O Príncipe Maldito

Era uma vez, um príncipe, amaldiçoado porque falava demais. Mas ele só falava demais porque ninguém o ensinou quando pequeno que as palavras poderiam trazer sérias conseqüências. No caso do príncipe tagarela, as palavras foram a sua maldição. Ele, literalmente, não era homem de meia palavra. Talvez fosse de meia tonelada de palavras. Sempre falava o que precisava falar. Mas também muita coisa que não precisava. Doesse a quem doesse, desde que nunca doesse nele. Falar muito tem disso, presta-se demasiada atenção às suas palavras e não se percebe a guerra que está se armando ao seu redor. Só quando é tarde demais.

Se alguém era feio, assim que o conhecia, o príncipe dizia que ele era feio. E ele sabia todos os sinônimos para feio: horroroso, horrível, horrendo, disforme, sem beleza, de aparência desagradável, desproporcionado, desprezível, nojento, vergonhoso, desventuroso, difícil de suportar, asqueroso, repugnante, repulsivo, revoltante, repelente, etc etc etc. E fazia o mesmo com quem fosse alto, baixo, gordo, magro, corrupto, burro etc. Por isso, granjeou inimigos por todo o reino, pois ninguém gostava de ouvir a verdade sobre si revelada em público, mesmo que fosse pela boca de um príncipe. E ainda mais uma boca que falava tanta coisa ruim.

O príncipe só tinha amigos falsos e interesseiros, que não se importavam em ter as suas falhas apontadas pelo príncipe. Ele também não tinha pretendentes, pois mulher alguma gostava de ouvir que precisava fazer uma dieta, que o vestido estava horrível, que a mãe mais parecia um ogro... Apesar dele também falar das virtudes das pessoas, pois ele falava muito, quando ouviam sobre os seus defeitos, esqueciam tudo o que fora dito de bom antes.

Como ele era o filho único do rei, ninguém fazia nada contra ele, nem o censurava, e ele cresceu assim até chegar a idade adulta. Foi quando, em uma bela manhã, o príncipe passeava pela feira quando viu uma velha encurvada, feia e descabelada, roupas esfarrapadas, escolhendo algumas maçãs para comprar.

- Meu Deus! Você parece uma bruxa! – exclamou o príncipe.

A velha virou-se para ele, e um dos guardas que o acompanhava a reconheceu como a feiticeira perigosa do Vale Sombrio, que há muito era procurada por todo o reino. O guarda soou o alerta e logo ela estava sendo levada presa à masmorra, mas não sem antes maldizer o príncipe:

- Hoje, você denunciou meu disfarce e por isso eu o amaldiçoo: perderás a coisa que mais amas na vida, a fala, d'antes tão aprazível para ti, será silenciada por sua própria vontade e as tuas palavras tornar-se-ão tão repugnantes aos narizes daqueles que as ouvirem quanto o são para o coração. Serás a tua maldição perpétua, e a quem você contar sobre ela, só o abrir de sua boca o tornará repulsivo e odiado!

O príncipe gelou. Ele acabava de ser amaldiçoado por uma bruxa. Uma bruxa do Vale Sombrio. Olhou para um lado, olhou para outro, e percebeu que todos o observavam e esperavam por uma atitude sua. Disse então ao chefe dos guardas, com um sorriso amarelo nos lábios:

- Acha que esta maldição é para valer?

O guarda fez uma careta de nojo. Não só ele, mas todas as pessoas que estavam ali perto. Era como se quisessem vomitar. O príncipe, sem entender nada, perguntou:

- O que há com vocês? Por que estão assim?

O pânico foi geral. Pessoas tossiam, vomitavam e desmaiavam, animais fugiam para longe e plantas secavam. O guarda, de estômago mais forte, se aproximou do príncipe, tapando o nariz com uma das mãos e respondeu:

- A bruxa... meu senhor... ela o amaldiçoou com o bafo do dragão! Por favor, Majestade, não fale mais nada, pois nós não conseguiríamos suportar o mau cheiro. O fedor de podridão é grande. Não sei se consiguiria resistir em sacar a minha espada para matá-lo só para que não falasse mais.

O príncipe agora compreendeu a maldição. As suas palavras tornaram-se repugnantes aos narizes daqueles que as ouvissem. Mesmo de animais e plantas. Colocou a mão no ombro do guarda e fez gestos indicando que ficaria calado. Viu no rosto do guarda o alivio que sentiu. Depois de alguns gestos difíceis e confusos de serem compreendidos, conseguiu fazer-se entender que desejava ir ao calabouço, para ver a bruxa. Ao chegar lá, pediu, com gestos novamente, para ficar a sós com ela. Com os braços presos em algemas nas paredes, ela sorriu mostrando os dentes podres ao vê-lo do outro lado das grades.

- O que eu posso fazer para que você retire a maldição?

A feiticeira se contorceu-se de nojo. Não pensava em mais nada a não ser vomitar com o cheiro extremamente asqueroso. Ela soltou um grito de dor e nojo e náusea que ecoou por todo o castelo.

- Saia já daqui, seu cão imundo. Já não bastava me prender e agora vem me torturar com a sua maldição? Pois conseguistes piorar mais a tua sina, agora terás outra maldição: além de seres amaldiçoado até o fim de sua vida com as palavras podres que sairão da sua boca, vais desposar uma princesa também amaldiçoada. Esta é a sua segunda maldição neste dia. E se insistir em continuar na minha presença, serão só as primeiras de várias.

O príncipe, se lamentando por cometer o segundo erro em tão pouco tempo, saiu às pressas da presença da bruxa. Correu para o palácio, não sabendo o que deveria fazer e sem poder pedir a ajuda a ninguém. Por isso, seguiu até o alto da torre mais alta, onde ninguém poderia ouvi-lo, e deu um grito de desespero. Neste instante, algumas aves que voavam por ali caíram mortas ao redor. Sozinho, o príncipe chorou e lamentou em altos brados pelos erros que o levaram até ali. Culpou os céus e o inferno pelo seu destino, depois culpou a si mesmo, para por fim se acalmar e para de jogar a culpa em alguém e pensar nas soluções práticas para os seus novos problemas.

Para a primeira maldição era preciso que ninguém ouvisse as suas palavras. Elas provocavam uma reação de repulsa e desespero e morte dependendo do ouvinte. O príncipe primeiro pensou como isso poderia ser útil, mas as hipóteses foram descartadas uma a uma. A mais provável, seria a de usar a sua voz nas Cruzadas, falando aos exércitos inimigos. Mas percebeu que não iria funcionar: necessitaria estar sozinho no meio do exército inimigo, senão os aliados sofreriam as mesmas conseqüências que os outros. E além disso, atrairia toda a fúria inimiga para si, todos desejando matá-lo para ele ficar quieto. Deste modo, resolveu que daquele dia em diante não pronunciaria mais nenhuma palavra enquanto vivesse. A maldição selava o seu silêncio eterno.

O problema seria a segunda maldição, que além de o príncipe não conhecer, afetaria também a sua futura esposa.

(Continua...)
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