Não Sei, de Cora Coralina

Não sei... se a vida é curta...

Não sei...
Não sei...

se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.


FILME DO ANO: Jodhaa Akbar (2008)


Certa vez, perguntaram aos anjos "O que é o Paraíso?", ao que eles responderam: "Todo coração onde o amor reside é o Paraíso". Depois perguntaram "O que é o Inferno?" e eles responderam "Um coração sem amor é o Inferno".

Não importa o quanto brilhe, um espelho sempre terá um lado obscuro.



Site oficial
IMDB
Wikipédia

Dois afegãos na esquina

Em Cabul, dois homens observavam o movimento parados em uma esquina:

- Por Osama! Olha só o tamanho daquela burca! E que gingado! Vem cá com o baba, vem bêibe! Você é a quarta nora que a minha mãe pediu a Alá!

- Cara, essa é a MINHA esposa.

- Pôxa, foi malz Samir, é que eu não a reconheci olhando por esse ângulo. Mas se fosse você tomava mais cuidado, uma mulher dessas não pode ficar dando sopa pela rua. Cresce o olho, Samir! É um tesouro, uma especiaria rara, algo que você, melhor do que ninguém, sabe o quanto vale.

- Treze camelos, dois bodes e um iPod.

- iPod?

- É, a família dela é meio estranha.

- É.

Mongol (2007)

"Não despreze o filhote fraco. Ele pode se tornar um tigre feroz." (Provérbio Mongol)

Não importa quão longe o lobo vá, ele sempre retorna algum dia.


Saiba mais: e-Pipoca e IMDB (inglês).

Tolocracia

Ambrósio era um legítimo super-herói. Ganhava salário mínimo. Sustentava três filhos e a mãe doente. O pai falecera de infarto. A companheira fugira com o vizinho.

O salário até que dava pra pagar as contas - as que venciam até o dia 10, depois era apelar para a família, amigos, patrão e Deus. Mas Ambrósio era teimoso, teimava em viver mesmo que não fosse a vida que queria. Aceitava resignado donativos, roupas velhas, restos de feira e bolsa-família. Melhor humilhado que faminto, não é? A aposentadoria da velha mal dava para os remédios. Os garotos, muito novos ainda, tentavam ajudar passando o máximo de tempo possível na rua, e assim economizavam luz, água, comida e até aluguel. De vez em quando um aparecia com dinheiro ou todo machucado, ou ambos, e Ambrósio, como qualquer bom pai faria, não perguntava nada.

Um dia, o patrão de Ambrósio o chamou para um particular. Seria o aumento que ele tanto sonhava? Não, não seria. Era a crise no Azbtzganistão, era a atual conjuntura econômica, era o preço do dólar e do petróleo, era a porra dos impostos altos e era o seu aviso prévio. Ambrósio saiu anestesiado e sem rumo: quem seria o louco que o contrataria, tendo mais de cinquenta anos, segundo grau incompleto e já precisando de aumento? Cansou de vagar pelas ruas, e acabou entrando em um açougue. Tinha só alguns trocados no bolso, mas ia fazer um churrasco, talvez o último de sua vida.

Ao entrar, deparou-se com uma fila onde várias pessoas escolhiam a melhor carne da vitrine. Era uma vitrine alta e, apesar de fosca, podia-se ver o vulto do açougueiro atrás dela. Exibiam-se apenas três produtos: uma vasilha com vísceras em tons de roxo, outra com cabeças de frango que lembravam um pouco a Salvador Dalí e a última vasilha com uma ossada de algum animal indefinido com restos de alguma coisa indefinida grudados. Cada freguês, na fila, chegava à vitrine, escolhia a melhor carne digitando o código do produto e apertava um botãozinho verde. Então uma campainha irritante soava no ar e o próximo da fila era chamado pelo açougueiro para fazer a mesma coisa. Era um procedimento rápido e logo chegou a vez de Ambrósio.

Ele olhou, pensou, olhou de novo e perguntou:

- Eu queria outro tipo de carne, uma melhorzinha, o senhor não tem?

- Não, respondeu o açougueiro, as opções são estas. Escolha logo porque a fila não pode parar. A escolha da maioria será o produto vendido nos próximos 4 anos. Por isso, escolha consciente!

Ambrósio suspirou diante das opções que ele não queria, e observou num canto do açougue uma pequena tevê em que desfilavam rostos conhecidos, com nomes e números escritos logo abaixo e sorrisos falsos e promessas mais ainda e jingles e uma dor aguda bateu forte no peito. Ambrósio digitou o código e confirmou, não importava qual, e saiu de lado aguardando o resultado daquilo que iria ter que levar para casa.

As Diabólicas, de Boileau-Narcejac

“Duas mulheres. Um homem. Uma combinação que pode ser fatal.”

Os livros escritos em dupla resultam geralmente em algo, no mínimo, interessante de se analisar. Eu mesmo não me imagino escrevendo algo em parceria com outro escritor. Não que a idéia seja ruim, mas por ser necessário abrir mão de um pouco da sua individualidade e de se fazer concessões, nem sempre fáceis, ao parceiro de escrita. Talvez o escritor precise estar em um nível de evolução bastante avançado nos quesitos abnegação e humildade. Porque o escritor é um ser egoísta por natureza. O que escreve é a essência do seu ser, o “gêmeo desconhecido”, o filhinho querido e mimado, a plantinha nascida depois de meses de trabalho árduo na lavoura mental. O resultado final pode ser a cara cuspida e escarrada do escritor ou um pequeno Frankenstein, ou ambos, mas é seu e lhe trará orgulho ou vergonha não só pelo resto da sua existência, mas além dela. E assim, existem escritores em que a escrita em conjunto traz uma sinergia benéfica.
"Pierre Boileau e Thomas Narcejac se encontraram pela primeira vez no ano de 1948. Desse encontro nasceria uma das parcerias literárias mais propícias de que se tem notícia. Juntos iriam publicar dezenas de policiais de suspense, muitos deles adaptados para o cinema. Em 1957, por exemplo, Alfred Hitchcock utilizou o enredo de D’entre les morts para realizar Um corpo que cai, com James Stewart e Kim Novak. Apesar da extrema afinidade literária, Boileau e Narcejc sempre levaram vidas muito diversas. Narcejac viveu durante muitos anos como professor na cidade de Nantes, antes de se transferir para Nice. Boileau sempre morou em Paris e sua experiência profissional foi das mais variadas, incluindo uma passagem como porteiro de boate. Encontrando-se apenas ocasionalmente, os autores criaram e escreveram seus livros trocando idéias e capítulos por correspondência." (orelha do livro)
A história de As Diabólicas traz um golpe financeiro que envolve um triângulo amoroso: Ravinel e sua amante Lucienne planejam e executam o assassinato da esposa de Ravinel, Mireille, simulando um acidente ou suicídio, para receberem o seguro e fugirem juntos. Só que, após o assassinato, o corpo de Mireille desaparece e surgem vários indícios de que ela está viva: cartas enviadas por ela como se tudo estivesse normal, parentes de Mireille dizendo que a viram normalmente após o ocorrido, a descoberta da estranha história sobre uma doença rara de infância de Mireille, tudo cria um clima ao mesmo tempo misterioso e sobrenatural. Mesmo o título meio que “entregando” o final, e quem já assistiu a versão cinematográfica de 1996, vale a pena ler o livro francês pela tensão evidente a cada página. A maestria com que os escritores conseguem manter a dúvida no ar faz com que As Diabólicas seja um clássico do gênero suspense policial.

O livro foi adaptado para o cinema como o film noir francês Les Diaboliques (1955), ganhador dos prêmios Louis Delluc (1954), NYFCC (1955) e Edgar (1956) e é um dos 13 filmes de terror indicados pela Entertainment Weekly. Segundo o blog Pé em Quadro, a atriz que faz o papel de Christina Delassalle, a esposa injustiçada da trama, é a brasileira Vera Amado Clouzot, esposa do diretor do filme e filha do diplomata Gilberto Amado. Antes do filme tornar-se um cult teve o roteiro disputado por Alfred Hitchcock e H. G. Clouzot, sendo que o último só conseguiu adquirir os direitos de filmagem horas antes do primeiro. Quando souberam do ocorrido, Boileau e Narcejac escreveram uma outra história exclusiva para Hitchcock, D'entre les morts, que virou a obra-prima do suspense Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958). Recentemente, o filme clássico de 1955 ganhou a refilmagem Diabolique (1996) com atuações de Sharon Stone, Isabelle Adjani e Kathy Bates. Mesmos assim, conforme a maioria dos críticos, o original continua sendo insuperável, e é o que atesta o IMDB: enquanto a pontuação do original é de 8.3/10, a da refilmagem aparece com míseros 5.0/10).

Outra coisa que me chamou a atenção foram as vilãs. Não sei é uma tara literária exclusivamente minha, mas o fato é que sou louco por mulheres inteligentes, malvadas e sedutoras, seja em livros ou filmes. Simplesmente é o meu sonho de consumo cair na mão de uma destas. Eu até trocaria de lugar com o Ravinel/Delassalle, sem remorso nem receio. Mas apesar das francesas malvadinhas me atiçarem deixando o seu perfume no ar, a musa-vilã do ano já foi eleita: a Gretchen Morgan da série americana Prison Break. Não tem como não amar/odiar ela intensamente.

A adaptação do filme traz uma história diferente da do livro, mas não menos interessante. Nas telas, desde o início já se sabe do plano em que Nicole, a amante, e Christina, a esposa, juntam-se para assassinar Delassalle, o marido-amante violento e diretor do internato para garotos onde moram. Após afogá-lo na banheira, elas jogam o corpo na piscina do internato para ser encontrado na próxima limpeza a ser feita pelo zelador. Seria o crime perfeito, se o corpo não desaparece! O suspense e a tensão aumentam gradativamente, com pistas do crime reaparecendo e sendo deixadas não se sabe por quem – talvez por um chantagista que viu os planos das “diabólicas” ou pela alma penada do falecido – em lugares incriminadores. No final, a trama dá uma reviravolta onde vítimas tornam-se cúmplices e cúmplices, vítimas. Enfim, são duas histórias boas, mas diferentes: um filme bom baseado em um livro bom. Pena que o livro seja encontrado só usado e o filme original em pouquíssimas locadoras.

Veja o trailer da refilmagem Diabolique (em inglês):


Excelente
leitura: Agosto de 2008
obra: As Diabólicas (Les diaboliques: celle qui n'était plus), de Boileau-Narcejac
tradução: Pedro Cavalcanti
edição: 1ª, Coleção Amarela - Editora Globo (1987), 168 pgs
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A herança e a pontuação

Um homem rico agonizava em seu leito de morte. Pressentindo que o fim estava próximo, pediu papel e caneta e escreveu:
Deixo meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.
Mas morreu antes de fazer a pontuação. Para quem o falecido deixou a sua fortuna? Eram quatro concorrentes:

1. O sobrinho fez a seguinte pontuação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2. A irmã chegou em seguida e pontuou assim:
Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3. O padeiro pediu cópia do original e puxou a brasa pra sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4. Aí chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.

Moral da história:
"A vida pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras. Nós é que fazemos a pontuação.
E isso faz toda a diferença."

Aqueles que não sentem este amor, de Rumi

Jalaluddin Rumi (1207-1273) - ou Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī - nasceu no Afeganistão e foi filósofo, místico e poeta islâmico do século XIII. Os seus livros mais famosos são Masnavi, Rubai-yat e Divan de Tabriz, onde Rumi prega o amor e a união universais. Conheça aqui um dos poucos livros com poemas de Rumi traduzidos para o português.

Aqueles que não sentem este amor

Aqueles que não sentem este Amor,
Puxando-os como um rio,
aqueles que não bebem o amanhecer
como um copo de água pura
ou recebem o entardecer como almoço,
aqueles que não querem mudar,

Deixem eles dormirem.

Este Amor é além do estudo da teologia,
aquela velha enganação e hipocrisia.
Se você quer melhorar sua mente daquela forma,

Continue dormindo.

Eu deixei o meu cérebro.
Eu rasguei minha roupa em pedaços
e joguei-a fora.

Se você não está completamente nu,
então se enrole num lindo roupão de palavras

E durma.

O Bigode, de Emmanuel Carrère

"O mais inteligente é quem pára primeiro." (pg. 30)

Existem um filme e um livro com o título O Bigode. O roteiro e direção do filme são do escritor do livro: Emmanuel Carrère, um jornalista e historiador francês - de 40 e poucos anos - que escreveu meia dúzia de livros e já está sendo considerado o substituto do checo Franz Kafka – autor de A Metamorfose e O Processo –, um escritor que influenciou fortemente a literatura moderna. Kafka tinha a capacidade de deixar o leitor com a impressão de estar dentro de um sonho, ou melhor, de um pesadelo, mostrando aspectos primitivos da psiquê humana em situações fantásticas. E Carrère escreve, roteiriza e dirige como um legítimo herdeiro de Kafka.

No filme O Bigode (La Moustache – França, 2005) o telespectador se vê frente a frente com um dos maiores problemas existenciais da humanidade: a história de Marc, um cara que raspa o bigode. Ok, talvez este não seja lá um grande problema existencial da humanidade. Não seria, se depois de raspar o bigode ninguém, nem a esposa de Marc, Agnès, notassem a mudança. A partir daí, acompanhamos Marc tentando entender o que ocorre à sua volta: será uma das brincadeiras articuladas pela esposa, com amigos e colegas de trabalho? Marc deve acreditar quando ela diz que ele nunca usou bigode? Como reagir quando não só os amigos e colegas de trabalho mas até o garçom do café da esquina não notam diferença alguma? Marc procura desesperadamente justificar o injustificável: se não for uma brincadeira de mau gosto dos seus conhecidos, seria algum bug no Universo que só ele notou? Ou pior, estaria a esposa e o sócio tentando fazê-lo agir como louco para tomar tudo dele? São hipóteses razoáveis levantadas mas que, ao final, serão irrelevantes.

É certo que os relacionamentos exigem certa dose de tolerância para com os defeitos do parceiro. Mas o que fazer quando estes defeitos se voltam contra quem os tolera? Agnès era uma excelente mentirosa. Pregava peças nos amigos e, mesmo que a mentira parecesse óbvia, negava tão convictamente que os enganados passavam a considerar outras hipóteses, mesmo as mais absurdas. Mas em cinco anos de casamento, Marc sempre assumiu o papel de cúmplice, nunca o de vítima. Aquela brincadeira seria a primeira traição de Agnès e isso machucava Marc.

A trama evolui ao ponto em que ora Marc acredita – e nos leva junto – que ele é quem está louco e por isso faz sofrer a amada, para momentos depois concluir que ela é quem enlouqueceu e deve ser tratada com cuidado e amor. Carrère leva o choque de relacionamentos ao extremo: o quanto alguém estaria disposto a amar quem não acredita nele? Ou como seria possível amarmos sem acreditar na pessoa?

Marc foge para Hong Kong. É a única saída no quebra-cabeças onde ele acabará perdendo a esposa de qualquer forma. O melhor é ficar longe dela que fazê-la sofrer ou sofrer por causa dela. Mas a distância nem sempre é sinônima de segurança e a fuga dos problemas gera apenas uma satisfação temporária, pois os problemas podem encontrar os fujões.
"Duas vezes por dia, entrementes, barbeava-se, retificando para seu uso pessoal a brincadeira que diz que a ociosidade consiste em escutar crescer a própria barba. Escutava seu bigode, mesmo que não fosse muito atentamente, saboreava, às vezes, deitado num banco, a idéia abstrata e doravante sem substância de ter escapado." (pg. 150)

Carrère fez um filme que incomoda e atiça a curiosidade ao mesmo tempo. Tanto é, que a verdadeira paranóia para o telespectador começa justamente quando o filme acaba. Muitos ficarão com a cara de bobo se perguntado “como assim? e agora?”. Eu fui um destes. Mas, como bom teimoso que sou, depois de assistir o filme e ficar boiando, comprei o livro. Quem é leitor tem sempre a idéia inocente de que o livro não foi bem adaptado para as telas, bla-bla-blá, que terá todas as respostas quando ler o livro, bla-bla-blá. Pobre coitado! A adaptação e direção do filme são perfeitas e, se não fosse alguns exemplos ruins de outros por aí, poderíamos afirmar que todos os livros deveriam ser adaptados e dirigidos por seus escritores. Os cortes e modificações do filme deram ritmo e o transformaram numa obra-prima nonsense. Os detalhes visuais como cores fortes em objetos colocados como bodes no meio da sala (expressão israelense para os detalhes que desviam a atenção da questão principal) são o toque de mestre. A música clássica e o silêncio nos momentos oportunos dão o toque de suspense.

E o livro? Digamos que é a versão hard do filme. Seria impossível Carrère passar para a tela todo o terror mostrado no livro. Eu não me chocava com um parágrafo final tão tenso e surreal desde Os Trabalhadores do Mar de Victor Hugo, outro francês por sinal. O livro O Bigode poderia dividir-se em duas partes: quando Marc é sugado pelo redemoinho sem conseguir se livrar dele, e outra quando já está no fundo, e o redemoinho o cospe para fora. Ambas situações brutais para o protagonista. Carrère desconstrói a vida do personagem pouco a pouco, assim como a lógica, a sanidade e a linearidade, para depois construir tudo de novo, de um jeito diferente, como em um quadro que mostra duas paisagens distintas, dependendo do ângulo do observador.

O livro faz duas referências ao Brasil que não aparecem no filme: a música que Marc ouve em casa no livro é bossa nova enquanto no filme é clássica; e quando "comeu muito, pratos que lhe lembraram muito a cozinha brasileira" (pg. 148) em uma vila chinesa, no filme é um ato que não vem acompanhado por pensamentos ou narrações.

Pode-se dizer que a essência da história focaliza a questão da individualidade. Nos subterfúgios e nas comparações usadas para justificar quem somos e porque somos assim. Todos se alicerçam em algum objeto, pessoa ou idéia para se definir como pessoa e usa referenciais para explicar porque é assim ou assado. Mas o que acontece quando um destes pontos de apoio simplesmente desaparece? Quando a verdade em que se acredita cegamente revela-se uma fraude? Ou quando alguém que é a razão do seu viver não existe mais? Esta base em que alguém se apóia pode ser para um, o bigode, para outros a carreira, um desejo, um ideal ou uma pessoa. Como reagiríamos se nos tirassem o que ou quem nos é mais importante hoje? Carrère usa uma situação extrema para provocar a reflexão em coisas corriqueiras: o ser, os relacionamentos, a lucidez e a realidade. E o faz de maneira genialmente original.

Veja também:

Excelente
leitura: Agosto de 2008
obra: O Bigode (La Moustache), de Emmanuel Carrère
tradução: Herbert Daniel
edição: 1ª, Coleção Ficções deste Espaço e Tempo v. 10 - Editora Espaço e Tempo (1988), 158 pgs
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O Cérebro de Berlim

Biblioteca de Filologia da Universidade Livre de Berlim
6300 metros quadrados
800 mil livros
18,5 milhões de Euros
Obra do arquiteto britânico Norman Foster
Inaugurada em 14/09/2005
www.fu-berlin.de




















Literatura gay para todos

O maior problema dos escritores gays é que eles não são escritores. Longe de ser um problema exclusivo dos escritores homossexuais, é algo que atinge a todos os segmentos da literatura contemporânea. São pessoas que tentam usar a escrita para extravasar sentimentos reprimidos com histórias baseadas em passagens reais de suas vidas. Geralmente, de vidas medíocres. Ou também, no caso homossexual, são ativistas que levantam a bandeira gay tentando chocar o máximo de leitores focalizando descrições de relações sexuais, na maioria das vezes, vulgares. Mas existem pérolas no meio do lodo. São os que escrevem histórias em que o destaque não está na relação homoafetiva, apesar dela aparecer e ser importante para a trama. Estes escritores vêm conseguindo criar uma literatura universal, que agrada a todos independente da opção sexual e, ao mesmo tempo, divulgar sutil e artisticamente as suas preferências sexuais.

Recentemente, Sarah Waters (1966-), novelista inglesa, lésbica, foi apontada pela revista literária Granta como "The Writter of the Year", uma das revelações da literatura britânica atual. Sara começou a escrever logo depois de defender a sua tese de PhD em literatura “Wolfskins and togas: lesbian and gay historical fictions, 1870 to the present”. Ali, ela colheria o material para a maioria de seus romances, que envolvem relações lésbicas na Londres do século XIX. E Waters sabe caracterizar como ninguém os seus personagens dentro da era vitoriana, tornando-os bastante verossímeis: são ladrões e trapaceiros que aplicam golpes financeiros; ou pessoas com traumas de infância por causa de mães enforcadas ou internadas em manicômios; ou inocentes o suficiente para acreditarem em logros que enganavam não só os daquela época, mas muitos hoje em dia. E a grande maravilha é que o leitor é o principal ludibriado nessa história toda, pois nada do que inicialmente vê nas histórias de Waters é o que realmente é. Tudo o que um bom suspense policial precisa.

Na Ponta dos Dedos (RECORD, 2005) traz a história de duas órfãs, Susan e Maud, uma pobre e outra rica, cada uma com os problemas concernentes às suas condições social e feminina, e que cruzam as suas vidas por causa de um golpe financeira. O texto hábil alterna o papel de narradora entre as duas mulheres, mostrando de forma genial os diferentes lados da mesma trama, com reviravoltas bastante inesperadas. Olhe a sinopse que a revista Veja fez sobre o livro:
Na Ponta dos Dedos, de Sarah Waters (tradução de Ana Luiza Dantas Borges; Record; 588 páginas; 49,90 reais) – Finalista do prestigioso Prêmio Booker de 2002, este é um romance histórico situado na Inglaterra vitoriana. E a autora soube buscar inspiração na literatura da época: estão aqui as pobres crianças órfãs que povoavam os livros de Charles Dickens e as tenebrosas mansões típicas dos romances das irmãs Brontë. A história envolve um elaborado golpe do baú planejado por um vigarista conhecido como Sir Gentleman. Ele consegue colocar a jovem órfã Sue Trinder como criada na casa do rico Christopher Lilly. Sir Gentleman espera que Sue convença Maud, sobrinha e herdeira de Christopher, a casar-se com ele – mas não contava com a amizade que surge entre as duas jovens.
Affinity (ainda não disponível em português) conta a história de Margaret Prior, uma jovem da era vitoriana que, após a morte do pai, é pressionada pela família a casar-se com um homem a quem não ama. Quando começa a trabalhar em uma instituição presidiária feminina como "Visitadora", conhece Selina Dawes, uma médium que afirma ser inocente e que meche radicamente com a vida de Margaret, tanto espiritual quanto sexualmente.

No Brasil, Santiago Nazarian vem se destacando no mesmo estilo que Waters, porém no homossexualismo masculino. As suas histórias abordam temas como suicídio, loucura e fábulas com animais, e apresentam a opção sexual homoafetiva de modo sutil, não afastando os leitores mais conservadores. Nazarian consegue fazer a sua escrita sensível, agradável e instigante à mais variada gama de pessoas.

O interessante é que, em muitos lugares, a literatura de Waters não vem catalogada principalmente como gay, mas como suspense policial. Isso porque ela usa as relações sexuais homoafetivas como parte da trama e não como foco. E escreve de tal forma que a história não aconteceria sem o relacionamento lésbico. Por exemplo: não seria possível um homem entrar em um presídio feminino inglês do século XIX para ensinar as detentas, ou participar de um golpe financeiro se tornando a/o melhor amiga da vítima.

Em seu último trabalho, Ronda Noturna (RECORD, 2007), que levou quatro anos para ser escrito - talvez por ser o primeiro a se deslocar da era vitoriana para a Segunda Guerra Mundial - traz quatro personagens femininas como protagonistas e promete tantas surpresas em reviravoltas e em relacionamentos quanto os anteirores. Apesar do livro Tipping the Velvet ainda não ter sido publicado por aqui, uma série adaptada pela BBC foi exibida no Brasil pela GNT com o nome de Amor na Ponta da Língua. A minisérie em dois capítulos, também da BBC, adaptada de Fingersmith e com o nome no Brasil de Falsas Aparências ainda é inédita na tevê brasileira. Já Affinity foi lançado como filme em 2008 e breve deve estar nas locadoras. Todas as adaptações cinematográficas dos livros de Waters são facilmente encontradas na internet. Se você curte literatura lésbica, leia Sarah Waters. Se curte suspense policial, leia também. E se gosta de histórias escritas com primor, não deixe de ler. Qualquer que seja o caso, você sairá plenamente satisfeito como leitor ou telespectador.

Os livros de Waters, publicados até agora, são (os lançados no Brasil aparecem com o título em português):

Compreendendo as mulheres (ou não) - Parte II

- E daí o Cardoso teve a coragem de falar que não foi ele quem er...

- Seu sem-vergonha!

- O quê?!?

- Eu vi a loira que acabou de passar. Não precisa disfarçar, eu sei que você quer olhar pra bunda dela e só não olhou porque estou aqui na sua frente. Mas pode olhar. Eu sei que você quer olhar. Vai, olha!

- Ahn?!? Mas eu não vi nenhuma loira.

- Claro que viu. Vocês homens são todos iguais: não agüentam ficar sem olhar uma bunda passar e ainda tentam fazer ar de santinhos. Deve estar suando frio aí se segurando pra não olhar.

- Mas amor, é sério, não vi mesmo, mas se tivesse visto e olhado você teria brigado comigo!

- Viu, como você é safado? Cafajeste! Vou embora, e não precisa me ligar hoje à noite, tá? Procure a sua amiguinha sirigaita loira se quiser sair pra jantar!

BBC Wild China (2008)


Episódio 1 - Heart of the Dragon
"Comemos qualquer coisa com pernas, exceto uma mesa; e qualquer coisa com asas, exceto um avião." (ditado do sul da China)

Se a China é a prova viva de algo, é que a vida selvagem é notavelmente capaz de se recuperar prontamente. Dando a ajuda certa, até mesmo as criaturas mais raras podem voltar da beira do precipício. Se nós mostrarmos o desejo, a natureza achará o caminho.
Wild China é o novo documentário em seis episódios, produzido pela BBC sobre animais, costumes e lugares chineses desconhecidos ao resto do mundo. Saiba mais em: Site oficial, IMDB e Wikipédia (todos em inglês).

Fábulas, de Esopo

Esopo: milênios de idade e ainda original, educativo e maravilhoso

Tudo que se sabe sobre Esopo (620-560 a.C.) poderia ser considerado mais como lenda que história propriamente dita. A maior parte do que se conta sobre a sua vida é baseada em relatos de outros escritores antigos. Das versões sobre a vida de Esopo, uma delas conta que ele era um escravo grego liberto pelo último dono, Xanto, porque este ficou encantado com as fábulas que contava. Apesar de corcunda e gago, Esopo teria um grande dom para contar histórias. Talvez tenha adquirido tal dom depois de viajar pelo Egito, Babilônia e Oriente. Assim como Sócrates, não escreveu livro algum, mas as suas fábulas passaram a fazer parte da cultura oral grega. Em 325 a.C. foram reunidas por escrito por Demétrio de Falera, para a famosa Biblioteca de Alexandria.

Fábulas são pequenas histórias que geralmente trazem animais, deuses ou homens em alguns conflitos em que podem se mostrar sábios ou tolos, bons ou maus e que trazem um ensinamento moralista ao final. Pode-se dizer que a famosa “moral da história” tem em Esopo um dos seus usos mais antigos.

As fábulas de Esopo foram citadas por Heródoto, Aristófanes, Platão, Apolônio de Tiana, Liev Tostói entre outros. Alguns escritores até mesmo adquiriram fama por pesquisar e reescrever as suas histórias, como Fedro e La Fontaine. Algumas fábulas se tornaram mundialmente conhecidas e fazem parte da educação infantil em vários países há vários anos. Algumas que, no Brasil, são conhecidas e reinterpretadas geração após geração, são:
A TARTARUGA E A LEBRE
Uma tartaruga e uma lebre discutiam para saber quem era a mais veloz. Por isso, combinaram uma data para uma corrida e um local aonde deveriam chegar. No dia certo, partiram. A lebre, que contava com sua rapidez natural, não se preocupou com a corrida. Caiu à beira de uma estrada e adormeceu. Já a tartaruga, que se sabia quão lenta era, não perdeu tempo e, deixando a lebre dorminhoca para trás, venceu a aposta.
O talentoso com preguiça perde para quem enfrenta a liça.

A FORMIGA E O ESCARAVELHO
Era verão. Uma formiga percorria o campo fazendo sua provisão de trigo e cevada para o inverno. Um escaravelho admirou-se por vê-la tão agitada; enquanto ela estava assim atarefada, os outros animais se divertiam. A formiga não disse nada. Mais tarde, porém, quando veio o inverno e a chuva destruiu os estercos, o escaravelho foi até ela e pediu um pouco do que ela tinha guardado. A formiga respondeu-lhe:
- Amigo escaravelho, se tivesses trabalhado no tempo em que meus esforços não suscitavam senão teus sarcasmos, agora terias alimento.
Quem foi irresponsável em tempo de abundância chorará em tempo de penúria.

A CIGARRA E A FORMIGA
Era inverno e as formigas botaram para secar os grãos que a chuva molhara. Uma cigarra faminta lhes pediu o que comer. Mas as formigas lhe disseram:
- Por que tu também não armazenaste tua provisão durante o verão?
- Não tive temo – respondeu a cigarra –, no verão eu cantava.
As formigas completaram:
- Então agora dance.
E caíram na risada.

O CAVALO, O BOI, O CÃO E O HOMEM
Quando o homem saiu das mãos de Zeus, estava destinado a uma vida breve. Usando sua inteligência, quando veio o inverno, ele construiu uma casa e a habitou. Nesse ínterim, o frio foi tão intenso, e Zeus fez chover tão forte, que o cavalo, sem forças, foi procurar abrigo na casa do homem. Este disse que só o receberia se ele lhe desse uma parte dos anos que tinha para viver. O cavalo os cedeu com prazer. Pouco depois apareceu um boi, acossado também pelo mau tempo. O homem lhe disse a mesma coisa: só o receberia se em troca ele lhe cedesse alguns anos de sua vida. Concluído o negócio, o boi entrou. Finalmente chegou o cão, morrendo de frio. Teve de ceder ao homem alguns anos de sua vida. Por isso que os homens vivem puros e bons durante o tempo que Zeus lhes deu. Quando chegam aos anos cedidos pelo cavalo, eles fanfarronam, cheios de altivez; quando chegam os anos do boi, ficam autoritários. Enfim, quando terminam a vida com os anos do cão, rosnam raivosamente por um sim ou por um não.
Isto é para ti, velho rabugento.

O PASTOR BRINCALHÃO
Um pastor que levou suas ovelhas para pastar em uma aldeia distante gostava de fazer a seguinte brincadeira: gritava “os lobos estão atacando!” E clamava pelo socorro dos habitantes locais. Duas, três vezes, os moradores ficaram com medo e fugiram da cidade, para depois voltarem rindo. Mas os lobos terminaram atacando de verdade. Como estavam devorando os carneiros, o pastor gritou por socorro. Os moradores pensaram que fosse mais uma brincadeira e não lhe deram nenhuma atenção. Foi assim que o pastor perdeu seu rebanho.
Ninguém acredita no mentiroso mesmo quando diz a verdade.

AS ÁRVORES E A OLIVEIRA
Um dia, as árvores acharam-se no dever de escolher uma rainha e elegeram a oliveira:
- Sê nossa rainha.
Mas a oliveira respondeu:
- Vou ter de renunciar ao azeite que homens e deuses celebram em mim para ir chefiar as árvores?
As árvores foram então à figueira, mas esta respondeu:
- Vou ter que renunciar à minha doçura, ao meu fruto suculento, para ir chefiar as árvores?
As árvores foram então ao pé de carrapicho e ele respondeu:
- Se vocês me sagraram rei, ponham-se sob a minha tutela. Se não for assim, que de mim saia uma espécie de fogo capaz de devorar os cedros do Líbano.

O GAROTO LADRÃO E SUA MÃE
Um dia, na escola, um menino roubou a lousa de um colega e a levou para a mãe. Esta, em vez de ralhar com o filho, lhe deu os parabéns, de modo que da próxima vez ele trouxe uma peça de roupa; por esse novo roubo ele recebeu cumprimentos ainda maiores. Ao longo dos anos, já rapaz, passou a roubar mais e mais. Um dia, porém, foi pego em flagrante: amarraram-lhe as mãos e o conduziram ao carrasco. Ao ver que a mãe o acompanhava, ele disse que queria confiar-lhe um segredo. Quando ela se aproximou, ele agarrou-lhe a orelha e a rasgou com os dentes.
Ímpio – disse-lhe ela –, já não bastaram os malfeitos que cometeste e ainda ultrajas tua mãe!
O filho respondeu:
- Se a senhora tivesse me dado uma surra no dia em que lhe levei a lousa roubada, eu não teria chegado ao ponto a que cheguei: não estaria a caminho da morte.

O ASNO E A CARGA DE SAL
Um asno carregado de sal atravessava um rio. Um passo em falso e ei-lo dentro da água. O sal então derreteu e o asno se levantou mais leve. Ficou todo feliz. Um pouco depois, estando carregado de esponja às margens do mesmo rio, pensou que se caísse de novo ficaria mais leve e caiu de propósito nas águas. O que aconteceu? As esponjas ficaram encharcadas e, impossibilitado de se erguer, o asno morreu afogado.
Algumas pessoas são vítimas de suas próprias artimanhas.

O CAMPONÊS E OS FILHOS
Um camponês tinha chegado ao fim de sua vida. Como queria que os filhos soubessem o que era cuidar da terra, chamou-os e lhes disse:
- Meus filhos, chegou a minha hora. Quanto a vocês, nada lhes faltará se procurarem o que escondi nas minhas vinhas.
Os filhos pensaram que ele estivesse falando de algum tesouro. Uma vez o pai morto, eles cavaram todo terreno, mas em vão. Nada de tesouro, mas a vinha bem lavrada deu-lhes uva em abundância.
O tesouro é o trabalho.
Outras fábulas serviram de inspiração para histórias infantis criadas posteriormente, como o cisne que bota ovos de outro em “João e o pé de feijão”, ou o asno disfarçado com uma pele de leão em “A última batalha”, ou do rato que tira um espinho da pata do leão e granjeia a sua proteção, só para citar algumas. Ao todo, o livro Fábulas de Esopo (L&PM, 2007) traz 352 fábulas atribuídas a Esopo, traduzidas por Antonio Carlos Vianna. Um livro que vale a pena ler para recordar das histórias que você ouvia quando criança, para saciar sua curiosidade sobre o surgimento de algumas fábulas contemporâneas ou até para retirar os seus filhos um pouco da frente da tevê, videogueime e pc. E cada fábula traz uma lição de moral que fala diretamente à alma, provocando a reflexão profunda no leitor, que somos obrigados a concordar com a afirmação de La Fontaine: “Acho que deveríamos colocar Esopo entre os grandes sábios de que a Grécia se orgulha, ele que ensinava a verdadeira sabedoria, e que a ensinava com muito mais arte que os que usam regras e definições.

Veja também:
Excelente
leitura: Agosto de 2008
obra: Fábulas de Esopo
tradução: Antônio Carlos Vianna
edição: 1ª, Coleção L&PM Pocket vol. 68 - L&PM (2007), 176 pgs
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