Leituras em 2011

Já começo o post dizendo que este foi o meu melhor ano em leituras. Não apenas em quantidade de livros, mas quantidade de novos escritores desconhecidos, tanto famosos quanto anônimos e obtive bons resultados. E antes que alguém venha com a velha ladainha que quantidade não é qualidade, que ler muito faz aproveitar pouco a leitura, já aviso que cada leitor tem o seu ritmo próprio de leitura e interpretação. Se você consegue ler 1, 10 ou 100 livros por ano e tirar pleno proveito disso, é algo subjetivo, nunca compare-se com outros leitores pois não seria uma comparação adequada. Faça como eu, compare-se consigo mesmo, ano a ano. E é por isso que faço este tópico.

Para o post não ficar chato só com estatísticas, resolvi facilitar a minha vida comparativa futura e fazer uns graficozinhos no Excel. Primeiro, vamos ao número de leituras anuais desde o nascimento do blogue Libru Lumen, em 2007.


Como podem perceber, quase dobrei o número de leituras em relação à 2010. Isso basicamente se deve a uma das metas que estipulei para 2011: 1. Ler pelo menos 50 ppd (páginas por dia). Em 2010, li o total de 14.483 páginas, o que me deu a média de 40 ppd. Não só consegui cumprir o meu objetivo, como fui um pouco além: 24.435 páginas no ano ou 67 ppd. E não digo que foi difícil, que parei de viver, de trabalhar, de ver filmes (como a minha lista de filmes vistos em 2011 também vai mostrar), de sair para me divertir e outras coisas. Acredito que isto se deu porque adquiri um bom ritmo e regularidade na leitura.

Algo que acrescentei em 2011 na minha lista é uma classificação dos livros que li (influenciado pelo Skoob). Como não tinha feito isso nos anos passados, não posso fazer um gráfico comparativo anual passado, mas já é um objetivo possível para o ano que vem. Dos 118 livros que li em 2011, eis as minhas notas para eles:


Ano que vem quero adicionar a nota Muito Bom, copiando definitivamente o Skoob e definindo melhor aqueles livros que quase ganharam um Excelente, e portanto seriam melhores que Bom. Um dado interessante é que ter apostado alto em literatura brasileira cobrou o seu preço: todos os 7 livros que classifiquei como ruins estão dentro dos 49 brasileiros que li. Mas acho que fui eu quem não andou escolhendo bem quais brasileiros ler. Ou vai que é de praxe, né?

Por fim, para verificar o cumprimento das outras metas para o ano, como ler 1 livro de poesia por mês (não alcançada!), manter a média de leituras brasileiras em 25% (alcançada em mais de 40%), fiz a última  tabela para demonstrar o tipo e estilo de livros que li. Detalhe: alguns livros se enquadram em mais de um tipo.


JANEIRO (12 livros = 2438 pgs)
1. A minha alma é irmã de Deus, Raimundo Carrero, 176 pgs, ruim.
2. Sobre histórias de fadas, J. R. R. Tolkien, 118 pgs, regular.
3. Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll, 150 pgs, bom. (releitura)
4. Através do espelho e o que Alice encontrou por lá, Lewis Carroll, 167 pgs, excelente.
5. Orgulho e preconceito, Jane Austen, 464 pgs, excelente. (clube de leitura)
6. Droga de americana!, Pedro Bandeira, 192 pgs, bom.
7. A droga do amor, Pedro Bandeira, 176 pgs, bom.
8. Luka e o fogo da vida, Salman Rushdie, 208 pgs, excelente.
9. The Walking Dead (vols. 31-40), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)
10. A arte de triunfar na vida, Délia Steinberg Guzmán, 112 pgs, bom.
11. Os pequenos homens livres, Terry Pratchett, 263 pgs, excelente.
12. Benjamin, Chico Buarque, 162 pgs, bom. (ebook)

FEVEREIRO (6 livros = 1533 pgs)
13. Imperador Juliano, Benoist-méchin, 320 pgs, excelente. (emprestado)
14. A paixão pelos livros, diversos autores, 152 pgs, excelente.
15. Mais comédias para ler na escola, Luis Fernando Verissimo, 152 pgs, bom.
16. The Walking Dead (vols. 41-50), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)
17. Rei Lear, William Shakespeare, 191 pgs, excelente. (releitura) (clube de leitura)
18. Código da vida, Saulo Ramos, 468 pgs, bom.

MARÇO (9 livros = 1820 pgs)
19. Haroun e o mar de histórias, Salman Rushdie, 176 pgs, regular.
20. Dexter: design de um assassino, Jeff Lindsay, 272 pgs, bom.
21. Prosa de gaveta, Guilherme Tauil, 84 pgs, bom.
22. Para ser escritor, Charles Kiefer, 160 pgs, bom.
23. O Hobbit, J. R. R. Tolkien, 297 pgs, regular.
24. Isto és tu, Joseph Campbell, 230 pgs, excelente. (ebook)
25. Histórias brasileiras de verão, Luis Fernando Verissimo, 279 pgs, bom.
26. Arte e letra: estórias A, diversos autores, 72 pgs, excelente.
27. The Walking Dead (vols. 51-60), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

ABRIL (10 livros = 2409 pgs)
28. Nunca antes na história deste país, Marcelo Tas, 168 pgs, regular. (emprestado)
29. O senhor dos anéis: a Sociedade do anel, J. R. R. Tolkien, 566 pgs, regular.
30. Praticamente inofensiva, Douglas Adams, 208 pgs, bom.
31. O gênio do crime, João Carlos Marinho, 126 pgs, regular.
32. Como ser um pirata, Cressida Cowell, 224 pgs, bom.
33. A casa infernal, Richard Matheson, 256 pgs, excelente.
34. O ladrão de raios, Rick Riordan, 397 pgs, bom.
35. Arte e letra: estórias B, diversos autores, 86 pgs, bom.
36. Ficção de polpa vol. 1, diversos autores, 128 pgs, bom.
37. The Walking Dead (vols. 61-70), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

MAIO (9 livros = 1847 pgs)
38. Seja Feliz, Monica Sheehan, 96 pgs, bom. (vídeo)
39. Ficção de polpa vol. 2, diversos autores, 176 pgs, bom.
40. Como analisar narrativas, Cândida Vilares Gancho, 79 pgs, regular.
41. Pequena abelha, Chris Cleave, 267 pgs, regular.
42. Outra volta do parafuso, Henry James, 192 pgs, regular.
43. Sombras da noite, Stephen King, 411 pgs, bom. (emprestado)
44. O Caminho da Virtude, James Vollbrancht, 144 pgs, excelente. (emprestado)
45. Bilionários por acaso: a criação do Facebook, Ben Mezrich, 232 páginas, regular.
46. The Walking Dead (vols. 71-80), Robert Kirkman, 250 pgs, bom. (ebook)

JUNHO (9 livros = 1639 pgs)
47. A loja dos suicidas, Jean Teulé, 142 pgs, bom.
48. Auto da Compadecida, Ariano Suassuna, 148 pgs, excelente.
49. Arte e letra: estórias C, diversos autores, 80 pgs, bom.
50. A menina que não sabia ler, John Harding, 288 pgs, bom.
51. The Walking Dead (vols. 81-85), Robert Kirkman, 125 pgs, bom. (ebook)
52. O invasor, Marçal Aquino, 232 pgs, regular.
53. Não nascemos prontos!, Mario Sergio Cortella, 136 pgs, excelente. (emprestado)
54. Vinte mil léguas submarinas, Júlio Verne, 408 pgs, regular. (clube de leitura)
55. Teoria da Literatura, Roberto Acízelo de Souza, 80 pgs, ruim.

JULHO (7 livros = 1303 pgs)
56. O vendedor de histórias, Jostein Gaarder, 207 pgs, regular.
57. Como falar dragonês, Cressida Cowell, 240 pgs, bom.
58. Annabel & Sarah, Jim Anotsu, 156 pgs, ruim.
59. A eterna privação do zagueiro absoluto, Luis Fernando Verissimo, 195 pgs, regular.
60. O Mar de Monstros, Rick Riordan, 287 pgs, bom.
61. Arte e letra: estórias D, diversos autores, 80 pgs, excelente.
62. Borges e os orangotangos eternos, Luis Fernando Verissimo, 138 pgs, bom.

AGOSTO (10 livros = 2405 pgs)
63. Mensagem, Fernando Pessoa, 112 pgs, bom.
64. Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky, 144 pgs, regular.
65. O vendedor de armas, Hugh Laurie, 288 pgs, bom.
66. A guerra dos tronos, George R. R. Martin, 592 pgs, excelente.
67. Famílias terrivelmente felizes, Marçal Aquino, 228 pgs, ruim.
68. Escreva seu livro, Laura Bacellar, 160 pgs, regular.
69. Arte e letra: estórias E, diversos autores, 80 pgs, bom.
70. Dom Casmurro, Machado de Assis, 332 pgs, bom.
71. Sandman vol. 7: Vidas breves, Neil Gaiman, 264 pgs, bom. (ebook)
72. O pássaro raro, Jostein Gaarder, 205, regular.

SETEMBRO (11 livros = 2365 pgs)
73. Como quebrar a maldição de um dragão, Cressida Cowell, 240 pgs, bom.
74. A fúria dos reis, George R. R. Martin, 656 pgs, excelente.
75. O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 298 pgs, excelente.
76. Sandman vol. 8: Fim dos mundos, Neil Gaiman, 176 pgs, bom. (ebook)
77. Arte e letra: estórias F, diversos autores, 96 pgs, bom.
78. Hoje está um dia morto, André de Leones, 160 pgs, ruim.
79. Sociedade civil e participação, diversos autores, 84 pgs, bom.
80. O matrimônio do céu e do inferno / O livro de Thel, William Blake, 85 pgs, bom.
81. Contos de fadas, diversos autores, 284 pgs, excelente.
82. A estranha máquina extraviada, José J. Veiga, 144 pgs, bom.
83. Sombras de reis barbudos, José J. Veiga, 142 pgs, bom. (emprestado)

OUTUBRO (12 livros = 1748 pgs)
84. A maldição do Titã, Rick Riordan, 336 pgs, bom.
85. Treinamento prático em leitura dinâmica, Alberto Dell'Isola, 144 pgs, bom. (releitura)
86. Prometeu acorrentado, Ésquilo, 68 pgs, excelente. (releitura)
87. Ájax, Sófocles, 78 pgs, excelente.
88. Alceste, Eurípides, 74 pgs, excelente.
89. Fahrenheit 451, Ray Bradbury, 256 pgs, excelente. (clube de leitura)
90. Arte & Letra: Estórias N, diversos autores, 104 pgs, excelente.
91. Darmapada: a doutrina budista em versos, Fernando Cacciatore de Garcia (trad.), 160 pgs, excelente. (releitura)
92. Travessuras da menina má, Mario Vargas Llosa, 304 pgs, bom.
93. Fawcett, André Diniz & Flávio Colin, 40 pgs, bom.
94. Fractal, Marcela Godoy & Eduardo Ferigato, 64 pgs, excelente.
95. Breve história do espírito, Sérgio Sant'anna, 120 pgs, ruim.

NOVEMBRO (12 livros = 2247 pgs)
96. Curso de Escrita Criativa vol. I, Pedro Sena-Lino, 128 pgs, bom.
97. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 3, Bryan Lee O'malley, 423 pgs, bom.
98. Contos de Dinossauros, Ray Bradbury, 146 pgs, bom.
99. Gaveta de bolso, Juliana Cunha & Luda Lima, 120 pgs, regular. (ebook)
100. Contos de amor, de loucura e de morte, Horacio Quiroga, 206 pgs, excelente.
101. A batalha do labirinto, Rick Riordan, 367 pgs, bom.
102. A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, Jostein Gaarder & Klaus Hagerup, 179 pgs, bom.
103. Arte & Letra: Estórias G, diversos autores, 96 pgs, bom.
104. The Walking Dead (vols. 86-91), Robert Kirkman, 150 pgs, bom. (ebook)
105. O chamado de Cthulhu e outros contos, H. P. Lovecraft, 164 pgs, bom.
106. Ficção de polpa: Crime!, diversos autores, 160 pgs, bom.
107. Cidadania e a luta por direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, diversos autores, 108 pgs, regular.

DEZEMBRO (11 livros = 2681 pgs)
108. A guerra da arte, Steven Pressfield, 174 pgs, excelente. (releitura)
109. Paz guerreira, Talal Husseini, 712 pgs, ruim.
110. O último Olimpiano, Rick Riordan, 383 pgs, bom.
111. Lúcifer e Logos, Huberto Rohden, 160 pgs, excelente. (emprestado)
112. Peter e Wendy, J. M. Barrie, 176 pgs, excelente. (releitura)
113. Peter Pan em Kensington Gardens, J. M. Barrie, 80 pgs, regular.
114. Sandman vol. 9: Entes queridos, Neil Gaiman, 360 pgs, bom. (ebook)
115. Sandman vol. 10: Despertar, Neil Gaiman, 200 pgs, bom. (ebook)
116. Uma viagem aos contos clássicos ingleses, Oscar Wilde & Thomas Hardy & D. H. Lawrence, 96 pgs, bom.
117. Como mudar uma história de dragão, Cressida Cowell, 256 pgs, bom.
118. Arte & Letra: Estórias O, diversos autores, 84 pgs, bom.

Leia também:
- Leituras em 2010
- Leituras em 2009
- Leituras em 2008
- Leituras em 2007

Top Five 2011: as melhores HQs lidas durante o ano

Meu mea culpa na lista das 5 melhores Revistas em Quadrinhos (HQs) lidas no ano é que não li mais do que 5. Mas consegui terminar duas (Sandman e Scott Pilgrim) e atualizar The Walking Dead. Para 2012, talvez volte a ler Vagabond e pegue alguma mais recente, talvez brasileira ou francesa. Alguma sugestão?


1. The Walking Dead (vols. 31-91), de Robert Kirkman, 2008-2011 - comecei a leitura ano passado e consegui alcançar os lançamentos mensais atuais. Trata-se da HQ mais sádica com os seus personagens que eu já vi. Virar fã da HQ traz a revolta em acompanhar a adaptação da série para a TV na 1ª temporada e o alívio na 2ª, que mesmo trazendo com muita coisa diferente, pegou um rumo legal. Ah, a minha personagem preferida é a Michonne. Adoro mulheres malvadas, melhor ainda se são as mocinhas da história.


2. Sandman (vols. 41-75), de Neil Gaiman, 1994-1998 - Também comecei a ler ano passado e finalizei o último arco este mês. Clássico dos clássicos, que não leu não sabe o que é HQ. Só não achei tudo aquilo que o povo fala ao idolatrar a série. Ainda prefiro Watchmen.


3. Fractal, de Marcela Godoy & Eduardo Ferigato, 2009 - ótima HQ brazuca, com uma ideia boa porém com um final um pouco confuso. Talvez tenha sido intencional, mas que foi uma boa sacada, foi.


4. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 3, de Bryan Lee O'malley, 2011 - terminei o último livro da série e cheguei a conclusão que o filme realmente é melhor, assim como aconteceu com o Oldboy. Momentos como estes devemos anotar na agenda, são raros.


5. Fawcett, de André Diniz & Flávio Colin, 2010 - outra HQ brazuca, baseada em uma história real de Indiana Jones passada no Brasil do século XIX. Porém, acho que ficou muito técnica e didática perdendo no quesito arte.

Top Five 2011: as melhores SÉRIES vistas durante o ano

Já citei aqui os 5 melhores filmes e livros de 2011. Agora chegou a vez das melhores séries que assisti, e olha que sou um viciado em séries. E como vocês podem notar abaixo, não sou muito de ver séries antigas, já que todas as 5 são de 2011.


1. Guerra dos Tronos (Game of Thrones), 2011 - da série passei para os livros e gostei muito do que vi e li. A adaptação é super fiel ao livro e as interpretações dos novos atores dignas de indicações a prêmios. Não tem como não ficar chocado com as maldades e reviravoltas da trama, nem como deixar de escolher pelo menos umas cinco personagens principais como favoritas. As minhas são: Daenerys Targaryen, Arya e Bram Stark, Jon Snow e Tyrion Lennister. E o inverno está chegando... Veja o trailer aqui.


2. Dexter: 6ª temporada, 2011 - apesar de ter sido uma salada mista essa temporada, desviando muito do foco fixo do assassino principal, os roteiristas de Dexter assim como os de House continuam tendo boas ideias que seguram as séries por outras temporadas. Os questionamentos religiosos da temporada deram um toque especial, mostrando que a religião pode conduzir ao bem ou ao mal. Veja o trailer aqui.


3. Luther: 2ª temporada, 2011 - apesar de inferior à 1ª temporada, mesmo assim continua inteligente e original. Os britânicos são foda no quesito séries. Quem sabe em 2012 eu animo a ver Dr. Who? Veja o trailer aqui (em inglês).


4. House: 7ª e 8ª temporada, 2011 - somando alguns episódios (não o final horroroso) da 7ª com o início da 8ª conseguiu subir ao pódio. O fim do romancezinho água-com-açúcar do House que já tava enchendo o saco, na minha opinião, trouxe fôlego à série. Veja os trailers da sétima e oitava temporadas.


5. Amor em 4 atos, 2011 - única brazuca no páreo, gostei das adaptações das músicas do Chico Buarque para a tv. acredito que não fizeram feio ao artista nem aos fãs. Não competiram Capitu nem Som & Fúria pois as vi em 2010. Veja a chamada aqui.

Poderiam ter entrado facilmente no Top5 Californication, Bones, Suits e The Defenders, das quais também gostei muito, mas apesar de boas, não mexeram comigo tanto quanto as acima. Também não citei The Walking Dead, pois a 1ª temporada terminei de ver em 2010 e a 2ª ainda estou assistindo.

E você, qual foi o seu Top5?

Uma imagem em 35 palavras (6)


O Romântico: - Leva. Batendo três vezes por ti e uma por mim já era seu mesmo.

A Vingativa: - Hoje você vai sentir o que é algo maior tentando se encaixar num orifício menor.

O Duelo

Fosse eu um narrador tradicional, daqueles conservadores, começaria o conto dizendo que chovia a cântaros. Ou se tivesse um estilo mais revolucionário, provocativo, optaria pelo chovia pra caralho. Como não sou nem um nem outro, inicio com a obviedade ululante.

Chovia muito.

E não é por chover muito que não havia ninguém na chuva. Se limparmos as gotas que caem diretamente em nossos olhos ou protegermos as vistas com uma das mãos, conseguiremos visualizar um vulto se movendo em meio ao dilúvio. Um homem. Um cavaleiro. Seguindo sem pressa, com a capa preta e chapéu encharcados pela rua enlameada. Como estamos na rua principal da currutela, que coincidentemente é a única rua, de cara ficamos sabendo que não se trata de uma cidade grande, e como não há automóveis e motocicletas à vista, eu deixo você supor que nem mesmo nos tempos atuais estamos. A rua é formada por uma dúzia de construções de madeira cada lado, todas hermeticamente fechadas e silenciosas com um tempo destes. Em frente a última delas há cavalos amarrados em um toco. A rua acaba no rio que corre cheio e sujo. O cavaleiro ruma à bodega, e deixamos de ser observadores distantes para acompanhar em sua garupa o galope tranquilo e orientado da montaria. O cavalo nos conduz até o compromisso do meio-dia.

O homem apeia dentro de uma poça d’água. Puxa o alazão pelas rédeas até os outros cavalos e o amarra no pau. Observa as duas éguas e sabe que já chegaram antes dele. Pára um momento e limpa o excesso de lama das botas em um pedaço de tacho de ferro cravado estrategicamente no chão, próximo à porta do estabelecimento. Apalpa o volume que carrega na cintura para que a sensação de segurança e coragem o acompanhem porta adentro. Respira fundo, sobe os degraus de madeira e entra.

Apesar da hora, não fosse uma lamparina acessa no balcão o ambiente seria um breu. O ar estava carregado de fumaça e música. Enquanto o cavaleiro tira o chapéu e a capa os sacudindo para tirar o excesso de água antes de pendurá-los – movimentos calculados para acostumar a vista à iluminação do ambiente enquanto identifica os que ali estão – percebe que no recinto estão oito pessoas. Quatro jogam truco em uma mesa perto da entrada, bebendo e fumando muito e prestam pouca atenção ao visitante. Atrás da lamparina está o balcão e atrás deste o atendente que, acompanhado das garrafas de bebidas e da chiadeira de um rádio velho, apenas observa. No canto esquerdo, há uma puta gorda rindo e servindo aguardente para um homem de chapéu, cuja face fica encoberta pelas sombras. Do outro lado, perto da única janela há uma mesa e nela um soldado de farda cinza apara as unhas do pé com um canivete. Quando percebe o visitante, dá um sorriso de escárnio, guarda o canivete e calça a bota. O visitante caminha até o balcão e pede cachaça. O garçom o serve sem perguntar. Bebe de um gole só, para esquentar, e depois cospe no chão. Então, sem esperar que o desavisado leitor reflita por um momento sequer na cena e tire suas conclusões precipitadas, retira o revólver do coldre e coloca sobre o balcão.

- Estou aqui para o duelo e quero saber quem é o macho que me desafiou.

Todos se calam, menos o rádio, que continua a melodia chiada. O homem de chapéu no canto se levanta mostrando o rosto. Era um índio ou um mestiço qualquer e tinha uma pequena faca na mão, destas de atirar. Dizem que índios são exímios atiradores de facas. Ou seriam os mexicanos? O soldado também se levanta e pega a espingarda escorada ao seu lado. Ele ajeita o quepe e cospe no chão.

- Pelo jeito o duelo vai ser com mais de um, porque eu também fui desafiado.

A garçonete gorda corre para o outro lado da sala. Nesta hora o garçom interfere.

- Senhores, aqui não é local para pendengas e entreveros. Por favor, peço para que se esqueçam disso ou saiam para a rua. Este é um estabelecimento de respeito e pacífico.

Os três homens parecem não escutá-lo. O que está no balcão pega o revólver e caminha lentamente de costas até a porta. Pára na posição onde os três ficam exatamente frente a frente. O garçom, agora mais nervoso, insiste.

- Cavalheiros, cada um dos senhores é famoso por ter um estilo próprio. O confronto de tais estilos não irá provar que ninguém é melhor que ninguém. Seria injusto comparar quem é o melhor na faca, revólver ou carabina tanto como quem seria o melhor na poesia, conto ou crônica. Comparar estilos diferentes em apenas uma única disputa fica mais a critério da sorte que por conta das habilidades pessoais dos senhores. Pensem comigo: e se algum de vocês não acordou em um bom dia ou a sua arma não funcionar no momento específico do confronto? Teriam uma segunda chance para provar que as circunstancias lhes foram desfavoráveis?

Os três continuavam a se encarar sérios. O garçom continua.

- O pior que pode resultar destes tipos de confronto são os observadores externos. Os críticos verão e apontarão as falhas técnicas de cada duelista. Fulano perdeu a disputa porque suava demais ou porque era um barril cheio de clichês. Sicrano porque imitava um estilo já conhecido e ultrapassado. E nisso nem mesmo os vencedores sairão ilesos. Os seus defeitos serão espalhados por onde andarem. Vencer é destacar-se, é pintar um alvo no meio do peito. Os adversários inteligentes serão os primeiros a explorarem as vulnerabilidades dos outros, propondo duelos em locais ou com armas que sabem serem os seus pontos fracos. Nunca notaram que aquele que é esperto nunca desafia os que acredita serem superiores a ele a menos que as circunstâncias lhe sejam favoráveis? É intencional e premeditado, pois ele quer vencer. A sua vida depende disso. Além do que, se alguém ganhar de outro valendo-se das informações que obteve de seus adversários, adquire forçosamente a fama de mau competidor. Será maldito por onde passar. E tem o detalhe que os senhores esquecem e que acaba de lhes custar a vida…

Rapidamente, o barmen saca duas pistolas escondidas no balcão e, ao mesmo tempo, atira no soldado e no homem da porta, que caem instantaneamente mortos sem saberem o que os atingiu. Colocando as armas sobre o balcão, ele prossegue.

- Quem joga sujo usa a plateia a seu favor, transformando os observadores em seus cúmplices. Ele sabe que todos querem fazer parte do espetáculo, mesmo que no papel de coadjuvantes. Por isso, o desafiante estuda bem o terreno antes do duelo, usando a má fama que adquiriu para convencer jagunços armados a parecerem meros jogadores de truco, mas prontos para agir caso algo saia errado. Também posiciona a prostituta inofensiva logo atrás do soldado com uma navalha escondida preparada para cortar-lhe a garganta. E como duelista vil e ardiloso que é, troca de lugar com o verdadeiro barman, o índio, desviando toda a atenção dos adversários para a peça menos perigosa do tabuleiro.

É, jogar sujo é para poucos e estes não merecem ganhar. Mas geralmente são os que ganham.

Ano Novo, de Ferreira Gullar



ANO NOVO

Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

Top Five 2011: os melhores FILMES vistos durante o ano

Já passamos da metade do mês de dezembro, então é hora de fazermos aquele retrospecto do 2011 e divulgarmos a nossa lista das melhores filmes vistos durante o ano. Deixei de fora os que reprisei, afinal não foram surpresa alguma para mim, eu os assisti novamente justamente por já saber que eram excelentes:


1. No espaço não existem sentimentos (I rymden finns inga känslor / Simple Simon), 2010 - o filme sueco que concorreu ao oscar em 2010 tornou-se um dos meus favoritos a serem assistidos novamente milhares de vezes. Por narrar a história sob a ótica de um portador da Síndrome de Asperger, lembra muito o tom do livro O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon. A história é original, doce, engraçada e romanticazinha. Veja o trailer (em sueco/inglês).


2. Guerreiro (Warrior), 2011 - Eu já tinha gostado do filme Gigantes de Aço, com lutas e emoção que lembram os bons filmes do Rocky. Mas Guerreiro adicionou um ótimo enredo, com lutas de UFC (tava demorando para Hollywood explorar essa febre), drama familiar e atuações fora de série. Violência na medida certa para torcer junto com os seus filhos e avós. Veja o trailer.


3. Hanna, 2011 - Quem nunca gostou de um filme por causa e inclusive pela trilha sonora? The Chemical Brothers deveriam só trabalhar com OST. Além disso, não conheço um homem que não goste da Saoirse Ronan, mesmo sendo uma assassina capaz de cortar fora qualquer mão boba pro lado dela. Ai, ai, ai. Veja o trailer.


4. Os inocentes (The innocents), 1961 - Confesso que só busquei esse filme por causa do livro A outra volta do parafuso, do Henry James. Não consegui captar onde estava o terror do livro. Sou fã de terror e fiquei frustrado com a leitura. O filme conseguiu me mostrar o que não vi no livro. Me deixou arrepiado vendo sozinho no escuro e me deu outra dimensão do que era o terror. E não, o que mais assusta no filme não são os fantasmas. Veja o trailer (em inglês).


5. A doutrina de choque (The shock doctrine), 2009 - Tinha que ter pelo menos um documentário na minha lista né? Aprecio teorias de conspiração, ainda mais com bons argumentos e pesquisas históricas de fatos e documentos. Achei melhor que Fahrenheit 9/11. Assista o filme online.

E você, qual o seu Top5?

Top Five 2011: Os melhores LIVROS lidos durante o ano

Já passamos da metade do mês de dezembro, então é hora de fazermos aquele retrospecto do 2011 e divulgarmos a nossa lista das melhores leituras do ano. Pensei em 5 por ser um número cabalístico que não  agrada aqueles que leram muito (há tantas opções, aumenta pra 10, vai!) e também não agrada quem leu pouco (não chegou aos 3 melhores, quem dirá 5!). Poderia ter sido uma listinha simples, mas preferi comentar o porquê das escolhas. Talvez a minha lista ajude você a definir algumas leituras para 2012. Sinta-se à vontade para deixar a sua lista nos comentários, talvez ela me ajude a definir as minhas leituras.

Contudo, adianto que deixei de fora os que reli, afinal não foram surpresa alguma para mim, eu os reli justamente por já saber serem excelentes. Ah, e se quiser conferir os preços promocionais dos livros listados abaixo na internet, basta clicar na fotografia da sua capa.


1. Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin - os 3 livros da série lançados no Brasil. Apesar de só ter lido 2 deles, vou ler o 3º semana q vem e já sei que vou gostar. O cara simplesmente fez uma revolução na literatura fantástica contemporânea misturando fatos da história real com fantasia, personagens carismáticos e reviravoltas revoltantes ou não. Além disso, entrou para o meu rol de escritores que sabem descrever bem batalhas, ao lado do Steven Pressfield e Bernard Cornwell. Tá, podem dizer que eu trapaceei botando 3 livros em 1º lugar ao invés de um, mas façamos de conta que os 7 livros são uma história só, ok? 


2. O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde - este é um daqueles clássicos que você sabe da história muitos anos antes de lê-la e por isso vai adiando. Mas quando lê, imediatamente reconhece a obra-prima que é e a coloca na sua lista de releituras anuais obrigatórias. Li a edição da Clássicos Abril Coleções, com capa de tecido.


3. Luka e o fogo da vida, de Salman Rushdie -
para quem se interessa em ler/escrever histórias infanto-juvenis como eu este é um prato cheio. O autor soube mesclar muito bem vídeo-games com mitologia e, entre outras, deixar o livro interessante para os jovens de todas as idades. Pros mais velhos, as referências são uma delícia à parte (tem uma página, por exemplo, onde ele referencia tudo o que já saiu sobre viagens no tempo, e você vai descobrindo que uma ou outra lhe é familiar). Luka é a continuação de outro livro, o Haroun e o mar de histórias, mas achei o Luka melhor.


4. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury -
distopia que critica muita coisa que vemos ou pensamos estar errado em nossos dias, mesmo tendo sido escrita há muito tempo atrás. É daqueles livros que te fazem pensar nas coisas ao seu redor e no futuro. Não necessariamente com esperança.


5. Alceste, de Eurípides -
peça teatral com o que há de melhor na tragédia grega: morte, Apolo, Hércules, argumentos pró e contra que te fazem pender ora para o lado de um personagem ora para o lado de outro. As últimas tragédias gregas que me satisfizeram intelectualmente desta forma foram Antígona e Édipo em Colono. Li a edição da Jorge Zahar, muito boa e cara por sinal, onde acompanham as outras peças Prometeu Acorrentado e Ájax.

E você, qual é o seu Top5?

Degustação


Ela continuava sem entender mesmo após terem lhe explicado o que era umami. Mas não queria passar por ignorante, afinal era a primeira vez que conseguia uma reserva naquele restaurante caríssimo, que vivia sempre lotado.

- Quer dizer que eu tenho isso na minha língua?

- Sim.

- E foram os japoneses quem inventaram?

- Não, senhorita, os japoneses apenas descobriram e deram o nome, que traduzido significa delicioso ou saboroso. Todas as pessoas já nascem com as papilas gustativas na língua capazes de identificar o gosto.

- E é isso que eu vou experimentar?

- Não propriamente, senhorita, pois é necessário certo treino e experiência para reconhecer o umami em um prato. O que a senhora está experimentando é uma outra descoberta japonesa, o fugu.

- É outro gosto?

- Na verdade é um peixe, conhecido por aqui como baiacu.

- E o que o baiacu tem a ver com o umami?

- Basicamente é uma teoria gastronômica, senhorita. Eu pretendia explicar mais tarde, quando o prato chegasse, mas como ele já deve estar quase pronto, faço agora. Os japoneses possuem uma culinária única, peculiar e muitas vezes perigosa. Muitas descobertas gastronômicas feitas pelos cozinheiros orientais envolvem o realce de pratos já conhecidos a partir de ingredientes adicionais externos. Para reconhecer o gosto umami é preciso mais habilidade e treino do gourmet que propriamente do cozinheiro. Mas há outros tipos de realce, estes mais fáceis de serem alcançados. Por exemplo, o fugu é um peixe extremamente venenoso. O seu veneno é dez vezes mais mortífero que o cianeto. Qualquer erro mínimo na preparação pode matar envenenado quem experimenta o prato. O cozinheiro precisa ser extremamente hábil e metódico.

- E o cozinheiro de vocês é habilidoso?

- Isso eu não posso lhe informar, senhorita, pois perderia o realce do seu prato. Os especialistas dizem que o medo diante da morte faz com que o corpo libere alguns hormônios em seu organismo, como a dopamina, a endorfina e a adrenalina, que fazem com que a experiência de saborear um fugu seja muito mais prazerosa por causa disso. O seu próprio corpo produz os ingredientes finais para o peixe, os hormônios do medo. Mas eis que o seu prato chegou… Bom apetite!

- Eu não quero mais experimentar isso, não quero me arriscar…

- Entendo, mas agora a senhorita vai ter que comer tudo – e, retirando um revólver do colete o encosta na cabeça da moça – ou então eu lhe estouro os miolos aqui mesmo.

- Você está louco?!? Por que está fazendo isso comigo?

- A hora de fazer perguntas passou, agora coma – e engatilhando a arma, com um sonoro clique, ameaçou – coma ou serei obrigado a matá-la.

A jovem olhou ao redor, buscando qualquer auxílio nos ocupantes das outras mesas. Mas estes simplesmente a olhavam sérios, parecendo incomodados com a sua recusa diante do prato. Sem alternativa, teve de resignar-se a comer o peixe. O coração acelerado, as mãos suando, a respiração irregular, o calor subindo em seu corpo, cada sentido se intensificava a cada porção que comia. As primeiras garfadas foram mais difíceis de engolir. Porém, após alguns minutos uma sensação de bem estar dominou o seu corpo. Começou a sorrir enquanto enfiava mais e mais pedaços de peixe na boca e os engolia inteiros. Gargalhava com a boca cheia deixando cair algumas migalhas ao redor. O garçom lhe parecia estranho, os olhos e orelhas alongados, o cano da arma em suas mãos parecia mais curto que os seus dedos... Tudo começou a girar e por fim sentiu a cabeça pesada tombar sobre a mesa.

- Senhores e senhoras, como puderam observar, a senhorita acaba de passar por todos os sintomas que mostram que os hormônios do medo atuaram em seu corpo até ela perder os sentidos. Como todos estão cientes, ela não morreu envenenada, apenas sentiu as alucinações provocadas por uma pequena dose da toxina do fugu aspergida no molho e desmaiou. Agora vamos ao prato principal da noite, pelo qual os senhores pagaram tão caro: churrasco mal passado de carne vermelha impregnado com altas doses de dopamina, endorfina e adrenalina. Somente peço para terem um pouco mais de paciência e aguardarem os nossos cozinheiros prepararem o prato. Enquanto isso, sugiro que saboreiem a nossa reserva especial de Lafite Rothschild, importada especialmente para esta noite, que os garçons já estão servindo em vossas mesas…

Diferença


Sabe qual a diferença entre uma pessoa que lê e uma que não lê?
A primeira sabe.

(Jefferson Luiz Maleski)

Gabriela

Você é o pai, ela disse. E foi nessa frase em que me perdi e acabei não ouvindo mais nada. Não ouvi ela discorrer sobre exames pré-natais, enxovais e fraldas. Nem sobre contarmos juntos ao pai dela, ou sobre morarmos juntos ou sobre pararmos de ir em festas nos finais de semana. Não prestei atenção em muitas coisas que ela me falou naquele dia, mas isso não fez muita diferença, pois ela fez questão de relembrar tudo por todos os dias nos oito meses de gravidez que ainda estavam por vir. Naquele momento eu só pensava em uma coisa: eu vou ser pai. Eu vou ter um filho, ou uma filha. Vou poder passear no parquinho, brincar no tapete da sala, dormir abraçado com alguém com cheirinho de talco e óleo infantil. Eu vou ser pai. Eu vou ser pai. Pai. Eu.

Não que eu tivesse esperando aquilo, pois provavelmente sem esta reviravolta a viagem de um mês mochilando pela Europa estaria no meu cronograma. Ter um filho, ou uma filha, é muito mais emocionante. Já fazia algum tempo depois do término da faculdade que começara a sentir um vazio existencial. Algo havia mudado, alguma coisa faltava na minha rotina, e eu não sabia o que era. Não tinha nenhuma pessoa em especial em meu coração para pensar em casamento. Porém, vez por outra me pegava observando amigos e conhecidos com os filhos. Os seus acertos e erros, as suas alegrias e raivas. Acho que era exatamente este tipo de relação que eu ansiava antes mesmo de saber.

Os meses de gravidez se passaram com brilho de novidade. Os pais da Juliana aceitaram bem o fato de não morarmos juntos. A Juliana terminaria a faculdade de fisioterapia após a gravidez e eu procuraria um emprego melhor. Professor estadual com contrato temporário não garantiria o sustento de uma família. Mas os horários em que não dava aulas me forneciam tempo suficiente para acompanhar o desenvolvimento da criança. Da minha filha. Sim, o ultrassom revelou que Gabriela era uma menina saudável. Nome bíblico, significando enviada de Deus. Com a ajuda da minha família e da família de Juliana, conseguimos juntar um bom enxoval, comprar o berço, fraldas descartáveis suficientes para montar uma pequena distribuidora e planejar como seriam as nossas rotinas pelos próximos anos. Pelo menos, era o que eu pensava.

Todos os familiares acompanharam ansiosos o tão esperado dia do nascimento. Eu dormia na casa da Juliana já há três dias procurando ser útil de alguma forma. Se bem que na hora H, o seu Anísio foi quem controlou a situação, já acostumado com os três filhos que a esposa tivera. Alias, tornamo-nos ótimos amigos, ele me aconselhando sobre as coisas que eu deveria fazer e as que eu deveria deixar de fazer. Eu guardei cada conselho como se fosse um bem precioso. Aconteceu no começo da manhã, por volta das sete, e estávamos todos tranquilos, Juliana com contrações regulares e espaçadas. Apesar do sorriso parecia cansada e quando chegamos à maternidade, ela desmaiou. A equipe médica a socorreu de imediato. O obstetra foi chamado com urgência. Ficamos todos apreensivos, recebendo algumas notícias de uma enfermeira prestativa. Eclampsia era o nome do problema. Juliana tivera algumas convulsões na mesa de parto. A enfermeira, uma senhora idosa, tentava nos acalmar dizendo que já presenciara outros casos semelhantes e que era comum tudo acabar bem. Não foi o caso de Juliana. Apesar de tomar todos os cuidados durante a gestação e muitas vitaminas, o que o médico nos contou depois foi que, apesar do bebê crescer saudável, a constituição física da mãe era frágil. Ela não resistiu ao parto. Minha filha nasceu no mesmo dia em que a mãe morreu.

É estranho ter a sensação de ganho e de perda ao mesmo tempo. Alegria e tristeza. A vida tem um jeito engraçado de nos ensinar a usar as alegrias para compensar as tristezas. Eu era agora o único pai solteiro dentre os meus amigos. Dentre todos os que eu conhecia. Mas também era o único com um presente enviado por Deus. Indiferente à dor dos que estavam ao seu redor, Gabriela estava feliz e saudável. Cercada de mimos e carinhos, a levei para a minha casa e, com a ajuda dos meus pais e de meus ex-futuros sogros, conseguimos criá-la com os cuidados que toda criança merece. Mesmo com as dificuldades financeiras, com as noites mal dormidas, com as preocupações a cada febre, vômito ou virose, minha vida mudou para melhor. Finalmente senti que estava completo, ser pai era o que me completava.

Alguns meses depois, passeava com minha filha pelo parque quando encontrei uma conhecida da faculdade. Era uma ex paquera que eu tivera antes da Juliana e que retornara do exterior naquela semana. Optei por não mencionar sobre a morte da mãe para que Gabriela não viesse a crescer ouvindo aquela história e se sentisse culpada no futuro. Foi o meu erro naquela tarde. A minha ex relembrava as festas e farras que frequentávamos e os conhecidos que tínhamos em comum. Depois de citar alguns nomes, fez uma cara séria e me perguntou sobre a Juliana. Perguntei o porquê e ela me contou que uma noite a encontrara chorando desesperada no banheiro de uma boate. Ao tentar acalmá-la, Juliana acabou confessando que estava grávida e o pai da criança não queria nada com ela. O tal cara era casado.

- Não, não soube mais nada a respeito da Juliana – respondi, e apontando para a Gabriela, que naquele momento dormia – A minha princesinha aqui exige todo o tempo que eu possuo.

Trocamos telefones e combinamos que nos encontraríamos outro dia qualquer para mantermos as fofocas em dia, mas este dia nunca chegou. Afinal, ela era a única que poderia revelar que eu sempre soube do segredo que Juliana levara para o túmulo.

Barão de Montesquieu


O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não havendo nenhum desgosto de que uma hora de leitura não me tenha consolado.

Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade



Quadrilha
Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Duas novas séries sobre contos de fadas

Grimm 

Sinopse: 
Nova série dramática inspirada pelos clássicos contos de fada dos irmãos Grimm. Lembram-se das histórias que nossos pais nos contavam na hora de dormir? Aquilo era de mentirinha - eram alertas. Nick Burkhardt (David Guintoli, de Turn the Beat Around) pensou estar preparado para a dura realidade da vida de detetive de homicídios até começar a ver coisas que não podia explicar. Quando sua tia Marie (Kate Burton, de Grey’s Anatomy) retorna, a vida de Nick vira de cabeça para baixo. Ela lhe revela que os dois são descendentes de um esquadrão de caçadores de elite, os Grimms, que lutam para manter a humanidade a salvo das criaturas sobrenaturais do mundo.

Comentário: 
Dos mesmos produtores de Buffy e Angel, é inevitável a sensação de estar (re)vendo um episódio de Buffy misturado com Supernatural. Ou seja, nada de novo, só mudaram os nomes. E o ator protagonista não é lá estas coisas, achei que falta expressão nele. A história me parece que será episódio por episódio, aparecendo casos "estranhos" ligados aos contos de fadas, enquanto Nick tenta descobrir quem assassinou os seus pais e mais sobre a sua linhagem de caçadores Grimm. Não animei a continuar vendo e nem acho que sobreviva muito tempo com um início tão fraco, mas se quiserem tirar as dúvidas, vejam o piloto por si só.

Trailer:


Posters:




Once Upon a Time 

Sinopse: 
Acompanhamos as vidas de personagens de contos de fadas que, por conta de uma maldição, vivem no nosso mundo real sem saber sua verdadeira identidade. No centro dessa trama, está Emma (Jennifer Morrison, de House), uma mulher que vê sua vida mudar para sempre, agora que reencontrou o filho aquela tinha abandonado há anos. O garoto tenta a todo o custo convencê-la de que ela veio de uma realidade alternativa, onde era a filha da Branca de Neve e do Príncipe Encantado, que a deixaram quando bebê, para protegê-la da maldição lançada pela Bruxa Má. E é essa mesma maldição que congelou o mundo de conto de fadas no tempo e trouxe todos os seus personagens para o mundo moderno.

Comentário:
Dá vontade de ver uma série onde você percebe o capricho na produção, nos efeitos especiais, na fotografia, enredo, atuações, enfim, onde há mais pontos a favor que contra. Deu curiosidade para continuar e ver como Emma vai ajudar aos personagens dos contos de fadas. Além, é claro, da série levantar uma ótima premissa para discussões filosóficas, sobre a perda da magia no mundo atual. Recomendo.

Trailer:


Posters:

Frases do Seu Madruga



Se soubesse que tinha mandado um idiota fazer isso, tinha ido eu mesmo.

Não consigo uma boa recomendação de trabalho do meu último patrão porque ele morreu há vinte anos.

São todas assim: começam ficando com o chapéu e acabam ficando com a carteira!

Não há nada mais trabalhoso do que viver sem trabalhar.

A diferença entre as duas Alemanhas é simples, é que de um lado se toma vodca, e do outro cerveja.

Minha senhora, se acha que pode me comprar com alguns presentinhos, eu vou lhe dizer uma coisa… eu aceito!

Eu sabia que você era idiota, mas não a nível executivo!

Eu sempre deixo as vagas de empregos para os mais jovens, e venho adotando essa nobre atitude desde os meus 15 anos!

O porco perde os dentes, mas não perde a barriga.

A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.

Não existe trabalho ruim. O ruim é ter de trabalhar.

Pixar Haicais

Brinquedos vivos
No silêncio da noite
Buscam amigos
Mesmo formigas
 Quando juntas são fortes
Vencem as brigas
Medo: Era uma vez
Um monstro bem fofinho
Que amigos fez
Procurar peixe
É trabalho pesado
Pai, não me deixe!
Família normal 
Luta junta todo dia 
Combate o mal 
Só um vencedor 
O mais rápido ganha 
Patrocinador
Oh! rato francês 
Saia já da cozinha ou 
Fico sem freguês 
Robô camarada
No espaço sideral
Nova morada
Um velho bufão
Um escoteiro-mirim
Juntos num balão

Xícara, de Fábio Sexugi

Coleção Grandes Escritores da Atualidade, da Planeta DeAgostini


Algumas coleções recentes surpreendem pela qualidade e variedade em seus títulos, assim como o total desconhecimento pelo público por elas. É o caso da Coleção Grandes Escritores da Atualidade, da Editora Planeta DeAgostini, lançada em 2003 quinzenalmente nas bancas, cada volume custando em torno de R$ 16,90, e que competia na época diretamente com a Coleção de Clássicos da Nova Cultural, com exemplares semanais a R$ 11,90. Eu sei disso porque comprava as duas, principalmente porque caso fosse comprar os títulos separadamente, em outras edições, custariam três vezes mais que estes valores.

Com 41 livros de capa dura trazendo uma foto brilhante, é uma coleção praticamente desconhecida em sua totalidade, somente um ou outro exemplar aparece vendido em sebos. É uma pena esta pouca divulgação, pois algumas das minhas melhores descobertas literárias desde 2003 ocorreram graças à Planeta DeAgostini. Não que eu já tenha lido todos os volumes, pelo contrário, ainda falta a maioria, mas os poucos que li me apresentaram caras como Saramago, Sclyar e Rushdie, dos quais sou fã até hoje.

Atualmente a coleção desapareceu até do site da editora como se nunca tivesse existido. Só resta torcer para que coleções semelhantes voltem a surgir, seja nas bancas ou pela internet, para a alegria dos viciados em livros como eu. Segue abaixo a lista dos volumes da coleção, na ordem que consegui lembrar pois os livros não são numerados.
  1. Todos os Nomes, José Saramago (lido 2003)
  2. Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, Rubem Fonseca (lido 2005)
  3. Se um Viajante numa Noite de Inverno, Italo Calvino (lido 2012)
  4. O Amante do Vulcão, Susan Sontag   
  5. A Caixa Preta, Amós Oz 
  6. A Carta Esférica, Arturo Pérez-Reverte 
  7. Pastoral Americana, Philip Roth 
  8. A Mulher que Escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar (lido)
  9. O Último Suspiro do Mouro, Salman Rushdie 
  10. Inferno, Patrícia Melo (lido 2005)  
  11. Voragem, Junichiro Tanizaki  
  12. Onde andará Dulce Veiga?, Caio Fernando Abreu (lido 2012)
  13. A História Secreta, Donna Tartt 
  14. O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago (lido 2012) 
  15. O Retrato do Rei, Ana Miranda
  16. Sobre Heróis e Tumbas, Ernesto Sabato 
  17. A Trilogia de Nova Iorque, Paul Auster (lido)
  18. Quando Éramos Órfãos, Kazuo Ishiguro 
  19. Reparação, Ian McEwan 
  20. Amor, de Novo, Doris Lessing 
  21. Os Mímicos, V. S. Naipaul 
  22. Coelho Corre, John Updike 
  23. Paraíso, Tony Morrison 
  24. Abril Despedaçado, Ismael Kadaré 
  25. Os Cadernos de Dom Rigoberto, Mario Vargas Llosa 
  26. Santa Evita, Tomás Eloy Martinez  
  27. O Piano e a Orquestra, Carlos Heitor Cony
  28. A Grande Arte, Rubem Fonseca
  29. O Buda do Subúrbio, Hanif Kureishi
  30. Manicômio, Patrick Mcgrath 
  31. A Majestade do Xingu, Moacyr Scliar (lido 2005) 
  32. A Trégua, Primo Levi
  33. Achados e Perdidos, Luiz Alfredo Garcia-Roza 
  34. Os Versos Satânicos, Salman Rushdie (lido 2005)  
  35. Memento Mori, Muriel Spark 
  36. Bellini e a Esfinge, Tony Bellotto 
  37. Informações sobre a Vítima, Joaquim Nogueira 
  38. Ruído Branco, Don Dellilo  
  39. Despedida em Veneza, Louis Begley 
  40. Ripley debaixo D'água, Patrícia Highsmith 
  41. Todos os Belos Cavalos, Cormac McCarthy (lido)

Efeito indesejado

Alguma coisa estava errada. Eu já tinha usado todo o meu suprimento semanal e não conseguia sentir nada. Nem êxtase, nem euforia, excitação, ansiedade ou amortecimento. Nada. Primeiro pensei que tivesse sido enganado: o fornecedor me vendera alguma porcaria falsificada. Mas quando notei a namorada e os amigos deleitando-se pela sala da mesma remessa que eu havia usado, percebi que o problema era comigo. Daí, pensei que talvez eu tivesse criado alguma defesa natural contra os efeitos. Era isso. O meu corpo acostumara-se ao uso contínuo e excessivo e como vingança resolveu não me proporcionar mais o prazer viciante. Eu estava fadado a ser um usuário insensível e ter que suportar todos se divertindo ao meu redor enquanto eu seria apenas um mero expectador. Por fim, pensei que todos ali poderiam estar fingindo, como na fábula da roupa nova do imperador, eles também não estavam sentindo nada, assim como eu, mas não confessavam para não parecerem estranhos e diferentes ao grupo. Neste caso, eu poderia fingir também, mas que graça teria? Levantei de supetão, coloquei as sobras em uma sacola e saí. Vou comprar mais, talvez me ajude. Entrei na Pharmacia, chamei o boticário e pedi outra dezena de Coca-Cola’s. Sim, eu havia levado as garrafas vazias.

Uma imagem em 35 palavras (4)


Os fiscais da inspetoria sanitária sabiam da má-fama do bairro. Falavam sobre fantasmas. Ying queria parecer corajoso perante a sua parceira Yang, descartando superstições tolas. Porém, mantinha a impressão de que alguém os seguia constantemente.

Fora da Caixinha

Mal o dia começara e o calor já estava insuportável. O entrevistador tenta aumentar a velocidade do pequeno ventilador de mesa, mas quando este começa a se chacoalhar fazendo ruídos que só aumentariam a sua dor de cabeça, acaba desistindo da tentativa. Próximo, grita para a porta, mesmo sabendo que seria o primeiro da fila. Mas era a senha para que a secretária fizesse a fila andar. Quando chegara vira dezenas de candidatos, cada um mais estranho e desesperado que outro. Provavelmente noventa por cento não teria qualificações para a vaga. Previsão de mais um longo e cansativo dia.

Os três primeiros candidatos eram o que o entrevistador costumava chamar de arroz com feijão. Não fediam nem cheiravam. Currículos modelo Word, informações de escolaridade e profissionais parcas, incompletas ou inexatas, mesmo para uma lida superficial. Como estes caras querem conseguir um emprego se nem mesmo sabem escrever os seus currículos direito, costumava comentar com os outros entrevistadores durante os intervalos. Quando o quarto candidato entrou, notou algo diferente. Embora fosse jovem, usava terno e gravata sem que estas parecessem roupas emprestadas de última hora. Mostrou postura, carisma e atitude mesmo antes de sentar-se. Estendeu a mão para cumprimentar o entrevistador e perguntou com um sorriso como estava o seu dia de um modo que o entrevistador teve de se conter para não confessar que odiava aquilo tudo e o chamar para tomar um chope. Existem detalhes que já contam ponto a favor mesmo antes da análise curricular.

Entrevistador lia o currículo e o candidato lia o rosto do entrevistador ao deparar-se com a surpresa que lhe havia preparado. O que é isto, perguntou o entrevistador. Bem, começou a responder calmamente o jovem, resolvi me apresentar à empresa de uma maneira diferente, espero que o senhor aprecie. Sim, mas pelo que eu entendi você fez uma lista das coisas que você não faz, é isso? indagou incrédulo. Isto mesmo, ao invés de tentar convencê-lo contando vantagens por tudo o que eu sei fazer, quero mostrar a minha personalidade por aquilo que não faço e não pretendo fazer. O entrevistador voltou a ler silenciosamente alguns dos itens da lista.

“Eu nunca assisti A Fazenda, Casa dos Artistas, Big Brother Brasil ou programas similares. Não quer dizer que ignore o que são, mas justamente não assisto por saber exatamente o que são por meio de outros. Aliás, a televisão não é um dos meus passatempos favoritos nem minha fonte de conhecimento.”

“Não me divirto bebendo até cair ou abusando de qualquer outra droga, ou saindo baladas todas as noites que puder, ou gastando compulsivamente o meu dinheiro em coisas supérfluas, só para esquecer-me dos meus problemas cotidianos e dos problemas do meu país.”

“Eu não fico com uma garota diferente a cada semana, somente para contar vantagem aos amigos ou as tratando como produtos descartáveis feitos para a minha satisfação pessoal.”

“Não pertenço a nenhuma denominação religiosa que imponha limites à minha liberdade de questionar, nem a partido político que me obrigue a apoiar irrestritamente decisões contrárias a minha consciência.”

“Não tenho tanta experiência profissional quanto os outros candidatos, por ser relativamente jovem, nem tenho títulos de graduação, especialização, mestrado e doutorado comprados ou adquiridos porcamente e que prejudicarão mais a mim que aos outros.”

Depois de mais alguns itens, a lista terminava com um pequeno aviso.

“Não tenho a pretensão de mudar para ser uma pessoa pior, e sim o contrário, portanto, se esta empresa procura por pessoas que sejam exatamente o oposto do que sou, também não gostaria de fazer parte dela, para o bem de ambos.”

Senhor …, embora aprecie a sua inventividade, não posso contratá-lo, reconheceu o entrevistador. Tenho de admitir que muitas das ações descritas pelo senhor são praticadas por muitos funcionários, inclusive por mim. O senhor poderia ser motivo de insatisfação e controvérsia na equipe. O entrevistador conclui com a frase padrão: Agradeço pela sua disposição e prometo que entrarei em contato com o senhor caso haja um interesse futuro no seu perfil, tudo bem?

O jovem agradeceu polidamente, não demonstrando nenhum rancor e, antes de sair, pediu o seu currículo para escrever uma pequena observação que havia esquecido. Após a anotação, saiu pela porta. O entrevistador leu o escrito e forçou um sorriso. Gritou pela secretária e quando esta apareceu na sua frente, disse que esperasse algumas horas e depois ligasse para o candidato que acabara de sair dizendo que estava contratado. Antes de entregar o currículo para ela, deu uma última olhada na observação escrita à caneta.

“Eu nunca me contentaria em permanecer em um emprego que subestimasse as minhas capacidades, ganhando uma remuneração miserável e obedecendo calado à ordens de superiores inferiores como se eu fosse apenas uma peça mecânica sem valor.”

Questão de tempo



Os pecados têm vinte anos,
os remorsos têm oitenta. 


(Música Havemos de ir a Viana, da cantora portuguesa Amélia Rodrigues)

Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?, de Felipe Peixoto Braga Netto


Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos — oh sina — para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.

Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral das sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras?

É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso.

Um simples" mas" é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um "mas" nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.

Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é...

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou?, dizem: "ôndôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.

Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro — metaforicamente falando, claro — ele é bom de serviço. Faz sentido...

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: — Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).

O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:

— Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.

Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:

— Eu preciso de ir.

Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:

— Ah, mãe, eu preciso de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:

— Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.

Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?

Ouço a leitora chiar:

— Capaz...

Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?

Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."?

Completo ele fica:

— Ah, nem...

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "nem..." Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...

Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:

— Você quer que eu "dou" um exemplo...

Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.

Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.

Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade...

Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:

— Ah, fui lá comprar umas coisas...

 — Que' s coisa? — ela retrucará.

Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.

Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:

— Ele pôs a culpa "ni mim".

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. e diz tudo.

Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?

Deve haver, por certo, outras expressões... A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam... Exigência: ser mineira. Conversando com lingüistas, fui informado: é prudente que tenham cabelos pretos, espessos e lisos, aquela pele bem branquinha... Tudo, naturalmente, em nome da ciência. Bem, eu me explico: é que, características à parte, as conformações físicas influem no timbre e som da voz, e eu não posso, em honrados assuntos mineiros, correr o risco de ser inexato, entendem?

Fonte: Releituras.com.

Uma imagem em 35 palavras (3)


Entro no quarto escuro, silenciosamente.
Não posso acordá-lo, já não consigo prever o que ele faria.
Mas preciso descobrir o que meu filho está tramando.
A lanterna me paralisa na primeira página de seu diário.

A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin


O diretor J. J. Abrams confessou que tudo o que uma história precisa para cativar o público é abusar das caixas misteriosas. Não, ele não estava falando para se usar uma fábrica de embalagens como cenário universal. Ele chama as perguntas levantadas no decorrer da história de caixas misteriosas. Não importa se estas caixas serão ou não abertas no final, elas já cumpriram o seu papel: estimular a criatividade do leitor/telespectador e fazê-lo continuar a acompanhar a sequência até o final. E é exatamente isso o que faz o roteirista norte-americano George R. R. Martin em sua série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo. O primeiro volume dos sete livros previstos (atualmente o escritor lançou o quinto, em inglês), intitulado A Guerra dos Tronos (Leya, 2010), traz várias caixas misteriosas, ou situações conflitantes, que pretendem ser solucionadas nas centenas de páginas que trarão os próximos volumes. Mas não pense que todos os conflitos são deixados para os volumes subsequentes, muitos se resolvem já no primeiro livro. E acabam gerando outros conflitos com isso. Afinal, uma solução para uns personagens pode não ser apreciada por outros. A vida é assim, por que na ficção também não seria? Aliás, Martin conseguiu mesclar muito bem a história real da Europa com intrigas entre nobreza, cleros e reis, estratégias militares, guerras, divergências familiares, entre outras coisas, com uma boa dose de mitologia envolvendo feiticeiros, dragões, mortos-vivos e outros seres fantásticos. Mas este último elemento aparece somente como a cereja do bolo. Apesar de ter criado um universo com elementos mitológicos, estes só são histórias contadas pelos mais antigos de  épocas muito anteriores aos personagens atuais da trama. Mas são lembranças que espreitam e parecem querer ressurgir a qualquer momento.

A história é centrada na família de Eddard "Ned" Stark, senhor de Winterfell, localizado no gelado norte, contrária à família Lannister, nobres em Porto Real, a cidade do rei dos Sete Reinos. Apesar do rei atual, Robert Baratheon, ser amigo íntimo de Eddard, todos ao seu redor não compartilham dos seus sentimentos. Robert pede que Eddard o auxilie a governar, sendo o seu Mão, uma espécie de primeiro-ministro. Mas as intrigas da corte e da família Lennister não vão deixar com que isso seja tarefa fácil para Eddard e sua família. Já chegaram a citar que a inimizade entre os Stark e Lennister baseia-se na saga real dos York contra os Lancaster. A semelhança na sonoridade dos nomes não é mera coincidência. Na rede de tramas intrincadas, cada reino possui famílias com lemas, bandeiras e membros com personalidades diferentes. E cada família possui os seus próprios conflitos internos.

Um dos pontos a favor do livro é a quantidade e qualidade dos personagens complexos. Entende-se, na teoria literária, como personagem complexo aquele mais detalhado, que acaba-se conhecendo tanto as qualidades quanto os defeitos. Nos tornam íntimos deles. Alternar os capítulos sob o ponto de vista de um personagem diferente faz com que o leitor crie empatia automaticamente por alguns e passe a não gostar exatamente de quem estes não gostam. Mas isto acaba sendo conflitante quando o foco narrativo passa de um Stark para um Lannister. Porém, faz o leitor perceber que a história não é maniqueísta e que mesmo as más ações consideradas por uns, sob o ponto de vista de outros são plenamente justificáveis. No primeiro livro, os capítulos aparecem sob a narrativa de 8 personagens: as crianças Bran, Samsa, Arya, o bastardo Jon Snow, Catelyn e Eddard (da família Stark), o anão Tyrion (dos Lannister) e a princesa Daenerys (dos Targaryen). Além de mostrar pontos de vista diferentes, a mudança no foco narrativo também serve para mostrar o desenrolar da história em outros lugares.

A trama pré-história também aguça a curiosidade. Martin montou um passado tão fascinante que não  surpreenderia que, após o término do sétimo livro da série, ele anunciasse outra série contando os primórdios de tudo, seguindo bem de perto o estilo Guerra nas Estrelas (Fox, 1977-2005).

As comparações com O Senhor dos Anéis (Martins Fontes, 2001) são inevitáveis. Até mapas detalhados dos principais lugares da trama (como Winterfell, a Muralha e Porto Real) aparecem da mesma forma como na série antecessora. Apesar de os fãs de J. R. R. Tolkien já amaldiçoarem aos primeiros corajosos a se aventurarem a não só comparar, mas a apontar melhorias, há de se entender que são literaturas escritas para épocas e públicos diferentes. Martin é roteirista tarimbado em Hollywood e escreve as cenas como se narrasse um filme, e agrada em cheio a geração atual. E enquanto n’O Senhor dos Anéis fica bastante evidente a luta do bem contra o mal, em Guerra dos Tronos isso não é tão fácil assim. Outro detalhe que diferencia ambas as obras é a inclusão de personagens femininas como fortes protagonistas, como se George R. R. Martin se inspirasse muito em Tolkien, mas quisesse corrigir aquilo de que não gostou.

As vendas do livro dispararam no Brasil - apesar das críticas negativas à má adaptação da tradução portuguesa - devido ao lançamento da série televisiva (HBO, 2010). Em 10 episódios muito bem produzidos, com atuações, figurino, cenário e efeitos especiais de primeira, fez com que muitos fãs migrassem da telinha para encarar as 592 páginas do livro. Incentivar a leitura de calhamaços é algo inédito em nosso país, mas mesmo que se consiga vencer o primeiro volume será apenas um aperitivo, pois os próximos só aumentam de tamanho (o segundo tem 656 e o terceiro 884 páginas). A previsão de lançamento do quarto livro no Brasil é para janeiro de 2012, na mesma época do lançamento da segunda temporada da série, baseada no segundo livro, A Fúria dos Reis.



Trechos:

Quando as neves caem e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive.

Uma imagem em 35 palavras (2)


Os brinquedos de menino
Não são mais como eram antes
Nem bola nem bicicleta
Só fuzis em braços infantes.

As balas deixaram de ser doces
E a estrada
O futuro
De raiar as suas cores.