Sublimação

O movimento no pequeno café na esquina revelava que mais um dia de trabalho estava começando. Manhã de quinta-feira. Dos clientes que por ali passavam apressados, destoava a imagem semi-estática de três mulheres sentadas na mesma mesa, alheias ao mundo ao redor. Os seus movimentos eram lentos, quase premeditados. Os olhares pouco se cruzavam, mas mesmo assim diziam muito, como em um encontro de telepatas ou de velhas conhecidas. Alguém que não tivesse atrasado para o serviço e pudesse observá-las por um tempo poderia afirmar que não, elas não faziam parte da decoração.

A primeira mulher, loira, com cerca de trinta e cinco anos, mas que a maquiagem carregada fazia parecer mais nova, usava um sobretudo bege e um lenço de seda no pescoço que lembrava uma onça pintada que não destoavam do leve frio matinal. Era a mais velha das três, embora a sua postura a habilitasse a competir de igual com as outras duas. A quantidade de jóias que usava faria qualquer um pensar que era rica. Olhava para a xícara enquanto mexia com uma das mãos uma colherzinha. Chá de camomila com mel. Uma volta para cá. O mesmo que ele bebera com ela na primeira manhã que acordaram juntos. Uma volta para lá. Foi naquele dia que ela voltou a acreditar em príncipes encantados. Ele a fizera acreditar que ela ainda poderia ser sexy e fazer um homem mais novo interessar-se por ela. Depois de cinco anos casada com um jogador de futebol violento dentro e fora de campo, dentro e fora do quarto – e que agora era violento na cadeia depois de matar uma das amantes – e do divórcio amargo passando pelo papel público de esposa traída, só conseguia sentir que gastara à toa os últimos anos de sua vida tentando consertar o que não havia conserto. Um vazio no coração só se cura com um novo amor, foram as palavras dele ao notá-la sozinha no bar do restaurante. Não fazia o tipo galã, mas algo nele a assanhava. E o canalha era bom de papo, falou exatamente o que ela não só queria mas ansiava, precisava ouvir. Praticamente um psicólogo. Do primeiro drinque à primeira noite juntos foi questão de minutos. O sexo que ela experimentara antes nunca fora tão bom. Transformara-se em uma personagem de Sabrina nos momentos mais picantes e, diferente da brutalidade do leito conjugal, ele passava horas acariciando o seu corpo nu, fazendo-a arrepiar-se de tesão. Descobriu que gostava de foder, que era capaz de ter orgasmos múltiplos e que transar em locais públicos a excitava. Ele era perfeito demais para ser verdade. No começo ela desconfiava, mas se maravilhava ao contar tudo o que ele fazia com ela para as amigas. Todas queriam conhecê-lo e quando o conheciam morriam de inveja. Ela só não entendia quando ele pedia para que não se apaixonasse. Mas foi inevitável. Assim como foi inevitável perceber, quando ele a deixou, que levou junto grande parte do seu dinheiro. Talvez tenha se impressionado pelo seu estereótipo de homem ideal, o cavalheiro safado, e esqueceu que se tornara vulnerável para ser desfrutada. Ele a fodera da melhor e pior formas possíveis. Agora, com o chá frio na xícara, pensava como viveria sem ele.

A segunda mulher, morena de dezenove anos cujos olhos azuis destacavam-se devido os longos cabelos lisos e negros, vestia uma jaqueta de couro e uma camiseta de alguma banda de rock alternativo. Olhava pela janela o sol matutino ainda fraco lá fora. Alguns cachorros perseguindo animados uma cadelinha lembraram alguém a currando com violência. Sempre tivera curiosidade em sadomasoquismo, mas dera o azar de namorar somente caras conservadores na hora do sexo. A beleza costuma atrapalhar quando uma mulher quer ser tratada como uma vadia. Ele foi o primeiro não só a notar este desejo, mas a satisfazê-lo por completo. E pensar que no perfil do Orkut nem revelava muita coisa, nem mesmo a foto, pois queria alguém que não se interessasse só pela aparência. Ele a convenceu a se encontrarem para um chope com a mesma rapidez que a ensinou a suportar toda dor e humilhação que lhe causava durante o sexo. Sentia imenso prazer com as surras que ele lhe dava, assim como o saco de pancadas sente com o boxeador. Atingiu o orgasmo pela primeira de várias vezes com ele a torturando. Quando ele falava “só não vá se apaixonar” ela replicava um “você também”, embora sabia ser inexperiente no assunto. Foi com ele que fugiu da casa dos pais para Arraial D’Ajuda. E foi lá que ele a abandonou, sangrando e gozando, amarrada, sozinha e sem dinheiro em um quarto de motel barato. Não se importou em sair na página policial do jornal sensacionalista local pois voltou para casa assim que o pai lhe mandou o dinheiro da passagem. Não prestou queixa na polícia porque… o pensamento que viria a seguir foi cortado pelo ônibus passando em alta velocidade, pensamento que provavelmente admitiria aqueles terem sido os melhores dias da sua vida. Ao olhar para as outras na mesa, perguntou-se se ele as teria completado da forma que a completara.

A terceira mulher, olhava cabisbaixa para as mãos, que suavam. Mais nova que a primeira e mais velha que a segunda, também era morena, mas diferente da outra, poderia até ser considerada mulata se a miscigenação racial no país não fosse tanta ao ponto não haver nomenclatura para os descendentes dos miscigenados dos miscigenados dos miscigenados. Mantinha como características da mãe a vasta cabeleira negra de pequenos caracóis suspensos no ar, os lábios carnudos que soube desde menina serem bons de beijar, os seios e traseiro voluptuosos capazes de fazer operários, motoristas e pais de família sentirem uma abrupta vontade de assoviar. Do pai herdara o senso de humor e a tez clara. A combinação exótica facilitou com que começasse a namorar cedo. Tanto que se casou com o segundo namorado, o amigo da época do colégio, pertencente à mesma igreja do bairro. Julgava-se feliz até atender aquele homem no trabalho. Quero aquele par de brincos, por favor. E depois de pagá-los, presenteou-a com eles. Apesar de todo o recato de mulher casada e temente a Deus e da honestidade familiar que a instigaram a recusar, como de fato o fez, ele a convenceu que não queria mais do que deixar uma bela moça feliz. Deixou-lhe o seu cartão em troca de um sorriso, dizendo que gostaria de tirar algumas fotos profissionais dela, embora no cartão aparecesse a palavra advogado. Ela e o marido trabalhavam duro e o dinheiro era pouco. O casamento nunca entrara em crise e ela refletiu que um dinheiro extra poderia diminuir algumas contas atrasadas da porta da geladeira. Os brincos ela não venderia, afinal não se faz isso com presentes, mesmo de desconhecidos, principalmente se forem tão belos. Apresentou-se no apartamento indicado no horário marcado e deparou-se com um homem charmoso que lhe ofereceu champanhe. Para não fazer feio, aceitou embora fosse fraca para a bebida. Ele lhe dizia frases espirituosas e a deixou relaxada. Um fogo abrasador nunca antes sentido acendeu-a por dentro, e não se impôs quando ele pulou sobre ela, caçador atacando a caça, rasgando as suas roupas, puxando cabelos, arranhando as costas e fazendo-a gritar ao mesmo tempo em que gozava em sua boca. Entre gemidos, pernas tremendo e pele suada, confessou que, perdera a virgindade, ao menos algum tipo de virgindade, ali, naquele carpete de apartamento. Largue o seu marido e fique comigo, mas só ficar, sem compromisso de paixão ou amor. Foi o que ela fez. Ou tentou fazer. O melhor amigo, aos soluços, entendeu. Quero te ver feliz, mesmo que com outro. E feliz ela foi, por longos e prazerosos dois meses. Até ele a trocar por outra. Sentiu-se um lixo, depois sentiu raiva de si mesma, depois sentiu raiva dele. Ele a usou, abusou e jogou fora. Resolveu segui-lo e ver por quem havia sido trocada. Mas a grande surpresa foi ver a outra também ser abandonada depois de um tempo. E a outra. E a próxima.

As três dirigiram os olhares para a porta quando o homem por quem esperavam entrou. Ele estava sozinho e, de certa forma, sentiu-se desconfortável ao se aproximar. Era a primeira vez que falaria com as três juntas. Mas era preciso. Sentiu um certo orgulho ao perceber que as três lançavam olhares rancorosos em sua direção. Elas sabiam que ele era mau, muito mau, e ele se divertia com isso. Aproximou-se, educadamente pediu licença e sentou ao lado da loira.

- Muito bom dia, senhoras. O serviço está feito, o corpo não será encontrado. Espero que tenham trazido o meu dinheiro.


Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores de 21.07.2010, com o tema anti-herói.

Editora Impetus

A Editora Impetus, utilizando um trecho do texto Escritores Sem Fronteiras que escrevi em homenagem ao Dia do Escritor, em 2008, enviou a imagem abaixo por email para todos os escritores do seu catálogo. Não preciso nem falar que achei a composição toda de muito bom gosto. Olha só as fontes. As imagens. As cores. E presta atenção no texto que maravilha...

Pós Dia do Amigo

Ontem foi o Dia do Amigo. Isso mudou muito a minha vida. Bah, é mentira. Eu poderia ter escrito esse texto ontem - até economizaria um pós no título - mas sou sempre do contra quando todos resolvem ir em uma direção sem pensar porque vão para lá. Talvez, se ninguém estivesse falando do Dia do Amigo e se não fosse mais um modismo empurrado pela mídia eu teria escrito esse texto ontem. Talvez eu escrevesse sobre o Dia do Amigo no Dia do Amigo. Mas não.

Amigo do peito. Amigo de fé. Amigo imaginário. Mui amigo. Amigo da onça. Amigos para sempre. Amizade colorida. Tudo isso é sobre o que não vou falar aqui. Nem vou falar do argentino que teve a idéia de criar o dia do amigo no mesmo dia em que o homem pisou na lua porque, segundo ele, abriu-se a oportunidade de se fazer amigos em outras partes do Universo. Rá. Argentino idiota. Ele só esqueceu de mencionar quem eram os amigos dele e perdeu a chance de eternizá-los. Tirando os lunáticos e os fãs nostálgicos do filme ET, particularmente não conheço ninguém desde 1969 que tenha feito sequer um amigo alienígena. Pelo contrário, muitos perderam amigos depois que algumas naves, literalmente, foram para o espaço. E não consigo me imaginar sendo amigo de um ser interplanetário, chamando um marciano pra um churrasco aqui em casa. Preconceito? Não, questão de gosto estético mesmo. Mas se aparecesse alguma alien igualzinha a Jessica Alba na minha frente eu iria ser bem mais que amigo, no mínimo uma amizade bem profunda.

Meus amigos não são estes "estereotipinhos" que aparecerem no Dia do Amigo. Não são aliens ou manequins de vitrine. Eles não precisam de um dia específico para que eu me lembre deles. Aliás, desculpinha sem-vergonha essa de criar um dia só, para se lembrar de alguém, não? Feliz Aniversário, fulano, muitos anos de vida. Isso depois de um ano sem trocar duas palavras com o fulano e levando um presentinho ordinário que ele depois não vai saber onde enfiar, já que quem deu o presente foi embora logo após comer três pedaços de bolo e deixar toda a louça pra lavar. Feliz Dia dos Namorados, meu amor. E o presente vem sempre acompanhado de algo a mais por trás. Estou falando de intenções, seu malicioso. Pode prestar atenção: ou se dá o presente no Dia dos Namorados esperando ganhar outro, do mesmo valor, é claro, ou se dá o presente querendo apimentar um pouco mais a relação naquele dia. Avançar pelo menos uma base, como dizem os norte-americanos. Não que eu considere totalmente ruim, mas esperar um ano inteiro pra isso é falta de espontaneidade e atitude. Depois não sabem porque o Ricardão chegou antes e fez tudo o que você esperou tanto para sugerir. E sem dar presente algum. Feliz Natal! Época de nos reunirmos com a família e refletirmos sobre o nascimento do salvador da humanidade e a paz entre os homens. Paz para quem, cara-pálida? O que geralmente acontece é um campeonato para ver quem come mais, bebe mais, fofoca mais, mente mais e atura mais aquele tio bêbado torrando a paciência pedindo dinheiro emprestado para a sua última ideia de negócio milionário. Demais, não? Feliz Páscoa! Feliz Ano Novo! Feliz Hanuká! Feliz dia de Finados! Bah.

Meus amigos não estão vinculados a datas. Aparecem algumas vezes nas horas certas, mas sempre nas erradas. Amigo que não empata pelo menos uma foda não é amigo. São os que riem comigo, de mim e quando rio deles. Amigo bebe a marca de cerveja barata que você comprou, mesmo sabendo que vai ter uma ressaca desgraçada no dia seguinte. É o amigo que te apresenta a amiga feia da garota bonita com quem ele tá saindo, só pra você fazer a mesma coisa na próxima vez. Afinal, amigo que é amigo te sacaneia e é sacaneado por você. Peida no elevador quando só estão vocês dois. Vomita no seu carro e dá em cima da sua prima. Mas te socorre quando você sofre um acidente, te consola quando você leva um pé na bunda ou quando o teu time cai para a segunda divisão. Não sem tirar uma onda, é claro. Mas a onda de amigo sempre acaba virando a sua onda.

Você não sente saudades de amigo. Isso porque se ele não estiver onipresente na sua vida deixou de ser amigo. Virou passado, fotografia, lembrança para ser contada aos amigos atuais. Você não tem inveja do sucesso do amigo. Mas sempre vai querer que ele faça um precinho especial pra você, seja qual for a profissão dele. É dentista? Vai ter que arrancar dois dentes pelo preço de um. É advogado? Além de ganhar a causa, obrigatoriamente, tem de cobrar metade dos honorários e descolar o telefone da estagiária. É garoto de programa? Bem, aí a gente aceita tomar um chope mesmo, afinal não dá pra misturar negócios e amizade sempre, não é?

E o mais importante, o essencial: o amigo é um espelho que mostra como você é. Você tem os amigos que merece. Se os teus amigos vivem pedindo dinheiro ou a furadeira elétrica emprestados e nunca devolvem, é porque você é o único que tem a capacidade de emprestar para eles sem cobrar depois e ainda continuar sendo amigo. Se tem amigos chatos, ignorantes, boêmios, namoradores, fãs de telenovelas ou de livros de vampiros, enfim, se tem como amigo aquele que ninguém mais aguenta, é porque o papel da vida dele foi escrito exclusivamente para trazer emoção à sua vida, para fazer você viver o que nunca viveria sem ele. Mas se você não tem nenhum amigo, não se desespere, não é porque você não merece um. É porque o seu amigo ainda não está pronto, deve estar cozinhando por aí até ficar no ponto ideal de ser seu amigo. De um jeito que só você e ele serão capazes de definir, curtir e valorizar, como bons e únicos amigos que serão.

Happiness


"Um dia eu queria ser feliz. Não só ter a sensação passageira, mas toda minha essência absorvida pela felicidade. Só então poderia almejar deixar de ser feliz, pois completo estaria."

"Se é preciso ter pra não querer ter, então imaginar que temos resultaria em imaginar que não iríamos querer ter?"

Os Votos, de Sérgio Jockymann

Muitos dizem que a música Amor pra Recomeçar, do Frejat, é baseada em um poema chamado Desejos, do francês Victor Hugo. Mas, adivinhem? Hugo nunca escreveu tal poesia. Já o poema Os Votos foi publicado originalmente em 30/12/1978 no jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre-RS, e a autoria é do brasileiro Sérgio Jockymann. Para ver os scans do jornal visite o Blog do Emilio Pacheco.



"Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.

E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.

Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconseqüentes sejam corajosos e fiéis.

E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.

E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interprele a respeito de suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente seguro.

Desejo depois que você seja útil, não insubstituívelmente útil mas razoavelmente útil.

E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente.

E que essa tolerância nem se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.

Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro não insista em rejuvenescer,
e que sendo velho não se dedique a desesperar.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.

Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana,
mas apenas por um dia.

Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.

E que estão estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.

E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.

Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro erguer triunfante seu canto matinal.

Porque assim você se sentirá bom por nada.

Desejo também que você plante uma semente por mais ridículo que seja e acompanhe seu crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.

Só para que fique claro quem é o dono de quem.

Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.

Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impor.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você. Mas que se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.

Desejo por fim que,
sendo mulher, você tenha um bom homem
e que sendo homem tenha uma boa mulher.

E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até o próximo ano acabar.

E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.

E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar."


Fazenda Modelo, de Chico Buarque


"Havia também os meninos que se mantinham aparentemente alheios ao movimento da Fazenda. Era o caso de Lin. Não que se manifestasse abertamente contra alguma coisa, isso não, até que acatava as instruções e comia na hora certa. Mas nas horas vagas Lin gostava dos seus cachos. Gostava de se cheirar as axilas, estalar as juntas, lavar as intimidades. Levava tempos compenetrado, examinando cada detalhe do próprio corpo, parafusando o umbigo, achando graça nas mamilas, estudando o urbanismo das veias. Percorrendo as veias atingiu o coração e começou a compreender as pulsações todas. As vibrações. Talvez, por algum motivo, desgostoso das coisas em volta, Lin foi ficando todo para dentro. E foi ficando para longe, como que num oriente, como num tempo remoto, como um avô sábio, ficou feito um bos índicus. Já controlava de tal modo o coração que este nunca iria parar. Circulava pelas próprias artérias e chegou a explorar os nervos que levam ao cérebro. Daí poderia arbitrar a intenção de cada glândula, cada célula. Respirava com consciência. Com o pensamento poderia suspender a digestão agora, por exemplo. Mas Lin não praticava seus conhecimentos. Apenas conhecia, e sempre mais. Com isso se sentia forte, livre, dono de si, talvez até feliz. Foi o que alertou a vigilância de Katazan. Sem se explicar por quê, Katazan não gostava da postura de Lin. Não sabia por quê, mas implicava com aquele jeito assim. Então fazia-o trabalhar, e trabalhar puxado, do que Lin não se queixava por dominar os músculos. Suspendeu-lhe a ração, do que o organismo de Lin também não se ressentiu, posto que àquela altura já estava educado para tudo. Sem que Juvenal soubesse, Katazan começou a maltratar Lin. E Lin suportava tudo com uma serenidade que mais e mais irritava Katazan. Porque Katazan já não fazia outra coisa senão perseguir Lin. E como Lin não dava mostras de se sentir perseguido, Katazan passou a se imaginar prisioneiro, em vez de vice-versa. Afinal Katazan era ou não era o superior? Dentro do sistema vigente, Katazan era autoridade. Mas parecia que Lin inventara outro sistema. Um sistema metabólico que cá para nós não valia nada, que só contava dentro da cabeça dele, que Katazan não compreendia e nem tinha nada que parar para pensar e se preocupar. Mas Katazan sabia que Lin inventara outro sistema. E naquele sistema idiota talvez Lin pensasse que era superior a Katazan. Talvez nem existisse Katazan naquele sistema absurdo. E Katazan não agüentava mais aquilo. E matou Lin."

Quiromania para a Condessa Erzsébet


A minha vida chegou ao fim no momento em que a noite terminou.

Uma mulher, uma sombra passageira disfarçada de musa, depois de ninfa, depois sereia, deusa, vício, maldição e tortura, transpôs a minha existência e roubou a essência do meu ser.

Transformou em rosa dilacerada o cego apaixonado. Em restos putrefatos o inocente sonhador.

Não fez caso da existência conjunta construída à custa de palavras, sussurros, gemidos, gritos e silêncios.

No buraco vazio onde outrora ardia o meu coração, por ela, restou apenas o som áspero de dentes dilacerando sentimentos. Cortou a jugular da minh’alma quando desprezou as noites de luxúria em que bebia incansavelmente a minha seiva. Eu a saciava dando o que ela queria e ela queria sempre mais.

Julgava-a perfeita – pobre tolo que era – a companheira ideal por nunca alterar-se com o tempo, permanecendo sempre bela, jovial, faminta e sedutora, e não levei em conta que eu é quem mudara. Uma noite, sorrindo o seu sorriso diabólico, olhando o seu olhar malicioso, falando suas falas encantadas, me acusou de haver secado por dentro, fazendo-me duro, insípido, gélido.

Não a interessava mais, de qualquer modo.

Partiu. Da minha vida.

Partiu. O meu coração.

A lua bem que tentara me avisar, mas eu era surdo e não entendia que a paixão só existe nas pinturas dos poetas. E que um amor como o meu – tão gigantesco, brutal e raro – só ocorre a uma pessoa em cada geração, nunca com duas, pois toda a matéria-prima amorosa faltante no Universo encontrava-se supercondensada em mim.

E este amor, esta dor, foi a herança e a maldição que ela me deixou.

Logo, só me resta suplicar para que o vazio me absorva por completo antes que em vingança eu mate milhões, explodindo de prazer bestial tal qual a minha algoz o fez, gozando a minha morte. Que a última lembrança dela seja o seu corpo nu e os esbugalhados olhos vermelhos, o sussurro de seu nome entre os meus lábios e o seu pescoço em espasmos entre as minhas mãos.

Texto escrito no desafio-tema VAMPIRO no Duelo de Escritores de 11.07.2010.

Tessitura Editora

Vez em quando aparece uma editora nova, ou menos conhecida, trazendo belas surpresas em seu catálogo de livros. Ao peneirar a internet atrás de uma tradução mais fiel (e não uma adaptação) de Beowulf dei de cara com a edição bílingue (de encher os olhos) da Tessitura. E, passeando pelo site da editora, notei que há outras pérolas. Assim que me sobrar dinheiro tempo pretendo fazer algumas aquisições por lá. Talvez até role uma resenha crítica se as traduções forem realmente boas (ultimamente ando resenhando somente livros excepcionais). Veja abaixo três livros que selecionei.

BEOWULF
Tradução de ERICK RAMALHO (Um dos ganhadores do JABUTI 2008)
240 pgs - 14 x 21 cm


SINOPSE: A Tessitura Editora lança, em edição bilíngüe, a tradução de Beowulf, poema inglês medieval. Pela primeira vez traduzido em versos para a língua portuguesa, Beowulf é apresentado lado a lado com o texto original, um épico de 3.182 versos com aliterações produzido, por volta do século X d. C., em inglês antigo. Beowulf - considerada a mais importante obra da Inglaterra antiga - é tema do estudo de medievalistas de diversas áreas e encontra-se traduzido para o inglês moderno e inúmeras outras línguas. A par de sua importância acadêmica, Beowulf apresenta, na complexidade de seus versos, temas recorrentes da Idade Média de interesse popular: guerras, monstros, feitos heróicos. A tradução, a introdução e as notas são de Erick Ramalho, membro do Centro de Estudos Shakespeareanos (CESh) e mestre em Literaturas de Expressão Inglesa pela UFMG, que também traduziu a obra Sonho de Uma Noite de Verão de William Shakespeare (Tessitura, 2006), além de ter publicado artigos e ensaios no Brasil e na Europa. Na introdução, Erick Ramalho apresenta uma detalhada contextualização do poema na história da literatura inglesa. As características da língua germânica naquela época são exploradas - há detalhes sobre o manuscrito ainda remanescente ao tempo, conservado na Biblioteca Britânica. As notas, ao explicarem os fundamentos da narrativa épica do poema e fornecerem informações lingüísticas, literárias e históricas específicas, servem tanto ao leitor comum quanto ao especialista. Tom Burns, professor da UFMG, escreve nas orelhas do livro que “Esta edição, com a tradução de Erick, para o português, e o texto original em anglo-saxão, colocados lado a lado, é um evento importante para as letras brasileiras”.

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Destaques da 27ª semana de 2010

1. Os sites Blog do Galeno e Observatório do Livro trazem notícias e informações interessantes sobre o mercado editorial e literário. O primeiro, traz o Livrômetro, que mostra estatísticas de quantos livros são lidos no Brasil.


2. Diário de Anne Frank é lançado em quadrinhos. "Publicado pela primeira vez em 1947,  o "Diário de Anne Frank", relato simbólico da perseguição dos judeus pelos nazistas, foi traduzido desde então para 70 idiomas. Mais de 35 milhões de exemplares foram vendidos no mundo." Fonte: G1


3. Festival Literário Submarino, com super ofertas em uma grande seleção de livros. São mais de 40.000 títulos com preços a partir de R$9,90. Essa é a sua chance de ter as publicações que tanto quer num festival de livros de todos os gêneros! Mas aproveite, a promoção é por tempo limitado.

Poesia Matemática, de Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do Ápice à Base,
uma figura ímpar:
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo octogonal, seios esferóides.
Fez da sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Publicado originalmente em 1949, em O Pif-Paf/ O Cruzeiro. Disponível em Millôr Online.

30 mandamentos para ser leitor, escritor e crítico

DECALÓGO DO LEITOR
Por Alberto Mussa

I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II – Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III – Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV – Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V – Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

Duelo de Escritores convida participantes

Este post é um convite para os que, assim como eu, curtem, gostam, amam, necessitam, adoram escrever. O blogue Duelo de Escritores, do qual virei participante este ano, mudou as regras e abriu a participação nas disputas para os visitantes. Aqueles que se interessarem em ver como escrever sob pressão - nem sempre é fácil falar sobre temas muitas vezes fora da sua área, bem como dentro de um curto espaço de tempo e submetê-lo à crítica de outros escritores que também estão falando sobre o mesmo assunto - e treinar os seus dotes literários, é uma excelente oportunidade. Digo isso por experiência própria, pois muitos dos meus melhores textos escritos aqui no blogue vieram de sugestões de temas lá do DdE. Veja abaixo as regras para participar:

Funciona assim:

Quando você votar no seu texto preferido, você pode deixar, no mesmo comentário, seu nome e e-mail e dizer “quero participar do Duelo de Escritores”.

Nós chamaremos todos os inscritos, por ordem de inscrição, a participar do Duelo por uma rodada. Chamaremos sempre os 3 do topo da lista para competir com os 3 duelistas fixos. Assim teremos sempre 6 duelistas: 3 fixos e 3 rotativos.

Quem ganha, decide o próximo tema. Quando um duelista convidado ganha a rodada, ele escolhe e próximo tema e já garante sua vaga novamente para a próxima rodada! Com o tempo, escolheremos os melhores convidados para se tornarem duelistas fixos do site.

Então leia o regulamento ao lado, vote no seu texto preferido da rodada que está valendo e deixe seu nome e e-mail dizendo que quer participar. Nós entraremos em contato com você por e-mail, avisando quem irá competir na próxima rodada.
Participe e seja um Duelista!

Mais detalhes no Regulamento do Blogue.

Aeolus

A primeira coisa que senti foi o meu rosto ardendo sob o sol. Mas somente quando uma onda gelada atingiu o meu corpo é que abri os olhos assustada. Percebi que estava deitada em uma praia. Só quando tentei me levantar é que tomei consciência da tremenda dor em minha cabeça. Não tinha a mínima ideia de onde estava ou como fui parar ali. O meu corpo parecia todo quebrado e mesmo tonta enxerguei o corpo de um homem de bruços na areia. O seu paletó marrom estava encharcado. Me arrastei até ele. Por favor, esteja vivo. Consegui virar o homem e me espantei com o seu rosto estranhamente familiar. Mas minha cabeça doía e não consegui lembrar-me de onde o conhecia. Encostei o ouvido em seu rosto e não escutei respiração. Reuni todas as forças para tentar uma RCP. Assoprei duas vezes em sua boca. O seu tórax encheu-se de ar. Pressionei-o uma, duas, três, quatro, cinco, seis, merda, oito, nove, reage, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, vai, vinte, vai, vinte e dois, reage filho da puta, vinte e quatro, me ajuda Meu Deus, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, pronto. Assoprar mais duas vezes. Desgraçado, volta. Voltei a pressionar o tórax uma vez… duas… três… até que ele vomitou. Virei o seu corpo de lado para sair toda a água salgada. Ele tossiu expelindo muito líquido durante alguns minutos.

“Quem é você, coisinha? Que lugar é este?”, me perguntou assim que recobrou as forças, olhando desconfiado.

“Me chamo Helena. Acordei um pouco antes de você e tinha esperança de que você se lembrasse de algo, já que a minha cabeça dói muito e não consigo pensar direito.”

“Eu estava em um cruzeiro rumo às ilhas gregas que ganhei como prêmio da empresa de seguros. A última coisa que lembro é estar bebendo uísque com uma loira no bar do navio. Por um momento, coisinha, pensei que você fazia parte dos meus delírios etílicos até perceber que na verdade vinha como bônus da ressaca”.

Philip Roth fala sobre "A Humilhação"

Numa entrevista concedida em sua casa, em Connecticut, o autor fala sobre o livro "A Humilhação" e revela a trama de seu próximo livro, "Nemesis".
Reportagem: Lúcia Guimarães
Imagens: Sean Conaboy



Fonte: TV Estadão