Beringela ou berinjela?

O que você me diz do vocábulo beringela (dic. Houaiss) ou berinjela (dic. Aurélio)... Gilmar Saint Clair Ribeiro, Itatiba/SP

É exatamente isto: tanto se vê dicionarizada a grafia berinjela (tb. no dic. Francisco Borba) quanto beringela (tb. no dic. Laudelino Freire), que o revisor ortográfico insiste em arrumar. O Houaiss registra a variante com j, mas prefere com g em vista do uso histórico, esclarecendo ainda que em Portugal escreve-se apenas beringela.

É compreensível a vacilação, uma vez que a transcrição da pronúncia árabe foi feita, ao longo dos tempos, de diversas maneiras, pelo fato de j e g representarem o mesmo fonema. Recebemos a palavra através do espanhol, que Antenor Nascentes (Dicionário Etimológico) registra como "berengena" e outros dois como "berenjena" (um traduz por berinjela e outro por beringela). Apesar de o VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa 2009 trazer só a grafia berinjela, ambas as formas devem ser aceitas pelos professores.

Fonte: Não tropece na língua nº 257

A mula e a santa

“Ô calor desgraçado este”, praguejou o peão enquanto tirava o chapéu e limpava o suor da testa com a palma da mão. “Olha o linguajar, Ditinho, respeita a presença de Donana”, repreendeu o capataz. “Desculpa, sinhá, eu não quis lhe ofender. É que escapou”. A dama sorriu e com a autoridade que somente ela e o capataz detinham, respondeu “Está desculpado, Benedito. Mas você tem razão quanto ao calor. Belarmino, vamos parar a comitiva no Córrego das Antas, para a tropa poder se refrescar antes de prosseguirmos viagem”.

A comitiva era formada de peões, várias mulas, três carroças e levava os pertences da fazendeira Ana das Dores de volta para casa. Era uma viagem longa, em meio a uma terra de mata fechada e calor insuportável. Mas dona Ana, ou Donana para os conhecidos, era generosa. Por isso, todos obedeceram imediatamente as suas ordens e desceram rumo ao riacho. Lugar de pouso das caravanas que vinham e iam, era um refrigério em meio às longas distâncias do sertão. Uma dezena de casas pipocavam aqui e ali, algumas oferecendo refeições aos viajantes, outras apenas boas conversas. Até mesmo viajantes franceses, exploradores por natureza, já haviam se hospedado nas redondezas e apreciado as belezas da região. Quando deu a hora de partir, Donana estranhou a falta de uma das mulas. Não que a dama fosse detalhista, mas era a mula que carregava uma carga especial. “Onde foi parar a minha santinha?”. Todos ficaram aflitos. Sumira o item mais precioso da comitiva. E o lugar era demasiado novo e pouco habitado para já haver ladrões de mulas ou de santas. Não tinham nem se demorado uma hora lavando-se, abastecendo os cantis e dando de beber as montarias. As buscas seguiram o dia todo enquanto o sol e o calor baixavam. Só a tardinha é que foram encontrar a mula parada em um descampado, empacada e com a mala atada no lombo. Os homens tentaram mexer a mula e nada. Descobriram que era a imagem que pesava grandemente. Donana observou os esforços dos peões e religiosa que era, viu sinal divino naquele fato. “Ó minha santa, entendo os teus presságios e percebo que tu gostastes deste lugar. Por isso eu prometo, neste dia, perante todos os meus empregados e os moradores da localidade, que assim que for construída uma capela na região, eu doarei a sua imagem para aqui residir, conforme a sua vontade”. Milagrosamente, a mula desempacou. A mala pareceu voltar ao peso normal e pode ser carregada tranquilamente.

A promessa de Donana se cumpriu somente 11 anos depois, quando o seu filho mudou-se para lá e ajudou no desenvolvimento da vila e na construção da igreja. Cento e cinquenta anos se passaram desde aquela tarde no vilarejo de Santana das Antas, hoje Anápolis, que em grego significa “cidade de Ana”, não se sabe ao certo se por causa de Donana ou de Sant’Ana ou de ambas, mas o fato é que a imagem é vista até hoje na maior e mais antiga igreja da cidade, construída no exato local em que a mulinha empacara.

Texto-desafio escrito para o Duelo de Escritores de 21.01.2011, sob o tema "cidade".

Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá


Lewis Carroll escreveu dois livros sobre Alice: o famoso Alice no País das Maravilhas (1865) e o Através do Espelho (1871). Levou aproximadamente seis anos entre a publicação de um e outro, e esta diferença aparece no estilo dos dois livros. O primeiro realmente deixa a impressão de ser a uma compilação escrita das histórias que Carroll contava de improviso para as irmãs Liddell (Lorina, Edith e Alice). Já no Espelho, a estrutura parece mudar, fica mais madura, os parágrafos mais longos e mais explicativos, como se as garotinhas já não fossem tão meninas assim e a escrita de Carroll tivesse de evoluir e se adaptar à nova idade de suas fãs. Mas o resultado não decepciona, pelo contrário, mantém o mesmo efeito do primeiro, consegue maravilhar os mais jovens e entreter os já não tão jovens assim.

Só que desta vez Alice não cai na toca do coelho e sim atravessa o espelho, em um mundo com muitas coisas ao contrário. É impossível não se lembrar das referências que o filme Matrix (1999) faz a ambos os livros. Só que, enquanto Alice sai do mundo real para um mundo de fantasia, em Matrix, Neo precisa fazer o caminho inverso. Por isso, quando ele aceita a pílula vermelha que Morfeus lhe oferece, não é Neo quem entra no espelho, é o espelho que entra nele (veja a cena no Youtube). Outro detalhe é que no primeiro livro, o autor usa o baralho de cartas e o jogo de croqué e no segundo o jogo é o xadrez. Parece que Carroll baseou-se nos jogos que as crianças costumavam brincar naquela época. Segue-se a leitura como se presenciasse um jogo de xadrez, e até o sumário traz como títulos os nomes das jogadas (“Alice passa à 6ª casa da Rainha”, “Cavaleiro V. passa à 2ª casa do Rei (xeque)” etc.) antes dos títulos propriamente dos capítulos.

Porém, somente no segundo livro são apresentadas algumas das personagens mais memoráveis em toda a literatura infanto-juvenil: as rainhas branca e vermelha, os gêmeos Tweedledum e Tweedledee e o experto Humpty Dumpty. Mas até mesmo os personagens secundários mostram-se complexos, ou seja, foram bem trabalhados em sua composição, como as flores e árvore do jardim, e as comidas do banquete final (o pudim me rendeu uma gargalhada espontânea). Mas para se aproveitar o brilho da história deve-se procurar uma tradução que tenha o mérito de tornar de fácil leitura um livro complicado de traduzir, pois é repleto de jogos entre palavras, que certamente fazem sentido em uma língua, mas não em outra. E a tradução da editora Jorge Zahar é feliz e consegue alcançar bom êxito nesta empreitada.

Mas qual será a moral da história em se tratando de Alice? Poderíamos formular diversas, ou então nenhuma, dizendo que Carroll simplesmente não seguiu as regrinhas para escrever livros infanto-juvenis que hoje são obrigatórias para os que se arriscam como escritores para crianças. Independente da opinião pessoal e, portanto, subjetiva, de cada leitor, encontrei uma das mais famosas interpretações, dada pela banda psicodélica Jefferson Airplane (que não sei porque gosto tanto do nome, :P ) na música White Rabbit, e que se tornou um dos lemas do movimento hippie nos anos 70. Abaixo posto o vídeoclipe, a letra e a tradução. Se bem que a música também pode ser interpretada de inúmeras formas diferentes. Bem ao estilo dos livros de Lewis Carroll.



WHITE RABBIT
Jefferson Airplane - Composição: Grace Slick

One pill makes you larger
And one pill makes you small
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all.
Go ask Alice
When she's ten feet tall

And if you go chasing rabbits
And you know you're going to fall
Tell 'em a hookah-smoking caterpillar
Has given you the call
Call Alice
When she was just small

When the men on the chessboard
Get up and tell you where to go
And you've just had some kind of mushroom
And your mind is moving low
Go ask Alice
I think she'll know

When logic and proportion
Have fallen sloppy dead
And the White Knight is talking backwards
And the Red Queen is "off with her head!"
Remember what the dormouse said:
"Feed your head
Feed your head
Feed your head"



COELHO BRANCO
tradução

Uma pílula deixa você grande
E uma pílula deixa você pequeno
E aquelas que a sua mãe lhe dá
Não fazem efeito algum.
Pergunte à Alice
Quando ela estiver alta

E se você for caçar coelhos,
E souber que irá falhar,
Mostre a eles que uma lagarta fumando "Narguilé"
Tem feito o chamado para você.
Chame a Alice
Quando ela estiver apenas pequena.

Quando os homens no tabuleiro de xadrez
Levantarem e lhe disserem onde ir,
E você consumira há pouco um tipo de cogumelo
E sua mente estiver movendo-se lentamente,
Pergunte à Alice;
Eu acho que ela saberá.

Quando lógica e proporção
Tiverem caído por terra
E o Cavaleiro Branco estiver falando ao contrário
E a rainha vermelha "corte a cabeça dela!"
Lembre-se o que o rato silvestre disse:
"Alimente sua cabeça
Alimente sua cabeça
Alimente sua cabeça"

A promessa


O ar noturno era de festa. A festa. Aquela mais aguardada dos últimos meses. O baile de debutantes anual da alta sociedade da cidade. Um evento que muitos desejavam ir, mas somente poucos escolhidos teriam o prazer. Vários carros, alguns próprios, outros alugados, entravam no estacionamento do clube, após passarem pela guarita em que os seguranças verificavam os convites. Do lado de fora do clube, via-se, após um declive acentuado de algumas centenas de metros, o hall de entrada decorado para receber princesas, pais, parentes e demais convivas. E era esta a visão que um jovem tinha enquanto argumentava com um dos seguranças.

- Por favor, moço, me deixa entrar. Eu já te falei, o meu convite foi roubado.

- Calma, rapaz, eu já chamei o chefe dos seguranças pelo walkie-talkie e ele já deve estar chegando aqui para resolver o seu problema.

O segurança até estava propenso a acreditar na história que o garoto lhe contou. Um rapaz mais velho da escola, seu adversário na disputa pelo coração de uma das debutantes da festa, ao saber que ele havia sido convidado o abordou com um grupo de rapazes e tomou-lhe o convite. O garoto parecia sincero na sua angústia. E estava vestido a rigor. Eram fortes indícios de que ele não era mais um dos penetras querendo entrar sem convite. Mas não cabia ao segurança julgar. Problemas assim eram com o chefe da segurança e com a organização do evento.

Após incontáveis minutos, o chefe da segurança aparece e conversa com o segurança distante alguns metros, apontando para o garoto de olhar desanimado. Deve ter feito um resumo rápido das explicações obtidas. O homem se aproxima do jovem com uma prancheta em mãos, e após pedir o seu nome verifica se este consta na lista.

- Qual é o nome da debutante que lhe convidou?

- Manuela. Manuela Bourbon Gonçalves.

- Bem, deixa eu te explicar uma coisa. Existem dois tipos de convites, os pessoais e os individuais. Os pessoais eu possuo o nome aqui e mesmo que alguém apareça sem o convite eu posso deixar entrar. Os individuais não, perdeu dançou. E me parece que o seu é individual, já que seu nome não consta aqui como convidados pessoais da senhorita Manuela.

- Mas tem como o senhor chamar ela até aqui? Ela poderia confirmar que me convidou.

- Você já tentou ligar no celular dela?

- Já, mas está desligado.

- Neste caso, me desculpe, mas não posso fazer nada por você. São ordens expressas da organização que ninguém entre sem convite.

O clube era um lugar afastado da cidade e de acesso difícil. Para chegar até ele, só de carro ou táxi. E naquela noite, em especial, costumava-se formar um pequeno congestionamento nas vias que davam acesso a entrada. E a tráfego estava caótico devido a um acidente na rodovia envolvendo um caminhão, que deixara o trânsito mais lento que o costumeiro. Enfim, era um trajeto de pelo menos uma hora até ali, embora não fosse distante.

O jovem lamentou ter demorado a chegar. Se tivesse vindo mais cedo, poderia ser visto pela Manuela quando esta entrasse no clube. Lamentou também ter dispensado a carona do pai antes de verificar se conseguiria entrar. Mas daí teria de explicar porque não tinha o convite e essa humilhação de admitir ser fraco para o seu próprio pai ele não iria passar. Nem que tivesse de passar a noite toda ali fora até o horário em que o pai lhe buscaria, fingindo ter se divertido quando o reencontrasse. Outra ideia lhe passou pela cabeça, a de entrar no clube sem convite. Mas teria de ser por um local menos visível aos seguranças. Resolveu dar uma volta para analisar as possibilidades. Os muros eram de pedra, com trepadeiras e musgos crescendo neles. Escalar não seria difícil, mas provavelmente teria algum segurança vigiando do lado de dentro. Ser pego pulando o muro anularia todas as chances de entrar no baile. Mesmo assim, era preciso tentar.

Ele precisava entrar. Precisava dançar ao menos uma música com Manuela. Era a dança que ela havia lhe prometido ao entregar o convite. Pelo que o rapaz sabia, só ele tinha sido convidado. Nem mesmo o outro, que lhe roubara o convite, tivera esse privilégio. Isto significava que ela o considerava especial para aquela noite especial. Por isso, se ele faltasse naquela noite especial para Manuela, poderia esquecer suas chances de algo com ela. E o pior, aquele cafajeste iria ficar no pé dela a noite toda, até conseguir algo.

Provavelmente já estava lá dentro, conversando com ela. Ou dançando. Ou beijando. Não, era demais pensar nisso. Ele precisava entrar, de qualquer jeito. A sua dança com Manuela não seria adiada.

Ladeou o muro até chegar a divisa com uma cerca, em um ponto afastado e escuro. O seu coração batia pela adrenalina. Manuela seria dele esta noite. Escalou a cerca, depois o muro e, após verificar que ninguém o observava, pulou para dentro. As batidas do seu coração só aceleraram mais quando alguém lhe deu algumas batidinhas no ombro. Havia pulado bem na frente de um dos seguranças, que do alto do muro não estava visível. Tentou argumentar, explicar a sua situação, mas nada. Chorava copiosamente. O brutamontes surdo e sem coração levou-o pelo colarinho até a entrada, avisando pelo comunicador que pegara seu primeiro espertinho da noite. Os olhares dos seguranças na portaria iluminada confirmavam a sua suspeita: ali ele não entraria mais, mesmo se arrumasse um novo convite.

Novamente em seu local de origem, com pensamentos de vergonha e raiva brigando em sua mente, não percebeu que havia alguém parado ao seu lado.

- Oi, você acabou sendo pego, não é?

Olhou para o lado e viu outro garoto, menor do que ele, usando uma jaqueta de couro e encostado em uma motocicleta. O rosto dele era estranhamente familiar. Poderia ser algum colega de escola? Poderia. Só não se lembrava de onde o conhecia.

- O seu problema foi que você nunca entrou nesse clube antes, então não o conhece por dentro. Por outro lado, eu sei como entrar e posso te ajudar. Quer dizer, isso se realmente for importante para você entrar.

- É a coisa mais importante da minha vida. Você faria isso por mim?

- É claro que tem um custo. Afinal, eu vim aqui essa noite só para poder lucrar algum.

- E o que você quer?

- Aquilo de mais valioso que você tenha contigo aí.

O jovem não havia trazido dinheiro. Tinha o relógio, o terno, o celular, os sapatos. Daria qualquer coisa para poder entrar. Dançar com Manuela valia isso. Enumerou tudo o que tinha para o baixinho que, após pensar um pouco, chegou a uma conclusão.

- Não, nada me interessa, mas você tem algo que eu sempre quis. A sua alma. Mas não precisa entregar agora, posso pegar ela na saída. Pode usá-la enquanto estiver dentro do baile.

- Como assim?

- Você quer ou não quer entrar? Daria ou não qualquer coisa para estar lá dentro agora? Eu não tenho tempo a perder, ou me dá o que eu quero ou chega de papo.

Um frio subiu pela coluna do rapaz. Mas a sua mente afastou aquela sensação ridícula. Aquele menino mais baixo não poderia estar falando sério. Ele queria apenas ver a sua reação diante daquele pedido inusitado. Resolveu aceitar, afinal não tinha nada a perder e, provavelmente, na saída ele lhe diria o que realmente queria. Aceitou e selou o acordo com um aperto de mão. A mão e o sorriso do garoto estavam gelados. Mas foi só apertá-la que ele levantou-se e pediu para segui-lo. Andaram na direção oposta a que o rapaz havia ido anteriormente. Após se afastarem suficientemente da entrada, o garoto entrou em um mato e começou a tirar alguns galhos jogados no chão. Embaixo deles havia um alçapão de madeira, que se abriu assim que ele o puxou. Viam-se os primeiros degraus de uma escada de pedras úmida e escura.

- Vamos entrar e assim que eu fechar o alçapão, eu acendo o meu isqueiro, para iluminar o caminho sem os guardas nos verem, ok?

A escada terminava em um longo corredor em declive. Na escuridão, parecia um corredor interminável. Andaram. Andaram. Andaram. Até que o som de música começou a ser ouvido. Era música de baile. Chegaram até uma porta de ferro, que estava apenas encostada. Saíram em um mezanino, ao lado das portas que conduzia para o salão de festas. Não havia seguranças à vista. O garoto disse que o esperaria ali.
O baile já havia começado. No palco, um cover tocava e dançava músicas do Elvis Presley. Haviam luzes e pessoas por todos os lados. Mas o rapaz procurava só por Manuela. Pareceu passar por alguns rostos conhecidos, mas não eram da escola. Apesar da festa, estavam todos com os semblantes sérios. Procurou pela garota em todos os cantos, mas só a viu depois de algum tempo, na porta dos toaletes. O seu coração brilhou ao vê-la tão bonita.

- Oi, Manu. Desculpe o atraso, depois te explico o trabalhão que deu para eu chegar até aqui. Mas, uau, você está linda!

- Ah, oi. Eu estou um pouco tonta. Acho que acabei de chegar também. Mas tenho de me limpar, alguém sujou o meu vestido.

Ao olhar para baixo, viu que o vestido dela estava manchado de sangue. Muito sangue. A princípio pensou que fosse algum detalhe original da roupa ou enfeite. Mas agora pegou-se preocupado com aquilo.

- O que aconteceu , Manu?

- Eu não me lembro. A última coisa que lembro foi de estar vindo para o baile com meus pais e um caminhão na rodovia quase nos jogar para fora da pista. Eu cheguei até a sentir as luzes do farol dele pertinho de nós. Acho que devo ter ficado em estado de choque, pois só lembro de já estar aqui.

O rapaz lembrou, em um flash, ter visto os bombeiros resgatando um carro que havia caído na ribanceira. Em um acidente envolvendo um caminhão. Havia um carro no meio do mato. Havia uma moça de vestido sendo socorrida. Ele não quis olhar muito porque havia sangue.

- Manu.

- O quê?

- Você prometeu uma dança comigo, lembra?

Texto desafio proposto no Duelo de Escritores de 11.01.2011, com o tema baile de debutantes e gênero fantasia.

Secretariat (2010)



Sinopse: A dona de casa e mãe Penny Chenery (Diane Lane) não entendia nada de corrida de cavalos, uma área dominada até então por homens. Mas ela assumiu o controle do estábulo de seu pai doente e com a ajuda de um treinador veterano (John Malkovich), contra todas as probalidades negativas, acabou fazendo o primeiro vencedor da Trípice Coroa em 25 anos de história do esporte, em 1973. Baseado em fatos reais.

"Há mais de 3000 anos, um homem chamado Jó queixa-se para Deus de seus problemas. E a Bíblia nos conta que Deus respondeu:

Você deu a força que os cavalos têm?
Ou cobriu seus pescoços com um crina vertente?
Ou os fez pular como gafanhotos,
espalhando medo com seu relinchar?
Sapateando ferozmente,
regozijando em sua força
e correr em rixas.
Ele zomba do medo, sem medo de nada.
Não se intimida diante de uma espada.
O tremor bate a seu lado,
juntamente com o brilhante arco e flecha.
Numa frenética excitação consome a terra.
Ainda assim, não poderá ficar
imóvel ao soar das trombetas."


Destaques da 2ª semana de 2011

1. Começo pelas notícias dos lançamentos de duas novas traduções de clássicos: "Peter Pan - Peter e Wendy seguido de Peter Pan em Kensington Gardens", de J.M. Barrie (L&PM Editores, 2010), que estará à venda a partir do próximo dia 20, conforme retorno da editora. Posso dizer que este livro foi a minha primeira leitura na infância escolhida por vontade própria, e me marcou muito, positivamente. E Ulisses, de James Joyce (Penguin-Companhia, 2012) foi anunciada pelo twitter da editora, com tradução de Caetano Waldrigues Galindo e coordenação editorial de Paulo Henriques Britto. A obra, que já estava presente na minha lista de futuras leituras há algum tempo, foi postergada para o ano que vem, afinal, tradução nova é sempre outro papo.

2. Para quem tem pelo menos duas tias fãs de Patrick Swayze e neuróticas pelo filme Dirty Dancing (1987), como eu tenho, ou se simplesmente procura uma boa comédia alternativa para o fim de semana, a recomendação vai para o francês L'arnacoeur (2010), ou em inglês Heartbreaker, que faz muitas referências ao primeiro filme. Além de ser uma ótima comédia, vale a pena conferir como é a atuação da atriz-cantora-senhora-Johnny-Depp de dentinhos separados, a francesa Vanessa Paradis. Confira o trailer (em inglês).

3. Dentre as leituras internéticas interessantes que fiz na semana destaco os artigos sobre a Geração Emo da Revista Época e do blogue DHAL. Eu nem sabia que essa nova geração tinha esse nome, mas isso explica muita coisa, como o sucesso incompreensível (pra mim, pelo menos) do grupo Restart. Outra leitura interessante é do site Cérebro Melhor, com algumas resoluções para que em 2011 você tenha um cérebro mais ativo e saudável.

4. A indicação de música vai para a versão original de Love Buzz, da banda Shocking Blue, dos anos 60. Apesar da música ser mais conhecida pela versão do Nirvana, vale a pena dar uma de retrô e conferir as origens. Há também uma versão techno dela, bem como uma brazuca, interpretada pela Pitty, entre inúmeras outras. Aliás, outra música da Shocking Blue que é mais conhecida na versão adaptada que na original é Venus, recantada nos anos 80 pelo grupo feminino Bananarama.


Love Buzz
Shocking Blue - Composição: Robby VanLeeuwen

Would you believe me when i tell you
you are the queen of my heart
please don't deceive me when i hurt you
just ain't the way it seems

Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?

Would you believe me when i tell you
you are the queen of my heart
please don't deceive me when i hurt you
just ain't the way it seems

Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?
Can you feel my love buzz?


Zumbido De Amor
Tradução

Você acredita quando eu digo que
Você é a rainha do meu coração
Por favor, não me engane se eu te ferir
Porque não é o que parece

Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?

Você acredita quando eu digo que
Você é a rainha do meu coração
Por favor, não me engane se eu te ferir
Porque não é o que parece

Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?
Você pode sentir meu zumbido de amor?

Homem, o melhor amigo cachorro

Chienne d'histoire (Cães ilhados)
Realizado por: Serge Avédikian
Gênero: Animação
Duração: 00:15:00
Ano de produção: 2010

Sinopse: Constantinopla, 1910. Tem vira-lata demais vagabundeando nas ruas da cidade. O governo recém-empossado, influenciado por um modelo de sociedade ocidental, consulta peritos europeus sobre os meios para se livrar destes cachorros todos, e acaba decidindo sozinho deportar trinta mil cães para um ilha deserta ao largo da cidade. Através do duplo olhar de uma cadela que acaba de parir e do policial que a prende, segue-se o exílio forçado destes cães cuja maioria vai morrer de fome e de sede.

Jeito barato de incentivar a leitura

Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Se você usar um óculos com lentes azuis, verá todo o mundo azul. Se trocar por lentes vermelhas, acontecerá a mesma coisa, e assim por diante. Digo isso pois foi exatamente o que pensei após ler Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Jorge Zahar Ed., 2009). A primeira leitura que fiz do clássico de Lewis Carroll em 2009 foi bastante confusa, como pode ser notada pela resenha que fiz na época. Agora acredito que muito desta confusão se deu por causa da edição traduzida pela Rosaura Enchemberg (L&PM Pocket, 1999) que li na primeira vez, que apesar de não ser tão antiga, atrapalhou a minha fluidez e entendimento da leitura. Maria Luiza Borges é quem assina a tradução da edição de bolso da Zahar, que venceu o Prêmio Jabuti como Melhor Tradução em 2009, e que comprei aproveitando uma superpromoção na internet. Percebi que foi um bom negócio. A edição, apesar de ser de bolso, tem capa dura e é graficamente perfeita. Inclui os desenhos originais de John Tenniel, ilustrador famoso que chegou até mesmo a influenciar Carroll solicitando a retirada de um capítulo do livro Alice através do Espelho. A Zahar fez bem em lançar duas versões do clássico: uma simples (a que li) com preço mais em conta, mas com acabamento de primeira, e uma comentada (que acredito ser a mais completa obra hoje sobre Alice no Brasil), com notas sobre os jogos de palavras e outros detalhes que demonstram a genialidade de Carroll ao criar Alice. Os jogos de palavras devem ser mais evidentes no inglês, mas a tradução conseguiu fazer um ótimo trabalho.

Mesmo na versão simplificada algumas características ficaram preservadas na edição, como palavras que constantemente rimam dentro dos parágrafos, dando a impressão de se ler uma poesia escrita em prosa. Leia o trecho abaixo em voz alta e vai perceber o que eu quero dizer.
“Por um trecho, a toca de coelho seguia na horizontal, como um túnel, depois se afundava de repente, tão de repente que Alice não teve um segundo para pensar em parar antes de se ver despencando num poço muito fundo.

Ou o poço era muito fundo, ou ela caía muito devagar, porque enquanto caía teve tempo de sobra para olhar à sua volta e imaginar o que iria acontecer em seguida”.
As letras das músicas, que são muitas no livro, estão facilmente assimiláveis. Aliás, grande parte do charme do livro está nas letras erradas das músicas que Alice canta. Dá pra entender que o escritor fez um livro para entreter e agradar uma menininha. Não consegue-se ler o livro imaginando que Carroll queria criticar algum aspecto na sociedade em que vivia. É um livro infantil, mostrando coisas que interessam crianças de um jeito inocente e deixando explícitas as dúvidas que a maioria delas tem. O livro cria um diálogo com as crianças. Cria um diálogo com a parte criança que ainda sobrevive dentro de nós, adultos. Não importa que a história não faça muito sentido lógico, racional, o que importa é que a infância é um País das Maravilhas que não se deve ser levado a sério demais, sob o risco de se perder grande parte da sua graça e magia. E é preciso usar os óculos certos para perceber isso.

Destaques da 1ª semana de 2011

Êêêêêêêêê, os primeiros destaques do ano. Então, vamulá.

1. Em primeiríssimo lugar, não poderia deixar de falar do novo visual novo do blogue. Como todo ano troco o template, nesse 2011 resolvi arriscar por um padrão do Rascunho (Draft) mais leve. Pra quem não lembra do LL2010, aquele vermelhão todo cheguei, fica a imagem abaixo para contribuir culturalmente pras futuras gerações da humanidade.


2. O tumblr Tô gato, spin-off do blogue Canalhismo Fantástico, traz fotos bem humoradas de escritores com textos que revelam "o que pensam os gigantes da literatura antes de sair pra balada, inspirados pelas orelhas de seus próprios livros."

3. A dica de filme da semana vai para Cisne Negro (Black Swan, 2010) que deve estrear nas telonas brasileiras só em fevereiro. Natalie Portman está uma delícia. E não se preocupe se o filme é sobre balé. NÃO É um filme sobre balé! Ele é só um coadjuvante para dar o tom do filme. Como já comentei em outros lugares da net, o filme tem uma trilha sonora e coreografia de primeira, e o roteiro e direção conseguiram deixar a tensão e o suspense da trama crescentes até a apoteose final. Uma coisa é comum a todos os que assistem o filme, o final vai te deixar arrepiado. Confira um pouco desse efeito no trailer no Youtube.

4. Na música, descobri a voz aveludada da cantora australiana Sarah Blasko, que me conquistou com a melodia e letra de All I Want, num clipe que mistura western e Tim Burton. Eu tava nuns dias deprê e ela me ajudou a nadar por eles sem me afogar. Confiram também No turning back, que vale a pena.

Desafio Literário 2011

Somente esta semana descobri o blogue Desafio Literário e digo que já gostei da ideia. Basicamente é um auto-desafio de quantidade de leituras para o ano todo, conforme os temas pré-definidos para cada mês, sendo o mínimo de 1 livro por mês, ou 12 por ano. Para quem quiser participar, precisa elaborar uma lista de leituras para o ano todo e postar no seu próprio blogue, além de enviar as resenhas dos livros que leu para o DL. Pois bem, eis a minha singela lista (sujeita a alterações durante o ano, claro) baseada nos livros que já tenho na minha biblioteca e nunca li.

Janeiro - Literatura Infanto-Juvenil
- Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll
- Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá, de Lewis Carroll
- Droga de Americana!, de Pedro Bandeira
- Droga do Amor, de Pedro Bandeira
- Luka e o Fogo da Vida, Salman Rushdie
- Os pequenos homens livres, Terry Pratchett (acrescentado durante o mês)

Edit 23/01: apesar de constar mais livros lidos na mesma temática, só estarei participando com aqueles que possuem links para suas respectivas resenhas, afinal, não irei resenhar TODOS os livros que vou ler esse ano, nem teria tempo para isso.

Fevereiro - Biografia e/ou Memórias
- O outro lado de mim, de Sidney Sheldon (substituído pelo 2º abaixo)
- O código da vida, de Saulo Ramos
- Imperador Juliano, Benoist-méchin

Edit 14/03: É, infelizmente não vou poder fazer nenhuma resenha. Não sei se é porque ando com pouco tempo ou pouca paciência para resenhar, mas o fato é que não gosto de fazer simplesmente comentários como vejo outros fazendo por aí e classificá-los como resenhas. Quando eu resenho, gosto de gastar tempo pesquisando o que outros falaram do livro antes de mim. Por isso, geralmente gasto mais tempo em uma resenha que na leitura do livro em si. Sei que por não resenhar, serei desclassificado do Desafio, mas mesmo assim irei continuar seguindo o cronograma, como uma espécie de participante honorário (se é que isto existe).

Março - Obras Épicas
- O Hobbit, de J. R. R. Tolkien
- O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, de J. R. R. Tolkien

Abril - Ficção científica
- Praticamente Inofensiva, de Douglas Adams
- Congo, de Michael Crichton

Edit 05/05: consegui ler os 2 livros de março, embora o Senhor dos Anéis tenha me tomado muito tempo (é um livro lento de se ler) e entrado na primeira semana de abril. Em abril, não li o Congo por simples esquecimento, pois tive uma semana de férias e viagem em que li 6 livros. Só não lembrei de levar ele.

Maio - Livro-reportagem
- Bilionários por acaso: a criação do Facebook, de Ben Mezrich.
- Morte de um dissidente: O envenenamento de alexander Litvinenko, de Alex Goldfarb e Marina Litvinenko
- Os Sertões, de Euclides da Cunha

Edit 04/06: Outra troca dos livros da lista, embora ache que não tenha sido muito feliz, pois o livro é muito ruim.

Junho - Peças teatrais
- O auto da compadecida, de Ariano Suassuna
- Rei Lear, de Shakespeare (lido em fevereiro para o Clube da Leitura)

Julho - Novos autores
- Annabel & Sarah, de Jim Anotsu
- O segredo de Carol, de Sérgio S. Santos

Agosto - Clássico da literatura brasileira
- Dom Casmurro, de Machado de Assis
- O caso Morel, de Rubem Fonseca

Setembro - Autores regionais
- Melhores Poemas, de Cora Coralina (vou comprar)
- Aquele Mundo de Vasabarros, de José J. Veiga (vou comprar)
- Hoje está um dia morto, de André de Leones
- A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga
- Sombras de reis barbudos, de José J. Veiga

Edit 30/09: Apesar de em junho, julho e agosto ter conseguido ler somente um dos livros propostos, já em setembro consegui três. Eu já esperava que o Leones não fosse o meu tipo de literatura, mas o José J. Veiga foi uma surpresa fantástica. Literalmente.

Outubro - Nobel de literatura
- Travessuras de uma menina má, de Mario Vargas Llosa
- O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago

Novembro - Contos
- Contos, de Voltaire
- Contos, de Tchekov
- Contos de Dinossauros, de Ray Bradbury
- Contos de Amor, de Loucura e de Morte, de Horacio Quiroga
- Arte & Letra: Estórias G, de Diversos Autores
- O chamado de Chtulhu e outros contos, de H. P. Lovecraft

Edit 30/11: Nada de excepcional em outubro, li só um dos dois indicados inicialmente. Mas em novembro chutei o pau da barraca. Afinal, contos são a minha especialidade. Porém, substitui os 2 clássicos iniciais por 4 que adquiri durante o ano. 

Dezembro - Lançamentos do ano
(A escolha dos livros para esse tema será feita ao longo de 2011. Por isso não há como incluí-los na lista. Sendo assim, a seleção dos livros de dezembro de 2011 será uma surpresa para todos).

Omissão

Finalmente, estou de férias: tempo de estudar para as provas da pós-graduação na próxima segunda-feira, para a apresentação da monografia na sexta, para o exame da OAB e o concurso público do GDF em Brasília no começo do mês que vem, num total de 8 horas de vídeos online por dia (e de madrugada), responder às perguntas por telefone e MSN dos que não saíram de férias mas que poderiam ser respondidas com 5 segundos de reflexão própria, mandar as cobranças mensais para os meus clientes do meu bico extra online, baixar da internet os episódios semanais das poucas séries que acompanho (Bones, Criminal Minds, Dexter, House, Californication, Castle, Clandestinos, Lie to me, Mentalist, Misfits, Nikita, Pioneer One, The Big Bang Theory, The Event e No Ordinary Family) além de baixar os filmes em cartaz no cinema, só para assistir em casa antes para saber quais compensam ser vistos na telona (dica: vejam Cisne Negro), ler 50 páginas por dia como meta literária para 2011 (70 porque já comecei atrasado e não li nada dias 1 e 2), comentar no Clube de Leitura online sobre o porquê de Elizabeth Bennet ser hipócrita por criticar as atitudes de Mr. Darcy quando ela toma as mesmíssimas atitudes que ele, ler e revisar três contos que os amigos mandaram por email, ir no PROCON reclamar de problemas recentes com a GVT, DETRAN, consórcio e até do próprio PROCON, fazer uma resenha de livro para o curso de filosofia, além de malabarismos sociais entre amigos, companheiros, conhecidos, fãs e ex-namoradas que exigem presença para eventos, shows, jantares, chopes, sinucas, bate-papos, ou solicitam dicas de livro ou filme ou série atual ou antiga, ir em dois dentistas, um médico e se tudo continuar no ritmo que está em um psiquiatra até o fim do ano. Faltou algo? Escrever um texto com o tema mentira para o desafio literário online da semana.

Aí travei, e não sei por que, não pintou nenhuma ideia, embora eu conheça muito bem o tema. Afinal, sou um exímio mentiroso desde a infância. Tanto é que apanhei muito por isso. E digo que apanhei pouco pelo tanto que mentia. Por isso, enquanto não me vem nenhuma história que se encaixe no tema, vou contar um fato curioso que aconteceu essa semana comigo, quando assistia ao episódio piloto da série Pioneer One.

Contudo, antes de falar do fato curioso, terei de contar sobre a Carol. Ou melhor, sobre a Carol e sobre o avô dela.

A Carol foi uma garota com quem namorei cerca de dois anos atrás. Ela, a irmã e o irmão mais novos inauguravam a primeira geração nascida no Brasil de uma família imigrante da Rússia. Com toda a carga genética necessária para ser alta, loira e de lindos olhos verdes, mais a ginga brasileira, digamos que Carol tinha tudo para me conquistar na primeira mordida. É, ela tinha destas manias estranhas, adorava morder e adorava ser mordida. E foi ela quem me ensinou a beber vodca do jeito certo, a comer pierogi e a chamar os avós de babushka e dedushka. E fui eu quem a ensinou a gazear aula, a voltar de madrugada sem acordar ninguém em casa e que pequenas mentiras não machucam ninguém, principalmente se esse ninguém é um pai russo, gordo e vermelho, altamente inflamável. Nós adorávamos e discutíamos muito sobre literatura russa, ela defendendo Leão Tolstói e eu Fiódor Dostoiévski. Foi ela quem me apresentou Gogol e eu revelei a ela Blavatsky. Enfim, combinávamos até mesmo em nossos opostos literários.

Mas uma das coisas que mais marcaram o nosso namoro (além das mordidas dela, claro) foi a festa de aniversário do dedushka, o simpático Estanislau Pedreira. Ele falava pouco o português, e a Carol costumava traduzir tudo o que conversávamos. Acontece que a família dela tinha um segredo, que somente depois de muito tempo consegui conquistar a confiança necessária para compartilharam comigo. O seu Estanislau era foragido político da Rússia. E eu fiquei sabendo da história dele na festa de aniversário, quando todos os parentes e amigos o felicitavam repetindo a mesma frase, em russo. Vendo a minha cara de curioso para saber o significado daquilo, Carol revelou:

- Quer dizer, “Viva o nosso querido salvador do mundo”.

Lembro-me de ter feito uma piadinha se o avô dela era de alguma seita ou religião nova. Foi quando ela me contou que estávamos diante do homem que havia salvo o planeta da destruição, e que deveria me orgulhar disso pois eram poucos os homens capazes de fazer isso em nossos dias.

- Como assim?, perguntei deixando de lado o tom jocoso e começando a ficar curioso com aquelas homenagens.

- Durante a Guerra Fria, o meu avô era coronel na Rússia. Ele era o responsável por monitorar o sistema de satélites russos que avisariam no caso de algum ataque nuclear por parte dos Estados Unidos. Era um trabalho simples, mas de importância vital. Acontece que em uma noite, o alarme do radar soou. Todas as luzes vermelhas do painel começaram a piscar e a sirene a tocar. Foi quando o dedushka chegou perto do painel e viu que uma série de mísseis havia sido disparada pelos americanos contra a Rússia. Nessa situação, o treinamento dele orientava que deveria tomar uma só atitude: apertar o botão vermelho de contra-ataque, disparando mísseis nucleares russos contra a América. O meu avô sentou-se calmamente diante do botão, pensou na sua família, que naquela época eram ele, minha avó e os dois filhos, fez uma oração a Deus e resolveu não apertar o botão. Pensou que se os seus filhos queridos iriam morrer inocentemente por causa de genocidas, ele não queria assumir esse mesmo papel matando os filhos dos outros. Felizmente, duas horas depois descobriram que era apenas uma falha nos computadores e que não havia nenhum míssil americano lançado.

- Puxa, e quando foi isso? – perguntei.

- Em 1983. Foi nesse ano que meu avô evitou a Terceira Guerra Mundial e talvez a destruição de grande parte do mundo.

- Mas porque eu nunca ouvi falar disso?

- Porque o meu avô foi punido como um traidor. Foi interrogado pensando-se que era um espião norte-americano. Perdeu a patente e foi mandado para a Sibéria. Quando voltou, recebeu uma pensão miserável do Estado. E a história ficou abafada até que o regime soviético caiu. Mas quando isso aconteceu, ele e a família já tinham escapado para o Brasil.

- Puxa, que história, hein, Carol? Garanto que toda a sua família tem orgulho dele.

- Sim, é por isso que fazemos duas festas de aniversário para ele por ano, uma é para comemorar o dia em que ele tomou a decisão de salvar o mundo, mesmo que morresse ou que fosse punido por isso.

Depois deste dia, eu passei a puxar mais conversas com o seu Estanislau sobre a vida dele na Rússia, e ele enchia os olhos de lágrimas para contar as suas lembranças. Mas no fundo, sempre pensei que aquilo tudo era um pouco exagerado demais, que estavam superestimando o patriarca como uma forma de criar um ícone familiar. Porém, nunca toquei no assunto, em respeito à Carol.

Passou-se o tempo, o namoro acabou. Carol foi passar uma temporada na Rússia com uns parentes desconhecidos e acabou ficando por lá. Soube que estava atuando como amazona. Digamos que eu tenha dado umas aulinhas de montaria quando ela morava aqui. O curioso é que lembrei dela essa semana, pois no episódio da série Pioneer One foi citada a história do coronel russo Stanislav Petrov, exatamente igual a história que ouvi sobre o avô da Carol. Fui imediatamente na Wikipédia, e lá estava ela, a mesma história. Corri até a minha gaveta de papéis antigos, procurando pelos números dos telefones que eu tinha da Carol, para perguntar se o avô dela havia trocado de nome.

Liguei. Todos os números deram aviso de inexistentes.


Texto-desafio proposto no Duelo de Escritores com o tema 'mentira'.

Leituras em 2010

Tradicionalmente, todo início de ano faço um post com as leituras que fiz no ano anterior, não pra me gabar, mas para fazer um balanço literário do que li de bom, de ruim, enfim, os acertos e erros nas minhas escolhas de leitura durante os últimos 12 meses. Então, vamos lá. O que me entristece é que não consegui atingir a minha meta de 100 livros. Ao invés disso, diminui em relação a 2009, de 86 para 67. Mesmo assim, isso dá mais de 5 livros por mês. Mesmo assim, atingir outras metas que tinha estipulado no Skoob: passar dos 350 livros e 71.000 páginas lidas.

Falando em páginas, este ano acrescentei a informação do número de páginas lidas. Isso é superrelevante para mim, pois tinha como meta em 2010 a leitura de 50 páginas diárias. Pelas minhas contas, só consegui chegar às 40, totalizando 14.483 páginas no ano. Mas este ano continuo com a meta estipulada para 2010, e ainda outras mais, que enumerei lá no Meia Palavra:

1. Ler pelo menos 50 pgs por dia (em 2010 estacionei nas 40 pgs diárias)
2. Participar de todos os clubes da leitura do meia
3. Ler pelo menos 1 livro de poesia por mês
4. Manter a média d leitura dos autores brasileiros em 25%
5. Terminar de ler os livros do Terry Pratchett que tenho
6. Voltar a resenhar, pelo menos 1 livro por mês (assim só resenho a melhor leitura mensal)


JANEIRO (620 pgs)
1. O encontro marcado, Fernando Sabino, 311 pgs.
2. Bhagavad Gita, Rogerio Duarte, 221 pgs.
3. A arte de viver, Epicteto, 88 pgs.

FEVEREIRO (1146 pgs)
4. O homem que matou o escritor, Sérgio Rodrigues, 125 pgs.
5. O livro de fadas prensadas de Lady Cottington, Terry Jones, 63 pgs.
6. Belas maldições, Gaiman/Pratchett, 378 pgs.
7. A torre negra: nasce o pistoleiro (1-7), David/Furth/Lee, 252 pgs.
8. Meditações de Marco Aurélio, Furukawa, 141 pgs.
9. Meditações, Marco Aurélio/Marins, 127 pgs.
10. Epicteto: testemunhos e fragmentos, Dinucci/Julien, 60 pgs.

MARÇO (361 pgs)
11. Meditações: Marco Aurélio, William Li, 119 pgs.
12. Otimismo e filosofia, Beatriz Guzmán, 32 pgs.
13. Mentes perigosas, Ana Beatriz Barbosa Silva, 210 pgs.

ABRIL (1532 pgs)
14. O guia do imperador: Marco Aurélio, irmãos Hicks, 206 pgs.
15. Os espiões, Luis Fernando Verissimo, 142 pgs.
16. Eu sou a lenda, Richard Matheson, 296 pgs.
17. Você já pensou em escrever um livro?, Sonia Belloto, 128 pgs.
18. Operação Xeque, Juan Carlos Torres, 304 pgs.
19. Sandman: prelúdios & noturnos, Neil Gaiman, 240 pgs.
20. Kick-Ass, Millar/Romita Jr, 216 pgs.

MAIO (1108 pgs)
21. Más companhias, Mary Gaitskill, 237 pgs.
22. O iguana, Alberto Vázquez-Figueroa, 232 pgs.
23. Solomon Kane, Howard/Allie, 160 pgs.
24. Ilha do medo, Dennis Lehane, 344 pgs.
25. A alma imoral, Nilton Bonder, 135 pgs.

JUNHO (1261 pgs)
26. Dexter no escuro, Jeff Lindsay, 288 pgs.
27. IRA: Xadrez, truco e outras guerras, José Roberto Torero, 184 pgs.
28. O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger, 207 pgs.
29. Pântano de sangue, Pedro Bandeira, 190 pgs.
30. Scott Pilgrim: vidinha preciosa (vol. 1), Bryan Lee O'malley, 168 pgs.
31. Se7en, Diversos, 224 pgs.

JULHO (2325 pgs)
32. Budapeste, Chico Buarque, 176 pgs.
33. Leite derramado, Chico Buarque, 195 pgs.
34. Chapeuzinho amarelo, Chico Buarque, 35 pgs.
35. O nome da rosa, Umberto Eco, 480 pgs.
36. Fazenda Modelo, Chico Buarque, 140 pgs.
37. A preparação do escritor, Raimundo Carrero, 224 pgs.
38. A hora da estrela, Clarice Lispector, 87 pgs.
39. Sandman: a casa de bonecas, Neil Gaiman, 240 pgs.
40. A vida, o Universo e tudo mais, Douglas Adams, 224 pgs.
41. Sandman: terra dos sonhos, Neil Gaiman, 165 pgs.
42. A chave de uma história, Gregório Delgado, 128 pgs.
43. Sandman: estação das brumas, Neil Gaiman, 231 pgs.

AGOSTO (1422 pgs)
44. A Pro, Garth Ennis, 72 pgs.
45. Os crimes do mosaico, Giulio Leoni, 382 pgs.
46. Pó de parede, Carol Bensimon, 128 pgs.
47. Seis propostas para o próximo milênio, Italo Calvino, 141 pgs.
48. Sandman: um jogo de você, Neil Gaiman, 199 pgs.
49. 1808, Laurentino Gomes, 408 pgs.
50. Sandman: convergência, Neil Gaiman, 92 pgs.

SETEMBRO (335 pgs)
51. Anjo da morte, Pedro Bandeira, 192 pgs.
52. Estatuto da Advocacia e OAB, 133 pgs.
53. Código de Ética e Disciplina da OAB, 10 pgs.

OUTUBRO (1874 pgs)
54. Obra completa, Murilo Rubião, 232 pgs.
55. O homem: sua origem e evolução, N. Sri Ram, 116 pgs.
56. Madame Bovary, Gustave Flaubert, 448 pgs.
57. The Walking Dead (vol. 1-5), Kirkman/Moore, 300 pgs.
58. Se eu fechar os olhos agora, Edney Silvestre, 304 pgs.
59. Como treinar o seu dragão, Cressida Cowell, 224 pgs.
60. The Walking Dead (vol. 6-10), Kirkman/Moore, 250 pgs.

NOVEMBRO (2291 pgs)
61. O menino do pijama listrado, John Boyne, 190 pgs.
62. The Walking Dead (vol. 11-30), Kirkman/Moore, 1000 pgs.
63. O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry, 96 pgs.
64. O restaurante no fim do universo, Douglas Adams, 229 pgs.
65. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 1/3, Bryan Lee O'malley, 368 pgs.
66. Scott Pilgrim contra o mundo vol. 2/3, Bryan Lee O'malley, 408 pgs.

DEZEMBRO (208 pgs)
67. Até mais, e obrigado pelos peixes!, Douglas Adams, 208 pgs.

Veja também:
- Leituras em 2009
- Leituras em 2008
- Leituras em 2007