Futebol e Literatura

“Tudo que sei sobre a moral e as
obrigações do homem, devo ao futebol.”
Albert Camus, Nobel de Literatura


Para o brasileiro, é inevitável falar ou ouvir falar de futebol, independente se gosta ou não do esporte bretão. Principalmente em época de Copa do Mundo, fica evidente do porquê vivemos no chamado país do futebol. Desde que Charles Miller desembarcou por aqui, em 1894, trazendo nas mãos duas bolas (de futebol, seu mente suja!) a aceitação popular só fez aumentar. Mas, muito da atual paixão nacional que gira em torno do esporte deve-se aos incentivos não tão inocentes de Getúlio Vargas, exímio articulador popular, que construiu o Maracanã e trouxe a Copa de 1950 para o país, fazendo um espetáculo difícil de ser esquecido pelos eleitores. Acrescente na receita alguns grandes craques como Pelé, Garrincha, Zico e Ronaldo, bem como as vitórias nos mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 para fazer com que o futebol chegasse ao que é hoje: parte da vida de todos os quem nascem no Brasil. Mas o futebol vai além de ser o principal esporte e lazer popular, é apontado como uma das principais formas de alienação e controle das massas, e também não deixa de ser um excelente negócio: movimenta 16 bilhões de reais por ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

Mas o que tem a ver o futebol e a literatura? Quando um esporte exerce tamanha influência a ponto de fazer parte do cotidiano de um país, com os seus termos técnicos como gol, impedimento, drible, atacante, cartão vermelho, pênalti e outros passando para as metáforas populares supõe-se que cedo ou tarde influenciaria artistas, sejam pintores, músicos, escultores e escritores. As obras destes artistas eternizam os seus sentimentos de pessoas comuns sobre coisas comuns. Tanto é que grandes nomes da literatura já fizeram lindos gols usando apenas as palavras. Nelson Rodrigues teve até o estilo literário influenciado pelo esporte e escreveu crônicas que são lidas até hoje, anos depois das partidas narradas. E como negar alguns dos axiomas deixados por ele?

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num escanteio bem ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural.”

“Nossa literatura ignora o futebol - e repito: nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral.”

“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

E quem nunca esboçou um sorriso maroto com as hilárias crônicas de Luis Fernando Verissimo, como a comparativa “Sexo e Futebol”?

“No futebol, como no sexo, as pessoas suam ao mesmo tempo, avançam e recuam, quase sempre vão pelo meio, mas também caem para um lado ou para o outro, e às vezes há um deslocamento. Nos dois é importantíssimo ter jogo de cintura.”

“No futebol, como no sexo, tem gente que se benze antes de entrar e sempre sai ofegante.”

“E tanto no sexo quanto no futebol o som que mais se ouve é aquele ‘uuu’.”

Acrescente à escalação deste time de escritores que foram craques fora de campo, mas colocaram as suas imaginações lá dentro das quatro linhas, Rachel de Queiros, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Hilda Hilst, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola e Ruy Castro, os uruguaios Horacio Quiroga e Eduardo Galeano, e os ingleses Nick Hornby e Patrick Kennedy, só para lembrar alguns.

A grande jogada destes escritores foi fazer a tabelinha entre duas paixões, o futebol e a literatura, imortalizando jogos e jogadores, craques e pernas-de-pau, dribles, firulas, técnicos, juízes e mães de juízes. Assim, transformaram a arte dos pés em arte das mãos, ambas bonitas de serem vistas e capazes de encher de orgulho o coração de quem assiste, seja torcedor, seja leitor.

Desafio de escrita proposto no Duelo de Escritores, com o tema "Copa do Mundo de Futebol".
Postar um comentário