O Príncipe Maldito XI

Leia também a Parte X.

O silêncio era o único que se manifestava no recinto. Fazia a sua festinha particular, aproveitando para treinar os seus monólogos inaudíveis enquanto todos os presentes olhavam uns para os outros com cara de bobos. Era uma oportunidade única que o silêncio não poderia perder: dançar e pular entre milhares de seres dentro de um mesmo salão, todos completamente mudos. Saltitando alegremente, não percebeu quando foi atropelado por um conjunto de sons, saídos da boca do sultão Elul-Ah.

- Obrigado, amigo druida, pela sua generosidade. Eu sei muito bem o que pedir, há anos formulo o melhor desejo capaz de cessar com todas as atrocidades que os djins causaram a mim e a todo o meu reino.

O sultão havia recebido de presente do jovem druida o direito a fazer qualquer pedido que quisesse, quando este conseguiu decifrar o enigma dos djins gêmeos, e não escondia a ansiedade por ter recebido tal dádiva.

- Caros djins, preparem-se para o meu pedido. Sei que ganhei muitas coisas nas apostas que fiz com vocês, como este magnífico castelo repleto de tesouros, comidas e bebidas de todas as partes do mundo, ganhei também o poder de nunca envelhecer, e o título de rei dos djins, o que me faz obrigatoriamente ser respeitado por todos vocês. Mas estes prêmios não compensam aquilo que perdi: minha família, meus súditos, meu reino. Todas as glórias que eu sonhava antes agora são realidade, e o que era a minha realidade é justamente aquilo com o que eu sonho todas as minhas noites. Aprendi a minha lição à duras penas. Por isso, desejo retroceder até o maldito dia em que fizemos a nossa primeira aposta e desistir de fazê-la, consciente de tudo o que irei perder, mas também do que irei ganhar. Que a hipótese vire fato e que o fato se transforme em hipótese. Desisto de tudo o que ganhei em troca de tudo o que perdi. E que isso faça que nunca mais nos vejamos novamente, djins.

O pirata Barbarrala olhou com os dois olhos para o druida. O druida olhou com os dois olhos para Carpeaux. Carpeaux olhou com um olho e um tapa-olho para o sultão. O sultão encarou um incontável número de olhos maldosos de djins o encarando de volta. Os djins não gostam de atender pedidos desse tipo. Tira toda a graça da brincadeira de ser um djin malvado ter de desfazer as suas malvadezas. Mas se há uma coisa que ninguém pode reclamar, é que os djins não paguem as suas apostas. Há até um regulamento do sindicato dos djins que justifica honrarem suas apostas sob pena de não encontrarem mais ninguém para jogar. Juzam aproximou-se do sultão e disse:

- Muito bem, Elul-Al, muito bem. Você quer abandonar a brincadeira enquanto está por cima, hein? Mas tudo bem, faremos exatamente o que pediu, mas saiba que os outros do seu reino não estarão livres de apostarem conosco, nem a sua saudosa rainha, nem os seus filhos, nem mesmo o bobo da corte ou o mísero camponês. Saiba que situações bem piores poderão sobrevir ao seu reino. As possibilidades são infinitas.

- Estou ciente disso, Juzam, mas não posso controlar os atos de todos. Porém, o que posso tentar é desfazer as consequências dos meus atos falhos. E é justamente isso o que eu pretendo neste momento. Quanto ao que as outras pessoas farão, é de inteira responsabilidade de cada uma delas.

- Pois bem, que assim seja – e afastando-se do rei, voltou-se para as hordas de dinjs presentes – Meus caros, mais um ciclo se findou. Mais um que deixou de ser suscetível aos nossos jogos. Resta-nos agora desfazer tudo o que fizemos com ele e deixá-lo exatamente no ponto onde o conhecemos. Para isso, preciso do poder de todos aqui presentes, e segurem-se, pois a viagem vai ter turbulência.

Um a um, todos os djins começaram a brilhar. Um brilho intenso que vinha de dentro deles, de várias cores. Dourados, azulados, esverdeados, avermelhados ou em tons fúcsia ou verde-limão para os djins mais glamurosos. A luz era tão forte que o interior do castelo ficou dez vezes mais iluminado que o dia estava lá fora. O castelo começou a tremer. Não, o castelo começou a girar. Não, o castelo parecia estar dentro de uma centrífuga ligada na operação secar roupas pesadas. Os heróis desta história não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Só sabiam que era tarde demais para fugir dali. O que estivesse acontecendo, eles estavam bem no olho do furacão, e era um olho bem mau intencionado. Carpeaux gritava por um saquinho de enjoo. Barbarrala segurava o chapéu e dava risadas sinistras que só os piratas sabem dar para disfarçar o medo enquanto todas as coisas voam ao seu redor. O druida tinha no rosto uma expressão de quem sabia que não iria gostar nem um pouco do resultado.

Quanto o pandemônio cessou, encontraram-se caídos exaustos, como se cada um tivesse lutado com um monstro de 13 cabeças e meia durante duas horas. Nunca alguém conseguiu passar de alguns minutos de luta com um monstro de 13 cabeças e meia, mas se alguém tivesse conseguido essa façanha, ficaria exausto exatamente como aqueles quatro estavam. Barbarrala, depois de soltar alguns uis tentando se levantar, foi o primeiro a abrir os olhos. Encontrou tudo diferente. O castelo era outro, bem mais simples que o castelo azul em que agora mesmo eles se encontravam. As comidas, a prataria, as esculturas, as paredes incrustadas de gemas preciosas haviam sumido. Assim como os djins. Os outros também estavam se levantando. Foi quando uma lembrança puxou um fio de cabelo de Barbarrala, avisando que ele havia esquecido de algo. Ou melhor, de alguém.

- Por mil trovões, aonde está Lilah Mor?

- Estou bem aqui, meu querido – ouviu-se uma voz infantil vinda das escadas.

- BB! O que você está fazendo aqui? Nós havíamos te deixado no navio. Onde está Lilah?

- Seu bobo, você não percebeu até agora que Lilah Mor na verdade era eu?

Todos estavam espantados. Até mesmo o silêncio resolveu ficar na dele para não levar a pior novamente.

- C-como assim, perguntou o pirata.

- Bem, todos sabem que as bruxas não podem fazer feitiços em si mesmas. Para que isso aconteça é preciso de algum voluntário, ou de algum sacrifício, estas coisas básicas. Quando eu me tranquei na cabine do navio Darius Drome com o papagaio pirata Corruto III, eu fiz dois feitiços ao invés de um. Primeiro, com uma magia azul, troquei de lugar com o papagaio. Ele virou BB e eu virei Corruto III. Ao mesmo tempo, com a magia dourada, me transformei em mulher, a pirata Lilah Mor, para que ninguém desconfiasse que eu não havia feito nada de bom com o papagaio. Contudo, o meu plano só tinha um problema, pois estes tipos de magia tem um prazo de validade de 24 horas antes de seu efeito acabar. É uma regrinha imposta pelo Ministério da Magia na venda e manipulação de feitiços genéricos.

- Então quer dizer que esse tempo todo eu estava flertando com você, Balbina? – perguntou o atônito Barbarrala.

- Sim, meu querido. Me espanta você não ter percebido, afinal, eu já fiz isso muitas vezes antes. É um dos meus feitiços favoritos, não se lembra? E você achando que eu iria transformar aquele urubuzinho verde em alguém que conseguiria seduzir você só estalando os dedos? Nem morta!

Quem estivesse assistindo a cena poderia ver as faces de Barbarrala ficarem coradas de vergonha. Afinal, ele havia dito coisas comprometedoras para um pirata. E contou justamente para a pessoa a quem estas coisas comprometedoras estavam relacionadas.

Neste instante, entraram na sala vários guardas com espadas e lanças apontadas para todos. BB, Carpeaux, Barbarrala e o druida já estavam prontos para lutar quando o sultão deu a ordem.

- Guardas! Parem! Estes senhores são meus hóspedes, qualquer mal que lhes aconteça, será como se o fizessem à minha pessoa.

Foi o suficiente para que os guardas retrocedessem. Mas não os que vinham atrás deles. Uma mulher, com os trajes e beleza típicos de uma rainha, seguida de três pequenas crianças, entraram e abraçaram-se ao rei. Agradeceram aos céus pelos invasores não serem perigo ao rei. O rei notou que eles não haviam percebido que ele estivera longe por tanto tempo, até porque ele não estivera. Tudo o que vivera por causa dos djins estava apenas em sua memória. Uma memória de coisas futuras que não iriam mais acontecer.

- Meus amados, vocês podem ficar em meu reino por quanto tempo quiserem – disse Elul-Ah – serei eternamente grato pelo que fizeram por mim.

- Desculpe-nos, sultão, mas devemos continuar a nossa viagem. Temos de chegar nas Terras Geélidas e confrontar um gigante – respondeu BB – vamos voltar ao navio e zarpar assim que o primeiro vento soprar. Mesmo que tenhamos de encarar um periquito totalmente furioso antes.

- Acredito que não será necessário, jovem bruxa.

- E por que não?

- Vocês já olharam pela janela?

Correram até a janela mais próxima, só para verem uma paisagem completamente diferente da que esperavam. Estavam nas montanhas! Não havia mar, nem passagem aquática em uma lagoa para o outro lado, nem navio pirata Darius Drome.


- Onde está o meu navio, perguntou Barbarrala.

- Provavelmente a dois mil anos no futuro, meus amigos. Devo ter esquecido de lhes dizer que este foi o tempo em que eu vivi sob o encantamento dos djins. Não sei por qual motivo vocês voltaram junto comigo à minha terra e ao meu tempo. Na certa, foi a brecha no meu desejo que os djins encontraram para fazer a sua estripulia final. Eu lamento por vocês, mas vocês voltaram dois mil anos no passado junto comigo.

Foi quando dois pares e meio de olhos voltaram-se ameaçadores para o druida, com um pensamento unânime traduzido na forma mais singela de pergunta: “E agora, seu druida imbecil, como vai nos tirar dessa enrascada?”.

(Continua...)
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