Oficina de Escritores, de Stephen Kosh

"O gato deitou no tapete" não é o começo de uma história, mas "o gato deitou no tapete do cachorro", sim. - John Le Carré

Quem passar pelo livro Oficina de Escritores – seja na prateleira de uma livraria ou na página de um website – talvez pense que é apenas mais um livro feito pra vender aos escritores iniciantes. E estará certo! Mas o que diferencia Oficina de Escritores dos outros? O detalhe que mais salta aos olhos é ser o único até agora a trazer soluções práticas aos principais problemas enfrentados pelos escritores apontadas por escritores famosos. Stephen Kosh reuniu muitas entrevistas de grandes escritores, que falam sobre a profissão, os desafios e as soluções utilizadas quando escrevem. Ao ler o livro, provavelmente o pensamento “isso já aconteceu comigo” passará algumas vezes pela sua cabeça. Claro, as dificuldades de escrita que você enfrenta não são exclusividade sua. Ainda bem, pois assim poderá receber os conselhos de quem as enfrentou antes e se saiu bem.

Stephen Kosh foi professor de graduação e pós-graduação em escrita literária por mais de 20 anos nos Estados Unidos e juntou neste livro toda a experiência adquirida para atingir os que não tiveram o privilégio de serem seus alunos, como você e eu. Pelo menos não diretamente, pois o leitor se sente como numa sala de aula, sentado ao lado de escritores como Stephen King, Hemingway, Virgínia Woolf, Gabriel García Marquez, Jane Austen, entre outros, contando as suas histórias. “A maioria dos escritores adora falar, e uma das coisas de que eles mais gostam é falar sobre escrever.” (Introdução, XIII)

Algumas opiniões de Kosh podem chocar aqueles que procurarem uma mão sendo passada na cabeça. “Primeiro, tente se tornar outra coisa, qualquer outra coisa... Você só deve se tornar escritor se não tiver escolha. Escrever tem de ser uma obsessão – é apenas para os que dizem: ‘Não vou fazer outra coisa. ’” (pg. 44) É o que diz Lorrie Moore e muitos outros quando falam da vida solitária e incompreendida do escritor. A solidão é ferramenta essencial de trabalho do escritor, mas pode dar frutos amargos nas relações sociais e familiares. Você está disposto a passar por isso?

Ou então a idéia de escrever freneticamente mesmo antes da história estar completamente estruturada, sem olhar detalhes, sintaxe ou gramática, para na medida em que for escrevendo, as novas idéias fluirem daqui e dali. É a famosa Primeira Versão que, como diz Kosh, obrigará você a terminar o seu trabalho colocando-o todo no papel. “Quando tiver terminado o primeiro esboço, saberei do que trata o livro. Mas não antes” diz Isabel Allende. (pg. 6) Paul Johnson confirma: “Um mau romance é melhor que um romance não escrito, pois o mau romance pode ser melhorado; já o romance não escrito é derrota sem batalha.” (pg. 58)

O escritor deve carregar sempre um caderno de anotações para não perder nenhuma idéia, frase, pensamento, personagem etc. quando estes surgirem, às vezes num flash, na sua frente. Mas é preciso saber o limite em que as anotações ajudam ou atrapalham. Deve-se também reservar tempo para a escrita e leitura diárias. Aliás, a leitura é requisito fundamental para todo escritor, mesmo que este esqueça a maior parte do conteúdo que ler, será material estocado no interior de seu cérebro esperando o momento certo para emergir. “Leia para fixar e aprender; leia também para esquecer. A mente pré-consciente é um excelente editor.” “Faça ainda uma dieta regular de poesia.” (pg. 55)

Outras questões importantes abordadas no livro são: O que desenvolver primeiro, a história ou a personagem central? A estrutura ou o enredo? Como descobrir qual foco narrativo é o melhor? Como fazer a sua voz soar bem? Ou como achar o seu próprio estilo sem imitar o de seus escritores favoritos? Qual a relação entre a autobiografia e a ficção?

Por último, mas não menos importante, Kosh explica o que e como revisar em um texto a cada versão. Apesar de poucos escritores talentosos optarem pela versão única e mais lenta, o melhor para os iniciantes é escrever a primeira versão rapidamente, e aplicar algumas regras nas seguintes. Podem ser poucas ou inúmeras versões e revisões, dependendo de cada escritor. Mas para cada uma há fórmulas específicas, como uma das da segunda versão que é:

2ª versão = 1ª versão – 10 por cento


Além do seu próprio trabalho há também a ajuda dos leitores de seus manuscritos. Não devem ser pessoas que você sabe que elogiam qualquer coisa que você escreveu, mas as que não têm receio de olhar nos seus olhos e dizer que o texto é uma porcaria, porque talvez ele seja mesmo.
A crítica é uma atividade intelectual – e um ramo da literatura – que nada deve a você nem ao seu projeto. É uma forma de discurso, um meio de avaliar e entender a obra literária e artística, bem como um modo de refletir sobre o que foi escrito. É absolutamente livre para fazer tudo isso sem a menor consideração com o seu bem-estar. Nada a obriga a dizer coisas boas e úteis sobre você ou sua obra. Não fez nenhum voto de não magoar ninguém. Nada – não ser a honestidade intelectual e o simples decoro – a impede de ser, com a consciência limpa, implacável e resolutamente destruidora.” (pg. 250)
Ao final, aparece uma lista com os melhores livros sobre técnicas de escrita usados pelo autor nas suas aulas, que vão desde A Poética de Aristóteles até os escritos para melhorar a auto-estima do escritor, como O Zen na Arte de Escrever de Ray Bradbury.

Se você pensar que nesta breve resenha esgotaram-se as dicas do livro, acredite, o espaço não possibilitou demonstrar nem a décima parte do que ele traz. Se você tem a pretensão de ser um bom escritor, não perca tempo inventando a roda novamente, torne o seu caminho mais suave com as orientações dos grandes mestres da literatura mundial que sabem realmente o que é escrever.

leitura: Julho de 2008
obra: Oficina de Escritores (The Modern Library Writer´s Workshop), de Stephen Kosh
tradução: Marcelo Dias Almada e Silvana Vieira
edição: 1ª, WMF Martins Fontes (2008), 297 pgs
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Excelente

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