Homem que é homem que é homem

Desta vez, ela ouviu a pergunta e desviou os olhos da revista. Ele estava pelado.

Olhou os poucos fios na cabeça dele – um catálogo de cores neutras - escalando pela última vez os paredões daquela montanha calva e lustrosa. Ele nunca pensara num implante? Da careca passou aos tufos de pêlos salientes nas orelhas e nariz e voltou à careca. Humm, talvez funcionasse. A barba de dois dias seria um ótimo esfoliante, se convencesse o marido a passá-la nas costas. E os cabelos no peito só não eram mais espessos que os na bunda – e pensou novamente na careca. Humm, eca. A barriga decadente não era mais o glorioso hemisfério que fora no passado: parecia mais um depósito de pele murcha que de gordura e servia só para fazer sombra no vizinho de baixo, que também não era mais o mesmo. Ele deu um leve gingado que fez a hélice roliça dar uma volta de 360 graus. O meio sexo dele – meio mole, meio não tão mole – apontava indeciso para as gavetas da penteadeira, ora a de acima, ora duas abaixo. Parou naquela com o puxador solto. Tenho que arrumar isso, ela pensou, amanhã. As pernas arqueadas e cabeludas – e imagina no que ela pensou – exibiam as medalhas de guerra: cicatrizes e hematomas arduamente conquistados nas peladas de sábado à tarde com o pessoal da igreja. Pra terminar, o dedão do pé esquerdo tinha a unha encravada, roxa, igual à metade de um escaravelho.

Hoje não, querido, estou cansada. E virou para a parede, com todo cuidado possível para não encostar o creme facial pastoso, mistura de kiwi com uva, no travesseiro ou desalinhar a touca magnética revitalizadora para cabelos tingidos.
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