O Anjo da Morte

Era o primeiro dia na nova classe após a transferência de outra faculdade. Entrou na sala de aula cujo número estava anotado em um pedaço de papel. Sentia-se meio perdido, pois todos pareciam enturmados e com muitos assuntos para colocar em dia.

Percebeu alguns olhares curiosos e cochichos “Quem será ele?” e “Será aluno do matutino?”, nada mais. Apesar da população da sala ir aumentando, com colegas cientes de quais carteiras ocupar, ninguém puxou conversa além duns cumprimentos monossilábicos e desinteressados.

O sinal tocou. Involuntariamente, o fluxo de pessoas atingiu o ápice final e logo depois o professor entrou com aquele sorriso que só os que vêm de um longo período de férias conseguem ostentar. Após uma breve apresentação pessoal e curricular, passou a explicar a grade semestral da matéria.

O novato acompanhava razoavelmente as orientações do mestre, até a hora em que ela entrou. A partir daí não viu mais nada além dela. Não viu que somente ele parou de anotar, de ouvir, de respirar, até de pensar para ficar observando aquela cena divinal que se passava à sua frente. Era para presenciar aquele espetáculo da natureza que ele nascera. A partir daquele momento a sua existência faria sentido. Ao entrar na sala, atrasada, a moça pediu licença e cautelosamente fechou a porta. Um macio "com licença" que ficou ecoando em sua mente ad infinitum, pedindo permissão para também ali entrar, porém nem precisava. Os seus cabelos, os olhos, a boca, as curvas, enfim, tudo nela parecia hipnotizá-lo. Ele poderia assistir a trajetória dela em câmera lenta eternamente, até gastar o rewind da memória, mas como toda trajetória tem um início e um fim, a trajetória da Afrodite terminou na carteira vazia ao lado dele.

Envergonhado pela cara de bobo, fugiu o olhar para baixo, para o caderno sobre a carteira, para a caneta imóvel em sua mão suada, entretanto não conseguiu enxergar nenhuma frase nem pensar em palavra alguma. Só conseguia escutar a ensurdecedora escola de samba que virou o seu coração. O ar tornou-se rarefeito e a ventilação inútil. Como não conseguia ficar sem olhar para a musa ao seu lado, arriscou algumas olhadelas. Em uma destas, a flecha acertou o alvo, ele encontrou os olhos dela fitando-o, todavia ele não se sentiu no papel de flecha. Mais ainda quando ela devolveu-lhe um leve sorriso e voltou a atenção para o quadro-negro. Que fosse um sorriso ordinário de mera boa educação, ou de precaução para com um estranho sentado ao lado que insistia em dar olhadelas, isto não o importava mais, aquele sorriso era seu, fora direcionado para ele e seria a partir de então o seu argumento máximo de que Deus existia. Aquele sorriso seria seu estigma. Significava uma janela aberta para um horizonte de possibilidades.

Entretanto, os seus devaneios foram interrompidos por uma voz alta que vinha da porta, onde um homem parado dizia:

Tem algum Marcolino Ferreira aqui?

Sim, sou eu, respondeu em uma reação automática, e sentiu o rosto corar ao perceber que agora era observado por toda a classe, inclusive por ela.

Marcolino, pegue o seu material e me acompanhe, houve um erro na secretaria, a sua turma não é esta, decretou o fulminante Anjo da Morte, enquanto Marcolino se levantava lentamente sentindo-se expulso do Paraíso, sem ao menos ter provado do fruto proibido.
Escrito em 12/07/2006, em Anápolis/GO.
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