Schopenhauer

Sobre Traduções:
Todas as traduções são necessariamente imperfeitas, pois as expressões características, marcantes e significativas de uma língua não podem ser transpostas para outra.

Sobre Escrita:
Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço de leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela.

Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado.

A condição deplorável da literatura atual tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro.

Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.

Sobre Editores:
Tenham mais honra no corpo e menos dinheiro nos bolsos e deixem os ignorantes sentirem sua inferioridade, em vez de fazer cortesias às suas carteiras.

Sobre Pensadores:
O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito.

Sobre Livros:
O que o endereço do destinatário é para uma carta, o título deve ser para um livro, ou seja, o principal objetivo é encaminhá-lo à parcela do público para a qual seu conteúdo possa ser interessante.

Sobre a Crítica:
As revistas literárias deveriam ser o dique contra a crescente enxurrada de livros ruins e inúteis e contra o inescrupuloso desperdício de tinta de nosso tempo (...). Elas deveriam fustigar sem pudor toda a obra malfeita de um intruso, toda a subliteratura por meio da qual uma cabeça vazia quer socorrer o bolso vazio, ou seja, aproximadamente nove décimos de todos os livros.

Normalmente as resenhas são feitas no interesse dos editores e não no interesse do público.

É claro que uma revista literária do tipo que defendo só poderia ser escrita por pessoas em que uma probidade incorruptível estivesse unida, por um lado, a um nível raro de conhecimento e, por outro, a uma capacidade de julgar ainda mais rara.

A honra é, objetivamente, a opinião dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião.


Sobre a Liberdade de Imprensa:
A liberdade de imprensa deveria pelo menos ser condicionada por uma proibição de todo e qualquer anonimato e do uso de pseudônimos.

Usar o anonimato para atacar pessoas que não escreveram anonimamente é evidentemente desonroso.

Sobre o Estilo:
O estilo é a fisionomia do espírito. E ela é menos enganosa do que a do corpo.

Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras, mas pode se expressar de modo simples, claro e ingênuo, estando certo com isso de que suas palavras não perderão o efeito.

Quem escreve de modo afetado é como alguém que se enfeita para não ser confundido e misturado com o povo; um perigo que o gentleman não corre, mesmo usando o pior traje.

A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão.
Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi filósofo alemão. Embora sua obra principal seja O mundo como vontade e representação, a sua obra mais conhecida é Parerga e Paraliponema.

O monge e os cães

O velho monge assistia imóvel a cena.

Dois cães brigando pelo pedaço de pão. Um deles, o maior, levava alguma vantagem sobre o outro que, apesar de mais maltratado pela vida, era bom de briga. Latidos, grunhidos, uivos e rosnados acompanhavam a dança em que ora um estava por cima ora outro. O maior atacava o pescoço do outro que desviava sempre a tempo. O menor arreganhava os caninos e fazia muito mais barulho que o necessário. Em certo momento da batalha, ambos descuidaram-se do pão e um menino maltrapilho passou ligeiro e o levou consigo.

O cães pararam de brigar, sentaram-se e olharam um para o outro. E o monge apenas sorriu.

O Anjo da Morte

Era o primeiro dia na nova classe após a transferência de outra faculdade. Entrou na sala de aula cujo número estava anotado em um pedaço de papel. Sentia-se meio perdido, pois todos pareciam enturmados e com muitos assuntos para colocar em dia.

Percebeu alguns olhares curiosos e cochichos “Quem será ele?” e “Será aluno do matutino?”, nada mais. Apesar da população da sala ir aumentando, com colegas cientes de quais carteiras ocupar, ninguém puxou conversa além duns cumprimentos monossilábicos e desinteressados.

O sinal tocou. Involuntariamente, o fluxo de pessoas atingiu o ápice final e logo depois o professor entrou com aquele sorriso que só os que vêm de um longo período de férias conseguem ostentar. Após uma breve apresentação pessoal e curricular, passou a explicar a grade semestral da matéria.

O novato acompanhava razoavelmente as orientações do mestre, até a hora em que ela entrou. A partir daí não viu mais nada além dela. Não viu que somente ele parou de anotar, de ouvir, de respirar, até de pensar para ficar observando aquela cena divinal que se passava à sua frente. Era para presenciar aquele espetáculo da natureza que ele nascera. A partir daquele momento a sua existência faria sentido. Ao entrar na sala, atrasada, a moça pediu licença e cautelosamente fechou a porta. Um macio "com licença" que ficou ecoando em sua mente ad infinitum, pedindo permissão para também ali entrar, porém nem precisava. Os seus cabelos, os olhos, a boca, as curvas, enfim, tudo nela parecia hipnotizá-lo. Ele poderia assistir a trajetória dela em câmera lenta eternamente, até gastar o rewind da memória, mas como toda trajetória tem um início e um fim, a trajetória da Afrodite terminou na carteira vazia ao lado dele.

Envergonhado pela cara de bobo, fugiu o olhar para baixo, para o caderno sobre a carteira, para a caneta imóvel em sua mão suada, entretanto não conseguiu enxergar nenhuma frase nem pensar em palavra alguma. Só conseguia escutar a ensurdecedora escola de samba que virou o seu coração. O ar tornou-se rarefeito e a ventilação inútil. Como não conseguia ficar sem olhar para a musa ao seu lado, arriscou algumas olhadelas. Em uma destas, a flecha acertou o alvo, ele encontrou os olhos dela fitando-o, todavia ele não se sentiu no papel de flecha. Mais ainda quando ela devolveu-lhe um leve sorriso e voltou a atenção para o quadro-negro. Que fosse um sorriso ordinário de mera boa educação, ou de precaução para com um estranho sentado ao lado que insistia em dar olhadelas, isto não o importava mais, aquele sorriso era seu, fora direcionado para ele e seria a partir de então o seu argumento máximo de que Deus existia. Aquele sorriso seria seu estigma. Significava uma janela aberta para um horizonte de possibilidades.

Entretanto, os seus devaneios foram interrompidos por uma voz alta que vinha da porta, onde um homem parado dizia:

Tem algum Marcolino Ferreira aqui?

Sim, sou eu, respondeu em uma reação automática, e sentiu o rosto corar ao perceber que agora era observado por toda a classe, inclusive por ela.

Marcolino, pegue o seu material e me acompanhe, houve um erro na secretaria, a sua turma não é esta, decretou o fulminante Anjo da Morte, enquanto Marcolino se levantava lentamente sentindo-se expulso do Paraíso, sem ao menos ter provado do fruto proibido.
Escrito em 12/07/2006, em Anápolis/GO.

Quando sua biblioteca te surpreende

Hoje me peguei surpreso com minha própria biblioteca. Achei pérolas nela que desconhecia. Explico: Costumo comprar coleções inteiras por causa de 3 ou 4 livros quando o valor destes comprados separadamente equivale ao da coleção. Já adquiri duas assim: a Coleção Biblioteca Folha e a Grandes Escritores da Atualidade da Planeta Deagostini. Como geralmente após ler os tais 3 ou 4 livros que motivaram a compra volto à minha lista normal de leituras, muitos títulos/autores ficam esquecidos.

Apesar de minha biblioteca evoluir basicamente sob a minha tutela, meus gostos literários também evoluem com o tempo, estes sob a tutela sabe-se lá de quem. Isso significa que a cada nova olhada na minha biblioteca encontro boas surpresas, como a de hoje. Descobri alguns livros dos quais tenho lido muito a respeito ultimamente ou observado bons comentários. Os que pularam em meus braços quando tirei um tempinho para ficar parado em frente a minha estante foram:É, a vida é uma caixinha de surpresas. E joga na cara como mudamos em pouco tempo, mesmo o que gostamos de ler. Já tenho estes livros a vários anos, mas somente hoje os notei. Quem sabe quais irei descobrir ainda no próximo ano ou num futuro mais distante? Só o tempo dirá.

O único ponto ruim desta história é que se comprar algum livro por impulso, em visita a uma livraria, sebo ou feira, sofro o risco de adquirir algo que tenho sem o saber, como já ocorreu uma vez com O senhor das moscas, de William Golding. Fui assim forçado a aprender a dosar meu impulso consumista por aquisições literárias e a olhar o que possuo antes de comprar o meu próximo objeto de desejo.

Mas a sensação de felicidade em descobrir que já se possui o objeto desejado é muito boa. Equivale a perceber que a mulher mais bela do mundo é a que você está casado há anos ou que o texto mais bonito que você já leu sobre a amizade é um que você descobriu numa gaveta, escrito por você tempos atrás. Recomendo a experiência.

Se alguém quiser ver a lista parcial - pois sempre faltam alguns a adicionar - dos livros de minha biblioteca, visite o meu catálogo no LibraryThing, feito essencialmente para as minhas faltas de memória e organização.

Ser goiano, de José Mendonça Teles

Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos. É ser dócil e falante, impetuoso e tímido. É dar uma galinha para não entrar na briga e um nelore para sair dela. É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno. É ter latifúndio e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora.

Ser goiano é saber perder um pedaço de terras para Minas, mas não perder o direito de dizer também uai, este negócio, este trem, quando as palavras se atropelam no caminho da imaginação.

O goiano da gema vive na cidade com um carro-de-boi cantando na memória. Acredita na panela cheia, mesmo quando a refeição se resume em abobrinha e quiabo. Lê poemas de Cora Coralina e sente-se na eterna juventude.

Ser goiano é saber cantar música caipira e conversar com Beethoven, Chopin, Tchaikovsky e Carlos Gomes. É acreditar no sertão como um ser tão próximo, tão dentro da alma. É carregar um eterno monjolo no coração e ouvir um berrante tocando longe, bem perto do sentimento.

Ser goiano é possuir um roçado e sentir-se um plantador de soja, tal o amor à terra que lhe acaricia os pés. É dar tapinha nas costas do amigo, mesmo quando esse amigo já lhe passou uma rasteira.

O goiano de pé-rachado não despreza uma pamonhada e teima em dizer ei, trem bão, ao ver a felicidade passar na janela, e exclama viche, quando se assusta com a presença dela.

Ser goiano é botar os pés uma botina ringideira e dirigir tratores pelas ruas da cidade. É beber caipirinha no tira-gosto da tarde, com a cerveja na eterna saideira. É fabricar rapadura, ter um passopreto nos olhos e um santo por devoção.

O goiano histórico sabe que o Araguaia não passa de um "corgo", tal a familiaridade com os rios. Vive em palacetes e se exila nos botecos da esquina. Chupa jabuticaba, come bolo de arroz e toma licor de jenipapo. É machista, mas deixa que a mulher tome conta da casa.

O bom goiano aceita a divisão do Estado, por entender que a alma goiana permanece eterna na saga do Tocantins.

Ser goiano é saber fundar cidades. É pisar no Universo sem tirar os pés deste chão parado. É cultivar a goianidade como herança maior. É ser justo, honesto, religioso e amante da liberdade.

Brasilia em terras goianas é gesto de doação, é patriotismo. Simboliza poder. Mas o goiano não sai por aí contando vantagem.

Ser goiano é olhar para a lua e sonhar, pensar que é queijo e continuar sonhando, pois entre o queijo e o beijo, a solução goiana é uma rima.
(TELES, José Mendonça. Crônicas de Goiânia. Goiânia: Kelps, 1998)

Morte em Veneza, de Thomas Mann

Thomas Mann (1875-1955) foi um escritor alemão (filho de brasileira) reconhecido como um dos grandes romancistas do século XX. Ganhou em 1929 o Prêmio Nobel de Literatura pelo livro Os Buddenbrooks, onde narrava sobre três gerações de uma família em decadência. Apesar de homossexual, casou-se em 1905 e teve seis filhos. Reprimindo seus sentimentos afetivos, acabou exteriorizando em seus livros o que a sociedade da época não lhe permitia. A Morte em Veneza é um dos livros em que esse sentimento de Thomas Mann é visível.

Publicado em 1912, A Morte em Veneza conta a estória do escritor alemão Gustav von Aschenbach, que vai passar férias em Veneza. Lá, apaixona-se platonicamente pelo jovem polonês Tadzio, de 14 anos, e passa os dias a admirá-lo. O livro praticamente traz considerações de Aschenbach sobre as dicotômicas beleza natural do jovem e a arte da escrita tão arduamente trabalhada por ele. Ou sobre juventude e velhice, sabedoria e ignorância, saúde e doença.
"Não estava escrito que o sol desvia nossa atenção do intelectual para o sensível? Que ele entorpece e enfeitiça a razão e a memória de tal modo que a alma, entregue ao prazer, esquece inteiramente sua verdadeira condição e se apega surpresa e maravilhada ao mais belo dos objetos iluminados por ele?"

Há citações da literatura clássica, como o relacionamento entre Sócrates e Fedro, tentando embasar os sentimentos amorosos expressos pelo autor. Contudo, o que torna a obra digna de leitura não é a estória em si, mas a habilidade de Thomas Mann no manuseio das palavras para mostrar o psicológico. O protagonista, por exemplo, é inicialmente descrito por Mann quando este passa a analisar o que em cada livro escrito por Aschenbach revelava implicitamente sobre ele. Ironia ou não, o próprio A Morte em Veneza tem a mesma função em revelar ao mundo os segredos emocionais de Mann.

O professor Luiz Elias Sanches, do Rio de Janeiro, ainda traz uma outra interpretação interessante: ao chegar em Veneza, o escritor descreve a passagem através de um Portal, sendo logo após conduzido por um estranho gondoleiro até o seu destino, mas que ao final desaparece deixando apenas a frase: "O senhor pagará". O Portal é identificado como o do Inferno, e gondoleiro a Caronte, barqueiro do rio que leva as almas sobre o rio Estiges. Predição funesta, contudo mui pertinente ao final do livro. Também interpreta a necessidade dos moradores de Veneza em esconder a doença que assola a cidade dos turistas como um aviso, na verdade dois: o primeiro revelando o falso clima de paz que precedeu a Primeira Guerra Mundial (1914) e o segundo mostrando a falsa sensação de que "está tudo bem" de nosso tempo. É o pão e circo dado pelos governos ao invés da solução concreta dos problemas mundiais.

A trama tem aspecto sombrio, lembrando muito um pesadelo, como o apresentado em Breve Romance de Sonho de Arthur Schnitzler. Isso ocorre porque somos levados para dentro da mente de Aschenbach/Mann, onde escutamos os seus pensamentos e descobrimos os seus traumas, anseios, dúvidas e desejos. E contradições. Aschenbach critica justamente aquilo em que se transformará posteriormente. Se extasia hipnoticamente com o que será a causa de seu infortúnio. "A paixão, como o crime, não se adapta à ordem estabelecida, ao bem-estar da marcha do cotidiano".

leitura em: Janeiro 2008
obra: Morte em Veneza (Der Tod in Venedig), de Thomas Mann
tradução: Eloísa Ferreira Araújo Silva
edição: 1ª, Coleção Biblioteca Folha - Folha de São Paulo (2003), 94 pgs
preço: Compare os preços de Morte em Veneza no BuscaPé
Bom

A lei e a moral

Ontem, na faculdade, surgiu um debate muito interessante questionando se a Lei Penal deveria regular a moral da população. Isso porque parece ser consenso entre os políticos brasileiros considerar o Código Penal como a base da ordem na sociedade ao invés da Constituição Federal. Basicamente foram debatidos os artigos 233 e 234 do Código Penal que tratam do ultraje público ao pudor. Nada mais polêmico e inútil do que tais artigos, que dizem:
Ato obsceno
Art. 233.
Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

Escrito ou objeto obsceno
Art. 234.
Fazer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno:
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem:
I - vende, distribui ou expõe à venda ou ao público qualquer dos objetos referidos neste artigo;
II - realiza, em lugar público, representação teatral, ou exibição cinematográfica de caráter obsceno, ou qualquer outro espetáculo, que tenha o mesmo caráter.
III - realiza, em lugar públio ou acessível ao público, ou pelo rádio, audição ou recitação de caráter obsceno."

Como são normas de interpretação aberta – aquelas que não listam o que é obsceno deixando ao juiz decidir em cada caso o que é - levantei a questão da moral ser classificada atualmente de região para região e de pessoa para pessoa, citando um exemplo: um casal homossexual que mora na capital do Estado e costuma trocar beijos em público como manifestação de carinho mútuo. Ok, normal. Agora imagine este mesmo casal passeando um final de semana numa cidadezinha do interior onde, praticando exatamente a mesma atitude, choca a população local que indignada e constrangida chama a polícia. A população está reagindo à algo que não lhe é natural. O casal está usufruindo a sua liberdade como sempre o fez. Seria uma situação delicada tanto para a polícia, para o casal quanto para a população. Neste caso, democraticamente ganharia a maioria.

Houve várias manifestações dos colegas sobre o assunto e, como moro em uma cidade do interior, é óbvio que a maior parte deles defendeu o lado conservador. Poucos tomaram uma posição de tolerância. Nenhum a do casal. Citaram o mau exemplo familiar que se passaria aos filhos, o cumprimento das leis divinas, o preconceito como modo de expressão e a liberdade da maioria escolher o que se permite em público. Um colega mais exaltado estimulou até o uso da violência.

Contudo, o meu objetivo neste texto não é debater o exemplo em si, e sim a relação lei versus moral. A moral começa como subjetiva, cresce depois para familiar, regional, estadual, e assim por diante até se tornar lei? Deve a lei se preocupar com ela, tentando moldar o que é a moral? O meu professor alegou não conhecer nenhum advogado, promotor ou juiz que se lembrem de alguém condenado com base nos artigos citados, simplesmente porque são ineficazes e não há como aplicá-los hoje. Talvez na década de 40, quando o CP (Código Penal) foi promulgado, a moral no Brasil fosse mais heterogênea, mais definível.

Se fôssemos aplicar os artigos 233 e 234 do CP ao pé da letra o Carnaval seria um ato obsceno. Os livros do Marquês de Sade, do Nelson Rodrigues e da Bruna Surfistinha também. O funk carioca então nem se diga. Até mesmo as novelas da Globo e as conversas de botequim não passariam no crivo, pois um filhodafruta, um caraggio, ou qualquer outra expressão tão ordinária seriam obscenas. Há pessoas que escolhem ser obscenas, seja nas roupas, nas palavras ou no estilo de vida. Outros transformam a cara obscena numa marca pessoal, como o Mick Jagger ou a Angelina Jolie. Muitos consideram um elogio serem chamados de obscenos.

Talvez a questão social mais importante seria ensinar a convivência entre tribos diferentes e não tentar torná-las iguais. São as nossas diferenças que nos tornam todos um só, a raça humana, ao mesmo tempo única e diferente. E enquanto o crime deve sempre ser crime, a imoralidade não, pois não compete aos legisladores - muitos imorais em vários aspectos - definir o que é moral. Até mesmo nós divergimos naquilo em que acreditamos, de uma época para outra. Muitos criticaram a censura ao carro alegórico no Carnaval do Rio de Janeiro deste ano, que trazia Hitler dançando sobre cadáveres, como mais obsceno do que as mulatas dançando com tapa-sexos invisíveis na mesma avenida. Mulata pode. Hitler não pode?

Para mim, a moral é algo atemporal. Não é passageira. Não é subjetiva. Ela é transcedental. É pura. É divina e por isso instrínseca a todo ser humano. Podemos aceitar como sendo a nossa moral gostar romanticamente de pessoas do mesmo sexo, ou exibir alegorias relatando massacres como diversão cultural, ou ler Playboy e G Magazine, mas a moral será sempre a mesma, inalterável. Sabemos quando fazemos algo incorreto, a consciência dá aquela pontadinha. Conhecemos o que é moral, pois além dela não mudar, encontra-se adormecida dentro de nós. Nós é que mudamos, na maior parte das vezes para pior, por deixarmos de ouvir as nossas consciências. Vivemos num mundo cada vez menos preocupado com a moralidade, contudo não será a Lei que irá modificar isso, e sim a educação. Somente a educação ensina a respeitar e tolerar as diferenças, a ter senso crítico de que não devemos considerar as pessoas como objeto de ódio, mas sim as suas condutas classificadas como criminosas. Posso não concordar com a conduta que não seja crime, mas nem por isso tratarei o seu praticante como um animal. Já dizia Voltaire: "Eu posso desaprovar o que você diz, mas irei defender até a morte o seu direito de dizê-lo."

O francês Ferdinand Lassalle, falando sobre a Constituição algo que se aplica a qualquer lei escrita, disse que se uma lei não reflete o espírito e vontade da população, não é lei, apenas letra morta. Cabe a nós reciclarmos o que deixou de funcionar faz tempo. E quem sabe, se passássemos a refletir individualmente um pouco mais sobre a moralidade universal e a diversidade de escolha para praticá-la hoje em dia em maior ou menor grau, evitaríamos muitos conflitos cotidianos e aprenderíamos que o verdadeiro sentido da palavra liberdade começa com R. R de respeito.

5 maneiras originais de narrar

Algumas vezes somos surpreendidos não somente pela história que nos é contada, mas também pela forma, pelo modo ou jeito que nos é repassada. Tal arte, a de contar a história de um modo original, pode salvar a história em si, que talvez de outro modo fosse algo banal, desinteressante.

1. Filme O Suspeito (Rendition, 2007) - Duas estórias são contadas paralelamente, a do pai e da filha, e somente no final descobrimos que o lapso temporal das duas não é o mesmo, mas uma é o início da outra. Não sei se esta técnica funcionaria em um livro. As dicotomias certo/errado, burocracia/caráter, inocente/culpado são bem perceptíveis para demonstrar pontos de vista antagônicos.

2. Livro Morte em Veneza (Thomas Mann, 1912) - O personagem principal, Gustav von Aschenbach, é escritor e um pouco de sua personalidade é apresentada ao leitor analisando os livros que ele escreveu.

3. Filme Amnésia (Memento, 2001) - Escreva uma trama policial simples, corte em pedaços (dias) e re-ordene as cenas inversamente. Faça um elo entre os cortes com um ou outro detalhe essencial, e pronto!, passo-a-passo de como contar bem uma história de trás pra frente.

4. Livro O Caso dos Dez Negrinhos (Agatha Christie, 1939) - O estilo mistério onde um grupo de 10 pessoas em uma ilha deserta e inacessível vai morrendo sem descobrirem o assassino. Até o mordomo não escapa. O livro termina com todos mortos, sendo que o último não se suicida. E agora? Ainda bem que há o epílogo. Somente a grande mestra do gênero para solucionar este caso.

5. Filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) - Aprimora com bom gosto a sensação do telespectador saber aquilo que o personagem não sabe. Ou sabia e deixou de saber. Maneira interessante de transformar o telespectador em onisciente e recriar um personagem do zero, mesmo numa narrativa linear.

Quando Nietzsche Chorou (When Nietzsche Wept), 2007

Se a verdade vem através da descrença e do ceticismo, e não de um desejo infantil de que algo fosse de determinado modo. Um desejo de estar nas mãos de Deus não é verdade. É um desejo infantil pelo mamilo eternamente intumescido. Temos a teoria da evolução. A teoria da evolução mostra cientificamente a redundância de Deus, embora o próprio Darwin não tivesse coragem de seguir seus indícios até sua verdadeira conclusão. Então, aonde isso nos leva? Certamente vocês se dão conta que criamos Deus e todos nós, juntos, o matamos. Deus está morto.

É meu dever estar livre de deveres.

Após a morte de Buda, a sombra dele foi mostrada por séculos em cavernas, uma horrível sombra. Considerando o hábito das pessoas deve haver cavernas há milhares de anos onde a sombra de Deus é mostrada. Subjuguem a sombra no interior de vocês!

A melancolia não é uma doença, é parte da minha natureza. Só estou grávido. Aqui dentro. Minhas dores de cabeça são as dores do parto de meu novo livro.

Tento dizer em 10 frases o que outros dizem no livro inteiro.

Paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras não me atingem.

Se optar pelo prazer do crescimento, prepare-se para sofrer. Quer menos dor? Vá. Seja parte da massa. Olhe para esta árvore. Precisa de clima tempestuoso para alcançar esta altura. Aí está, criatividade e descoberta. Mas gerada na dor.

Lembre-se das palavras de Goethe: "Seja homem. Não me siga, mas só a si mesmo." Ensinar filosofia e usá-la no mundo real são duas tarefas bem diversas.

Viver com cautela é perigoso.

Nos apaixonamos mais pelo desejo do que pelo objeto desejado.

A morte só não é aterrorizante quando a vida já se consumou.

Como tornar-se outro se primeiro você não virar cinzas?

O isolamento só existe no isolamento.


Mais informações: IMDB (ING) NetMovies (BR)
Regular
Filme adaptado do romance homônimo do escritor Irvin Yalom. Clique aqui para ler a resenha do livro.

O Homem que Desafiou o Diabo, 2007

Ouça o que vou lhe dizer:
Vida longa eu não alcanço
Na orgia ou no prazer
Mas enquanto eu não morrer
Bebo, fumo, jogo e danço
Me censure quem quiser
Enquanto vida eu tiver
Cumprindo essa sina venho
E além dos vícios que tenho
Sou perdido por mulher.

[...]

O meu nome é Lombroso torado no grosso
E eu sou que ném a cascavel, quando não aleja mata
Tenho a maldade da onça, tenho a ruindade que arrasta
Minha baba é peçonhenta e arde mais que a brasa
Tá vendo essa cacunda? É por onde sou mais forte
Carrego nas minhas costas 132 mortes
Vá me dizendo seu nome, pronde vai e donde vem
E se já viu nesse mundo um camarada mais feio.
...
O meu nome é Ojuara, eu vim de longe e vou em frente
E o senhor não é mais feio que certo tipo de gente
Feio é herança do homem, herança de Caim,
Praga de mão ofendida, tentação do Coisa-ruim,
Feio é aquela sombra escura que vai levando consigo o covarde que traiu a confiança do amigo
A beleza e a feiúra tão junta em toda parte
Há beleza inté na morte e feiúra inté na arte
Olhe seu rosto no espelho e não perca a esperança
Porque foi Deus que lhe fez à Sua imagem e semelhança.

[...]

- Esse mundo é muito esculhambado: num tem cumeço, num tem fim, cheio de maldade, num tem reta, é tudo torto.
- Pelo menos é divertido.
- É, isso num é mentira não.


Mais informações: IMDB (ING) Warner Bros (BR)
Excelente
Filme adaptado do romance As Pelejas de Ojuara do escritor Nei Leandro de Castro.

Goethe

Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, isso ainda o é mais.

O pudor e a beleza não caminham lado a lado e jamais os vereis passar de mão dadas pelos caminhos da Terra.

Nunca estamos mais longe de nossos sonhos do que quando imaginamos possuir o que desejamos.

O que em nós mesmos nutrimos cresce: esta é uma lei eterna da natureza.

Uma vida ociosa é uma morte antecipada.

A vida é a infância da imortalidade.

A alegria não está nas coisas, está em nós.

Nada revela tanto o caráter de uma pessoa quanto as coisas que a fazem rir.

Sempre temos tempo suficiente se dele fazemos bom uso.

Com o conhecimento nossas dúvidas aumentam.

Existe gênio, poder e mágica na audácia.

Todas as coisas são metáforas.

Não há coisa mais prejudicial a uma nova verdade que um velho erro.

Digno de liberdade é só quem sabe conquistá-la todos os dias.

A juventude é a embriaguez sem vinho.

Todos querem ser senhores e ninguém é senhor de si próprio.

Vive quem ousadamente vive.

Só é digno da vida aquele que vai, todos os dias, à luta por ela.

O que não se compreende não se possui.

A conduta é um espelho no qual todos exibem sua imagem.

A sabedoria só existe na verdade.

Nada é mais assustador que a ignorância em ação.

As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam idéias.

É certo, afinal de contas, que neste mundo nada nos torna necessário a não ser o amor.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) foi um escritor alemão, além de cientista, filósofo e botânico.