Vida e Doutrina - Os Analectos, de Confúcio

Confúcio (ou mestre Kong Fu Tseu) foi um grande sábio da China, que viveu entre 551 a.C. e 479 a.C., e deixou ensinamentos políticos e morais seguidos e válidos até hoje. O confucionismo influenciou toda a Ásia. Confúcio era pobre e morava no estado de Lu, uma espécie de "terra santa" chinesa.

O livro de Múcio P. Ferreira divide-se em 3 partes: a vida de Confúcio, a doutrina de Confúcio (Confucionismo) e Os Analectos. Este último é uma seleção de máximas que o mestre deu como respostas à algumas dúvidas de seus discípulos. A pesquisa e tradução usadas neste volume vêm de fontes inglesas e francesas.

Se categorizarmos os ensinamentos de Confúcio, eles se encaixam em 3 categorias: respeito aos pais, a arte de governar bem e a busca pela sabedoria. Confúcio não fundou nenhuma religião, apesar de seus conselhos tratarem basicamente sobre a ética e a moral. "Os problemas superiores da metafísica, como a verdade absoluta e o além da morte, não integram a filosofia de Confúcio; dão apenas lugar a considerações e interesses mais terrenos, prendendo-se às necessidades imediatas do homem" (pg. 42). Talvez por isso membros de diversas religiões considerem os ensinamentos de Confúcio como de fácil aplicação, pois muitos de seus preceitos assemelham-se bastante a ensinamentos filosóficos ou religiosos de outros mestres (como os de Jesus Cristo, Epicteto, etc.). Diz-se que Confúcio chegou ao ponto em que
"ao ouvir um trecho musical, de fazer o retrato físico e moral do autor e ainda das circunstâncias em que havia composto a melodia. 'De igual modo, deveríamos, ao escutar uma frase, observar um gesto, penetrar o caráter de uma pessoa. Os sons - palavra, poesia, música - representam a expressão de um movimento do coração e do espírito, de uma emoção provocada por uma causa exterior. Esta causa está ligada à emoção que, por sua vez, rege a expressão. E o todo forma uma cadeia cujos elos não se interrompem. Pela expressão, dever-se-ia chegar à emoção, depois à causa. E como nossa natureza é formada por nossas aptidões para sentir certas emoções e não outras, e como as emoções habituais forjam nosso corpo, conhecer a emoção de um homem significa conhecer o próprio homem'" (pg. 29-30).
Ao contrário de Maquiavel, em O Príncipe, Confúcio ensina "a menos agressiva das doutrinas" (pg. 39) em que o governante deve ser exemplo de virtude para o povo. O exemplo deve vir de cima. Tanto que, nos breves períodos em que pôde exercer um cargo administrativo, os comerciantes desonestos não viam outra alternativa a não ser praticarem a honestidade. "A virtude jamais caminha só: um homem virtuoso consegue logo imitadores" (pg. 73). Mas "se o povo estava satisfeito, gozava de liberdade e de ordem, os senhores das grandes clãs e os membros da família soberana viam seu poder decrescer diante da limitação imposta pela Razão, pela Eqüidade e pela Reciprocidade" (pg. 24). Confúcio peregrinou em diversos lugares tentando divulgar os seus princípios aos governantes, mas decepcionado com o pouco caso destes, desistiu e retirou-se da vida política.

Confúcio louva em seus ensinamentos as virtudes de alguns discípulos, bem como revela os defeitos de outros. Ele também nos mostra como extrair a sabedoria de situações corriqueiras como uma conversa, uma música, um passeio. Mas sem dúvida, uma das passagens mais memoráveis da literatura e filosofia chinesa é o encontro entre o jovem Confúcio e o idoso Lao Tsé, conhecido como O Velho. Confúcio foi tão influenciado pela sabedoria do mestre que disse mais tarde:
"Acabo de ver um homem que alça a grandes alturas os seus pensamentos [...] Da minha parte, gosto que os meus pensamentos [como pássaros] fiéis sigam um caminho sempre rasteado e alcancem sempre a presa. Acabo de ver um homem cujas idéias são tão misteriosas e inacessíveis como um abismo. [...] Dos pássaros, sei que podem voar, [...] Com referência aos dragões, ignoro se eles voam com a tempestade ou cavalgam as nuvens na imensa pureza do céu. Vi lá Tsé como quem contempla um dragão. O queixo caiu-me e não pude respirar. Meu espírito, extraviado, não sabia onde pousar" (pg. 19).
Seguem algumas máximas de Confúcio:

Sobre o governo:
Um governo opressor é mais temível que os tigres.

Um grande ministro é aquele que serve o seu príncipe de acordo com as regras da justiça e, desde que assim não mais possa fazer, se retira.


Que o príncipe cumpra seus deveres de príncipe; o súdito, os deveres de súdito; o pai, os deveres de pai; o filho os deveres do filho.


Governar ou dirigir homens é fazê-los seguirem o caminho reto. Se vós mesmo, Senhor, marchias à frente, no caminho reto, quem ousaria não vos seguir?


Não instruir seus súditos e puni-los de morte quando infringem as leis, é crueldade.
Sobre o respeito aos pais:
O sábio toma o maior cuidado com a raiz. Esta, uma vez fortalecida dá vida ao tronco e aos galhos. A afeição por nossos pais e o respeito pelo que nos são superiores são as raízes da virtude.

Se teus pais cometerem uma falta, adverte-os com doçura. Se os vires determinados a não seguir os teus conselhos, redobra as provas de respeito e reitera tuas admoestações. Ainda que te maltratem, não guardes nenhum ressentimento.
Sobre a sabedoria:
O sábio não se aflige porque os homens não o conhecem; ele se aflige por não conhecer os homens.

O sábio começa por fazer o que quer ensinar; depois, ele ensina.

Aquele que não sabe o que é a vida como poderá saber o que é a morte?


Ouvir ou ler sem refletir é uma ocupação inútil; refletir sem livro nem mestre é perigoso.


Um homem sábio não ambiciona ter como tesouro senão a virtude.

Aquele que pela manhã compreende os ensinamentos da sabedoria pode, à tarde, morrer contente.


A virtude perfeita consiste não em socorrer todos os homens, sem exceção, o que é impossível, mas em julgar os outros por si mesmo e os tratar como desejaríamos que nos tratassem a nós mesmos.

Quando virdes um homem sábio, pensai em igualá-lo em virtudes. Quando virdes um homem desprovido de virtudes examinai-vos, verificai se não vos pareceis com ele.

O sábio aplica-se em ser lento no falar e diligente no agir.


Não corrigir-se após uma falta involuntário é cometer uma falta verdadeira.


Antigamente, os ignorantes eram simples e direitos; agora, eles são falsos.

O sábio detesta aqueles que proclamam os defeitos e as faltas dos outros.
leitura: Julho de 2008
obra: Confúcio: Vida, Doutrina e Analectos, organização de Múcio Porphyrio Ferreira
edição: 6ª, Editora Pensamento (1997), 115 pgs
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Bom
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