Vincent (Starry Starry Night), de Don McLean


Starry, starry night
Paint your palette blue and grey
Look out on a summer's day
With eyes that know the darkness in my soul
Shadows on the hills
Sketch the trees and daffodils
Catch the breeze and the winter chills
In colours on the snowy linen land

Now I understand
What you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen
They did not know how
Perhaps they'll listen now

Starry, starry night
Flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds and violet haze
Reflect in Vincent's eyes of china blue
Colours changing hue
Morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain
Are soothed beneath the artists' loving hand

Now I understand
What you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen
They did not know how
Perhaps they'll listen now

For they could not love you
But still your love was true
And when no hope was left inside
On that starry, starry night
You took your life as lovers often do
But I could have told you Vincent
This world was never meant for one as beautiful as you

Like the strangers that you've met
The ragged men in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose
Lie crushed and broken on the virgin snow

Now I think I know
What you tried to say to me
And how you suffered for your sanity
And how you tried to set them free
They would not listen
They're not listening still
Perhaps they never will...

Nenhum de nós é livre, de Solomon Burke


Um trecho traduzido de None of us are Free:

Bem, é melhor vocês me escutarem meus irmãos e irmãs,
porque se puderem ouvir
há vozes que ainda estão chamando através dos anos.
E todas elas estão chorando através do oceano,
e elas estão chorando através da terra,
e são todos que gritam através do oceano,
e elas continuarão até entendermos.

Que nenhum de nós é livre.
Nenhum de nós é livre.
Nenhum de nós é livre se um de nós está preso.
Nenhum de nós é livre.

E há pessoas que ainda estão na escuridão,
e elas apenas não podem ver a luz.
Se não dizemos que está errado então dizemos que está certo.

Solomon Burke é músico que toca soul e blues e é conhecido como o Rei do Rock n' Soul. Figura desde 2001 no Rock and Roll Hall of Fame. Clique aqui para conhecer o site oficial dele.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Admirável Mundo Novo é um dos poucos livros que criticam sem atacar, sem ofender alguém diretamente, mas que atinge em cheio aqueles que utilizam minimamente os seus neurônios. Critica o prejudicial elevando-o hipoteticamente à sua extrema potência. Da mesma forma, defende o bom mostrando como seria a vida na sua ausência. E assim, desenha uma realidade alternativa - extrema? sim - mas lógica e possível.

A estória narra um futuro sem famílias, democracia, cristianismo, arte e liberdade. O pouco que se conhece sobre isso são conceitos distorcidos e superficiais programados pelo Estado nos humanos desde o nascimento. Os nascimentos ocorrem massiva e industrialmente, como na linha de produção criada por Henry Ford. Ford inclusive é o grande representante desta evolução, adorado por todos: os cargos mais elevados são Vossa Fordeza, a cruz foi substituída por um T em referência ao Ford T, o primeiro carro fabricado em série, e expressões como "pneumática" são usadas como adjetivos pessoais.

O processo chamado Bokanovsky retira até 98 clones gêmeos de um mesmo óvulo fecundado, reduzindo as capacidades intelectuais e condicionando-os a trabalharem e consumirem submissos por toda a vida. Os seres humanos são separados geneticamente por classes, funções e capacidades. "Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar" (p. 14). A promiscuidade é a regra, "cada um pertence a todos" (p. 37), e serve também como forma de controle. "À medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar em compensação" (Prefácio, XVIII). Assim, jogos eróticos são estimulados desde a infância e alguém permanecer muito tempo com o mesmo parceiro é um comportamento anti-social. Conseqüentemente, palavras como casamento, pai e mãe são piadas repugnantes. "Sessenta e duas mil repetições fazem uma verdade" (p. 44).

Todos os problemas são resolvidos através do Soma, uma droga legalizada e amplamente distribuída pelo Governo, para aliviar depressão, frustração, solidão e dúvidas. Demonstra que qualquer fuga da realidade patrocinada pelo Estado é mais prática e fácil que a resolução definitiva do problema. Para aqueles que vivem no país do futebol, carnaval e Big Brother's Brasil, nada mais verdadeiro.

A estabilidade na sociedade é alterada quando alguns Alfas (a classe mais privilegiada criada para os cargos de chefia) passam a questionar o sistema por causa de suas individualidades. Lenina Crowne porque gostava de repetir o mesmo parceiro sexual. Bernard Marx porque nasceu fisicamente menor quando todos eram "condicionados a associarem a massa corporal com a superioridade social" (p. 62). Com Helmholtz Watson era justamente o contrário: ele era melhor que todos em tudo o que fazia. Porém, em uma sociedade que estimula a padronização, ser diferente, melhor ou pior, não é visto com bons olhos. Estas diferenças se tornarão mais visíveis e relevantes quando o selvagem John (correspondente a um citadino normal na época em que o livro foi escrito) é retirado de uma Reserva Selvagem fechada e levado à civilização. John aparece praticamente na metade do livro, mas é o personagem principal. Ele tenta ensinar o amor, a liberdade e o desejo através de citações de Shakespeare, todavia em vão. Apesar de suas palavras não surtirem efeito, são as suas ações (ele passa a ser observado como se fosse um animal falante) que afetarão os ao seu redor.

Escrito em 1932, antes da 2ª Guerra Mundial, como uma crítica à produção em massa (Fordismo) aplicada aos humanos e ao controle governamental sobre a liberdade individual, se feitos alguns ajustes temporais pertinentes, pode muito bem servir como crítica ao modo coletivo de vida atual. Principalmente a parte relacionada à fuga da realidade através dos prazeres e ao consumismo irracional. Huxley talvez ainda não conhecesse a manipulação das massas pela mídia, pois deixa transparecer que os repórteres não eram controlados pelo Estado.

Se você é daqueles que tem pregüiça de ler um livro quando este já saiu em filme, saiba que das duas adaptações que fizeram dele para o cinema, uma (de 1980) não se encontra mais disponível e outra (de 1998) é uma versão alternativa dos roteiristas que foge tanto da trama original que se torna uma estória totalmente diferente, apesar da participação de bons atores como Leonard Nimoy e Peter Gallagher. Algo feito com baixo orçamento e nenhuma fidelidade ao livro.

O título do livro é uma fala retirada de A Tempestade de Shakespeare que diz "O wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in't" (p. 133). O livro traz ainda o prefácio do autor escrito em 1946 em que um Huxley mais maduro analisa os defeitos e os acertos de sua estória. A técnica de mudanças rápidas entre cenas utilizada por Huxley me surpreendeu bastante, chegando ao ponto de no final do capítulo III apenas uma frase ser dita por personagens diferentes mesclando três cenários simultâneas. Quase dá um nó no cérebro não perder quem está dizendo a frase, pois o interlocuor somente é identificável pelo conteúdo da sentença.

Admirável Mundo Novo, junto com 1984 de George Orwell, Fahenheit 451 de Ray Bradbury e Laranja Mecânica de Anthony Burgess, é um clássico sobre o controle, o futuro e a liberdade. A meu ver, uma leitura obrigatória.

leitura em: Março 2008
obra: Admirável Novo Mundo (Brave New World), de Aldous Huxley
edição: 8ª, Editora Globo (1980), 250 pgs
preço: Compare as opções no Buscapé
Excelente

House M. D. - 1ª temporada (2004-2005)

1x22 Honeymoon
Se pode fingir sinceridade pode fingir qualquer coisa.

Esta é uma das grandes tragédias da vida, alguma coisa sempre muda.


1x21 Three Stories
O certo e o errado existem. Apenas porque você não sabe a resposta certa, talvez mesmo não havendo uma maneira de poder saber qual é o certo, não torna a sua resposta certa ou mesmo boa.

É uma verdade da condição humana que todo mundo mente. A única variável é sobre o quê.


1x20 Love Hurts
De acordo com Freud o instinto de amar um objeto demanda a destreza em obtê-lo, e se uma pessoa pensar que não consegue controlar o objeto, ou se sentir ameaçada por ele, ela age contra ele.

1x17 Role Model
- Querer acreditar no melhor das pessoas não torna isso verdadeiro. - Ter medo de acreditar não torna isso falso. Eu acredito nas pessoas, não sou um cínico e não deixo falsas impressões. Eu preferiria acreditar nas pessoas e me desapontar de vez em quando.

Pra você a única maneira de fazer a diferença é vencer todas as batalhas?


1x14 Control
Minhas opiniões não devem ser rejeitadas porque as pessoas não gostam de mim.

1x13 Cursed
As pessoas gostam de falar sobre pessoas. Faz com que se sintam superiores. Faz com que tenham controle. E as vezes, para algumas pessoas, saber as coisas faz com que se importem.

1x09 DNR
Humildade é uma qualidade importante. Especialmente se você erra muito.

1x07 Fidelity
Uma mentira é uma mentira se todo mundo sabe que é uma mentira?

Todos formulamos questões baseadas em respostas que queremos ouvir.

1x05 Damned If You Do
Não se pode odiar o que não se conhece.

Quando se quer saber a verdade sobre uma pessoa, esta deve ser a última a ser consultada.

Você tem uma escolha: fé ou medo. Escolher a fé não significa que não vai morrer. Mas vai afetar o modo como verá a sua morte. E logo, a sua vida.

Você tem duas vezes mais chances de ser morta por alguém que a ama do que por um estranho.

Ninguém pode acreditar em Deus e ficar com raiva dele ao mesmo tempo.


1x04 Maternity
É mais fácil morrer do que olhar alguém morrer.

Os melhores casamentos são baseados em mentiras.


1x03 Occam's Razor
A beleza sempre nos seduz no caminho da verdade. E a banalidade nos chuta a bunda.

A realidade esta quase sempre errada.


1x02 Paternity
Perseverança não significa merecimento.

1x01 Pilot
O doutor te curou, mas você não curou ele.

Mulheres bonitas não fazem medicina. Mesmo que sejam tão traumatizadas quanto bonitas.

Te chateia pensar que foi contratada por causa de um gene de beleza e não por um gene de inteligência?

Você pode viver com dignidade, mas não morrer.

Quando se ganha 8 dólares a hora, você realmente precisa desses 8 dólares.

A verdade começa nas mentiras.

Veja a lista completa de temporadas e episódios na Wikipédia.

A verdade e as formas jurídicas, de Michel Foucault

Michel Foucault é um nome muito conhecido nos cursos superiores de Direito e Sociologia. Foi recentemente citado no filme Tropa de Elite em uma cena de debate acadêmico. Foucault é conhecido porque é polêmico. Suas concepções sobre o poder, o saber e o sujeito vão de encontro a alguns dos maiores pensadores da humanidade. Foucault foi professor de História dos Sistemas de Pensamento em Paris até 1984, ano em que morreu em decorrência da AIDS.

O livro A verdade e as formas jurídicas traz o teor de cinco conferências proferidas por Foucault na PUC do Rio de Janeiro em 1973. Nessas conferências são antecipados os desenvolvimentos contidos no livro Vigiar e Punir (1975) e pode-se observar a demonstração do vínculo entre os sistemas de verdade. Pode-se dizer que é um livro originalmente em português de um escritor francês. O livro é dele, mas não foi escrito por ele.

Primeira conferência - Foucault utiliza-se de alguns textos de Nietzsche para difereciar o saber e o conhecimento. Segundo ele, origem difere de invenção. E tudo o que foi inventado pelo homem tem como objetivo alguma relação de poder. A dominação de uns sobre os outros. Estas invenções incluem o conhecimento, a religião, os ideais, etc. Aquilo que revelar mais nitidamente as relações de poder é o que tende a estar mais próximo da verdade. Segundo Foucault, as decisões jurídicas penais se encaixam nesta categoria, pois mostram o que uma sociedade considerava como certo e errado em determinada época.

Segunda conferência - O mito de Édipo-Rei é analisado sobre uma nova ótica, não para interpretar a psiquê humana, mas para demonstrar as formas jurídicas gregas vigentes na época em que foi escrito. O mito é dividido em três partes de duas metades, onde fica claro como o conhecimento seria interpretado com o tempo: primeiro ele era repassado pelos deuses (oráculo de Delfos e advinho Tirésias) que previam o futuro, depois os soberanos (Édipo e Jocasta) ditavam o que sabiam, e por último o povo (o pastor e o escravo) testemunhariam sobre fatos que haviam presenciado. Move-se o conhecimento de algo que ainda não ocorrera para algo que já aconteceu, da profecia para o testemunho, dos deuses para os reis e depois para o povo.

Terceira conferência - Na Idade Média, o soberano passa de um mero observador de procedimentos nas contendas particulares para representante da vítima. O procurador assume o papel da parte ofendida, a ofensa contra a moral passa a ser crime contra o Estado, e a reparação passa a ser exigida pelo rei. Os litígios privados tornam-se públicos. Surge o poder judiciário, para assegurar ao rei e à classe dominante a continuidade de seu domínio.

Quarta conferência - A reorganização nos séculos XVIII e XIX do sistema penal não seguiu as teorias dos pensadores da época, como Beccaria, Bertham e Brissot, mas adotou o que o sistema econômico indicava como mais lucrativo. Os mecanismos penais já não se importam mais com o fato criminoso, mas em controlar a conduta antes e após o delito. E esses mecanismos de controle passam a ser utilizados na indústria, educação, religião, etc.

Quinta conferência - O controle dos que estão no poder fica sobre a força produtiva do indivíduo. Ele submete seu tempo, sua vida, ao seu patrão. O dinheiro que ganha também é parcialmente controlado pelas caixas econômicas e planos de previdência obrigatórios. Controla-se assim também onde e quando deve-se gastar o seu dinheiro. O controle sobre o tempo, o dinheiro, a vida das massas é condicionado pelo controle do conhecimento.

Apesar de não concordar com todas as teses de Foucault - como a de que os políticos estão mais próximos da verdade que os filósofos, por exemplo - tenho de admitir que o que ele escreve é altamente estimulante a novas idéias e pontos-de-vista. Vale a pena ler mesmo que você não esteja na faculdade. Quem quiser ler um resumo mais extenso que fiz do livro, baixe ele em pdf clicando aqui.

leitura em: Março 2008
obra: A Verdade e as Formas Jurídicas, de Michel Foucault
edição: 7ª, Nau Ediora (2003), 158 pgs
preço: Compare no Buscapé
Excelente

Woody Allen

As pessoas boas dormem muito melhor à noite do que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais.

Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.

Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, mas sim não morrendo.

Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.

O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

A liberdade é o oxigênio da alma.

Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro.

Um condutor perigoso é o que nos ultrapassa apesar dos nossos esforços para o impedir.

A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

94,5 % das estatísticas são falsas.

Porquê estragar uma boa história com a verdade?

Sexo foi a coisa mais divertida que eu fiz sem me rir.

Sexo é como jogar bridge: se não se tem um bom parceiro o melhor é ter uma boa mão.

A realidade é chata, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.

Já várias vezes disse que a única coisa que se interpõe entre mim e o sucesso sou eu.

O cérebro é o meu segundo órgão favorito.

A vida não imita a arte; imita a má televisão.

O Homem divide-se em duas partes: corpo e alma. O corpo é mais divertido.

A vida é cheia de miséria, sofrimento e solidão - mas acaba muito depressa.

O meu maior desgosto na vida é não ter sido outra pessoa.

Woody Allen (1935-) é cineasta, músico, roteirista, escritor e ator norte-americano.

O guardião

Noite fria. Silenciosa. Tranqüila. O guerreiro faz a sua ronda atento. Silencioso. Tranqüilo. Anda com passos tão inaudíveis quanto as batidas de seu coração. O guerreiro está consciente de seu dever. Sobre as muralhas da fortaleza, sabe que é o guardião daqueles que agora descansam. Do rei e do escravo, do homem e da mulher, da criança e do velho. Vidas dependem do seu bom trabalho. Sabe que a sua responsabilidade é grande e tem orgulho disso.

Um som abafado quebra o silêncio e a concentração. Com andar felino, aproxima-se de um pátio interior e vê invasores logo abaixo de si. São cinco e entram por uma portinhola. O guerreiro não pensa, age. Em um único salto, cai sobre os invasores, derrubando dois deles inconscientes. O homem mais próximo ataca rapidamente, e rapidamente cai sem vida aos pés do guerreiro. Outro ataca, outro tomba. O homem restante fica a uma distância segura, observando. Ambos estudam um ao outro. O guerreiro percebe pela vestimenta que os invasores são Kuravas, conhecidos e temidos por serem guerreiros ferozes e impiedosos.

O guerreiro ataca, mas o invasor esquiva-se e cai a certa distância. Porém, ao invés de continuar a luta, o invasor assovia e da portinhola saem outros quatro Kuravas. O guerreiro sorri. Os deuses o agraciaram com uma boa luta. E ele não decepcionará os deuses. Nem a si mesmo. Um a um, todos os invasores vão caindo, enquanto mais e mais saem da abertura. Ora são Kuravas mais velhos, porém mais experientes, ora são mais novos e impetuosos. A batalha é árdua. Algumas armas são conhecidas, outras adaptadas, outras o guerreiro nunca vira antes. Alguns atacam juntos ou em seqüência. Mas detalhes não lhe importam. Ele está ali para lutar e o fará com quaisquer um enquanto respirar.

A alvorada desponta, o cansaço do guerreiro só não é maior que a sua vontade. Ele luta agora ao redor de pilhas de corpos. Sua espada nunca bebera tanto sangue. Entrentanto, frente a um novo invasor, o guerreiro pára. Parece indeciso com o que vê. À sua frente uma espada aponta para ele, mas não é isso que o incomoda. À sua frente dois olhos cheios de ódio miram os seus, tampouco isso o afeta. O que o faz duvidar é o portador da espada e dos olhos: um menino. Praticamente da idade de seu filho. É o filho de outro alguém, que deveria estar neste momento em casa dormindo ao invés de numa batalha. O menino ataca e o guerreiro não reage. Pela primeira vez naquela noite, sente o aço inimigo traspassando-o, ao invés de o contrário. E o gosto de sangue na boca.

Os inimigos não insistem no ataque, pois a cidade, agora desperta, soa o alarme clamando por mais guardas. O menino foge pela portinhola e a sela por dentro. Os guardas encontram o guerreiro morto, apoiado em sua espada cravada ao chão, com uma expressão de serenidade, ao redor de dezenas de cadáveres inimigos. Muito bem, cumpriste sua missão, declara o chefe da guarda, reverenciando-o de frente. Todos os outros fazem o mesmo gesto.
Este conto é uma homenagem aos leitores do Bhagavad Gîtâ.

Mulheres, de Edson Marques

Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Não me bastam os cinco sentidos para viver com totalidade o mistério profundo que elas trazem consigo. Eu tenho é que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas. Tenho que dar-lhes o amor que o meu corpo conduz e sustenta-me a alma. O belo amor natural de todos os corpos e almas e coisas do mundo. Como espelho de paixões em labareda, tenho que sentir nos seus olhos um raro brilho diamante.

Eu as respeito e as venero, com a graça de um cisne satisfeito nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado. Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, não quero mudá-las jamais. Sempre imagino o que possam sonhar, e procuro suavemente entrar no sonho delas. Cavalgo o vento para visitar-lhes as razões, as emoções, as loucuras. E como um deus escandaloso e surpreso por sua própria criatura, eu entro então no coração de cada uma delas, deliciosamente, como se entrasse numa pulsante catedral. Mergulho na essência dos seus desejos e cada vez me espanto mais com tanta fantasia, com tanta formosura. Os cinco sentidos, por não serem precisos, ainda não bastam, e eu preciso mais do que isso para compreendê-las.

Toda mulher é silenciosa por dentro. A existência pura se manifesta em cada detalhe. Assim na terra como no céu, amar as mulheres é uma experiência religiosa. E eu as amo, fina substância, como deve amar quem ama de verdade -- incondicionalmente. Sem ciúmes. Eu amo as morenas, as loiras, as baixinhas, as altas, as lindas, as quase feias. Amo as virtuosas, as magras, as gordinhas, as diabólicas, as tímidas, e até as mentirosas. As iluminadas, as pecadoras, e as santíssimas. Amo as virgens, as pobres, as ricas, as loucas, as muito vivas, as inocentes. As bronzeadas pelo sol, e as branquinhas. As inteligentes, e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as separadas. As bem-amadas, e as abandonadas. As livres, e as indecisas. E se me dessem o poder, o tempo, e, principalmente, a chance, eu a todas elas daria, todos os dias, um orgasmo cósmico e sublime. Poeticamente.

Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas. Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos, tomaríamos vinho branco, olharíamos as estrelas. E eu lhes faria poesias de amor. Puro como um anjo, amaria cada uma delas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com profundidade, com inocência. Entusiasmado, como se cada uma fosse a única. Como se no mundo inteiro não houvesse mais nada, nem ninguém.

Todas as noites, passaria cremes e encantos no seu corpo. Falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, as cobriria com o resto de luar que ainda houvesse, e sairia em silêncio. Como um felino lógico, sensual e saciado, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas -- e sorrindo iria embora.

Enfim, se fosse Deus, eu com certeza não mais cuidaria do universo e dessas coisinhas banais. Não iria ficar controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, os compromissos, as horas, o caminho dos planetas, a economia, o cotidiano, o infinito, a Internet, a geografia... Não!

Eu somente iria amar as mulheres, como elas merecem. E como nunca foram amadas.

Só isso, definitivamente. Nada mais, nada mais!
Edson Marques é escritor e possui website: mude.blogspot.com

Feliz Dia Internacional da Mulher
a todas aquelas que nos fazem suspirar!

Analecto 2008

Se vejo os meus defeitos como pequenos montinhos ao invés de grandiosas montanhas é porque os vejo no horizonte, com suas faldas tão distantes de minha compreensão quanto de minha superação.

As mulheres só são felizes na ilusão. Cabe aos homens apenas invejar.

Tudo pode aquele que crê, até mesmo deixar de crer.

Somente os desatentos acreditam na sorte.

Se quem ama a todos não ama ninguém, então aquele que ama alguém não ama a todos.

Se no meu Universo Deus existe e no seu não, talvez haja um Cosmos onde nem você nem eu estejamos certos, ou errados.

Extremistas são extremamente abstrusos. Não conseguem entender que se você está encostado na parede não conseguirá ver toda a sala, a não ser que tenha um espelho na parede oposta à sua. Colocar-se no lugar do espelho não revela como o espelho é, mostra como você é.


OBSERVAÇÃO: Todos os aforismos acima são de minha autoria.

Veja também: Analecto 2007
Analecto: s. m. Coletânea de trechos em prosa e/ou verso, ger. de autores célebres e dispostos segundo época, autoria, tema etc.; antologia. Coleção de máximas ou aforismos escolhidos de um ou mais autores; antologia, seleta.
Aforismo: s. m. Máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; apotegma, ditado. Texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica, ger. relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral.
(Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0.5)

Aforismos de autores desconhecidos

Conselhos
Faça da sua ausência o bastante para que alguém sinta sua falta, mas não prolongue-a demais para que esse alguém não aprenda a viver sem ti.

Se fizeres um favor, não o recordes; se receberes um favor, nunca o esqueças.

A abstinência é uma coisa boa, desde que praticada com moderação.


Experiência
Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim.

Divertidos
O inteligente aprende errando e o sábio com o erro dos outros.

Se o que é bom dura pouco eu já deveria ter desaparecido faz tempo.

Sem mim eu não seria ninguém.

Bons planetas são difíceis de encontrar.

Onde quer que você esteja, você sempre estará lá!


Numéricos
Existem 3 tipos de pessoas: as que sabem contar e as que não sabem.

Existem somente 10 tipos de pessoas no mundo: as que entendem binário e as que não entendem.


Populares
A vida não é medida pelo número de respirações que damos, mas sim pelos momentos que nos fazem prender a respiração.

Amigo é aquele que ri e chora, às vezes ignora, mas nunca vai embora.

Um dia a lágrima disse ao sorriso: invejo-te porque vives sempre feliz. O sorriso respondeu: engana-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce da tua dor.


Vida e morte
Não há cura para o nascer e o morrer, a não ser saborear o intervalo.

Ninguém sai da vida vivo.

Caso você saiba a autoria de algum dos aforismos acima, por favor me informe que darei os devidos créditos ao autor.

30s

Eu gosto de tomar banho de chuva, ela disse.

Humm, respondeu ele, continua.

Tem mais, prosseguiu, demonstrando certa hesitação e nervosismo. Gosto de cheirar flores. De contar estrelas e de apertar bochechas de bebês. Amo de paixão música clássica, filme romântico em que o mocinho fica com a mocinha no final. Eu sei rir de mim mesma, mas sou também ombro amigo. Gosto de comer massas, pizza com muito orégano, macarrão com frango, calzone e panquecas. Sou Mengo de coração e Beija-Flor de corpo e alma. Bebo vinho e namoro até amanhecer. Sei o que é solidão e inveja, mas também conheço o amor e a saudade. Já viajei pra Paris e sei falar alemão. Aprendi a dirigir, a surfar, a tricotar, mas não conte isso a ninguém que eu nego. Sei fazer mousse de maracujá e gravar CD's de música. Tlec. Não, não, espera, eu também posso transar contigo, se você desejar. Faço tudo o que quiser. E eu tenho um carro, posso te dar ele também, e te apresento todas as minhas amigas, e eu também ch... Paw.

?!?

...

Ô Betão, você matou a moça agora que eu tava começando a gostar da história?

Sei não, véi. Quando eu disse que daria 30 segundos pra ela convencer a gente a deixar ela viver pensei que ela fosse falar algo manero. Mas quando ela falou do Alemão, aí cara, falou merda. A gente ainda vai lá dá o troco naquele safado do Morro do Mosquito.

É, a mina era mó esquisita mermo. Pelo menos já pagaram o resgate. Agora vamo desová esse troço lá no lixão, antes que comece juntá mosca.