Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

É uma verdade absoluta: gosto e nariz, cada um tem o seu. É por isso que aquilo que uns amam, outros odeiam, o que uns gostam, outros detestam. Essa diversidade é o que nos torna tão humanos e tão diferentes das máquinas. Entretanto, essa mesma diversidade põe um crítico literário contra a parede: divulgar o seu próprio gosto ou da maioria? Ler um livro, analisar um autor, o estilo, a técnica e a arte de modo impessoal? Mas será que algum crítico, leitor ou ser humano consegue ser impessoal, considerando o sentido da palavra como o "que não existe como pessoa, que não possui os atributos de pessoa; desprovido de qualquer traço pessoal"? (Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa) Acredito que não. Significa que nunca poderemos ser totalmente impessoais, pois sempre haverá uma pitada de opinião própria, por mais que nos esforcemos ou digamos fazer uma análise "impessoal" da obra.

Toda essa ladainha introdutória simplesmente para dizer que falarei de um livro do qual não gostei de ler, apesar de conhecer várias pessoas que gostaram. Como já disse, uma questão de gosto. Por isso, considere a minha opinião apenas como um dos lados da moeda, o negativo, algo que já fiz anteriormente em outras resenhas e muitos consideraram como uma ofensa pessoal (vide minha resenha sobre O Caçador de Pipas). A vantagem é que não há muitas variações nas opiniões sobre um livro: ou gosta ou não. Ou concorda com a minha opinião ou não. Ambos tipos de leitores são bem-vindos a deixarem suas impressões pessoais na forma de comentários. Diga se me ama ou se quer me atropelar. Ao menos saberemos que nem todos pensam iguais, e da consideração das diferenças é que evoluímos como um todo.

Um defeito de cor é o segundo livro de Ana Maria Gonçalves e conta a história de Kehinde, negra capturada ainda criança na África e trazida para o Brasil, onde vive muitos anos, tem filhos, torna-se liberta, participa de revoltas de escravos e retorna para a África. Aproximadamente 8 décadas da vida protagonista, como plano de fundo a história do Brasil (e um pouco da África).

A narração escolhida pela autora é a primeira pessoa e se torna cansativa em se tratando de 952 páginas. Expressões como "eu fiz isso", "eu estava assim" e "eu fui ali" são repetidas inúmeras vezes. E ainda piora: lá perto da metade do livro, quando nasce o segundo filho de Kehinde, ela começa a referir-se ao leitor como "você", como se o restante do livro fosse uma carta. Causa uma sensação estranha você se colocar no lugar do filho dela ou estar lendo uma carta que era para ele. O uso de palavreado atual também não convence como sendo a narração de alguém do século XIX, antes faz parecer como se uma atriz pouco talentosa interpretasse um papel histórico.

O crescimento físico, intelectual e moral de Kehinde da infância à velhice é narrado de maneira confusa. Apesar do livro ser as memórias escritas da Kehinde idosa (por sinal uma memória fenomenal), aparecem expressões que não condizem com a Kehinde narradora onisciente, mas com a Kehinde protagonista. Em outras passagens isso se inverte. Fica difícil ler a menina Kehinde falando sobre o estupro como "algo que devia doer" e pouco depois raciocinar como adulta sobre eventos que ainda nem ocorreram. Seria muito mais verossimilhante se a autora optasse por apenas uma das duas Kehindes ou separasse explicitamente quando uma ou outra atua.

Relevando a narração escolhida pela Ana Maria, o texto assemelha-se muito a uma coluna policial, contando tragédia após tragédia, de modo objetivo, direto e sem floreios na escrita. São tantos altos e baixos na vida de Kehinde que acaba tornando cansativa, novamente, a leitura. É certo que a fórmula universal para boas histórias prega que devem ter problemas a serem superados pelo protogonista, mas o excesso nunca é bem visto.

Excesso. Essa é a palavra que define o livro. Há excesso de informações que não significam nada para a trama. Mostra-se em várias páginas o funcionamento de um engenho de cana-de-açúcar. Ou detalha-se cômodo por cômodo, móvel por móvel, uma mansão (o Solar) onde Kehinde mora pouquíssimo tempo. Conta-se até sobre Tiradentes, mineiro que aparece de gaiato numa história que se passa a maior parte do tempo em cidades do litoral. A impressão que fica é que a autora, em suas pesquisas para escrever o livro, juntou uma quantidade enorme de informações que julgou interessantes e procurou encaixá-las a todo custo na história. Se não fosse por esse exagero provavelmente o tamanho do livro diminuiria 50% ou mais.

Mas o livro não é de todo ruim. Está sendo considerado responsável por preencher uma lacuna na literatura brasileira, mostrando a escravidão sob o ponto de vista dos maiores prejudicados, os negros. Eu também voto a favor nesse aspecto, porém com a ressalva que tais lacunas devem ser bem preenchidas com arte além de apenas informações. O livro é também indicado como fonte de informações históricas, devido à louvável e extensa pesquisa da Ana Maria, apesar de não ter nenhum índice que oriente onde aparecem a revolta dos escravos mussurumins, ou as informações sobre Tiradentes, ou os extensivos detalhes sobre as origens e rituais das crenças afro-brasileiras, ou qualquer outro material da época que seja difícil encontrar informações avulsas hoje. O leitor terá de ler o livro todo e marcar onde as informações que julgar importantes se encontram, para uma consulta futura.

O livro tirou o segundo lugar na Copa de Literatura Brasileira (CLB), perdendo apenas para Música Perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil. Perdeu porque são livros totalmente diferentes. Enquanto Um defeito de cor explora uma boa história, Música Perdida explora como contar bem uma história, mesmo que inferior. E é essa a diferença essencial que fez com que mais leitores preferissem um ao outro, conforme meu voto na CLB sintetizou bem:
Que tipo de leitor é você: daqueles que valorizam um livro pela história ou dos que apreciam o modo como ela é contada? Seria um dilema para você escolher entre o melhor escritor e a melhor história? Não para mim. E acredito ser justamente esse o diferencial dos dois finalistas da CLB. Música perdida nos revela Assis Brasil como um escritor habilidoso dotado de grande sensibilidade, escrevendo pela terceira vez sobre o que realmente entende: música. Em entrevista recente à Revista Malagueta admitiu seguir na contramão mercadológica quando disse não se importar com a notoriedade, antes que o texto lhe agrade: “Escrever um bom parágrafo pode levar uma semana, mas a satisfação é insuperável. Equivale a um prêmio.” Quão agradável é perceber que ele oferece esse prêmio a nós, leitores. Diferente de Um defeito de cor que traz uma narrativa jornalística estilo coluna policial exagerada em clichês, descrições, metáforas e mini-flashbacks que, apesar de não tirarem o mérito da história, atrapalham na degustação. Certamente dará um bom filme ou novela, porém conquistaria mais leitores não fosse desmedido nas imperfeições. Como o meu eu prefere (e anseia por) palavras bem escritas a uma longa história, meu voto vai para Música perdida.

Em um país em que a média anual de leitura é de 1,8 livros per capita, acredito que muito mais leitores sentiriam-se atraídos por Um defeito de cor se este fosse menor em tamanho ou se fosse uma série de livros com menos de 200 páginas cada. O estilo está bom, pois agrada os menos exigentes. Todavia, a autora teria de exigir muito mais da sua capacidade artística e literária do que da de jornalista e pesquisadora. Pena, pois a lacuna literária sobre a escravidão no Brasil, apesar de estar um pouco mais preenchida do lado da escrita, deverá continuar ainda bastante aberta pelo lado da leitura. Será um livro fadado a ser lido por poucos, seja pelo tamanho, seja pelo preço.

leitura em: Novembro / Dezembro 2007
obra: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
edição: 1ª, Editora Record (2006), 952 pgs
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Ruim
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