A heresia da separatividade

Acordou após morrer com a lembrança do acidente fresca na memória, mas sem dor. Não havia sangue, nem choro, nem caos. Só a sensação contagiante e interminável de quietude. O som da eternidade acalma. Olhou ao redor e o mundo permanecia: árvores mais verdes do que nunca, cheiro de terra como quando acaba de chover, a vastidão do céu revelando que o dia era belo. Os raios quentes do sol diziam oi quando lhe tocavam. Ou melhor, quando lhe atravessavam. Meu Deus, estou transparente, pensou. Olhou para si e não viu pés, nem mãos, braços, busto ou outras partes do corpo que tão bem conhecia. Tudo ao seu redor permanecia igual, exceto ela. Contudo, não sentiu medo, pois a paz que emanava de si a confortava grandemente. Sabia, de algum jeito, que a experiência havia valido a pena. Agora era recomeçar do zero, só, como sempre vivera. Não necessariamente, ouviu muitas vozes soarem por todos os lados, acima, dentro dela. Hoje você descobrirá que nunca existiu sozinha, mas apenas separada temporariamente em bilhões de partes chamadas humanos.

Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores de 21.10.2010, com o tema a música Imagine, de John Lennon.
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