A FÃ

Minha contribuição para o Duelo de Escritores da semana. O tema, que foi escolhido por um louco lá, foi "Revele as técnicas de escrita que você usa, mas de uma forma original". Tentei escrever algo que não soasse didático demais, e confesso que me inspirei em um trecho de A Morte em Veneza de Thomas Mann. Desta vez, convidei muita gente para participar, então vamos ver quem topa a brincadeira. Vale sempre relembrar que "esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança de nomes e situações com a realidade é mera coincidência". Divirtam-se.


A FÃ


Querido Roberto Alfer,

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que sou sua fã desde o seu primeiro livro, e a cada nova publicação a minha admiração por você só fez crescer. Assim, chegou um ponto em que, tornou-se tamanho o sentimento que despertastes em mim que não pude mais me conter, tenho a absoluta certeza de que o meu desejo mais forte precisa ser compartilhado contigo: eu quero me casar com você.

Sim, estou te pedindo em casamento, por meio deste e-mail.

Mas não precisa se preocupar, não sou destas malucas que saem por aí perseguindo o primeiro romântico que aparece na frente. Eu te conheço bem, por meio de seus livros. Li e reli e analisei todas as suas obras e entrevistas à exaustão, e agora conheço a sua personalidade melhor do que ninguém. Dizem que todo escritor deixa um pouco de si no que escreve. Eu digo que você deixou muitas pistas de como você é, e digo com convicção, pois sou formada em lingüística e psicologia.

Os meus amigos e parentes já não agüentam mais ouvirem eu repetir citações retiradas dos seus livros ou maravilhar-me com alguma característica pessoal sua que descobri em suas histórias. Me convenceram a revelar este sentimento bonito que tenho dentro de mim, e te procurar. Mas o seu único contato é o email robertoalfer@editoragranada.com.br. Saiba que os seus livros me ajudaram a te amar cada vez mais, e tudo o que descobri sobre você e sobre o seu passado, só fizeram com que eu me apaixonasse mais e mais por você.


Hoje sou toda sua. Por favor, não jogue fora esse amor.

Mas, talvez queira saber um pouco sobre o que descobri de você em seus livros, e porque posso dizer que aprendi a te amar. Vou listar apenas as principais características que cada um dos seus romances best-sellers me revelaram sobre você.

Começo pelo seu Brumas de uma Saudade. Os detalhes precisos que você usou para descrever as características fortes de Emily, toda a luta que ela teve para vencer as dificuldades que insistiam em querer derrubá-la, demonstram que você baseou-se – um pouco, ao menos – em alguém próximo a você, e eu arrisco dizer que foi em sua mãe. O lema dela era vencer acima de tudo, e reflete as emanações de seu subconsciente em superar os obstáculos. As descrições carinhosas sobre os sentimentos de solidão de Emily e a insistência em mostrá-la como um anjo revelaram que você foi um filho apaixonado pela mãe, obediente e disposto a fazer sacrifícios por ela. Esta última parte é evidente quando você a revela de forma maniqueísta, ela contra o mundo, lutando incansavelmente até que a felicidade fosse obrigada a dar-se por vencida e sujeitar-se à ela. Você sempre desejou a felicidade da sua mãe, assim como era evidente que o narrador torcia por Emily. E você quer alguém como Emily, como a sua mãe, para estar ao seu lado. Eu sou esta mulher, você já achou a quem procurava.

Depois, com o lançamento de Estranho Destino, um livro diferente do anterior que foi considerado por muitos críticos como uma provável autobiografia sua, trazia um protagonista incapaz de ser compreendido pela sociedade, apesar de buscar o melhor para todos. Um mártir desconhecido. E os críticos estavam certos, o Carlos Henrique do livro é seu alter-ego. Você, Roberto, busca ajudar a humanidade com os seus livros, mas são poucos os que reconhecem e entendem isso. E sou uma dessas privilegiadas. Sei o quanto é difícil viver fazendo algo que você ama e que os outros nem se importam. Mas a característica mais marcante do escritor revelada aqui foi a sua carência afetiva. Você quer alguém ao seu lado, você precisa desse alguém, você, assim como o Carlos Henrique, sente-se preso em uma redoma de vidro sendo observado por uma flor do lado de fora. Você, caro escritor, está na redoma – o ofício de escrever que existe entre o escritor e a humanidade – e eu serei a sua flor, se você assim o quiser. Deixe-me quebrar a redoma e libertá-lo, para que o seu final seja diferente do do livro.

As Pessoas que Marcam marcou uma fase difícil em sua carreira. Provavelmente alguém querido em sua vida faleceu. Aqui aprendi sobre a sua filosofia e religiosidade, quando você assumiu o papel do cãozinho Pop. Encarnar a personalidade de um animalzinho de estimação como narrador-personagem fez você sentir-se inferior ao restante do mundo e, por isso, analisá-lo fria e objetivamente. A frase que você pôs na mente de Pop no momento em que ele era atropelado por um caminhão me marcou durante muito tempo, e até mandei tatuá-la em meu ombro, junto com a figura de um coração. “Amar é viver o amor até as últimas conseqüências.” Você conseguiu mostrar sutilmente toda a sua virilidade intelectual ao brincar com as mentes dos leitores, os levando em uma viagem fantástica em caminhos desconhecidos, principalmente quando termina o livro com um epílogo no céu dos cachorros.

In San O foi o livro que eu mais gostei. A meta-história da escritora nipônica San, que descobre ser a personagem de um outro escritor é de uma genialidade nunca antes vista. Eu li este livro quatorze vezes! Comprei até mesmo a versão ilustrada, com fotografias dos quadros psicodélicos que você pintou quando o livro vendeu cem mil cópias. Sei que neste livro você estava buscando razão em sua existência. O sentimento de dualidade expunha algo intimista, cruel e chocante em seu ser, tentando entender a essência do seu trabalho como escritor. Assim, percebi que até mesmo os grandes escritores precisam de auto-afirmação, precisam de fãs, de quem ame os seus livro e, por tabela, os amem. Eu sou a sua San e você é o meu escritor, ou será o contrário?

Por último, mas não menos importante, A Volta Incompleta revelou-me o quanto você evoluiu como escritor. Apesar dos críticos considerarem o seu pior trabalho, o problema é que eles não analisaram a sua obra como um todo, vendo nuances e pistas que eu consegui ver. Toda a saga da sua vida chega ao clímax no livro em um outro planeta cheio de ficções, alienígenas e problemas que não existem por aqui. Mostra que você deseja mudanças, que agora é a hora que está aberto a novas experiências em sua vida pessoal, mesmo em lugares e com pessoas diferentes. Foi aí que percebi que você clamava por alguém que o entendesse, e acredito que esse alguém seja eu.

Meu amor, sou profundamente grata a ti por me transformar na mulher mais feliz e apaixonada deste planeta nestes últimos tempos. Saí de um relacionamento difícil e pensei que nunca mais confiaria novamente em alguém. Você me fez ver a vida com outros olhos, com os seus olhos. Por isso estou disposta a me doar por completa a você, e envio o meu contato e minha foto. Como pode ver, não sou de se jogar fora, apesar de já não ser nenhuma adolescente. Entendo perfeitamente os motivos que o levaram a não aparecer em público e evitar a mídia. É perigoso, fútil e desnecessário. Mas, mesmo não te conhecendo, não sabendo como é o seu rosto, eu volto a afirmar: eu sou tua. Aceite o meu amor respondendo a este email, com a sua resposta e, dependendo dela, os seus dados para que eu entre em contato.

Fico por aqui com um abraço e um beijo, meu grande amor.

De sua amante nas letras,

Ana Paula Galvonne


MINI EPÍLOGO


A resposta, da editora, chegou algumas semanas depois e fez com que Ana Paula se trancasse no quarto durante dias, recusando-se a comer, ora chorando ora gritando. Passada esta fase, fechou o consultório, vendeu tudo o que tinha e mudou-se para um local desconhecido sem despedir-se dos amigos e parentes nem levar livro algum consigo. Nem o notebook levou. Em seu programa de email, dentro da pasta Lixeira, uma mensagem solitária, abandonada, não sabendo se iria ser Excluída Definitivamente para o Nirvana ou Restaurada para mais um ciclo de vida na Caixa de Entrada, dizia, em partes: “Roberto Alfer é o pseudônimo de Dorinha Stelmann, escritora de 80 anos de idade que mora em Blumenau com os netos.
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