Quem matou Lula da Silva?

SINOPSE

Mistério. Suspense. Intrigas. Um candidato à Presidente da República é assassinado às vésperas das eleições. Mesmo assim, ele ganha as eleições... Ou não será ele? Ubaldo César Balthazar envolve o leitor a cada página desse romance policial moderno e brasileiríssimo, tecido com inteligência e refinado humor! "Até hoje, muita gente (de esquerda, principalmente) não perdoa o atual Presidente brasileiro pela transformação sofrida. Daí que uma explicação possível tenha sido uma troca por um sósia fisicamente perfeito, mas de ideologia nem tão igual. Por isso, meus agradecimentos ao Presidente Lula, pela ideia..." (Ubaldo César Balthazar)

DADOS TÉCNICOS

Autor: Ubaldo César Balthazar
Editora: Cia dos Livros
ISBN: 8563163043
Acabamento: Brochura
Edição: 1ª
Ano Publicação: 2010
Páginas: 132

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A evolução do vocabulário

Antigamente: creme rinse
Atualmente: condicionador

Antigamente: obrigado!
Atualmente: valeu!

Antigamente: é complicado
Atualmente: é foda

Antigamente: collant
Atualmente: body

Antigamente: rouge
Atualmente: blush

Antigamente: corôa
Atualmente: véio

Antigamente: bailinho no salão de corte-e-costura
Atualmente: balada

Antigamente: japona
Atualmente: jaqueta

Antigamente: bastidores de gravação
Atualmente: making off

Antigamente: cafona
Atualmente: brega

Antigamente: programa de entrevistas
Atualmente: talk-show

Antigamente: reclame
Atualmente: propaganda

Antigamente: calça cocota
Atualmente: calça cintura baixa

Antigamente: flertar, paquerar
Atualmente: dar mole

Antigamente: olá, como vai?
Atualmente: e aê?

Antigamente: imitação
Atualmente: genérico

Antigamente: curtir
Atualmente: causar

Antigamente: mamãe posso ir?
Atualmente: véiaaaa, fui!!!

Antigamente: legal, bacana
Atualmente: manêro, irado

Antigamente: mulher de vida fácil
Atualmente: garota de programa

Antigamente: legal o negócio
Atualmente: xapado o bagulho

Antigamente: pasta de dente
Atualmente: creme dental

Antigamente: cansaço
Atualmente: estresse

Antigamente: desculpe
Atualmente: foi mal

Antigamente: oi, tudo bem?
Atualmente: e aê, belê?

Antigamente: ficou chateada
Atualmente: ficou bolada

Antigamente: médico de senhoras
Atualmente: ginéco

Antigamente: super legal
Atualmente: irado

Antigamente: primário e ginásio
Atualmente: ensino fundamental

Antigamente: preste atenção!
Atualmente: se liga!

Antigamente: por favor
Atualmente: quebra essa

Antigamente: recreio
Atualmente: intervalo

Antigamente: radinho de pilhas
Atualmente: ipod

Antigamente: manequim
Atualmente: modelo e atriz

Antigamente: retrato
Atualmente: foto

Antigamente: jardineira
Atualmente: macacão

Antigamente: mentira
Atualmente: caô

Antigamente: saquei
Atualmente: tô ligado

Antigamente: entendeu?
Atualmente: copiou?

Antigamente: gafe
Atualmente: mico

Antigamente: fofoca
Atualmente: babado

Antigamente: ha ha ha
Atualmente: rs rs rs

Antigamente: fotocópia
Atualmente: xerox

Antigamente: brilho labial
Atualmente: gloss

Antigamente: bola ao cesto
Atualmente: basquete

Antigamente: folhinha
Atualmente: calendário

Antigamente: empregada doméstica
Atualmente: secretária do lar

Antigamente: faxineira
Atualmente: diarista

Antigamente: vou verificar
Atualmente: vou estar verificando

Antigamente: madureza
Atualmente: supletivo

Antigamente: vidro fumê
Atualmente: insulfilm

Antigamente: kiss
Atualmente: x

Antigamente: tingir uma roupa
Atualmente: customizar

Antigamente: dar no pé
Atualmente: vazar

Antigamente: embrulho
Atualmente: pacote

Antigamente: lycra
Atualmente: stretch

Antigamente: tristeza
Atualmente: deprê

Antigamente: beque
Atualmente: zagueiro

Antigamente: rádio patrulha
Atualmente: viatura

Antigamente: corpo atlético
Atualmente: sarado

Antigamente: peituda
Atualmente: siliconada

Antigamente: professor de ginástica
Atualmente: personal trainner

Antigamente: lousa/quadro negro
Atualmente: quadro escolar/lousa

Antigamente: babosa
Atualmente: aloe vera

Antigamente: lepra
Atualmente: hanseníase

Antigamente: Disc Jockey
Atualmente: DJ (dji-djei)

Antigamente: caramba
Atualmente: caráca

Antigamente: namorar
Atualmente: ficar

Antigamente: laquê
Atualmente: spray

Antigamente: de montão
Atualmente: pracarái

Antigamente: derrame
Atualmente: AVC

Antigamente: chapa dos pulmões
Atualmente: raio-x de tórax

Antigamente: sua bênção, papai !
Atualmente: “qualé” coroa?

Antigamente: você tem certeza?
Atualmente: fala sério, aê!

Antigamente: banha
Atualmente: gordura localizada

Antigamente: casa dos fundos
Atualmente: edícula

Antigamente: bar no fim do expediente
Atualmente: happy hour

Antigamente: costureira
Atualmente: estilista

Antigamente: negro
Atualmente: afro-descendente

Antigamente: deficiente físico
Atualmente: portador de necessidades especiais

Antigamente: preso
Atualmente: reeducando

Antigamente: professora
Atualmente: tia

Antigamente: aquele senhor
Atualmente: aquele tiozinho

Antigamente: bela bunda!
Atualmente:: que popozão!

Antigamente: Amooor!
Atualmente: Benhhêêêêê!

Antigamente: desculpe, mas isto está fora de questão!
Atualmente: nem fudendo!

Antigamente: olha o barulho!
Atualmente: ó o auê aí ô!

Antigamente: marginal
Atualmente: político

Rapidinha do dia nº 11

INTERNET.COM.VC

A relação de Jorge com a esposa já não era a mesma. Não existia mais tesão, somente uma conveniente e monótona coabitação. Anos e anos de futebol na tevê e dores de cabeça na cama transformaram em picolé de nata aquela outrora ardente paixão. Até que ela surgiu na vida de Jorge, a internet. O que inicialmente consistira em desvirginar CDs com músicas pauleira baixadas passou rapidamente para curiosidade moderada, chegando por fim ao vício descontrolado quando soube da comunidade virtual. Lá ele poderia assumir outra identidade, ser quem ele nunca fora na vida real e até casar-se de novo. Ele experimentou a novidade e a novidade o experimentou. Jorge ficou completamente arrebatado. Se autojustificava que não era traição ter outra esposa, virtual, já que ele também não se considerava o mesmo Jorge virtual. Tudo parecia ir bem, até que a relação com a esposa virtual passou a não ser mais a mesma. Não existia tesão, somente uma conveniente e monótona coabitação...

O pior cego é o que não quer duvidar - Final

Havia uma música que tocava ao longe. Era um parque, e nele uma garotinha brincava no escorregador. A música saía da boca dela, sempre em repetições. Quando ela subia os degraus do brinquedo e se sentava, olhava diretamente para ele. Então, a música recomeçava. Era uma melodia infantil, mas que o incomodava a ponto dele querer chorar. Dava também um aperto no peito estar ali presenciando aquela cena. Algo no rosto da menina o amedrontava.

Sérgio acordou com água jogada em seu rosto. Junto com a consciência repentina, dor extrema, para lembrá-lo do que passara durante as últimas horas. Vomitou. Como não era a primeira vez, não havia mais nada a expelir a não ser um líquido ralo e azedo. Seu corpo todo doía, parecia ter sido atropelado. Olhou para a queimadura no braço direito que se estendia desde a palma da mão até depois do cotovelo. Latejava. Mas o machucado era que menos lhe importava naquele momento. Estava preocupado com o olhar daquele rosto asqueroso e vil à sua frente.

Porém, a sua atenção foi desviada por aquela que passara as últimas horas maltratando-o das formas mais cruéis que alguém poderia imaginar. Passou à sua frente vestindo poucas peças de roupa e um óculos escuro. Em outra ocasião, teria ficado excitado. Ela passou a mão nas tiras de couro que o amarravam à cadeira e verificou que ainda se mantinham firmes, mesmo depois das convulsões e ataques do homem. Depois, suavemente deslizou os dedos para tocar em seu rosto, e percebendo que ele estremecia com o toque, sorriu maldosamente.

- Boa tarde, meu querido. Pensei que você não queria mais brincar. Desta vez você ficou desacordado por vinte minutos.

Ele tentou falar, mas não conseguiu emitir nada mais que um gemido. Ela notou e levou uma pequena garrafa de água mineral até a boca dele que, por impulso, virou o rosto.

- Vamos lá, beba, vai te ajudar a melhorar. Você vai precisar estar forte para voltar para casa.

- M-moça, por favor, eu não ag-guento mais... Me desculpa tudo o que fiz... eu prometo que... me desculpa, eu não aguento... – e começou a chorar copiosamente.

Ela soltou uma gargalhada que o fez diminuir o choro.

- Oh, querido, você não me fez nada de mal. Pelo contrário, você esteve muito bem. Sabe como é difícil para alguém que só consegue chegar ao clímax com uma fantasia simular um estupro com um namorado sério, metido a certinho? Nunca tem o gosto de um estupro de verdade. Resultado: não me satisfaço com performances fracas. Mas ontem, você superou as minhas expectativas, fez exatamente tudo o que me excita, me amarrou, me amordaçou, me bateu... entre outras coisas. O senhor me saiu melhor que a encomenda.

- Mas então por que você está me torturando?

- Ora, é o meu agradecimento pela noite de prazer. Você me fodeu, fazendo tudo o que queria, agora eu retribuo te fodendo, fazendo tudo o que eu quero. Tenha certeza de que será inesquecível para nós dois.

- Eu quero esquecer... a dor... tudo o que você me fez superou o que eu te fiz... mas não vou conseguir... você fodeu com a minha cabeça também. E ainda tem o rosto dessa velha maldita me encarando.

- Não fale assim da vovó. Eu devo tudo a ela. Foi ela quem me ensinou o que sei sobre “a arte”. Afinal, ela precisava passar para alguém os conhecimentos adquiridos quando trabalhava no Reich alemão. E seria um desperdício não praticar em você. Considere-se um felizardo, poucos sobrevivem ao que fiz contigo. E consegui agradar mais uma vez a vovó, fazendo tudo na frente dela. Mesmo imóvel nesta cama, é como se eu recordasse as suas instruções, “faça um pequeno corte aqui, minha neta” ou “eletrocute o testículo direito com tantos volts”... ah, bons tempos aqueles.

- Sua puta sádica!

- Obrigada pelo elogio. Mas tem um detalhe a mais: a partir de hoje você será uma pessoa diferente. Vai começar a entender melhor o meu mundo, os meus prazeres, e isso não o abandonará nunca mais. Será parte do seu ser até o seu último suspiro. Quem sabe até passe a gostar de...

- Nunca, nunca, nunca! Eu... peraí, v-você vai me soltar?

- Claro, meu bem. Eu sei que você não vai ser tão tolo de contar para a polícia, pois eu tenho gravada a sua performance de ontem a noite. Você sabe como tratam estupradores na cadeia. E caso você não tenha percebido, sou uma profissional na minha arte, e não deixei vestígios suficientes para você conseguir provar que foi torturado. E, por último, se passar pela sua cabecinha querer voltar aqui em casa para se vingar, saiba que sou mais esperta que você, e você já sabe o que te espera.

- Moça, eu só quero ir embora... prometo não contar para ninguém... nem voltar.

- Claro que não vai contar, eu sei muito bem disso – ela respondeu, e umedecendo um lenço em um líquido transparente que estava em um frasco ali perto, o segurou sobre o nariz de Sérgio.

Ele tentou reagir, mas as suas forças já o tinham abandonado faz tempo. Em poucos segundos, estava inconsciente. A boca da velha parecia sorrir, sem se mover. A boca da moça com certeza sorria, satisfeita.

A garotinha usava um vestido e brincava no escorregador do parque. E ela repetia a mesma música infantil, sempre o refrão. Aquele som apertava-lhe o peito e o fazia chorar. Quanto mais ela cantava mais ele sentia-se mal. A garotinha, sentada no brinquedo, o encarava com o sorriso e os olhos de velha.

Sérgio acordou sobressaltado no banco da praça. Era final de tarde e ele demorou perceber aonde estava. Quando percebeu, deu um pulo assustado, olhando para o banco. “Maldito lugar”, pensou. Tudo parecia um pesadelo. Mas pesadelos não te deixam dolorido e fraco. Olhou rapidamente ao redor, e percebeu que estava só. Havia apenas uma garota brincando no parque. Um frio correu por sua espinha enquanto ele cambaleava o mais rápido possível até o ponto de ônibus.

Entrou no ônibus sem olhar para trás. Não queria saber quem o levara até a praça, muito menos lembrar as cenas que estavam em sua cabeça. Queria esquecer tudo. Pediu folga no serviço, não se sentia bem. Em casa, não entendiam o que ele tinha, até porque não apresentava sintomas de doença. E se recusava em ir ao médico ou a contar o que acontecera. Passou a acordar no meio da noite gritando. Não assistia mais tevê nem os jogos de futebol nos fins de semana. Perambulava pelas ruas como um morto-vivo. Ficava horas olhando o vazio. Parecia que algo escuro crescia dentro dele.

Dois meses depois, tocava a campainha da casa em que moravam apenas a neta e a avó.

TEMA: A Metamorfose de Kafka

Parece que o blogue Duelo de Escritores voltou com a corda toda, depois da renovação de alguns competidores, uso de um domínio próprio ao invés do blogspot e das férias de fim/começo de ano. E como a proposta de escrita da semana me interessou, resolvi ressucitar e escrever o meu exercício também. Seguem as regras da brincadeira:

Um dos começos mais icônicos da literatura universal é a abertura da obra A Metamorfose, de Franz Kafka. Para quem ainda não leu (sacrilégio!), a história narra a desventura do “caixeiro viajante Gregor Samsa, que acorda um dia transformado em um inseto e, subitamente, deixa de ser o arrimo da família para se tornar um problema cada vez mais incontornável para seus pais e irmã”. (das palavras de Adriano Schwartz, editor-adjunto do Mais!)

Segue a abertura, da tradução de Marcelo Backes:

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

Um tempo atrás, a Folha propôs um exercício interessante para vários escritores brasileiros: reescrever, cada um a seu modo, o primeiro período de A Metamorfose. [...] O que eu proponho aos colegas duelistas é repetir esse exercício. Não se trata de querer reescrever A Metamorfose ou plagiar Kafka, mas sim de prestar uma homenagem, de subverter, cada um ao seu modo, de acordo com seu estilo próprio, essa grande obra. Se alguém não leu, é uma boa oportunidade: o livro é curtinho, dá pra terminar em uma hora. Pode-se reescrever somente o primeiro período, como a Folha propôs, ou ir mais adiante e avançar na história. Fica a critério de cada um.

"Ao acordar à tardinha, com a maior larica e depois de dormir o dia inteiro por causa da farra da noite anterior, Gregório Sousa levantou-se (se sonhara com alguma coisa não lembrava) para descobrir que todos no mundo haviam se metamorfoseado em insetos monstruosos." - JLM

Rapidinha do dia nº 10

A METADE DA LARANJA

- Amor, antes de te conhecer eu achava que todos os homens grandes tinham pinto pequeno.

- E agora?

- Agora eu tenho certeza! - ela arrematou, entre gargalhadas.

- Pois não é o que as suas amigas me dizem - agora quem gargalha é ele.

- É por isso que eu te adoro, amor, você é tão mentiroso quanto eu.

- E quem disse que eu estou mentindo?

- Nem eu estou.

- Te amo!

- Eu também.

O pior cego é o que não quer duvidar - Parte II

Mais parecia uma casa-fantasma. Não porque fosse amaldiçoada ou qualquer coisa do tipo, mas porque fazia-se naturalmente invisível para a maioria dos que transitavam a sua frente. A pintura velha, descascada – que lembrava ter sido, algum dia, parente distante de uma tonalidade mais vibrante – junto com as inúmeras manchas de infiltrações hidráulicas e os emaranhados de cabos e fios descascados e obsoletos, fariam qualquer ladrão de inteligência mediana riscá-la de seu itinerário de trabalho. Apesar de ser uma das da série de conjugados formados e reformados desde a década de 60, servia perfeitamente em sua função de casa: fornecer abrigo contra as intempéries e calor ou frescor, dependendo da ocasião. Mas também era um reflexo da personalidade de seu morador, mesmo que ele não se apercebesse disso. Contudo, naquele momento, somente uma peculiaridade sobre a moradora do número 34 da Travessa General Joaquim Inácio, Vila Esperança, era óbvia demais para não ser notada pelo homem parado a sua frente: aquela, definitivamente, era a casa de uma cega.

- Entre, seu João, e, por favor, não repare a bagunça – disse a moça.

Mas ele reparava. Não na bagunça e sim se alguém o tinha visto chegar até ali. Fora três ou quatro moleques jogando bola na calçada da esquina, não havia ninguém mais na rua àquela hora. Uma lâmpada queimada no poste em que cruzou com os meninos mostrara-se bastante oportuna para evitar futuras identificações. Ao fechar a porta enquanto Miriam pendurava a bolsa em um gancho na parede, não esqueceu de girar a chave com cuidado, duas vezes.

- Ali fica o sofá, me espere enquanto busco o kit de primeiros socorros.

- Tudo bem – respondeu o comportado visitante.

Mas não se sentou. Ao invés, fez uma rápida verificação na sala, viu que as cortinas pesadas ajudariam a abafar qualquer som alto. Além da sala, havia a cozinha e um banheiro naquele andar, bem como a escada para o andar de cima.

- Você mora sozinha, Míriam? – perguntou em uma altura de voz que pudesse ser ouvida da cozinha, mas cuidando para que não o fosse demasiado alta para despertar a curiosidade dos vizinhos.

- Não, eu moro com a minha avó. Mas ela não sai da cama desde o último derrame.

- Porque você diz “último”, foram mais de um?

- Quatro. Ela é velhinha, mas é bem durona.

- Realmente.

Não havia nada de valor a ser levado ali. Apenas uma televisão seminova – que soava como uma piada de mau gosto como mobiliário de uma cega e uma inválida - um sofá e uma cristaleira repleta de pratos, taças e contas a pagar. Apesar da sensação incômoda de que não deveria estar ali, abusando da bondade alheia, convenceu-se que no andar superior talvez tivesse mais sucesso. Foi quando viu Míriam voltando da cozinha com uma maleta branca encardida com a tão conhecida cruz rubra. Ela sentou-se ao seu lado, retirou gaze e uma bisnaga de pomada antiinflamatória. Enquanto fazia isso, João sentia o aroma que ela exalava. Estavam bastante próximos, e ela esquecera que uma alça da blusa havia caído, exibindo agora metade de seu seio. A excitação tomou conta de João e ele não resistiu mais, tirou rápido o canivete do bolso e pulou em cima de Míriam que, pega de surpresa, não esboçou qualquer reação.

- Fique caladinha – ele sussurou, olhando o seu reflexo nos óculos escuros da garota, uma mão em sua boca outra pressionando a lâmina em seu rosto – Nós vamos subir para o seu quarto, e você sequer pensar em gritar por ajuda, eu corto a sua garganta e depois a da sua avó. Entendido?

O rosto de pânico da moça, com lágrimas escorrendo sob os óculos, só conseguiu esboçar como resposta o aceno com a cabeça para cima e para baixo. Com brutalidade, ele a pôs em pé e, postando-se atrás dela, ainda mantendo uma das mãos em sua boca, com a outra ligou a televisão em um volume alto. Depois, pegou a gaze e conduziu a moça até a escada.

No primeiro andar, havia um pequeno corredor e duas portas. A da esquerda estava trancada, e João supôs que fosse o quarto da velha. Na outra porta, encontrou uma cama de casal, um guarda-roupa e uma penteadeira. Com a gaze, ele prendeu forte os braços de Míriam nas costas. Jogou-a na cama e arrancou-lhe as roupas, incontrolável. Só a deixou com os óculos. Como ela lhe pedia “por favor, não faça isso, por favor”, amordaçou-a com a sua camiseta. Eram muitos fatores para abafar os gritos e gemidos naquela cama, todos à favor de João fazer tudo o que quis, do jeito que quis e quantas vezes quis naquela noite com Míriam. João, que na verdade se chamava Sérgio, naquela noite sentiu-se Napoleão invadindo o país chamado Míriam. A sensação de poder subjugar outro ser humano da forma mais bestial possível funcionara como um poderoso afrodisíaco na libido daquele criminoso. Dizem que existe um instinto animal, tentador e extasiante que leva à destruição das coisas belas, inocentes e frágeis, que somente os vândalos e os anarquistas conseguem exprimir.

- Foi bom, não foi? – perguntou enquanto admirava o corpo nu e suado estendido ao seu lado – Percebi que você também gostou, não tente negar. Eu sei reconhecer estas coisas. Mas agora eu tenho de ir, por isso vou te soltar, mas lembre-se de que qualquer barulho e eu...

A ameaça nem seria necessária. Míriam parecia catatônica. João, ou Sérgio, desamarrou os seus braços e retirou a mordaça. Ainda nu, olhou a penteadeira e percebeu uma chave. Que maravilha, pensou, quem sabe encontro no outro quarto algo que possa levar. Olhou uma última vez para a cama com sua usuária imóvel - só duas lentes negras o encaravam - e caminhou até o outro quarto. A chave serviu perfeitamente e, ao abrir a porta, Sérgio se deparou com uma escada que descia em caracol. Estava escuro. Ao tatear na parede interna a procura do interruptor, ouviu um clique. Foi o último som que escutou, enquanto no bairro lâmpadas e televisores diminuíam de tensão elétrica por alguns segundos, parecendo que algo ali perto fritava.

Frases de Oscar Wilde

Antigamente, livros eram escritos por homens de letras e lidos pelo público. Hoje em dia, livros são escritos pelo público e lidos por ninguém.

Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.

É o que você lê quando não tem que fazê-lo, que determinará o que você vai ser quando não puder evitar.

A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios.

Instrução é uma coisa admirável, mas deve bem recordar frequentemente que nada que vale a pena saber pode ser ensinado.

A diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida.

Entre duas pessoas de nível cultural diferente, o único tipo de diálogo que poderá existir será a nível mais baixo.

A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios.

Estamos todos na sarjeta. A diferença é que alguns de nós conseguem ver as estrelas.

Sou contra os noivados muito prolongados. Dão tempo às pessoas para se conhecerem melhor, o que não me parece aconselhável antes do casamento.

Os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo.

Uma coisa não é forçosamente verdadeira porque um homem morreu por ela.

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

A verdade não é complexa, nós é que somos.

Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.

Se alguém diz a verdade, pode estar certo de que será descoberto, mais cedo ou mais tarde.

Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência.

A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades.

Ser grande significa ser incompreendido.

A vida é muito importante para ser levada a sério.

Posso resistir a tudo, menos à tentação.

O pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos.

Um homem pode viver feliz com qualquer mulher desde que não a ame.

As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos.

A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela também.


Oscar Wilde (1854-1900) foi poeta, dramaturgo e escritor irlandês. Escreveu O Retrato de Dorian Gray.

O que ler dos 2 aos 18 anos

O Projeto Educar para Crescer, da Editora Abril, elaborou uma lista de Livros para uma Vida, ouvindo o que dezoito educadores consideram obras essenciais para serem lidas desde a infância até a juventude. É uma sugestão de 204 livros, sendo um por mês, para inculcar nos mais novos o gosto pela leitura desde cedo. Se você é pai, ou se tem menos de dezoito anos, vale a pena dar uma olhada na seleção. Ou, mesmo que já tenha passado do ponto, como eu, compensa dar uma olhadela naquilo que você deveria ter lido, porque ainda dá tempo de correr atrás do prejuízo.

Cada ano da vida do jovem é dividido em meses, nos quais aparece a sugestão e uma breve sinopse dela. Clique na imagem abaixo para ir direto para a página da pesquisa. Ah, em cada ano aparece (se você clicar) uma explicação concisa sobre quem escolheu os livros e o que motivou os educadores a tais escolhas.

O pior cego é o que não quer duvidar

Os raios de sol de fim de tarde formavam desenhos caleidoscópicos no chão da praça quando filtrados por entre as folhas das árvores. Ainda não havia começado a escurecer, mas não tardaria muito. O movimento corriqueiro pós expediente já cessara, com as domésticas partindo no sentido periferia nos mesmos ônibus que despejavam as secretárias vindas do centro da cidade. Na praça, poucos transeuntes. Apenas uma moça encontrava-se sentada, imóvel, em um banco de madeira admirando a calmaria.

Os seus óculos escuros destoantes com a baixa luminosidade local e uma quase imperceptível bengala encostada ao seu lado não foram notados pela maioria dos que ali passaram. Mas foram por um rapaz que, parado na frente dela, a uma distância segura, percebeu as peculiaridades da moça e não acreditou à primeira vista na sua sorte. Disfarçadamente, olhou para um lado, depois para o outro, espreitando se alguém mais prestava atenção, enquanto vários pensamentos atropelavam-se na sua cabeça, cada um querendo não desperdiçar a oportunidade. Quando alguns deles juntaram-se para formar uma ideia, apareceu tanto um brilho em seu olhar quanto um leve sorriso malicioso. Seria fácil demais.

- Quem está aí?

...

- O que é isso? Pare de pegar em mim, seu abusado. Socorro! Socor...

Enquanto a moça se debatia tentando acertar o seu interceptor, o som da sua voz cessou quando ele a empurrou, derrubando-a no chão. Ela ouviu alguns passos correndo à sua direita. Mais distante ouviu alguém gritar.

- Volte aqui, seu cafajeste! Você vai ver agora...

Ainda no chão, apurou os ouvidos e escutou sons de movimentos no chão, de gemidos e batidas, gritos e xingamentos, até tudo ficar silencioso. Ela estava nervosa, passou a mão em seu ombro e percebeu que uma alça da sua blusa estava rompida. Apalpou o chão e chegou até o banco, para perceber que a sua bolsa desaparecera. O som de passos vindos em sua direção recomeçara.

- Puf, puf... toma aqui, moça... puf, cof, persegui o ladrão... cof, cof... deixou a bolsa cair... puf... tudo bem com você?

Direcionando a cabeça para o seu interlocutor, com uma das mãos segurando o lado da blusa que, sem sustentação, insistia em cair como um decote ousado, ela estedeu a outra mão em direção a ele e pegou a bolsa.

- Muito obrigada, senhor. Eu não sei o que seria de mim se o senhor não tivesse aparecido para me ajudar... – e sentou-se no banco e pôs-se a chorar, com a cabeça baixa.

- Calma, moça, calma... O pior já passou, e o malandro levou umas boas bordoadas. Garanto que ele vai pensar melhor ao tentar fazer isso novamente. Aiaiai...

- O que foi?

- É que na briga devo ter machucado o tornozelo e só agora senti a fisgada. Vai ver que distendi algum músculo ou ligamento no calor do momento. Mas basta eu me sentar um pouco que deve passar.

- Senhor, por favor, me deixe agradecer pela ajuda. O meu nome é Míriam e moro aqui perto. Venho sempre aqui nos fins de tarde para escutar os pássaros se preparando para dormir. Se o senhor conseguir andar pelo menos meia quadra, posso pegar um pouco de gelo para que o senhor coloque em seu tornozelo.

- Não precisa se incomodar, moça, eu não quero atrapalhar.

- O senhor não vai atrapalhar, seu...

- João.

- Pois então, seu João, eu tenho a obrigação de ajudar no seu machucado e o senhor pode me acompanhar até em casa, assim ficarei mais tranquila de que aquele homem não vai voltar mais.

- Tudo bem, Míriam. Mas não posso demorar, pois estou indo para casa e moro longe. E já perdi o ônibus que costumo pegar.

- Que pena, mas faça assim: se apóie em meu ombro enquanto eu guio nós dois até a minha casa.

- Ok.

Míriam pegou a bengala e com uma habilidade que somente os que não a tem acham sobre-humana e foi orientando-se através de passos contados e marcações previamente identificadas. João a acompanhava, mancando levemente. Mas o sorriso malicioso continuava em seu rosto. O seu plano funcionara até ali. Míriam acreditou que fora atacada por um homem e que outro a havia salvo, sem perceber que ambos eram a mesma pessoa. E agora ela o levava para a sua casa.