impressão serem excelentes, não consegui distinguir o público-alvo para quem o livro foi escrito: se por um lado aparecem dicas de bebidas ou comidas baratas, por outro mostra hotéis e viagens de milhares de dólares, bem acima do consumo da maioria dos brasileiros. Ao menos o livro admite isto ao dizer que alguns lugares indicados "faz[em] parte daquele pequeno mundo a que só os muito ricos têm acesso" (pg. 55).

Quem costuma comprar livros pelo título ou pela capa ficaria muito decepcionado. O motivo encontra-se no subtítulo, "como torná-las realidade" deve ser entendido "como chegar até lá". É o que o livro faz, basicamente indica conexões de vôos, rotas e distâncias entre as principais cidades e o destino apontado, além de alguns sites com informações sobre a região. O subtítulo passa a impressão clara (depois do livro lido, lógico) de ser um apelo comercial. Não somente ele, pois há lugares que não se sabe porque estão ali, como no caso do Mont Saint Michel (pg. 45), descrito em menos de três linhas e sem foto alguma. Ou a Royal Scotsman (pg. 55) em que um passeio de uma semana de trem custa a bagatela de 9 mil dólares.

Os comentários mais extensos de alguns lugares são feitos por turistas que lá estiveram. Mas como nem todos possuem o dom da escrita, enquanto uns falam muito de suas sensações pessoais (o que fizeram, comeram e beberam) outros passam raiva no leitor, como o trecho da pg. 16 transcrito abaixo:

O tempo passa. Um dos australianos me cutuca, animado, e aponta à sua direita, pois eu estava absorto em um trecho do recife com anêmonas dançantes. Na escuridão distante, uma sombra se aproxima, movendo-se com suas asas gigantes lenta esuavemente em nossa direção.

Ao se aproximar, vejo seus chifres e um olho atento procurando por nossos rostos, e uma boca como uma fenda, larga como um carro. Plana sobre nós como um pássaro gigante, com sua barriga branca com montes de rêmoras bloquando o reflexo do sol na água. Quando subimos à superfície, todos estamos sorridentes, agitados e com a adrenalina a mil.

Agora responda: Você conseguiu descobrir de qual animal marinho ele estava falando? Não? Nem eu! Outro erro aparece na pg. 94, mas este deve-se somente por um descuido na editoração final.

Talvez você julgue exagero o meu tom crítico a respeito do livro, afinal ele traz belas fotografias e várias curiosidades culturais de cada lugar. Talvez eu seja crítico e exagerado mesmo. Talvez haja outra pessoa com gostos diferentes dos meus que aprecie lê-lo. Assim espero, pois estarei trocando o livro por outro o mais rápido possível.

leitura em: Março 2007
título: 101 Viagens de Sonho: e Como Torná-las Realidade
edição: 1ª, Ediouro (2006), 136 pgs
preço: R$ 49,90 (em média)
Ruim

Moreno28 entra na sala...

Ela pegou nas mãos dele. Primeiro, suave e cuidadosamente, roçou os seus dedos por baixo. Depois, como que descobrindo algo novo, ali, em uma mão não tão nova para ele (pois já a conhecia há pelo menos 10 dos seus 30 anos), virou as palmas para cima e com o olhar e o tom da voz analíticos disse:

- A sua mão é macia. É mão de quem não trabalha.

E ele, com a resposta pronta desde que ouvira aquilo pela primeira vez (e com um olhar malicioso que sempre acompanhava a resposta pronta):

- Eu não trabalho com as mãos, mas com outra parte do corpo.

- E com qual parte do corpo você trabalha?

- Com a cabeça, lógico - disse ele, ainda mantendo o tom malicioso.

- É, você tem cara de inteligente. Pena que CDF não faça o meu tipo. Já tentei antes e não deu certo. Duas vezes - e afastando as mãos das mãos, os olhos dos olhos, o coração do coração, levantou-se e concluiu - Mas se você tiver algum amigo menos tímido, pode até ser burro, desde que tenha o bumbum durinho, lembra de mim, ok?

Assim terminou o seu primeiro encontro virtualmente marcado, depois de três semanas entrando no bate-papo da Faculdade, fingindo ser um aluno aplicado, comportado, procurando uma amizade séria ou algo mais. Três semanas desperdiçadas. Hoje ele voltou sozinho para casa. Mas como é um cara esperto que aprende rápido as coisas, agora ele sabe um pouco mais sobre o que fazer e o que não fazer da próxima vez. Procurará outra garota na internet assim que chegar em casa. Pode até usar outro nick mas a sua vontade mais cedo ou mais tarde será saciada. Essa escapou, mas a próxima, ele come!

E saiu assoviando tranquilamente, tentando imaginar como o seu ídolo Hannibal Lecter agiria numa situação como aquela.

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A Vida e o Pensamento de Buda, de Morgana Gomes

A Editora Minuano lançou recentemente a Coleção Iluminados da Humanidade, com biografias bem sintetizadas de vários personagens importantes da História. Eu já havia lido no ano passado o volume 7 sobre Voltaire e achei muitíssimo informativo. Desta vez, resolvi ler o primeiro volume da coleção, para me aprofundar um pouco mais no assunto depois de ler o livro Sidarta, de Hermann Hesse. Posso dizer que não só a minha curiosidade inicial foi suprida como a minha compreensão inicial agora encontra-se, digamos, em um nível satisfatório.

A autora consegue resumir em poucas páginas praticamente a essência da vida e dos ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda. Desde a sua vida como príncipe e asceta, os ensinos deixados para os discípulos, as interpretações e divisões entre os seus seguidores após a sua morte, e como e porque o budismo se expandiu por todo o mundo, principalmente pelo continente asiático.

Como trata de uma cultura totalmente diferente da ocidental, Morgana Gomes teve o cuidado de transmitir que algumas das palavras utilizadas no budismo muitas vezes não tem uma palavra relacionada em nossa língua que transmita a mesma idéia da original. Isto às vezes acontece, por exemplo, com a palavra nirvana, geralmente traduzida como nada. O que segundo a autora minimiza todo um significado cultural aprimorados e repassados de gerações em gerações. Esta tradução seria tão semelhantemente simplória quanto tentar definir a personalidade, a vida inteira de uma pessoa e suas realizações em uma única palavra.

Como a coleção é estilo paperback (livros mais simples vendidos em bancas de jornal), você não irá encontrá-los para vender nos grandes sites de livrarias na internet, mas talvez os ache logo ali, na banca da esquina. Ou, se preferir, poderá ir ao site da Editora Minuano e encomendar o exemplar que mais gostar por lá. Apesar de ser bem simples, a capa e a síntese caprichadas me conquistaram como leitor. Parabéns para a Minuano, só espero que não descontinue a série, como é costume aqui no Brasil. Cada volume é uma verdadeira fonte de informações disponível para consultas rápidas. Mas não deve ser utilizada como única fonte de referência. Sobre a vida e o ensinamento de Buda mesmo, o que é descrito é apenas uma visão distante da ponta de um iceberg.

Veja algumas das pérolas de sabedoria de Buda que aparecem no livro:

"Inútil vencer, numa batalha, milhões de homens. Vencer-se a si mesmo é a maior vitória"

"No início da vida, não nos expressamos com palavras, mas em um dado momento, todas as palavras já não conseguem nos expressar"

"O homem que busca fama, a riqueza e os casos amorosos é como uma criança que lambe mel na lâmina de uma faca..."

"A verdade está dentro de nós. Não surge das coisas externas, mesmo que assim acreditemos"

"Um amigo insincero é mais temível que um animal selvagem. A fera pode ferir-lhe o corpo, mas o mau amigo pode lhe ferir a mente"

Dentre as biografias já publicadas, estão as seguintes:
1. Buda
2. Leonardo Da Vinci
3. Che Guevara
4. William Shakespeare
5. Karl Marx
6. ???
7. Voltaire
8. Charles Chaplin
9. Copérnico
10. Galileu Galilei
11. ???
12. Albert Einstein

leitura em: Março 2007
título: A Vida e o Pensamento de Buda
edição: 1ª, Coleção Iluminados da Humanidade, Editora Minuano (2006), 98 pgs
Bom

O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie

Compre O Caso dos Dez NegrinhosUma ilha. Dez pessoas. Um assassino. Se estas premissas já garantiriam uma boa trama policial, imagine uma escrita pela mestra do suspense, Agatha Christie. É simplesmente genial!

Quando um a um, os personagens vão morrendo sem saber quem é o assassino. Nem os personagens, nem o leitor. Eu bem que tentei, mas a Sra. Christie conseguiu me enganar completamente. Só desvendei o mistério quando terminei de ler o livro, o que não é lá grande coisa já que ela revela tudo no epílogo. Todos os meus palpites sobre quem era o culpado estavam errados. Todas as pistas que foram deixadas eu não percebi. Até chutei que era o mordomo, por falta de imaginação e opção. Hehehe, a conclusão é que definitivamente eu não tenho nenhum tino pra Sherlock Holmes.

A história começa quando dez pessoas são convidadas a ir para a deserta Ilha do Negro por motivos diferentes. Lá descobrem que além de não se conhecerem nem ao seu hospedeiro, todas são acusadas de terem praticado um homicídio no passado. Como não conseguem sair da ilha, e diante de uma nova morte a cada momento, a tensão, o medo, a suspeita e as acusações mútuas vão ficando cada vez mais comuns. Mas todos querem descobrir o verdadeiro assassino antes que seja tarde demais. Para cada pessoa que morre, a estátua de um negrinho que está em cima da mesa de jantar desaparece. E cada morte parece estar relacionada a uma velha historieta infantil em versos que aparecem gravadas em mármore nos quartos. Será que alguém conseguirá escapar desta armadilha? E você, se estivesse na Ilha do Negro, conseguiria?

A autora consegue explorar algo intrínseco a cada um de nós, o sentimento de culpa. É a mesma fórmula usada por outros mestres, como Kafka em O Processo, e também no cinema, como nas sequências de "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado". Mesmo que você não tenha feito nada, a sua consciência o acusará nas mínimas coisas, naquilo mais íntimo e secreto em sua personalidade.

O livro merece ser lido pela história, que é considerada uma das melhores já escritas por Agatha Christie. Mas a Editora Globo pecou em vários aspectos do livro. O primeiro e mais visível de todos é a péssima tradução. A impressão é que ou a tradução é mais velha do que eu ou o tradutor não entende muito do que se propôs a fazer. Um exemplo de um erro gritante: em inglês existe uma expressão para identificar horas fracionadas como na frase two hours and an quarter, que traduzindo para o português ficaria como duas horas e quinze minutos (veja mais no Tecla SAP). Agora imagine se alguém traduzisse como duas horas e um quarto! Você entenderia se não conhecesse a expressão em inglês? Quem fala as horas deste jeito no Brasil? Pois é, o tradutor deve ser o único que fala. Só os softwares de tradução automática (que são meio burrinhos em expressões) fazem isso. Outro problema é a qualidade do papel, que não é algo feito para durar. Tá certo que os livros de bolso (pocket) ou os romances água-com-açúcar de banca de jornal são impressos no mesmo tipo de papel, mas nenhum deles custa o que é cobrado pelo O Caso dos Dez Negrinhos.

O título se baseia numa cantiga infantil tradicional de Inglaterra e causou muita polêmica na época em que foi publicada nos Estados Unidos devido a preocupações com acusações de racismo; por esse motivo, edições mais recentes receberam o título Then There Were None (Então Não Sobrou Ninguém). No Brasil, permanece o título original.

leitura em: Março 2007
título: O Caso dos Dez Negrinhos (Ten little niggers)
edição: 29ª, Globo (2000), 219 pgs
Excelente

Auto-estima

Se você não se valorizar, chegará uma hora em que todos acreditarão em você. O contrário também é válido.

Jefferson Luiz Maleski

Como Salvar o Planeta Terra

Pai e filho passeavam à beira de um lago e admiravam juntos a natureza ao seu redor. O céu límpido de fim de tarde trazia um vento fresco que movia as folhas das árvores, simulando um harmônico balé em diversos tons de verde. O som relaxante da vegetação e de algumas araras que que se ajeitavam para dormir transmitia uma sensação ao mesmo tempo de alegria, paz e tranquilidade. O perfume no ar das flores, folhas e terra era embriagante. Depois de um longo período de reflexivo silêncio, o pai comentou:

- E pensar que pouco tempo atrás quase perdemos toda esta maravilha. Seria um desastre imperdoável!

- Com certeza - respondeu o filho.

- Ainda bem que conseguimos resolver a tempo os problemas que ameaçavam a fauna e a flora. Mas não foi fácil, pois houve uma época em que a destruição do planeta era de certa forma inevitável. Isto foi a um bom tempo antes de você nascer, meu filho.

Olhando bem fundo nos olhos do filho, o pai percebeu que este continuava interessado na conversa, e então seguiu adiante:

- Existia muita preocupação em torno de uma expressão pouco conhecida hoje, o "impacto ambiental". Esta englobava vários problemas de proporções e efeitos mundiais e permanentes.

Após uma breve pausa, prosseguiu em tom sério:

- Um dos efeitos era a desertificação, que transformava uma área de floresta como a que vemos aqui em um deserto sem vida, com a perda total da capacidade produtiva do ecossistema e o empobrecimento permanente do solo. Um terço da terra já chegou a estar assim no passado. Outro efeito era o degelo das calotas polares que existiam nos pólos, o que fez com que muitas áreas antes produtivas ficassem submersas e o espaço terrestre habitável ficasse infinitamente menor do que o que conhecemos hoje. Se isso não bastasse, ainda haviam incêndios florestais, furacões tropicais, inundações e chuvas ácidas ou de granizo, só para lembrar dos piores. Não somente a flora desaparecia, mas também a fauna. Muitos animais, peixeis, aves, foram exterminados da face da terra em poucos anos. Alguns simplesmente não acharam nenhum lugar onde viver.

- Mas pai - ponderou o filho - se existiam tantos problemas assim no passado, como conseguimos fazer com que desaparecessem?

- Isso filho, é o motivo de grande orgulho para nós. Graças a tecnologia de sequenciamento de DNA, recuperamos a maioria das espécies extintas e cuidamos para que nenhuma outra entrasse em extinção. E olhe como a natureza está mais bela a cada ano que passa, bastou darmos uma chance à ela que o resto ela fez sozinha. É como aquela árvore ali - disse, apontando para um grande pequizeiro - se plantarmos a sua semente e dermos o mínimo de condições para que sobreviva, ela crescerá vigorosa e dará frutos gostosos.

- E os outros problemas, como foram resolvidos?

- Chegamos à conclusão que todos os problemas tinham um elo em comum, o efeito estufa. Os problemas eram ou uma das causas ou uma das consequências do efeito estufa, quando não eram ambos. Conseguimos, após utilizar uma avançada tecnologia, colocar um grande escudo entre o sol e a terra, desviando 3% dos raios solares. Com menos raios solares, houve menos efeito estufa e raios ultravioleta e mais produtividade na agricultura. Também fertilizamos algumas algas marinhas microscópicas, os fitoplânctons, que absorvem parte do CO². Estas são somente algumas das medidas emergenciais que adotamos. Antes porém, tivemos de cessar por completo com algumas das principais atividades geradoras do efeito estufa, como a poluição e o desmatamento.

- E como isso foi feito?

- Novamente localizamos a origem do problema, que era a ganância humana. O homem, semelhante a um câncer silencioso, ia consumindo e destruindo tudo por onde passava, apesar do planeta lutar desesperado contra tais abusos. Quando nossa raça chegou a este planeta, a primeira coisa que fizemos foi exterminar por completo a espécie humana. A partir daí tudo melhorou. O homem era o único responsável pela destruição.

- O homem é aquela criatura estranha que aparece nos museus, papai?

- É sim, meu filho. Mas lá ele não faz mais nenhum mal.

E colocando dois dos seus oito tentáculos ao redor do filho, ambos contemplaram abraçados mais um lindo e colorido pôr-do-sol.



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