Quando crescer eu quero ser igual ao meu pai

Madrugada. Ducha fria. Pão com margarina. Café preto quente. Beijo. Beijo. Esposa e filho. Frio. Ônibus lotado. Porcos enlatados. Trânsito. Engarrafamento. Xingamentos. Barbeiragens. Atraso. Gerente nervoso. Último aviso. Cliente chato. Mais um. Outro. Outro. Outroutroutro. Trabalho chato. Vida chata. Meio-dia. Fome. Pê-éfe. Arroz. Feijão. Bife. Ovo. Digestão relâmpago. Fome. Água, muita água. Cliente brigão. Xingamentos. Barraco. Gerente-sorriso. Cliente sempre certo. Gerente-ameaça. Empregado sempre errado. Advertência. Feladaputa. Suspensão. Ônibus lotado. Suor e cecê. Trânsito. Engarrafamento. Cansaço. Beijo. Beijo. Filho e esposa. Porta da geladeira. Contas atrasadas. Água. Energia. Aluguel. Receita médica. Tosse e febre alta. Remédio infantil. Sessenta reais na farmácia. Vinte na carteira. Ducha fria. Janta requentada. Tevê. Notícias. Inflação. Greves. Mensalão. Cachoeira. Milhões de reais. Todos inocentes. Menos eu. Noite abafada. Pernilongos. Sono ruim. Pesadelo. Fim?

A Arte de Não Ler

Lá em 2008 eu colaborava com o site OPS - O Pensador Selvagem com a coluna Palavras Mal Ditas, sobre literatura. Acontece que, por total falta de tempo minha, não consegui dar continuidade ao projeto. E parece que os administradores do OPS resolveram deletar os textos publicado por lá. Eu, que já dava como perdido todos os textos, tive uma surpresa ao me deparar com um deles vagando pela internet. Então, resolvi postá-lo aqui mesmo, já que era um texto até legalzinho.
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A Arte de Não Ler
Por Jefferson Maleski
15 de novembro de 2008

No artigo de estréia da coluna Palavras Mal Ditas, resolvi trazer algumas dicas para você não ler. Claro que este é um artigo importantíssimo em uma coluna sobre literatura! Quer saber porque? Então leia, reflita e não esqueça de comentar.

Nada melhor que estrear uma coluna de literatura falando sobre algo essencial a todo leitor: a necessidade de dominar a arte de não ler. É isso mesmo, você não entendeu errado não. Repito mais devagar e com ênfase o que eu disse: dominar-a-arte-de-NÃO-ler. Antes que você pense que eu enlouqueci de vez, explico, citando a passagem do escritor alemão Arthur Schopenhauer que inspirou este artigo. Ele disse ser “importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. [...] Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta e o tempo e energia são limitados”[1]. Embora a expressão “a arte de não ler” seja mais usada atualmente na internet para justificar uma espécie de culto ao ócio anarquista, o que pretendo aqui é algo ligeiramente diferente: enumerar dicas para que o bom leitor descubra o que não deve ler. Tenha certeza de que, se você deseja ter uma vida repleta de boas leituras, obrigatoriamente terá de aprender a identificar quais são os livros que só irão te desviar da estrada de tijolos amarelos[2]. Vamos às dicas.

Livros bons são como vinhos

Concorde comigo: você já ouviu essa ladainha milhões de vezes: os clássicos da literatura são melhores que os livros contemporâneos. E o pior é que nós acreditamos cegamente que isso é verdade sem ao menos perguntar por quê! É, esqueceram de nos dizer quais são os argumentos que sustentam esta afirmação. Empiricamente. Se eles não existissem, a assertiva seria muito superficial. Mas não é. Então, vejamos quais são alguns dos principais motivos para se ler os clássicos.

Primeiro, os clássicos sobrevivem sobre esta terra há mais tempo que eu ou você, e provavelmente ainda estarão aqui depois que nós passarmos para outro plano astral. Essa longevidade não é mera coincidência, alguma coisa eles têm diferente dos outros livros que morreram pelo caminho, muitos, antes mesmo que os seus escritores. O teste básico para saber se o clássico é de boa safra é olhar a idade: se ele tiver 50 anos de publicação e ainda estiver sendo vendido e comentado e indicado, ele merece uma lida na contracapa ou na orelha. Se tiver mais de 100 e com as mesmas características mencionadas, você encontrará mais gente falando bem do que mal dele, e existirão resenhas e críticas aos montes mostrando os segredos da sua vida longa. Agora, se o livro tiver mais de 300 anos, aproveite: ele é uma máquina do tempo que veio diretamente do passado para a nossa época! E veio justamente para levar você na viagem de volta oferecendo, como bônus, a possibilidade de repetir a excursão quantas vezes quiser.

Segundo motivo, um bom livro pede um bom leitor. Pede não, exige. A situação agora se inverte. Ou você acha que um clássico vai deixar qualquer leitorzinho de meia-tigela colocar as mãos nele? Claro que não, clássico não é pra qualquer um não. Por isso, ele escolhe a dedo os poucos felizardos que irão deleitar-se em sua companhia. Os clássicos não se dão ao desfrute, como aqueles livros que vão com todo mundo, passam de mão em mão e não se respeitam, sendo logo esquecidos e abandonados, solitários, em um canto qualquer. Por isso, se você estiver lendo um clássico, é porque ele te escolheu – como leitor – em uma pessoateca (ou pessoaria, como preferir) repleta de outras boas opções.

Terceiro, os clássicos estão mais perto do paraíso. Os seus descendentes imperfeitos, as obras baseadas, as críticas, os ensaios, as intertextualidades, as adaptações, as novas versões são como fotocópias de fotocópias de fotocópias: por mais que tentem imitar, nunca chegarão aos pés do original. Muitas obras escritas atualmente são apenas clássicos reescritos disfarçadamente. As obras originais, mesmo as produzidas por pessoas simples, são mais instrutivas, divertidas e dignas que as escritas por eruditos cuja imaginação é uma gaiola de papagaios. Se os escritores atuais bebem nas fontes originais, os clássicos, elimine os intermediários!, faça igual a eles. Só assim você terá uma base sólida para analisar profundamente a originalidade do escritor contemporâneo.

Não seja uma das outras que vai com Maria

São publicados milhares de novos livros a cada ano. Se alguém pudesse ler todos, perceberia que noventa por cento não fariam diferença alguma à humanidade se não existissem. Eu minto: fariam uma diferença danada na preservação ambiental e nas mudanças climáticas do planeta se eles não existissem. Menos livros ruins seriam mais árvores respirando. Mas, você já se perguntou: por que há tantos livros ruins no mercado? É óbvio, porque os livros ruins são gananciosos, eles querem dinheiro, não admiração. São produtos enlatados produzidos em massa e que buscam as massas. É a tendência da nossa era consumista, e ocorre não só com os livros. Nós somos bombardeados todos os dias por propagandas feitas especialmente para pensar que precisamos do que, na verdade, não precisamos. Quando as editoras identificam um nicho de mercado que possa dar lucro, acontece o que expressou um escritor brasileiro[3] recentemente: multiplicam-se edições sobre “O livreiro de Cabul, O viado de Cabul, A puta de Cabul, O doido de Cabul, O baiano de Cabul”. Por isso, não leia o que está na moda só porque todo mundo lê. “A unanimidade é burra”, ensinou o professor Nelson Rodrigues. A moda passa. Nem todos valorizam como gastar o (pouco) tempo de suas vidas com qualidade. Tais pessoas lêem por status, lêem para que os outros as vejam lendo e não para si, para enriquecerem as suas vidas. “Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva”[1].

Lembre-se que poucos best-sellers do momento serão os clássicos de amanhã: “Pouco mais de uma dúzia de obras produzida no século, [são] obras que todavia permanecem [...] [e] o reconhecimento pela posteridade costuma ser pago com a perda de aplauso por parte dos contemporâneos, e vice-versa”[1].

Mais caro não é sinônimo de melhor

Esta dica é só para ressaltar o que já foi dito: o livro ruim quer dinheiro, o seu dinheiro, e, por isso, ele bate à sua porta vestido de terno e gravata quando, na verdade, é um assaltante. Não se iluda: até o lixo, quando embrulhado em papel de presente, é levado para dentro de casa. Hoje livros são lançados com festas e pôsteres e entrevistas, como se fossem celebridades recém descobertas. Pura propaganda. Os livros gastam mais dinheiro em marketing para compensar a falta de qualidade, como aquela velha história do conquistador barato que tem carrão para compensar a falta de outra coisa. Além do que, existem as pessoas que compram os livros do momento só para terem estantes encorpadas. Porém, nunca os lerão. Por isso, ambos se merecem, e esses livros estão realmente onde deveriam estar. Portanto, dê uma olhadela na sua estante, pois ela pode revelar aspectos da sua personalidade que você não percebe. É o diga-me o que lês que eu te direi quem és.

Precisa pintar um clima entre você e o livro (ou, Deixa o livro te levar, livro leva eu...)

Ler por obrigação é coisa de estudante ou de empregado, mas é algo que já está com os dias contados. Ninguém é obrigado a fazer nada a não ser em virtude de lei[4]. E não existe lei que te obrigue a ler. Se fosse assim, as cadeias estariam (mais) lotadas (mais) injustamente. Mas não. A leitura é igual ao sexo, se não estiver sendo bom para você, caia fora, parta pra outro(a) parceiro(a). Se você não gostou da cor da capa, do título, do sobrenome do autor, do amigo chato que jogou “aquilo” na sua mão, fuja!

Mas, talvez você seja o tipo de pessoa – embora eu duvide, porque leu meu texto até aqui – que prefira tomar uma cerveja com os amigos ou passear no parque com a namorada ou fazer qualquer coisa no mundo ao invés de perder tempo com um livro. E você está absolutamente certo! A vida é curta demais para fazer o que não se gosta. Se você não gosta de ler, não leia! Simples assim. Talvez amanhã você mude, ou talvez mude o livro que estará em suas mãos. Talvez os livros que você – nas profundezas de seu inconsciente, bem lá no fundo – anseia por ler, ainda não foram escritos. Talvez os livros que você lê hoje não sejam feitos de papel ou de palavras: a natureza é um livro aberto, as pessoas são livros abertos. Contudo, se optar seguir por este caminho, o meu conselho final é só um: memorize a frase a seguir e reflita nela, e use-a nos momentos de perigo, quando você estiver prestes a ler algo: “Quanto menos se lê, mais dano provoca o que se lê”[5]. É uma frase que poderá salvar o seu dia.

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REFERÊNCIAS
1. SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2007.
2. O Mágico de Oz, de Lyman Frank Baum.
3. Antonio Torres (1940-), citado no artigo “A fogueira, as Vaidades”,
de Adriana Lisboa. Suplemento Prosa & Verso. O Globo. Edição de 11/10/2008.
4. Artigo 5º, inciso II, da Constituição Federal de 1988.
5. Miguel Unamuno y Jugo (1864-1936).

O melhor de Henry Miller é Anaïs Nin

A única meta de leitura que estipulei para 2012 foi finalizar a leitura da Coleção Biblioteca Folha (2003). No começo do ano faltavam 15 livros dos 30 da coleção. Uma quantidade razoável, se eu não tivesse deixado para lê-los somente nos últimos meses do ano, hehehe. Mas ainda acredito que consiga.

Uma das vantagens de se ler uma coleção de clássicos é a possibilidade de você encontrar um livro ruim reduzir-se exponencialmente. Por exemplo, dos 15 livros que lera da coleção, somente um - O Amante, de Margarite Duras - classifiquei como ruim. Até agora. Pois finalizei ontem a leitura do Trópico de Câncer, de Henry Miller, e não consegui gostar/entender/curtir a proposta. Item obrigatório nas listas dos 100 melhores livros do século XX, arrisco prever que deixará de ser lido paulatinamente pelas próximas gerações. Eu tive que me esforçar muito para não abandonar a leitura. Primeiro, o uso do fluxo de consciência como estilo precisa ser muito bem feito, pois em si já traz algumas dificuldades de acompanhamento na linha de raciocínio. Poucos usam bem este recurso - um destaque para O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger - e digo que Miller não está dentre estes. Um pouco devido ao conteúdo dos textos que ele escreve, misturando autobiografia com as preocupações do personagem vagabundo pseudo intelectual que só pensa/fala em (falta de) comida, (falta de) dinheiro e sexo (ruim). Os pensamentos e acontecimentos narrados são cortados por digressões filosóficas de boteco. Depois de algumas dezenas de páginas vazias o pensamento que me veio à mente foi que todo aquele que desejasse escrever um relato autobiográfico deveria antes fazer uma pesquisa se a sua vida é mais interessante que a dos seus pretensos leitores. A vida do Miller narrada em Trópico de Câncer é de dar dó, não chega nem perto de ser mais interessante que a minha, e olha que não tenho lá uma vida cheia de aventuras. Ou seja, não me cativaram em nada os relatos de pedinte por refeições e moradia em troca de sua superestimada companhia. Talvez interesse os que tenham uma vida monótona e vazia de sentido.

Os defensores do livro poderiam argumentar que ele traça um retrato da sociedade parisiense dos anos 1930. Eu discordo. Ele retrata um grupo dentro da sociedade parisiense dos anos 1930 vista pelos olhos de um escritor vagabundo, de uma forma que não consegui visualizar além da janela do quarto de bordel. Certamente foi a principal influência que levou o brasileiro Reinaldo Moraes a escrever Abacaxi (1981), pois apresenta semelhanças inegáveis, embora os eventos deste passem nos anos 1980: ambos são estrangeiros em Paris vivendo de favor de terceiros, tentando escrever o primeiro livro autobiográfico (metalinguagem) e narrando o que há de mais interessante em suas vidas, o sexo casual e vulgar. Embora também não o tenha considerado como um livro bom, a minha tendência foi gostar mais do brasileiro por trazer expressões e tiradas que acompanharam a minha adolescência. Pode até ser que exista esta mesma correlação do livro do Miller com os leitores da época - como o uso da expressão "Foda-se, Jack!" - mas como são poucos os seus contemporâneos que ainda devem estar vivos hoje, esta tática acaba deixando o livro defasado. Talvez o mesmo aconteça com o Abacaxi daqui há 60 anos.

Para tentar entender/gostar/melhorar o meu conceito do livro, pesquisei sobre o autor e vi que todos os livros que ele escreveu seguem a mesma fórmula: autobiografia + fluxo de consciência + frustrações sexuais. O que me fez decidir a não ler mais nada dele. Se já sei que os outros serão tão deprimentes quanto este, então pra que perder tempo? Pensei cá com os meus botões qual seria o motivo que levou a doida da Anaïs Nin a financiar um livro com tantos defeitos. Aí é que a coisa melhorou um pouco. Provavelmente ela fez só porque era amante dele. Ela mesma critica os defeitos do livro no filme Henry & June, de 1990, homônimo ao livro que Nin escreveu relatando as aventuras amorosas que teve com Miller e sua esposa, June. O filme é interessante por apresentar melhor o contexto da época e lugar em que o livro do Miller foi escrito, mas não o salva. Ao contrário, dá vontade de ler mais coisas de Nin, de conhecer melhor os seus textos, além dos de outro escritor debatido/apreciado por ambos: D. H. Lawrence. Enfim, vou procurar ler algo deles e depois comento a impressão que tive. Até lá, deixo o trailer do filme para os que se interessarem. Ah, o filme traz como bônus uma deliciosa Uma Thurman ainda na flor da idade.


10 Direitos do Leitor

Eu já havia falado sobre isso em 2008 quando li o livro do Daniel Pennac, mas encontrei uma ilustração bonitinha e seguindo a velha lógica de que uma imagem vale mais que mil palavras, republico.

Clique na imagem para vê-la grandona.

Uma imagem em 36 palavras (1)



tentativa 1
SMS: OBJ unknown no BD / jogando foto na rede / googlando imgs compatíveis / ligando 193
Busca: "terrorismo + bomba" = resultados insatisfatórios; "antropologia + papel" = 1 resultado compatível...
Post: gravar palavra estranha: livro.
tentativa 2
[contato inicial bem sucedido... camuflagem em objeto referência de conhecimento e sabedoria despertou curiosidade momentânea, mas logo foi abandonado e esquecido... preparem a invasão total ao planeta... seres dominantes são máquinas que controlam escravos biológicos inferiores]

Os Solteirões da Literatura


Em homenagem a este 15 de agosto, Dia dos Solteiros, pedi ajuda a alguns amigos na internet para fazer a lista dos escritores e escritoras famosos que abraçaram - por motivos diversos, claro - a solteirice eterna. Enfim, é uma lista modesta e se alguém quiser contribuir, fique à vontade.
  1. Anne Bronte 
  2. Arthur Rimbaud 
  3. Emily Bronte 
  4. Emily Dickinson 
  5. Franz Kafka 
  6. Federico Garcia Lorca 
  7. Fernando Pessoa:
  8. A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
  9. Gustave Flaubert 
  10. Jane Austen:
  11. A imaginação de uma senhora é muito rápida; pula da admiração para o amor, e do amor para o matrimônio em um segundo.

    É uma verdade universalmente aceita que um homem solteiro, dotado de uma certa fortuna, precisa de uma esposa.
  12. Lima Barreto 
  13. Manuel Bandeira:
  14. Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus - ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
  15. Marcel Proust 
  16. Marie Corelli:
  17. Nunca me casei porque não foi necessário. Tenho três animais em casa que cumprem a função de marido. O cachorro grunhe de manhã, o papagaio pragueja à tarde e o gato chega de madrugada.
  18. Mário de Andrade 
  19. Mário Quintana 
  20. Olavo Bilac

Aforismos - Julho 2012

Escolha qual você gostou mais. Todos escritos pelo Jefferson Luiz Maleski. Se quiser replicar algum deles, só peço para que mencione a autoria, ok?


Negociem-me tal qual mercadoria, ó governantes capitalistas! Um dia me vingarei: sem garantia e validade, me consumirão e passarão mal.


Meus pais me amam. Sempre pensaram haver tempo para revelarem o quanto. Acabaram o dizendo aqui, nesta lápide.


A vida ainda pode ser do jeito que você sonhava que seria. Se você está vivo, ainda há tempo de se tornar a pessoa que você gostaria de ser.


As pessoas se machucam sozinhas, quem dirá acompanhadas!


Quando eu crescer quero ser do jeito que os outros acham que eu sou.


Valorize os seus defeitos. Alguns deles podem ser o que você tem de melhor.


Enquanto alguns se deprimem mesmo no paraíso eu me divirto até no inferno.


Sou um espécime raro. Só existe um de mim em todo o Universo.


O problema de você querer ostentar a sua inteligência aos outros é eles perceberem que nem mesmo você sabe que não tem nenhuma.


Só os inocentes se apaixonam.


Neste Dia do Amigo, lembre-se: Amigo de verdade, só como eu!


Deixar tudo para a última hora é uma arte cujos brasileiros são os artistas mais expoentes.


O leitor que critica o escritor complementa seu papel, deixa de ser passivo. O escritor que critica o leitor assume que não o valoriza.


Faça aos outros o que gostaria que fizessem contigo nunca deveria ser dito na presença de masoquistas.


Motivos para alguém ser chato: inteligência, azar, desamor, genética, ócio + falta de criatividade. Destes, só o primeiro tipo se diverte.


Árduo é o caminho aonde não existe caminho.


Achava que éramos a lua e a lagoa. Mas o azar fez ela cara e eu coroa.

Sujeito Inexistente

Bem-vindo à Yotta, a única cidade em todo o planeta cinza. Não pense, com esta afirmativa, que ela é um pequeno ponto perdido em meio a uma vasta região inóspita. Pelo contrário, a cidade de Yotta ocupa toda a superfície sólida do planeta. Tanto é que o nome da cidade suplantou o antigo nome do planeta e acabou ficando conhecida como Yotta, a cidade-planeta, ou o planeta-cidade. Yotta já nasceu grande, complexa, repleta de vida e dos problemas que a acompanham. Em tempos remotos, quando a palavra cidade ainda existia no plural, estas cresceram vertiginosamente e acabaram inevitavelmente unindo-se em metrópoles que, por sua vez, cresceram em megalópoles, depois em gigalópolis, teralópolis, petalópolis, exalópolis, zettalópolis, até, por fim, chegar-se a Yotta, a única yottalópolis, a mãe, descendente e assimiladora de todas as cidades. A primeira, única e última de seu gênero.

Houve épocas em que era possível, em qualquer parte da cidade, ver o sol nascendo sob os arranha-céus a leste e se pondo nos a oeste. Mas hoje, as constantes nuvens de fuligem, fumaça e outros gases produzidos artificialmente impossibilitaram a continuidade do espetáculo relegando-o ao passado. As tempestades de chuva ácida e a exposição direta a atmosfera corrosiva com os gases tóxicos liberados pelos continentais depósitos de lixo e os mortíferos raios ultravioletas UV-J seriam outro problema a um observador desprotegido. É por isso que as ruas de Yotta passaram a ser subterrâneas, porém não menos perigosas. A disputa do espaço com os esgotos industriais e rios poluídos canalizados transformou os túneis em verdadeiras armadilhas, não raro sofrendo inundações e/ou explosões.

O planeta, antes acostumado a ser corpo celeste sem luz própria mais brilhante do universo, não possui mais a glória de outrora. Os mares invadiram grande parte dos superbairros litorâneos. Em outras localidades, terremotos e deslizamentos abriram enormes crateras e soterraram muitas construções. Os vulcões, tsunamis e furacões fizeram a sua parte no lento processo de desconstrução de Yotta. Nos polos da cidade, o inverno rigoroso congelou todo material que encontrou pela frente. Mesmo o ferro tornou-se quebradiço sob o frio extremo. Nos trópicos, o calor excessivo causava combustão instantânea ou o derretimento mesmo de produtos não inflamáveis. As tempestades de areia encobriram muitos setores sob as dunas.

A cidade deixa-se apagar lentamente, conivente, observando a sua última modificação, caminhando ao derradeiro descanso. Afinal, cumprira plenamente o seu papel como cidade. Hoje, totalmente desabitada, serve apenas de lembrança da raça extinta que nela habitou, os seres humanos. Na superfície, nos túneis, nos abrigos e nas imensas construções, somente os ossos e as cinzas deles ecoam como espectadores do lento ato final da grande cidade-fantasma de Yotta.

La Maison Dieu

Um conto antigo que achei ao limpar os rascunhos da minha conta de email hoje. Não lembro porque o escrevi nem a motivação. Não  foi revisado.
Na parte mais alta do castelo, há uma sala com uma mesinha ao centro. Em cima da mesa, um tabuleiro monocromático apresenta algumas peças caídas de ambos os lados. Uma jovem o observa em silêncio. Sentada, mãos sobre os joelhos trêmulos, cabelos encobrindo-lhe sobre a face, respiração irregular, lágrimas escorrendo involuntárias. Vez por outra, ela limpa o nariz com a palma da mão e tenta olhar o jogo turvado por fios dourados e gotículas de água. O que olha lhe causa dor. Mental. Física. Emocional. Mas ela não vê apenas peças estáticas à sua frente. Sim, ela vê as peças à sua frente, mas vai além. Em sua imaginação, peças criam vida e movem-se sozinhas em uma lógica matemática incontestável. Para cada movimento um contra movimento. Para cada contra movimento um contra contra movimento. As jogadas são antecipadas três, cinco, dez casas, até a exaustão. Sua lógica entende, mas ela não aceita como todas as opções terminam no mesmo ponto. Ela se recusa a aceitar que perdeu. Se recusa a aceitar o que perdeu. Em sua memória, ainda sente o riso alto e a voz grave lhe subjugando, agora você é minha, princesa. Conduzida em estupor para o leito, fixa o olhar no tabuleiro recordando as jogadas que a levaram até ali. Tentar refazer os passos e descobrir aonde errou a fazem esquecer-se da dor que o homem passa a infringir ao seu corpo virginal. Era impossível perder. Ela não perdera.

Aliás, quem é o jogo e quem é o jogador?