Partir ou ficar são dois lados da mesma moeda, de JLM

O blog Duelo de Escritoes faz um desafio de escrita a cada decêndio aos seus participantes: escrever um conto, crônica ou poesia sobre determinado tema. Como não sou participante do blog nem escritor (ainda), mas gostei do tema da vez (suicídio), resolvi fazer este conto lembrando a trágica história de Chayyam. Espero que gostem.

PARTIR OU FICAR SÃO DOIS LADOS DA MESMA MOEDA


Escutei o bater da porta atrás de mim. O estrondo havia sido tão forte que todo o meu corpo tremeu e o som ecoou pelo gigantesco salão, chamando a atenção dos que estavam ali. Para qualquer lado que olhasse, com exceção das minhas costas, onde estava a porta, era possível ver silhuetas de pessoas, algumas em grupos, outras andando aos pares ou sozinhas, agachadas. As que estavam mais próximas destacavam-se das distantes tal como camadas sobrepostas dentro de um espelho. Com o barulho da minha chegada explícita, alguns deixaram de conversar por um momento para me olhar. Outros pareciam  já me olhar antes da porta bater. Um sentimento de vergonha fez o meu rosto arder, não por não conhecer ninguém ali, mas por eu ser uma pessoa naturalmente tímida. Tentei mexer as pernas: não consegui. Elas não estavam paralisadas; eu é que não sabia para onde ir. Não sabia nem se queria ir.

Tudo naquele lugar parecia ao mesmo tempo estranho e calmo. Uma neblina densa dominava o ambiente, de modo que não era possível ver o teto tampouco o final do salão. Isso dava a impressão dele não ter fim, tanto para os lados quanto para cima. O chão era de mármore branco e havia colunas enormes dispostas no meio do salão. Sei que eram enormes pela espessura e não pela altura, pois elas desapareciam na neblina a poucos metros do chão. E o silêncio era aterrador, apesar do número considerável de pessoas.

- Seu nome, por favor. – disse a voz atrás de mim, me assustando.

Voltei-me e vi uma figura pequena segurando uma prancheta. Com cerca de um metro de altura, não dava para dizer se era um anão mais alto ou uma pessoa normal mais baixa. Outro detalhe: pela voz e pelas roupas – um uniforme cinza com o colarinho branco – também não pude distinguir se era homem ou mulher. Enquanto as feições do rosto puxavam para o masculino, o timbre da voz tendia para o feminino. No peito trazia uma plaquetinha dourada escrita "Caronte”. Seria um nome ou uma função? Nome de homem ou de mulher? Ele/ela abaixou a armação retangular dos óculos e olhou por cima das lentes diretamente para os meus olhos e, pela batida acelerada da caneta na prancheta, percebi que estava com pressa.

- Chayyam – respondi.

- Um instante – e começou a procurar algo nas folhas presas na prancheta. Tentei ver o que estava escrito, mas só vi papéis em branco. Após algumas viradas de página e o surgimento de um sorriso de satisfação passageiro, talvez por ter encontrado o que buscava ou por ter me localizado nas páginas em branco, "Caronte" voltou-se para mim. – Aqui está, Chayyam, dezesseis anos, Índia, certo?

- Sim.

- Desculpe-me por este procedimento, mas é necessário já que vez por outra ocorre algum engano e mandam para cá a pessoa errada. Ninguém gosta de ser mandado para o lugar que não é o seu, certo? Mas não é o seu caso. Me acompanhe, por favor, que vou lhe mostrar onde fica a sua seção.

Caronte passou por mim e continuou andando. Para não ficar sozinha, fui atrás. A conversa me fez concluir que era uma mulher, mas de aspecto masculino. E, apesar dos passos apressados, ela era menor que eu, sendo fácil para mim acompanhá-la.

Caminhamos durante algum tempo, não sei ao certo quanto, poderia ser meia hora ou duas, até passarmos perto de um grupo de pessoas. Percebi, fixada na coluna próxima a eles, uma placa escrita, não na minha língua, mas perfeitamente decifrável. Dizia: "GOVERNANTES”. Aquela seção tinha um bom número de pessoas, algumas fumavam charutos, outras bebiam uísque, outras debatiam em tom sério. Notei que havia mais homens que mulheres. A minha guia falou como se já tivesse repetido aquelas palavras milhares de vezes:

- Aqui é a seção dos políticos, reis, imperadores, ditadores e presidentes. Geralmente são megalomaníacos, mas possuem um grande carisma com o povo. Por exemplo, aquele baixinho ali, de bigode esquisito e cabelo ensebado berrando com se estivesse em um palanque é o Adolf. Não se espante, ele tem o gênio difícil mesmo. Os três perto dele usando túnicas e debochando são os veteranos: Nero, Cleópatra e Marco Antônio. Aquele aplaudindo é o Getúlio, amigo de Adolf, da América do Sul. Os outros são de outros lugares, mas têm em comum o gosto para discutir crises, estratégias, guerras, massacres ou simplesmente se gabarem do que fizeram e lamentar que as coisas hoje não são mais como nos tempos deles.

A próxima seção estava identificada pela placa “DOENTES” e tinha pessoas tossindo, espirrando, escarrando, gemendo, gritando ou gargalhando. Uma repulsa me fez sentir mal com toda aquela confusão de sons e imagens. Não sei se Creonte percebeu e, se percebeu não demonstrou, continuou com a explicação.

- Esta seção é dividida nas alas “Eutanásicos”, “Cobaias” e “Loucos”. Como você pode perceber, os eutanásicos são os mais infelizes aqui. O que faz a permanência deles um pouco mais suportável é a companhia dos doidos, que volta e meia aprontam alguma doidice.

- Ei, aquele ali na ala dos “Loucos” não é o Adolf, que vimos lá trás?

- É sim, minha querida. Alguns têm trânsito livre em mais de uma seção. No caso do Adolf, ele passa mais tempo aqui que na outra seção.

Continuamos andando. Após algum tempo, ouvi um embaralhado de sons anunciando que a próxima ala não era como as outras. Era mais barulhenta. Havia pessoas cantando, tocando guitarras e violões e outros instrumentos, numa grande confusão, pois faziam ao mesmo tempo. Uma loira próxima a nós, de vestido brilhante e segurando um grande microfone, cantava:

Happy birthday to you
Happy birthday to you
Happy birthday, Mr. President
Happy birthday to you

Caronte a censurou:

- Marilyn, eu já te disse que o seu lugar não é aqui. Cantar parabéns não te faz uma cantora! Por favor, volte para a sua ala e não me faça vir te buscar de novo!

Ao falar neste tom grave e rude, percebi que estava enganado a respeito de Caronte: com certeza, era um homem. Confirmei isso quando a loira obedeceu, mesmo a contragosto e saiu pisando emburrada, até passar por um rapaz de óculos, que disse:

Ela passou do meu lado
Oi, amor - eu lhe falei
Você está tão sozinha
Ela então sorriu pra mim
Foi assim que a conheci...

A moça esboçou um sorriso e foi embora. Na seção ao lado, uma pequena multidão saudava com fervor outro cantor – que assim como o anterior, usava barba, mas diferente dele, tinha os cabelos loiros e compridos. As pessoas repetiam os versos:

Baby you're going down in the dark
Baby you're gonna die someday
See you in your crowded' wasted
When you start to fade
Then we'll start singing faster
I wouldn't wait so long
Won't get any easier in the dark

Ao terminar, o rapaz teve pedidos de bis. Olhando para mim, disse com um sorriso maroto:

- Humm, smells like teen spirit.

Isso foi o suficiente para fazer com que várias pessoas assoviassem, aplaudissem ou soltassem gritinhos. O meu guia justificou:

- Não ligue para esta bagunça, Chayyam. A administração achou melhor que a seção dos “DEPRIMIDOS” ficasse ao lado da ala dos “Músicos”, já que ambas estão intimamente relacionadas. O único problema é ter de aturar uma barulheira infernal constante neste setor.

Percebi muitos adolescentes, iguais a mim, na seção dos deprimidos e perguntei:

- Não é aqui que eu fico?

- Não minha cara, apesar de ter muitos da sua idade aqui, você vai para outra seção. Aliás, você poderia até ficar naquela seção ali, a dos “ADOLESCENTES”, mas ela está com superlotação e tenho ordens para te levar para outra mais exclusiva.

E assim fomos passando pelas seções, algumas subdivididas em alas, como a seção dos “ARTISTAS”, da qual faziam parte as alas dos “Músicos”, “Pintores”, “Escritores”, entre outras. Na ala dos pintores, fiquei maravilhada com um homem que pintava em um quadro uma orelha em tons pastéis. Na ala dos escritores, vários deles jogavam cartas e um quadro de giz ao lado da mesa dava a classificação:

1º lugar: Ernest - 4.379 pontos
2º lugar: Florbela - 3.951 pontos
3º lugar: Virgínia - 3.899 pontos
4º lugar: Primo - 1.576 pontos

Ao passar pela seção dos adolescentes, uma moça mais velha que eu, perguntou para Caronte aonde me levava, e ele respondeu que era para a penúltima seção.

- Ah, ela vai para a seção dos idiotas? – debochou.

- Eu já disse que não é mais este o nome daquela seção, Julieta. E se eu fosse você prestava mais atenção naquele seu namoradinho – porque eu já vi ele de conversinhas com outras por aí –, e parava de atazanar quem está chegando agora!

A moça fechou a cara para Caronte e continuamos a andar. Não me contive e perguntei:

- Existe uma seção para idiotas?

- Existia, se chamava “TOLOS”, mas estava dando muitos problemas, porque quase todos aqui tinham acesso a ela e passou a ser um lugar comum a todas as outras alas e seções. Daí a administração achou que estava muito tumultuado por lá e resolveu mudar o nome. Você não precisa ter pressa, nós já estamos chegando.

E realmente já estávamos perto, e percebi que a placa da minha seção era “INDEFINIDOS”. Ficava entre a seções “CIENTISTAS” e “RELIGIOSOS”. Na seção dos cientistas, um homem de chapéu panamá branco e bigode fez uma cortesia quando passamos, olhou para o relógio de pulso e depois para cima, como se estivesse aguardando algo passar sobre ele. Da seção dos religiosos, que estava apinhada de gente, só consegui ler o nome das duas alas mais próximas: “Mártires”, onde alguns estavam sentados em posição de meditação, de olhos fechados e com aparência de tranqüilidade; e “Enganados”, onde orientais choravam baixinho e outros ajoelhados, de capuzes pretos e coletes estranhos, cheios de fios vermelhos e azuis e mostradores de relógios, batiam forte no peito e curvavam o rosto até o chão.

Na minha seção, confirmando o que Caronte havia falado, somente uma pessoa estava perto para me receber.

- Bom dia, mocinha. Posso te dar um beijo de boas-vindas?

- Não comece com essa história de novo, Judas. Deixe a menina em paz. Ela não é para o seu bico. E você, Chayyam, espere aqui que eu vou buscar a encomenda que chegou para você. Considere-se sortuda, pois quase ninguém tem acesso a aparelhos de tevê para passar o tempo. Ah, só mais uma coisa: antes que eu vá, você deseja me perguntar algo?

- Sim. Por que eu estou nessa seção?

- Bem, deixe-me ver, só um momento – respondeu enquanto procurava apressadamente nas páginas da prancheta, dando novamente a impressão de ser uma mulher – pronto, aqui está: você está nesta seção até a administração analisar melhor o seu caso. Isso acontece quando você se encaixa em mais de uma seção ou ala, ou quando não há nenhuma específica para você. Há só uma nota de observação dizendo para te informar que o mundo não acabou em 10 de setembro de 2008 por causa do Large Hadron Collider, o que, é claro, você logo logo iria perceber pela tevê.

Agradecimentos especiais aos suicidas famosos da história, por participarem do conto e fazerem com que a morte de Chayyam não tenha sido tão fútil. "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder à uma pergunta fundamental da filosofia." (Albert Camus) - Ordem de aparecimento: Adolf Hitler, Nero, Cleópatra, Marco Antônio, Getúlio Vargas, Marilyn Monroe, Renato Russo, Kurt Cobain, Vincent Van Gogh, Ernest Hemingway, Florbela Esparca, Virgínia Woolf, Primo Levi, Julieta (a do Romeu, de Shakespeare), Santos Dumont, kamikazes, homens-bomba e Judas Iscariotes.
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