A Desobediência Civil e Outros Escritos, de Henry David Thoreau

Rebeldia selvagem e consciente

Thoreau foi desconhecido para mim até este ano. Como nada na minha vida acontece por acaso, assistir um dos episódios da série Justiça sem Limites (20th Century Fox, 2006) sobre um caso de desobediência civil me fez pesquisar sobre o assunto e chegar ao escritor. Assim, descobri que a vida e os escritos de Thoreau são, além de inteligentes, estimulantes.

Henry David Thoreau (1817-1862) foi um ensaísta norte-americano que, depois de formar-se, passou dois anos vivendo isolado da civilização, em contato direto com a natureza. Fazia tudo sozinho, construiu uma cabana na beira do lago, caçava, pescava e usufruía da floresta. Dessa experiência pôde extrair vários pensamentos filosóficos sobre o homem, a vida e a civilização. Dessa experiência resultou o livro Walden ou A Vida nos Bosques, um clássico sobre a observação filosófica da vida selvagem. Certa vez, Thoreau foi à cidade pegar umas botas que havia deixado no sapateiro (isso era uma das coisas que ele não conseguia fazer sozinho na mata) e foi preso por não pagar os impostos que custeavam a guerra contra o México. Ele não havia pago conscientemente, como protesto contra um ato do governo que não apoiava, pois era contrário à escravidão negra e à exploração colonialista. Diz-se que passou uma noite na cadeia, resultando no ensaio A Desobediência Civil, no qual defende que todo homem tem o direito de desobedecer uma lei se esta ofender uma lei superior, moral, natural, fundamental do homem. Esta bandeira mais tarde foi levantada por Gandhi, Martin Luther King Jr., pelo movimento hippie, entre outros. Depois, lecionou em algumas universidades até falecer com 45 anos, devido à tuberculose.

O livro A Desobediência Civil e Outros Escritos (Martin Claret, 2005) traz cinco ensaios do naturalista, comentados individualmente a seguir.

1. A desobediência civil.

Um dos clássicos políticos de todos os tempos. Muitas das críticas às deficiências do governo ou daqueles que governam são tão atuais que, apesar de terem sido escritas há mais de 150 anos, lembram muitas deficiências dos governos atuais, incluindo o brasileiro. Thoreau não defende a anarquia, como muitos alegam, pois disse: “Desejo imediatamente é um governo melhor, e não o fim do governo.” (pg. 15). Thoreau critica os que obedecem o governo sem pensar, sem questionar se as ações dos governantes são certas. Ensina que o verdadeiro cidadão é participativo. “O direito à revolução é reconhecido por todos, isto é, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis sua tirania e ineficiência.” (pg. 17). “Diante de um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é a prisão inevitavelmente.” (pg. 25). “Sai mais barato sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer.” (pg. 29). Thoreau prega que os direitos do homem são maiores que as leis do Estado e que o Estado deve servir aos homens e não o contrário. Segundo o escritor, um homem se submete a leis injustas por receito de perder os seus bens. Assim, quanto mais rico for, menos virtuoso será. Por fim, tece críticas aos que julgam a Constituição dos EUA e a Bíblia como verdades definitivas e imutáveis sobre os direitos do cidadão.

2. Andar a pé.

Thoreau disserta sobre a arte de caminhar. Além de fazer uma análise histórica dos andarilhos, também mostra como uma caminhada faz bem ao pensamento e a meditação. Mas precisa ser em uma mata ou floresta, retornando às origens remotas e selvagens do homem, para livrar-se dos excessos do dia-a-dia. “As horas de treva são tão necessárias aos corpos inorgânicos como sabemos serem a noite e o sono necessários ao reino orgânico.” (pg. 64).

3. Walden*.

Reproduz apenas um trecho do texto original. Apesar do ensaio falar sobre a natureza, o trecho escolhido fala sobre a leitura e o conhecimento.
Sempre que nos preocupamos em acumular riquezas para nós mesmos ou para nossa posteridade, em constituir uma família ou um Estado, ou mesmo em adquirir fama, tornamo-nos mortais. Todavia, quando procuramos a substância da verdade tornamo-nos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes.” (pg. 73).
O ensaio surpreende por ser bastante semelhante (não às palavras, mas ao estímulo) ao livro A Arte de Escrever, de Schopenhauer. Assim como o escritor alemão, Thoreau critica a má formação dos leitores pela busca de literaturas fáceis, superficiais e recentes.
Satisfaz-se a maioria dos homens por conseguir ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos provavelmente por sua sabedoria. Então, pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.” (pg. 78).
4. Um passeio num inverno rigoroso.

Um homem saudável é um complemento das estações e, no inverno, traz o verão no coração.” (pg. 89). Com passagens iguais a esta, Thoreau descreve uma caminhada de sua casa na cidade, numa manhã de inverno, até a zona rural, com descrições do que vê pelo caminho. É uma verdadeira aula sobre a escrita descritiva, pois é impossível o leitor não ver cenas bem à sua frente.

5. Uma semana nos rios Concord e Merrimack*.

São cinco trechos retirados do ensaio original sobre a opção de leitura dos conterrâneos de Thoreau por textos bíblicos ou de pouca profundidade. “Com isso não quero dizer que sou melhor que meus vizinhos. Sei que sou apenas igual a eles, só que gosto demais de livros do que eles.” (pg. 105). O segundo trecho fala sobre conhecimento, liberdade e política. “A falta de conhecimento não é o que faz os homens cometerem erros. O que os faz errar freqüentemente é a falta de prudência... Não precisamos saber muito para agir bem na maioria das vezes.” (pg. 110). Thoreau compara a leitura e a prática dos ensinamentos do Novo Testamento com os do Bhagavad-Gita hindu. Este último “Até mesmo pelos ianques deve ser lido, como parte dos escritos sagrados de um povo devoto. O hebreu inteligente ficará muito feliz de encontrar ali uma grandeza moral e uma sublimidade semelhantes como as de suas próprias escrituras.” (pg. 122). Mas há também diferenças, das quais seria que “O brâmane não propõe um ataque decisivo ao mal. Prefere matá-lo de fome pacientemente.” (pg. 120). Várias citações do Bhagavad-Gita são explicadas e outra obra que também aparece é o livro As Leis de Manu, igualmente hindu. “O livro de Manu é mais próximo e íntimo do que o conselho de nossos melhores amigos.” (pg. 126).

***

*Cabe para A Desobediência Civil e Outros Escritos a mesma crítica feita para A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer (L&PM Editores, 2007), pois ambos possuem a frase “TEXTO INTEGRAL” nas capas e contra-capas quando não é verdade. Dos cinco ensaios de Thoreau escolhidos, dois (Walden e Uma semana nos rios Concord e Merrimack) são somente trechos selecionados. Apesar do aviso no início dos dois textos alertar que são apenas trechos (no caso de Walden o certo seria trecho, pois é apenas uma passagem) não deveria constar no exterior dos livros “TEXTO INTEGRAL”, pois algumas livrarias vendem os livros lacrados e não há como o comprador descobrir que está levando trechos ao invés do texto todo.

Thoreau fornece lenha para o fogo do pensamento próprio. As suas palavras são mordazes, destemidas e únicas. Não admira ter influenciado pensadores como Tolstói, Gandhi, William O. Douglas, Martin Luther King e John F. Kennedy. A filosofia rebelde e selvagem vai além, mostra que todos podem e devem agir para obtermos um mundo mais justo. Pois “tal qual o nobre de bom gosto se serve de tudo que possa enriquecer sua cultura – o gênio, a erudição, a inteligência, livros, pinturas, esculturas, música, ferramentas filosóficas etc. –, devemos influenciar nossa aldeia a fazer o mesmo.” (pg. 82).

leitura: Julho de 2008
obra: A Desobediência Civil e Outros Escritos, de Henry David Thoreau
tradução: Alex Marins
edição: 1ª, Editora Martin Claret (2005), 133 pgs
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Excelente
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