Sthepen King fala sobre Under the Dome

Entrevista do escritor norte-americano Stephen King, em 5 partes, para a crítica literária Janet Maslin, do New York Times, sobre o livro Under the Dome, entre outros assuntos.



A opinião de Stephen King sobre a religião.



Razão e Terror



Tentando escrever "Under the Dome"



Conselhos para quem quer ser escritor

O hífen na nova ortografia

O site da Editora Abril fez um quadro bastante interessante sobre as novas regras para o uso do hífen. Vale a pena imprimir ou decorar, dependendo da necessidade (ou do nível de CDF em seu sangue). Diz ele:

O hífen desapareceu em algumas palavras compostas que perderam a noção de composição, por exemplo: pontapé, girassol, paraquedas, paraquedista. O uso do hífen mudou também com alguns prefixos. Consulte a tabela abaixo para saber quando usar corretamente.

Clique na imagem para ampliá-la.

Claustrofobia

Claustrofobia: s.f.; do latim claustrum (lugar fechado) + phobos (medo); Ocorre quando as paredes e o teto conspiram para te sufocar e esmagar e ainda convencem os outros que você tem problemas mentais.

Imagem-tema proposta no Meia Palavra.

Novidades da 16ª semana de 2010

Algumas leituras e visualizações da semana que gostaria de compartilhar.

1. Saiba o que é ser um mindfucker lendo a entrevista que o Alex Castro concedeu no Portal Literal.

2. Entrevisa do escritor Fabrício Carpinejar no Jô, em duas partes, sobre o seu livro Canalha. Youtube 1 - Youtube 2 (apesar de não serem os vídeos de melhor qualidade, são os mais completos)

3. Narração nada a ver do que você pode fazer dentro do Exército Brasileiro. Aliste-se! no Youtube

4. Pensamento feminista da semana: "Bicho infeliz é o homem: tem peitos sem leite, ovos sem casca, passarinho sem asa e o pior de tudo, saco sem dinheiro!"

5. A santa ceia com atores do seriado Lost (clique na imagem para ampliar).

Contemplação

Contemplo uma das sete maravilhas do mundo moderno, de 2.230 anos de idade, construída por um milhão de chineses, sobre 250 mil cadáveres enterrados, visível do espaço sideral, e sem nenhum banheiro feminino.

Imagem-tema proposta no Meia Palavra.

Como ser maior que a Sofia Loren

Isabel Allende, escritora chilena feminista e ativista, autora do livro A Casa dos Espíritos, mostra como a literatura pode ser um instrumento de crítica e mudança social. Fala também sobre as Olimpíadas de Inverno de 2006 na Itália, quando foi uma das cinco representantes femininas a carregar a bandeira olímpica, junto com a diva Sofia Loren, sempre com o seu bom humor e inteligência característicos. O vídeo abaixo possui a opção View subtitles para escolher a legenda em português e um ícone no canto superior direito para assistir em tela inteira.

É proibido, Autoria desconhecida


O poema abaixo é um dos muitos que circulam pela internet que os leitores mais atentos costumam desconfiar da autoria. Apesar de atribuído a Pablo Neruda, Queda Prohibido não lembra em nada o estilo do escritor chileno e não aparece no catálogo de obras disponível no site da Universidad de Chile. Recentemente, Alfredo Cuervo Barrero reivindicou a sua autoria, apesar dos dois textos serem bem diferentes. Se o texto abaixo é uma versão do texto de Barrero ou se alguém utilizou-se do nome de Neruda para propagar a sua inspiração não sabemos, mas uma coisa é certa, ele não é do Pablo.

É proibido (Autoria anônima)

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.

É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.

É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.

É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.

É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.

É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.

É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.

É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.

É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Mande o gênio que existe em você se danar

Elizabeth Gilbert, autora do best-seller Comer, Rezar e Amar (que virou filme estrelado com a Julia Roberts), deu uma palestra para o TED explicando um pouco sobre o seu processo criativo, bem como os problemas que costumam afetar a todos os artistas, especialmente os escritores, que precisam lidar diariamente com as pressões que uma carreira criativa traz. O vídeo abaixo possui a opção View subtitles para escolher a legenda em português e, para assistir em tela inteira, clique no ícone no canto superior direito.

Frases de Terry Pratchett


Terence David John Pratchett, (28 de Abril de 1948 - ) é um escritor inglês, mais conhecido pelos seus livros da série Discworld.

Escrever é a coisa mais divertida que alguém pode fazer sozinho.

Uma boa livraria é só um buraco negro educado que sabe ler.

A luz acha que viaja mais rápido que tudo, mas está errada. Não importa quão rápido a luz viaje descobre que a escuridão sempre chega antes e está a sua espera.

A inteligência de uma criatura conhecida como multidão é a raiz quadrada do número de pessoas dentro dela.

A maioria dos deuses joga dados, mas o Destino joga xadrez, e você não descobre até que seja tarde demais que ele estava jogando com duas rainhas o tempo todo.

Nós estamos todos no mesmo barco. Certamente podemos tentar empurrar uns aos outros para fora, mas só um maníaco iria fazer um buraco no fundo.

Dê fogo a um homem, e ele ficará aquecido por um dia. Ponha um homem no fogo e e ele ficará aquecido pelo resto de sua vida.

Tudo começa em algum lugar, ainda que alguns físicos discordem.

Fantasia é uma bicicleta ergométrica para a mente. Ela pode não te levar a lugar nenhum, mas tonifica os músculos que pode. É claro, eu posso estar errado.

Cinco pontos de exclamação, o sinal certo de uma mente insana.

Em tempos antigos os gatos eram adorados como deuses; eles não se esqueceram disso.

No começo não havia nada, e isto explodiu.

Geralmente dizem que quando você morre sua vida passa diante dos seus olhos. Isso é verdade. Se chama viver.

Apenas em nossos sonhos somos livres. No resto do tempo precisamos de salários.

As vezes é melhor acender o lança chamas do que amaldiçoar a escuridão.

Impostos são apenas uma maneira sofisticada de exigir dinheiro com ameaças.

A caneta é mais poderosa que a espada se a espada for muito pequena, e a caneta muito afiada.

O problema de ter uma mente aberta, é claro, é que as pessoas insistirão em vir e tentar colocar algo dentro dela.

A verdade pode estar lá fora, mas as mentiras estão na sua cabeça.

Eles dizem que pouco conhecimento é algo perigoso, mas não é nem metade tão ruim quanto muita ignorância.

Você não pode atropelar os infiéis quando você é uma tartaruga. Quero dizer, tudo que você pode fazer é dar a eles um olhar maldoso.

Segredo

Amava-a tão secretamente que ele mesmo não sabia.

Amor incorpóreo

"Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada."
Camões



Metódico. Perspicaz. Perfeccionista ao extremo. Brilhante. Assim era qualificado o doutor Sato pelos seus companheiros de profissão. Mas não somente por eles, pois a sua fama o precedia desde os dias de estudante, ainda na infância. O pai, médico japonês que migrara no período pós-guerra, era exigente em educar o pequeno Matsui Sato, que desde cedo se mostrou perfeito para a medicina, pois possuía a capacidade analítica de escolher o melhor e mais curto caminho até alcançar a perfeição, e aprimorar-se nele ao extremo. Sato refletiu, por exemplo, que para ser um médico melhor que o pai, não poderia deixar que as suas emoções o atrapalhassem, então decidiu eliminar qualquer vestígio delas de sua personalidade. Tornou-se um ser exclusivamente racional antes mesmo de começar a conviver em sociedade. Na escola, era sempre visto com desconfiança pelos outros alunos, pois tirava as melhores notas sem conversar ou enturmar com ninguém, nem com os professores. Parecia não lhe fazer falta. O mesmo aconteceu na universidade e na profissão.

Metódico. Perspicaz. Perfeccionista ao extremo. Brilhante. Eram as qualidades que gostaria que o pai reconhecesse nele quando era pequeno. Mas, com o passar dos anos, foi perdendo cada vez mais o interesse pelo que os pais e outros parentes pensavam. Depois de formado, mudou-se para outra cidade em que poderia ascender rapidamente em sua carreira e só voltou a ver os pais em seus funerais. Novamente, a escolha racional de Sato foi afastar-se completamente de toda a família, pois estes não acrescentariam nada a sua carreira.

Bela. Atraente. Sensual. Perfeita e discreta. Eram os atributos exigidos para a acompanhante de luxo contratada para acompanhar o novo diretor do Hospital Internacional em seu coquetel de boas-vindas. Na agência, Paula era a que mais se encaixava dentro do generoso cachê oferecido pelo cliente. Apesar de ter sido escolhida pela internet, preparou-se de tal forma que faria qualquer primata do sexo oposto parar de respirar por alguns segundos quando a visse. Afinal, um cliente satisfeito é um cliente fiel. Foi apanhada pela limusine em sua casa, e no carro conheceu o seu homem: meia-idade, tão sério quanto imponente, bonito. O jogo de sedução de Paula pareceu dar certo, pois a noite inteira todos os homens, incluindo o diretor, não tiraram os olhos de seus dotes e decotes. Paula conseguiu o que queria: dormir no apartamento de Sato. A noite foi um sucesso para ambos.

Bela. Atraente. Sensual. Perfeita e discreta. Não que isto importasse para o doutor Sato, mas havia algo em Paula que causava-lhe um aperto no peito. Era uma sensação nova para ele e, portanto, perturbadora. Incapaz de se auto diagnosticar, orientou-se pelo senso comum dos colegas, que desde o dia de sua promoção não paravam de comentar que ele era um homem de sorte por ter uma companheira tão bela e tão sensual. Diziam que provavelmente apaixonara-se por ela. Com certeza, pensou, ela lhe abriria inúmeras outras portas que ele sequer pensava existir. Após outros encontros, fecharam o que seria o melhor negócio para ambos: o casamento. Não antes dele submetê-la a uma bateria de exames médicos que a comprovassem sem imperfeições para ele. E, enquanto ela pensava estar com sua vida garantida ao lado de um marido apaixonado, ele acreditava poder desvendar, finalmente, os segredos das emoções humanas.

Doloroso. Lento e fragmentado. Mortífero. Foi o casamento de Paula com o doutor Sato. A cerimônia particular não contou com nenhum parente, os dele não foram convidados, os dela não conseguiram vistos para entrarem no país em que Paula imigrara ilegalmente. Sempre pensou que o noivo era tímido, até descobrir que era louco. Certa manhã, acordou em uma cama de hospital, anestesiada. Tentou chorar. Tentou gritar por ajuda. Mas não. O doutor a observava e repassava instruções para os seus subordinados. Paula não entendeu o que havia acontecido, mas começou a perceber que os seus sonhos provavelmente seriam somente sonhos.

Doloroso. Lento e fragmentado. Mortífero. Foi a intervenção cirúrgica que o doutor Sato aplicou em sua esposa. Ele queria localizar o que dentro daquele ser lhe causava aquelas estranhas sensações. Para entender melhor, com o seu cérebro excepcional, o que havia de diferente dentro de Paula, ele precisava senti-la dentro de si. Primeiro, começou com os olhos, e colocou a sua equipe para transplantar as córneas da esposa para ele. Tudo devidamente justificado e autorizado. Todos pensavam que a esposa do diretor do hospital sensibilizara-se com a condição terminal do marido e tentava salvá-lo a todo custo. Era um amor incorpóreo, que aos poucos doava tudo o que tinha: rim, fígado, medula óssea, pâncreas, pulmão. Até chegar ao coração. O transplante foi um sucesso, assim como a experiência do doutor. Tão logo recobrou a consciência após a operação, ele compreendeu. Nos primeiros batimentos de seu novo coração, sentiu um amor incondicional pulsar vivo dentro do seu peito. E esse amor chamava-se Raul.


Tema "Locais improváveis para se encontrar o amor" proposto no Duelo de Escritores de 01.04.2010.

Oração da Serenidade, de Reinhold Niebuhr

Karl Paul Reinhold Niebuhr foi um pastor protestante americano que escreveu em 1937 a oração que seria usada tanto por religiosos quanto por grupos de apoio como o Alcoólicos Anônimos e o Neuróticos Anônimos. Somente o seu título aparece em quase quatrocentas mil páginas no Google.

Serenity Prayer
"God grant me the serenity to accept the things I cannot change, Courage to change the things I can change, And wisdom to know the difference. Living one day at a time; Enjoying one moment at a time; Accepting hardships as the pathway to peace; Taking, as He did, this sinful world as it is, not as I would have it; Trusting that He will make all things right if I surrender to His Will; That I may be reasonably happy in this life and supremely happy with Him Forever in the next. Amen."

Oração da Serenidade (tradução)
"Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença: vivendo um dia a cada vez, aproveitando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para a paz; indagando, como fez Jesus, a este mundo pecador, e não como eu teria feito; aceitando que o Senhor tornaria tudo correto se eu me submetesse à sua vontade para que eu seja razoavelmente feliz nesta vida e extremamente feliz com o Senhor para sempre no futuro. Amém."

TEMA: Anão de Jardim


O UNIVERSO CONSPIRA

Quarta-feira

Eu detesto anões de jardim. Na verdade, eu detesto apenas um anão de jardim, o meu vizinho. Desde que aquele tampinha de garrafa mudou para a antiga casa dos Sousa, a minha paz acabou. E eu senti o gosto amargo do adágio pigmeu que diz que os melhores perfumes vêm nos menores frascos, assim como os venenos mais letais. No meu caso, posso afirmar que a parte do veneno é a pura verdade. Mas eu nem sempre fui tão azarado, antes do projeto inacabado de gente habitar a casa ao lado, até me considerava um feliz pai de família. A Matilda diz que eu exagero, mas ela tem um coração muito bom para ver a ameaça que aquele pintor de rodapé vem fazendo à minha coronária nos últimos meses.

Quinta-feira

Como é possível uma amostra grátis daquela ter um carro melhor que o meu? Não só mais novo, mas mais caro! As únicas profissões que consigo imaginar um nanico daqueles trabalhando é como jóquei de calango, piloto de autorama, cantor de rádio de pilha, ator de microfilme, segurança de berçário, lenhador de bonsai, salva-vidas de aquário, atacante de futebol de botão, Tarzan de samambaia ou paraquedista de meio-fio. Ah, e tem também o bom e velho pintor de rodapé. Ha ha ha, eu me divirto. Mas me deixa triste saber que eu, logo eu - que dei duro durante vinte e seis anos como segurança de supermercado ajudando velhinhas a carregar sacolas plásticas cheias de enlatados e espantando maconheiros do estacionamento - não consigo me olhar no espelho sabendo que um pouca sombra qualquer vai me esnobar, com um carrão na garagem ao lado da minha. Me diga porquê, meu Deus, as pessoas boas têm de sofrer? Será esta a minha penitência? O meu consolo é que está na cara o que ele está compensando.

Sexta-feira

Aquele toco de amarrar bode não me engana. Pensa que sou bobo em acreditar nas suas bajulações vazias, quando traz presentes para todos aqui em casa dizendo que está voltando de viagens ao exterior? Nã-nã-ni-nã-não, ninguém engana o papai aqui. Na certa ele foi para o Paraguai, isso sim! Mesmo que a garrafa de Blue Label pareça original e que a Matilda diga que o perfume que ganhou seja francês. São mercadorias roubadas, só pode! Também, com aquele tamanho todo, o anão de jardim só pode trabalhar invadindo casas, entrando pela portinha do cachorro ou descendo por alguma chaminé. Taí, não tinha um filme que treinavam macacos para fazer isso? Pensando bem, não, não pode ser, pois todo mundo sabe que macacos são mais espertos que qualquer Barney Rubble.

Sábado

Eu bem que desconfiei quando a Matilda fez churrasco E vitela. Os dois são os meus pratos favoritos, mas ela simplesmente nunca fez ambos no mesmo dia! Era esmola demais. Antes do almoço ela serviu dois copos do Blue Label, que não posso negar, estava saborosíssimo! Foi só quando me chamou para a mesa que percebi que tínhamos convidados, ou melhor, a metade de um convidado, o bendito pigmeu. Só não o expulsei de casa porque Matilda me beliscou e cochichou ao meu ouvido que ele é quem tinha fornecido as carnes. Na certa era para me envenenar, o capetinha! Mas como achei que ele não faria isso com a Matilda e com as crianças - que parecem apreciar a companhia dele - resolvi experimentar. Estava maravilhosa a carne e, só para dar o maior prejuízo para o pitoco, repeti o prato várias vezes. Seria a minha vingança silenciosa, comeria toda aquela carne até ele ficar pobre. Mas era muita carne, e parei quando já estava empanturrado. Quando pensei que ele iria embora, vi ele se aproximar da Julia, a minha Julinha, pegar na mão dela e dizer que os dois tinham algo importante a anunciar. Disse que ela estava grávida dele e que iriam se casar em três meses! Não sei se foi o excesso de carne que eu havia comido ou se foi imaginar a cena daquele anão cavalgando em cima da minha Julinha ou de ver sete nanicos pulando aos meus pés me chamando de vovô Branca de Neve que me fizeram mal naquele dia, mas o fato é que infartei ali mesmo, espumando de raiva, apesar de todos acharem que era o antiácido voltando.

Domingo

Dizem que ter anões de jardim no jardim traz sorte ao morador. Isto porque reza a lenda que eles enterram ouro e só eles sabem o lugar. Não acreditem nisso, os anões de jardim só trazem sorte para eles mesmos, enquanto amaldiçoam todos ao seu redor. Mas hoje eu estou me sentindo com sorte, pois termino a tarefa que o psiquiatra deu semana passada e finalmente vou poder voltar à minha rotina de descanso por causa do estresse. Até porque eu odeio ter de escrever neste maldito diário tudo o que me frusta. No fundo, acho que é vingança daquele psicólogo gordinho rolha-de-poço parente de uma orca comedora compulsiva, só porque eu sou mais magro do que ele. Descobri que odeio psiquiatras. Também odeio escrever diários. Não tanto quanto odeio os anões de jardim, é claro, mas odeio.

Desafio proposto no blogue Duelo de Escritores em 21/03/2010.

Dicas de estilo (sem estilo), de Chico Viana

1 - Interjeições excessivas? Evite-as!!!!

2 - Não abuse de metáforas futebolísticas. Esse tipo de tabelinha com a linguagem do futebol nem sempre satisfaz a galera. O leitor pode se sentir driblado e dar cartão vermelho para o escritor, mandando-o antes do tempo para o chuveiro.

3 - Falhas na concordância denuncia falta de conhecimento gramatical. Evite-a.

4 - Não misture as pessoas gramaticais. Tu podes pode fazer isso quando usares a linguagem coloquial, mas nunca em sua redação para vestibular ou concurso. Nela escrevemos com alguma formalidade e você tem que seguir a norma culta.

5 - Das inversões fuja. Comprometem elas das idéias a clareza.

6 - Evite repetições, pois elas dão a impressão de que o texto não progride. Repetir gera no leitor a sensação de que as idéias ficam no mesmo lugar, não evoluem. Quem repete permanece no mesmo círculo de idéias e faz o texto circular em torno de um mesmo tema, sem sair do canto.

7 – Tenha cuidado ao usar as reticências, pois elas... lacunas no pensamento e... sem saber direito o que o autor quer dizer.

8 - As longas intercalações entre sujeito e predicado, por fazer o leitor esquecer o que o que foi dito no início, levando-o a suspender a leitura e ter de reler toda a frase, o que termina prejudicando a compreensão do texto como um todo, devem ser evitadas.

9 - Evite exageros. A hipérbole é o pior entre os piores pecados que podem acometer um escritor em todos os tempos.

10 - Há que escoimar o texto de vocábulos preciosos ou pernósticos. O uso de tais palavras é próprio dos alarves e apedeutas. Indica, outrossim, uma mente deslumbrada com as reverberações de um saber despiciendo, que leva a conclusões inanes sobre os transcendentais enigmas do Homo sapiens.

11 - Prefira a linguagem denotativa; ela é um lago transparente de onde emerge com clareza o sentido das palavras.

12 - Evite em seu texto manifestar preconceito contra as mulheres. Do contrário, elas vão reclamar de você o tempo todo sem lhe dar chance de se defender. Mulher – todo o mundo sabe – não tem paciência para compreender as razões do outro e termina transformando o que deveria ser um diálogo esclarecedor num monólogo interminável – em que, obviamente, só ela fala.

13 - Medite nesta verdade preciosa: rima é bom em poesia, não em prosa.

14 - Fuja dos enunciados vagos e genéricos. Eles dão aquela sensação de algo que não se sabe bem o que é, embora todos de alguma forma já tenham sentido em certos momentos da vida. Alguns têm disso uma longínqua idéia, mas só conseguem defini-la em determinados contextos ou por algum tipo de sugestão diferente da que experimentaram no início, antes de tudo fazer sentido. Ou não.

15 - Ao estar fugindo do gerundismo, você não estará fazendo mais do que sua obrigação. Vá ficando atento.

16 - Você acha que o excesso de perguntas retóricas torna mais eficiente o seu texto? Será que elas necessariamente facilitam o diálogo com o leitor? Ou podem deixar o discurso redundante, sugerindo questões que na verdade não existem? Não será melhor usar frases afirmativas, deixando logo claro o que se quer dizer?

17 - Portanto, não inicie o texto pela conclusão. Comece-o mesmo pelo começo, apresentando o tema e depois os argumentos.

18 - Um texto com excesso de “que” parece que tropeça a cada momento e mostra que a pessoa que o produz tem que melhorar o ouvido.

19 - Sem essa de gírias, mano. Se você, tipo assim, se amarra nesse tipo de modismo, mostra que não tá com nada. Com certeza.

20 - Seja evitado em sua redação o excesso de voz passiva analítica, para que você não seja visto pelo leitor como alguém a ser desprezado.

21 - É bom moderar o uso da mesóclise. O bom escritor evitá-la-á em nome da simplicidade, pois a colocação do pronome no meio do verbo trar-lhe-ia aspereza acústica e transformá-lo-ia num monstrengo aos ouvidos de hoje.

22 - Evite. Fragmentar o período. Pois isso é uma grave falha. Gramatical e estrutural.

23- Sei que é difícil fugir das frases feitas, mas faça um esforço. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Fonte: Blog de Chico Viana