O último gibi que não li

Eu iria ao centro da cidade comprar a edição especial do Capitão Submarino. Antes, resolvi passar na casa do Waltinho para irmos juntos, e ele seria o primeiro a me felicitar pela aquisição. Mas a casa dele estava fechada. Fui só. De todo jeito, o Waltinho ficaria sabendo amanhã na escola. Eu estava ansioso porque seria nesta revista em quadrinho limitada que o Capitão enfrentaria sozinho o monstro AQUÁTICO de duas cabeças e oito tentáculos, salvando o reino de Atlântida. Todos os garotos do bairro só falavam da edição especial desde que ela apareceu nas bancas. Eu realmente precisava daquela revista, era uma questão de vida ou morte. Por isso, guardei o dinheiro do lanche de vários dias – ganhava umas mordidas no sanduíche da Isa, mas nem sempre EXTINGUINDO a fome por completo de quem tinha o carinhoso apelido de Jibóia –, além de lavar o carro do pai por dois sábados e capinar todo quintal do seu Antonio. Ralei pra caramba. Mas o prêmio compensava o sacrifício.

Lembro da sensação que tive ao pegar o exemplar lacrado e deixar sobre o balcão as notas suadas de minhas suadas economias em prol daquele prazer supremo. Estava maravilhado, e ao voltar para casa pensava em rasgar logo o plástico que envolvia a edição, mas queria fazer disto um ritual, sem ninguém por perto para atrapalhar. Seria um prazer só meu. Amanhã eu levaria a revista para a escola e todos iriam babar. Mas hoje à noite ela era só minha. Iria até levar ela para a cama comigo. De tempos em tempos, levantava o embrulho até o nariz para sentir o cheiro de plástico novo, inebriante, estimulante como um incenso ofertado pelo SACERDOTE atlânte quando precisava solicitar a ajuda do Capitão Submarino.

Porém, o universo achou minha alegria INCÔMODA demais, e haveria de me dar uma lição, daquelas que entra na mente de uma criança para nunca mais sair. Em meu leito de morte hei de lembrar do ocorrido naquela tarde. Em uma esquina, uma roda de homens parecia interessada em algo no centro. Curioso, me espremi entre os adultos, para presenciar boquiaberto um ágil MANIPULADOR da curiosidade alheia e de três cartas de baralho dobradas. O desafio era alguém acertar sob qual das cartas estava RECÔNDITO um botão. O homem primeiro mostrava teatralmente a todos onde havia colocado o botão, movimentava as cartas, trocando-as de lugar com rapidez e oferecia o dobro ou nada para quem conseguisse acertar. Um homem apostou dez reais. Todos se empolgaram enquanto as cartas eram alternadas. Acompanhei com os olhos e sabia exatamente onde estava o botão. O homem apontou a carta que eu olhava e duplicou o dinheiro dele, além de receber tapinhas nas costas e comentários de muito bem, você é esperto mesmo... O ganhador fez nova aposta, vinte mangos. O homem das cartas fez uma careta, disse que precisava contar se teria mais vinte reais no bolso caso o apostador ganhasse novamente. Seu sorriso voltou quando percebeu que tinha o dinheiro e disse que desta vez iria ser mais rápido. De novo, vi onde estava o botão. E acertei, assim como o apostador, ele dobrou o dinheiro e eu minha confiança. Depois de ganhar, o senhor guardou o dinheiro e saiu, e a maioria dos curiosos da roda se dispersaram. O homem das cartas continuava lançando o desafio, mas ninguém apostava. Ah, se eu tivesse dez reais, pensava, poderia duplicá-los facilmente. O que aconteceu em seguida foi tão rápido que a minha impressão foi a de ter durado poucos segundos. Alguém tocou em meu ombro e perguntou por que eu não tentava. O homem das cartas ouviu e imediatamente disse que a primeira tentativa era de graça. Tentei. Acertei. Ele disse que ele estava azarado naquele dia e que eu poderia dobrar meu dinheiro facilmente. Respondi que não tinha dinheiro. – E quanto custa essa revista, ele perguntou. – Quinze reais, respondi. – Ela é nova não é. – É. – Então fazemos o seguinte, você aposta a revista e se ganhar te dou mais quinze reais, o dinheiro que você gastou nela. Vozes me incentivaram. Apostei.

A sensação de vazio ou de perda, não sei, se apoderou de mim e me deixando como um ESCRAVO à venda parado na esquina enquanto o mundo se movia rapidamente ao redor. Observava a tudo e a todos como se estivesse em outra dimensão, vendo desaparecerem, primeiro a roda de homens que ali estava, depois os cochichos, sorrisos de deboche e olhares de pena dos que presenciaram a cena. Em pouco tempo, ali na esquina, só restava eu dos que presenciaram a minha queda. Mas o meu rosto queimava de vergonha. As pernas, braços e lábios estavam ali, mas inertes. A mente flutuava longe, depois da retirada da carga que levava nas mãos, no imenso vácuo branco onde eu ora não acreditava no que ocorrera e ora acreditava. Idiota. Como pude ser tão tolo? Agora teria de voltar para casa e contar uma mentira para a mãe para não ser chamado de burro. Teria de dizer para o Waltinho que a edição especial não era especial para mim ou que já tinha lido ela emprestada de alguém. Contudo, apesar da preocupação em esconder minha vergonha dos outros para não aumentá-la, somente tempos depois perceberia que algo pior rompera dentro de mim. Segurar a sensação amarga nos olhos e do peito, desconhecida porque nunca antes sentida, me fizera perder um pouco da inocência infantil descobrindo que não existiam heróis na vida real. Aquele foi o último gibi que não li.

Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores. Consistia em escrever um texto usando as 7 palavras que encontram-se DESTACADAS nele. Como percebi que a maioria dos duelistas criaram textos a partir das 7 palavras, resolvi fazer o inverso: peguei uma história que já existia em minha cabeça e inseri as palavras nela. Espero não ter ficado muito forçado.
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