Como matar um bicho-papão - Parte I: A CARTA

Andréa olhava o moço ir embora. Parada na porta de casa, ainda não acreditava na história que ele contara. Tivera receio de pedir a ele para repeti-la uma terceira vez. Seria declarar descaradamente que não acreditava nele. Quando o vulto virou a esquina é que voltou a si e percebeu que tinha em mãos a encomenda que ele deixara. Um envelope amarelado, um pouco sujo, mas lacrado. Parecia ter sido escrito há muito tempo, pelo estado avançado de manuseio em que se encontrava. Com um nome escrito à caneta: Andréa Ferreira dos Santos. O nome dela. Mais embaixo o nome da cidade. Estavam em tinta azul, quase desbotando em outras tonalidades, mas aquelas palavras gastas apontavam o dedo diretamente para uma única pessoa. Andréa Ferreira dos Santos. Ela. Precisava pensar melhor. Resolveu entrar em casa.

Posto o envelope sobre a mesa, foi tomar o cafezinho que o visitante recusou. Disse-lhe que tinha pressa em retornar à sua terra natal. Já estava em viagem havia muitos anos, todavia finalmente terminava nela a sua missão. A cada gole de café, engolia o líquido e as palavras que ainda pairavam à sua frente. O moço viera de longe, de Minas Gerais, somente para lhe entregar aquela carta. Contou que aquela era a última de sete cartas que foram entregues em sete cidades do país. Apesar de ter recebido instruções específicas de onde e como encontrar os destinatários, levara anos para terminar aquela tarefa. Cinco anos para ser mais exato.

As sete cartas eram de um famoso médium espírita, psicografadas um pouco antes dele morrer e entregues ao fiel discípulo. Como último desejo do mestre querido, deveria entregar pessoalmente cada carta. Eram cartas que mudariam o traçado do destino de várias pessoas, algumas vivas, outras não. O jovem discípulo viajou por diversos lugares, procurando as pessoas somente pelo nome e cidade escritos em cada envelope e pelas orientações fornecidas pelo vidente. Admitiu que nunca teve curiosidade em ler as cartas, mas teve de ser rígido na ordem de entrega, pois foi-lhe dito que encontraria os destinatários somente nos lugares e épocas indicados pelo instrutor. Aquela seria uma demonstração grandiosa da fé que tinha no mestre. Uma fé que Andréa, apesar de ir à igreja todos os fins de semana, invejou.

Findo o café, voltou novamente a sua atenção ao envelope sobre a mesa. O marido estava fora. As crianças na escola. Ainda tinha algum tempo livre até começar a fazer o almoço. O momento era propício, mas ela estava com medo. A verdade é que ela não costumava receber cartas. Quase nunca. Ainda mais de um morto. Ou pior, de dois mortos. Tentou enumerar quem poderia estar tentando entrar em contato com ela do além. Teria de ser alguém falecido a pelo menos cinco anos. O tio Manoel do seu esposo estava descartado, morrera ano passado. A filha da Dona Rita também. Não se lembrou de mais ninguém. Com o tempo, os mortos também costumam morrer na memória. Poderia ser alguém que não conhecia, como o avô materno ou a avó paterna, ambos falecidos antes de Andréa nascer.

Além do receio em relação ao misterioso remetente, havia também o medo quanto ao conteúdo da carta. Se era tão importante a ponto de ser psicografado por um médium famoso e este ter incumbido um fiel discípulo de entregá-la pessoalmente, e deste último persistir por anos a fio até completar a sua tarefa, deveria ser uma mensagem importante e significativa. Mas para quem? Para o falecido, para o médium famoso ou para ela? E se fossem maldições ou coisas do além que ela não gostaria de saber? Mas, por outro lado, e se falasse do futuro, de seu marido ou dos seus filhos? E se lhe contasse como melhorar de vida ou como evitar uma tragédia?

Naquele momento, Andréa sentiu-se terrivelmente sozinha. Aquela carta começava a pesar sobre os seus ombros.

Continua: Parte II: O PAI

Postar um comentário