Mude, de Edson Marques


Mude
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais,
leia outros livros,
Viva outros romances!

Não faça do hábito um estilo de vida.

Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.

Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.

Só o que está morto não muda!

Edson Marques é escritor e possui website: mude.blogspot.com. O texto é falsamente atribuído como de autoria de Clarice Lispector, gerando inclusive uma ação na justiça do verdadeiro autor contra um comercial baseado nesse texto e pago aos herdeiros de Clarice.

Criminal Minds - 3ª temporada (2007-2008)

3x20 SEASON FINALE - Lo-Fi
Voltaire disse, "O homem que experimenta êxtases e visões, que confunde sonho com realidade, é um entusiasta. O homem que alimenta sua loucura com assassinato é um fanático."

3x19 Tabula Rasa
"Todas as mudanças, mesmo aquelas pelas quais ansiamos, têm sua melancolia. O que deixamos para trás é uma parte de nós mesmos. Precisamos morrer em uma vida antes de entrarmos em outra." Anatole France

"O que de esplendor outrora tão brilhante agora seja tomado de minha vista para sempre. Apesar que nada pode trazer de volta a hora de esplendor na grama, de glória numa flor, não nos afligiremos. Encontraremos forças no que ficou para trás." Wordsworth


3x18 The Crossing
O autor Christian Nestell Bovee escreveu, "Nenhum homem é feliz sem uma desilusão de algum tipo. Desilusões são tão necessárias para nossa felicidade quanto as realidades."

Felicidade é fácil de fingir quando tem apenas um milésimo de segundo.

Susan B. Anthony disse, "A mulher não deve depender da proteção do homem, mas deve ser ensinada a se proteger."


3x17 In Heat
"Se soubéssemos os segredos uns dos outros, que conforto deveríamos encontrar." John Churton Collins

3x16 Elephant's Memory
"Uma alma triste pode matá-lo rápido, mais rápido que um germe." John Steinbeck

"Atravessamos nossas pontes quando vamos até elas e as queimamos atrás de nós com nada para mostrar nosso progresso exceto a memória do cheiro da fumaça e a presunção de que um dia nossos olhos lacrimejaram." Tom Stoppard


3x15 A Higher Power
"Não há como fugir da confissão através do suicídio. O suicídio é a confissão." Daniel Webster

"A coisa mais autêntica sobre nós é nossa capacidade de criar, de superar, de suportar, de transformar, de amar e de sermos gratos até mesmo no nosso sofrimento." Ben Okri


3x14 Damaged
"Dentro de cada um de nós está a criança que fomos um dia. Esta criança constitui a base do que nos tornamos, quem somos e o que seremos." Neurocientista Dr. R. Joseph

"Não existe nenhuma fórmula para o sucesso, exceto, talvez, pela aceitação incondicional da vida e do que ela traz." Arthur Rubinstein


3x13 "Limelight"
"Sei de fato que mal pretendo fazer, mas mais forte que minhas reflexões posteriores é minha fúria, fúria que traz sobre os mortais, o maior dos males." Eurípedes

Encontre o fetiche e encontrará o demônio.

"Por pagarmos um preço por tudo que obtemos ou pegamos nesse mundo, e embora ter ambições valha a pena, não devem ser vencidas de forma barata." Lucy Maud Montgomery


3x12 "3rd life"
"Nenhum homem ou mulher que tente perseguir um ideal ao seu próprio modo, nunca o faz sem angariar inimigos". Daisy Bates

"Sábio é o pai que conhece o próprio filho." William Shakespeare


3x11 "Birthright"
A poetisa americana Anne Sexton escreveu: "Não importa quem foi meu pai, importa quem lembro que ele foi."

Wordsworth escreveu: "Uma simples criança que desenha levemente sua respiração e sente que há vida em cada membro, o que deveria saber sobre a morte?"


3x10 "True Night"
"O Super-Homem é, afinal, uma forma de vida alienígena. Ele é simplesmente a face aceitável das realidades invasoras." - escritor Clive Barker.

Às vezes, para um artista, a única diferença entre a insanidade e a genialidade é o sucesso.

A vida é uma coisa estranha que pode acontecer com uma pessoa.

Frank Miller certa vez disse: "O herói sombrio é um cavaleiro numa armadura de sangue coagulado. Ele é sujo e faz o possível para negar o fato de que é um herói em tempo integral."


3x09 "Penelope"
William Shakespeare escreveu: "Ame a todos. Confie em poucos. Não faça mal a ninguém."

3x08 "Lucky"
"Fantasias abandonadas pela razão produzem monstros impossíveis." Francisco Goya

O novelista inglês do século XVI, Thomas Deloney, escreveu: "Deus manda a carne e o diabo manda os cozinheiros."


3x07 "Identity"
"Um reino na Terra não pode existir sem desigualdade entre as pessoas. Alguns devem ser livres, alguns servos, alguns líderes, alguns seguidores." Martin Luther King

3x06 "About Face"
Erasmo escreveu: "O que é a vida inteira dos mortais se não uma espécie de comédia em que vários atores disfarçados com roupas e máscaras caminham representando seu papel até que o diretor os tire do palco?"

3x05 "Seven Seconds"
Dostoiévski disse uma vez: "Nada é mais fácil do que censurar um malfeitor. Nada mais difícil do que entendê-lo."

G. K. Chesterton escreveu: "Contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. As crianças já sabem que dragões existem. Contos de fadas dizem às crianças que dragões podem ser mortos."


3x04 "Children of the Dark"
"Na cidade, o crime se tornou um emblema de classe e raça. Porém, no subúrbio é íntimo e psicológico, resistente a generalização, um mistério da alma individual." - Barbara Ehrenreich

3x03 "Scared to Death"
O filósofo taoísta Lao Tzu escreveu: "Aquele que controla os outros pode ser poderoso, mas aquele que é mestre de si mesmo é mais poderoso ainda."

Eleanor Roosevelt disse: "Você ganha força, coragem e confiança em toda experiência em que você encara o seu medo. Você deve fazer aquilo que pensa que não pode fazer."


Mais Informações: IMDB (ING) Séries Online (BR)

As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis

Percebi que alguns sites sobre escrita não garantem que as resenhas postadas neles fiquem por muito tempo à disposição dos leitores. Então, como não publiquei algumas resenhas aqui inicialmente, resolvi postá-las novamente para assegurar a sua exibição. Apesar de serem resenhas de janeiro de 2007, são de livros que valem a pena ser lidos. As Crônicas de Nárnia, do britânico C. S. Lewis foi o primeiro livro que resenhei na internet. Espero que eu tenha melhorado um tiquinho na escrita de lá para cá e quem notar isso por favor me avise.

As Crônicas compõe-se de sete histórias diferentes que tem como base a terra de Nárnia. Você pode comprar os livros separadamente ou lê-los reunidos em um único volume.

1. O Sobrinho do Mago
2. O Leão, a Feiticieira e o Guarda-Roupa
3. O Cavalo e seu Menino
4. O Príncipe Caspian
5. A Viagem do Peregrino da Alvorada
6. A Cadeira de Prata
7. A Última Batalha

O Sobrinho do Mago, de C. S. Lewis

Clique e compre!1. O Sobrinho do Mago (The Magician's Nephew)
Publicado em 1955.
Ano na Inglaterra: 1900
Ano em Nárnia: 1
Digory e Polly descobrem uma passagem secreta que interliga suas casas e, enganados pelo tio André, viajam para o Reino de Charn, onde acordam a malvada rainha Jadis. Em uma nova viagem, eles testemunham a criação do mundo de Nárnia, através da canção do Grande Leão, Aslam.
Bom

Apesar de não ser o primeiro livro publicado da série As Crônicas de Nárnia (é o sexto), O Sobrinho do Mago é sugerido atualmente como o primeiro para a ordem de leitura, justamente por narrar a criação do mundo de Nárnia. As comparações com o Gênesis bíblico não são mera coincidência, pois C. S. Lewis, um notável defensor das idéias cristãs, usou intencionalmente várias passagens e figuras da Bíblia na composição de suas fábulas.

A história acontece durante o ano de 1900, na Inglaterra, onde duas crianças, Digory Kirke e Polly Plummer, vizinhos em uma fileira de casas conjugadas, descobrem que o sótão de suas casas é interligado por uma passagem secreta. Explorando essa passagem, conseguem entrar no até então inacessível quarto do tio de Digory, o tio André, um sujeito esquisito e misterioso. Tio André flagra a invasão e covardemente exige como retratação que ambos o auxiliem sendo cobaias em seus experimentos com os anéis mágicos, capazes de transportar qualquer pessoa que toque neles para outra dimensão.

Em sua primeira experiência, Digory e Polly vão parar em um reino totalmente destruído chamado Charn, onde despertam a malvada rainha Jadis. As crianças acabam complicando as coisas um pouco mais quando trazem acidentalmente Jadis no regresso à Inglaterra. Para evitar uma catástrofe maior, conseguem partir para em uma nova viagem entre as dimensões levando consigo, entre outros, Jadis e o tio André. E é aqui que a aventura realmente começa, pois todos acabam assistindo a criação de Nárnia pelo leão Aslam.

Essa aventura é importante para a compreensão de outras particularidades da série, como o surgimento dos animais falantes em Nárnia, do Guarda-Roupa, do poste de luz no Ermo do Lampião e da Feiticeira Branca, presentes em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. Digory tem uma breve participação em O Leão, e ele e Polly reaparecem no encerramento da série, em A Última Batalha. O leitor, mesmo aquele que siga a ordem cronológica, ficará com a impressão de que O Sobrinho do Mago foi escrito como um complemento para O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, o que é a mais pura verdade.

A intenção de Lewis em passar subliminarmente os conceitos da criação bíblica para as crianças nessa história é bastante clara. Na Bíblia, Jesus Cristo é profeticamente chamado de O Leão da tribo de Judá, e é descrito como o agente criador de nosso planeta e tudo o que há nele. Outra referência bíblica sutil é a introdução de uma maçã no enredo, e que se torna necessária para o prosseguimento da série. O uso intercalado de personagens mitológicos (não-bíblicos) como faunos, centauros, ninfas, anões, gigantes e cavalos alados, é um estímulo à imaginação e dá um tempero adicional na trama.

Como a história foi escrita em 1955, traz algumas críticas implícitas à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à destruição causada pela bomba atômica, como por exemplo, quando descreve como Jadis destruiu todo o seu reino usando para isso somente um pequeno instrumento, a palavra execrável.

As Crônicas de Nárnia vêm sendo utilizadas por muitas denominações religiosas como reforço no ensino de conceitos bíblicos para as crianças. Mas não é uma tarefa fácil, pois não são muitas as crianças hoje em nosso país com interesse em um livro de mais de 500 páginas somente pelo puro prazer de ler. É certo que incentivados com o sucesso da série Harry Potter, talvez essa deficiência diminua um pouco com o tempo. Mas até que isso ocorra, não deixa de ser uma boa leitura também para os adultos, pois mostra como uma fábula infantil pode ser bem escrita e utilizada em nossos dias. Além de reforçar a sua fé, claro, se você for cristão.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C. S. Lewis

Clique e compre!2. O Leão, a Feiticieira e o Guarda-Roupa (The Lion, the Witch and the Wardrobe)
Publicado em 1950.
Ano na Inglaterra: 1940
Ano em Nárnia: 1000
Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia descobrem uma passagem para Nárnia dentro de um velho guarda-roupa. Lá, eles se unem ao leão Aslam e outros seres mágicos na luta contra a Feiticeira Branca para livrar Nárnia do inverno sem fim.
Excelente

O primeiro livro a ser publicado e uma espécie de ponto centralizador das sete histórias que compõe a série As Crônicas de Nárnia, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (1950) relata as aventuras ocorridas em 1940 na Inglaterra, 40 anos após o que seria o início da saga descrita em O Sobrinho do Mago (1955). Em Nárnia já haveriam se passado mil anos, modificando, portanto, a maioria dos personagens da aventura anterior, com exceção do leão Aslam e da rainha Jadis, agora conhecida como Feiticeira Branca. A diferenciação do tempo entre os dois universos é muito utilizada por Lewis, deste modo, os mesmos personagens voltam a Nárnia em épocas diferentes, e suas aventuras anteriores são narradas como lendas.

Pedro, Edmundo, Susana e Lúcia Pevensie são quatro irmãos que, fugindo da Segunda Guerra Mundial, deixam Londres e vão morar na mansão de um velho professor. Em uma de suas brincadeiras de esconde-esconde encontram dentro de um guarda-roupa a passagem para o mundo de Nárnia. Chegando lá, descobrem que a Feiticeira Branca decretou um inverno sem fim e que transforma em estátuas de pedra a todos que se rebelem contra ela. As crianças ganham armas mágicas de um personagem que aparece somente no Natal e, auxiliados por alguns animais falantes e pelo próprio Aslam, organizam um exército para combater a feiticeira e assim cumprir a profecia que prediz que quatro crianças libertariam Nárnia e reinariam no castelo de Cair Paravel. A profecia cumpre-se, e anos depois, já adultos, os quatro irmãos reencontram a passagem secreta, retornando para a Inglaterra e a ser exatamente as crianças que eram ao entrarem no guarda-roupa.

C. S. Lewis fez uso de passagens bíblicas para a composição de As Crônicas de Nárnia, e isso torna-se bastante visível em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Na Bíblia, Jesus Cristo é profeticamente chamado de O Leão da tribo de Judá. Assim como Jesus, Aslam é traído por um de seus amigos, passa por humilhações como a via-crúcis, é sacrificado em troca de outra vida e por fim ressucita dentre os mortos. Os humanos são chamados de Filhos de Adão e Filhas de Eva. A Feiticeira Branca faz o papel do Diabo, que procura desviar os seguidores de Aslam através de tentações.

Enquanto em O Sobrinho do Mago a passagem entre os dois universos ocorre através do uso de anéis mágicos, em O Leão isso acontece ao atravessar um guarda-roupa. O guarda-roupa comumente é algo desinteressante, mas na história é proposto como contendo um mundo maravilhoso dentro dele. Apresenta-nos a questão da fé em coisas invisíveis e extraordinárias, onde Lúcia tenta em vão convencer seus irmãos da existência de Nárnia, mas esses só acreditam nela quando vêem com os seus próprios olhos. Lembra outra passagem bíblica?

Há referências sutis à Alemanha Nazista, quando mostra Nárnia dominada pela Feiticeira Branca com espiões delatores em todas as partes. Nesse sentido, as crianças serem inglesas representam bem o papel da luta do bem contra o mal, dos Aliados contra os Nazistas.

Pode-se dizer que a adaptação para o cinema de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005, Disney) foi mais fiel ao livro do que O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mas é basicamente porque trata de uma história muito menor em número de páginas e o público-alvo são essencialmente as crianças. O livro é uma ótima diversão para toda a família.

As Crônicas de Nárnia vêm sendo utilizadas por muitas denominações religiosas como reforço no ensino de conceitos bíblicos para as crianças. Mas não é uma tarefa fácil, pois não são muitas as crianças hoje em nosso país com interesse em um livro de mais de 500 páginas somente pelo puro prazer de ler. É certo que incentivados com o sucesso da série Harry Potter, talvez essa deficiência diminua um pouco com o tempo. Mas até que isso ocorra, não deixa de ser uma boa leitura também para os adultos, pois mostra como uma fábula infantil pode ser bem escrita e utilizada em nossos dias. Além de reforçar a sua fé, claro, se você for cristão.

O Cavalo e seu Menino, de C. S. Lewis

Clique e compre!3. O Cavalo e seu Menino (The Horse and His Boy)
Publicado em 1954.
Ano na Inglaterra: 1940
Ano em Nárnia: 1014
Shasta escapa do país da Calormânia com um cavalo branco de Nárnia, Bri. Junto com Aravis e a égua dela, Huin, eles descobrem um plano dos calormanos para conquistar Nárnia e passam por muitas aventuras para avisar aos seus amigos narnianos do ataque.
Excelente

Publicado em 1954, é o terceiro livro na ordem cronológica da série As Crônicas de Nárnia. Conta uma aventura ocorrida quando os irmãos Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia - as crianças que aparecem em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa - reinam há vários anos em Nárnia. Mas os quatro irmãos Pervensie não são os personagens principais em O Cavalo e seu Menino, pois aparecem somente como auxiliares no enredo e para se possa situar o conto no tempo de Nárnia.

A história conta como o jovem escravo Shasta, junto com o cavalo narniano Bri, fogem da Calormânia, país vizinho e rival de Nárnia, em uma viagem para livrá-los da condição de escravos. No caminho, juntam-se a eles a menina Aravis e sua égua Huin, que também estão em fuga, porque Aravis não aceita o seu casamento arranjado. Antes de chegarem ao destino final, precisam atravessar a cidade calormana de Tashbaan, algumas tumbas assombradas e um grande deserto. Para complicar as coisas um pouco mais, Aravis descobre acidentalmente um plano dos calormanos para invadir Nárnia e Arquelândia, e em conjunto com seus amigos procura avisar aos narnianos a tempo de se prepararem para a tentativa de invasão. A história termina em uma grande batalha onde o destino de muitos acaba sendo definido.

Lugar-comum em As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis utiliza temas bíblicos implícitos em O Cavalo e seu Menino. Um deles é a semelhança entre as histórias de Shasta e de Moisés, pois ambos além de serem encontrados abandonados em um rio quando bebês, também servem como agentes libertadores de seu povo. A onipresença de Deus é demonstrada quando o leão Aslam aparece em várias ocasiões utilizando formas diferentes para ajudar a Shasta, que não se apercebe prontamente de tais auxílios.

O autor procura apresentar alguns aspectos políticos do jogo entre as nações, como os casamentos arranjados para formar alianças. Tanto Aravis quanto Susana se encontram nessa situação e fogem dela.

O título O Cavalo e seu Menino é uma inversão curiosa e bem humorada feita por Lewis nos papéis de quem pertence a quem, diferenciando-se das histórias infantis comuns na época em que foi escrito. Toda a fuga é sugerida e comandada pelo o cavalo Bri, mais experiente e determinado que o jovem Shasta.

O Cavalo e seu Menino não influencia diretamente nas outras histórias de As Crônicas de Nárnia, mas é citado como uma das lendas narnianas antigas em A Cadeira de Prata. E nos dá um pequeno vislumbre dos feitos praticados pelos quatro irmãos Pevensie, citados em várias das histórias como tendo um longo reinado cheio de aventuras, na chamada época de ouro de Nárnia. Tanto é que, segundo o autor, passaram-se 14 anos desde as aventuras vividas em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, antes que as crianças voltassem pelo guarda-roupa à Inglaterra.

A única das sete histórias que compõe As Crônicas de Nárnia que ocorre exclusivamente dentro do universo de Nárnia, ela não envolve viagens entre os diferentes mundos. De tal maneira que pode ser lida isoladamente das outras, sem a real necessidade de conhecer as histórias anteriores, e não trazendo nenhum prejuízo à compreensão do leitor. São introduzidas duas nações vizinhas à Nárnia, Arquelândia e Calormânia. A Calormânia é bastante detalhada nesta obra, bem como vários de seus aspectos sócio-culturais, semelhantes aos dos povos árabes. Os calormanos são destacados em outras histórias como sendo humanos egoístas e ávidos pelo poder, e consequentemente inimigos dos narnianos. Tipificam assim o próprio homem como o conhecemos hoje, que busca o poder através de guerras e estratagemas políticos, sem ligar para o que os outros desejam.

O Príncipe Caspian, de C. S. Lewis

Clique e compre!4. O Príncipe Caspian (Prince Caspian)
Publicado em 1951.
Ano na Inglaterra: 1941
Ano em Nárnia: 2303
Surgem tempos problemáticos e Nárnia é assolada pela guerra civil. O príncipe Caspian é forçado a soprar o Grande Chifre em busca de auxílio, e os grandes heróis do passado Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia vêm em seu socorro. Juntos, eles precisam vencer o rei Miraz e trazer a paz novamente à Nárnia.
Excelente

O Príncipe Caspian é o segundo livro dos sete escritos por C. S. Lewis que compõem a série infanto-juvenil As Crônicas de Nárnia. Publicado em 1951, é sugerido como o quarto na ordem cronológica de leitura das histórias.

Mais de mil anos se passam em Nárnia após as aventuras de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia narradas em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, mas para as crianças na Inglaterra se passou apenas um ano. Nárnia (país) fora conquistada por piratas conhecidos como telmarinos, que foram parar em Nárnia (mundo) através de uma passagem secreta dentro de uma caverna localizada em uma ilha deserta no nosso mundo. Os narnianos legítimos são obrigados a viverem escondidos nas florestas e nas montanhas, até a ocasião em que o príncipe Caspian, sobrinho do malvado rei Miraz, descobre que sua vida está em perigo após o nascimento de um herdeiro legítimo do rei. Caspian, que sempre gostou de ouvir as histórias contadas sobre a época de ouro de Nárnia, foge e resolve restaurar o reino com a ajuda dos animais falantes, anões, gigantes, ninfas, faunos, entre outros. A partir desta história, conhecemos o divertido e corajoso rato Ripchip, que se torna amigo inseparável de Caspian e retorna em outras aventuras da série. Para vencer a guerra, Caspian precisa recorrer ao auxílio da trompa mágica da rainha Susana, que segundo a lenda invocaria os quatro reis de Cair Parável ou do leão Aslam, ou ambos os auxílios. Os quatro irmãos Pervensie são transportados novamente para Nárnia e, com grandes batalhas e duelos, e uma ajuda de Aslam, tudo termina em um esperado final feliz.

Os temas cristãos abordados por C. S. Lewis voltam à tona nesta aventura: Assim como em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, a questão da fé em Deus, naquele que não nos é visível aparece quando Lúcia vê Aslam e os outros não acreditam nela inicialmente. A invocação por um auxílio inesperado feita por Caspian lembra muito a oração. A referência a criaturas mitológicas, como Baco e Pã, sujeitando-se à Aslam deixa a sensação de que o cristianismo é superior ao paganismo. A transformação de Cáspian - telmarino de nascença - em um defensor de Nárnia, divulga que a conversão cristã é o melhor caminho, apesar de grandes lutas e obstáculos.

Há também uma alusão invertida à Alegoria da Carverna, de Platão, quando os piratas entram na caverna e descobrem o mundo fantástico de Nárnia. Seria exatamente o caminho oposto ao que o filósofo propôs, isto é, abandonar a fantasia e buscar a realidade. Outra dicotomia entre fantasia e a realidade aparece quando Pedro e Susana são avisados por Aslam de que nunca mais retornarão a Nárnia, pois já passaram da idade para isto, assinalando assim que a fantasia seria essencial durante a infância, mas a realidade é o que mais importa para a vida adulta.

A existência de uma raça superior e racismo, questões prementes durante a 2ª Guerra Mundial, portanto, bem próximas à publicação do livro, são atacadas quando os anões narnianos não aceitam o anão mestiço Dr. Cornelius, mentor de Caspian.

É interessante a abordagem da diferença na contagem do tempo entre os mundos através da Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, a qual nos dá a idéia de que o tempo passa de modo diferente em lugares diferentes. As mudanças na geografia de Nárnia durante o tempo em que as crianças estiveram fora, assinala que não somente as pessoas se transformam, mas também o lugar em que vivem, com ou sem a interferência humana.

Um detalhe que chama a atenção é que as crianças desta vez são transportadas da Inglaterra para Nárnia quando estão em uma estação de trem, assim como ocorre em Harry Potter. O lançamento do filme O Príncipe Caspian está previsto para 2008 em seqüência ao filme O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, produzido pela Disney em 2005.

A Viagem do Peregrino da Alvorada, de C. S. Lewis

Clique e compre!5. A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Voyage of the Dawn Treader)
Publicado em 1952.
Ano na Inglaterra: 1942
Ano em Nárnia: 2306
Lúcia, Edmundo e seu primo Eustáquio são transportados para o navio Peregrino da Alvorada, onde o rei Caspian X está a procura de sete amigos desaparecidos de seu pai nas Ilhas Solitárias. Durante a viagem, as crianças passam por muitas aventuras fantásticas.
Excelente

Quinto livro sugerido na ordem de leitura da série As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, A Viagem do Peregrino da Alvorada foi publicado originalmente na Inglaterra em 1952.

Narra as aventuras de Lúcia e Edmundo Pevensie (personagens de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa), e de Eustáquio Mísero, primo deles, quando entram em uma pintura e são transportados novamente para Nárnia, indo parar no convés do Peregrino da Alvorada, navio do rei Caspian X (do livro O Príncipe Caspian). Caspian, após estabelecer a paz em Nárnia e assumir o trono como rei Caspian X, parte em uma viagem para encontrar os sete nobres amigos de seu pai que partiram para desbravar as Ilhas Solitárias há muitos anos e nunca mais voltaram. O Peregrino inicialmente parte sem rumo em direção ao mar, mas acabam logo encontrando várias ilhas, algumas conhecidas, outras não. Durante a sua jornada encontram piratas, dragões, uma serpente marinha gigante, seres invisíveis, estrelas em forma humana, pessoas que habitam nas profundezas do oceano, dentre outros personagens.

Caspian, Lúcia e Edmundo já se conheciam desde O Príncipe Caspian. Eustáquio, porém, não faz questão de ser uma pessoa muito agradável, mas aprende com as dificuldades que encontra durante o transcorrer da viagem (especialmente através de uma maldição que recai sobre ele) a se tornar alguém melhor. Até que esta transformação em seu caráter ocorra, o que salva de o odiarmos mortalmente são as suas provocações ao rato falante Ripchip. Eustáquio retorna ainda como um dos personagens principais nos dois últimos livros da série: A Cadeira de Prata e A Última Batalha. Esta é a última aventura de Lúcia e Edmundo, pois já estão crescidos demais para visitarem Nárnia novamente e, assim como ocorreu com Pedro e Susana, só terão uma nova e última participação em A Última Batalha.

O arrependimento de Eustáquio, bem como sua transformação em alguém totalmente diferente – não só mental, mas também física – são referências implícitas feitas por C. S. Lewis ao batismo, onde os cristãos “tem de revestir-se de uma nova personalidade”. A ajuda do leão Aslam, representado em As Crônicas de Nárnia como Deus, indica que tal transformação cristã só é possível com o auxílio divino.

Outra referência cristã é quando as crianças chegam à borda do mundo, bem próximo à terra de Aslam, e o encontram como um Cordeiro, forma como Jesus é às vezes retratado na Bíblia. O próprio Aslam admite assumir várias formas diferentes, inclusive em nosso mundo, exortando as crianças a procurar reconhecê-lo. Fica claro em A Viagem do Peregrino da Alvorada que o mundo de Nárnia não é uma esfera, mas um planeta totalmente plano, e assim como ocorre em Discworld, de Terry Pratchett, o mundo possui uma beirada e um fim. Este fim do mundo também no remete à Bíblia, em que a história nos conduz inexoravelmente até o tempo-lugar em que as profecias apocalípticas se cumprirão.

A mitologia também está presente na questão da viagem, que faz parte de muitas tradições no mundo e simboliza a busca humana interior por um prêmio, um objetivo, um ideal superior e divino. A questão da liberdade humana é levantada quando o rei Caspian decide abolir a escravidão em uma das ilhas. Esta liberdade pode ser interpretada não somente física, mas também espiritual. A busca pelos nobres amigos de seu pai também nos transmite de que há a necessidade de um retorno aos valores morais mais elevados que eram praticados em tempos mais remotos.

A principal lição que Lewis tenta passar para as crianças com esta estória é a necessidade de se ter verdadeiros amigos, e para que isso ocorra devem-se desconsiderar alguns defeitos.

A Cadeira de Prata, de C. S. Lewis

Clique e compre!6. A Cadeira de Prata (The Silver Chair)
Publicado em 1953.
Ano na Inglaterra: 1942
Ano em Nárnia: 2356
O filho amado do rei Caspian, o príncipe Rilian, está desaparecido. O leão Aslam convoca Eustáquio e sua amiga Jill para procurarem pelo príncipe e lutarem contra uma nova feiticeira que apareceu em Nárnia. Nessa busca, eles passam pela terra dos gigantes e por um mundo subterrâneo.
Excelente

A Cadeira de Prata é o quarto livro (publicado em 1953) da mundialmente famosa série infanto-juvenil As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, mas aparece em sexto na ordem cronológica de leitura das sete histórias.

Eustáquio Mísero (que aparece em A Viagem do Peregrino da Alvorada), junto com sua colega de escola Jill Pole, são transportados através de um portão nos fundos de seu colégio para o mundo de Nárnia. Eles precisam encontrar o príncipe Rilian, filho do rei Caspian X (de O Príncipe Caspian e A Viagem do Peregrino da Alvorada), que está desaparecido a alguns anos. O leão Aslam os auxilia fornecendo quatro sinais que identificariam o verdadeiro príncipe quando o encontrassem, e com a ajuda das sábias corujas e do pessimista paulama Brejeiro, partem em sua jornada. A viagem os leva até as Terras Agrestes do Norte, onde habitam os gigantes, e depois ao Reino Profundo, um mundo subterrâneo onde precisam enfrentar uma poderosa rainha-feiticeira. Eustáquio e Jill, assim como a maioria dos personagens das Crônicas, fazem mais uma participação no final da saga, no livro A Última Batalha.

Lewis baseou-se em vários mitos não-cristãos gregos – além da já tradicional temática cristã em suas obras – para inculcar melhor nas crianças alguns ensinamentos mais profundos. Como o mito da caverna, de Platão, retratado quando Eustáquio, Jill e Brejeiro vão parar no Reino Profundo, um mundo subterrâneo onde os habitantes – chamados de terrícolas – vivem escravizados e subjugados pela feiticeira verde, a única que possui livre acesso ao Mundo de Cima. Todos os habitantes se acostumaram a viver com pouca ou praticamente nenhuma luz, ilustrando que a falta do conhecimento (cristão, neste caso) sujeita as pessoas à dominação. A existência de vários níveis de submundos demonstra que há também vários níveis de consciência da realidade. O Reino Profundo lembra muito o reino de Hades, o deus grego das profundezas e dos subterrâneos, onde o acesso a ambos somente ocorre atravessando um longo rio através de um barco.

O feitiço lançado sobre Rilian exemplifica como as aparências podem enganar e escravizar sem que nos apercebamos disso. Alguns desejos humanos normais, quando manipulados pela mídia, religião, política etc., nos tornam escravos do consumismo, fanatismo e de outras idéias que dominam sutilmente a mente. Os manipuladores, segundo Platão, chamados de “amos da caverna”, dão a sensação de liberdade para as massas, mas uma liberdade delimitada por ideologias e superstições. Segundo a Bíblia, o principal manipulador seria o Diabo: “Satanás persiste em transformar-se em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14). Este teria sido o primeiro manipulador, ao usar uma serpente para enganar Eva.

A saga da procura e do retorno do príncipe herdeiro ao trono retrata implicitamente a volta de Cristo. Assim como as crianças na história precisaram buscar atentamente pelo herdeiro legítimo ao trono, observando alguns sinais e sobrepujando algumas mentiras, as pessoas devem hoje estar atentas aos sinais da volta de Jesus. “Deixai vir a mim as criancinhas” e “A menos que sejam como criancinhas, não entrareis no reino dos céus” (Mateus 19:14 e 18:3), são passagens da Bíblia que reforçam o ensinamento transmitido pelo autor de que os cristãos precisam limpar suas mentes assim como as das crianças. O encontro com as criaturas adormecidas e como ao Pai Tempo no subterrâneo, destinadas a acordarem somente no fim do mundo, é outra referência cristã, desta vez ao livro de Apocalipse. Nota-se claramente que Lewis está conduzindo o final da série As Crônicas de Nárnia como se fosse o final dos tempos descrito na Bíblia. Provavelmente a sua intenção fosse instruir de maneira mais ágil os jovens com respeito às profecias bíblicas referentes a esse período de tempo.

A Última Batalha, de C. S. Lewis

Clique e compre!7. A Última Batalha (The Last Battle)
Publicado em 1956.
Ano na Inglaterra: 1949
Ano em Nárnia: 2555
Um falso Aslam surge em Nárnia, mandando a todos trabalharem como escravos para os cruéis calormanos. Conseguirão Eustáquio e Jil encontrar o verdadeiro Aslam e restaurar a paz em Nárnia? Presencie uma das maiores batalhas jamais escritas entre o bem e o mal.
Bom

Nem todos os fãs ficam satisfeitos com o último capítulo de uma saga. Foi assim com a trilogia Matrix, onde muitos classificaram o primeiro filme como um obra-prima do cinema moderno e o último como uma salada incompreensível de idéias. Tais pessoas preferem pensamentos ruminados a conceitos mais profundos. Mas como toda história que começa tem de chegar a um fim, e levando em conta que é impossível agradar a todos, deve-se buscar a idéia que o autor quis transmitir, a sua essência, a sua filosofia, ao desfecho. E isso é o que devemos ter em mente quando lemos "A Última Batalha", história que encerra a série infanto-juvenil "As Crônicas de Nárnia", do escritor irlandês C. S. Lewis.

Entretanto, talvez alguns leitores se perguntem: Mas porque finalizar uma série infanto-juvenil, que contém ensinamentos cristãos, falando sobre morte e destruição? Simples, porque é algo que os adultos ainda hoje têm dificuldades de ensinar às crianças. E porque o último livro bíblico fala justamente sobre isso. Lewis consegue conduzir a imaginação para o mesmo tópico que o livro de Apocalipse traz, mas de uma forma simples e – até certo modo – agradável.

Alguns ensinamentos importantes, cristãos e filosóficos, são encontrados, implícita e explicitamente, no decorrer de toda a história. Tudo começa quando o macaco Manhoso veste o burro Confuso com uma pele de leão e espalha o boato de que Aslam voltou. Aqui há uma idéia clara sobre o que a Bíblia prediz sobre os falsos profetas, já que Aslam representa a Jesus Cristo nas crônicas. Manhoso e Confuso, respectivamente porta-voz e líder falsamente proclamados, passam a vender a tudo e a todos em Nárnia para os calormanos, e todos se sujeitam sem fazer nenhum questionamento, lembrando muito o poderio atual que alguns líderes políticos, religiosos e intelectuais exercem sobre grande parte da população. Essa massa de pessoas deposita uma confiança cega e deixa que outros controlem o rumo de suas vidas, mesmo que esse rumo seja para o abatedouro.

Todos os esforços dos mocinhos são insuficientes para deter a catástrofe que se aproxima. Nem Tirian – o último rei legítimo de Nárnia –, nem Eustáquio e Jill (personagens de A Cadeira de Prata), nem o unicórnio Precioso, nem o centauro Passofirme, nem os anões, nem gigantes, nem animais falantes, enfim, ninguém poderá deter o que já estava destinado a acontecer: o fim de Nárnia.

Abre-se a passagem para o dia do julgamento final, onde Aslam julga e separa os merecedores de ir para a Verdadeira Nárnia e os merecedores de ir para outros lugares. Esta Verdadeira Nárnia simboliza o paraíso cristão e o mundo das idéias de Platão. Até Lorde Digory (personagem de O Sobrinho do Mago) admite isso quando diz: “Está tudo em Platão, tudo em Platão...”.

Além de Eustáquio, Jill e Digory, todos os outros personagens das histórias anteriores são reunidos na Verdadeira Nárnia. Há um debate interessante dos críticos da obra relacionado a quem aparece nesse paraíso. Susana (personagem de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa) não está presente, pois se diz que ela “não é mais amiga de Nárnia... agora só pensa em lingeries, maquilagens e compromissos sociais”. O calormano Emeth, que apesar de venerar toda a sua vida o deus Tash (aqui representando o próprio diabo) e lutar contra Nárnia, por sua fé e desejo de fazer o bem é aceito por Aslam como seu servidor, pois “nenhum serviço que seja vil pode ser prestado a mim (Aslam), e nada que não seja vil pode ser feito para ele (Tash)”. Em ambos os casos, dá-se uma importância maior às ações presentes do que as passadas.

Alguns acreditam que o boato virtual que circula até hoje sobre o episódio final do desenho Caverna do Dragão, que diz que os jovens que vão para outro mundo e tentam retornar para casa morreram e estão na verdade no inferno, foi baseado em "A Última Batalha". Deve-se admitir que há alguma semelhança entre ambas.

Querendo terminar em grande estilo a sua narrativa permeada de referências cristãs, Lewis procura explicar para as crianças conceitos como morte, diabo, falso profeta, fé, paraíso e juízo final. "A Última Batalha" recebeu em 1956 o prêmio Carnegie Award de melhor livro infanto-juvenil do Reino Unido, mais por causa do conjunto das sete obras que compõem As Crônicas de Nárnia do que por mérito próprio, pois há outras crônicas melhores do que essa. Não é um livro para ser lido sozinho, mas como um grande desfecho de uma maravilhosa aventura.

Dogma

"Enquanto uns discutem se Deus é o escritor, o livro ou as personagens, outros já O descobriram na inspiração, pois sem ela não haveria personagens, nem livro, nem escritor."

Jefferson Luiz Maleski

Fado

Esta é a continuação do conto Vingança ou justiça? publicado no blog Fênix Apoplética.
Este tal Destino é um grande gozador. Promete mundos e fundos aos ingênuos quando na verdade está cedendo corda ao enforcado para, quando menos se espera, retesar o laço e bradar “quem pensas que és” e “não te deixei ir tão longe”. Da mesma forma, pode o Destino brincar – e você, leitor, o perceberá na irônica história que contarei agora – sim, pode o Destino brincar simulando despejar bênçãos quando faz exatamente o oposto.

Na penumbra do quarto um homem fitava aquela que dormia em sua cama. Ela havia sido trazida inconsciente para ser socorrida. O lume da pequena vela sobre o criado-mudo a revelava uma pintura angelical. Olhos nipônicos. Cabelos negros. Lábios chamejantes. Nunca a vira antes, tão bela, tão desprotegida, tão sensual. Mas ele sabia quem tinha em mãos. Uma mulher trazida pelo Diabo.

O médico diagnosticara amnésia temporária, provavelmente definitiva. Contudo, apesar de não o recordar, Laia tinha uma história naquela casa. Todos os empregados sabiam o que ocorrera entre ela e o patrão no passado. Um pensamento engenhoso brilhou no azul profundo dos olhos daquele homem – o que nem todos conseguem discernir, olhando para trás, é o exato momento em que suas vidas saem dos trilhos, mas aviso de antemão que foi aqui que nosso personagem meteu os pés pelas mãos –, um pensamento que erigiu um sorriso malicioso. Sabia que a idéia era perigosa, mas precisava arriscar. Agiu com rapidez. Ordenou aos serviçais que atuassem perfeitamente em seus novos papéis a partir daquele momento, sob pena de severos castigos.

Hector recriou o passado de Laia. Restituiu-lhe amigos. Imaginários. Momentos. Intimidades. Pensamentos. Desejos. Sentimentos. Imaginários. Deu-lhe um novo nome, o dele. Contou inúmeras mentiras, mais por medo de confessar a única verdade que gritava amordaçada em seu peito. Ela ouvia, perguntava, ruminava e por fim aceitava sem demonstrar resignação, revolta ou alegria. Aquele teatro fez crescer dentro de Hector uma felicidade genuína. Entretanto, a felicidade o cegava e ele não notou a sombra de apatia que crescia em Laia. Pudera, ele era pura paixão. Ela, torpor.

Cabe aqui fazer uma interrupção em nossa história para breves considerações sobre o amor. O leitor há de perdoar-me não só porque a mesma é pertinente ao causo quanto à realidade humana. Pobres e débeis são as vítimas do cupido. Depois de transpassadas com a seta deste desarmam as defesas para com as atiradas pelos seres amados. Morrem por amar. Morrem pelo amado. E a pior das ilusões: morrem felizes. O Destino, aquele velho traquinas, não se faz de bobo e costuma usar o amor como cabresto para controlá-los em suas estripulias. Às vezes, faz amar a quem não se deve e odiar aos que só deram amor. Já disseram que demonstrar amor demais gera o efeito inverso. Por isso os bons maridos são os mais traídos. Os cães dóceis os que mais apanham. Os heróis os que morrem cedo.

Laia, tão apaixonada e humilhada antes, agora respeitada e enaltecida, passou a desprezar Hector. Ele, porém, a amava incontrolavelmente. Quanto mais escondia o seu segredo de Laia mais o coração ardia. Depois de uma longa viagem, resolveu revelar-se para a amada. Daria o maior presente que poderia naquela data especial.

- Feliz aniversário, Laia! Minha adorável esposa. Saúde...

Brindou. Bebeu. Aquele momento pareceu congelar no tempo. Ele nunca saberia o que aconteceu primeiro: se foi a garganta contraindo-se e o coração parando que o fizeram olhar para a cristaleira em que residia o pequeno frasco desde a chegada de Laia ou se foi perceber a ausência do frasco no móvel que lhe revelou os sintomas do envenenamento. Veloz, a sua vida passou em flashes. Assistiu cenas do passado. Visualizou as que desejava acontecer – e que até certo ponto existiram, em sua cabeça –, mas que jamais ocorreriam, pois em segundos cairia morto.

Viu, por exemplo, o seu desespero ao imaginar Laia recordando o passado. Retomando a vingança interrompida. Sim, ele sabia desde o início. Quando achou o frasco nas vestes da moça. Quando o médico revelou ser um veneno poderosíssimo. Quando os empregados o alertaram para o rancor – legítimo e adormecido – que existia no íntimo dela. Todavia, ele preferiu crer na felicidade duradoura – trazida sabe-se lá por Deus, Diabo ou Destino – e pôr à prova a sua amada mantendo visível o pequeno frasco negro. Desejava avidamente que nunca desaparecesse, já que indicaria o fim da amnésia e do amor de Laia.

Viu também quando trocara de lugar com o seu irmão gêmeo, Hector. A fazenda ia mal, pois a tísica de Hector não o deixava trabalhar. Fernando viera da Europa para assumir os negócios da família enquanto Hector fazia o caminho inverso em busca de tratamento. Armaram o blefe em segredo para evitar as especulações dos credores.

Viu quantas vezes viajou a duas cidades de distância para corresponder-se com o irmão. Não queria que Laia se lembrasse dele nem que ele soubesse dela. Mas teria de tomar coragem e contar o seu segredo, pois a última carta do irmão o anunciava curado e regressando de viagem na semana seguinte.

Viu o quanto lutara para recuperar a fazenda da esposa. Foi um esforço árduo que resultava em chegar tarde e cansado. Muitas vezes nem amor conseguia fazer direito. Contudo, em sua derradeira e longa viagem conseguira comprar as terras de volta. Estava extasiado. Era o presente ideal de aniversário de casamento restituir à autêntica dona o seu quinhão na mesma hora em que revelasse sua identidade. E em troca só pediria que lhe chamasse pelo seu verdadeiro nome, Fernando.

Por fim, reviu a cena em que vira Laia pela primeira vez e se apaixonara. Na noite do acidente, ela sendo carregada inconsciente até o quarto. Descobrira no mesmo dia que a mulher da sua vida poderia ser a da sua morte. Mas não é que o pobre diabo acreditava mesmo no Destino? O mundo apagou-se por completo deixando no vácuo o eco de seu último pensamento, o mesmo que o fizera sorrir maliciosamente meses atrás enquanto admirava Laia dormindo. “Eu daria a minha vida para ter esta mulher”.
Continua em Vingança ou justiça? Parte II publicado no blog Fênix Apoplética.

Ler devia ser proibido, de Guiomar de Grammon


A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

Guiomar de Grammon, In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro - Argus, 1999. pgs.71-73.

Para Ler Como um Escritor, de Francine Prose

Escrever bem é um exercício de psicologia. Embora isso não signifique que psicólogos serão sempre bons escritores é quase certo que bons escritores dariam ótimos psicólogos. A atenção aos detalhes, muitas vezes sutis, a percepção do que é expresso verbalmente, por meio de gestos e até mesmo no não-dito são essenciais para se escrever (e também para se ler) uma boa história. Não há regras para assimilar tais habilidades de observação e se tornar um bom escritor. Aliás, há uma, segundo Francine Prose:
"Quanto mais lemos, mais rapidamente somos capazes de executar o truque mágico de ver como as letras foram combinadas em palavras dotadas de sentido. Quanto mais lemos, mais compreendemos, mais aptos nos tornamos a descobrir novas maneiras de ler, cada uma ajustada à razão que nos levou a ler um livro particular." (pg. 17)
Para ler como um escritor (2008, Jorge Zahar Editor) é um livro teórico, mas com a diferença de ser altamente estimulante. Ensina os conceitos básicos da escrita através da análise de trechos de obras mundialmente famosas. No começo, pode até soar estranho aprender não usando regras, somente por exemplos, porém conforme o livro prossegue, o leitor acostuma e aprende como aprender desta forma.

A autora indica como técnica fundamental a leitura atenta (close reading), pausada, meticulosa do texto para descobrir a real e mais íntima intenção do escritor. Somente desta maneira os detalhes mais preciosos serão notados pelo leitor. Contudo, esse tipo de leitura (talvez mais um estudo que uma leitura) não seja para todos. Afinal, quem hoje pode dispensar duas horas para ler apenas duas páginas de um livro? Para Prose isso talvez seja corriqueiro, pois como professora de oficinas de escrita e de pós-graduação em MFA (Master of Fine Art's) ela ganha para ensinar utilizando-se destas análises detalhadas.

O livro tem o tom de uma apostila ou manual de oficina literária com muitos trechos de literatura esmiuçados. A autora admite ter escrito o livro para ser usado para tal fim e procura analisar vários aspectos da criação literária, desde a menor estrutura do texto, "Palavras" (capítulo 3), passando por "Frases" (capítulo 4), "Parágrafos" (capítulo 5) até chegar nos estilos de escrita. "Narração", "Personagem", "Diálogo", "Detalhes" e "Gesto" (capítulos 6 ao 9) complementam seus ensinamentos sobre como construir uma história. Mostra como a maioria das regras ensinadas em oficinas literárias foram quebradas com sucesso pelos grandes escritores. Isso demonstra que escrever é uma experiência pessoal, assim como ler.

O livro não conta nenhum segredo inédito. Tudo o que diz nós já sabemos e a maioria dos livros citados estão disponíveis para leitura em livrarias, sebos ou bibliotecas. Porém o modo simples e claro de analisar o texto revela detalhes que poderíamos ter deixado passar. E de brinde traz informações curiosas sobre a vida de escritores famosos como aperitivos aos seus fãs. De que outro modo descobriríamos que Kafka, mestre em iniciar histórias com frases enxutas e marcantes, aprendeu e incorporou esse dom lendo Heirich von Kleist? E que Kleist suicidou-se com a esposa aos 34 anos de idade enquanto faziam um pequenique?

A tradução e a qualidade do livro para o português estão em um bom nível, pecando apenas num "quem teria podido pedir" (pg. 15) e num "cismou que ia me sivilizar" (pg. 110) e em um erro de referência (pg. 211) em que o trecho kafkaniano analisado pertence ao livro O Veredito e não ao livro O Processo conforme mencionado. A introdução e acréscimos de Italo Moriconi são pertinentes para "encaixar" o livro americano no rol brasileiro. No final do livro há uma lista de leituras imediatas indicadas pela autora, mas não aparece nenhuma obra em português. Moriconi corrige esta injustiça com uma outra lista somente de livros brasileiros. Assim como todo copo de cerveja puxa outro, a leitura de um livro sempre dá vontade de ler outros e Para ler como um escritor não foge à regra, deixa o leitor louco para conhecer mais sobre Kleist, Tchekhov (que tem o capítulo 10 todo dedicado a ele), Jane Austen, Gogol e Tolstoi.

Francine Prose é romancista, crítica, ensaísta e professora de literatura e criação literária há mais de 20 anos em universidades como Harvard, Columbia e Iwoa. Escreveu vários livros, alguns já publicados no Brasil: A vida das musas: Nove mulheres e os artistas que elas inspiraram (2004, Nova Fronteira) e Gula (2004, ARX).

Leia neste blog outras resenhas sobre livros de técnicas de escrita:
leitura em: Maio 2008
obra: Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los (Reading like a writer: a guide for people who love books and for those who want to write them), de Francine Prose
tradução: Maria Luiza X. de A. Borges
edição: 1ª, Jorge Zahar Editor (2008), 319 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé (novos)

O significado do nome

Um dos debates lingüísticos mais interessantes atualmente é sobre a capacidade do cérebro humano funcionar melhor através da nomeação de coisas, lugares e pessoas. Descobriu-se que nós lembramos, compreendemos e até raciocinamos melhor quando há um nome ou uma palavra envolvido. Esse é um aspecto tão interligado conosco que quando se pergunta "quem é você" automaticamente respondemos um nome. Isso nos leva a pensar: você É um nome composto de poucas palavras ou esse nome é apenas uma pequena parte do seu ser?

Na literatura, o nome é essencial na construção das personagens. Alguns escritores afirmam que o nome influencia até na verossimilhança da história. Os nomes podem indicar algum detalhe sutil sobre a personalidade. Os nomes podem ser usados para diferenciar a nacionalidade (William, Smith e Parker seriam ingleses, Pierre francês, Silva e Oliveira brasileiros), profissão (Machado, Gomes e Armando servem como uma luva para policiais; Natasha, Roberta e Monique para mulheres da noite) ou até mesmo classe social (Augusto Roriz e Alexandre Almeida indicariam alguém proeminente, José da Silva e Maria Sousa não). Naturalmente, tais estereótipos para a literatura podem virar exceções na vida real. Um bom exercício de análise é notar como nas novelas se aplica bem a caracterização das personagens começando pelo nome: note as diferenças entre as personagens ricas e pobres e entre as principais (que sempre aparecem com prenome e sobrenome) das secundárias (geralmente só prenome, apelido ou nem isso).

Outro ótimo exemplo de nomes que revelam algo sobre as personagens - não entrando na questão da veracidade da história - aparece na Bíblia. A maioria dos nomes bíblicos possui um significado vinculado ou à personalidade ou à alguma ação praticada. Moisés significa "retirado da água", por ter sido salvo quando bebê enquanto flutuava num cesto no Nilo. Jesus, Josué e Jeosué significam a mesma coisa, "Javé é a salvação", como um brado de louvor. Tais nomes podem ser dados no nascimento como uma predição do destino, atribuídos durante a vida como um título ou após a morte como uma homenagem póstuma. Abrão, "pai é enaltecido", e Sarai, "contenciosa", tiveram seus nomes mudados diretamente por Deus para representarem melhor os seus papéis e passaram a ser chamados de Abraão, "pai duma multidão", e Sara, "princesa". Lembrando que deles sairia a nação de Israel.

Além dos nomes bíblicos, os indígenas ou tribais também vêm carregados de significado. O escritor britânico Terry Pratchett no livro O Senhor da Foice brinca com esta situação:
- Por que você se chama Um-Homem-Balde?
- [...] na minha tribo temos a tradição de dar nomes conforme a primeira coisa que a mãe vê quando olha para fora da tenda depois de dar à luz. é a forma abreviada de Um-Homem-Jogando-um-Balde-de-Água-em-Dois-Cachorros.
- É muita falta de sorte.
- não é tão ruim - começou Um-Homem-Balde. - você tinha que ter pena do meu irmão gêmeo. ela olhou para fora dez segundos antes de mim para dar o nome a ele. (pg. 257)
Como a vida imita a arte (ou seria a arte imita a vida?) poderíamos descobrir algo relacionado ao nosso passado, presente e quem sabe até futuro pesquisando o significado de nossos nomes? Afinal, somos ou não somos os personagens principais de nossa história, mesmo que esta não esteja escrita? Para exemplificar, farei agora um breve exercício usando o meu nome para ver se sai algo interessante.

Jefferson - prenome de origem inglesa. Possui o sufixo "-son" (filho) e significa "filho de Jeffrey". Como o meu pai não se chama Jeffrey, provavelmente ele não sabia que estaria marcando seu filho para o resto da vida como filho de outro quando escolheu o nome. Jeffrey, Geoffrey ou Godofredo, por sua vez, têm origem teutônica (alemã medieval) onde "gud" significa Deus e "frid" paz. A tradução fica como "paz de Deus (sagrada)" ou "boa paz". No português existem ainda as variações Jeferson, Jéferson e Gefferson (e não sei a última estaria ortograficamente correta). Só não me venham com Gérfison que eu apelo. Enfim, o meu primeiro nome significa "filho da paz divina".

Luiz - prenome, no meu caso prenome composto. Variante de Luis, de origem latina que significa "lutador" e de Louis, francês que deriva do prenome germânico merovíngio Hludwig, composto por "hlud" fama e "wig" guerra, que traduzindo fica "guerreiro célebre" ou "famoso na batalha". Hludwig também deu origem a outros nomes: Aloísio, Clóvis e Lúcio (espanhol), Ludwig e Ludovico (alemão), Lou, Louie e Lewis (inglês) e Luigi (italiano). Luiz (com z) no Brasil, por seguir a ortografia arcaica, é considerado incorreto conforme as normas ortográficas vigentes. Ou seja, além de dizer que sou filho de outro, meu pai ainda me sentenciou a carregar para sempre um erro ortográfico na minha carteira de identidade. Tsc, tsc...

Maleski - nome (ou sobrenome) de origem polonesa, variação de Malewski. Provavelmente uma derivação do nome primeiro duque da Polônia, Mesko I (962-992 d.C.) ou Mieszko I ou Mieczyslaw I. Contudo, já perdi as expectativas de receber como herança um castelo medieval na Polônia pois parece que todos os sobrenomes poloneses que começam com a letra m são derivados dele. Como o Maleski original é alemão, foram os refugiados poloneses da Segunda Guerra Mundial que o adotaram ao invés de seus sobrenomes (como o Malewski) para despistar os nazistas. Agora, fico na dúvida: se encontrar um Maleski pela rua terei de perguntar se é descendente de poloneses ou alemães para saber se abraço ele ou se saio correndo.

Porém, mais importante que o significado que o seu nome tinha antes de você ganhá-lo é o significado que VOCÊ dará a ele. Como disse o rei Salomão, "melhor é o bom nome do que o perfume agradável, e o dia da morte do que o dia do nascimento" (Eclesiastes 7:1). Salomão não queria dizer que é melhor morrer do que nascer, mas que somente no dia em que morrermos nosso nome terá o peso das coisas relevantes que fizemos para nós, nossa família, nosso país e para a humanidade. Não é o nome que faz você ser o que é, é você que faz o seu nome ter alguma importância.

E você, já parou para pensar o que SEU nome revela sobre o passado, a família, a personalidade ou destino? Responda se tiver coragem, hehe. Uma dica para saber mais sobre o significado dos nomes são os sites Wikipédia, Netsaber Nomes e Baby Names (este último em inglês).

1 abraço de

Filho da Paz Divina Famoso Guerreiro em Batalha Porém Disfarçado (quase ganhei do D. Pedro II)

ou simplesmente

JLM

História Verdadeira, de Montesquieu

Charles-Louis de Secondat (1689-1755), mais conhecido como Barão de Montesquieu ou simplesmente Montesquieu, foi político, filósofo iluminista e escritor francês. Ficou famoso pela sua Teoria da Separação dos Poderes defendida no livro O Espírito das Leis e atualmente adotada pela maioria das Constituições, inclusive a brasileira.

O que poucos sabem é que Montesquieu também escreveu livros de ficção em que criticava os costumes, a sociedade, a monarquia absolutista e a religião. Seu romance mais famoso é Cartas Persas. Menos conhecido, História Verdadeira é uma maravilha em originalidade e crítica, apesar de ter apenas 96 páginas. Relata quatro mil anos da vida de um único protagonista em suas várias transmigrações (reencarnações). E de quebra, narra hábitos, costumes e eventos em diversas partes do mundo em diferentes épocas. Eventos cotidianos e particulares, não marcos históricos.
"Resolvi desencaminhar uma jovem. Seu marido descobriu tudo, e matou-me. Como era inteiamente nova e ainda não havia animado outros corpos, minha alma foi transportada repetinamente para uma esfera onde os filósofos deviam julgá-la. Toda a minha vida foi pesada, e a balança pendeu rudemente para o lado do mal. Fui condenado a passar para os animais mais vis, e puseram-me sob o poder de meu mau Gênio, que era um espiritozinho negro, crestado e maligno, que me devia guiar em todas essas transmigrações; eu porém, sem me espantar, sem me afligir, sem me queixar, conservei minha alegria ordinária e caí na risada ao ver as outras sombras apavoradas. Um dos mais eminentes filósofos admirou-me a coragem e tomou-se de amizade por mim: 'Para te mostrar', disse ele, 'que estimo a tua firmeza, vou conceder-lhe o único dom que está em meu poder; é a faculdade de relembrar tudo quanto te acontecer em todas as revoluções do teu ser.'" (pg. 17)
Indiretamente, Montesquieu abre o debate sobre um dos principais dogmas religiosos de todos os tempos, a punição pelos pecados. Deve a alma sofrer eternamente em um inferno de fogo por atos ruins que cometeu em poucos anos (talvez em ignorância) de vida? Ou um sistema kármico de evolução ou retrocesso pelos atos de uma vida repercutindo na próxima seria o mais ideal? Montesquieu apresenta esta segunda opção de maneira sagaz e divertida.

O protagonista não possui nome, pois teria muitos a relatar em suas várias transmigrações, e descreve as partes mais interessantes de suas diversas vidas, desde a original em que se revelou má e resultou no castigo acima mencionado, até a última em que narra todo o seu passado em um livro. Foi inseto, animal, rei, escravo, homem, mulher. Quanto mais desonesto e vil, pior seria sua próxima vida. Quanto mais leal e generoso, melhor era a sua próxima existência. Montesquieu, abordando as dicotomias existentes entre religiões, classes, raças, sexos e espécies consegue criticar as diferenças e preconceitos entre estes opostos. Em uma vida, o personagem foi eunuco que sentia prazer em castigar as mulheres de seu amo, em outra foi mulher que traía o marido para enalterecer o nome da família. Foi touro adorado no Egito e elefante sagrado na Índia. Em todas estas vidas, notou que sempre servia a alguém, seja faraó, rei, amo, esposa, íncubo ou gênio, mesmo quando foi rei era escravo de seus desejos e riquezas. Aprendeu pela experiência, pois inicialmente de espírito mau, foi gradualmente tornando-se sábio, tolerante e bondoso. A experiência corrigiu os seus defeitos, mesmo sem ele o desejar.
"Sendo o ridículo senão aquilo que choca as maneiras de cada país, da mesma sorte que os vícios são o que lhes choca os costumes, o que nos parece ridículo aqui talvez não o fosse tanto nos países onde eu vivia." (pg. 66)

"O crime, perante os Deuses é a ação; o crime, perante os homens, é a maneira de cometê-lo." (pg. 67)

"As riquezas de um homem supõe a pobreza de um número infinito de outros homens, e a grandeza de um mortal, a humilhação de quantos lhe obedecem." (pg. 84)
História Verdadeira é um achado para escritores e os que gostam de refletir. Há passagens para se meditar e formular idéias de contos, histórias e romances. É um livro que estimula a imaginação mesmo após a leitura de sua última página. Enfim, é uma fonte pronta para ser usada por aqueles que dela quiserem beber.

leitura em: Maio 2008
obra: História Verdadeira (Histoire Veritáble), de Montesquieu
tradução: Antônio de Pádua Danesi
edição: 1ª, Coleção Canto Literário nº 2, Scrinium Editora (1996), 96 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé (novos)

Como matar um bicho-papão - Parte III: A MÃE

Leia também: Parte II: O PAI

"Quando eu namorava a sua mãe ele era o meu melhor amigo. Até ambos me traírem juntos. Magoado, mudei de cidade enquanto Cairo e Alessandra passaram a morar juntos. Mas isso foi antes de você nascer."

Soava estranho para Andréa ler revelações sobre o passado de sua mãe e de seu pai. Eles não só haviam traído um namorado e um amigo, respectivamente, como também nunca comentaram nada sobre o assunto. Pelo menos não próximo dela. Não que ela acreditasse totalmente naquelas palavras, pois a primeira reação quando acusam a um ente querido é a negação incondicional, a proteção fraternal, a confiança pela intimidade e proximidade. Mesmo que as acusações sejam verdadeiras. Confiamos e protegemos basicamente porque precisamos de alguém para confiar e nos proteger quando precisarmos. Porém, Andréa sabia que todos possuem segredos – pequenos ou não – inclusive os seus pais, inclusive ela. Principalmente ela.

Andréa sentia vergonha por sua mãe estar internada no manicômio municipal. Este foi o motivo que a fez mudar-se de bairro. Evitaria a fofoca sobre o episódio fatídico que ela se esforçava tanto a esquecer. Envergonhava-se de ter sido atacada com uma faca num acesso violento de loucura de sua mãe. Carregaria pelo resto da vida a maldição de sua própria mãe tentar matá-la. Assim como carregaria o fardo de assinar os papéis da internação, pois seu pai resolveria a situação de outra maneira: daria uma coça na desmiolada até ela sarar ou piorar de vez. Os seus irmãos não a assistiriam, há muito estavam perdidos pelo mundo. Ela era a única responsável pela mãe louca.

Tentou visitar a mãe algumas vezes, contudo sem sucesso, pois era só Alessandra ver a filha para atacá-la com quaisquer objetos próximos, urrando e esbravejando ofensas. Por fim, desistiu e abandonou a mãe aos cuidados dos enfermeiros e de Santa Dinfna, protetora dos doidos varridos.

"Por muito tempo descontei em outras mulheres o mal que Alessandra me fez. Me transformei num monstro, um bicho-papão, que comia vítimas indefesas e abandonava os restos na sarjeta. Hoje não me orgulho do que fiz. Muitas inocentes sofreram sem merecer. Mas isso foi antes de você nascer."

E se essa história tiver alguma verdade? Afinal, ninguém confessa os seus pecados a uma pessoa estranha sem querer provocar uma atitude condescendente e misericordiosa. Entretanto, quem escreveu a carta não procurava absolvição, mesmo porque está morto e enterrado. Então qual o propósito de narrar estes fatos? Prejudicar a sua relação com seu paizinho, o único que lhe restou após sua mãe ter sido internada? Andréa não entendia em quê tais revelações lhe seriam úteis.

Por outro lado, abria-se diante de Andréa uma vitrine onde poderia escolher qual pai desejava. Todavia, ela já conhecia Cairo. Ele habitava na sua memória como pai desde antes dela pensar por si própria. Cairo estava vivo, morava com ela, brincava com os seus filhos todos os dias e ajudava nas despesas da casa. Quem era o outro para ela? Ninguém. Apenas um nome em um pedaço de papel. E ainda havia algo mais importante: Cairo era o único que compactuava com Andréa o segredo da loucura de Alessandra.

"Certa vez, voltei e Alessandra, mesmo ainda com Cairo, implorou por meu perdão. Disse que sempre me amou, humilhou e se sujeitou a todos os meus sadismos. Mas eu não sentia mais nada por ela. Eu não conseguia sentir mais nada por ninguém. Por isso, depois de satisfazer o meu desejo por vingança em Alessandra, fui embora, sem saber que você nasceria pouco tempo depois."

Andréa negava-se a crer que nascera como resultado de uma vingança por causa de uma traição. Era algo desprezível demais. Ninguém merece saber que é fruto do ódio ao invés do amor, ninguém quer carregar em seus genes o estigma da maldade dos pais. Desejaria mil vezes não saber se essa fosse a verdade. Não queria ter essa história na sua vida nem a sua vida nessa história, preferiria a alegre ignorância ao conhecimento que trouxesse o sofrimento como seqüela. Decidiu que somente terminaria de ler o parágrafo e jogaria a maldita carta no lixo.

"Depois, visitando a cidade, vi sua mãe passeando com você. Uma linda menina de cachos dourados que só podia ser minha. Apaixonei-me pelos seus olhos azuis. O amor que senti pela filha superou o ódio pela mãe. Naquele momento, morreu o monstro, o bicho-papão, o coração sádico e endurecido. Eu desejei ser uma pessoa melhor, por você, para você. Foi quando resolvi te conhecer. E quando morri por sua causa. Agora, preciso te ajudar a se livrar do trauma de infância que, sem querer, deixei que acontecesse."


Rato, de Luís Capucho

Rato é um livro podre. É o tipo de livro que não merecia nem mesmo existir, quanto mais ser lido. Basicamente conta a história sem graça de um veadinho pobre e maconheiro. Antes de me acusarem de homofóbico, digo que se o personagem principal fosse uma mulher seria a história sem graça de uma putinha pobre e maconheira.

Extravasar a sexualidade reprimida do personagem (e talvez do autor) parece ser o único motivo para se escrever uma coisa tão ruim. Não sou contra literatura que fale de sexo, de opção sexual, de relacionamentos homoafetivos, mas sou totalmente contra a má literatura, aquela escrita para mostrar um trecho biográfico da vida de alguém que não interessa a ninguém além do autor. Um grande escritor já disse certa vez em uma palestra sobre escrita que a maioria das nossas vidas são muito medíocres para virarem livro. Nós é que fantasiamos sermos os atores principais de um filme campeão de bilheterias. Mas não. Nem todos tem uma vida interessante para os outros. E principalmente, nem todos conseguem transformar uma vida não interessante em algo interessante de se ler. Rato de Luís Capucho é a prova disso.

Já li autores homosexuais que sabem realmente o que significa escrever. Talento não tem nada a ver com a opção sexual. Santiago Nazarian é excelente, Thomas Mann é um artista das palavras, somente para citar alguns bons exemplos de memória. Mas escrever somente para contar suas experiências sexuais é querer vender um folhetim de sacanagem. Rato é a versão gay de O Doce Veneno do Escorpião da prostituta Bruna Surfistinha. Ambos talvez vendam muito - cada um atraíndo o seu público específico ou pobres desavisados como eu - mas não significa que são (boa) literatura. Ao contrário, mostram o nível que chegamos ao publicar algo tão inútil como literatura contemporânea. Rato não serve nem como referência de boa literatura GLS. Dá pena perceber os rumos que estão sendo tomados pelas editoras e seus pseudo escritores.

Não vale a pena comentar a história do livro, nem citar trechos, nem tentar fazer alguma reflexão psicológica ou filosófica da trama, pois seria forçar demais para sair algo onde não há. Pena este livro medíocre estar concorrendo na Copa de Literatura Brasileira 2008, pois acredito que há autores melhores, com mais arte e que poderiam ocupar merecidamente o seu lugar. Um título melhor para o livro seria Cabeça-de-porco, pois Rato acaba soando falsamente com um certo mistério, perigo ou irreverência. Cabeça-de-porco também deveria ser o elogio aplicado aos que gostaram do livro. Quem leu o livro não considerará isso uma ofensa, apesar de ser.

Este é um forte candidato ao pior livro lido em 2008, talvez até da década. Para os que necessitam de uma segunda opinião ou me acham muito radical, recomendo assitirem a entrevista em 3 partes no Youtube onde o autor fala sobre o livro e tirarem as suas próprias conclusões. Já ler o livro não recomendo nem aos meus inimigos. Seguem os links da entrevista do Capucho: Parte 1 - Parte 2 - Parte 3

leitura em: Maio 2008
obra: Rato, de Luís Capucho
edição: 1ª, Rocco (2007), 127 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé (novos) ou na Estante Virtual (usados)

O Jovem Törless, de Robert Musil

O Jovem Törless foi o primeiro livro escrito pelo austríaco Robert Musil, mais conhecido pela enorme e inacabada obra O Homem sem Qualidades. Escrito em 1906, o livro faz parte dos romances classificados como "De Formação", em que o personagem principal passa por uma transformação interior durante a história. Assim como em Um Retrato do Artista Quando Jovem de James Joyce e Sidarta de Hermann Hesse, traz referências à juventude e ao aprendizado de uma maneira psicológica em que importam mais os pensamentos e sentimentos do protagonista do que aquilo que acontece ao seu redor.

Törless é um jovem austríaco que, mandado para um internato no interior, descobre um mundo em que as aparências não revelam a verdade, antes ocultam a real personalidade das pessoas. Colegas considerados por seus pais como de boas famílias são cruéis, mesquinhos e vingativos longe dos adultos. Törless observa aos atos vis de seus colegas tentando descobrir seus próprios sentimentos, as respostas às suas dúvidas interiores e conhecer um pouco mais dos assuntos ainda desconhecidos na adolescência. Sexualidade, homosexualidade, Complexo de Édipo e jogos pelo controle dos mais fracos são alguns dos temas levantados na estadia de Törless no internato. A tortura e humilhação são as principais formas de se manter a dominação dos alunos mais velhos sobre os mais novos.

Há uma discussão interessante (a partir da página 81) que inicialmente parece inocentemente ser sobre matemática e filosofia, mas que depois revela ser sobre a própria crença naquilo que os homens não podem comprovar, como Deus ou o destino, por exemplo.
"- Escute, você entendeu aquilo há pouco?
- O quê?
- Esse negócio de números imaginários?
- Sim. Não é tão difícil. A gente apenas tem de lembrar que a raiz quadrada de um negativo é a unidade básica com que se trabalha.
- Pois é isso. Esse número nem existe. Qualquer cifra, algarismo, seja negativo ou positivo, tem como resultdado algo positivo quando elevado ao quadrado. Por isso não pode existir um algarismo cuja raiz quadrada fosse negativa.
- Muito bem. Mas por que, ainda assim, não se poderia tentar aplicar a raiz quadrada num número negativo? Naturalmente, não pode dar nenhum valor real, por isso dizemos que o resultado é imaginário. É como se a gente dissesse: aqui sempre se sentou alguém, então vamos imaginá-lo hoje na sua cadeira; e mesmo que esse alguém tenha morrido, vamos fingir que está aqui.
- Mas como se pode fazer isso, sabendo com certeza, com certeza matemática, que é impossível?
- Mas a gente faz de conta que não é assim. Algum resultado vai aparecer. Afinal, não é o mesmo com os números irracionais? Uma divisão que nunca chega ao fim, uma fração cujo valor jamais aparece, por mais tempo que se calcule? E o que imaginar de duas paralelas que devem se cruzar no infinito? Acho que se a gente tivesse muito escrúpulo, não haveria matemática.
- Você tem razão. Imaginando assim, é muito esquisito. Mas o singular é exatamente que, apesar de tudo, se pode calcular direitinho com esses valores impossíveis e no fim obter resultdados palpáveis.
- Bem, os fatores imagináveis têm de se anular mutuamente durante o cálculo.
- Sim, sim; sei tudo isso que você está dizendo. Mas não permanece algo muito estranho? Como poderei me expressar? Pense bem: numa dessas contas aparecem no começo cifras bem sólidas, que podem representar metros, ou pesos, ou qualquer outra coisa concreta, ou que pelo menos são números reais. O mesmo existe no fim da conta. Mas as duas extremidades estão ligadas por alguma coisa que sequer existe. Não é como uma ponte da qual só existem começo e fim, e que ainda assim ultrapassamos, como se ela estivesse ali, inteira? Um cálculo assim me deixa meio tonto; como se um pedaço do caminho levasse Deus sabe onde... Mas o mais sinistro é a força que existe num cálculo desses, e que nos prende tanto, que acabamos afinal chegando ao outro lado."
A maioria dos críticos literários é unânime ao declarar que o livro critica as instituições (escola, governo, etc.) que aparentam uma imagem de ordem e boas motivações, contudo em seu interior é repleta de imundície e devassidão humana. Esta conclusão poderia perfeitamente se encaixar também em relação à nossa personalidade, pois mesmo querendo ser (ou parecer) bons, tramitam em nosso interior desejos e emoções desumanos. Tentando se localizar no meio desses opostos fundidos está Törless, que apesar de não concordar com as atitudes de seus colegas, nada faz para impedí-los. A sua opinião diferente é anulada pela maioria, mesmo estando certo. A individualidade é tolhida pela democracia.

Apesar do livro tratar da juventude de Törless, Robert Musil faz uma espécie de flashfoward (o oposto de flashback) em que mostra como tais experiências transformarão o jovem quando este ficar adulto. É um recurso literário interessante em se tratando de uma obra escrita há mais de 100 anos. Em 1966, foi produzido o filme alemão O Jovem Törless dirigido por Volker Schlondorff, que ganhou o Festival de Cannes e o Prêmio da Crítica Internacional. Apesar de retratar fielmente o livro e ter uma ótima fotografia, não chamaria a atenção do público hoje pois livros com apelo psicológico e interno não costumam se destacar nas telas.

Outros textos na internet sobre o livro e filme:
leitura em: Abril 2008
obra: O Jovem Törless (Die Verwirrugen des Zöglings Törless), de Robert Musil
tradução: Lya Luft
edição: 1ª, Folha de São Paulo (2003), 157 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé
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