Diversidades

1. A resenha de A Arte de Viver, de Epicteto - escrita em 2006, antes de criar o blog - me levou a ganhar em 27/04 meu 6º livro do Projeto Leia Livro (o link leva à resenha). Como prêmio, escolhi a reedição de O Desastronauta (Editora Agir), escrito por Flávio Moreira da Costa, já que era o livro mais fresquinho na prateleira do site. Só espero que ninguém tenha escolhido ele antes de mim.

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2. A resenha de A Torre Negra vol. I - O Pistoleiro, de Stephen King, faz parte da primeiríssima edição da NOVA - E-zine de Ficção Científica e Fantástico, uma - realmente nova - fanzine (fantastic magazine) da galera bastante criativa lá de Portugal, que pretende abordar um pouco de tudo na literatura de fantasia. Quem quiser ler fanzine em formato pdf basta clicar aqui. Quem não tiver o plugin do Adobe Reader instalado (para ler arquivos pdf), basta clicar aqui. Tanto a fanzine quanto o plugin são gratuitos.

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3. Estou concorrendo ao II Prêmio Off Flip de Literatura 2007, de Paraty - RJ. Deu trabalho escrever o conto, pois eram somente 4 laudas, e o meu deu quase 5. Mas acredito que é melhor sobrar do que faltar. Tive de fazer vários cortes para deixar o texto enxuto, mas creio que ficou legal. Os 3 primeiros colocados ganham estadia em Paraty na época da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), convites para os eventos oficiais, passeio de barco e almoço. E "cada um dos autores premiados receberá 10 (dez) exemplares da coletânea, caso se concretize a publicação em livro". Seria um ótimo prêmio, visto que estou planejando ir a FLIP 2007 desde o ano passado, e o sonho de todo escritor iniciante - como eu - é folhear ao menos um de seus trabalhos no papel. Como este é o primeiro concurso literário que participo, agora só resta torcer. E rezar muito. Alguém aí conhece qual é o santo protetor da literatura? ;) Gostaria de agradecer as professoras (Cácia e tia Helena) que se dispuseram a dar orientações bastantes pertinentes, mesmo que para isso eu tomasse uma parte preciosa de seus tempos.

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4. Agora, na seção de inutilidades-públicas-não-tão-inúteis, descobri recentemente duas novas palavras aportuguesadas que desconhecia, as quais estão descritas no Minidicionário da Língua Portuguesa Silveira Bueno:

Copirraite, s. m. Direito autoral, direito de publicar uma obra.

Experto, s. m. Indivíduo sabedor; adj. perito; experimentado.

A primeira deriva de copyright e a segunda de expert. O interessante é que agora você pode escrever tanto esperto ou experto. Vai depender da pronúncia e do sentido.

Os Sete contra Tebas, de Ésquilo

Compre Os Sete contra Tebas[ atualizado em 19/08/2008 ]

Os Sete contra Tebas traz a seqüência das tragédias ocorridas na família amaldiçoada de Édipo relatando os preparativos feitos por Etéocles, rei usurpador do trono de Tebas, contra o ataque do exército de seu irmão, Polinice. Ambos são filhos de Édipo e Jocasta e irmãos de Antígona. Dentre todos os livros que narram a saga edipana, a melhor seqüência cronológica para a leitura é esta:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
3º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
4º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

Dizem que Ésquilo foi o pai da tragédia grega. Por ter sido soldado em várias batalhas, muitas de suas peças possuem uma veia militar. A lenda diz que morreu quando uma águia deixou cair uma tartaruga em sua cabeça careca, pensando que fosse uma pedra. Um fim trágico para quem escrevia tragédias. Das cerca de 90 peças teatrais que escreveu somente sete restaram:

- Os Persas;
- Os Sete contra Tebas;
- As Suplicantes;
- Prometeu Acorrentado;
- Agamêmnon;
- Coéforas;
- Euménides.

A impressão para quem ler este como o primeiro livro de Ésquilo é a de que Os Sete contra Tebas não é tão envolvente quanto os livros de Sófocles. Há muito falatório antes de uma batalha que não é narrada, em que são apresentadas as características dos sete generais que atacam os sete portões de Tebas, bem como os sete guerreiros da cidade designados para defendê-los. Mas é muito mais fácil escrever quando se têm algum material de apoio, e esta pode ser a diferença no caso dos escritos de Ésquilo e de Sófocles: enquanto Ésquilo foi o pioneiro, Sófocles seguiu por uma trilha que já existia, portanto, relativamente mais fácil.

O site da L&PM comenta sobre o livro: "Os Sete contra Tebas conta a infeliz história de uma guerra fratricida, que faz as ambições de poder falarem mais alto do que a irmandade, o bem comum e a tolerância. História essa que se repete até hoje e por isso não perde a atualidade". A tradução direta do grego é de Donaldo Schüler que, em seu prefácio bastante informativo, faz um apanhado geral das peças de Ésquilo comparadas com outras da mesma época ou sobre os mesmos temas.

leitura em: Abril 2007
título: Os Sete contra Tebas, de Ésquilo
edição: 1ª, L&PM Editores (2007), Coleção L&PM Pocket nº 322, 102 pgs
preço: Compare no Buscapé
Ruim

Édipo em Colono, de Sófocles

Compre Édipo em Colono[ atualizado em 19/08/2008 ]

Apesar de ser a última tragédia escritas por Sófocles, a história de Édipo em Colono (401 a.C.) se passa entre as narradas em Édipo Rei e Antígona. Das três é possível ser a que mais surpreenderá o leitor, pois a história dos outros livros já são parcialmente conhecidos enquanto esta trama será inédita. A sensação é a mesma de quando se assiste um filme fora da seqüência, e passa a entender detalhes de muitos eventos ocorridos depois, neste caso, Antígona. A percepção da relação entre Antígona e Creonte é melhorada, bem como entre Antígona e o irmão Polinice. Os três são personagens centrais de Antígona. Aqui se dá uma razão a mais para os sentimentos envolvidos nas ações que levam ao fim trágico de Antígona.

Édipo em Colono relata os últimos dias da vida de Édipo, velho, cego, mendigo e expatriado. Expulso de Tebas, sem o auxílio de seus dois filhos homens, que se interessam mais pelo trono do que pelo pai, o errante Édipo chega em Colono, território de Atenas. O Édipo idoso é diferente do jovem Édipo rei de Tebas, e cego vê melhor que com o sentido da visão. A velhice e o sofrimento o tornaram sábio e obediente aos oráculos: "Com o tempo, amadurecida a dor mortificante, compreendi que o tormento que me triturou foi castigo mais severo que erros cometidos". É justamente um oráculo que prediz publicamente que, onde Édipo estiver, vivo ou morto, a cidade será vitoriosa sobre Tebas. Isto causa uma disputa interesseira: os que antes o abandonaram agora o querem de volta. Tanto Etéocles quanto Polinice - rivais na guerra - tentam de várias maneiras persuadir ou forçar Édipo a ir com eles. Mas ambos são amaldiçoados por ele. Édipo pede proteção a Teseu, rei de Colono, garantindo que a predição somente traria benefícios a Atenas.

Édipo é amparado pela filha Antígona, que o acompanha em sua vida errante. Ismene também o auxilia. "Estas, embora sejam donzelas, no limite de suas forças, me alimentam, me agasalham, com afeto me socorrem, destemidamente. Enquanto que meus filhos, em lugar de quem os gerou, elegeram trono, cetro, poder, mando". Dizem que que os heróis de Sófocles são os que mais sofrem; e em uma época onde as mulheres eram tratadas como inferiores ele sabe enaltecê-las.

A seqüência cronológica para a leitura das obras que narram a saga edipana seria:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
3º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
4º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

As tragédias sofoclianas são melhores que novelas mexicanas refilmadas em Holywood. A trama é tão bem amarrada e com diálogos tão concisos que nos surpreendemos a cada página. Deve ser justamente por isso que são consideradas clássicos, pois não há nada melhor atualmente, seja em livros, filmes ou em outras mídias. A tradução direta do grego é de Donaldo Schüler. Aliás, ele também escreve o prefácio da obra, onde faz um apanhado geral das tragédias escritas por Sófocles que ainda existem, e comparações com Ésquilo e Homero.

leitura em: Abril 2007
título: Édipo em Colono, de Sófocles
edição: 1ª, L&PM Editores (2007), Coleção L&PM Pocket nº 315, 142 pgs
preço: Compare no Buscapé
Excelente

Antígona, de Sófocles

Compre Antígona[ atualizado em 22/10/2008 ]

Antígona, tragédia escrita pelo dramaturgo grego Sófocles, mostra como duas opiniões opostas podem ser corretas dependendo do ângulo analisado. Esta obra é uma das seqüências de Édipo Rei e mostra o fim trágico dos descendentes amaldiçoados e incestuosos de Édipo e Jocasta.

Os dois filhos homens de Édipo, Etéocles e Polinice, morrem em batalha no mesmo dia. Um mata o outro. Um defendendo e outro atacando a cidade de Tebas, que passa a ser governada pelo cunhado de Édipo, Creonte. Creonte manda enterrar honrosamente Etéocles, e determina como a primeira lei de seu governo que Polinice não seja nem velado nem sepultado, por ser um traidor de sua terra natal, e quem descumprisse tal lei pagaria com a vida. Antígona, irmã dos falecidos, descumpre a lei e presta as honrarias fúnebres ao morto. Com este gesto é condenada à morte.

Creonte pode ser considerado por muitos como o tirano na história, mas ele fez o que qualquer governante em seu lugar faria. Ele homenageou o herói e puniu o traidor. Nada mais justo e legal aos olhos do Estado. E quando Antígona descumpriu a lei, mesmo que significasse punir sua sobrinha e futura nora, não poderia voltar atrás em sua palavra. Ele não poderia abrir uma exceção à lei somente porque esta atingiria a sua casa. A lei era superior ao rei.
"Se eu tolerar os desmandos da minha gente, perderei autoridade sobre os demais. [...] O insolente, o transgressor das leis, o que se opõe às autoridades não conte com meu aplauso. A que a cidade conferiu poder, a este importa obedecer, seja nas grandes questões seja nas justas... e até nas injustas. [...] Não há mal maior que a anarquia, ela devasta cidades, arrasa casas, aniquila a investida de forças aliadas" (pgs. 51-52).
A desobediência de Antígona era um ato contra o poder de Creonte, contra as leis do Estado, contra o próprio direito soberano. Creonte foi firme em defender a sua posição, assim como hoje os governantes são firmes (ao menos em tese) quando aplicam a lei aos transgressores (outra tese), pois a não punição levaria ao caos e anarquia.

Por outro lado, Antígona também tinha a sua razão. Como ela poderia obedecer a lei estatal e desobedecer a lei moral, religiosa, que mandava prestar homenagens fúnebres aos parentes mortos? A grande questão era: qual das duas leis era prioritária? Para ela, a lei de seus deuses, de sua moral e de sua religião. Mesmo que isto significasse a morte. Ela se defende perante Creonte:
"Nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder se superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Pois elas não são de ontem nem de hoje, mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram. Por isso, não pretendo, por temor às decisões de algum homem, expor-me à sentença divina" (pg. 36).
Esta passagem lembra as palavras de Jesus no evangelho de Marcos, capítulo 12, verso 17: "Pagai a César as coisas de César, mas a Deus as coisas de Deus". Quantos em toda história da humanidade não morreram por um ideal? Quantos hoje não morreriam como mártires por sua crença, por sua família ou por aquilo que faz parte de sua essência humana? Muitos o fariam, assim como Antígona.

Existe outra discussão sobre se os reais motivos tanto de Antígona quanto de Creonte não eram políticos. Estando os dois sucessores ao trono mortos (Etéocles e Polinice, irmãos de Antígona), o próximo herdeiro seria Creonte. Da linhagem dos Labdácidas (Laio e Édipo), sobraram somente Antígona e sua irmã, Ismene. Como Ismene cala-se a respeito do edito real, Antígona com a sua desobediência, silenciosamente incita o povo contra Creonte. Todos passam a admirar e concordar com a atitude dela em relação ao seu irmão. Começam a falar contra o governante. Creonte também pode ter tido a idéia de despoluir Tebas exterminando os descendentes incestuosos de Édipo, pois estes eram amaldiçoados. Caso o seu segundo filho, Hemon, se casasse com Antígona, a maldição continuaria em seus netos.

Como toda boa tragédia grega, no final muita gente morre. Mas o importante não é a contagem de corpos, antes, a discussão sobre grandes temas que envolvem moral, direito, política e filosofia. Esta discussão ainda faz parte do presente, onde vários pensadores e críticos tem analisado a obra de diferentes pontos-de-vista. Trata-se de uma leitura estimulante e obrigatória. A tradução direta do grego é de Donaldo Schüler. A seqüência para a leitura das obras que narram a saga edipana seria:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
3º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
4º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

leitura em: Abril 2007
título: Antígona, de Sófocles
edição: 1ª, L&PM Editores (2006), Coleção L&PM Pocket nº 173, 97 pgs
preço: Compare no Buscapé
Excelente

Veja também:

Édipo Rei, de Sófocles

Compre Édipo Rei[ atualizado em 20/08/2008 ]

Esta é, sem dúvidas, uma das melhores tragédias já escritas pelo homem. O grego Sófocles (495-406 a.C.) sabia como se expressar e provocar sentimentos no leitor levando-o a refletir sobre questões universais. Ele escreveu 123 obras, mas somente 8 chegaram aos nossos dias: Os Sabujos, Ajax, Antígona, As Traquínias, Édipo Rei, Electra, Filoctetes e Édipo em Colono. Sófocles é considerado o sucessor de Ésquilo e o último dramaturgo do período áureo de Atenas. As suas obras foram escritas em forma de peças teatrais. As sequências de Édipo Rei são Antígona e Édipo em Colono, comentadas posteriormente. Já as versões alternativas da história são Os Sete Contra Tebas (Ésquilo) e As Fenícias (Eurípedes).

O mito do filho amaldiçoado pelo destino a matar o pai e a se casar com a mãe foi citado desde Aristóteles, Foucauld até os mais diversos pensadores, clássicos ou contemporâneos. É uma das histórias mais conhecidas graças ao seu uso pela psicanálise de Freud como fundamento da psiquê humana. Mas a história vai além de Freud, pois mexe em algo nas profundezas de nosso ser. Provoca sentimentos e tabus, compaixão e revolta, e faz repensar a obstinação e o orgulho. Sófocles provoca as bases de duas crenças defendidas hoje em dia como axiomas.

Primeiro, enquanto a maioria crê poder decidir o seu próprio futuro, para Édipo é impossível fugir do que foi traçado pelos deuses e pelo destino. Somos levados a nos perguntar: Se tudo em nossa vida já esta pré-determinado, para que serve o livre-arbítrio? Independente de nossas escolhas, sempre iríamos acabar no ponto exato destinado a nós. Livre-arbítrio e destino são idéias incompatíveis? A ideologia dos humanos serem marionetes do destino foi usada, e muito, para justificar o domínio de uns sobre outros. Se você nasceu pobre, feio, doente ou infeliz é porque os deuses e o destino assim o quiseram e nada que você faça mudará a situação. Mas há aqueles que não são Édipos, e acreditam que fazem os seus destinos. Chova ou faça sol, são obstinado em atingir os seus alvos.

Em segundo lugar, enquanto se ensina que a busca pela verdade e conhecimento é o caminho correto para a felicidade, em Édipo Rei eles levam à desgraça. Édipo e Jocasta viviam felizes na ignorância. Eram amaldiçoados mas não sabiam disso. É o que hoje se discute muito, se o conhecimento torna o homem mais feliz ou não. Os que acreditam que sim defendem que só precisamos ser seletivos quanto ao tipo de conhecimento escolhido, visto que muita coisa é apenas informação inútil ou prejudicial. Lixo.

O desfecho da tragédia leva à uma moral atemporal: "Guardemo-nos de chamar um homem feliz, antes que ele tenha transposto o termo de sua vida sem ter conhecido a tristeza" (pg. 104). A excelente tradução é de Paulo Neves. A seqüência para a leitura das obras relacionadas com a saga edipana seria:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
3º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
4º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

leitura em: Abril 2007
título: Édipo Rei (Oedipus Tirannos), de Sófocles
edição: 1ª, L&PM Editores (2007), Coleção L&PM Pocket nº 127, 104 pgs
preço: Compare no Buscapé
Excelente

Atlantis, de David Gibbins

Compre AtlantisO que torna um livro ruim? Será o excesso de detalhes técnicos? Ou as situações difíceis de acreditar? Ou o herói que sabe fazer de tudo e que nunca acaba mal? Se o livro for um best-seller, com o objetivo principal de vender muito, isso o torna ruim?

Não são os detalhes técnicos em demasia que deixam o livro ruim, pois em Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo os usa à exaustão, e a história é boa. Os detalhes demonstram tanto a personalidade guerreira do herói quanto a sua árdua luta no mar. No final, torcemos para que o herói supere tudo aquilo que - detalhadamente - atrapalhou a sua viagem.

Tampouco são as situações inverossímeis que depreciam o livro. Se fosse assim, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez estaria fadado ao fracasso. Mas a história é maravilhosa. Neste caso, viajamos através das situações fantásticas e nos imaginamos vivendo-as. Em nenhum momento no desenrolar da trama dizemos "Peraí, isso é um pouco demais" ou "Não concordo com nada disso".

Nem torna o livro ruim aqueles personagens que sempre acham uma saída e nunca morrem, como no caso do agente 007, James Bond, no livro Casino Royale, de Ian Fleming. Em nosso íntimo, o que realmente queremos é que o herói se salve, salve a mocinha, a família, o amigo chato, o país, o planeta, e se sobrar tempo e bondade, até mesmo o vilão. O importante é que haja uma solução que não menospreze a nossa inteligência e que nos satisfaça dentro das expectativas.

Muito menos o fato de ser um best-seller torna o livro ruim. O próprio Dan Brown, com os seus Anjos e Demonios e O Código Da Vinci prova isto. Apesar de intelectuais não o recomendarem, a leitura destes livros é considerada uma forma de entretenimento, como assistir um filme. E ainda são capazes de fazerem o leitor refletir e debater sobre diversos assuntos, quando não mostram uma mensagem mais implícita nas entrelinhas.

Bem, vimos até aqui aquilo que não torna o livro ruim. Aliás, são aspectos que podem até ser o diferencial da obra. Então porque enumerá-los antes de falar sobre o livro Atlantis, de David Gibbins? Bem, porque todos estes aspectos aparecem no livro: muitos detalhes técnicos, situações inverossímeis, personagens mais inverossímeis ainda, e o fato de ter sido escrito como um best-seller. Neste caso não são tais aspectos que tornaram o livro ruim. É o próprio autor.

Gibbins consegue transformar uma história interessante, fundamentada em pesquisas arqueológicas e documentais, em algo maçante. A ação (essencial em um best-seller) aparece somente depois das primeiras 100 páginas, mas o excesso de detalhes técnicos não importantes à trama quebra o ritmo a toda hora. O personagem, apesar de ser um arqueólogo, lembra bastante o Rambo, por saber e fazer de tudo. Em um provável duelo com Chuck Norris e Jack Bauer, ele seria capaz de derrubar os dois juntos com os olhos vendados e uma das mãos amarrada nas costas. As tecnologias empregadas também são de uma outra época, muito além do que conhecemos hoje.

O livro nos conta sobre o arqueólogo marinho Jack Howard que, junto a sua equipe, encontra as ruínas da cidade perdida de Atlântida seguindo algumas pistas encontradas em outras escavações. A partir daí, passa a sofrer perseguições e ameaças de um pirata e saqueador internacional moderno. Após muitas dificuldades transcorridas durante quatro dias, o mocinho, ao final, cumpre o seu papel de mocinho. Mas se você confiar no subtítulo do livro que diz "Um dos maiores mistérios da história finalmente revelado" ou acreditar nas comparações feitas ao autor com Dan Brown e Michael Critchon ou procurar algo que se aprofunde na lenda de Atlântida, irá se decepcionar. Nada disso aparece aqui. Ou se aparece um pouco, é estragado pela história.

O livro foi emprestado por um amigo que está iniciando sua biblioteca agora, começando com alguns best-sellers. Ele costuma dizer que a minha opinião influencia a tal ponto a disposição dele na leitura do livro que ele prefere nem me ouvir. Mas em alguns casos é importante salvarmos outros de experimentarem pratos insossos, aromas putrefatos e letras insignificantes. Eu não compraria este livro para a minha biblioteca particular e muito menos daria ele de presente. Não por já o ter lido, pois considero que livros bons são aqueles que queremos ter por perto depois que os lemos. Sentimos que ele já faz parte de nós e que precisamos dele ali, ao alcance dos olhos. E o mais importante, quando estamos conhecendo um autor e logo de cara não gostamos dele, a primeira impressão é a que fica, e será difícil lermos ele novamente. É certo que todos nós evoluímos, melhoramos, mas em um universo onde há tantos escritores, acabamos relendo aqueles que sabemos serem bons aos que sabemos serem ruins.

leitura em: Abril 2007
obra: Atlantis, de David Gibbins
edição: 1ª, Editora Planeta do Brasil (2006), 440 pgs
Ruim

Frases VIII

Honestidade não é sinônimo de verdade.

(Martin Scorcese, cineasta, no filme Os Infiltrados)

O tio Philomeno

O tio Philomeno era o rei da festa. Com o seu jeito bonachão, quase nem era lembrado nos dias comuns. Mas quando a família se reunia, não havia como não prestar atenção naquela barriga enorme, na cara redonda e vermelha, nas brincadeiras pueris com crianças e adultos. No início, enquanto todos ainda chegavam meio tímidos, lá estava ele correndo atrás da gurizada, que fugia aterrorizada. Ao final, era a gurizada que não desgrudava dele de jeito nenhum, num festival de bracinhos agarrados às suas pernas e de choros sentidos. O tio Philomeno era companheiro inseparável de um canecão de vinho tinto sangue-de-boi, que corava rápido as suas bochechas polonesas. Quando a bebida e os parentes o incentivavam, cantava músicas de seus antepassados que só ele lembrava ou entendia. Durante as partidas de bocha, parece que não se importava muito em ganhar, mas em divertir a todos. Até hoje comenta-se sobre o dia em que ele se foi, engasgado com um pedaço de churrasco, aparecendo no quintal pulando e balançando os braços para os convidados, a cara vermelha e suada, fazendo a alegria e divertindo os parentes até mesmo em seu último suspiro.

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Os 300 de Esparta, de Frank Miller

Compre Os 300 de EspartaSe você assistiu ou não ao filme 300, aquele em que o ator brasileiro Rodrigo Santoro faz o papel do rei Xerxes, deve ter notado a diferença na manipulação das luzes, sombras e cenários em comparação aos outros filmes. Isto aconteceu porque o filme foi baseado em uma História em Quadrinhos (HQ), escrita e desenhada pelo lendário Frank Miller.

A HQ é uma verdadeira obra de arte. Os apreciadores de HQ's para adultos (que apresentam violência, sexo, palavrões etc.) não podem deixar de ler e comparar à versão cinematográfica. Eu mesmo me surpreendi com tamanha semelhança entre ambos. Poucas passagens foram retiradas, acrescentadas ou tiveram as sequências modificadas, o que torna a HQ praticamente um roteiro pronto. As poucas diferenças são irrelevantes para a trama. Aliás, se a maioria das HQ's adultas fossem tão bem utilizadas pelo cinema, provavelmente teríamos alguns bons filmes por aí. Se depender do sucesso que o filme está fazendo, podemos esperar mais adaptações neste mesmo estilo em breve.

Os 300 de Esparta nos conta sobre a batalha ocorrida no desfiladeiro de Termópilas (Portões de Fogo), onde 300 soldados espartanos liderados pelo rei Leônidas, lutaram contra mais de 1 milhão de persas, liderados pelo rei Xerxes. A desvantagem numérica é anulada pelos gregos quando estes se posicionam em uma passagem onde os persas eram obrigados a avançarem em um número reduzido de cada vez. Esta batalha aconteceu de verdade e é considerada como o marco que levou toda a Grécia a se unir contra os persas.

Frank Miller apresenta bem os personagens, bem como a filosofia espartana. A sequência das cenas de ação, bem como as cores fortes de Lynn Varley, ora vibrantes ora sombrias, transportam-nos para dentro da batalha. Vale a pena conferir por ser uma excelente diversão, mas não pense que o autor seguiu 100% os fatos históricos. Se quiser se aprofundar mais sobre o assunto, leia o livro Portões de Fogo, de Steven Pressfield.

Li Os 300 de Esparta na versão online em 5 volumes da Editora Abril. Mas o livro (seria injusto chamá-lo de gibi) foi republicado recentemente pela Editora Devir em um único volume de luxo.

leitura em: Abril 2007
título: Os 300 de Esparta, de Frank Miller
edição: 1ª, Editora Abril (1999), 5 volumes de 16 pgs cada
Excelente
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edit 16/05/2007: Com esta resenha ganhei meu 7º livro no Projeto Leia Livro. Escolhi o Discworld v. 11: O Senhor da Foice (Editora Conrad), escrito por Terry Pratchett.

Contos de Encantos, Seduções e Outros Quebrantos, de Rogério Andrade Barbosa

Compre Contos de Encantos, Seduções e Outros QuebrantosConforme define a Wikipédia, folclore é um gênero de cultura de origem popular, constituído pelos costumes, lendas, tradições e festas populares transmitidos por imitação e via oral de geração em geração. Cada povo possui as suas próprias tradições e mitos, e muitos destes originam-se de outras culturas. O Brasil, por ser um país que abarcou diversas etnias em sua colonização e desenvolvimento, obteve um grande número de crendices, originárias dos mais diversos países.

É justamente sobre estas crendices, mais especificamente as que envolvem fantasmas, aparições, lobisomens, botos, portas de cemitérios, matintapereras etc., que trata o livro Contos de Encantos, Seduções e Outros Quebrantos, de Rogério Andrade Barbosa. Este é outro livro que ganhei no Projeto Leia Livro. Escolhi ele pois sempre tive curiosidade em conhecer um pouco mais as lendas do folclore brasileiro.

Os contos mostram a maioria dos mitos (senão todos) existentes de norte à sul do país. Mostra que o escritor além de um viajante é também um interessado na cultura popular. Escritos em linguagem coloquial, os contos se parecem muito com aqueles causos contados pelos nossos avós quando éramos pequenos o bastante para acreditar em tudo. Parece que o livro foi escrito justamente para quem não teve a sorte de ter avós ou uma infância assim, cheia de mistérios e superstições. Nesse mundo onde as crianças e adolescentes só se interessam em jogos eletrônicos de violência, mau-caratismo, vidas alternativas ou coisas piores, considero uma boa tentativa do autor mostrar que nem tudo de bom que possuímos nesse grande país é um enlatado americano pronto para consumo. Tá certo que muita coisa de nosso folclore veio de fora, mas aqui se transformou gradualmente até chegar a sua consistência atual, pura e exclusivamente brasileira.

Para aqueles que gostam de histórias contadas à noite à luz de uma fogueira, ouvindo (e às vezes temendo) os sons que a natureza faz enquanto sua imaginação alça vôo, esta é uma boa opção para ampliar seu conhecimento sobre as tradições orais que existem no interior de nosso povo.

leitura em: Abril 2007
título: Contos de Encantos, Seduções e Outros Quebrantos
edição: 1ª, Bertrand Brasil (2005), 119 pgs
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