O Planeta Assassino

A minha espécie está perto do fim. Será extinta dentro em breve.

Os remanescentes, cada vez em menor número, sabem disso. Mas o que nos desagrada é que não iremos sumir de modo natural, do tipo em que toda espécie no universo sabe que viveu o que tinha de viver, deu o que tinha de dar, para só depois encarar o glorioso final do ciclo da sua existência. Afinal, todas as espécies possuem uma duração definida. Nada dura para sempre. Nem indivíduo, família, raça, espécie, governo, reino ou dinastia. É assim com as galáxias, se as considerarmos grandes seres vivos, nascendo, morrendo e depois deixando material para outras formas de vida surgirem. É assim nas atividades microscópicas, onde espécies inteiras que existiam antes não existem mais, mas contribuíram para o surgimento de outras espécies. Deveria ser assim também com a minha espécie, mas não. A duração da minha espécie será interrompida abruptamente pelo planeta em que vivemos. É ele quem está nos matando.

Viver em guerra com o seu próprio planeta seria algo insano, se fossem os seus habitantes que o estivessem atacando. Mas não. Ele ataca. Nós defendemos. E depois contamos os milhares de baixas.

O trabalho de nossas vidas sempre foi melhorar o nosso planeta. Tentamos dia e noite reflorestar as matas, limpar as águas, acabar com a poluição, normalizar as mudanças na pressão atmosférica, enfim, resolver os problemas causados pelo próprio planeta e que dizimam milhões de nós.

Eu nasci em uma sociedade evoluída e eficaz. Depois de milhares de anos, chegamos à forma perfeita de viver em sociedade. A separação por castas. Não castas separadas pela riqueza, pois todos têm jornada de trabalho e lazer iguais, e ganham o mesmo salário. Tampouco separadas pela inteligência ou sobrenome ou cor do sangue, pois nos consideramos todos iguais, filhos do mesmo Deus. As nossas castas são separadas pelo tipo de trabalho.

Por isso, na sociedade em que vivo não existe desemprego. Quando uma casta está com falta de trabalhadores, são enviados reforços para lá até que nasçam mais crianças dentro daquela casta e tudo volte à normalidade. Eu, por exemplo, nasci na casta dos trabalhadores da área de logística, e ajudo a gerenciar a distribuição de recursos alimentícios e energéticos até os lugares mais distantes do planeta. Também faz parte do meu trabalho verificar onde é necessário aumentar a segurança e a saúde e, neste aspecto, tenho de agir prontamente, antes que uma carência vire um problema. Eu sei que sou apto para este trabalho e o farei com orgulho até a minha morte. Assim, em nossa sociedade uns trabalham em esgotos, outros na limpeza, outros no transporte, na alimentação, ventilação, produção de energia, e todos são felizes.

Talvez por isso eliminamos os cargos políticos. Quando todos têm trabalho e sabem fazê-lo, ganhando o suficiente para serem felizes, não é preciso ninguém para lhes dizer o que fazer. É certo que, em casos de emergência, precisamos trabalhar mais e assumir funções extras, mas todos fazem visando o bem da coletividade. Mas havia nuvens no horizonte de nosso céu azul.

De que adianta viver feliz, trabalhar duro, quando o lugar onde você mora volta-se contra você? Pois é, foi o que aconteceu. Primeiro, o planeta nos atacou com queimadas e trouxe a poluição para as nossas vidas. Começou a queimar grandes quantidades de áreas destinadas à preservação ambiental. Muitos das castas dos bombeiros e guardas florestais morreram tentando controlar os danos. Mas os ataques eram superiores à nossa capacidade. O nosso planeta é mais poderoso que todos nós juntos. As regiões devastadas foram se alastrando mais e mais, e onde antes existiam florestas geradoras de oxigênio, agora existe somente uma paisagem fúnebre de lodos negros, fétidos e poluídos em que vida alguma sobrevive. Diminuindo as florestas, a qualidade do ar também piorou. Os mais velhos dizem que o ar, na época deles, era limpo, fresco, saudável. Mas hoje não. Vivemos em um mundo poluído, cinza, assassino.
Infelizmente, o planeta está ganhando a guerra.

Depois, o planeta parou de movimentar-se, sem explicação. As conseqüências foram catastróficas. Não tínhamos noção do quanto nossas vidas dependiam dos movimentos do planeta. O fluxo dos rios, a pressão atmosférica, a produção energética, tudo foi comprometido. Os alimentos passaram a deteriorar-se e tivemos de nos acostumar com comida de má qualidade.

Estes problemas fizeram com que a população passasse a ter uma tarefa dupla: amenizar os efeitos das calamidades e continuar as atividades normais. Esta sobrecarga de atividades reduziu a nossa capacidade laboral e a média de idade gradualmente. Passamos a viver menos e a sofrer mais. O planeta começou a liberar toxinas no ar, na água e nos alimentos. Eram drogas potentíssimas que faziam uns caírem no sono durante horas, outros agiam como bêbados e outros morriam. Fomos envenenados.

Por isso, sei que estamos em uma viagem acelerada rumo à extinção. Milhões morrem todos os dias. O fim está próximo. Não sei se nós quem fomos amaldiçoados por nascer em um planeta ruim ou se o planeta é que não tem noção de quanto trabalhamos por ele. A minha espécie acabará logo, por causa do planeta em que vive.

O meu planeta se chama Corpo Humano. E eu sou apenas uma das milhões de células que vivem nele, sendo dizimadas todos os dias. Estamos sendo intoxicadas com cigarro, álcool, comida ruim e sedentariasmo. Quem sabe um dia nosso planeta não irá sentir a nossa falta? Ou perceber que nós só queremos o melhor para ele? Talvez existam outros planetas por aí que não sejam iguais ao meu. Talvez existam bons planetas. O meu azar foi ter nascido aqui, em um planeta assassino.

Desafio de escrita proposto para Daisy e Jéssica, usando a sugestão de tema do Duelo de Escritores, que é "Condição". Bem, como as meninas postaram primeiro, só faltava o meu. Aí está, espero que gostem. Se mais alguém quiser entrar na brincadeira, basta acompanhar os próximos temas propostos e avisar quando postar. Qualquer dúvida, entre em contato.
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