O Príncipe Maldito X

Leia também a Parte IX.

Dizem que a vida é o maior enigma do universo. E que nem mesmo filósofos mais matemáticos, ou os matemáticos mais loucos, ou os loucos mais filósofos jamais conseguiram decifrá-la. E, apesar das probabilidades timidamente apontarem que zero-vírgula-alguma-coisa dos mais iluminados da humanidade provavelmente conseguiram as respostas definitivas para Quem somos, De onde viemos e Para onde vamos, ela também aponta que eles provavelmente morreram por não saberem as respostas de O que você vai fazer com esta faca, Para onde estão me levando e Por que vocês dizem que eu sou louco. Assim, o grande enigma universal continua sem respostas até o presente, pelo menos do lado de cá. Funciona mais ou menos como o espectador que aprecia uma disputa alheia de xadrez ou damas: para se ter um vislumbre geral da partida e dos melhores lances é preciso estar fora do jogo. E se o jogo for a vida...

Nenhum dos visitantes do Castelo Azul queria recorrer à respostas tão extremas para solucionar os enigmas que tinham diante de si. Desejavam continuar vivos, mesmo que a relação causa e consequência costumasse cobrar um imposto pesado dos sortudos sobreviventes. Os deuses do destino detestavam sortudos sobreviventes e, se causar desgraças adicionais a estes não contrabalançasse a roleta da vida, pelo menos era uma forma divertida de vingança. Mas não eram os deuses quem jogavam naquele momento e sim um druida e seus companheiros de viagem contra uma horda de djins traiçoeiros e poderosos. O jogo consistia em um enigma que, dependendo do resultado, traria algo de bom ou algo inimaginavelmente mau aos participantes humanos. E as apostas estavam em aproximadamente doze mil contra cinco que o resultado seria inimaginalmente muito mau.

- Vamos, qual é a resposta? – ameaçou Juzam, o juiz djin da partida.

Nenhum dos presentes sabia como responder à charada. Somente um poderia. Todos os olhos miravam  ansiosos o druida, que parecia pensativo. Desde que a charada ameaçadora que definiria o futuro de suas vidas fora feita, ele fez a única coisa que poderia ser feita em uma situação extrema, em um castelo que não poderiam sair e repleto de djins mágicos e sádicos: sentou-se em posição de meditação, bem no meio do salão, e fechou suavemente os olhos, mantendo a respiração lenta e tranquila. Os seus companheiros entenderam rápido que ele pensava a resposta, buscando-a dentro de si, algo que Carpeaux acharia uma tremenda sandice, já que sempre que buscou algo dentro de si só encontrou arrotos e gases estomacais.

Como não foi estipulado um prazo para a resposta, o druida permaneceu naquela posição por horas, para o total desespero da capitã pirata Lailah Mor. Enquanto os outros cansaram de esperar e foram comer, beber ou jogar uma partidinha de Uno com uns djins mais sociáveis, ela parecia cada vez mais ansiosa, deixando isso evidente sempre que passava perto do druida e discretamente murmurava que o tempo estava passando. Mas quando percebeu que só iria atrapalhar, complicando a sua própria situação, teve uma ideia de como passar melhor o tempo. Chamou o sultão Elul-Ah em um canto e perguntou com sua suave voz masculina:

- Prrrezado sultão, eu prrreciso de um aposento parrrticularrr urrrgente. Eu só rrrecentemente me trrransforrrmei em mulherrr, e tenho algumas necessidades pessoais parrra cuidarrr.

O sultão entendeu a indireta e chamou um djin camareiro – que tinha a aparência de uma vassoura e usava um avental – e ordenou que conduzisse a hóspede até a suíte da torre norte do castelo, a que tinha a hidromassagem funcionando. O djin fez um aceno que sim com aquilo que mais lhe parecia ser uma cabeça e voltou-se para indicar o caminho. Lailah o seguiu e, ao passarem pelo pirata Barbarrala, que contava suas aventuras em uma rodinha descontraída de djins alaranjados com milhares de sorrisos amarelos, cochichou no ouvido dele:

- Me encontrrre daqui à pouco na suíte da torrrrrre norrrte – e deu-lhe uma piscadela que lhe arrepiou os pelos das orelhas.

O pirata terminou o mais rápido possível a história, resumindo o final a ter matado sozinho todos os homens-lagarto e beijado todas as donzelas que eles mantinham cativas, e apresentou-se pontualmente na porta da torre norte logo depois. Deu três batidas na porta, e escutou um melodioso entre e feche a porta. O quarto tinha várias velas acesas, não tantas para o iluminarem muito, e muitos véus semitransparentes multicoloridos transformando o cômodo em uma espécie de labirinto. Digamos que a previsão do clima ali dentro era de sedução com uma suave brisa de mistério, e Barbarrala seguiu o som de uma canção melodiosa bastante aprazível. Ao se aproximar da cama, viu Lailah deitada e envolta somente em um dos véus, revelando curvas e protuberâncias acentuadas, e lhe chamando provocativamente com um dedo. Havia uma chama em seu olhar que incendiou o pirata por dentro.

- Esta será a noite de prazer mais longa da sua vida – disse.

Vinte minutos depois, os demais que continuaram no salão do trono viram o pirata reaparecer com um sorriso idiota no meio da cara. Ela realmente tinha lhe proporcionado a noite de prazer mais longa de sua vida. E ele chegou bem a tempo de ver o druida por-se em pé junto com o sol da manhã, sinalizando que havia encontrado uma resposta. Alguns que dormiam pelos cantos foram acordados e, em pouco tempo os djins, o rei, Carpeaux e Barbarrala estavam ao seu redor. Juzam trouxe os dois djins gêmeos Eugênios, cada um com uma mão fechada no topo de suas cabeças, que pararam em frente ao druida.

- Somente lembrando-lhes o desafio, para que não restem dúvidas se acertarão ou não, o enigma é este: o desafiante deve fazer uma pergunta a cada Eugênio e descobrir qual deles esconde a moeda de ouro na mão, sendo que eles vêm de uma família onde só existem dois tipos de djin: os que sempre falam a verdade e os que sempre mentem. Está pronto, druida?

Carpeaux entregou ao druida uma prancheta e um pedaço de grafite, cedidos pelo rei, na qual ele escreveu algo e devolveu a Carpeaux. O rosto do druida estava impassível e sereno como uma montanha. Carpeaux leu em alta voz:

- A primeira pergunta ao Eugênio número um é: Você e o seu irmão são do mesmo tipo de djin?

- Não – respondeu prontamente o Eugênio número um.

- A segunda e última pergunta ao Eugênio número mil e quatro: Você está segurando a moeda de ouro em sua mão?

- Não – respondeu mais rápido ainda o Eugênio número mil e quatro.

- Não há mais nada escrito na prancheta – concluiu Carpeaux.

Juzam e os outros djins presentes já cantavam vitória antecipada, mostrando-se nervosos e soltando pequenos gritinhos e vivas. Foi quando Juzam olhou bem dentro dos olhos do druida, com o sorriso mais maldoso guardado para ocasiões especiais.

- Diga-nos, druida, qual Eugênio tem a moeda?

O druida levantou vagarosamente os olhos para Juzam, e revelou algo escondido até aquele momento. Era o olhar de quem acabara de enganar a todos ali, o do jogador que mantém o blefe até o último instante. O sorriso maldoso de Juzam saiu em disparada com uma trouxinha nas costas e mudou-se para o rosto do druida. Este levantou o dedo e apontou para o Eugênio mil e quatro, silenciando a todos os djins presentes.

- Nããããão, maldiçãããããão, isto não é possível, raios, raios, mil vezes raios! – exclamou Juzam, seguido pelo coro dos djins que maldiziam e batiam em si mesmos – Mas como foi que você desvendou o enigma? Ninguém nunca antes havia acertado...

É claro que o druida não revelou o seu raciocínio aos djins, por pura questão de ética druida profissional. Um bom decifrador de enigmas nunca revela os seus estratagemas mentais ao inimigo. Mas, algum tempo depois, com calma e longe dali, fez um desenho esquemático para os seus companheiros demonstrando que se tratava de um raciocínio simples: não importava que o Eugênio número um falasse a verdade ou mentisse, se ele respondesse a pergunta feita a ele revelaria que tipo de djin era o irmão.

O raciocínio era mais ou menos assim: "Você e o seu irmão são do mesmo tipo de djin?".
SE Eugênio nº 1 falasse a verdade E Eugênio nº 1004 falasse a verdade, a resposta seria SIM;
SE Eugênio nº 1 mentisse E Eugênio nº 1004 falasse a verdade, a resposta seria SIM;
SE Eugênio nº 1 falasse a verdade E Eugênio nº 1004 mentisse, a resposta seria NÃO;
SE Eugênio nº 1 mentisse E Eugênio nº 1004 mentisse, a resposta seria NÃO.

Assim, quando a resposta do primeiro djin foi negativa, o druida concluiu que o segundo djin só podia ser mentiroso. Quando Carpeaux perguntou se ele segurava a moeda e este respondeu não, por ser mentiroso, denunciou que era exatamente ele quem estava com a moeda de ouro.


De volta ao palácio, os djins estavam furiosos, mas como eram fiéis cumpridores de acordos, perguntaram ao druida qual seria enfim o desejo dele. Poder, riquezas, imortalidade, mulheres, um fígado novo. As possibilidades eram infinitas. Carpeaux pediria tudo isso. Barbarrala se contentaria com a metade. O druida lembrou-se de suas maldições. Neste ponto, o rei interveio.

- Muito cuidado com o que desejam, caros amigos, pois pode ser realizado diferente do que pensam. Eu caí em desgraça mais por fazer pedidos aos djins que tinham várias possibilidades de interpretação do que por perder as apostas. Se o pedido for dúbio, eles realizarão aquilo que for pior. Aprendi esta lição a muito custo, e este é o motivo de eles não apostarem mais comigo.

O druida pegou a prancheta da mão de Carpeaux, rabiscou algumas palavras e devolveu a ele. Carpeaux, não sabendo se tinha lido errado por causa do sono ou dos raios solares que entravam pelas janelas, olhou incrédulo para o druida.

- Você tem certeza disso?

O druida fez que sim com a cabeça, ao que Carpeaux leu o escrito:

- O druida pede ao rei que faça o pedido por ele.

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