Pep Talk 2008: Jonathan Stroud

Introdução

O QG do NaNoWrimo presenteou os participantes em 2008 com 9 mensagens de escritores consagrados, os famosos Pep Talks ("conversas estimulantes" ou orientações da equipe de apoio para que um concorrente se saia bem na disputa), com dicas para vencer obstáculos na escrita, abusando da criatividade e profissionalismo para levantar o astral dos aspirantes a escritor. O ebook com os Pep Talks de seis anos anteriores - 80 páginas em PDF - é vendido no site do NaNoWrimo mas, como participei (e venci) este ano, vou traduzir e postar todas que recebi. Os posts serão em dezembro, nos mesmos dias em que foram enviadas por email, originalmente, em novembro. Como não sou tradutor profissional, apesar da boa intenção e esmero, podem aparecer erros e agradeço a quem sugerir correções. A ordem dos Pep Talks será:
  1. Jonathan Stroud (dia 5)
  2. Philip Pullman (dia 7)
  3. Katherine Paterson (dia 12)
  4. Meg Cabot (dia 14)
  5. Janet Fitch (dia 20)
  6. Gayle Brandeis (dia 22)
  7. Nancy Etchemendy (dia 25)
  8. Piers Anthony (dia 30)
  9. Kelley Armstrong (dia 3 - post-event)

Tradução (por Jefferson Luiz Maleski)

Caro autor NaNoWriMo,

Você pode escrever um romance sobre o ato de escrever um romance. É um ato heróico. (Eu me pergunto como posso me sentar em minha sala, roendo unhas, assoando o nariz e olhando sem expressão para a tela. E respondo o que é isso: é um ato heróico.) E por que é heróico? Porque se encaixa no padrão de todas as grandes vidas míticas dos heróis lendários. É a história de uma poderosa busca de aceite, de uma longa viagem realizada, da superação de obstáculos insuperáveis e, finalmente, no seu caso, após 30 dias penosos, de ganhar o triunfo duradouro. Daria um filme agradável, fora a parte do assoar o nariz, provavelmente estrelado por Charlton Heston. Cheio de altos dramáticos, baixos terríveis e tédio infindável quando a platéia sai para tomar um chá. É um épico, tudo bem, e estamos todos juntos.

É assim que funciona comigo. No início há uma espécie de lua-de-mel, onde estou bastante animado com a idéia na minha cabeça e as possibilidades que ela evoca. Tenho certeza de que há um zilhão de detalhes a serem trabalhados mais tarde, e muitas coisas que ainda não combinam, mas tudo está bem, temos muito tempo. Eu escrevo um trecho diferente e o apimento ocasionamente com uma piada. Faço um pouco de pesquisa, visito museus vestindo blusas negras gola rolê, rabisco idéias em guardanapos de lanchonetes. É uma calmaria agradável antes da tempestade.

Então as coisas escurecem um pouco. O tempo tem pressa. Eu gostaria de me familiarizar com o romance, mas não tenho a menor idéia de como. É o período da 'guerra de mentira'. Agora me dedico a sério ao trabalho, mas o problema é que ele não é um todo. As cenas começam promissoras mas acabam em nada. Os personagens principais tem o sabor de uma caixa de papelão abandonada na chuva. O diálogo é péssimo. As descrições são paredes de lugares-comuns. Nenhum trecho dura mais de duas ou três páginas antes de ser impresso e jogado fora. A verdadeira escrita ainda nem começou.

De fato, sem algumas regras para derrubar estas coisas, é bem possível que estes dois períodos durassem eternamente. Lua-de-mel e guerra de mentira: um deles é alegre, o outro é frustrante, mas ambos são igualmente mortais para as esperanças de qualquer romance. O autor poderia facilmente ficar rabiscando, retornando e revisando eternamente. O ato heróico se deteriora em um cachorro perseguindo o rabo.

É por isso que uma data limite - como a que você está enfrentando - é uma boa idéia.

Em minha trilogia Bartimaeus eu tive uma grande gordura para escrever um romance a cada ano, por três anos seguidos. Um romance por ano? Isso não é tão difícil. Era o que eu pensava. Então descobri que com o tempo necessário editando e revisando o meu manuscrito, e depois imprimindo e distribuindo, na verdade eu teria cinco ou seis meses para terminar o projeto. E não muito tempo antes eu estava atolado na guerra de mentira, com muitos fragmentos, meias idéias e desperdiçando semanas atrás de mim, e olhando para o meu ameaçador prazo limite.

Então, fiz exatamente o mesmo que você está fazendo neste novembro, me impus um rigoroso cronograma de páginas por semana para conseguir alcançar o primeiro projeto. No meu caso funcionou, com cerca de 100 páginas mensais por 3 ou 4 meses. Todo dia eu mantinha um registro rigoroso do que eu conseguia; a cada dia eu me aproximava um pouco da minha meta. O meu objetivo era cinco páginas de trabalho por dia e que, às vezes, fazia com facilidade. Outras vezes, fazia deploravelmente menos. Em alguns dias, estava feliz com o que tinha começado; em outros, mal podia acreditar no que colocava na página. Mas qualidade não era a questão. A qualidade poderia esperar. Não era hora para a revisão. Era hora para o romance ser arrastado, chutando e gritando, para a existência, o que significava acumular páginas.

E eu fiz isso, uma página por vez, mesmo quando era igual a arrancar um dente ou tirar sangue de pedra. Mas consegui. E você também pode.

Além disso, é apenas o primeiro projeto. Não precisa ser perfeito. Certa vez, conheci uma autora que afirmou escrever só quando estava inspirada. Ela era uma escritora excelente e respeitada, então fiquei boquiaberto na sua frente, mas não lhe dei razão, e continuo a não dar hoje. Se a "inspiração" ocorre só quando as palavras aparecem, caindo cada uma corretamente na página, fui inspirado uma vez em dez anos. O resto do tempo que passei completando os meus sete romances foram de um esforço relativamente árduo. Você escreve, completa o projeto no período que tem, você descansa. Então, mais tarde, quando estiver um pouco recuperado, você o lê novamente e revisa. E por aí vai. E, pouco a pouco, o que começou como uma pilha de fragmentos, um embaralhado de idéias presas na sua cabeça, toma forma própria e identidade, e torna-se uma entidade viva, separada de você.

Conseguir terminar o primeiro projeto é um trabalho terrivelmente árduo, mas (perversamente) é onde está a alegria. Não há nada melhor para mim, nada mais satisfatório em todo o processo de produzir um livro, que a sensação, no final de cada dia - bom ou mal, produtivo ou improdutivo - quando eu olho e vejo uma pequena e frágil pilha de páginas escritas que não estavam ali naquela manhã. Poucas horas antes elas não existiam. E agora existem. De um jeito estranho, é mais emocionante que quando estou segurando o livro terminado e impresso nas minhas mãos. É onde mora a magia. Os alquimistas tentaram por séculos transformar metais em ouro. Sempre que sentamos e colocamos as palavras no papel, temos êxito onde eles falharam. Estamos invocando algo a partir do nada.

Então, a que se resume o meu conselho? Transpire sangue, produza páginas, ignore a depressão, saboreie os momentos em que as palavras incendeiam. Boa sorte com os seus romances. Aqueles heróis antigos e lendários podem não terem tido um descanso como nós, para beberem café gelado e baterem continuamente em seus teclados, mas para eles - e para nós - é a jornada que importa. É onde está a diversão.

Jonathan

Jonathan Stroud é o autor da Trilogia Bartimaeus. Saiba mais sobre ele e sua obra em seu website.

Leia também o texto original em inglês.
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