O ilustre desconhecido

Comentavam que aquele era O cara. Visto em cerimoniais, palestras, shows, eventos, casamentos, funerais, homenagens, saraus, premiações e por aí vai. Transitava com desenvoltura em todo tipo de festas, desde as mais finas e requintadas até as consideradas simples e modestas. A grande massa presente aos eventos o via somente poucas vezes, não porque ele tinha faltado a algum evento - o que era impossível, conforme notavam os mais atentos - mas porque nem todos freqüentavam tanto quanto ele as festividades sociais. A sua agenda provavelmente girava exclusivamente em torno disso. Alguns levantaram a hipótese dele ser o dono, ou empregado, de um cerimonial ou buffet. Isso ninguém nunca soube, somente que ele tinha presença confirmada sempre, e sempre era visto conversando com o prefeito, com o capitão, com o governador, fazendo os brindes, dançando com a noiva, saindo nas fotos da debutante, relembrando alguma virtude de alguém que estava sendo homenageado, enfim, entretendo os convidados.

Como boatos são coisas que não faltam em festas, um dos que surgiram certa feita foi o que o viram em uma inauguração de um "puxadinho" num bairro de periferia. Dizem que dançou forró e bebeu até a cerveja esquentar e beijou a mulata mais quente da festa até ela esfriar. Mas boatos vêm e vêm e, como pensamentos, perdem-se rapidamente.

Na high society, era visto ora fumando um charuto entre os homens de negócios importantes, dando e recebendo tapinhas nas costas, ora divertindo as damas com gracejos e anedotas. Havia ainda o comentário surdo de que ele ganhava a vida fazendo conexões necessárias entre as pessoas nas festas: se alguém precisasse de algo e houvesse naquela festa alguém capaz de ajudá-la, ele sabia exatamente quem era e te apresentaria.

Talvez tenha escolhido o anonimato como cartão de visitas e de fato ninguém o conhecia suficientemente bem para lembrar qual era seu nome. Porém, todos apreciavam muito a sua companhia. Agradava diferentes faixas etárias, diferentes sexos, credos, raças e opiniões. Alguns garçons o viam diversas vezes trocando beijos com uma ou outra moça em cantos obscuros ou próximo às piscinas. Ele também conhecia jogos e brincadeiras das mais interessantes que faziam as crianças o idolatrarem fascinadas.

O que ninguém via, aquilo que não aparecia nas festas, nos eventos, nos cerimoniais, casamentos, velórios, chás de bebês, era que no final da festa, quando tudo acabara e todos já haviam ido embora para as suas casas, ele saía da cozinha com um embrulho contendo restos generosos do buffet e se dirigia solitário assobiando uma música qualquer do Roberto Carlos até o ponto de ônibus mais próximo.

Parecia feliz não somente quando era o centro das atenções, mas também quando estava inteiramente só.
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