Criminal Minds - 5ª temporada (2009-2010)


5x01 Nameless, Faceless
Karl Krauss disse: "Um homem fraco tem dúvidas antes de uma decisão. Um homem forte, tem depois."

5x02 Haunted
Emily Dickinson escreveu: "Não é preciso ser uma câmara para ser assombrado. Não é preciso ser uma casa. O cérebro tem corredores que ultrapassam lugares materiais."

Não existe testemunha tão amedrontadora, nem acusador tão terrível, quanto a consciência que habita no coração de cada homem. - Políbio


5x03 Reckoner
Justiça sem força é impotente. Força sem justiça é tirania. - Blaise Pascal

Sempre acreditei que a misericórdia traz mais frutos que a justiça estrita. - Abraham Lincoln

Expressões Idiomáticas

Uma expressão idiomática ou expressão popular, em português, é conjunto de palavras que se caracteriza por não ser possível identificar seu significado através do sentido literal de seus termos individuais. Desta forma, em geral, é muito difícil ou mesmo impossível traduzi-la para outras línguas. As expressões idiomáticas muitas vezes estão associadas a gírias, jargões ou contextos culturais específicos a certos grupos de pessoas que se distinguem pela classe, idade, região, profissão ou outro tipo de afinidade. Muitas destas expressões têm existência curta ou ficam restritas ao grupo onde surgiram, enquanto algumas outras resistem ao tempo e acabam sendo usadas de forma mais abrangente, extrapolando o contexto original. (Fonte: Wikipédia)

No vídeo abaixo, tente contar quantas expressões idiomáticas você NÃO conseguiu decifrar.


Às vezes, o uso excessivo das expressões idiomáticas pode causar problemas na comunicação, como o grupo de comédia Os Barbixas soube exemplificar.

A Vespa de Peruca (A Wasp in a Wig), de Lewis Carroll

Quando Lewis Carroll escreveu Alice Através do Espelho, o desenhista John Tenniel recusou-se a fazer os desenhos do capítulo "A Vespa de Peruca", pressionando Carroll a abandonar o capítulo inteiro. Este capítulo ficou perdido por mais de 100 anos. Esta semana, foi levada a leilão por quinze mil libras, a carta que Tenniel escreveu a Carroll, em 1870.
Meu Caro Dodgson
Acredito que na cena em que ocorre o salto na ferroviária, você faria muito bem se fizesse Alice usar a barba do bode como o objeto mais próximo de sua mão ao invés do cabelo da velha senhora. O puxão as arremessaria juntas.
Não me considere rude, mas sou obrigado a dizer que o capítulo sobre a vespa não me interessa de jeito nenhum e não vou fazer o desenho. Se você quer encurtar o livro, eu não posso deixar de pensar - com toda humildade - que esta é sua oportunidade.
Na agonia da pressa,
Atenciosamente,
J. Tenniel
Tenniel também teria comentado que "a vespa de peruca é completamente fora do domínio da arte", fazendo com que a opinião atual sobre a omissão do capítulo seja porque ele achava patética tal cena. Porém, há outras opiniões sobre o motivo pelo qual Tenniel recusou o capítulo. Poderia ser porque ele não tinha tempo de fazer outro desenho, pois o seu prazo de entrega para o Punch - periódico para o qual trabalhava - estava acabando. Martin Gardner (The Annotated Alice, 1998, p. 221) sugeriu que talvez fora a crítica da vespa sobre os olhos de Alice que fez com que o caolho Tenniel decidisse não cooperar. O capítulo perdido provavelmente viria logo após o capítulo sobre o Cavaleiro Branco.

A VESPA DE PERUCA (Uma tradução muito simplista do The Times Online)

Ela estava para saltar novamente, quando ouviu um profundo suspiro, que parecia vir da madeira atrás dela.

Algo como um homem muito velho (só que o seu rosto parecia mais com o de uma vespa) estava sentado no chão, encostado em uma árvore, todo encolhido junto dela, e tremendo como se sentisse muito frio.

"Não acho que eu possa útil a ele," foi o primeiro pensamento de Alice, como se ela fosse a primavera sobre um riacho: - "Mas eu vou perguntar-lhe qual é o problema", acrescentou ela, verificando ao redor de si mesma. "Se eu pular mais uma vez, tudo vai mudar, e então eu não poderei ajudá-lo."

Ser Grande / Ser Inteiro

Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
porque alta vive.

Ricardo Reis

SEM VESTÍGIOS (escrito sem a letra A)

O último serviço noturno e o fim do longo expediente em breve. Um prêmio de consolo depois de um número sem fim de tempo com os olhos despertos. Por isso, o detetive mostrou o distintivo no corredor e entrou velozmente no recinto. Primeiro, olhou o corpo estendido no piso frio, coberto só por um lençol de cetim. Depois, percebeu os móveis e objetos em desordem. Curvou-se e mexeu no lençol, olhou de perto o rosto do defunto e pegou com um lenço o vidro de remédio que este segurou entre os dedos mortos. Leu o rótulo e concluiu que o pobre morreu de overdose de sementes de sonhos. Benflogin. Fonte de delírios, visões e desequilíbrios nos cérebros de muitos dos jovens moderninhos. O doido espremeu perto de cem comprimidos, misturou com meio litro de uísque e foi ver Jesus no céu. Ou pode ser que primeiro viu Jesus, viu o céu, o demônio, o inferno, ou tudo junto, e depois morreu. De todo modo, o imbecil morreu feliz em vez de deprimido.

O detetive pensou em escrever suicídio (ou burrice juvenil) no seu bloco de registros e ir logo beber um copo de vinho tinto demi-sec e depois dormir, contudo ficou surpreso vendo o perito médico, velho conhecido seu, em silêncio e sério, estendido em um pufe vermelho.

- O que foi com você, Joel, ficou sensível com o presunto? – perguntou o detetive em um tom leve.

- Ele levou choques nos testículos – respondeu Joel.

- O quê?

- Isso mesmo que você ouviu, detetive Guedes, ele levou eletrochoques nos testículos. E teve pequenos cortes com um instrumento como um bisturi por todo o corpo. E o pé esquerdo ficou no fogo por um bom tempo. Olhe como o pé é preto mesmo sendo o resto do corpo em tom de inverno europeu.

- Um pouco de humor negro no recinto, Joel? – perguntou o detetive Guedes, minutos depois de mexer nos escritos sobre o televisor.

- Como?

- Encontrei nos documentos dele o nome John Smith. De Luxemburgo. Resumindo: ele é europeu. E como você disse um “corpo em tom de inverno europeu” justo sobre um presunto europeu…

- Me desculpe, nem me informei sobre isso.

- Me diz o que este louco de Luxemburgo fez hoje, por obséquio, que o meu turno findou tem tempo.

- Guedes, creio em hipóteses diferentes: ou ele fez isso com ele mesmo depois dos efeitos psicotrópicos do remédio ou criminosos bem inteligentes querem que pensemos que ele se suicidou, depois de terem feito tudo o que existe de perverso com o infeliz.

- Existem indícios de terceiros no recinto ou de confronto violento?

- Só encontrei impressões do morto. Nenhum vizinho o viu com outros. Só um deles escutou o som de móveis sendo desferidos com poder pelo cômodo e os gritos dementes do inquilino.

- É melhor você ir dormir, meu velho, e evite conclusões que se desviem do óbvio. O homem simplesmente pirou e foi só isso – concluiu o detetive Guedes, movendo-se no rumo do corredor e escrevendo em seu bloco que o crime, se é que houve crime, foi um só: suicídio.

O detetive foi-se sorrindo por deduzir que excesso de serviço sim é um crime. Hediondo.

Texto escrito para o Duelo de Escritores do dia 21.05.2010, com o desafio de escrever um texto sem a letra a.

O poder de uma história. E o de várias.

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora nigeriana Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos. O vídeo abaixo possui a opção View subtitles para escolher a legenda em português e um ícone no canto superior direito para assistir em tela inteira.

Elipse e Zeugma

Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0

Elipse: s.f. 2. GRAM LING num enunciado, supressão de um termo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto linguístico ou pela situação (p.ex.: meu livro não está aqui, [ele] sumiu!).

Zeugma: s.2g. GRAM LING forma de elipse que consiste na supressão, em orações subsequentes, de um termo expresso na primeira (p.ex.:
cada criança escolheu um brinquedo; o menino, um carro, a menina, uma boneca)

Graças a estas figuras de linguaguem, brincadeiras como as abaixo são possíveis na língua portuguesa.

Eu uso faca, o José Serra.
Eu jogo na quina, o Ayrton Senna.
Eu trouxe a espada, o Oswaldo Cruz.
Eu quero guerra, a Bárbara Paz.
Eu construo casas, a Tati Quebra Barraco.
Eu falo bonita, o Miguel Falabela.
Eu gosto do Batman, o Luciano Huck.
Eu sou brasileiro, o Renato Russo.
Eu não estive na Bahia, mas a Adriana Esteves.
Eu assisto o Chapolin, o Hugo Chavez.
Eu ando de ônibus, o James Bond.
Eu pinto retrato, o Janio Quadros.
Eu bebo café, a Claudia Leite.
Eu uso xampu seda, o Éric Johnson.
Eu como maçã, a Dani Bananinha.
Eu não faço nada disso que você tá pensando, mas a Beth Faria.
O meu acorda tarde, o seu madruga.
Eu como cereja, a Camila Pitanga.
Eu gosto de vinho tinto, a Débora Seco.
Eu não queria, mas a Cássia Kiss.
Eu me caso ano que vem, a Marjorie Estiano.
Eu vendo Fusca, o Dedé Santana.
Eu torço pelo Flamengo, a Ana Botafogo.
Eu jogo no Vasco, o Silvio Santos.
Eu tenho casa pequena, o Carlos Casagrande.
Eu já vi ciclone, a Hilda Furacão e o Tony Tornado.
Eu como torresmo, o Kevin Bacon.
Eu queria me chamar Francisco, o Erasmo Carlos.
Eu quebrei a xícara, a Glória Pires.
Eu sou da cidade, o Martinho da Vila e a Vanessa da Mata.
O Pateta usa teclado, o Mickey Mouse.
Eu como bacalhau, a Cláudia Raia.
Eu pedi carne, o Felipe Massa.
Eu uso Bombril, o Bob Esponja.
Eu crio galinha, o Paulo Coelho.
Enquanto o Zé fuma o Celso Pita.
Eu morro só uma vez, a Alanis morre sete.

Destaques da 19ª semana de 2010

1. Vale a pena conhecer as indicações de leitura policial de Thiago Carvalho, do blog Romances Policiais, em entrevista para a Folha Online. Entre elas está a trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson.

2. Como fazer sucesso nas agências, by Youtube. Me deu vontade de contratar o cara.

3. Para relaxar, o site Não Salvo traz vídeos, piadas, pegadinhas &tc. Tá certo que algumas são bem nojentas, mas não tira o humor das que não são.

4. O trailer de ação do Office 2010: The Movie. Tomara que a explosão não sejam os usuários com raiva.

5. Quer saber a fonte de inspiração da famosa cena do Di Caprio e da Kate no filme Titanic? É uma estátua de 1931, chamada Memorial das Mulheres do Titanic.

Porque não escrever


Depois de uma semana supercorrida e sem tempo nem imaginação para escrever algo novo, resolvi desenterrar uma tradução que fiz há cerca de três anos. Afinal, muitos dizem que a tradução é em si um trabalho de escrita, em que o tradutor muitas vezes precisa ser melhor que o escritor para poder verter não só a língua, mas os sentimentos e pensamentos estrangeiros de maneira que sejam assimilados mais facilmente. O texto é de uma carta do escritor norte-americano Morgan Robertson, escrita na noite anterior à sua morte e que levanta a pergunta se ele teria cometido suicídio. Como alguns indícios no texto indicam, motivos ele tinha de sobra. O texto e as imagens da carta original foram retirados de www.morganrobertson.com/final_letter.htm.

***

[São duas páginas amareladas que trazem no topo o logotipo do Alamac Hotel]

Atlantic City, 23 de março de 1915.

Este é o meu último texto. Será melhor para a humanidade que eu pare de escrever, embora a escrita seja para mim, além de um prazer, uma necessidade vital. Sei que muitos me procuram há anos, desde o fatídico ocorrido, a maioria por curiosidade, mas alguns vão além e me acusam de ser o responsável pela morte de centenas de pessoas. É justamente para me explicar e para saberem que [veja Nota do Tradutor #1] e assim poderei ficar em paz.

Tudo começou com uma brincadeira. Aliás, para um escritor, tudo sempre começa com uma brincadeira. No inverno de 1897 eu passava alguns dias na casa de Mark. Apesar da companhia agradável e estimulante, nunca senti tanto frio quanto naqueles dias, pois o aquecedor de Mark insistia em não funcionar. Certa noite, pensei que fosse morrer de tanto que a minha cama tremia, e hoje sei que foi naquela noite que surgiu a ideia de escrever uma cena em que alguém morria de frio. Aquele fato foi a inspiração para o meu conto mais comentado, o Futility.


Com a cena fixa e se desenvolvendo em minha mente, primeiro pesquisei livros e médicos sobre os efeitos que o frio extremo causa no corpo humano. Todos me indicaram começar por uma palavra: hipotermia. É o nome da condição quando o corpo humano cai abaixo dos 98 ºF e traz consequências catastróficas para o corpo. Também li e ouvi relatos de pessoas que haviam passado por esta desagradável experiência, principalmente alpinistas e exploradores dos árticos. Com uma boa quantidade de material sobre o assunto, esbocei a cena que já há semanas não saia da minha mente, em que um homem passava frio até morrer. Percebi, por exemplo, que se encaixaria melhor ele estar em um ambiente inóspito e que os efeitos da hipotermia são acelerados na água. Assim, depois de algumas variações, acabei concluindo que o melhor ambiente para reunir estas condições seria o naufrágio de um navio próximo ao ártico. E o náufrago escolhido para a morte gelada seria Smith, o capitão do navio.


[final da primeira página]

Porém, a cena em que as sensações da hipotermia vão sendo descritas, ora pelo narrador-onisciente, ora pelo capitão Smith, com o navio afundando enquanto os sobreviventes boiam em águas geladas, os tremores, a mudança da cor da pele para um tom acinzentado, o sono, as alterações na memória e na fala, a rigidez e imobilidade muscular até, por fim, o conjunto todo conduzir a uma morte lancinante, bem, esta cena não existe no conto. Depois de toda a história escrita, aquela cena passou a destoar do restante por ser muito forte, e resolvi cortá-la da versão final. Assim, a ideia original foi a que ficou fora do conto.

Catorze anos depois da publicação de Futility, uma estranha coincidência: um navio com características semelhantes às do navio do meu conto afunda. Ambos bateram em um iceberg, na rota London-New York, no Atlântico Norte, a cerca de 23 nós de velocidade e exatas 400 milhas de Terra Nova. Ambos tinham perto de 20 botes salva-vidas,menos da metade dos necessários para salvar os 3.000 passageiros e tripulantes. Em ambos morreram mais de 2.200 pessoas em meados do mês de abril. Um navio se chamava Titan e o outro Titanic. Fui eu quem escreveu que o Titan era “impossível de afundar”
[NT #2], frase que depois foi usada para o Titanic. E, por fim, o nome do náufrago da cena original que fora cortada, que narrei morrendo tão terrivelmente, o capitão do navio Titan, era o mesmo nome do capitão do Titanic, Smith.

São fatos que podem perturbar a mente de qualquer homem. Inicialmente pensei em uma série de coincidências bizarras. Mas a medida em que mais fatos eram trazidos à tona pela imprensa e pelos sobreviventes, mais foi aumentando o interesse do público pelo meu conto e mais fui me sentindo mal por tê-lo escrito. Passei a ser perseguido, importunado e visto com desconfiança. Pior foram as perguntas que passei a me fazer. Será que, de alguma forma, eu tive uma visão profética do futuro? Poderia ocorrer novamente? Passei por diversas crises de saúde e hoje só consigo dormir depois de tomar doses cada vez maiores de proto-iodeto. Eu, que só queria escrever estórias de ficção que agradassem ao público e rendessem algum dinheiro, agora tenho medo delas. Penso, várias vezes ao dia, que eu não conseguiria suportar se outro de meus contos se tornasse tão real quanto o Futility. Imagino e tremo, de medo e não de frio, se daqui há alguns anos o Beyond the Spectrum se tornar realidade.
[NT #3] Ao menos sei de algo que posso predizer com certeza que escrevi e vai acontecer: este será o meu último texto.


M. Robertson

Notas do Tradutor
#1 – Trecho ilegível, as três linhas seguintes foram rabiscadas pelo escritor.
#2 –
Unsinkable, no original.
#3 –
Beyond the Spectrum, apesar de publicado em 1914, continua inédito no Brasil, e conta a história em que os Estados Unidos entram em guerra contra o Japão, em represália a um ataque surpresa destes, e no final os EUA vencem usando uma nova arma capaz de gerar calor intenso que cega e queima muitos japoneses.
#4 - O prólogo, o hiperlink e a carta são fictícios, porém carregados de informações reais.

Tema "alguém tem que morrer congelado" do Duelo de Escritores de 11.05.2010.

Você sabia?

Paper Books, por Flávio Demarchi

Neverending Paper-Story / História sem Fim


Paper Alice through the looking-glass


Paper Hamlet


James Paper Bond


Dorian Paper Gray


Paper Gulliver


Dom Paper Quixote


James Paper Bond II

_Não Contem com o Fim do Livro

SINOPSE

Umberto Eco e Jean Claude-Carrière, notórios bibliófilos, discutem a história e o futuro dos livros de maneira erudita e bem-humorada. Ao percorrerem cinco mil anos de existência dos impressos, os autores defendem a imortalidade do objeto como o conhecemos, apesar dos e-reader e da internet.

DADOS TÉCNICOS

Autores: Umberto Eco e Jean Claude-Carrière
Tradução: André Telles
Editora: Record
ISBN: 9788501088536
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
Ano Publicação: 2010
Páginas: 272

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O Príncipe Maldito IX


Leia também a Parte VIII.

Os ilhoásis são pequenas quantidades de água cercadas de desertos por todos os lados. O seu tamanho pode variar desde uma poça d’água – útil só para os seres que, porventura, sejam menores que ela – até uma lagoa completa, equipada com árvores frutíferas, aves, animais de pequeno porte e alguma franquia de fast-food. O problema é quando os ilhoásis são habitados por seres desconhecidamente perigosos.

A capitã pirata Lailah Mor, ex-Corruto III – que adotou o novo nome prontamente assim que o seu enamorado, e por que não dizer abobalhado, capitão Barbarrala revelou o que significava junto ao ouvido dela, quando eles estavam a sós e que, portanto, ninguém além dos dois saberia dizer que raios Lailah Mor significa – organizou uma equipe de exploração para caminhar até o ilhoásis, enquanto o navio mantinha uma distância segura. Convocou Barbarrala, Carpeaux, o druida e mais três piratas para que a acompanhassem, e os demais esperariam jogando cartas ou amarelinha no convés, apostando rodadas de rum por conta dos perdedores. Precavida, a capitã manteve um vigia no topo do mastro para, a qualquer sinal de perigo, avisar os demais piratas.

O grupo desembarcou e caminhava sob a luz do por do sol. Carpeaux lado a lado com o druida.

- Eu não sei como, mas sei que você bolou algum plano com a BB, e não gosto de ficar de fora. Só não entendo por que a capitã amarrou BB e libertou a nós dois. BB vai se livrar das amarras e tomar o navio?

O druida balançou a cabeça negativamente.

- Pensando bem, seria difícil para ela tomar um navio pirata sozinha. Então qual é o plano? Qual é o ponto fraco dos piratas que vocês estão explorando?

Um brilho cruzou o olhar do druida quando este apontou sutilmente para Barbarrala, que conversava com a capitã mais à frente.

- Eu rrrealmente gostei do nome, Barrrba. Tem tudo a verrr com a minha nova perrrsonalidade. Mas tem uma coisa que me intrrriga – disse a capitã de voz grave.

Com outra voz grave, na realidade idêntica à primeira, só que com menos erres, o pirata perguntou: – O que lhe intriga, minha capitã?

- A mulherrr no quadrrro na sua cabine, capitão, errra da Belarrrmina Beladona, não?

- Er... bem, sim – ele falou olhando para o chão – era ela sim.

- Para que eu possa confiarrr em você e saberrr como ficarrrá a nossa rrrelação, eu preciso saberrr porrr que rrraios você tinha um quadrrro dela, mesmo anos separrrados?

Era uma pergunta complicada para o capitão, pois ele não fazia ideia sobre o que Lailah e BB conversaram quando estavam a sós. Ele só sabia que fora uma conversa longa. Se Lailah desconfiasse que ele mentia, teria a fúria de uma capitã pirata contra ele, totalmente linda e maravilhosa arrastando atrás de si uma tripulação de idiotas com pôsteres dela autografados pregados pelos cantos do navio. Mas, se ele contasse a verdade, ah, isto o capitão não se arriscaria nunca, pois sabia que contar a verdade a uma mulher sobre outra mulher era bem mais perigoso que mentir. Naquele momento, ele desejou que Lailah voltasse a ser um papagaio. Ou que ele se transformasse em um druida mudo. Como nenhuma das duas opções era uma alternativa para ele, resolveu fazer o que todo homem faz quando posto contra a parede.

- Lailah, veja bem, meu amorzinho, não fique brava. Eu conheci Belarmina muito tempo antes de conhecer você. Era uma outra época e eu estava totalmente apaixonado por ela, mas agora ela é passado, agora somos apenas eu e você, meu bombomzinho de rum. Eu prometo que de hoje em diante não pensarei em mais ninguém além de você. Palavra de pirata! – e ergueu a mão direita em sinal solene.

A capitã pareceu gostar do que ouviu e pegou a mão do pirata enquanto caminhavam lado a lado. Se ambos tivessem coração para apreciar o por do sol, seria um daqueles momentos perfeitos em que entra uma música melosa e a câmera se afasta para mostrar o perfil dos dois. Mas, por problemas orçamentários, a única coisa que aconteceu foi um som rasgado e fino vindo do final da fila.

- Me desculpem, pessoal – disse Carpeaux – acho que foram aquelas batatas que comi no almoço.

Os caminhantes chegaram ao ilhoásis ao cair da noite, onde eram visíveis somente as distantes lanternas do Darius Drome. Uma pequena mata separava o deserto do lago e ao chegarem na água dois dos piratas puseram-se prontamente a encher os cantis de água, enquanto o terceiro pirata montava guarda. Os outros passaram a entrar na convidativa lagoa, bebendo e refrescando-se ao mesmo tempo. Até perceberem que o druida olhava fixamente o lago. Parecia ter visto algo que os outros não viram.

- O que foi, druida? – perguntou Carpeaux, prevendo que a resposta poderia ser desagradável.

O druida apontou o céu, totalmente escuro, sem lua ou estrela, e depois apontou o lago. Demorou um pouco a entenderem o que ele queria dizer, até que Barbarrala gritou:

- Agora eu vejo! Como pode a lua e as estrelas aparecerem refletidas no lago se não há nada no céu?

O druida apontou mais adiante no lago outro detalhe que não tinham visto: o reflexo de uma montanha e no topo um castelo azulado, visível porque dentro da lagoa havia luar e por causa de uma estranha luz que pairava sobre ele.

- Isto é magia negrrra – falou a capitã – é um encantamento muito forrrte e antigo.

Começaram a discutir o que fazer diante daquela situação, e as opções acabaram resumindo-se a ir embora, ir embora rapidamente e ir embora e esquecer tudo. Mas não eram as opções que o druida tinha em mente. Ele só tinha uma opção. Entrou no lago e foi caminhando cada vez mais fundo. Enquanto todos o chamavam pelo nome de alguns animais que empacam, ele repetia mentalmente um de seus votos como druida: ele deveria ajudar os em perigo que encontrasse em sua jornada. E aquela parecia uma oportunidade perfeita. Mergulhou. Se ele não soubesse que tinha recém entrado na água perderia a noção de direção, pois submerso parecia que nadava para cima. A superfície no fundo da lagoa parecia alcançável a poucos metros.

Enquanto isso, os outros observaram o monge nadar nas águas cristalinas até alcançar uma praia seca dentro do lago. Viram-no ficar em pé e acenar, mesmo estando de cabeça para baixo em relação a eles. Carpeaux foi o primeiro a pular sem pensar, afinal, aonde existe um castelo sempre existe um tesouro. Lailah ordenou aos piratas que esperassem ali, enquanto pulava no lago com Barbarrala. Nadaram para baixo, rumo à superfície. O espaço que percorreram era somente uma faixa de água separando os dois lugares.

Ao chegarem à praia, o druida já torcera o manto e seguia por uma estrada ao pé da montanha. O lugar parecia desabitado, nenhum guarda, nenhum camponês, nem mesmo animal. Não viram uma só alma até chegarem ao castelo, e continuaram sem ver quando passaram pelos portões escancarados. As luzes estavam acesas. Era um castelo magnífico, com entalhes em joias, ouro e prata. Havia esculturas de deuses e de mulheres nuas no jardim. Dentro do castelo, uma escadaria de mármore conduzia a um grandioso salão de espelhos, com tapeçarias exóticas, quadros e móveis com detalhes em ouro. Adentraram a vazia sala do trono, que mantinha duas mesas postas com todo o tipo de gênero alimentício. Aves e mamíferos dos mais diversos tipos e preparos, assados, frituras, cozidos, frutas exóticas, doces coloridos, enfim, tudo o que os médicos costumam proibir, existia naquelas mesas.

- Eu poderia viver aqui – disse Carpeaux – acho que estamos no paraíso.

- Ou então no inferno – soou uma voz rouca atrás deles.

Todos se viraram com as armas preparadas para o uso. Encontraram somente um velho com barba e uma expressão triste em seu rosto, embora trajado com vestes reais e um turbante branco com um enorme rubi em forma de estrela no centro.

- Quem é você? – perguntou a capitã ameaçadoramente.

- Sou Elul-Ah, o soberano deste reino.

- E onde estão os seus súditos, os guardas e os serviçais? - perguntou Carpeaux.

- Não os tenho mais – respondeu o monarca abatido – os únicos seres que habitam comigo são os djins do deserto. Aliás, atualmente eu sou o rei deles.

- Mas não encontramos ninguém desde que chegamos – completou Barbarrala.

- Ah, isto porque os djins são invisíveis, e vocês não os verão enquanto eles não quiserem, mas eu lhes garanto que há milhares deles neste exato momento dentro desta sala, interessados em nossa conversa.

Os visitantes olharam ao redor, mas nada viram. Era realmente estranho uma só pessoa manter sozinha toda aquela pompa, o que lançava no ar um perfume chamado armadilha.

- Porém, peço para que fiquem tranquilos, visitantes, eu tenho um acordo com os djins e eles são proibidos de fazer mal a visitantes no castelo, embora vocês sejam obrigados a passar por uma prova.

- Prova, mas que prova? – perguntou Carpeaux.

- Um pequeno teste, infelizmente. Eu já tentei de todas as formas proteger outros de passar por isto, mas por mais que consiga manter os visitantes longe do meu reino, há sempre um jeito dos djins abrirem portas para cá.

- Mas se você é rei dos djins porque simplesmente não dá uma ordem?

- É que o modo de se negociar com um djin não é o mesmo dos outros reinos. Os djins são seres mágicos que realizam qualquer coisa por meio de apostas. Se você ganha, pode pedir o que quiser, mas se perde eles podem fazer o que quiserem. Foi assim que fiquei extremamente rico, ganhei uma vida longa e tornei-me soberano deles. Também foi assim que perdi a minha família e os meus súditos. Infelizmente, paguei com aqueles que me eram queridos pela minha ganância e egoísmo.

- E como vamos saberrr que você somente não está tentando nos enganarrr?

- Bem, vocês podem tentar sair – respondeu o sultão enquanto dirigia-se ao trono – se conseguirem.

Assim que ele sentou-se e os quatro pensaram em voltar-se em direção à saída, as enormes portas bateram ruidosamente, seguidas por todas as janelas. Era verdade, estavam presos no castelo.

- Vocês não poderem sair sem apostarem é o resultado de um jogo que eu perdi para eles. Mas quando ganhei, exigi que não fizessem mal a nenhum visitante. Contudo, quando eles viram que comecei a ganhar, se recusaram a jogar comigo. O resultado é que estou há vários anos preso neste castelo, esperando em vão por dias melhores.

Barbarrala olhou ao redor para o vazio, praguejando por não saber em que tipo de desvantagem se encontrava. Chamou os outros para confabularem em um círculo.

- O que vocês acham, o rei está mentindo? – perguntou Carpeaux.

- Duvido muito, isso é magia das forrrtes – respondeu a capitã – acrrredito que não temos saída a não serrr aceitarrr a prrroposta dele e verrr aonde isso vai darrr.

- O problema é que sou péssimo em apostas, provas, jogos ou qualquer outra coisa. Vivo perdendo o meu dinheiro nas tavernas por onde passo – adicionou Barbarrala – Alguém de vocês deve ser melhor que eu nisso?

Ninguém falou nada quando todos olharam para o druida.

- Majestade, aceitamos o desafio dos djins – gritou Carpeaux exaltado, já pensando nas possibilidades do que pediria caso ganhassem – quem irá apostar será o meu amigo druida, e eu serei o seu intérprete, já que ele não é de falar muito.

- Muito bem, com o desafio aceito, os djins já podem se manifestar e revelar-lhes as regras do jogo.

Repentinamente, milhares de formas das mais variadas começaram a aparecer lotando o salão. Eram homens com cabeça de cavalo, seres de uma cabeça e três corpos, outros tinham só a cabeça, mas em formato dos mais diversos. Alguns se pareciam com animais, como um que passou voando rente à eles, parecia uma vaca com rabo de galo e asas de borboleta. Os tamanhos variavam de alguns com poucos centímetros até dezenas de metros, fazendo o teto do alto salão parecer uma caixa de sapatos de anão. Os visitantes estavam no meio de um zoológico que poderia ter saído da mente de qualquer doido em um dia que comera muito açúcar. A sala parecia apertada diante de tantos seres, que conversavam e discutiam animados entre si nos mais estranhos idiomas, zumbidos e barulhos.

- Olá, humanos – prontificou-se um ser que flutuava, de pele, olhos e dentes azuis, cujo formato era o de uma garrafa do tamanho de um homem – Meu nome é Juzam e eu serei o juiz deste jogo. Enquanto vocês conversavam com o nosso rei, decidimos qual o jogo os senhores irão participar nesta linda noite: o jogo dos gêmeos!

Os djins vibraram tanto que o castelo pareceu tremer com as batidas de palmas com as mãos, pés, tentáculos ou qualquer outra coisa parecida. O djin Juzam, após fazer um sinal de silêncio com a mão, apontou para dois baixinhos idênticos, que pareciam balões de tão redondos, mas com os pés e dedos muito grandes e apenas uma mão, fechada, no topo da cabeça. E lançou o desafio.

- Estes dois seres apreciáveis a vossa frente são Eugênio número um e o seu irmão gêmeo Eugênio número mil e quatro. Eles vêm de uma família de gêmeos onde alguém só fala a verdade ou só mente. Portanto, os dois Eugênios podem ser do tipo que só mente ou do tipo que só fala a verdade. Também pode ser que um deles só minta enquanto o outro só fale a verdade, ou vice-versa. E o jogo é este: fazendo apenas uma pergunta a cada Eugênio, vocês são capazes de descobrir qual deles esconde uma moeda de ouro na mão?

Português de Portugal

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House M.D. - 6ª temporada (2009-2010)

6x01 Quebrado
As conquistas só duram até que alguém as estrague. Os fracassos duram para sempre.

6x03 O tirano
É fácil ser legal com as pessoas que você gosta. Mas ser legal com as pessoas que você odeia é uma habilidade.

6x09 Wilson
A pessoa que quer quando está morrendo não é a mesma que quer quando está vivendo.

Desapontamento é a raiva dos medrosos.

Um problema atrasado é um problema negado.


6x20 Baggage
O cérebro das pessoas para de funcionar quando pensam que vão perder alguém que amam.

House M. D. - 5ª temporada (2008-2009)
House M. D. - 4ª temporada (2007-2008)
House M. D. - 3ª temporada (2006-2007)
House M. D. - 2ª temporada (2005-2006)
House M. D. - 1ª temporada (2004-2005)
Veja a lista completa de temporadas e episódios na Wikipédia.

Destaques da 18ª semana de 2010

1. A Denise Bottmann, do blog Não Gosto de Plágio, divulgou algumas denúncias que fiz a respeito de duas traduções atuais que se parecem muito com plágio do livro Meditações, de Marco Aurélio, das Editoras Martin Claret e Madras. A Madras já retirou a obra de catálogo. Mas a Denise deve fazer novas comparações (profissionais) para atestar a denúncia.

2. Vale a pena conferir as entrevistas interessantes de alguns escritores, como Moacyr Scliar, Martha Medeiros, do casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, e da palestra de Eduardo Galeano no site da L&PM WebTV.

Quarentena

O deserto era causticante desde qualquer ponto visível até o fim da circunferência do horizonte. As sombras sofriam de insolação e as nuvens mudavam de ideia e corriam na direção contrária quando se aproximavam desavisadas. Bem em meio ao rincão erguia-se a imponente montanha, um altar fálico em meio à terra abrasadora, um obelisco amaldiçoado avisando que aquela poderia ser a última visão para os que por ali se aventurassem. Por outro lado, a montanha, se assimilava a caveira de algum titã que escolhera aquele lugar longínquo para perecer, com suas cavernas tal qual milhares de órbitas sem os globos oculares, vigiando silenciosamente o tempo e a distância. Contudo, uma velha força voltara a pulsar em uma de suas veias com o regresso de um antigo morador, ator de muitas das histórias encenadas para a plateia de rochas, mas que neste instante apenas sentava em uma pedra à porta da gruta, olhando o firmamento. O observador aguardava paciente, e visualizava o futuro, sim, o futuro imediato, pois quando se tem à sua frente uma planície de dois dias de caminhada, pode-se prever exactamente quando se terá visitas. Primeiro, os abutres aparecem pipocando nos céus com o calor da panela terrestre, depois revelam brincar com uma marionete de linhas invisíveis, uma pulga sem circo, um minúsculo ponto escuro no horizonte que se faz primeiro imóvel, não se mexendo senão devido à miragem, mas que depois cresce serenamente em tamanho, visibilidade e velocidade até tomar a proporção e forma de homem. Contra todas as probabilidades, o observador observa que tem visita, e uma visita há muito esperada.

Você demorou, cumprimentou o observador, com a voz calma e educada enquanto o visitante se aproximava, O que o traz nestes confins da Terra, Precisava de alguém para conversar, respondeu o visitante, O observador, malicioso como só ele, sorriu e provocou, Mas não és tu aquele que tem milhares, milhões, de seguidores, há de existir alguém entre eles para confabulares, Você sabe que não é assim, continuou o visitante enquanto batia o pó de suas vestes, Tenho milhões que se dizem meus seguidores, mas que na verdade seguem somente seus próprios desejos, e usam o meu nome em suas bocas, mas não em seus corações, e assim segue o mundo, cada vez mais longe da verdade e de mim, De mim também, completou o observador, antigamente eu era temido, odiado, mas lembrado, hoje o meu papel foi relegado a ser uma superstição antiga, caduca, impotente, que só serve para justificar os erros cometidos pelos que, de tão parca inteligência, não são capazes de arrumar bodes expiatórios melhores que eu, isso quando têm vergonha suficiente para usarem os pobres bodes, E pensar que o bode que já fora o teu símbolo de poder agora é o teu símbolo de chacota, E pensar, O visitante sentou-se ao lado do observador que, depois de contemplar brevemente um urubu próximo que dava um voo rasante, disse, A última vez que nos encontramos foi quando não fazias tanto sucesso literário, lembras, Sim, lembro, mas depois daqueles dias voltei duas ou três vezes e percebi que tu sempre havias saído a percorrer a Terra e andar nela, Tenho de admitir que estavas bravo consigo, por isso não te esperei, E por quê ficastes bravo comigo, Tu não cumpristes o prometido, Qual prometido, O de não falares de mim aos teus discípulos. Quando eles vincularam o meu nome a três tolas tentações, eu fui obrigado a rir sozinho enquanto lia absurdamente que tinhas te tentado pela fome, depois de tu teres jejuado por quarenta dias, ora, quem jejua por quarenta dias jejuas por quarenta e um, e depois disseram que eu te pedi para pulares do parapeito do templo, logo tu, que podias andar sobre as águas e subir aos céus entre as nuvens, e, por fim, acusaram-me de oferecer-lhe todos os reinos do mundo para governares em troca de um ato de adoração, sendo que eles mesmos escreveram que todos estes reinos e os anteriores a eles, e os homens, e a Terra, tudo e todos que existem, foram criados por ti. Faça-me o favor, uma história como esta, cheia de falhas de coerência e verossimilhança, até eu, se fosse escritor, pensaria em argumentos melhores e mais realistas para dar coesão à cena, Peço que me desculpes, mas não tive nada a ver com isso, tu bem sabes que não escrevi nada e nunca pedi para que os meus discípulos escrevessem, mas sabes como são as crianças, basta os pais saírem para que se façam as maiores algazarras, sendo inevitável inventarem, acrescentarem, aumentarem e interpretarem tudo o que eu disse e fiz e, principalmente, tudo o que eu não disse e não fiz. Se, contudo, serve de consolo para ti, eles também escreveram muita coisa sobre mim que não aprovei, O observador levantou-se e foi até o interior da caverna, como que procurando por algo, E pensar que quando conversei com Moisés, neste mesmo deserto, ele jejuando por 40 dias, igual a ti, fiz-lhe o mesmo pedido, que não contasses nada sobre mim e ele, ao encarar a multidão que lá embaixo o esperava voltar de mãos abanando, com o medo proporcional ao tamanho de sua imaginação, saiu-se com a história mais mirabolante da vida dele, que eu tinha lhe dado dez tábuas escritas em pedra, só para depois quebrá-las ao chão simulando um ataque histérico de raiva, convenientemente antes que alguém tivesse a oportunidade de lê-las, só para, por fim, ter a total liberdade de sair matando seus patrícios que naquele exacto momento desobedeciam o primeiro e segundo mandamentos que nem sequer sabiam que existia, O visitante, com um gesto afirmativo, acenou com a cabeça, Soube desta história, e que o ingrato nem tivera a honra de citar as fontes originais sumérias e egípcias que estudara quando era príncipe real no Egipto, O coitado do Hamurabi perdeu os direitos autorais por um bom tempo, Mas pensando bem, teve um que não te desapontou, Elias não escreveu nada nocivo depois dos 40 dias que jejuou contigo, Claro que não, aquele era completamente pirado, um escritor barato de autoajuda que limitou-se a plagiar Moisés descaradamente, deve ter pensado que escritor que plagia escritor que plagia tem cem anos de perdão, mas para ele tudo se resumia a efeitos especiais, era fogo aqui, era fumaça acolá, eram trovões por toda parte, daria um belo director de filmes sobre catástrofes, o velho careca. Mas não posso culpar-te como a eles, afinal, escreveram sobre eles mesmos, foram seus autobiógrafos, e incluíram a nós na história apenas para torná-la mais vendável.

O observador voltou da escuridão da caverna com o livro em mãos, desgastado, grosso, com a capa preta e letras doiradas, e o entregou ao visitante, junto com uma caneta, Já faz um tempo que queria te pedir um autógrafo, Mas não fui eu quem a escrevi, Deixe de modéstia, sabemos que aqueles ghost writers não teriam inspiração nenhuma sozinhos, Mas você não ficou bravo, No começo sim, mas depois que me vi nas listas dos mais vendidos de todos os tempos fiquei com um certo orgulho bobo, É, tu tens razão, apesar dos pesares somos os protagonistas desta história, Enquanto ela ainda for lida, sim, mas a tendência será as pessoas nos confundirem cada vez mais, até não conseguirem distinguir a própria direita da esquerda, Ou nos esquecerem, Ou o mais óbvio, nos trocarem por outros sem ao menos tomar consciência do que queríamos que aprendessem, que não existe o bem e o mal em si, mas apenas pontos de vista pessoais que transformam coisas e pessoas em boas ou más, Isso mesmo, meu irmão, você está certo, é por isso que me faz bem conversar consigo, É, somos os únicos que nos compreendem de verdade.

Este texto é uma homenagem a um dos meus escritores favoritos. Se você não faz ideia de quem seja, então não sabe o que está perdendo. Também marca a minha estreia como duelista no Duelo de Escritores, em que o tema proposto em 01.05.2010 foi "Solidão a dois".

Destaques da 17ª semana de 2010

1. As reportagens investigativas impagáveis do blog Imprensa Marrom sobre a pré-campanha da Dilma Rousseff e do PT.

2. Weburbano, um blog para jornalistas e para quem tem massa encefálica. Detaque para as propagandas estrangeiras violentas contra velocidade e bebida no trânsito.

3. O site HootSuite é um cliente para Twitter e outras mídias sociais. Já o Migre.me reduz o tamanho de links para apenas alguns caracteres, sendo excelente ao enviar url's por Twitter, blog ou email.

Fica comigo esta noite (2006)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(Tabacaria, Fernando Pessoa)

Como uma pessoa pode ter coragem se não tiver medo primeiro.

Compreender é esquecer de amar. (Pessoa)

Quando a gente gosta é claro que a gente cuida. (Peninha)

Quem tem uma história secreta costuma ter duas caras.

Não existem amores perfeitos, existem amantes acomodados. (Pessoa)


Sinopse: Edu (Vladimir Brichta) e Laura (Alinne Moraes) se conheceram ainda jovens. Apaixonados, decidiram se casar e, anos mais tarde, passaram a viver uma crise no casamento. Em meio às turbulências no relacionamento Edu, repentinamente, morre. Decidido a se despedir de Laura de qualquer forma e querendo saber qual era o segredo que ela iria lhe contar pouco antes de morrer, Edu passa a buscar um meio de se comunicar com ela. Só que o único ser que podia ajudá-lo era o fantasma do coração de pedra (Gustavo Falcão), uma assombração experiente que detesta a companhia de outras pessoas.