Autodescobrimento

Ano passado participei pela primeira vez no Nanowrimo, e com muito sufoco, venci. Este ano, com 3x mais sufoco, resolvi por a minha sanidade à prova novamente e o resultado não poderia ser outro, venci do mesmo jeito. É, a julgar pela quantidade de coisas neste novembro pra me atrapalhar a fazer qualquer outra coisa a não ser estudar e trabalhar, foi uma experiência bem diferente da do ano passado, e vou contar porque.

Primeiro, consegui mensurar melhor as minhas capacidades. Por exemplo, agora sei que escrevo melhor de manhãzinha ou à noite varando a madrugada. Nas tardes a minha criatividade tira aquela soneca. Também percebi que a minha média de digitação-sem-ter-nada-em-mente é de 2000 palavras por hora, isso usando o WriteorDie, o site do escritor desesperado. Isso significa que para alcançar as 50.000 palavras (ou 50.807 para ser mais exato) que o Nanowrimo impõe como desafio, gastei exatamente 25 horas (um pouco mais que um dia completo) que, divididas em 30 dias, dão 50 minutos diários de escrita. Analisando friamente estes números, cheguei à conclusão de que apenas uma hora de escrita por dia resulta em um livro por mês. Interessante, não? Então, o que nos impede de escrever? É a falta de tempo? Nhé. É a falta de capacidade? Duplo nhé. É o não comprometimento. Por isso que o Nano faz todo esse sucesso. Quando não há ninguém nos cobrando, por vontade própria fica difícil não priorizar outras coisas ao invés de escrever. Até o Faustão e o Gugu parecem melhores! (Nhé pra eles). Mas com o Nano sentimos essa cobrança, mesmo sabendo que somos os únicos nos observando.


Outro detalhe que percebi é que não escrevi nada em 9 dos 30 dias. Então, na verdade, escrevi o livro todo em 21 dias! Tá certo que nos últimos 3 dias tive de escrever 5000 palavras por dia (olha no gráfico acima as linhas azuis com o que eu deveria ter escrito com as marrons com o que eu realmente escrevi), mas pôxa, foi 30% do livro em apenas 3 dias! E nem fiquei escrevendo o dia todo, gastei 2h30 por dia, no máximo. E, por causa destes dias em que me atrasei na escrita, descobri as principais barreiras que apareceram para me impedir de escrever, que se resumem em uma só verdade: quanto mais sociável você é, menos escritor você é. Sim, ter uma vida socialmente ativa é jogar páginas e páginas de bons escritos no lixo da procrastinação eterna. Foi até engraçado notar o Universo conspirando ora contra mim ora a meu favor: quando eu tivava um tempo para descansar ou ficar àtoa, ninguém lembrava da minha existência. Bastava sentar na frente do pc para começar a cota diária de palavras, telefone, celular, email, msn e campainha aqui de casa viravam um carnaval. Eram garotas que eu não via há décadas me ligando porque estavam afim de sair e se embebedar e saciar todas as suas taras, amigos mãos-de-vaca resolvendo sem motivo algum pagar rodadas de chopp, chuvas de convites de última hora para festas de arromba, viagens e shows com tudo pago e cursos e palestras do meu interesse, únicas no ano.

Garanto que pensar nisso tudo dá um bom papo em uma mesa de bar. É, esse planeta em que vivemos é louca e estranhamente recompensador para os que não dão bola para ele e resolvem ir até o fim em seus objetivos. Os que não ligam para aparências nem opiniões alheias. É como aquela velha história do cara que sai pra balada pra pegar mulher e acaba na seca. Mas basta ele arranjar uma namorada séria e passar a não querer mais curtição pra virar um ímã para o sexo oposto. A mesma coisa acontece com o escritor. Não escreva nada e sua vida será normal. Tranquila e monotonamente normal. Agora, tente escrever um livro e verá como tudo ao seu redor se transformará numa aventura emocionante. Duas vezes emocionante.